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História Os Filhos do Rei - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


OLÁ, OLÁ. Tudo bem com vocês? Como está a quarentena? Tá todo mundo bem de saúde? Pra mim tá a mesma coisa, porque não saio de casa normalmente mesmo k. Continuo trabalhando em casa também XD. E estou com crise de sinusite, pra variar. Vim postar o capítulo antes de ir comprar os remédios, inclusive.

Foi mais de um mês??? Considerando que estou com 4 fics mais o HU pra lidar, tá de boa, né? XD. Não se preocupem, pois estou sempre mexendo nesse neném <3. Aliás, me desculpem, eu tento fazer capítulos menores, mas OFDR meio que não casa com esse tipo de capítulo sksksksk. Quando vejo, já está grandinho. Falando "grandinho" porque já vi muitas fics com capítulos beeem maiores ksdnfjksdf.

Obrigada pelos favoritos. Obrigada, @Snpark e @samantha565 pelos comentários e, gente, por favor, comentem mais. Anima bastante a gente <3. Obrigada, também, @JustBeNanda, por ser o amorzinho que é e me ajudar com a revisão e os surtos ksndfnds. Te amo <3.

Boa leitura <3

Capítulo 3 - Uma família perfeita


Fanfic / Fanfiction Os Filhos do Rei - Capítulo 3 - Uma família perfeita

Mais uma vez, Jeongguk sentiu seu coração acelerar somente com a visão de Laura vindo em sua direção. Ela estava bem, estava em sua festa e, por todos os santos, estava mais uma vez incrivelmente linda, talvez até mais do que de manhã. 

Nervoso, desviou os olhos, automaticamente, porém forçou-se a voltar a olhá-la, assim como a manter o sorriso em seu rosto, embora o que visse não fosse de todo agradável. 

Laura definitivamente não estava feliz, e Namjoon estava vindo ao lado dela, como deveria ser sempre, afinal, eram companheiros, assim como ele mesmo e Claire, que ainda o estava abraçando. 

Jeongguk sentia do fundo de seu coração que ela não queria aproximar-se, muito pelo contrário, queria estar muito distante dele. Parecia nervosa, parecia incomodada, parecia ainda estar chateada. 

Mesmo assim, os olhos escuros dela não deixaram os seus. Ambos ficaram hipnotizados, como se o restante do mundo tivesse sumido. A tensão que sentiam era esmagadora e quem estava por perto acabou por inevitavelmente senti-la. Queriam disfarçá-la, porém a intensidade desta não permitiu que o fizessem.

Jeongguk mal conseguia respirar. 

Sequer notou quando Claire o soltou, nem quando todos, de certa forma, abriram caminho para a princesa. Também não notou como Malu imediatamente se afastou mais do que o necessário. 

O pior, porém, foi como Laura foi diretamente abraçá-lo. Mais um abraço dela. Mais da proximidade que ele tanto queria, mas que se sentia cada vez menos merecedor de ter. 

A questão é que daquela vez Jeongguk realmente a abraçou. Simplesmente não conseguiu se controlar, enroscou os braços na cintura dela e puxou o corpo da mais nova até que estivesse colado ao dele. Laura arfou, surpresa, congelando por um instante antes de retribuir, e ele sentiu que aquilo a desarmou totalmente. 

Jeongguk tinha ficado preocupado aquele tempo inteiro, até finalmente vê-la. Tinha pensado tantas vezes no que estaria acontecendo durante aquele tempo. Tinha pensado tanto em como Laura parecia não estar suportando mais aquela situação. Tinha pensado tanto, tanto, tanto… 

Então, pelo menos naquele momento, entregou-se à necessidade de senti-la por perto. 

Jeongguk cedeu. 

Cedeu ao desejo de sentir a suavidade de sua pele.

Cedeu ao desejo de sentir de perto o cheiro de seu perfume que tanto o lembrava baunilha.

Cedeu ao desejo de sentir o calor do corpo pequeno misturar-se ao seu.

— Olá, Gukkie — disse ela, soltando-o lentamente para encará-lo. Os olhos dela estavam muito mais suaves naquele momento, e foi até engraçado perceber o quanto algo tão simples quanto um abraço a fizera mudar daquela forma.

Jeongguk não sabia, mas seu carinho era capaz de fazer milagres com Laura. 

— Oi, Laurinha — respondeu ele, sorrindo nervoso. 

— Olá, Laura — falou Claire, animadamente. 

A princesa imediatamente olhou-a, e foi como se, para os dois, o encanto tivesse sido quebrado. Jeongguk sentiu seu estômago revirar-se, lembrando-se que todos os estavam observando, e foi como se todos também pudessem ver seu interior, saber o que estava pensando, o que estava sentindo. De repente, afastou-se um pouco, sentindo que respirar voltava a tornar-se difícil. 

Naquele exato instante, notou os olhos de Yoongi, seu irmão mais velho, sobre si. Os olhos pequenos e extremamente atentos que pareciam ver até o seu segredo mais obscuro. Segredo este que estava basicamente logo à sua frente. 

Às vezes, ele sentia que Yoongi sabia, que realmente sabia, contudo, jamais conversara com seu irmão sobre aquilo. Tinha medo de estar errado. Tinha medo do que poderia ouvir. E isso sendo que Yoongi era a pessoa que Jeongguk menos temia ouvir a opinião, afinal, fora ele a colocar a bendita pulga atrás de sua orelha sobre a origem de Laura. 

Yoongi tinha certeza absoluta de que Laura não era sua irmã. 

— Feliz aniversário, Alteza — disse Namjoon, fazendo com que só então se lembrasse da existência do noivo de Laura. Ele havia se aproximado e estendido a mão direita para si em um cumprimento que Jeongguk retribuiu à contragosto. 

Namjoon era outro que possuía um olhar cheio de certezas. Como se ele soubesse de tudo e todas as coisas, e esse era somente mais um ponto que deixava Jeongguk tão desconfortável perto dele. Como se não bastasse Namjoon ser o futuro marido de Laura. Como se não bastasse tocar na mão dele e lembrar-se de como o vira usá-la em Laura. Pensar em o que mais ele já tinha feito. 

Mas aquilo não era realmente de sua conta. Não era algo que poderia impedir, controlar, embora, no fundo, quisesse que aquilo nunca tivesse acontecido. Quisesse que tudo fosse totalmente diferente. 

Queria não ser o Segundo Príncipe de Garean.

Queria que Laura não fosse também uma princesa.

Queria que ambos fossem duas pessoas comuns vivendo uma vida comum, que se conhecessem aleatoriamente em algum lugar da cidade e que ele tivesse ao menos uma chance de ter o coração dela, sem medo algum de julgamento porque simplesmente não haveria motivos para tal. 

— Estamos todos aqui, então? — perguntou Yoongi em sua voz grave e calma, olhando em volta. — Todos os convidados e os três irmãos. 

Jeongguk sentiu a tão odiada palavra esbofeteá-lo em seu estômago. O fato de ser seu irmão o falando… Ele sentiu imediatamente como se fosse algum tipo de aviso. Como se sua estranheza estivesse sendo óbvia demais. 

Realmente estava. 

Por isso, respirou fundo e se recompôs, olhando para todos aqueles ali presentes. 

Amigos e conhecidos… 

Seus mais próximos não estavam ali, porém… Os mais velhos da família de Norta não puderam comparecer. Felizmente, já passara um bom tempo com os mesmos logo antes de chegar para seu aniversário, então não realmente estava incomodado com tal fato. 

— Sim, vamos começar — disse o Segundo Príncipe. 

Ele enlaçou um de seus braços ao de Claire, vendo Laura fazer o mesmo com Namjoon e Malu, com Yoongi. Jimin e Hoseok permaneceram por perto para a “entrada” não exatamente triunfal, muito mais informal do que a da manhã. 

Todos ali o cumprimentaram com sorrisos, e novamente teve que conversar um pouco. O fato de ter amigos por ali, porém, ajudou bastante. Quando serviram o jantar, todos já estavam bastante “enturmados”. Não era como se nunca se encontrassem, afinal. Não eram muitas pessoas, apenas príncipes, princesas e alguns nobres bem selecionados vindos de países com quem Garean mantinha ótimas relações. 

Bem, exceto por aqueles de Chavante… Os irmãos de Malu. 

Jeongguk os odiava em um nível alarmante, simplesmente porque não conseguiam parar de soltar frases extremamente preconceituosas.

Ele sabia que era questão de cultura, porém, sua futura cunhada não era daquela forma. Não que fosse próximo dela, contudo, Claire era bastante. Sua noiva era, na verdade, a única amiga de Malu naquele palácio. Laura e ela já haviam sido bastante próximas em algum ponto, entretanto, por algum motivo que ele não tinha ideia, haviam se afastado drasticamente, ao ponto de sequer conversarem, a não ser quando não tinham escolha.

De toda forma, Claire já afirmara algumas vezes que sua amiga era tão indignada com as afirmações dos irmãos quanto eles mesmos. 

Ela só era quieta demais.

A hora favorita daqueles jantares, porém, era que também poderiam dançar. Era como mais um baile, como tantos o que aconteciam, exceto que a banda tocava músicas bem mais divertidas em grande parte do tempo, e, por serem somente jovens, era como se sentissem-se mais livres. 

Aquela hora de seu aniversário não era tão ruim quanto a maior parte deste.

— Vamos dançar, Claire? — perguntou ele para a noiva, esta que estava bem ao seu lado. 

— Guri, deixe-me somente me alimentar, por obséquio. 

Ele encarou o prato cheio da loirinha, somente então recordando-se de como ela conseguia ser lenta comento. Revirou os olhos, frustrado.

— Dance com a Laura — sugeriu a garota, de repente. 

Os olhos dele foram imediatamente para a princesa, que também o olhou por puro reflexo ao ouvir seu nome. Ela franziu o cenho, confusa.

Dançar… com a Laura?

Jeongguk amava dançar com ela. Amava de verdade. Mas não sabia bem se era o momento propício, embora, talvez, a garota fosse ficar ainda menos chateada com ele. Só não sabia se aquilo seria pior ou melhor dado o fato de que tinha certeza de que não conseguiria manter-se por perto tanto quanto deveria, pelo tempo que ela gostaria. Pelo tempo que até ele mesmo gostaria, simplesmente porque, mesmo quando seus pensamentos eram totalmente puros, continuava a se sentir imensamente culpado ao tocá-la. 

Antes que pudesse reagir, contudo, Laura o fez, perguntando:

— O que tem eu? 

— Jeongguk quer dançar — respondeu Claire, sorridente. 

A princesa de Garean voltou a encará-lo, os olhos intensos parecendo perfurar os seus. 

Jeongguk queria gritar. Não conseguia nem pensar em um motivo específico, simplesmente sentia a urgência de fazê-lo, mas é claro que não poderia. 

— E eu sugeri que vocês fossem companhia um para o outro. 

— Certo. — Jeongguk chegou a se assustar com a resposta imediata dela, ainda mais quando a mesma se levantou, rodeou a mesa e esticou a mão para ele. 

Seu coração parecia prestes a sair por sua boca, porém, respirou fundo e fez o esperado: levantou-se e aceitou a mão estendida. Ela o guiou até a parte onde tantos jovens dançavam livremente e posicionou-se em frente a ele, colocando uma das mãos em seu ombro e com a outra segurando a sua. 

Jeongguk sempre tinha a impressão de que Laura poderia facilmente guiá-lo na dança, entretanto, isso só poderia acontecer caso estivessem realmente à vontade. Sozinhos ou entre os seus mais próximos, em brincadeiras. Ali, por mais que fosse uma festividade mais informal, ainda tinham que manter alguns costumes, e Jeongguk realmente não ligava de fazê-lo. Apenas poderiam brincar caso, bem, todos estivessem bêbados, sem amarras, sem ligarem para qualquer aparência.

Como anteriormente dito, ele gostava de dançar com ela. Gostava daquela proximidade, da sensação de intimidade, dos olhos se encontrando. Entretanto, naquele momento, suas mãos estavam geladas, e Laura definitivamente tinha o percebido. 

Contudo, não estava esperando que ela falasse o que falou em seguida.

— Me desculpa — disse. — Desculpa por mais cedo, por ter sido tão invasiva e te acusar.

Jeongguk se esforçou para manter a dança como se não estivesse surpreso como estava. 

— Desculpa por não ter te contado do Joon também. 

Jeongguk analisou todo o rosto da princesa, atentamente, e Laura não pôde evitar fazer o mesmo. 

Ela estava tão, tão linda. Sempre estava linda. O Segundo Príncipe tinha certeza de que seus sentimentos distorciam um pouco sua visão, claro, entretanto, não era como se fosse o único que o achava. 

A diferença era que, para ele, aquela beleza esquentava seu peito, aquecia seu corpo, mexia com sua mente e coração de maneira que não conseguia controlar. O “estar linda” não era exatamente sobre estética. Era sobre ser Laura ali, era seu olhar, era sua aura e energia, era o sorriso acolhedor a cada vez que o via, era sobre como ela o fazia sentir. 

Laura o fazia sentir-se prestes a explodir.

Laura o fazia derreter de dentro para fora. 

Somente por estar ali, somente por existir.

O fato de ela estar tão mais calma só piorava a situação um pouco mais.

Laura estava pedindo desculpas.

Ele definitivamente não estava esperando por aquilo, afinal, sentia-se o único errado naquela situação desde sempre.

— Tudo bem — respondeu Jeongguk, por fim, a voz baixa, porém podendo ser ouvida pela proximidade. 

Laura ergueu a cabeça um pouco mais, ambos os pares de olhos se conectando imediatamente. De repente, estava com calor, e sabia que isso muito tinha a ver com a alta velocidade na qual seu coração bombeava o sangue. Era engraçada, porém, a sensação contraditória de que suas mãos ainda estavam geladas.

— Então vamos dançar?! — perguntou ela.

Jeongguk sorriu, perdido, porém tentando relaxar ao menos um pouco.

Ao menos naquele dia.

Ao menos naquela noite.

Ao menos enquanto estivesse com Laura. 

— Vamos dançar.

E eles dançaram, dançaram como se não houvesse amanhã. Desde as danças apenas em casal até as coreografias em conjunto, as tradicionais que eram feitas com muito mais alegria e diversão por todos ali. 

A cada momento, ela parecia mais bela. Seus cabelos soltos formavam a pintura de seu rosto bem desenhado, os olhos felinos o arrepiavam toda vez que se encontravam com os dele, e o sorriso… ah, o sorriso. Ora de pura alegria, enchendo seu coração de carinho, ora provocante, tornando difícil respirar.

Era destruidor.

Jeongguk se tornava completamente atento a cada detalhe da princesa, sem exceção, e isso só por ela estar próxima dele. Aquela dança, então, apesar de tão feliz, ainda era o retrato da tortura.

Não que quisesse ficar longe de Laura. Apenas se se sentia vulnerável. Ficar perto de Laura nunca era uma tarefa tranquila. Ou ao menos deixara de ser após determinado tempo. 

E aquela aura toda confortável fez com que ela se sentisse livre para brincar. Aos poucos, ia trocando as posições. Ela o abraçava por trás, pela frente, tocava em sua cintura e na base de sua coluna. Tudo foi ficando um pouquinho pior após ela ter começado a beber. Embora não estivesse realmente bêbada, Laura estava leve, e aquilo já era o bastante. 

Jeongguk não queria beber, e nem iria. Não podia. Deixá-lo-ia ainda mais vulnerável do que se sentia e — por todos os santos! — aquilo seria uma péssima ideia. Mal conseguia controlar seus sentimentos sóbrio. Bêbado, não conseguiria controlar suas ações também.

E a forma como ela o provocava o estava deixando louco.

Contudo, aquilo só o fez se sentir mal. Em sua cabeça, Laura se sentia livre com ele exatamente porque não pensava haver malícia alguma, desejo algum. 

O que não era o caso. 

A tensão estava ali, e ambos pensavam que era apenas coisa de suas cabeças, que apenas um sentia e o outro estava ali na total inocência. Ambos se sentiram mal por desejarem colar seus corpos cada vez mais, sentiram-se mal por querer explorar a pele um do outro com devoção, sentiram-se mal por estarem totalmente inebriados pelo perfume um do outro. 

Porém, ignoraram. Continuaram dançando e dançando. Ignoraram porque tinham medo de quebrar aquele momento e ser mostrado que na verdade problema nenhum tinha sido resolvido. Era apenas um band-aid colocado às pressas em uma ferida aberta que hora ou outra encharcaria o curativo a ponto de este não mais servir para sua função. 

Mas não precisavam pensar nisso naquele momento.

Jeongguk, especificamente, não queria pensar. 

Durante uma música mais sentimental, ela voltou a abraçá-lo por trás, permitindo-o sentir o calor de seu pequeno corpo evidentemente. Mais do que isso, sentir cada parte de seus corpos colada. E ele agradeceu por ter sido a parte de trás, porque assim ela não correria o risco de sentir exatamente o que cada toque mais provocante dela estava causando nele.

—  Obrigada por ficar comigo, Guk — disse Laura em seu ouvido. 

Arrepiado seria pouco para descrever como se sentira. Música para seus ouvidos? Era quase a própria Orquestra Nacional durante a melhor apresentação de sua história. A mesma coisa toda vez que ela usava aquele tom quase manhoso. Era quase um crime ela ser tão fofa quando mexia tanto com seus hormônios.

Jeongguk sorriu, sem saber exatamente o que dizer. 

Ele não queria realmente conversar.

Estar com Laura era bom, exceto quando brigavam. E naquele momento ele sentia que estavam exatamente como as relações diplomáticas dos países representados nas festas anteriores feitas naquele dia: por um fio. Um movimento em falso e tudo desmoronaria.

Por isso, ele apenas colocou as mãos sobre as dela e as acariciou, carinho que foi imediatamente retribuído com um aperto. 

Ele sentiu Laura descansando a cabeça sobre seu ombro e o corpo dela se aproximar ainda mais, abraçando-o com intensidade. 

Jeongguk pensou que seu coração ia explodir. A rapidez com que este bombeava seu sangue vinha tanto de seu nervosismo quanto do amor que parecia transbordar dentro de si. Contudo, em seu interior também havia medo, e muito. 

A situação com Namjoon havia finalmente aberto seus olhos para seus sentimentos, e, agora, tudo parecia insanamente claro. Cada sensação que Laura provocava em seu corpo e em seu coração parecia expandida. 

Era tortura.

Mas por que era tão bom agora que estava perto dela?

Por que sentia que congelar aquele momento para que nunca mais acabasse era a opção mais desejável?

— Eu sinto tanta saudade de você — confessou a princesa. Se fosse possível, os batimentos de Jeongguk teriam acelerado-se ainda mais naquele momento. 

— Eu também… — As duas palavrinhas saíram de sua boca sem que tivesse controle, um tom tão baixo que Laura quase não entendeu o que dissera. Ela o apertou um pouco mais naquele abraço, e Jeongguk quis desaparecer. 

A forma como agia não fazia o menor sentido para Laura, claro. Aquela afirmação, aquela confirmação de reciprocidade de sentimento, era totalmente contraditória às suas ações. 

— Por que está fazendo isso com a gente, Gukkie? — questionou ela, a voz tão quebrada que quebrou seu coração junto. 

Por todos os santos, o que ele estava fazendo com sua Laurinha? 

Por que mesmo tentando fazer o melhor a machucava tanto? 

Era tudo o que não queria. Jeongguk queria que Laura ficasse bem, feliz e contente longe de seus pensamentos e sentimentos nojentos. Mas acabava que não dava para ser simples daquela forma. Eles tinham um laço e aquele afastamento era uma tortura. Ao menos aquele tão lento… 

Seria melhor se cortasse aquele laço de uma vez?

Fechou os olhos com força, sem ter ideia do que responder. Sabia exatamente o motivo, porém, como iria explicar para ela? 

Cortar aquele laço… 

Como poderia fazê-lo?

Conseguiria fazê-lo?

Doía tanto, tanto…

— Eu apenas quero saber, Gukkie — disse ela.

— Ei, Laurinha… — De repente, ouviu a voz de Namjoon dizer atrás de si. 

Laura o soltou imediatamente, deixando um incômodo frio em seu lugar. Jeongguk se virou para ela no mesmo instante. A princesa já tinha tido uma das mãos tomadas por seu noivo. 

Jeongguk teve vontade de gritar. 

Não com Laura ou com Namjoon. Simplesmente… gritar.

— Desculpa, eu preciso dela — foi o que Namjoon falou, sorridente, tranquilo. E a puxou.

Laura sequer olhou para trás. 

Jeongguk não quis se perguntar para quê Namjoon precisava de Laura.

 

§

 

— Bom dia! — Jeongguk acordou com Jimin o balançando da maneira mais bruta possível. O príncipe não entendeu o que estava acontecendo em um primeiro momento. Não era do tipo que conseguia acordar rapidamente, muito pelo contrário. Resmungou, sem sequer abrir os olhos, e então girou pela cama. Sem paciência, Jimin pulou em cima dele, usando os braços e pernas para balançar o colchão e o próprio corpo de Jeongguk.

Inesperadamente, porém, o príncipe agiu por reflexo e o empurrou para fora da cama. Então, virou-se de bruços, obviamente querendo continuar a dormir. 

O som dos ossos de Jimin se chocando contra o chão o despertaram totalmente, porém. 

Porra — xingou o soldado, dolorido. 

Ainda não tinha se levantado do chão. Era muito mais surpresa do que qualquer coisa. Seus reflexos eram muito bons e ele sempre estava alerta. Ou, bem, quase sempre. Não estava quando subiu em seu melhor amigo.

O príncipe se sentou, checando se Jimin não tinha quebrado um osso. Jeongguk não tinha noção do quanto era forte. Por isso, acabava machucando pessoas de vez em quando, geralmente durante treinos de luta, às vezes no decorrer do dia mesmo.

— Está tudo bem? — perguntou Jeongguk, colocando os pés no chão ao lado de Jimin. O soldado já estava se levantando. 

— Perfeitamente — disse ele. 

Sua voz não dava tanta certeza, é claro, mas Jeongguk sabia que não tinha sido tão ruim a queda, pois Jimin ainda se mexia normalmente. Já vira o mais velho quebrar e deslocar ossos mais de uma vez e com certeza aquele não era o caso. Se fosse, Jimin o xingaria em todos os idiomas possíveis. 

— Vamos acordar. Sua família está te aguardando no salão.

— Tudo bem… — respondeu, levantando-se. 

Naquele mesmo momento, Glenda saiu do banheiro, assustando-o. Com certeza estava preparando seu banho. 

— Bom dia, Alteza — falou ela, curvando-se em respeito.  

Jeongguk realmente não gostava do jeito que a empregada o olhava. Tinha sempre um certo descontentamento, talvez até desprezo, o que sempre o indignava, pois não se lembrava de ter feito algo a ela. E mesmo que tivesse, duvidava que teria sido algo grande, principalmente algo grande o bastante para Glenda não disfarçar o que sentia mesmo sendo ele quem era. 

— Vosso banho já está pronto.

— Bom dia, Glenda. — Foi apenas o que saiu de sua boca. Ela o estressava ao ponto de sequer ligar para a educação, então o cumprimento era mais do que o suficiente. — Não demorarei, Jimin. 

— Tudo bem. Mas volte logo que tem que tomar o remédio — avisou o mais velho. 

Jeongguk apenas assentiu antes de se dirigir ao banheiro.

 

§

 

Após banhar-se, seguiu até o salão de refeições, com Jimin ao seu lado. Seu coração estava acelerado. Iria ver Laura novamente, e isso o deixava extremamente nervoso. Ele sempre queria estar perto de Laura, mas a situação não havia ficado mais amena depois da noite anterior. Não para Jeongguk. Muito pelo contrário. Não havia qualquer alívio em seu peito quando àquilo. Mesmo com os sorrisos e as brincadeiras, havia tantas coisas que não tinham sido ditas que não conseguia sequer pensar em como realmente poderiam se resolver.

E deveriam? 

Jeongguk merecia tê-la por perto enquanto sentia o que sentia por Laura? 

Jeongguk conseguiria ocultar seus sentimentos até que desaparecessem? 

Jeongguk seria capaz de fazê-los desaparecer?

Ele engoliu em seco ao entrar no salão. Mal percebeu Jimin se despedindo para ficar logo à porta do salão para vigiar. Não houve ornamento banhado a ouro que chamasse sua atenção quando a viu. Já estava sentada à mesa, porém sem comer. Seus pais ainda não haviam chegado, por isso esperava, assim como ele mesmo teria que fazer. 

Laura estava sentada na cadeira à direita da sua, conversando com Namjoon, que estava sentado em frente a ela. Parecia uma conversa muito mais do que interessante a julgar pela forma como ela sorria. Aquele sorriso… Aquele sorriso acabava com Jeongguk de tantas formas... Ele simplesmente não conseguia parar de pensar na madrugada anterior.

Laura sorrindo para ele.

Laura o abraçando por trás.

Laura sussurrando em seu ouvido.

O calor de seu corpo pequeno contra o dele. 

A forma como sentia que poderia ficar ali para sempre…

E então como a magia se quebrara com simples palavras recheadas de sentimentos sendo proferidas. 

Contudo, além deste sentimento, foi invadido com alegria assim que finalmente conseguiu forçar-se a desviar o olhar. Claire, sua noiva, estava lá, os cabelos loiros presos em um coque bem feito, deixando seu rosto de menina à mostra. Assim que o viu, a expressão da menina se iluminou ainda mais do que o normal. 

Ele sorriu para ela. Claire, sua melhor amiga no mundo, que o jogara para a cova dos leões no dia anterior. 

Revirou os olhos, vendo que a garota nada entendera sobre tal gesto. Entretanto, não deu importância, aproximando-se da mesa em passos médios. Não era como se estivesse realmente bravo. Claire não sabia da confusão interna que tinha causado em seu noivo.

Seus pais, felizmente, ainda não estavam ali. Contudo, o olhar de quem estava já fora o bastante para deixá-lo nervoso, porque ele simplesmente não sabia como agir depois do dia anterior. 

Aqueles tempos estavam sendo estranhos… definitivamente estranhos. 

Mas Jeongguk tinha a sensação de que somente ele se sentia de tal forma. 

Afinal, era ele quem tinha mudado. 

— Bom dia — falou ao chegar mais perto.

— Estás deveras formidável para um mero café da manhã, Príncipe — brincou Claire. 

Jeongguk riu.

— São os seus olhos. Minha beleza não se compara à sua.

Porém, antes que falasse mais alguma coisa, ouviu uma das portas se abrir. Imediatamente, eles se aquietaram e todos se colocaram de pé. Somente duas pessoas não tinham chegado até aquele momento, então eram as únicas que poderiam estar entrando. E assim foi. Rei Felipe e Rainha Giulia entraram, suas presenças imponentes preenchendo o grande salão imediatamente. 

Os mais novos estavam praticamente imóveis, e assim ficaram até que os dois se acomodassem e o rei permitisse que novamente se sentassem.

O silêncio que se seguiu foi mortal, e assim prosseguiu o almoço: na quietude total, sequer o barulho dos talheres era ouvido. Chegava a ser estranhamente ensurdecedor. Isso principalmente para Jeongguk, pois a falta de conversa deixava livre para seus pensamentos tomarem conta, e isso era um pesadelo. Tudo o que se mantinha em sua mente era a noite anterior. 

Ele conseguia sentir o perfume Laura claramente dali, e isso não ajudava em nada, ainda mais porque não conseguia parar de olhá-la de tempos em tempos. Era simplesmente inevitável. 

Não conseguia tirar a cabeça da noite anterior. Fora um descuido de sua parte. Uma imprudência. Laura mexia com ele de todas as formas. Estava vulnerável e a tensão entre ambos continuava densa. Tinham dançado, divertido-se… E então tudo novamente voltara a ficar tenso.

A princesa pedira desculpas por “ter sido invasiva”, porém não queria continuar sem respostas. Jeongguk entendia. Sabia que se fosse o contrário ele também ficaria agoniado. 

Oh, pelos santos, pensar em como seria se fosse o contrário apenas mostrava o quão horrível aquilo deveria estar sendo para ela. Um afastamento sem real justificativa. Laura definitivamente não tinha caído na história de que era somente o “fator Namjoon” e Jeongguk não tinha ideia do que mais poderia usar; visto que a verdade não era uma opção.

— Filho — chamou sua mãe. 

Ele a olhou imediatamente, sério. Tudo o que mais odiava era ter que prestar respeito a alguém que fazia muito não tinha sua admiração. Mas não tinha muita escolha. Além de sua mãe, Giulia era sua rainha, e sua educação jamais permitiria que fosse realmente rude com ela. Era o que preferia pensar.

— Senhora? — respondeu, sentindo seu interior revirar-se por inteiro ao ver o sorriso satisfeito da mulher. Seu exterior, porém, permaneceu totalmente inabalável.

— Por que você não faz um passeio com sua noiva? 

Ele olhou para Claire, e ela sorriu. Parecia uma boa ideia. Jeongguk sabia que sua mãe era louca para que eles realmente se envolvessem. Era um dos aspectos que ele acabava por sentir que ela se importava um pouco. Não o fazia chegar nem perto de perdoá-la, mas era algo. E aquela ideia era boa. Podia não amar Claire como era esperado, e nem ela amá-lo, todavia, ainda eram melhores amigos. Havia esse tipo de amor em sua relação. Passar um tempo juntos era sempre bom.

— Penso que essa seja uma ideia mais do que formidável, minha mãe — respondeu finalmente, olhando para ela. 

— Nós podemos fazer um piquenique. Concordas, Jeongguk? — De repente, a voz de Claire desviou sua atenção, e ele a fitou. Então, assentiu. 

— Claro — respondeu por fim. 

— Hale, arrume uma cesta para o Príncipe Jeongguk e peça para prepararem três cavalos — ordenou Giulia a uma das funcionárias que esperavam em volta da mesa. 

— Claro, minha Rainha. 

  

§

 

O príncipe fechou os olhos, sentindo a brisa suave em seu rosto conforme o cavalo avançava. Ele realmente gostava do balanço, principalmente quando iam para a cachoeira, como estavam fazendo naquele momento. Para isso, precisavam embrenhar-se na mata, e toda aquela conexão com a natureza o trazia paz. Contudo, nem a natureza estava sendo capaz de aquietar seus pensamentos. 

Laura. Laura. Laura.

— Olhem, a queda d’água! — exclamou Claire, sorrindo docemente. 

Jeongguk voltou ao mundo real em um puxão, avistando a tal "queda d'água" — também chamada de cachoeira — a quase cem metros de distância. Imediatamente, reconheceu a oportunidade e gritou:

— Quem chegar por último, vira mula-sem-cabeça! — E agitou as rédeas para que seu cavalo, fazendo-o correr na frente. 

Jimin soltou um grito antes de segui-lo e Claire começou a rir, inevitavelmente ficando para trás junto aos outros quatro soldados que os acompanhavam quietos como mortos. Não que ela se importasse. 

— Trapaceiro! — berrou Jimin, xingando todos os palavrões que conhecia.

Jeongguk sorriu, sentindo-se um pouco mais leve ao chegar na beirada da água. Seus passeios nunca eram tão silenciosos quanto aquele tinha sido, e o príncipe sabia que era por Jimin, assim como Laura, estar chateado com ele. Então, ouvi-lo brincando novamente era aliviante.

Desceu em um pulo e amarrou seu cavalo em uma árvore. Mal terminou, Jimin o pegou por trás, prendendo seus braços. Ele começou a rir, lutando para fugir. Porém, Jimin o neutralizou, utilizando uma de suas mãos para fazer cócegas em suas costas, e Jeongguk perdeu toda e qualquer força, sendo facilmente arrastado até a água. De roupa e tudo, Jimin o jogou. Contudo, com seus rápidos reflexos, Jeongguk o segurou pelo pulso e o puxou junto. 

— Porra — disse Jimin, emergindo. — Tá fria pra caramba. Não vem aqui não, Claire. 

— Esta nunca foi minha pretensão — respondeu a loirinha, descendo as coisas do piquenique. Ela começou a ajeitá-las em cima de uma pedra, enquanto os garotos passaram a tentar afogar um ao outro em mais uma brincadeira. Os quatro soldados designados para ajudar na proteção de Claire e Jeongguk se espalharam, vigiando o perímetro como era de praxe. 

De repente, Jeongguk sentia como se nada de ruim tivesse acontecido. Porém, é claro que aquilo não durou o tanto que ele gostaria. 

Parecendo cansado, Jimin pediu uma pausa com um gesto de mão, e estaria tudo bem se não fosse o olhar em seu rosto. Jeongguk conhecia seu melhor amigo. Entendeu antes que ele abrisse a boca que queria falar algo. Não era uma simples pausa para descansar. Era a oportunidade de conversar. Contudo, o príncipe não queria conversar; não sabendo sobre o que ele provavelmente queria falar. Insistente. Jimin era assim. Enquanto Taehyung dava seu tempo, não exigindo sequer que falasse algo se não se sentisse confortável, Jimin se sentia traído por não saber. 

— Guk, quando você vai me contar o que tanto te impediu de querer voltar pra casa? — perguntou, sem rodeios. 

O príncipe comprimiu os lábios, sentindo todo o seu sangue gelar. Saber que Jimin pressioná-lo-ia era diferente de vivenciá-lo. Por que Jimin tinha que conhecê-lo tão bem? Por que ele tinha que ter tido uma reação tão óbvia em sua conversa no quarto? Jeongguk não podia contar. Porém, mentir para Jimin era impossível. 

— Tem a ver com a Laura? 

O príncipe sentiu seu coração se acelerar imediatamente. Por um momento, perguntou-se o quanto Jimin o conhecia. Tinha sido o bastante para perceber que tinha a ver com Laura. Mas ele não poderia nem pensar no que realmente era, certo? Não seria uma possibilidade que passaria pela cabeça do soldado. Para Jimin, não havia sequer a dúvida da origem de Laura, aquela mesma que parecia impedir Jeongguk de empurrar aquela maldita paixão para longe. Jimin tinha certeza que Laura era a princesa de Garean, a princesa legítima, portanto, para ele, ambos compartilhavam o mesmo sangue. Assim, jamais pensaria que os sentimentos de Jeongguk seriam diferentes dos que os de um irmão. Era literalmente impensável, repugnante, e lembrar-se de tal fato fazia o estômago do príncipe se embrulhar. Afinal, para Laura deveria ser do mesmo jeito, e isso fazia com que se sentisse sujo, como se estivesse desrespeitando a garota que tanto amava. E doía. Doía tanto que chegava a sufocar. Sujo era dizer o mínimo. 

— Por qual razão pensou nessa possibilidade?

— Eu não sou idiota, Jeongguk. — Revirou os olhos. — Vi como você estava evitando ela esses meses, mas pensei que era coisa da minha cabeça. E não adianta tentar negar, consigo ver nos seus olhos. Você 'tá totalmente perturbado. 

Jeongguk soltou o ar com força, afastando-se, e então fechou os próprios olhos. Sentia-se sem ar, como se a própria presença de Jimin o estivesse sufocando. Sua cabeça girava e girava. Queria correr, porém, não podia. Essa opção simplesmente não existia. Jeongguk sabia que Jimin não o deixaria em paz até estar satisfeito. Tentou trabalhar seus pensamentos em busca de uma solução. E então ela veio, ou o que ele esperava que fosse uma. Voltou a fitá-lo, totalmente sério.

— Tem sim a ver com a Laura, Jimin. Mas eu não posso dizer, é algo íntimo dela. 

O Park suavizou a expressão, e o alívio se instalou em Jeongguk. Infelizmente, o peso também estava lá. Não era mentira. Ele vira Laura em um momento íntimo com Namjoon, isso fora a causa de tudo. Ou melhor, o que aquela cena causara em seu interior. O príncipe odiava esconder coisas de Jimin. Nunca houvera algo que o soldado não soubesse sobre ele. Porém, agora, tudo parecia diferente. Sentia-se colocando um muro entre eles, mas não havia outra escolha. 

— Esse algo fez com que brigassem? — questionou Jimin, mais tranquilo, apesar da preocupação em seu rosto. 

— Nós nunca tínhamos ficado desse jeito… — Suspirou, sentindo-se cada vez pior. Não respondera à pergunta, afinal, eles só tinham brigado depois de terem chegado de viagem. Preferiu desconversar. — Nunca. Eu não conseguia sequer olhá-la.

— Não vou mentir: isso está me assustando. Não consigo pensar em algo tão grave para Laura ter feito. Logo ela… 

— Não foi tão horrível quanto você está pensando. Digamos que ela me disse algo, porém suas ações foram totalmente contrárias à sua fala. Eu fiquei bem chateado. 

— Ela ficou muito mal, Guk — confidenciou Jimin, baixinho, e Jeongguk sentiu uma agulhada em seu coração. Logo ele, o causador de toda aquela dor. Por que seu coração tinha que ser tão errado? — Acho que nunca a vi tão abatida. Toda vez que você se afastava, era quase como se estivesse recebendo um soco. E é claro que depois parecia totalmente plena. Mas eu a conheço também. Não tanto quanto te conheço, mas é o bastante. Agora vocês estão melhor?

Sem energia após novamente se lembrar do quanto fizera mal para Laura por algo que ela sequer tinha culpa, Jeongguk teve uma imensa vontade de apenas dar de ombros. Entretanto, esforçou-se para responder.

— Ontem nos desculpamos. Mas depois as coisas desandaram, e hoje no café da manhã ela sequer me olhou. Então, eu não sei, Jimin. Não sei se estamos bem. Na verdade, tenho quase certeza de não estamos.

— Guris, venham comer — disse Claire, interrompendo a conversa. 

Os dois se olharam mais uma vez antes de saírem da água. Jeongguk tentou respirar fundo ao que tirava parte de suas roupas, ficando apenas de calça. A vestimenta molhada estava pesada, mas foi o olhar reprovador de Claire que o obrigou a ficar com menos roupas. Quase ouvira a voz dela em sua cabeça: “Tire essa roupa molhada para que não fique doente”.

Assim, ficou com o tronco bem definido exposto, sentindo o vento arrepiar a pele amorenada com sua temperatura baixa. 

Lá, porém, ainda tinha sol, diferente da área próxima ao palácio, onde as nuvens ameaçavam chorar.

— Mandona.

— Eu não estou a falar coisa alguma, Jimin Finkler Park — disse Claire, indignada. 

— Seus olhinhos verdes são o bastante. 

— Fico deveras chateada. 

— Sei. 

— Como vocês são irritantes. 

Jeongguk a olhou, perguntando-se o que ele tinha feito já que mal havia aberto a boca, mas no fim deixou para lá. Pegou uma quitanda e a mordeu.

— Vocês se divertiram bastante ontem, não é? — falou Jimin. — Dançaram pra caramba.

— Evidentemente — respondeu Claire. — Principalmente Jeongguk. Divertiu-se intensamente junto a Laura. Permaneci a maior parte da festa a conversar com Malu. 

— Somente porque negou meu convite — apontou o príncipe.

— Eu estava a me alimentar. 

— Você demora demais pra comer, Claire. Credo — reclamou Jimin. 

— E você ficou o tempo todo com Hoseok… 

— Isso não tem a ver com o assunto e, na verdade, não foi o tempo inteiro. — Bufou. — Tive tempo pra ter uma bela conversa com uma nobre de Chavante.

— Nobre de Chavante? — perguntou Jeon. 

— Ela não disse que era de lá, mas eu reconheço aquele sotaque em qualquer lugar. A atitude babaca também é inconfundível. Antro de cobras. 

— Jimin, não comeces — repreendeu-o Claire. 

— Você que não comece. Não comece a agir como se a Malu fosse a regra, a gente sabe que ela é a exceção. Nem os pais dela se salvam, sequer os irmãos. Talvez alguma das meninas.

— Não estás sendo justo ao dizer tais palavras. Conhecendo apenas parte, não podemos julgar o todo. 

— Nisso ela tem razão, Jimin — concordou Jeongguk, pegando um doce. — Se existe a Malu, existem outros chavantinos. Não seja preconceituoso. — Remexeu-se, incomodado. 

— Preconceituoso? Eu só estou julgando exatamente pelas ações que tiveram ontem — falou indignado, colocando-se de pé. 

Claire e Jeongguk se entreolharam. Aquilo já deixava as coisas um pouquinho mais sérias e os preocupava. Ambos sabiam o quanto Jimin acabava por sofrer coisas diferentes das que eles sofriam. Afinal, na hierarquia, ele estava abaixo dos nobres, e comentários idiotas que seriam segurados em suas presenças, na dele não hesitariam em dizer. Aquilo preocupou e irritou Jeongguk. O que eles tinham feito com seu amigo?

— Explique detalhadamente, Jimin — disse totalmente sério. — E sente-se. Está me deixando agoniado andando assim.

Jimin suspirou uma, duas, três vezes, e então obedeceu, colocando-se de frente para o príncipe.

— Uma garota ficou enchendo o meu saco a festa inteira, dando em cima de mim. Eu disse que ela não era meu tipo, mas a menina não desistiu, até que eu expliquei, quase desenhei, que, porra, eu não gosto de garotas dessa forma. E foi como se ela estivesse esperando por isso. Passou a ser ela e todos os outros que vieram juntos me olhando, rindo, falando idiotices. 

— Por que você não me contou? — questionou Jeongguk, com o cenho franzido, o interior borbulhando fervorosamente. 

— Você estava com Laura. Eu não ia interromper um momento de vocês depois de tanto tempo. Além disso, eu fiquei puto, mas sobrevivi. Depois do meu pai, eu sobrevivo a qualquer coisa. Só me irrita muito que consigam ser tão otários. Tipo, caralho, garota, depois de um fora, segue a porra da sua vida. Deve ser daquele tipo que pensa que um cara só não vai dar atenção pra ela se não gostar de meninas.

— Então tu vieste e comprovaste a teoria dela — zombou Claire. 

Jimin revirou os olhos, porém sorriu. E Jeongguk tentou ficar mais tranquilo. O que iria poder fazer naquele instante? Mais nada. Talvez nem no momento exato do acontecimento poderia ter feito algo. O que mais o irritava era isso. A tensão com Chavante estava tão grande há tanto tempo que qualquer coisinha seria um perigo. Yoongi estava comprometido com Malu justamente para resolver isso de uma vez por todas. Yoongi estava abrindo mão de seu amor por outra pessoa justamente por causa disso.

Mas, de verdade, quem essas pessoas pensavam que eram? Com certeza, as mais poderosas, as intocáveis. Tiveram a audácia de ir a um país estrangeiro como convidados para seu aniversário e zombarem de seu protetor sem medo algum de uma punição. E o pior é que agora deveriam estar de volta a Chavante, achando engraçada a sua “diversão”. Sem punição alguma. 

Essa parte também era difícil, afinal, Jimin não era “importante o bastante para arriscar piorar ainda mais suas relações”. 

Chavante era um reino com um exército extremamente forte, assim como armas elaboradas feitas com os melhores metais — sendo estes bastante abundantes em seu território. Contudo, sua água era suja, tóxica, e seu solo, estéril. Por isso precisavam de Garean, um reino extremamente rico nesse aspecto. O que se temia era que eles atacassem Garean em uma tentativa de tomá-lo e se aproveitar de suas riquezas naturais. Antes mesmo do casamento de Yoongi e Malu acontecer, já tinham feito uma aliança menor, afirmando que os países não poderiam investir de maneira pesada em seus exércitos — e sim apenas o bastante para sua defesa —, para prevenir que um tivesse o poderio para atacar o outro de maneira efetiva. 

Jeongguk não confiava muito na palavra da família real de lá, porém, e sabia que muitos também não. Seu pai, contudo, estava cumprindo a própria palavra, e ele achava tal postura arriscada. Aquela família, a família de Malu, não parecia confiável em nenhuma circunstância. 

Contudo, eles não poderiam agir como se fossem os donos de tudo. Não eram. O casamento seria o selamento de uma paz que era almejada há muito, muito tempo.

Mas, naquele aspecto do preconceito, Jeongguk não conseguia ficar chocado, falando com sinceridade. Garean era um pouco “avançada demais” no quesito aceitação — o fato de Jimin não ter vergonha alguma de afirmar sua sexualidade falava por si só —, mas Chavante, apesar de não estar no extremo oposto, passava bem longe de ser tão “evoluído”. Fosse sobre raça, sexualidade ou gênero, Chavante era um país retrógrado em suas ideologias e, por mais que odiasse ver qualquer um generalizar, não podia negar que grande parte de seu povo espelhava todos os pensamentos horríveis que os nobres tanto demonstravam. 

Com o casamento de Malu e Yoongi, chavantinos e gareanos poderiam cruzar as fronteiras quando quisessem, e pensar em ter pessoas que sequer tinham receio em externar seus pensamentos preconceituosos até mesmo se mudando para Garean parecia um pesadelo. Porém, seria esse o preço para acabar com a tensão de uma guerra que parecia sempre prestes a acontecer. 

Jeongguk sabia que Yoongi tinha uma pressão enorme em seus ombros. O Primeiro Príncipe, futuro rei, o instrumento para a selagem de um acordo extremamente importante para dois dos maiores reinos do continente e do planeta. Nenhum dos filhos do rei estava em uma real boa situação. 

Às vezes, ele sentia como se ser da realeza fosse uma maldição. Tudo o que ele queria era poder fazer o que quisesse uma vez na vida. Contudo, tinha que engolir cada um de seus sentimentos por incontáveis vezes. Tinha que fingir para que o povo continuasse a enxergá-los como um modelo, como seus heróis. A família real da casa de Ferrant e Lyon, uma família feliz, bem estruturada, forte, inteligente, que se importava com o povo. 

Uma família perfeita. 

Todos do reino admiravam sua família, mas o que eles pensariam se soubessem da verdade?

O que eles pensariam se descobrissem que seu rei tomava muitas de suas decisões com uma alarmante quantidade de álcool correndo em suas veias?

O que eles pensariam se descobrissem que o Segundo Príncipe era apaixonado pela princesa?

O que eles pensariam se descobrissem que sua rainha fora capaz de propositalmente deixar seu filho de apenas seis anos ficar por mais de vinte quatro horas sem comer?

De algo Jeongguk tinha certeza: nunca mais usariam aquela maldita palavra para qualificar a família real de Garean.

Eu queria que o que diziam sobre nós fosse verdade. Realmente queria. 

Queria que nós fôssemos uma família feliz e harmoniosa. Queria que não houvessem segredos além dos normais entre qualquer pai e filho, aqueles por uma vergonha simples e boba, um constrangimento por serem “seus pais”. Queria que meu pai fosse meu herói e minha mãe, minha heroína. Queria tê-los como meus exemplos, como as pessoas a quem eu mais admiro no mundo. 

Queria ser próximo de meus irmãos de maneira normal. Queria ter total e completa certeza de que ambos são realmente meus irmãos e de que ninguém mentiu para ninguém durante praticamente toda a sua vida. Queria amá-los da mesma forma, na mesma intensidade, sem qualquer outro sentimento no meio. 

Mas as coisas não eram assim. Elas passavam muito longe disso.

Porque meus pais conseguiam ser extremamente cruéis quando queriam. Porque a maior parte das lembranças que tinha com eles eram no mínimo desconfortáveis e, em sua maioria, ainda me enchiam de medo e aflição. Porque às vezes a real sensação que tinha era de que minha mãe me detestava de maneira irremediável por algo que não tinha ideia do que era. 

Porque tinha algo de muito errado comigo que não me permitia sentir de maneira além da qual me sentia. 

Tudo parecia errado, fora do lugar. Como se aquela não devesse ser minha vida. 

E a verdade era que não se tratava de nada além do próprio desejo do fundo da minha alma. 

Porque não apenas desejava tudo o que já falei. 

Eu desejava, sim, ter a família feliz e harmoniosa e que meus pais fossem como quaisquer outros pais normais. Mas também almejava ser um homem normal, que andaria pelas ruas da cidade sem ser parado em momento algum, afinal, seria apenas mais um entre tantos. Almejava poder escolher o que faria com a minha vida, ter várias opções do que ser no futuro e ser capaz de decidir entre as opções limitadas que, na verdade, seriam muito mais amplas do que as que já tinha. 

E, além disso tudo, também poder escolher com quem passaria o resto de meus dias. 

E, bem, no mais profundo e escondido lugar em meu coração, desejava que essa pessoa escolhida pudesse ser exatamente aquela que tanto me era proibida.


Notas Finais


E aí? Tentei colocar mais interações entre os bebês, dá pra ver kdjnfksnfdsk. Laukook sempre sofrendo XD. Se não me engano, o próximo vai ter um pouquinho de foco no Yoongi.

Enfim, lembrando que estou postando também no Wattpad:

https://www.wattpad.com/myworks/210338798-os-filhos-do-rei

Me sigam por lá também!

É basicamente isso??? Não sei muito o que falar skndfksjdfk.

Obrigada por terem lido e até <3


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