História Os Filhos do Rei - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Oieeee! Eu volteeeeeei. Cinco anos depois? Foi dsknfksndf. Mentira, alguns meses.

Pra quem não sabe (já que eu avisei nas respostas dos comentários sfsdkmlfs), eu estou reescrevendo essa fanfic. Não é nada muuuito drástico, não se preocupem. Só queria que algumas partes da história ficassem mais "certas". Mesmo assim, vocês não tem noção de quantas vezes eu arrumei o capítulo, pensando sempre que não estava bom o suficiente. Eu já estava no 4 e voltei pra arrumar de novo K. Ainda é provável que eu arrume com ele postado K, mas ESTOU DE VOLTA DE TODO JEITO E NÃO VOU EXCLUIR DE NOVO.

Eu tinha dito que ia atualizar todos os dez, depois postar o 11 e só nele dizer que tinha mudado, MAS achei que não era uma boa ideia, porque não iriam saber que a fic está "na ativa", então aqui estou. Printei todos os comentários, inclusive, porque não poderia perder tantas palavrinhas maravilhosas que diversas vezes fizeram meus dias <3



O que mudei?

- Personagens. Eu sumi com alguns e mudei a função de outros. Um exemplo é o Hoseok, que era "camareiro" do Jeongguk e agora é o protetor do Yoongi.

- Eu vou colocar no final alguma coisa em primeira pessoa das personagens. Algo sobre os sentimentos e tal. Por quê? Porque uma leitora pediu algo em primeira pessoa e, embora eu não vá fazer um capítulo desse ponto de vista, como expliquei para ela, tive que

- Não teremos mais câmeras, armas de fogo e essas coisas. Como um universo alternativo, ele não estará se passando nem no "presente", nem no "futuro", nem no "passado". É misturado. Quem pesquisar vai ver que, por exemplo, armas de fogo foram criadas bem antes dos dirigíveis, mas aqui não teremos armas, mesmo existindo dirigíveis, entendem? Assim como o comportamento das personagens, questão de roupas, costumes... Já era misturado (como ter o costume de casamentos arranjados, mesmo que velados), mas agora ficou um pouco mais ???

Espero MESMO que gostem. Eu estou reescrevendo essa história principalmente porque quero que a versão que chegue a vocês seja a melhor possível.

Capítulo 1 - Quando amar dói (REESCRITO)


Fanfic / Fanfiction Os Filhos do Rei - Capítulo 1 - Quando amar dói (REESCRITO)

Depois de trinta horas de viagem dentro de um dirigível — com, é claro, algumas poucas paradas durante o caminho —, tudo o que o príncipe queria era deitar e dormir até o mundo acabar. No entanto, mal havia pisado em seu quarto e já fora recepcionado com roupas desconfortáveis, discursos preparados, lembretes de etiqueta e um monte de coisas que o faziam querer morrer.  Aquela confusão toda desorientava-o. Esforçava-se para se concentrar em não cair enquanto o estilista real, Taehyung, ajeitava seus trajes.

Era 1° de setembro, o aniversário de um dos príncipes do reino de Garean, Jeongguk, ele mesmo, e a verdade era que, se pudesse, estaria do outro lado do planeta, em outro continente. Não gostava de seus aniversários e não queria estar ali. 

Além disso, estava muito mais do que exausto, porém, também sabia que era sua culpa por ter enrolado tanto para voltar, arrumando dezenas de compromissos irrelevantes apenas para adiar o inevitável. Sabia que tinha sido estúpido e agora estava sofrendo as consequências disso. 

E, bem, ele não estava sofrendo sozinho. Jimin, seu protetor, que estava bem ao seu lado, tinha a cara fechada, deixando mais do que claro o seu mau humor. Jimin sempre viajava com ele — fosse uma viagem exclusiva do Segundo Príncipe, como aquela, ou uma em conjunto com outros membros da Família Real —, pois o nome de sua função, protetor, não era por nada; tampouco esta era algo irrelevante. 

Jeongguk era o segundo na linha de sucessão ao trono, afinal — pelo menos até seu irmão mais velho ter filhos, o que não parecia perto de acontecer —, e definitivamente era importante. Contudo, ele também detinha o título de seu melhor amigo, fazendo com que Jimin não estivesse exatamente preocupado em esconder como se sentia. 

— Quando foi a última vez que dormiu de verdade? — Repentinamente, Taehyung perguntou.

Jeongguk o olhou confuso, demorando certo tempo para processar a pergunta ao ponto de conseguir entendê-la. Então, ao perceber a expressão séria do estilista, estalou a língua e respondeu:

— Esta é uma ótima pergunta. Não me lembro, Tae.

— Dois dias atrás. — Jimin se intrometeu, chamando a atenção de ambos para si. — E sei disso porque foi a mesma merda para mim — disse ácido.

Jeongguk revirou os olhos, desviando-os para um ponto qualquer. Achava Jimin insuportável com sono e não estava com humor para lidar com ele naquele momento. Aliás, não estava com humor para nada, porque também não ficava muito legal com sono.

— Você ainda dormiu quando chegou, portanto, mantenha-se quieto — retrucou ainda sem fitar o amigo.

— Não precisaria ter dormido tão pouco se uma lesma não tivesse se apossado de você nessa viagem. Poderíamos ter chegado pelo menos um dia antes…

— Não me venha com ingratidão. Dormiu pouco, porém dormiu, e em uma cama bastante confortável. — Jeongguk praticamente fuzilou Jimin com o olhar. Deu um passo à frente, livrando-se das mãos do estilista. — Eu dormi somente no dirigível, dois dias atrás. Então cale… a… boca — falou pausadamente, o rosto tão frio que mal dava pra se imaginar como seu interior queimava em irritação. 

Jimin bufou e se virou, ficando de frente ao príncipe. A diferença de altura não o intimidava nem um pouco, tampouco a postura imponente do outro, muito menos os títulos que Jeongguk carregava.

— E de quem foi a culpa por isso? Você poderia ter descansado nem que por alguns minutos, mas, não, preferiu sair o mais tarde possível. Pra quê?! Parecia que não queria voltar!

 O corpo do soldado vibrava de raiva. Jeongguk, no entanto, congelou com a última frase, a raiva desaparecendo e dando lugar a sentimentos que estavam tornando-se muito mais corriqueiros do que queria. Medo e culpa.

Mordeu o lábio inferior, pensando no exato motivo pelo qual quisera adiar sua volta ao máximo, tendo saído da capital de Norta, Balaço, no último minuto possível, apenas porque sabia que, se não retornasse a tempo de sua festa, seria um homem morto. 

Não conseguiu mais sustentar o olhar do soldado. Não podia dizer. Nunca. Para ninguém.

Taehyung e Jimin se entreolharam, demonstrando mútua confusão com a falta de resposta. O soldado sentiu a raiva diminuir, apesar de não desaparecer.

— Jeongguk, o que aconteceu?

Jeongguk fitou o rosto de Jimin, encontrando confusão, raiva, frustração e preocupação. Seu coração estava acelerado. Não era acostumado a esconder coisas do mais velho, mas aquilo era simplesmente impronunciável. 

Voltou a desviar os olhos, ainda com o lábio inferior entre os dentes, e preparou-se para falar qualquer coisa que de alguma forma o deixaria satisfeito. No entanto, não teve a oportunidade.

 A porta foi bruscamente aberta, atraindo os olhares de todos no recinto. Antes que ele visse quem era, viu cada um dos indivíduos mais próximos da porta ajeitarem a postura.

Não… Ela não...

O ar pesou quando a mulher entrou trajando um impecável vestido vermelho. Era longo, bordado com joias desde as mangas longas até pouco abaixo da cintura, acabando em uma saia lisa. Aliado ao rosto angelical da rainha, seus cabelos lisos presos em um coque e a maquiagem natural, a mulher estava de tirar o fôlego.

Muitos se perguntavam como ela podia ter quase cinquenta anos. Giulia era uma rainha mais do que bela e imponente, mesmo sem sua coroa.

Jeongguk piscou. Seu estômago parecia cada vez mais embrulhado à medida que sua mãe ficava mais próxima. Ele não a queria ali. O cansaço tornava sua mente confusa, prejudicada, fazendo com que conter seus sentimentos fosse praticamente impossível. Medo e raiva formaram uma mistura potencialmente perigosa em seu peito, e ele só pediu silenciosamente para que fosse rápido.

A mãe o analisou dos pés a cabeça, demorando-se um tanto a mais em seu rosto, e deu um sorriso. O príncipe colocou todo o seu esforço em uma retribuição que facilmente se passava por uma verdadeira, exceto por não alcançar seus olhos. Então, reverenciou sua rainha, ocultando cada sentimento ruim da maneira que pôde. Porém, suas emoções se intensificaram quando a mãe franziu o cenho e virou-se aos criados, dizendo:

— Vejo olheiras. A roupa está perfeita, o cabelo razoável, entretanto, estas olheiras… — Ela o encarou de maneira penosa. — fazem-no parecer um morto vivo. Tem que dormir melhor, meu filho. É inadmissível que corra o risco de passar uma imagem aquém da perfeição. 

Jimin segurou seu pulso com firmeza, sem que ninguém mais visse, e aquilo o deu forças para dizer:

—  Sim, minha mãe. Esforçar-me-ei para fazê-lo. 

— Não quero que se esforce. Quero que consiga — retrucou de imediato, os olhos castanhos cortantes fincados nos seus.

Jeongguk sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Fazia muito tempo que Giulia não ficava realmente brava com ele, mas somente um indício de que poderia ficar já era o bastante para fazê-lo sentir-se tonto.

— Evidentemente, minha mãe.  

— Espero ver o príncipe impecável durante esse dia. Deem um jeito neste rapaz antes que chegue a hora de sua entrada. 

E, assim como chegou, a rainha partiu: repentinamente.

O príncipe respirou fundo uma, duas, três vezes, tentando acalmar seu coração e sentimentos. Estava tudo bem, ela já fora e nada acontecera, era exatamente o que os dedos de Jimin em seu pulso "falavam" ao acariciarem a pele amorenada.

O quarto voltou a borbulhar, dessa vez principalmente para aqueles que cuidavam de sua maquiagem. Ter todas aquelas pessoas à sua volta o fazia sentir falta de ar, porém não era como se tivesse escolha. Não poderia simplesmente mandá-los embora, pois era uma ordem da rainha. Era questão de hierarquia.

Aquele seria um longo dia, e isso só ficou ainda mais claro quando saíram do quarto. Todos os corredores do castelo pareciam cheios de funcionários apressados para realizarem seus afazeres. Afinal, seriam três eventos. O primeiro, o café da manhã no jardim. O segundo, um lanche da tarde totalmente focado em exibir os atributos dos filhos do rei a quem interessava, sendo Jeongguk a principal atração. O terceiro e último, um jantar com apenas os filhos das figuras mais importantes presentes naquele dia.

Ridículo. Um imenso circo armado em cima de uma data que mal lhe parecia especial mais, só cansativa. O último evento conseguia ser o menos pior, porque teria pessoas que realmente gostava para ficar junto de si. Mesmo assim, sentia falta de ser criança e não perceber nada. De alguma forma, ele conseguia achar o dia de seu aniversário inteiramente divertido naquela época.

O pior daquela vez, porém, era encontrar o que, ou melhor, de quem ele estava fugindo. 

Laura.

Não gostava de admitir isso, mas precisava — mesmo que apenas para si mesmo. Fazia quase um mês que não via sua "irmã mais nova" e a verdade é que grande parte daquilo era culpa sua, porque ele fugia de todas as formas que conseguia. Vê-la era sempre bom, porém, naqueles últimos cinco meses, havia também se tornado uma tortura. Na verdade, desde muito antes já estava sendo, as coisas só haviam piorado ainda mais. A ignorância às vezes era uma bênção e esse ditado nunca tinha se encaixado tão bem em uma situação quanto fizera com a dele. 

Seu sangue gelou assim que avistou a saída principal para o jardim. A porta estava fechada, porém, o que realmente havia mexido com ele estava do lado de dentro. Seus pais, seu irmão e Laura estavam posicionados à sua espera. Felizmente, não via os noivos dos dois, especificamente o de Laura, por perto. Era um momento da família real. Sequer sua noiva estaria ali mesmo se esta estivesse na cidade — porém, estava bem longe, pois tinha ido visitar os pais e, por algum motivo que só saberia após sua volta, não tinha chegado a tempo de sua festa.

Não era como se fosse uma surpresa a presença deles. Na verdade, Jeongguk sabia que eles estariam ali, porém, foi inevitável sentir-se afetado ao perceber todos os olhos sobre si. 

Giulia voltou a percorrer-lhe o corpo com os olhos assim que o viu, analítica. Felizmente, a expressão em seu rosto pareceu satisfeita, tanto que não disse nada. 

— Feliz aniversário, filho! — Rei Felipe o abraçou com força ao falar. Jeongguk sorriu fraco, retribuindo o carinho. — Finalmente vinte anos! Um ano e já será maior de idade, como nosso Jimin — afirmou, segurando no ombro do soldado. Este sorriu politicamente, assentindo, mas saiu quase como uma careta. Jimin não era tão bom quanto a família real em fingir, e a exaustão de seu corpo não estava o ajudando a ficar feliz.

— Obrigado, meu pai. 

O próximo a se aproximar foi seu irmão, Yoongi, que também lhe deu um abraço, embora não tão forte quanto o do pai, afinal, sua estrutura corporal era bem mais “frágil” do que a dele. 

— Feliz aniversário, Jeonggukkie — disse ele, dando seu sorriso gengival assim que se afastou. — Está um ano mais próximo da morte — brincou. 

— Yoongi! — brigou Giulia. 

— É apenas uma brincadeira, minha mãe — disse o mais velho, revirando os olhos sem que ela visse. Jeongguk tentou se conter, mas não conseguiu, acabando por rir baixinho de seu irmão, que voltou para seu lugar como se nada tivesse acontecido. 

— Obrigado. — Sorriu, recebendo o mesmo de volta.

— Laura — chamou o rei —, o que está esperando para felicitar o seu irmão? — disse o rei, fazendo com que Jeongguk automaticamente olhasse em direção à princesa. Má ideia, má ideia.

Ela usava um vestido verde marinho ombro a ombro com a parte do tronco cheia de flores rosas, azuis, roxas e outras cores bordadas e a parte da saia lisa e aberta que escondia seus pés. Seus fios loiro-escuros, longos e levemente ondulados, estariam completamente soltos se não fosse a tiara que puxava sua franja para trás, dando um ar inocente à princesa. 

Jeongguk se perdeu na figura da princesa, inevitavelmente, hipnotizado por um longo momento. Laura estava linda. Por todos os santos, Laura estava deslumbrante! Uma verdadeira princesa e, definitivamente, seu coração acelerado concordava com aquela exclamação. Seus olhos captaram cada detalhe de sua imagem, desde fim de seu vestido até seus olhos felinos.

A expressão completamente indecifrável dela fez com que uma pontada atravessasse seu peito. Eles se conheciam há cinco anos, tendo ambos conseguido se conectar muito rapidamente desde o começo. Durante aquele tempo, Jeongguk havia visto aquele olhar muitas vezes, porém nunca destinado a ele mesmo… até aqueles últimos meses. Meses nos quais tudo o que existia dentro dele era o caos. 

Irmão. Jeongguk comprimiu os lábios, sentindo aquela palavra ecoar em sua mente de forma dolorosa. Aquilo não soava certo e seu coração queria muito acreditar que realmente não era, acreditar que aquela palavra não deveria denominar o que ele era para ela. Respirou fundo, forçando-se a manter contato visual com a garota cuja a expressão se transformou em um sorriso que não convenceu Jeongguk em nada. 

Seu coração pareceu prestes a sair do peito quando ela começou a se aproximar, aumentando o ritmo à medida que a distância entre eles diminuía. Tudo parecia em câmera lenta, embora estivesse acontecendo até rápido demais. 

Quando Laura o abraçou, Jeongguk pôde jurar que este iria explodir. O cheiro doce dela o cercou com rapidez, sem que ele sequer tivesse chance de escapar, assim como o calor do corpo dela se juntou ao seu com certa brutalidade. Ambos os corpos estavam tão tensos que eram quase como rochas. Eles nunca tinham compartilhado um abraço tão desconfortável. Entretanto, ainda assim, seus olhos se fecharam automaticamente. 

Por todos os santos, o cheiro dela era tão, tão bom… Sua vontade foi de enterrar o nariz no pescoço da princesa e abraçá-la muito, muito forte. 

Sua vontade foi de nunca deixá-la se afastar. 

Em vez disso, porém, apenas levou suas mãos trêmulas até a cintura da garota em um abraço que durou no máximo quatro segundos. 

— Feliz aniversário, Gukkie. — A voz de Laura soou quase sarcástica aos seus ouvidos, assim como seus olhos deixaram claro que ela realmente estava sendo. 

Parecia com raiva. Realmente com raiva. Sentimento que parecia aumentar no coração dela a cada vez que eles se encontravam. Jeongguk sequer podia reclamar, pois ela tinha uma razão para isso, e ele sabia exatamente qual: sua covardia. O medo da proximidade que eles tinham adquirido há muito tempo. 

O Segundo Príncipe se forçou a sorrir.

— Obrigado, Laurinha. 

Ela assentiu, o rosto totalmente sério, e voltou ao seu lugar. Ele apenas se esforçou para fingir que estava tudo bem. 

Jeongguk avançou devagar, até estar entre seus pais. Era a única vez no ano em que ficava lado a lado com eles. Yoongi continuava do lado direito, logo atrás de seu pai. Laura tinha assumido o lado esquerdo, geralmente o seu, atrás de Giulia. Jimin se afastou, desaparecendo em uma das portas menores ao lado esquerdo do corredor, que o levaria ao jardim. 

O Segundo Príncipe respirou fundo e olhou para os soldados à sua frente, ambos preparados para abrirem a porta. Assentiu em permissão, sentindo o vento bater contra seu rosto assim que viu o jardim onde todos estavam reunidos para o início do evento. 

Não foi nenhuma surpresa quando começaram a aplaudir sua chegada, pois Jeongguk sabia que haviam sido avisados previamente sobre esta. 

Sorriu para seus convidados, seguindo em frente com lentidão para receber cada educada reverência e retribuir às dos poucos monarcas presentes. Qualquer um que o via pensava que estava radiante naquela data. Não havia um traço sequer de cansaço em seu rosto totalmente maquiado e o sorriso era impecável. Porém, não chegava aos seus olhos. Não era como se algum daqueles convidados fosse perceber de qualquer forma.

Não notaram mesmo. Não notaram o quanto suas pernas tremiam enquanto subia ao palco também. Não prestaram atenção em nada além de como aquela família parecia a figura da perfeição.

Seus batimentos falharam, os pulmões passaram a ter dificuldade para filtrar o ar, o suor começou a escorrer por suas costas e testa. Previamente preparado, Jeongguk retirou o lenço preso no bolso do paletó e secou a testa discretamente enquanto subia pela parte anterior do palco, fora das vistas dos espectadores. Guardou-o de volta no mesmo lugar um segundo antes de pisar no tablado, com seus pais logo a sua frente.

O rei foi o primeiro a se posicionar no centro do palco. Um discurso atenciosamente preparado foi proferido, e da mesma forma fora com sua mãe e Yoongi. Jeongguk não ouviu uma palavra. Não foi capaz. Odiava aqueles discursos com todas as suas forças, porque nunca eram realmente suas palavras. Nada era verdadeiro. Nada.

Infelizmente, o momento chegou em um piscar de olhos. Ele se colocou na mesma posição onde antes Yoongi estava e, então, falou o discurso previamente preparado, com cada palavra fluindo com total naturalidade. Falou, falou e falou.

Todos prestavam atenção em sua figura imponente, era automático, inevitável.

Jeongguk não era o Primeiro Príncipe, claro. Era o Segundo Príncipe, pois era o segundo filho. O planejado era que Yoongi assumisse o trono após a morte ou renúncia de seu pai. Contudo, ambos foram preparados para serem reis, assim como Laura, uma rainha, pois acidentes acontecem, o rei sabia disso mais do que ninguém. Por isso, era natural para Jeongguk falar daquela forma, quase inconsciente, após ser treinado por tantas horas durante tantos anos. Ele agradecia por tal, pois se sentia totalmente exausto pela falta de sono. 

Então, ficou totalmente aliviado quando acabou, recebendo os aplausos com um sorriso encantador no rosto. Isso até ele descer pela parte anterior do palco e novamente se tornar consciente demais do fato de que não conseguia respirar bem. A roupa parecia extremamente apertada, a gravata o enforcava, tudo girava, ameaçava escurecer por completo. Ele só precisava sair dali. Precisava ou realmente teria um ataque. Ou talvez já estivesse tendo. Um ataque de ansiedade, assim, sem aviso, no pior momento.

Por isso, Jeongguk não apareceu na lateral do palco como o esperado. Não seguiu para onde Jimin estava esperando-o. Em vez disso, passou pela entrada feita no muro de arbustos que rodeava parte do enorme jardim e desapareceu totalmente das vistas de todos os convidados. 

Ali era uma parte mais reservada do jardim. Isso porque formava quase um octógono de arbustos altos e acima de sua cabeça uma videira se estendia como um teto. O quase se devia ao fato de que quatro lados de muro intercalavam-se com quatro espaços. Um pelo qual ele passara, outros três que seguiam para outras partes do jardim, algumas como aquela, outras com fontes, outras com estufas, entre outras coisas. No fim, aquele lugar não formava a figura inteira, porém lembrava se vista de cima. Em frente aos lados de muros, havia bancos, e Jeongguk se jogou de costas em um deles, com medo de acabar desmaiando.

O que não percebeu em sua crise, porém, é que foi seguido. E ele só notou tal acontecimento quando viu Laura se ajoelhar ao seu lado. Ela segurou sua mão e o instruiu a respirar devagar, com sua voz suave, doce, e Jeongguk foi se acalmando aos poucos até estar normal. Naquele momento, processou que uma das pessoas de quem tanto queria fugir, estava bem ali, ao seu lado.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Jeongguk.

Por todos os santos! Onde tinha ido parar Jimin?

— Eu que pergunto, Guk — disse Laura. Suas bochechas estavam vermelhas, a testa franzida, e as mãos seguraram o rosto de Jeongguk entre elas com carinho. Ela parecia tão quente que o fez tremer. Mas Jeongguk era quem estava frio. Esse era o tamanho de seu nervosismo.

Tudo o que queria fazer era ficar longe de Laura. Não. Tudo o que devia fazer era ficar longe de Laura. 

Isso porque ela basicamente não tinha noção de espaço pessoal com ele, tocava-o todo o tempo, poucas sendo as áreas que escapavam. Laura conseguia ser bastante levada. O problema era que aquilo tinha começado a mexer muito mais com ele nos últimos meses.

Okay, com honestidade, nos últimos anos.

Mais especificamente, três, quando ela tinha quinze e ele, dezessete, um ano depois de Laura se sentir íntima o bastante dele para passar a tocá-lo bastante. E só foi piorando, até chegar no nível em que ela apertava até mesmo seu bumbum. Sem vergonha alguma. Felizmente, não em público.

Mas, bem, Jeongguk era sensível ali, de um jeito que o deixava quente. E era muito, muito errado, porém também não conseguia evitar.

Gostava de como Laura o tocava de surpresa, de como sua expressão se transformava em uma adoravelmente sapeca, e gostava também das correntes elétricas que passavam por seu corpo cada vez que fazia isso. Mas não era a única reação de seu corpo. Ele também se tornava quente como o inferno, de uma forma que era definitivamente difícil de esconder, e aquilo apavorava Jeongguk ainda mais, pois corria o risco de ela perceber. Para si mesmo, conseguia dar a desculpa de que era uma reação natural de seu corpo, e no fim realmente era, porém ainda era sua dita irmã.

Apesar de todas as situações estranhas que o faziam desconfiar, Laura ainda era sua irmã. Pelo menos para os de fora. Pelo menos no papel…

E pensar em tudo o fazia gelar de verdade. Tê-la com o rosto tão próximo apenas piorava sua situação.

Eu sou repugnante, pensou.

— Você está passando mal? Eu vou chamar o Namjoon… — E é claro que a primeira pessoa a pensar naquele momento era o bendito Kim!

— Não! — O príncipe imediatamente se sentou, segurando o pulso dela para impedi-la.

Deu mais do que certo. Laura parou e o olhou, pronta para protestar. E Jeongguk tentou não se focar no quão macia era a pele dela.

Repugnante.

— Eu estou perfeitamente bem. Por gentileza, não chame a atenção de ninguém — praticamente implorou.

— É só o Joon…

— Não, Laura. Não. — Revirou os olhos, finalmente a libertando de seu aperto. — Fiquei nervoso com o discurso. Nada além disso.

Por um momento, ela ficou em silêncio.

— Sem pânico? — perguntou finalmente.

— Sem pânico — confirmou.

Uma imensa contradição visto que seu coração continuava batendo extremamente rápido.

Olhando para o chão, Jeongguk pediu silenciosamente para que ela fosse embora. Contudo, seu pedido não foi acatado, e Laura se sentou exatamente ao seu lado.

— Guk, por que você está assim comigo? — perguntou, direta.  

Jeongguk arregalou quase que imperceptivelmente os olhos. Por um momento, a surpresa o pegou antes que seus reflexos debilitados conseguissem impedir, e a fitou.

— Assim como? — questionou suavemente.

Era simplesmente engraçado como estar com ela tinha o acalmado ao mesmo tempo que Laura era o motivo para seu rosto estar quente e sua pulsação estar mais acelerada do que deveria. O ataque de ansiedade tinha passado. Ele não se sentia mais prestes a desmaiar e conseguia respirar, mas estava totalmente nervoso com a presença dela ali. Ainda mais com aquele assunto sendo colocado em pauta.

— Distante. Estranho. Você não fala comigo direito faz uns cinco meses. A gente quase não se vê, e eu sei que está ocupado, mas nem me manda mensagens. Está até falando formalmente comigo! Nunca foi assim. O que está acontecendo?

— Nada — respondeu imediatamente, apertando as mãos no banco, uma em cada lado de seu corpo. Continuou se forçando a fitá-la, pois sabia que era algo que passava confiança.

Mas era tão difícil…

Era tão difícil ver seus olhos castanhos o encarando de maneira tão fervorosamente chateada.

Era tão difícil não se lembrar deles fechados enquanto seu noivo a tocava sem pudores.

Era tão difícil não ceder ele mesmo ao desejo de tomar seus lábios cheinhos para os seus.

E aquilo o corroía por dentro.

— Com você, nada — assegurou em tom sério, quase crível, apesar de ser uma total mentira. Afinal, tinha tudo a ver com ela.

Laura claramente não acreditava naquilo, e suas mentiras pareciam estar a deixando cada vez mais magoada com ele. Porém, Jeongguk não podia falar a verdade. Ao menos não 100% dela.

O príncipe desviou os olhos para frente, respirando fundo, e, então, disse de uma vez:

— Eu vi você com o Namjoon. Você beijando o Namjoon. — Seu tom saiu claramente descontente, não conseguiu evitar, não quis, porque ela já sabia de seu desagrado, não é? Já sabia que tinha algo o incomodando. Jeongguk podia nunca dizer exatamente o que o afetara tanto naquele contato. Mas tinha sim uma alternativa que não era mentira, apenas uma meia verdade.

E aquilo claramente teve um efeito em Laura. Ela se remexeu ao mesmo tempo que uma estranha corrente de ar passou por eles, repentina, parecendo combinar perfeitamente com a expressão nervosa da princesa. Porém, assim que Laura respirou fundo, esta desapareceu tão repentinamente quanto tinha aparecido. 

A princesa estava incomodada, Jeongguk sabia. Ele sabia também que deveria fitá-la. Era o que costumava fazer, afinal, e a faria ter certeza que não estava brincando. Contudo, teve medo. Medo de ela notar o que se passava em sua mente.

— Eu ia te contar — começou Laura com a frase mais típica.

Claro que ia ser a primeira coisa a surgir em sua mente. Eles eram próximos, próximos demais. Próximos ao ponto de confessarem um ao outro suas mais íntimas aflições. E seus noivados arranjados tinham sido um tópico pouco antes de Jeongguk vê-la com Namjoon. Aquela, é claro, realmente era uma mágoa dele. Acima de qualquer coisa, eles eram amigos. Como Laura fora capaz de mentir sobre algo tão importante quanto o fato de que resolvera dar uma chance à Namjoon? Uma chance de transformar aquela fachada em realidade… Era muito importante.

E é claro que tinha aquela voz interior, vulgo sua consciência, dizendo que não podia cobrar nada visto que também estava escondendo coisas de Laura. Porém não era a mesma coisa. Com toda certeza não era a mesma coisa.

Namjoon e Laura se envolvendo era algo esperado por todos a sua volta.

Os sentimentos de Jeongguk por Laura eram abomináveis aos olhos de todos a sua volta — o que incluía o próprio Jeongguk.

Duas situações completamente distintas.

Laura era considerada como sua irmã. E era pior ainda que continuasse colocando a bendita palavra “considerada”. Porém, não conseguia evitar, porque existia aquela migalha de esperança no fundo de seu coração. Migalha essa que Yoongi criara anos atrás. Afinal, Jeongguk estava prestes a completar dois anos quando Laura apareceu, porém Yoongi tinha seis, e o mais velho não se lembrava de barriga alguma em sua mãe antes que ela "nascesse".

Giulia estava em uma situação extremamente difícil antes da garota surgir. Tinha se deprimido repentinamente, e ninguém sabia a razão para aquilo. As únicas pessoas com quem ela convivia — e ainda raramente — naquela época eram seu marido e seus filhos. Até que chegou um momento no qual a rainha foi para um lugar mais distante, uma fazenda isolada onde poderia estar mais tranquila. Eles só foram visitá-la uma vez lá. Pouco depois, foi espalhada a notícia de que a princesa nascera. Entretanto, Yoongi tinha certeza que aquilo tinha acontecido rápido demais. Isso porque sua última visita a ela fora em setembro, no segundo aniversário de Jeongguk, e a notícia do nascimento de Laura chegou em dezembro. 

É claro que o Primeiro Príncipe não entendera o quão estranho tinha sido até ficar mais velho. Estranho como ninguém tinha dito para eles que sua mãe estava grávida — como ele se lembrava de terem falado para si quando Jeongguk estava no ventre da rainha. Estranho como ele se lembrava de sua mãe totalmente magra estando, teoricamente, tão perto de ter uma criança.

Era como se Laura tivesse surgido do nada. 

— Desde quando isso está acontecendo? Eu pensei que tinha me falado que não gostava dele dessa maneira, pensei que… fosse a mesma coisa para você do que é pra mim… — disse Jeongguk, esforçando-se para se focar naquele momento, naquele pensamento.

— E é!

— Eu ainda não experimentei ficar com a Claire, que eu saiba. E muito menos parecia gostar tanto…

— Talvez devesse tentar.

Laura estava irritada, Jeongguk percebeu. E ele também tinha ficado um pouco. Era assim que as coisas seriam? Claro que sim. Talvez ela tivesse mudado de ideia. Talvez tivesse decidido tentar realmente formar um casal com Namjoon. 

Ele conhecera Laura antes do príncipe, muito antes de Jeongguk sequer tê-la visto. Provavelmente sabia mais dela… Provavelmente Laura não escondia nada dele... Provavelmente ele não escondia nada dela... Fazia sentido, pensou, sentindo-se cada vez pior.

Namjoon era o noivo dela.

Namjoon iria se casar com ela. 

Namjoon iria passar todos os dias de sua vida ao lado dela.

Namjoon… Namjoon… Namjoon…

Jeongguk se levantou, sentindo-se novamente sufocado.

— Eu quero ficar sozinho — falou diretamente.

— Gukkie… — Laura também se pôs de pé.

É claro que ela não queria deixá-lo ir. Queria conversar sobre o que estava acontecendo, afinal, Jeongguk fugiu por meses, e provavelmente continuaria a fugir se permitisse que fosse.

— Nós temos que resolver isso — continuou,  aproximando-se.

Jeongguk a fitou de rabo de olho. Sentia a garganta fechar-se em um nó, dolorida, e a vontade de sair de perto dela apenas aumentava.

— Não, nós não temos. — E virou as costas, pronto para entrar em  um dos corredores do labirinto.

— Eu não entendo! — Laura explodiu. Não estava gritando, pois sabia que para alguém do outro lado ouvi-los não precisava de tanto — não terem os buscado já era um milagre —, mas seu tom estava furioso o bastante. A princesa deu a volta em seu corpo e ficou de frente, os olhos magoados o acertando com força. Jeongguk não queria isso. Não queria machucá-la. — Não entendo por que está reagindo assim. Eu não contei, mas ia contar. A gente começou a ficar pouco tempo antes de você começar a simplesmente fugir de mim! E foram meses, Jeongguk! — continuou, gesticulando fervorosamente. Jeongguk apenas ficou quieto, olhando-a de maneira surpresa. — Como eu ia te falar sobre sendo que nem conversando direito comigo estava? Nunca tinha tempo! Era um “Oi” e um “Tchau, preciso ir” seguidos. Aliás, por que está me afastando por algo tão bobo?! Sequer tem moral para ficar chateado sobre um “esconder algo”?

Foi a última frase que o baqueou. Do que ela sabia? Ela não podia ter percebido sobre como se sentia, não é? Não… Se tivesse nem sequer viria atrás dele. Com certeza iria querer apenas distância. Mas o que era então?

— Como assim se tenho moral para falar de esconder algo? — questionou confuso e irritado. — O que estou escondendo de você agora?

— Eu sei que você está gostando de alguém — soltou, parecendo ainda mais chateada. Seus olhos pareciam analisá-lo com total atenção, porém logo foram ao chão. A cor no rosto do príncipe desapareceu por completo e o nó pareceu dobrar de tamanho. — E que já faz muito tempo. Muito mais tempo do que eu estou ficando com meu noivo. — Suspirou. Então, cruzou os braços sobre o peito e voltou a encará-lo — E aí, o que tem a dizer sobre isso, Jeongguk?

O príncipe piscou, em choque, mas nada disse. O que poderia? De onde ela tinha tirado aquilo? Jeongguk não tinha falado com ninguém. Nada. Nem para Jimin, nem para Claire, e ambos eram seus melhores amigos. Mesmo Yoongi não sabia…

Ah, sim, Yoongi, lembrou-se. E foi com riqueza de detalhes.

Realmente nunca tinha dito a ninguém sobre seus sentimentos por ela. Mas teve, uma vez, um diálogo entre ele e Yoongi, mais ou menos um ano atrás, após uma de suas aulas.

Não tinha como se esquecer daquele dia. Era quando ainda conseguia mentir um pouco para si mesmo sobre o que sentia por Laura, dizendo que seu corpo reagiria da mesma forma a qualquer pessoa e que seus sentimentos eram iguais aos de qualquer irmão que fosse tão próximo da irmã. E ele tentava acreditar nisso com vontade, porém quando Yoongi o fez uma pergunta, congelou da mesma forma como estava agora, porque seu coração já sabia o que seu cérebro insistia em ignorar.

Você não quer ficar com a Claire porque já gosta de alguém, não é? — Foi o que o mais velho soltou do nada, suavemente. 

Jeongguk o fitou, os olhos arregalados. Foi tão óbvio que não houve a necessidade de uma verbalização.

Seu irmão sorriu complacente.

Eu entendo, Gukkie. De verdade.

Laura entrou na sala imediatamente, fazendo Yoongi desviar do assunto.

Realmente, a princesa ficara bastante pensativa naquele dia, mas Jeongguk não notara direito, pois, apesar de olhá-la praticamente o tempo inteiro, permanecera preso em seus próprios questionamentos.

E, bem, no presente, Jeongguk não se orgulhou de fazer o que fez. Mas mesmo assim tomou a atitude.

— Nada. — Foi o que respondeu, antes de virar-se de costas e, dessa vez, voltar ao jardim principal.

O lugar onde não queria estar de jeito nenhum.

Mas era isso ou Laura continuaria a insistir, e talvez ele não aguentasse e acabasse falando.

Jeongguk odiava vê-la magoada. Mas preferia isso a vê-la, além de magoada, com nojo dele. Mesmo que ele tivesse certeza que era o mínimo que ele merecia.

 

§

 

Tudo correu bem, dentro do possível. Claro, isso se resumiu ao príncipe Jeongguk não ter surtado ao voltar para o antro de leões. Mas fácil não foi, muito pelo contrário. Porque, por mais que tentasse ignorar Laura, não conseguia. Mesmo que ela estivesse do outro lado do jardim, sua visão periférica o traía e ele a via.

Via sua cabeça cabisbaixa.

Via seus olhinhos o procurando o tempo inteiro.

Via seu corpo ficar totalmente tenso.

Giulia não parava de cercá-la. Jeongguk imaginava que era pela postura claramente desanimada da princesa, pois aquilo era “um absurdo” para a mãe.

Quase como se querendo combinar com os sentimentos de Laura, o céu começou a fechar. O sol foi aos poucos desaparecendo. O café teve que ser transferido para o salão interno, que claramente já estava preparado para qualquer contra tempo.

Laura desapareceu.

Giulia também.

Jeongguk não conseguiu se concentrar em mais nada, não conseguiu comer, não conseguiu conversar direito. Quando viu, tinha derrubado suco em sua própria roupa. Taehyung faltou esfolá-lo em uma parede texturizada. Teve que correr para o ateliê dele para que encontrasse uma nova roupa. Enquanto o estilista corria de um lado para o outro, Jeongguk só continuava pensando em Laura.

Onde ela estava?

Será que sua mãe ia fazer algo com ela?

O que ia fazer?  

Nunca tinha visto as punições de Laura, nem uma sequer. Mas tinha as próprias como lembrança, e poucas de Yoongi. Já tinha ido de algo simples como a privação de algo que gostava — como jogar ou passear — até castigos físicos, dolorosos demais, porém que nunca deixavam marcas. Essas últimas, contudo, foram desaparecendo conforme ficava mais velho, até sumirem completamente. Mas enquanto as dele em sua infância eram bastante frequentes, Yoongi dissera ter sofrido apenas duas vezes, e, se havia essa diferença entre eles, sendo o mais novo quem mais sofrera, e se Laura, a caçula, tivesse pego a mãe em uma fase ainda pior? Ou se tivessem sido retardados os castigos?

Parecia uma possibilidade bem plausível, afinal, de acordo com o que pensava, Laura nascera doente, tão doente que somente sua mãe, uma empregada e seu médico — o pai de Namjoon — permaneceram com ela dentro da casa na fazenda. Sabia que soldados ficaram do lado de fora, claro, para garantir sua segurança. 

Depois de um tempo, sabia que Namjoon passara a frequentar a casa junto a seu pai para ajudá-lo. Jeongguk até mesmo se lembrava de como ficara triste ao ouvir a notícia. O príncipe tinha sete anos, e teve inveja de Namjoon, porque morria de curiosidade de conhecer a pequena Laura, até porque Giulia nunca falava sobre ela. Na verdade, parecia quase um acordo silencioso dentro do palácio: não falem sobre a princesa. 

Jeongguk só sabia que ela existia e que sua saúde era extremamente frágil, sendo perigoso entrar em contato com outras pessoas. Não entendeu muita coisa até ficar mais velho e finalmente estudar sobre coisas como o sistema imunológico — que era o que lhe disseram não funcionar bem em Laura. Poucos anos depois, foi permitida sua saída do quarto.

— Você brigou com a Laura, Jeongguk? — falou Taehyung, tão repentinamente que o príncipe demorou a entender que era com ele. Até porque o estilista mal o olhou, continuando analisar as roupas nas araras. Finalmente pareceu encontrar uma. — Tira a roupa — pediu. Jeongguk obedeceu imediatamente. — Brigou? — E então ele voltou a perguntar.

Jeongguk suspirou, colocando a nova calça.

— Sim. E ela desapareceu, assim como minha mãe. Você viu algo? — disse rápido.

— Não, Guk, não vi.

— Ela está magoada comigo, Tae — confessou cabisbaixo. Já tinha colocado a camisa, que agora Taehyung a ajeitava dentro de sua calça enquanto colocava um um blazer por cima.

— Vai poder fazer uma pausa agora. O próximo evento vai ser o lanche às quatro, okay?

— Entendido — respondeu simplesmente. 

Não era como se fosse ficar livre, afinal, a maior parte dos convidados continuariam a esperar pelo próximo evento. Para isso tinham diversas salas de descanso para aproveitarem. E já se aproximava das duas horas da tarde.

— Por que ela está magoada com você? — Taehyung retomou o assunto.

— Porque eu não contei algo pra ela. E já faz um ano que ela sabe. Um ano ficou guardando pra si mesma sem vir falar comigo! — exclamou, gesticulando exasperado. — E, tudo bem, a questão é que eu fui cobrar o fato de ela não ter me informado de algo importante e ela somente despejou em minha cara que eu tinha feito o mesmo.

— Aí pegou feio.

— Eu sei disso! Mas aconteceu... e eu não sei o que fazer. — Jeongguk possuía os olhos arregalados e passava os dedos pelos cabelos, claramente agoniado. A calma de Taehyung, olhando-o com nada além de humor nos olhos, era de dar nos nervos.

— Converse com ela — falou o estilista, como se fosse simples.

Deveria ser. Seria, se fosse qualquer outro assunto.

— Não posso… — murmurou Jeongguk depois de um tempo, parecendo quase acuado.

Taehyung já fazia seus últimos ajustes na vestimenta e o olhou confuso antes de perguntar:

— Por quê?

— Porque ela quer que eu fale o que estou escondendo, e não posso dizer — falou simplesmente.

Estava frustrado. Realmente, usar aquela meia verdade tinha saído pela culatra. Saiu como uma acusação, mas a própria Laura tinha dito que começou a ficar com Namjoon pouco depois de sua conversa, que iria contá-lo, porém, bem, Jeongguk não a deu a chance. 

O maior problema, porém, era que ela já estava esperando que ele a contasse o seu segredo por um ano inteiro, sendo paciente, respeitando seu espaço. Soara muito mais maduro da parte dela do que da dele. Como se Jeongguk tivesse se afastado ao vê-la fazendo algo que ele mesmo já fazia há muito mais tempo. Parecia até mesmo hipócrita.

Exceto que na realidade não era aquele o motivo de seu afastamento. Vê-la com Namjoon o tinha machucado, e muito, mas não somente por ela não ter contado. Queria que fosse aquilo, seria tão mais simples, porém, a verdade era muito mais complexa, e não podia ser revelada. Nem a Laura, nem a ninguém.

— O que está aprontando, hein, Jeonggukie? — brincou Taehyung, fazendo-o soltar uma risada fraca.

— Eu realmente não sei o que fazer — confessou.

— Converse com ela — repetiu. Explique que as situações são diferentes, peça desculpas, pare de evitá-la.

Jeongguk o olhou, sério.

Parar de evitá-la…

Por todos os santos! Como ele sentia falta de Laura! Como sentia falta de aparecer em seu quarto à noite e se deitar ao lado dela no tapete apenas para conversar sobre seu dia, como sentia falta de sentir a mãozinha dela na sua, do cheiro de sua pele e seu cabelo, da textura destes contra a dele… Como sentia falta de vê-la o fitando com sua maneira toda carinhosa de ser, de seu sorriso, de suas risadas. Nossa! Sentia falta até mesmo da tortura que era toda vez que ela o provocava de forma brincalhona, da dor de saber que realmente não passavam de brincadeiras.

Agora só havia a própria dor, sem nem uma das coisas boas para amenizar.

Mas não conseguia deixar de pensar que ficar longe seria bem melhor. Afinal, pensou novamente, preferia sua mágoa do que mágoa e nojo, desprezo. Preferia que ela o odiasse por aquilo, porém nunca tivesse ideia de como ele a tinha visto como algo além do que todos diziam que devia vê-la.

 

 

Como se muda o coração? Como se tira um sentimento que só faz crescer sem a sua permissão? É como uma praga que eu não consigo arrancar, por mais que tente. Ela toma minha mente, meu corpo, por dentro e por fora, e eu não consigo mais, simplesmente não consigo. Não consigo mentir e dizer que não sinto por ela muito mais do que eu deveria sentir. Não consigo escapar do que vive dentro de mim. Não consigo me esconder do que me atormenta dia e noite. Está sempre aqui, e isso me apavora. 

Talvez eu seja uma abominação que espera que nada do que o contaram a vida inteira é verdade. Talvez eu seja um doente que quer do fundo da alma que as palavras de seu irmão mais velho sejam mais verdadeiras do que aquelas que estão sendo escritas na história. Talvez eu seja uma pessoa à beira do penhasco que espera apenas uma frasezinha para se jogar, embora não saiba como vai agir depois disso. 

“Ela não é nossa irmã, Jeonggukkie… Não sei de onde vem, quem realmente é ou por que nossos pais a pegaram para criar mesmo com todos os riscos, mas disso tenho certeza”.

O quanto eu quero acreditar nisso é incalculável.

Eu somente quero amá-la. 

Mas o jeito como quero é errado de tantas formas diferentes que mal consigo contá-las. 

Eu somente quero ser normal e deixar de sentir isso... 

Não. 

Eu somente quero estar em outro mundo onde sentir o que eu sinto não seja a fonte de um pesadelo interminável. Um mundo onde não exista laço fraternal algum, sendo este sanguíneo ou simbólico. Um mundo onde o que não não consigo arrancar de meu peito seja certo.... e recíproco. 

E eu somente me provo ainda mais sórdido ao desejar tal coisa.

Afinal, qual é a verdade?


Notas Finais


E aí? O que acharam? Qualquer palavrinha já vai me deixar radiante! sdknsd

A leitora que falou da narração em primeira pessoa foi a @samantha565. Então... Espero que tu tenha gostado também, viu? ><. Beijooo.

Obrigada, @JustBeNanda, por discutir o plot comigo sempre, assim como @taydcruz e @pain_grrm. Obrigada, @Wittrockiana, por sua avalanche de elogios tão bem colocados, claros como eu nunca conseguiria fazer os meus serem. Sério. Depois de te "ouvir", eu sou capaz de escrever uma bíblia (e esse capítulo foi quase uma -q) XD. Obrigada, @_Eden, de novo, pela capa, que não mudou, mas não posso deixar de agradecer de novo. Obrigada a todos que me ajudaram! Sem vocês eu não sou ninguém <3

Todas as minhas histórias se encontram nessa lista de leitura:

https://www.spiritfanfiction.com/listas/yoonkookrules-lista-de-leitura-4302235

Leiam também no Wattpad! É sério. Prevenção é sempre boa, então, me siga, porque vai que alguma coisa acontece com essa conta :v. Por mais que eu tente andar direitinho, sei lá, tudo é possível.

https://www.wattpad.com/myworks/210338798-os-filhos-do-rei

Acho que é só... Eu falei muito, que horror. Sempre falo aqui kfndsknfksdnfk. Minha casinha XD. Obrigada, genteeee, e até o próximo!

PS: caso achem algum erro, podem me avisar,viu? Pelos comentários ou MP, tanto faz. Na verdade, qualquer coisa que quiserem, podem vir falar comigo ksdnfksnkndg.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...