História Os filhos de Arethusa - Capítulo 2


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Categorias Percy Jackson & os Olimpianos
Tags Eric
Visualizações 3
Palavras 4.721
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Spoilers, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


É IMENSA ESSA HISTÓRIA SOCORRO

Capítulo 2 - Draco dormiens nunquam titillandus


Shakuras não tirou os olhos de Nova nem mesmo por um instante, captando cada sinal de expressão dela. Ele não conhecia a história da xuxinha, mas entendia que o vestuário de Nova não incluía caveiras com tanta frequência. Alias, tinha uma ideia de quem tinha dado aquele presente. Nunca teve coragem de se perguntar que tipo de relacionamento Mordred e Nova tinham e fazia de tudo para não se importar com isso. Nova era sua amiga, tinha de desejar seu bem acima de tudo. Respirou fundo, seguindo-a para dentro de casa.

Ele teve o rompante de recuar assim que entrou e olhou para a esquerda. Havia o corpo de uma mulher no chão, largado. Poderia parecer drogada e dormindo, mas não era verdade. Tinha sangue seco em seu nariz e um pouco mais saindo de seu pescoço. Ela usava um vestido azul com moscas amarelas como estampa, o que era uma escolha bem estranha. O zipper estava era visível no vestido.

Uma parede a direita tinha uma bancada com um quadro, daqueles de colocar tacinhas no papel. Tinha dois papeis no quadro. Abaixo deste, um charuto aceso. Ele não tinha sido tragado, só deixado ali, aceso. Shakuras não se aproximou nem do corpo nem daquela parede. Preferiu continuar a explorar o quarto, uma parede a direita.

Naquela outra encontrou um armário com uma estante cheia de livros arrumados na vertical. Todos os livros carregavam um símbolo de um deus do panteão romano. Abaixo da estante, ainda no armário, um aquário redondo com dois peixinhos a nadar ali dentro. Do lado deles, uma faca e uma tábua de carne. Abaixo deles, três gavetas. Uma delas tinha uma entrada para uma chave.

Mais uma a direita e a sala quadrada acabava, com a porta. Porta que, ao se fechar sozinha, sumiu. Shakuras engoliu a seco e avançou nela, dando um chute onde a porta estaria. O som foi de uma parede qualquer.

Encontrar o corpo a chocou. Não esperava ver aquele tipo de coisa em Nova Roma, mas talvez sua existência explicasse aquela aventura secreta de Mordred, talvez o rapaz estivesse em uma missão solo - que não deveria ser solo - para protegê-los. O idiota.

Abaixou-se junto ao corpo e examinou-o. Pelo estado estimava que a menina fora morta havia poucas horas, ocupou-se em verificar o ferimento no pescoço. O que a matara? Um corte? Um tiro ou algo mais sinistro? 

E que raio de vestido era aquele?

Após examinar o corpo ergueu-se e foi ver o que os papéis no quadro diziam. Estranhava a presença do charuto, mas imaginava que devia haver um motivo para ele estar lá. Ouviu o som seco do chute de Shaka e virou-se para o rapaz.

-- O que está fazendo? -- Ergueu uma sobrancelha

O corpo, ela percebeu, estava com algo mexendo dentro da boca. Ao abrir, viu que era uma barata, que saiu correndo e se escondeu em baixo do armário. Dentro do vestido da mulher, logo ao abrir o zipper, havia uma outra folha de papel com uma tachinha enfiada na carne dela.

Eram três papéis. Um tinha desenhado uma roda, o outro tinha desenhado um olho e o terceiro, tirado da mulher, tinha uma folha de louro.

Shakuras chutou de novo, ouvindo o som de parede maciça mais uma vez.

-- ... Ouvindo. Tá ouvindo? -- E ele bateu de novo na parede. O som era muito abafado. A propósito, abafado demais. Ela não ouvia som nenhum de lugar algum. Nada dos barulhos noturnos de Nova Roma.

-- Não, na verdade... Mas deveria. É estranho. -- Comentou aproximando-se do rapaz e mostrando o que havia encontrado -- Um deles estava no corpo os outros dois no quadro. Acho que Mordred está em algum tipo de missão para o acampamento.

Shakuras se voltou de novo para o corpo involuntariamente quando o assunto ele se tornou. Arqueou as sobrancelhas com nojo. Como ela, ele via que a mulher tinha recebido um tiro na lateral da garganta. O tipo que não matava imediatamente, mas que fazia sangrar como uma porca até a morte. E não havia tanto sangue assim. O furo, alias, tinha sido feito quando ela estava deitada, naquela mesma posição, com uma bala abaixo do pescoço, enfiada no chão.

Depois olhou para o quadro.

-- Roda, olho, folha de louro. O que isso quer dizer? 

Deu dois passos para trás, encostando-se onde era a porta. Antes de tocar na parede, se bateu com algo que não estava lá antes. No susto, pulou para longe e viu um estranho projetor de imagens, daquele que recebe fotos em forma de filme. Shakuras ergueu uma sobrancelha.

-- ... sinistro. Mas isso quer dizer que tem um filme aqui em algum lugar.

-- Eu não faço ideia e por que alguém atiraria para não matar em um lugar tão específico? E o charuto? Por que foi aceso? 

Tinham perguntas demais e poucas respostas. Talvez o projetor trouxesse alguma luz sobre o assunto.

-- Vamos procurar. -- E começou a rodar pelo local atrás do rolo de filme.

Os únicos lugares disponíveis eram as gavetas. A tábua de carne foi olhada e se foi usada, foi bem pouco. O aquário, não queriam revirar porque Shakuras ouvia os peixes falando que estavam com dor de barriga, e não era bom incomodá-los mais. Nas gavetas, Nova encontrou algo que parecia ser uma pasta. Na pasta tinha uma ficha dos peixes em questão. Era uma raríssima japonesa raça de estimação de Netuno, que ele tinha tirado das águas japonesas antes de serem exploradas por serem capaz de comer qualquer coisa, mas nem sempre digerí-las.

Shakuras mexia na máquina, tentando descobrir como que ligava ela.

-- Shaka...

Nova chamou com o cenho franzido

-- Acho que já sei aonde nosso filme - ou alguma coisa - foi parar. Você disse que os peixes estão com dor de barriga, certo?

Mostra as fichas para o rapaz.

-- Consegue perguntar a eles o que comeram? Se conseguirem descrever ao menos saberemos se foi o filme.

Shakuras ficou confuso mas não perguntou. Começou a fazer sons de bolhas engraçados que eram sempre constrangedores, mas ele não parecia constranger-se com isso. Fazia tranquilamente, e era tão bobo que fazia ele parecer um menino na frente de Nova. Quando acabou, puxou o cabelo para atrás da orelha, tirando o chapéu.

-- Disse que tinha gosto de sangue e que jogaram aqui, ele achou que era um pedaço de carne.

Tinha um corpo bem ali e queria rir achando bonitinho a comunicação de Shaka com os peixes. Desviou o olhar e mordeu o lábio inferior tentando ficar séria. 

-- Gosto de sangue? Não deve ter sido o filme então.  -- Voltou a ficar séria e olhou para o corpo da menina, se ajoelhando diante dela. -- Isso tudo é tão estranho.... E aonde foi Mordred? Ele entrou aqui, nós vimos, como desapareceu?

Shakuras continuou quieto, arqueando as sobrancelhas. Olhou para os livros e depois para os peixes de novo. Para o corpo e para o sangue por fim. Rangeu os dentes de nojo.

-- ... alguém derrubou ela, asfixiou ou envenenou. Desceu sangue de menos, já não corria pelo corpo. O furo foi para tirar algo da garganta. Algo melado de sangue... que deram para os peixes... -- Suspirou. Parecia estar decepcionado com sua descoberta. -- Não estamos num lugar real. Nada aqui faz sentido. É... um tantibus. Uma espécie de senha que deve ser feita dentro do pesadelo de uma pessoa, com coisas extremamente pessoais. Provavelmente estamos num tantibus de Mordred. Isso tudo deve fazer muito sentido para ele.

Nova olhou para o rapaz impressionada e então abriu um sorriso.

-- Acho que Mordred não é o gênio do grupo, afinal... -- Comentou rindo e beijou a bochecha de Shaka, mais resoluta do que antes. Shakuras não conseguia entender a parabenização, mas aceitou. -- Muito bom! Como encontramos Mordred aqui? 

"E por que isso faz sentido para Mordred? Quem é esta garota? O que havia dentro dela? Por que dar aos peixes e esse vestido? E o charuto?" -- Pensava Nova

Shakuras tentava esconder o orgulho próprio que ela acabou de causar com um beijinho e uma frase, expressando-se com apenas um sorriso contido. Olhou para o charuto lendo parte de suas conjecturações.

-- Tudo são símbolos. Em algum momento, um retroprojetor significou algo e significa o mesmo agora. O charuto aceso provavelmente foi usado em um momento para significar algo... 

Tudo sobre charuto e retroprojetores que Nova conseguia se lembrar era que Mordred teve parte de sua infância com sua mãe adotiva, que fumava charutos. Uma vez ele levou ela num cinema e ligou o retroprojetor. Ela assistia um filme enquanto ele ficou acidentalmente trancado na sala de projeção. Um homem o achou lá dentro e tentou surrá-lo, mas ele escreveu na lente SOS, já que a sala de projeção era a prova de som. Quando ela entrou na sala, ele correu até ela, pegou na mochila dela uma arma e atirou contra o homem no peito várias vezes, e então correram para longe enquanto os créditos do filme passava.

-- Eu... Me lembro disso. Quer dizer... Parte disso. O projetor, o charuto, sei o que são... E as paredes tão grossas... Deve ter alguma sala aqui na qual Mordred está trancado.

Shaka negou com a cabeça.

-- Ele está aqui, conosco, resolvendo o problema com muita facilidade. Ou já resolveu e já foi. Esse dilema foi feito para ele resolver, mas entramos enquanto ele estava, por isso estamos no dilema dele. Temos que resolver como ele resolveria.

-- Isso é um teste para Mordred? --Coça a cabeça. Não era exatamente burra, só não tinha um intelecto tão superior quanto ao do rapaz. -- Precisamos descobrir o que tiraram do corpo da moça, então.

Shakuras, quase certo de que era o que era certo a se fazer, apontou para o peixe, e em seguida para a tábua de carne.

-- Você quer que... -- Olhou penalizada para o peixinho e então para Shaka com cara de pena e " tem certeza?"

Shaka suspirou enquanto olhava para a tábua de carne. Provavelmente aquilo era assassinato para ele, mas ele pegou o peixe do aquário sem dizer nenhuma palavra, e o colocou em cima da tábua. Certamente ele estava ouvindo o peixe implorar por sua vida, e mesmo assim pegou a faca com a mão esquerda, respirando fundo para tomar coragem.

Filhos de Netuno se davam bem com criaturas marinhas eram ouvidos e respeitados por ela. Não conseguia imaginar o quão ruim aquilo devia ser para Shaka, mas não o deixaria fazer sozinho, afinal... Não era real, nada daquilo.

Com um suspiro, posicionou-se atrás do rapaz. Os corpos levemente colados. Segurou a mão na qual Shaka mantinha a faca e sussurrou.

-- Faremos juntos...

Shaka arregalou os olhos com o contato surpresa, mas logo cerrou-os novamente, cerrando também os dentes. Sentia que ia começar a lacrimejar, então desceu logo a faca de uma vez com Nova a ajudá-lo. Fungou fundo antes de abrir os olhos. Como ambos podiam ver, tinham cortado fundo o suficiente para mostrar a chave para o lado de fora.

 Ao mesmo tempo, Shakuras olhou para o peixe boquiaberto. Seus olhos marejavam, e estava claro que ele se esforçava pra ser forte.

-- ... Nova, o Borol está tranquilamente pedindo para ser cortado como o irmão.

Aquela fora uma das coisas mais desagradáveis que já fizera e não queria ter de repetir, mas entendia agora. Aquilo lembrou algo sobre Mordred. Algo como uma memória que a sala estava forçando contra ela. Talvez devesse ser natural para Mordred pensar nisso.

Mordred uma vez tinha matado uma harpia logo depois de matar sua irmã, para que nenhuma sofresse pela outra.

-- Você lembra? Das Harpias... É como Mordred pensa. Precisamos fazer é o que ele faria.

Shakuras arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos, incrédulo.

-- ... pra que matar o outro peixe? Já temos a chave. 

E revoltado, enfiou a chave na gaveta. Dela, arrancou uma caixinha com duas fotos em filme.

-- Viu? Não precisamos matar o peixe, deixa o peixe ai.

-- Se não o matarmos, ele sofrerá aqui sozinho. É isso o que quer? -- Perguntou duramente. -- Você disse que Mordred faria isso, então precisamos. Eu farei, apenas... Não olhe.

Shakuras resmungou violentamente sobre algo, mas preferiu não compartilhar com ela. Antes que ela pudesse cortar o peixe, o retroprojetor ligou e Shaka colocou uma das fotos. Ela ainda estava respirando fundo para se acostumar com o segundo assassinato, pois sentia nas suas costas Shakuras a ouvir o que o peixe dizia. Ele colocou a segunda fita, e então ela cortou.

Nada aconteceu. E não tinha nada de interessante no peixe. Ela se virou, então para trás.

Sua espinha gelou, um frio preencheu sua barriga. No lugar do corpo da mulher deitada tinha uma poça vazia de sangue, sem dona. A mulher tinha desaparecido e Shaka, de costas, estava alheio ao acontecimento. Nova pensou em avisá-lo, mas então enxergou onde ela estava. Estava em baixo da mesa do retroprojetor, encolhida. Seus olhos estavam brilhando como os de um animal, iluminado por um farol. Ambos focavam nela com selvageria mal contida, um rancor imenso. Seus joelhos estavam para cima e seu corpo estava contorcido de forma dolorosa de olhar, animalesca. Na mão ela tinha um revólver apontado para a barriga de Shaka.

Shakuras continuava olhando para o retroprojetor, mexendo nele alheio e inocentemente.

Matar o segundo peixinho foi tão desagradável quanto matar o primeiro e desejou que Mordred fosse menos fúnebre, mas o que se havia de fazer? Ele era, afinal, filho de Plutão.

Virou-se a fim de se livrar da cena de seu assassinato e sentiu um grito ficar preso em sua garganta. O corpo desaparecera. Voltou-se para avisar ao rapaz mexendo no retroprojetor e o coração parou ao ver a garota. A cena que nunca vira reproduzira-se em sua mente, o pequeno Mordred com a arma na mão olhando assustado para o homem que o atacara. 

Mas aquele não era um homem qualquer que seria morto, era Shaka e a perspectiva de vê-lo em dor era-lhe tão terrível que antes que pudesse se conter colocou-se entre ele e a mocinha com a arma. O que deveria fazer? Conversar com ela? Será que a escutaria? Era um corpo, afinal.

-- Hey... Está tudo bem, ninguém irá machucá-la. -- Tentou

O movimento foi brusco o suficiente para invocar o olhar mais assustado e bestial que uma mulher encolhida poderia ter. O cão foi puxado para trás pelo polegar dela. Inesperada, impetuosa e inexpressivamente puxou o gatilho. Nova conseguiu ouvir o som do tiro antes de sentir sua carne perfurada pela bala. Ela caiu no chão, sangrando. Shakuras continuou mexendo no retroprojetor enquanto Nova cuspia sangue, sem ter dado nem mesmo um olhar para ela. A moça pegou a faca e esfaqueou enquanto atirava repetidas vezes, até a consciência de Nova evanescer.

Nova se assustou, tremendo os ombros. Estava de novo diante da tábua de carne. O peixe estava olhando para ela do aquário, pedindo novamente para ser cortado. Shakuras ainda mexia no retroprojetor, tentando ligar a máquina, sombrio com a decisão de Nova de matar o peixe ainda.

Como se ela tivesse voltado no tempo.

Foi como acordar após um sonho muito ruim, mas ao menos estava viva. Sentiu as mãos tremerem. Estar perto da morte era uma coisa, morrer sozinha e sem conseguir reagir era outra. 

-- NÃO! -- Exclamou segurando as mãos de Shaka, ainda trêmula.

Shakuras de um pulo e gritou de volta. Até queria dar um berro nela para saber o que diabos ela estava fazendo, mas a expressão dela pedia por uma resposta diferente.

-- ... Que foi...?

Desviou o olhar, hesitante em contar algo que sabia a respeito de Mordred. Algo tão sério e íntimo. Verdade que era Shaka e eram todos amigos, mas ainda... Mordred era tão fechado, que sentiu que, de certa forma, o trairia se dissesse algo.

-- Eu não sei o que é, se a morte do peixe ou mexer no retroprojetor, mas o corpo do moça vai se mexer, ir para debaixo daquela mesa. --Apontou -- Com uma arma e uma faca. Ela irá atacar se fizermos movimentos bruscos e não sei como pará-la.

Ele seguia com os olhos tudo que Nova apontava. Levou dois suspiros para absorver todas aquelas informações e tirar de sua cabeça o desejo de duvidar, já que ele mesmo não tinha visto nada. Não teve dificuldades quando via Nova tão perturbada. Para ambos... o corpo parecia menos morto agora. Mais agressivo.

-- Ação-consequência. Fizemos algo que acordou o... corpo. Não liguei o retroprojetor ainda, e você não matou o peixe. Um dos dois.

-- Uma coisa de cada vez. Vou matar o peixe primeiro e então ligamos o retroprojetor. 

Para ser sincera, acreditava que o segredo estivesse na máquina, afinal a cena estava relacionada a ida ao cinema, porém, era válido duvidar do peixe, uma vez que matá-lo talvez marcasse o fim do episódio da harpia e desse abertura para o início de outra fase. Como em um videogame.

Ele fez dois gestos de uma vez. Ergueu as mãos como quem diz que não sabe e deu de ombros.

-- ... como...? -- E já foi colocando a mão no retroprojetor.

Como era de se esperar, no voltar do tempo, voltavam as informações. Ela não esperava que ele soubesse o que faria, ou fez. Questão de perspectiva.

Fuçaram todo o retroprojetor e não encontraram nenhum botão, nem nada do tipo.

-- ... caramba. Eu liguei mesmo?

- Sim.

Respondeu rindo um pouco, por algum motivo achava engraçado Shaka se enrolar com algo que já havia feito.

-- Achei que fosse fácil, você ligou rápido. Voltar no tempo o deixou burro.

Provoca rindo um pouco mais.

Ele arqueou a sobrancelha, fazendo birra. Não conseguiam tirar os olhos do corpo, nem impedir-se de ver movimentos no corpo onde não havia. Procurou ainda mais o botão do retroprojetor, mas nada de encontrar. Nova caçoou mais e foi sua vez de procurar. Ela também não encontrou nada.

-- ... viu? Não fui eu quem liguei, deve ter ligado sozinho.

Nova franziu o cenho.

-- Acho que tenho uma ideia. Acho que funciona como fases em um videogame. O retroprojetor só vai funcionar depois que matarmos o peixe, porque é o que Mordred faria.

-- E libertar a... moça? 

Ele falava como se estivesse com medo de ofender alguém que não só estava morto como nem era real. Fazia parte de um pesadelo.

- Sim, libertar a moça, claro. Eu só não sei como Mordred faria isso. Eu lembro de como ele ME salvou, ele... Se colocou na minha frente quando o Minotauro me atacou.

Os neurônios pareciam torrar. Shakuras era um poço de desconforto.

-- Ela veio para debaixo da mesa. Isso tem de significar algo. Vou ficar longe do retroprojetor dessa vez, ok? -- Sugeriu, ainda que não fizesse sentido.

-- Quem é essa menina. Esse vestido, ela morta... Eu sei que nessa parte ela representa Mordred, mas... Isso deve ter algo a ver com quem ela é. 

Pega o peixe no aquário e o leva até a tábua de carne. Aquilo era tão desconfortável quanto fora da primeira vez, mas cortou-o assim mesmo.

-- Eu vou mexer no projetor e você fica de olho.

-- NOVA! 

Gritou ele antes de ela cortar, impedindo-a de descer a faca. Olhando para trás, o retroprojetor estava ligado. Shakuras já estava revoltado com aquela lógica.

-- ... que porra está acontecendo na cabeça do Mordred?!?

Deu um pulo sem sair do lugar e olhou surpresa para Shaka e então para o retroprojetor.

-- Mordred tem um padrão. Ele faz coisas que só têm sentido para ele mesmo a princípio e o resto do mundo só entende no final e mesmo assim é preciso conhecê-lo, para entender direito. É como ele funciona. Corto ou não corto o peixe?

-- Não. Devolva-o para a água. O que você me disse me deu uma ideia. 

Assim que o peixe tocou a água, o retroprojetor desligou. Shakuras colocou uma mão no queixo e a outra no cotovelo, pensativamente.

-- Tudo é estranho, para um fim que desejamos. Ok. Vamos ignorar a lógica comum e seguir a do Mordred. O peixe quando fora da água liga o retroprojetor, e quando morto acorda. Como eu reagi ao ver a moça... viva?

-- Você não reagiu. Ela me matou e você continuou mexendo no retroprojetor, mas ela estava apontando a arma para você antes.

Sentiu o rosto corar e torceu para Shaka não ligar os pontos.

Ele cerrou os olhos.

-- Ela apontava para mim e te matou? Ah, antes, depois mirou em você. 

E assentiu lentamente.

-- E... o que fez para ela virar a arma pra você?

Suspira e solta os ombros.

-- Eu surtei e entrei na sua frente, ok? Achei que ela fosse atirar.

Ele abriu a boca e corou. Sua boca ficou pateticamente aberta por um tempo. Quando conseguiu tirar os olhos dela, disse:

-- ... você morreu por mim?

Ela cruzou os braços, desviou o olhar e assentiu.

-- Eu não queria te ver ferido...

Shakuras atravessou todo o cubo para chegar nela e lhe apertar com um abraço, contra o armário. Ficou mudo e a abraçando.

Nova piscou, confusa, e permaneceu a fitá-lo parecendo um tanto surpresa e sem jeito.

-- Uh... De nada?

Tentou sem graça.

Beijou a bochecha dela e tomou dois passos de distância, na direção do retroprojetor.

-- Pode ligar, Nova. Vamos testar os filmes.

-- Fique de olho para... Você sabe... O corpo. -- Avisou enquanto pigarreava e ia em direção ao retroprojetor. Algo estranho acabara de acontecer e não sabia o que pensar. Só sabia que seu coração estava batendo muito mais rápido do que deveria.

Ele classificou por medo o seu próprio coração estar acelerado. E classificou aquele descompasso como medo. Quando ela tirou o peixe, o corpo se puxou para cima imediatamente, ficando pendurado de ponta-cabeça. Parecia, no entanto, inanimado ainda. Claro que ambos se assustaram, mas conforme esperavam algo, perceberam que o corpo não reagiu. Ele audaciou colocar um filme, e nada aconteceu, exceto pela imagem aparecer uma parede. Um homem em cima de uma biga vestindo trajes romanos. Toga e louros.

O segundo filme tinha uma imagem com números sortidos e espalhados na tela. Depois dos dois, o filme estalava repetidamente e inutilmente no retroprojetor, sendo o único barulho da sala.

-- Será que isso é o que Mordred quer ter ou destruir? 

Perguntou em relação ao primeiro filme. Quanto ao segundo, apenas cruzou os braços tentando reconhecer os números. Seu aniversário? O de Shaka? O de Mordred? Algum festival romano?

Shakuras continuou olhando para os números, já que para ele, o quadro era fácil de decorar. Ele também olhou para todo o quarto, mas parecia evitar olhar no corpo. Depois de minutos contemplativos, apontou para o quadro.

-- I- Roda, II- Olho, III- Louros. 

Trocou o filme, mostrando o quadro. Tinha os três elementos. Ele marcou o lugar dos três e trocou o filme de volta para os números. No lugar da roda tinha um 4, no lugar do olho um 6 e no lugar dos louros um 9.

-- ... "469", é o que ele quer ter ou destruir. Sabe de algo em que o retroprojetor mostrava? A moça que representa Mordred se escondeu em baixo do retroprojetor enquanto ele funcionava. Por que? O que passava quando ele estava se escondendo?

-- Não importa, ele não estava se escondendo do filme era só a típica bobagem que vocês chamam de "para meninas" e Mordred me levou para ver...

Um leve sorriso se abriu nos lábios dela, lembrando do dia, mas o sorriso logo se transformou em preocupação extra. Precisava achar Mordred.

-- Ele gosta de segredos dentro de segredos... -- Ela murmurou.

-- E se 469 forem apenas pontos? Se ligarmos um número ao outro talvez forme uma letra ou algo assim...

Assentindo, Shakuras ligou os pontos. Aparentemente, formavam um triângulo. Quase um L, mas muito deformado para sê-lo. Ele também olhou para os números dentro do triângulo.

-- 23, 44, 17, 61 e 66. Algum significado para você? 

-- Não! -- Exclama com um suspiro pesado e frustrado. Mesmo que Nova se esforçasse, tudo aquilo soava aleatório.

-- ... coordenadas? Mesmo misturando todas as coordenadas não dá nenhum lugar relevante. Mesmo tentando decodificar nos códigos comuns, nada. Acho... que estamos deixando passar alguma coisa. 

Pontilhou os números dentro do triângulo. Eles formavam um L com um ângulo mais aberto, deitado, com a parte de baixo voltada para baixo. Isso... ou uma arma. Tinha o tamanho e proporções da pistola favorita de Mordred.

Ela se lembrava disso porque os mortos que foram assassinados por armas de fogo davam essas armas para ele quando ele os mandava para o Hades, convencendo-os a abandonar ou completando suas vinganças.

-- Eu sei o que isso é!

Exclamou um pouco mais animada. Finalmente algo que fizesse sentido.

-- É uma Taurus .45. A pistola favorita de Mordred... Espera! A garota! Quando acorda, ela tem uma arma!

Shakuras arqueou as sobrancelhas. E depois as ergueu, entendendo.

-- Ela deve pegar a arma no filme! 

E correu para o filme. Mergulhou a mão no retroprojetor e dela tirou uma Taurus .45, a favorita de Mordred.

-- O que quer dizer... que ela pode ser acordada que estará desarmada.

*Assentiu, foi até o aquário pegou o segundo peixe e, fechando os olhos o cortou*

Nova começou a ouvir um choro. Era um criança jogada nos prantos como fazia qualquer criança longe de casa, mas diferentemente das outras crianças, aquela chorava com o olhar sombrio e entupido de orgulho, olhando feio para Nova.

Era um pequeno Mordred debaixo do retroprojetor.

Nova começou a ouvir um choro. Era um criança jogada nos prantos como fazia qualquer criança longe de casa, mas diferentemente das outras crianças, aquela chorava com o olhar sombrio e entupido de orgulho, olhando feio para Nova.

Era um pequeno Mordred debaixo do retroprojetor.
Não conseguiu evitar sorrir. Mesmo "sombrio" e emburrado, Mordred era tão bonitinho quando pequeno. Tinha a impressão de que sabia lidar com aquilo. O orgulhoso Mordred não aceitaria condescendência ou carinho de uma "estranha". 

-- Por que chora, rapaz?

Perguntou séria, tratando-o como um jovem crescido. Mordred nunca gostara de ser tratado como criança e era justo. Nunca tiveram a chance de ter uma infância decente.

Mordred fungou, ainda abraçando seus joelhos. Limpou as lágrimas de seus olhos e apontou para a arma dele.

-- ... ele me roubou a arma. 

Shakuras olhou para ela com o canto do olho.

-- Você se transforma numa monstra quando está armado.

Mordred, calado, estendeu a mão para pegar a arma.

Assim que ele pegou na arma tornou-se a mulher de novo e disparou uma dezena de tiros contra Nova. Quando tornou a respirar, estava com a faca erguida e o peixe em cima da tábua. Shakuras ainda apontava para baixo do retroprojetor.

-- ARGH -- Bufou e balançou a cabeça, com a respiração ofegante de quem tinha visto algo horrível. E tinha. -- Já sei o que fazer. --Disse soturna.

Sozinha, Nova refez todos os passos anteriores. O Retroprojetor, os quadros, as fotos. Por fim puxou a Taurus de um dos quadros. Entregou-a para Shaka, pegou o peixe, cortou-o na tábua de carne e ficou esperando pelo pequeno Mordred.

Shakuras ficou de olhos arregalados. O pequeno Mordred ficou acuado em baixo da mesa, agora sem dizer nada, com um dedo apontado para a arma. Ela abriu um sorriso forçado para o pequeno. Tomou a arma de Shaka e atirou na testa do jovem Mordred, sentindo o coração partir.

A arma estourou na mão dela quando o rapaz ganhou um furo na testa. Ela não estava ferida pela explosão.

Mordred ficou ali, de boca aberta, sem sangrar. Levou algum tempo para que ele começasse a reagir. De sua testa saiu o espírito da mulher envolto em fumaça negra, gritando e sofrendo. Quando o espírito se desfez assim fez a sala, deixando-os numa sala vazia com duas portas. Uma por onde vieram e a outra,que não sabiam o que tinha depois.

-- Vamos...

Murmurou trêmula. Abalada por ter atirado em alguém que amava. Seguiu para a porta misteriosa.



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