História Os Garotos - Capítulo 12


Escrita por: ~

Postado
Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix, Saori Kido (Athena), Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda
Tags Romance, Saint Seiya, Vida Escolar
Visualizações 94
Palavras 8.003
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Adolescente, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Nota Inicial: Eu coloquei esse capítulo de Os Garotos como Side Story[1] (definição nas notas) porque ele foca na personagem original Erika Kanagawa, que é uma coadjuvante, mas que fará um papel importante mais adiante na trama.

Eu fiz uma mudança no final do capítulo também, que vai estar bem diferente na primeira versão. Explico nas notas finais.

Capítulo 12 - Capítulo 12 - Entre a Ética e o Coração - Side Story


 

Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo XII (Side Story)

Entre a Ética e o Coração

A doutora Kanagawa morava sozinha em um condomínio residencial próximo ao parque de Arakawa, o mesmo bairro em que ficava seu escritório em Tóquio.

Ela havia acordado cedo naquele domingo, às quatro da manhã, com a intenção de preparar uma mesa de café caprichada para seu convidado.

Ikki havia ligado no dia anterior pedindo sua ajuda referente a um problema com Seiya.

Sabia que não era nada informal, mesmo assim, o convite para que ele viesse tomar café com ela para expor o problema saiu sem que percebesse.

E tão naturalmente quanto fez o convite Ikki o aceitou.

 O rapaz havia vivido muito tempo fora do país, por isso a advogada optara por um cardápio com iguarias ao estilo ocidental, com café, suco, pães, frutas, panquecas, biscoitos, ovos fritos, geléia e bolo. Ao invés do tradicional japonês, com arroz, missôshiro[2], peixe e legumes cozidos.

Parou e analisou com concentração a mesa posta, tentando ter certeza de que não faltava nada. Encomendara a maior parte dos quitutes na padaria, porque cozinha não era seu forte. Mas arriscou-se a fazer o bolo e as panquecas, seguindo passo a passo a receita de um canal de vídeos da internet.   

A campainha soou de repente, fazendo com que se sobressaltasse.

— Que susto! — exclamou levando a mão ao peito. — Será que ele chegou? — duvidou, consultando as horas no relógio de parede e confirmando que havia se passado apenas quinze minutos das sete da manhã. Era uma hora e meia de viagem de Fujisawa até Arakawa. Se fosse mesmo Ikki, ele tinha acordado as cinco para chegar aquele horário. — Sendo que marcamos as nove... Será?

 O toque da campainha insistiu e ela se moveu rápido.

— Estou indo!

Antes de chegar à porta, retirou o avental, soltou os cabelos e ajeitou as roupas olhando-se no reflexo da cristaleira. Suspirou fundo ao se deter diante da porta, apanhou a maçaneta com cuidado e a girou, recordando-se de mostrar o sorriso que ensaiara.

— Bom dia!

— Bom dia, Erika! — a resposta imediata que recebera fora empolgante, exatamente como esperava, no entanto, não era de quem aguardava; desfez o sorriso. 

— O quê quer aqui tão cedo, May?

— Nossa? É muito bom rever você também depois de dois meses, né, amiga? — reclamou a visitante, repousando as mãos na cintura e fazendo Erika suspirar desolada.  

May era amiga de Erika desde os tempos de colégio, mesmo as duas sendo verdadeiros opostos. Erika sempre se preocupara com os estudos e a formação, tendo como hobby a literatura, May preferira investir na aparência e nos relacionamentos.

Vaidosa ao extremo, a amiga da advogada era do tipo que de tempo em tempo trocava o colorido dos cabelos, estava sempre de unhas bem feitas; cuidava da pele com tratamentos estéticos, além de manter a boa forma com a pratica de exercícios regulares e dieta. O resultado de tanto empenho era que May podia exibir uma enorme lista de ex-namorados, enquanto Erika tivera um total de dois ao longo dos seus vinte e sete anos de vida. Além do fato de ambos tê-la trocado pela própria May.

Ou seja, apesar de serem amigas de infância, havia um abismo de diferenças que as distanciavam, além da rivalidade.  

— Você está daquele jeito, Erika — comentou May após uma breve análise no rosto da colega. — Pálida e muda — acrescentou. — E isso significa uma única coisa: que está esperando uma visita e essa visita é um cara!  

— Um cliente — retificou, revirando os olhos.

— Um cliente em sua casa? — desconfiou a outra, cruzando os braços sobre o busto volumoso e arqueando uma das sobrancelhas.

— Será que podemos conversar mais tarde?  

— É alguém especial, não é? Olha aquela mesa de café! — apontou atrás da colega. — Que cliente merece tanta atenção nos detalhes assim? Amiga, você não me engana.

— Eu prometo que conversaremos mais tarde, mas agora, será que pode, por gentileza, ir embo-...

A fala da advogada se perdeu e os olhos se arregalaram. A vizinha logo percebeu que a reação se devia a chegada do “tal cliente”, e, curiosa, voltou-se depressa para trás.

Tal como Erika, fora impossível para May evitar a surpresa.

Não era nada do que sua mente ideara naqueles poucos instantes: o cliente de Erika não era um velho, tampouco sofisticado, nem nerd. Os tipos com os quais a advogada se relacionara anteriormente. Aquele homem era o completo oposto destes outros. Apesar de aparentar ser jovem, ele tinha um ar maduro, estatura elevada, o corpo em forma, com músculos a vista, desde o tórax, bem ajustado na camisa preta de manga cavada, aos braços bem torneados.

Os cabelos negros tinha um corte rebelde, irregular e os olhos eram uma afronta a parte, azuis, gateados, tão expressivos que pareciam-lhe analisar a alma. Nem mesmo a cicatriz entre os olhos, que lhe concebia uma expressão fechada, tiravam dele o charme e o ar misterioso.

Prendeu a respiração.

— Bom dia — Ikki desejou, seu timbre de voz soando grave.

Após alguns segundos, as duas mulheres responderam ao bom dia de forma desajeitada e gaguejante. Erika não pode deixar de notar o rubor ganhando a face de sua amiga-rival e aquilo a incomodou.

— Estou atrapalhando? — foi o visitante quem perguntou.  

— Não! — respondeu a advogada em sobressalto. — Essa é... Ela é... A minha vizinha. E está de passagem. Né, May?

— Prazer em conhecê-lo — disse May, curvando o corpo para frente em saudação. — May Nakajima. Amiga de infância e vizinha da Erika. 

— Ikki Amamya — respondeu menos formal, fazendo apenas um meneio com a cabeça.

— May, você não estava de saída? — Erika interpôs e a amiga fez uma cara de desentendida.

— Estava?

— Estava — garantiu a outra entre dentes.

Antes de dar-se por vencida e se retirar, May mediu o visitante de cima em baixo mais uma vez, tentando deixar bem entendido seu súbito interesse, e até prendeu o lábio inferior nos dentes e sorriu de forma maliciosa ao se afastar acenando com as pontas dos dedos.

— Até qualquer hora, Amamya-san.

“Eu não vi isso!”, irritou-se Erika com a atitude de May. “Como ela pode ser tão despudorada e dar em cima dele tão depressa? Ah! Eu fico louca com isso!”.

— Ta tudo bem, Kanagawa? — quis saber Ikki, notando a alteração de humor na advogada. — Tem certeza de que não atrapalhei nada?

— De forma alguma — respondeu com convicção, meneando a cabeça negativamente para afastar a irritação e apontando a entrada. — Entre, por favor.

Ikki entrou, pedindo licença e deixou os calçados na soleira da porta.

Erika encostou a porta, mas o incômodo que se apossou do seu interior não se dissipou. Era vergonhoso, mas precisava sanar aquela angústia ou não conseguiria agir naturalmente. Assim, mantendo a cabeça baixa, para evitar expor seu constrangimento, acabou juntando coragem e fez a pergunta.

— O-... O- o- que achou?

— Parece tudo delicioso.

Ela levantou a cabeça, confusa com a resposta, e viu a atenção de Ikki voltada para a mesa do café.

Acabou sorrindo.

— Estava me referindo a minha amiga — explicou, apontando a porta em suas costas.

— E o que tem ela? — Ikki quis saber, indiferente, apanhando uma uva do cacho que estava junto com outras várias frutas na travessa em cima da mesa.

— Desculpe-me a pergunta idiota — pediu, começando a sentir-se infantil por sua inquietação. — É que é comum acharem ela muito bonita.

Ikki notou a apreensão na face da advogada. Não conseguiu compreender o motivo. Menos ainda a pergunta relacionada com alguém que sequer conhecia, ou o que aquilo tinha a ver com os dois, ou com o assunto que viera expor. Pensou que talvez fosse algo da natureza feminina aquelas questões estranhas levantadas do nada. Recordou-se em como sua relação com Saori Kido fora difícil.  Mas não sabia dissimular respostas para soarem agradáveis, e apenas respondeu o que realmente achou.  

— Ela parece artificial — disse sincero, mesmo que parecesse grosseria da sua parte. Em seguida comeu a uva.

Ikki não percebera de imediato, mas sua resposta causou um grande alívio na advogada, que depois de passado o impacto daquela resposta, sorriu abertamente, sentindo as bochechas e o coração em brasa.

— Ok. Vamos tomar café então? — convidou.

— Estava esperando pelo convite.

...

Enquanto isso, em Fujisawa...

Seiya havia despertado fazia algum tempo e, apesar da preguiça, não conseguiu ficar na cama por muito tempo.

Era confortável ter um quarto, uma cama, mesmo que estivesse dividindo o cômodo com Shun.

Todavia, aquilo para ele era um “conforto-desconfortante”, por ser hiperativo por natureza não conseguia aproveitar daqueles pequenos luxos.

Olhou para cama ao lado e a notou arrumada, decidiu que era hora de se levantar também.

Passou no banheiro para as necessidades básicas, incluindo escovar os dentes e lavar o rosto, depois desceu para cozinha ainda de pijama, deparando-se com a mesa do café posta.

— Uau! Quanta comida! Que fome! — admirou, passando a mão fechada em punho no canto da boca, por onde escorria um filete de saliva.

— Quer arroz?

A pergunta vinda do nada fez Seiya sobressaltar e soltar um grito com o susto.

— Ah! — exclamou de forma exagerada e virou-se na direção que a voz viera, notando enfim a presença do amigo Shun na repartição interna da cozinha. — Avise quando estiver escondido!

— Eu não estava escondido. Você quem estava distraído — resmungou a resposta, chateado pela acusação. Então apanhou um chawan[3] no armário em cima da pia e passou a enchê-lo com arroz, mesmo sem a resposta de Seiya.

— E para onde foi todo mundo? — perguntou o colega moreno, acomodando-se à mesa e recebendo o chawan cheio de arroz das mãos do mais novo. — Arigatô, Shun. — Apanhou os hashis e antes de começar a refeição, juntou as mãos e agradeceu. — Itadakimasu[4]!

— O Hyoga foi correr na praia e o Shiryu está meditando no jardim — respondeu o caçula, sentando-se à mesa também e servindo-se com chá verde.

— E o “pai”, cadê?

Shun parou de bebericar o chá que havia servido para si e juntou os lábios em um bico de consternação.

— Ih... O que foi agora? — quis saber Seiya, sem se preocupar de falar com a boca cheia.

— Não é nada — redarguiu o mais novo, empurrando a cadeira para trás de forma abrupta e se levantando.

Hyoga entrou nesse momento, suado e ofegante da corrida matinal.

— Bom dia — desejou aos irmãos, mas apenas Seiya o respondeu. Shun parecia distraído na pia.

— Bonch dichia.

— Engole primeiro antes de responder, seu nojento.

Seiya tentou engolir depressa, ao ouvir a repreensão vinda do russo, e deu algumas batidas no peito para comida descer de uma vez, então pode rebater ao loiro.

— Ah?! Vai ficar me enchendo o saco que nem o Ikki agora, é? Olha quem está chegando à mesa do café todo suado e fedendo!

— O meu caso eu resolvo agora mesmo, eu só passei para desejar “bom dia”, estou subindo para tomar um banho — Hyoga rechaçou. — Você está vivendo em família agora. Precisa aprender bons modos.

— Vai pro infer...

— Hein? — Hyoga aproximou-se de Seiya para cochichar, fazendo-o esquecer-se do xingamento. — O Shun está bravo ou é impressão minha?

— Eu não sei o que deu nele — deu de ombros. — Só perguntei onde o Ikki tinha ido e ele saiu da mesa com a cara fechada — explicou, voltando para o café da manhã, apanhando os pedaços da omelete em outro refratário com os hashi. — Hm! Delícia!

Hyoga soltou um resmungo em compreensão. Voltou a ficar ereto, mirando as costas do caçula.

O motivo para Shun estar bravo certamente envolvia a advogada. E, algo do qual vinha desconfiando tinha acabado de se confirmar: Shun estava sentindo ciúmes do aprofundamento da relação de Kanagawa com o irmão mais velho.

E, de alguma forma, aquela demonstração de ciúmes de Shun com relação ao Ikki também o incomodava.

Muito.  

...

De volta ao apartamento de Erika.

A advogada recolhia a mesa do café enquanto Ikki aguardava na sala. Ela dispensara totalmente a ajuda oferecida pelo rapaz, alegando que ele era visita e não deveria se incomodar com as tarefas da casa. Não que Ikki achasse que recolher a mesa e lavar algumas louças fosse um “incomodo” realmente, mas eram as regras dela, achou melhor concordar.

Notou que o apartamento apesar de pequeno era bem organizado e confortável. Estava de pé diante da raque, observando com curiosidade os inúmeros porta-retratos dispostos no móvel. Deteve-se principalmente naqueles em que Erika aparecia abraçada com um jovem de cabelos negro, sorriso avantajado e de boa aparência. Imaginou ser o namorado dela, por haver várias fotos com ele.

— Parece que gostou da minha família? — ela surgiu atrás dele.

— Família?   

— Sim — assentiu e deu um sorriso, estendendo para ele uma das duas xícaras de café que trazia nas mãos. — Tome, acabei de passar. Está fresquinho.

— Obrigado.

— Veja — ela apontou um dos porta-retratos. — Estes aqui são meus pais: Murakami e Nariko — apresentou o casal de senhores com cabelos grisalhos na frente de uma pequena plantação. — Eles amam a agricultura e por isso ainda vivem na região que nasci, em Kamisato, prefeitura de Saitama, e lá trabalham no cultivo de hortaliças.

Erika apontou outra foto.

— Aqui é a minha família há vinte anos — explicou. — Essa pequena aqui, grudada na perna do meu pai, sou eu, com sete anos. Esse no colo da minha mãe era meu irmãozinho. Ele deveria ter um ano e três meses mais ou menos nessa foto, seu nome era Kenshiro.

— “Era”?

E apesar de Ikki ter mantido uma leve esperança que a advogada fosse desfazer o equivoco, ao se referir ao irmão no passado, a expressão pesada que se apossou de sua face concluíra por si sua suspeita. Erika expôs outra foto dela mais jovem sendo abraçada por um adolescente de sorriso muito parecido com o dela.

— Eu o amava. Muito. “Shiro”, era como costumávamos chamá-lo, abreviação de “Kenshiro”. Meu irmãozinho tinha um rosto lindo, encantador. Ele era alegre, doce, gentil por natureza. Nós nos dávamos muito bem. Mas... — ela respirou profundamente, engoliu em seco e tentando controlar a comoção esclareceu. — Ele faleceu no ano que tiramos essa foto. Ele tinha recém feito 13 anos. Foi um acidente. Ele estava vindo da escola de bicicleta e na travessia de um sinaleiro acabou entrando na frente de um caminhão desgovernado. O motorista buzinou para alertar que não iria conseguir parar, pois estava sem freio, mas Shiro não conseguiu reagir a tempo.

— Eu... — Ikki também engoliu em seco. — Sinto muito.

Erika balançou a cabeça em negação. 

— Tudo bem. A recordação dessa tragédia dói, mas falar do Shiro sempre transcende a dor da sua perda. Nós jamais nos conformamos com a morte dele. É uma perda irremediável. Porém, foi pensando em amenizar a ausência dele que meus pais decidiram adotar um novo filho — a advogada apanhou um dos porta-retratos e o estendeu para Ikki, que deixou a xícara vazia do café que havia tomado, sobre a bandeja que Erika deixara sobre a mesinha e segurou o objeto oferecido por ela. — Essa é a nossa família atual. Tiramos no final do ano passado. Sou eu, meus pais, e os meus dois irmãos mais novos. Tenshi e Ryu. Eles são gêmeos idênticos e têm a mesma idade que Shiro teria caso estivesse vivo.

— Seus pais adotaram gêmeos?

— Foi graças a um pequeno incidente...

A doutora sorriu saudosa, respirou fundo mais uma vez e esclareceu.

— No começo, quando meus pais decidiram adotar um menino, eles foram apresentados somente ao Ryu. O interesse deles fora imediato, primeiro devido a idade e segundo devido a aparência que recordava muito o Shiro. Eles se apaixonaram pelo jeito alegre daquele adolescente. Nós não sabíamos da existência do outro. A própria organização omitiu essa informação. Mas a verdade não demorou vir à tona. Meus pais estavam visitando Ryu regularmente e em uma dessas visitas acharam o comportamento dele diferente. Ao questionarem a administração para saber o que estava acontecendo, eles acabaram expondo a verdade: Ryu estava doente e o gêmeo, Tenshi, quis substituí-lo para evitar que o irmão fosse prejudicado naquele processo de aproximação com a família. Os dois haviam feito uma promessa (de não atrapalharem) caso surgissem famílias interessadas em adotá-los individualmente. Essa história foi tão comovente que meus pais, mesmo sabendo que teriam dificuldades, decidiram adotar os dois. E foi assim que nos tornamos a família que somos hoje. Claro que, durante o processo, aprendemos que não deveríamos adotá-los pensando em substituir o ente que se foi. A assistente social nos explicou que seria errado e injusto com os gêmeos se usássemos aquela desculpa para justificar a adoção deles. E, talvez, por Ryu e Tenshi serem dois, serem gêmeos e ao mesmo tempo serem tão distintos, que entendemos depressa a diferença. Ryu e Tenshi não vieram para suprir um lugar ausente em nossa família, eles vieram para somar, para terem seus próprios lugares em nosso lar e em nossos corações. E, hoje, tenho muito orgulho em dizer que adotá-los foi a melhor escolha que meus pais fizeram. Os dois nos fizeram e nos fazem tão felizes que é difícil acreditar.

Ikki esforçou-se para conter algo que embolou em seu interior. Conhecia muito bem aquela história ao ponto de compreender perfeitamente como aqueles gêmeos se sentiam. Shun e ele foram muitas vezes aqueles dois irmãos.

— Desculpe-me? — Erika pediu ao percebê-lo sério. — Acho que o chateei com a minha falação.

— Nunca — Ikki rebateu rapidamente. — Eu sou órfão, Kanagawa. Eu sei exatamente do que você está falando. Essa história é praticamente a minha história de vida. A diferença é que Shun e eu não tivemos uma sorte tão grande de encontrarmos uma família como a sua. Não que eu esteja reclamando de como estamos agora. Estamos bem. E é graças a você também que estou tendo uma oportunidade de vivenciar o que é ter uma família.

Ela sentiu lágrimas brotando nas margens dos olhos e procurou disfarçar o constrangimento abrindo um sorriso. Ikki continuou.  

— A atitude que seus pais tomaram foi totalmente nobre e me faz pensar que os órfãos com irmãos podem ter esperanças de serem felizes com uma família adotiva. Na época que Shun e eu estivemos no Lar Starlight sempre surgiam casais que queriam adotar ele. Principalmente quando ele era um bebê. Você não imagina quantas vezes eu sofri achando que o perderia para sempre. Ele era meu único parente de sangue, minha única família. E depois da morte dos meus pais eu passei a me sentir o único responsável por ele. Mesmo assim, eu o deixei ir várias vezes por insistência da Instituição; convencido de que era o melhor para ele. Mas, para minha sorte, o Shun não passava pelo período de adaptação. Ele era muito afeiçoado a mim e chorava compulsivamente quando eu não estava por perto. Terminava com as famílias devolvendo-o. A princípio eu ficava bravo e dizia que ele era um tolo por não se esforçar para ficar com os adultos que o queriam. Só que o Shun desde pequeno sempre foi bem genioso e teimoso quando queria, e me dava a mesma resposta, com as bochechas inchadas e o rosto vermelho de tanto chorar: “sem meu onii-san eu não vou”. No fim, eu me sentia aliviado por isso. Vocês realmente não fazem ideia do bem que fez para esses gêmeos ao não permitir que se separassem.

— É tão bom ouvir isso, Ikki. Eu vim para Tóquio com o propósito de ser defensora pública. Aquela vidinha no campo não me atraía. Queria trabalhar com causas nobres, ajudar quem realmente precisa. Ten e Ryu tomam conta muito bem dos meus pais e do cultivo. Tenshi está noivo e vai se casar em breve. Ele não tem pretensão de deixar o campo. Meus pais estarão muito bem enquanto os dois viverem lá. E quanto a mim... — Erika respirou fundo e sorriu abertamente. — Vou continuar levando minha causa à diante. Foi muito difícil me formar. Foram anos duro, reprovei duas vezes no vestibular, passei noites em claro para fazer minha monografia. Fiz meu estágio na Vara de Família e iniciei judicialmente muitos casos de adoção. Hoje minha maior felicidade é conseguir finalizar um processo e encaminhar um órfão para uma família. Deixa eu te mostrar. — A advogada abriu uma repartição da raque e retirou um álbum o qual entregou nas mãos de Ikki, depois que ele devolveu o porta-retratos no mesmo local de antes. — Nesse álbum tem fotos de todos os órfãos que consegui que fossem adotados. É um tipo de motivador para quando estou perdendo as esperanças com alguma causa.  

— Incrível... — admirou-se Ikki enquanto passava as folhas.   

— Sinto como se eu fosse uma irmã mais velha de todos eles. Mantenho contato com alguns. Eles me escrevem cartas, me mandam cartão de natal, fotos, e-mails, são umas gracinhas.

— Então somos seus mais recentes irmãos?

Ela assentiu, mantendo o sorriso que não deixava seus lábios.

— Agora entende o porquê do meu desejo forte em ajudá-los?

— Sim.

— Também quero fazer uma foto bonita com vocês cinco para que ela faça parte desse álbum. Vai ser minha maior família. Igual a minha própria, cinco membros.

— Verdade.

— Eu acho famílias grandes bonitas e cheia de alegria.

— Posso fazer uma pergunta indiscreta?

A doutora se espantou com o pedido, mas assentiu.

— Como uma pessoa que ama tanto formar famílias ainda não formou sua própria?

Erika desfez o sorriso instantaneamente e o rubor do constrangimento tomou seu rosto.

Ikki percebeu que havia sido invasivo e decidiu se retratar.

— Desculpe-me, não precisa responder.

— Tudo bem — ela apressou-se em dizer. — Não é a primeira vez que levantam essa questão e... Sinceramente? Eu também não sei a resposta — respondeu, erguendo os ombros. — Talvez eu tenha gasto muito tempo me dedicando aos estudos e ao trabalho e tenha deixado a oportunidade de conhecer alguém especial passar despercebida. Fazer o quê, não é?

Ikki discordou com um menear negativo de cabeça e um sorriso discreto, então fechou o álbum e bateu com o objeto na cabeça da advogada, em seguida o devolveu nas mãos dela.

— Eu fiz uma pergunta idiota. Não quis dizer que você está velha para isso. Apenas pensei que... — Ikki não soube como colocaria o que estava em sua cabeça e acabou que a própria advogada concluiu.

— Que seria mais coerente se eu tivesse formado uma família também?

— Algo assim.

Erika apertou com mais força o álbum de fotografias ao qual havia abraçado junto ao peito, respirou fundo e ergueu os olhos para encarar Ikki, mas logo o desviou, não suportando a intensidade daqueles olhos azuis gateados tão profundos. E, com a desculpa de guardar o álbum, virou-se de costas.

— É. Talvez não seja tarde — tentou responder o mais natural que pode, mesmo tendo certeza que soara esperançosa, o que a fez sentir-se envergonhada novamente.

Mas as mãos pesadas que se firmaram de repente sobre seus ombros a aliviou da tensão e do constrangimento.   

— Tenha certeza de que não é — ele reforçou em concordância.    

...

Ikki acabou passando o domingo todo na companhia da advogada. Deixou o apartamento dela no finalzinho da tarde e chegou em Fujisawa passado a hora do jantar. 

— Boa noite — desejou ao irmão que estava sentado no sofá. Shun tinha os cabelos molhados, estava vestido de pijama e abraçado a uma das almofadas que ficavam dispostas sobre o móvel. Mas a única resposta que obteve dele foi um esturro. — O que foi?

— Não acha que está incomodando a doutora Kanagawa ao passar o dia inteiro na casa dela?

Ikki revirou os olhos. 

— O que está querendo insinuar?

— Nada.

— Então pare de agir como uma criancinha mimada. Você não tem mais idade para isso.

Shun largou o travesseiro, encarou o irmão com seus olhos verdes vítreos de lágrimas e levantou-se do sofá sem dizer nada. Saiu da sala pisando duro e subiu as escadas correndo. O estrondo da porta do quarto batendo foi tão audível que fez Ikki encolher os ombros.

Shiryu surgiu no hall de entrada da casa e se deparou com Ikki olhando para o alto das escadas com uma cara de indignação.

— O que foi esse estrondo?

— Shun — respondeu. — Parece que ele sofreu uma regressão cerebral e está de volta aos piores anos da sua infância. Agora deu de ficar emburrado por qualquer coisa.

— Hm. Entendi. Mas não fique bravo com ele, está bem? O Shun só quer um pouco da sua atenção. Ele fez o almoço e o aguardou para almoçarem juntos, mas você não apareceu. Então ele resolveu repetir o cardápio no jantar e acabou que você não apareceu de novo. Por isso ele está chateado.

— Obrigado por me fazer sentir culpado.

— Só estou tentando amenizar as coisas entre os dois.

— Eu sei. — Ikki coçou a cabeça. — Vou me desculpar apropriadamente mais tarde, agora eu preciso de um banho.

— A advogada sugeriu algo com relação a Seiya?

— Sim. Passamos a tarde pesquisando e acabamos descobrindo um meio do Seiya conseguir uma vaga na Kanagoe Fuji.

— O Seiya? Na melhor escola de elite da região?

Ikki assentiu.

— Agora conseguiu me deixar curioso, como esse milagre será possível?  

— Vou explicar tudo em detalhes.

...

Assim que Ikki se foi, a amiga de infância de Erika, May, voltou ao apartamento da colega em busca das novidades.

— Você não está sendo sincera comigo, Erika — acusou depois de ouvir da advogada a mesma resposta que Ikki dera a Shiryu: que os dois passaram o dia pesquisando uma forma de ingressarem Seiya na Kanagoe Fuji.  

— Eu não tenho nenhum motivo para mentir para você, May.

— Mas eu não consigo acreditar. Vocês não podem ter ficado o dia todo presos nesse apartamento só conversando sobre seu trabalho estúpido?

— Meu trabalho não é estúpido. E, afinal das contas, como você sabe que ele ficou o dia inteiro? Estava nos vigiando por acaso?

— “Por um acaso” eu estava colocando o lixo para fora na hora que ele estava saindo.

— Você estava vigiando.

— Ah, e o que importa?! Eu não sou idiota, Erika. Por que não me conta a verdade? Somos amigas, não somos?

— Que verdade você quer ouvir?

— Que vocês estão saindo!

— Não estamos! Ikki é praticamente meu cliente, May.  

— “Ikki?” — May repetiu desconfiada, e agarrou-se aquela brecha aberta pela amiga. — É normal agora você chamar seus clientes intimamente pelo primeiro nome?

Erika suspirou. Havia cometido uma terrível gafe e perdido aquela disputa.

— Tá — desistiu. — Pense o que quiser.

— Eu sabia! — comemorou a outra. — Agora me conte tudo! Como vocês começaram? Quantos anos ele têm? Ele beija bem?

A advogada respirou pausadamente, mais uma vez. E, segurando a vizinha pelos ombros, a guiou em direção à porta, alegando o quanto estava exausta mesmo para contra-argumentar os argumentos dela. E que precisava descansar, pois teria um dia de trabalho cheio no dia seguinte.

Protestando e, muito a contragosto, May foi posta para fora do apartamento.

— Vamos deixar essa conversa para outra ocasião, ok? Tchau, May! — e fechou a porta, deixando uma May enfurecida do lado de fora.

“Se você está pensando que vai me humilhar esfregando na minha cara um namorado jovem e bonitão, muito mais que todos aqueles que eu já tive, e ficar por isso mesmo, você vai ver! Eu vou te mostrar com que está brincando, amiga”.

Voltou para o seu apartamento, apanhou o notebook que estava na mesa da sala, sentou-se no sofá, acomodando o aparelho em suas pernas e, em uma pesquisa rápida, conseguiu encontrar um número que precisava. Alcançou o telefone sem fio no suporte de madeira na parede em suas costas, e, sem parar para pensar sobre o que faria, discou o número encontrado.

Após duas chamadas, a voz da gravação automática se fez audível.

“Você ligou para o disque denúncia do Conselho Regional de Advocacia de Tóquio. Por favor, ouça as instruções e tecle o número correspondente a opção desejada.”.

...

No dia seguinte, havia passado da hora de encerrar o expediente, quando a secretária de Erika entrou na sala, pedindo licença para a patroa, com um ar apreensivo, informou-a de que tinha visitas.

— Há essa hora? — estranhou a defensora, consultando o horário no relógio de punho, passava das dezenove, e normalmente encerrava seu atendimento antes das dezoito.

— Sim — continuou a secretária. — É um senhor e um rapaz. Eles se identificaram como sendo membros do Conselho Regional de Advocacia. Aqui estão suas identificações — a moça estendeu os dois cartões que os visitantes haviam fornecido.  

— Do Conselho? — a estranheza aumentou, fazendo Erika juntar as sobrancelhas em um franzir de cenho, ao receber os cartões e se surpreender com os nomes escritos. — Peçam para que entre, Minoru-chan, rápido, por favor.

— Com sua licença, doutora.

A moça deixou a sala da superior e no segundo seguinte estava encaminhando os dois homens para dentro do recinto. O mais velho deles, tinha cabelos brancos e usava óculos de grossos aros na cor ocre. Erika o reconheceu de imediato, havia-o identificado pelo cartão também, o conselheiro era um homem renomado na área e fora seu professor na universidade.

— Katsuo Harada-sensei? — ela exclamou, impressionada. — Há quanto tempo?

— Oh, então eu não estava enganado. Você foi mesmo uma das minhas alunas. Bem que seu sobrenome não me era estranho. Como está, Erika-chan?

— Muito bem. Obrigada, sensei — ela o cumprimentou sorrindo, curvando o corpo para frente.

— Esse rapazinho aqui é um dos estagiários no Conselho, está trabalhando como meu assistente. — O homem apontou o jovem ao seu lado, que parecia ter no máximo uns vinte e dois anos. De cabelos pretos muito lisos, olhos tão escuros quanto os fios e de óculos de aros metálicos, finos e dourados, um estilo mais sofisticado que o do professor. Ele tinha uma bonita pinta na bochecha esquerda e estava elegantemente vestido em um terno grafite impecavelmente alinhado. — Seu nome é Fujiwara Ono-kun.

O assistente do conselheiro não se pronunciou de imediato, ele parecia muito sério, fez apenas uma breve reverência ao curvar o corpo para frente, a qual Erika respondeu com o mesmo gesto.

— Prazer, Fujiwara-san.

— Kochirakoso[5].

A advogada pediu para que os dois se acomodassem e solicitou que Minoru trouxesse café. A secretária se retirou pedindo licença. Então fora a vez dela se acomodar em sua mesa, diante dos dois homens que ocuparam as cadeiras diante dela.

— E então, a que devo a honra da visita dos senhores?

— Kanagawa-san — pronunciou-se o conselheiro mais velho, optando pelo tom mais formal desta vez, visto que agora a conversa seria entre profissionais e não mais entre ex-professor e ex-aluna. Erika adotou uma expressão mais séria também, sentindo-se um tanto aflita com aquela ádvena visita. — Infelizmente, a nossa vinda aqui não é nada informal. Mas vou tentar ser o mais sucinto possível, para não tomarmos tanto seu tempo. Fomos designados por causa de uma denúncia anônima que recebemos contra a senhora.  

Erika arregalou os olhos.

— Denúncia?

— Isso, doutora, denúncia — repetiu o homem. — Antes de acatarmos qualquer acusação feita contra os profissionais registrados no nosso órgão, investigamos primeiro seus procedentes, formação e histórico profissional. Acabamos descobrindo que a senhorita é uma excelente profissional. Do tipo que não deixa margens para suspeitas. E, por esse motivo, resolvemos, antes de abrirmos um processo administrativo para investigar o que nos fora dito, termos essa conversa aberta.

Erika mudou sua posição na cadeira, ficando mais ereta, estava tão surpresa que não soube o que responder, pensou primeiro, e só então se pronunciou.

— Ao mesmo tempo em que me sinto lisonjeada com a visita dos senhores e os elogios, fico constrangida diante das circunstâncias. Não consigo sequer imaginar ao que se refere essa denúncia.

O senhor Katsuo ergueu as sobrancelhas para o jovem estagiário ao seu lado e o gesto fora suficiente para Fujiwara Ono compreender o pedido do mais velho e em seguida apanhou sua pasta, que havia repousado no chão, ao lado da cadeira, e retirou de dentro dela o memorando impresso com a denúncia, estendendo-o para Erika e entregando uma cópia para o conselheiro e ficando com uma terceira. Fechou a pasta e tornou a acomodá-la no chão, para ficar com as mãos livres para manusear o memorando.

Erika correu os olhos rapidamente pela lauda, e quanto mais se aprofundava no texto, mais seu rosto tingia de um rubor intenso. Por fim, repousou o papel à mesa e repetiu em voz alta o resumo do que se tratava o assunto.

— Possível envolvimento amoroso com um dos meus clientes?

— Pelo seu tom de surpresa, posso deduzir que a informação é improcedente?

— Perdoe-me, Harada-sensei. É improcedente sim se a referência ao “envolvimento amoroso” for tratada com conotação sexual. Eu sempre me envolvo de forma “amorosa”, “afetiva” com os meus clientes, afinal, o trabalho que desenvolvo envolve pessoas órfãs, carentes, ou seja, pais que buscam desesperadamente completar suas famílias adotando filhos ou filhos que buscam desesperadamente por pais. Por isso, eu acabo sem querer me envolvendo mais do que o profissional permite. Não posso dizer que está sendo diferente no caso atual em que me encontro. Esses cinco jovens remanescentes de um Lar de Adoção fechado do Instituto Graad são encantadores, alegres, cheios de vontades de reconstruir, de viver, possuem uma força de vontade que atingem aqueles que acompanham. E é isso que me faz um pouco mais que advogada: uma amiga. E, talvez, essa minha conduta deva ter gerado algum mal entendido.

— É o que eu imaginava ouvir e fico aliviado por isso — o homem sorriu. — Mas, a senhorita tem alguma ideia então do que motivou essa denúncia?

Erika sorriu e meneou a cabeça positivamente, retirando os óculos e repousando-os sobre a mesa para poder massagear a região entre os olhos com as pontas dos dedos.

— A denúncia pode ter sido anônima, sensei. Mas sei exatamente quem foi o autor dela, ou melhor, a autora. — A advogada suspirou e relaxou os ombros, recostando-se na poltrona almofadada. Sentindo-se um pouco mais aliviada, mas não menos constrangida. — A única razão que possa ter motivado a minha vizinha e amiga de infância, May Nakajima, ter tomado tal atitude, acredito eu, que seja inveja. Nós sempre fomos opostos: eu a garota dos estudos e ela dos namorados. E, ontem, domingo, eu atendi o rapaz mais velho desse grupo que estou trabalhando atualmente no caso, na minha casa. Ela havia acabado de chegar de viagem e foi me visitar e ao se deparar com ele foi tirando conclusões precipitadas.    

— E é comum a senhorita atender seus clientes em casa?

— Em alguns casos eles vão me procurar em casa sim. E eu nunca vi motivos para não atendê-los.

— Não que eu nunca tenha feito isso também — ele observou compreensivo.

— Não chega ser uma prática incomum da nossa área, não é mesmo, sensei?

— Verdade. Estamos em contato direto com nossos clientes, pois lidamos com sua vida pessoal.

— Exato.

— Então, a senhorita acredita que a denunciante, essa sua vizinha, sentiu inveja da senhorita por supor que estava se relacionando e tentou prejudicá-la para que continue sendo a mulher do trabalho e dos estudos, enquanto ela continue sendo a mulher dos namorados?

— Parece um tanto mesquinho. Difícil de acreditar, eu sei. Mas, vindo dela, é possível que seja isso.  

Fora a vez do homem se mover de forma incomoda na cadeira, massagear o pescoço com uma das mãos e encarar o assistente ao seu lado, como se buscasse dele alguma ajuda, mas o rapaz apenas o encarou de volta com a mesma face inexpressiva.

— É, mulheres podem ser assustadoras quando querem, né, Ono-kun? 

— Sim, sensei.

O homem se voltou para ex-aluna.

— Erika-chan... Agora, sendo informal novamente, não quero que veja essa pergunta como parte do interrogatório. Eu acho que encerrei o caso. Mas, como conselheiro, como seu ex-professor, como um colega de profissão, pode me dizer o que você realmente pensa desse rapaz?

Erika sentiu o rosto afoguear, deu um sorriso nervoso e juntou as mãos, passando a apertá-las uma na outra.

Diferente da forma imponente que vinha agindo, o outro advogado notou uma drástica mudança. Aquela a sua frente não era mais a profissional Erika Kanagawa, cheia de seriedade e convicções, e sim, a mulher Erika Kanagawa, que podia ser frágil, insegura e sonhadora como qualquer outra. 

— Eu não vou mentir para o senhor, Harada-sensei. Nós seres humanos ainda não desenvolvemos a capacidade de controlar nossos sentimentos. Eu posso ditar para o meu coração “não se apaixone”, mas não posso garantir que ele me obedeça. Se o senhor quer saber se existe algum interesse da minha parte nesse rapaz, que não seja estritamente profissional, eu digo que sim. Existe. A cada dia que lido com ele, me sinto mais atraída — ela pausou para observar os rostos dos dois homens a sua frente suavizarem. Até mesmo o rapaz inexpressivo ganhou uma tez curiosa. — Mas ao contrário da minha “eu, mulher, instável e apaixonada”, a minha “eu, profissional e estável”, sabe até onde pode ir. Há inúmeros fatores negativos a serem levados em conta: esse rapaz tem dezenove anos, ele sequer chegou a maior idade ainda. O fato de eu ser quase dez anos mais velha que ele. O fato de estarmos ligados pela relação de “profissional e cliente”. E, o mais importante de todos: o fato de eu acreditar que este sentimento não seja recíproco.

Os dois homens se entreolharam, percebendo o sorriso doloroso que Erika dera no final.

A conversa se estendeu por mais uma longa hora, da mesma maneira informal.

Depois que o professor e seu assistente se despediram, Erika fechou o escritório e foi deixar Minoru na estação de metrô.

— Tem certeza que não quer que eu a deixe em casa, Minoru-chan? Está tarde.

— Eu tenho que passar em um lugar antes disso, Kanagawa-sensei. Agradeço sua boa intenção.

— Olha, olha... Seria um namoradinho?

A menina balançou a cabeça em negação.  

— Só um amigo. Vou devolver um DVD que peguei emprestado.

Erika percebeu que a jovem apertou sua bolsa junto ao peito, como se o objeto dentro dela fosse de valor inestimável, e sorriu.

“Pequenos gestos falam por si”, ela pensou contente.  

— Sei — fingiu concordar.

— E com a sensei, está tudo bem mesmo?

Erika sabia que a secretária estava se referindo a visita do Conselho e, procurando acalmá-la, assentiu.

— Não se preocupe, Minoru-chan. Agora está. Eu só preciso conversar seriamente com uma pessoa.

Após deixar sua assistente na estação, Erika dirigiu direto para casa. No caminho, recapitulou os conselhos dado pelo conselheiro.

“Não sou a melhor pessoa para conselhos amorosos. Mas não podemos nos martirizar por amar e simplesmente ignorar os desejos do coração, isso é algo que até esse velho consegue entender. Apenas haja com prudência e espere o caso encerrar. Mas não deixe de esclarecer seus sentimentos no momento certo para esse rapaz, Erika-chan. Nós homens somos desprovidos do senso comum quando se tratam de mulheres e às vezes não enxergamos o que está evidente diante de nossos narizes. E, mesmo que não venha ser correspondida, algo que eu acho difícil, levando em conta sua beleza e profissionalismo, ao menos não sofrerá sabendo que não tentou”.

— Queria ter te dado um abraço, sensei — comentou para si própria, saindo do carro após estacioná-lo.

Jogou a alça comprida da sua maleta em um dos ombros, desamarrou o coque e seguiu para o elevador.

Ao chegar ao seu andar, seguiu direto para o apartamento da amiga, e tocou a campainha insistentemente até ser atendida.

— Minha nossa, estava no banho. Quem morreu? — reclamou May assim que abriu a porta.

— Acho que a nossa amizade que morreu. Na verdade, ela nunca existiu, não é, May?

— Do que está falando?

— Chega de falsidade, por favor. Você achou mesmo que a sua “denúncia anônima” seria anônima sendo você a única pessoa que viu o Ikki na minha casa ontem? Você nem fez questão de disfarçar.

— E, daí? Foi uma pouca vergonha mesmo.

— Eu vou repetir o que disse para os investigadores do Conselho: eu estava tratando de serviço. E, vou continuar tratando de serviço com o Ikki quer você queira, quer não. Eu sou profissional o suficiente para saber separar as coisas. E, repense seu plano antes de concretizá-lo. Pois se eu tivesse mesmo tido minha licença cassada com sua denúncia, eu estaria livre de empecilhos para eu ter uma relação com ele caso ambos quiséssemos. O que não é o caso, porque meu sentimento por ele não é recíproco. Mesmo sentindo que estou gostando dele, enquanto eu for a advogada que cuida do seu caso, eu não vou ultrapassar o limite até onde posso chegar. Por isso, faça-me um favor, May? Esqueça que eu existo. Passar bem — disse, e deu as costas para vizinha, mas foi impedida de sair pelo chamado dela.  

— Erika, espere. Eu não queria que você perdesse sua licença. Eu só quis te dar um susto, eu estava chateada...

— Por que, May?

— Porque eu estou sem ninguém! — ela respondeu em um grito. — Eu fui largada de novo — revelou de repente, deixando lágrimas descerem dos seus olhos, fazendo com que o lápis preto o qual usara nas margens escorresse junto com as lágrimas criando linhas negras em seu rosto. — Eu fiquei desesperada quando vi você com um cara — ela continuou. — Você sempre foi inteligente. Sempre esteve na minha frente em tudo. Eu queria ser superior a você em alguma coisa pelo menos. Queria ter um casamento bem sucedido, uma casa cheia de filhos. Mas não! Eu só sirvo para ser amante e quando eles se cansam me descartam. Estou tão cansada disso...  

Erika queria ter mantido as costas viradas e ido embora. Mas não era aquele tipo de pessoa, não foi capaz, esturrou por estar cedendo e voltou-se para vizinha. Abriu a maleta e apanhou seu lenço de dentro dela, estendendo-o para May e pedindo:  

— Sua maquiagem está borrando todo seu rosto, está horrível, limpe isso, por favor. E será que gente podia conversar na sua sala enquanto tomamos chá?

— Está se convidando para entrar?

— Quer ficar discutindo aqui, no corredor?

May negou com a cabeça e sorriu em meio ao rosto borrado, abrindo caminho na porta para que a advogada entrasse.

— Ótimo — disse Erika, apoiando uma das mãos no ombro da vizinha. — Que tal fazermos algo que nunca fizemos antes? Trocarmos experiências. Quem sabe não conseguimos ajudar uma a outra ao invés de ficarmos nessa rivalidade sem sentido, não é? Acho que eu posso te dar conselhos para que aprenda se valorizar mais diante desses homens que só querem se aproveitar de você, e você pode me ajudar a cozinhar, me vestir melhor, passar essas coisas no rosto...

— Quer virar mulher a essa altura do campeonato?

— Eu sempre fui!

Elas riram. A noite prometia ser longa.

Continua...

 

Nota Importante1 – Erika e May:

Na primeira versão da história, a Erika termina esse capítulo brigada com a May. A advogada vai até o apartamento da vizinha e assim que a May atende a porta ela desfere um tapa na cara dela e vai embora dizendo que o que ela pretendia, (intimidá-la para que ela nunca ficasse com Ikki realmente), ela conseguiu. Deixando a entender que as duas terminaram “a amizade” ali. 

Hoje, repensando melhorar o enredo, venho modificando algumas coisas que não me agradam mais e com as quais não concordo. Uma delas é diminuir a mulher seja no quesito que for. Não acho justo que duas amigas criem rivalidade ou inimizade tendo como pretexto a inveja por alguma figura masculina. Então, preferi aqui, nessa nova versão de Os Garotos, que a duas recomeçassem e não terminassem a amizade. Que elas dessem uma nova chance para essa amizade se tornar realmente verdadeira daqui em diante.

Nota Importante2 – A personalidade do Shun:

 Vou fazer uma explicação breve sobre o comportamento do Shun nesse capítulo, já que pode causar estranhamento.

Eu participei de um curso de adoção fornecido pela Vara da Infância aqui da região onde moro no começo desse ano (2017). Eu penso em ter um filho biológico, claro, mas se eu não puder tê-lo, irei concebê-lo de outra forma, e uma dessas formas pode vir ser a adoção. Por isso fui procurar entender como esse processo funciona primeiramente. E esse curso foi muito esclarecedor em muitos aspectos; o que me ajuda aqui na história também. Muito do que escrevi e venho escrevendo, agora ficou embasado teoricamente.

A mente da gente se abre e são tantos os preconceitos formados que se desfazem, que o que vem à nossa mente logo no começo do curso, (e alguns palestrantes ressaltam), é que todas as famílias, sem exceção, todo aspirante a futuro pai e futura mãe, deveriam, obrigatoriamente, antes de decidirem tomar uma decisão tão importante que é ter um filho, passar por esse curso. Mas não vou me alongar, só peço, oriento para quem tiver a oportunidade, mesmo que não queira adotar, mesmo que não pense ter filhos agora, ou esteja planejando ter, procure a Vara da Infância da região de vocês e se inscrevam nesse curso e se preparem para mudar seu conceito do que é, verdadeiramente, essa escolha grandiosa que é ter ou não ter um filho, indiferente os meios escolhidos (se biológico, ou adotivo).

As palestras fora dada por várias pessoas competentes sobre o assunto: juíza da infância (que esclarece a parte legal), psicólogas especialistas, médica pediatra, por funcionários envolvidos no processo de adoção, por organizadores de ONGs e projetos voltados para a adoção, por pais que adotaram e por filhos adotivos. Cada depoimento mais emocionante que o outro. E, em uma das palestras, uma das psicólogas, e um casal de pais adotivos, explicaram esse processo de regresso de idade mental que muitas vezes ocorre na criança adotada. Esse casal, que serviu de exemplo, adotou um menino de treze anos. No começo, esse menino pedia para dormir na mesma cama que os pais, se escondia do pai adotivo atrás da porta antes de ele chegar e esperava ele procurá-lo, comportamento típico de uma criança pequena. A psicóloga explicou que esse é um processo comum, mesmo um adolescente, ele passa por essa regressão, como se fosse necessário ele passar por essa fase com esses novos pais para sentir que realmente eles são seus pais. Normalmente, é nesse começo, que muitos deles, testam os pais sendo malcriados, agressivos, pois eles já foram abandonados uma ou mais vezes, então eles vão gerar situações de teste para ter certeza que seus novos pais o querem o suficiente para conseguir passar por cima desses problemas e amá-lo verdadeiramente.

Aqui, o Shun não foi adotado por um casal convencional, mas somente o fato de eles estarem passando pelo mesmo processo de formação de uma família, se aplica a ele a regressão. Ele está sentindo acuado, com medo de que o irmão, que finalmente está com ele, o abandone de novo. E, por isso, ele está passando por essa fase de regressão, voltando a ser uma criança mimada e testando a paciência do Ikki. Obviamente, são atitudes inconscientes.  

Outra elucidação importante que o curso faz é que família não é somente aquela composição de: pai, mãe e filho/filhos, como muitos pensam. Família é um conceito amplo. Família pode ser formada só por um casal sem filhos. Um casal de dois homens. Um casal de duas mulheres. Uma mãe e seu filho/filhos. Um pai e seu filho/filhos. Um casal de homossexual e seu filho/filhos. Só de irmãos. Parentes de qualquer grau com crianças. Parentes de qualquer grau sem crianças. Um ou mais amigos juntos. Uma pessoa sozinha e seu/seus bichinhos de estimação. Até uma pessoa sozinha em sua casa é uma família, pois ela sozinha constitui um ser humano, que por sua vez constitui uma família.

É lindo, não é? Então, para quem ainda tinha dúvidas, os nossos meninos juntos são sim uma família. <3

Espero que tenham gostado do capítulo.

E, já sabem, se puder, comentem! o/

Próximo Capítulo: XIII – O Teste da Bola.

Revisão e Suporte de roteiro: Naluza.

Escrito originalmente em: 13.07.2007

Versão revisada: 11.06.2017

Outras Notas:

[1] Side Story: Inglês para “história lateral”. Capítulo bônus ou história breve que narra algo paralelo à trama original ou explica algo não resolvido. Não é necessária para o entendimento do enredo principal, apenas o complementa (Fonte: Liga dos Betas) .

[2] missôshiro: (sopa de missô) é um prato da culinária japonesa, consumido costumeiramente com frequência pelos japoneses. Normalmente é preparado com pasta de soja, hondashi, tofu, cebolinha; algumas vezes acrescentam-se outros legumes.

[3] Chawan – tigela pequena.

[4] Itadakimasu: dito pelos japoneses antes da refeição. É como se fosse uma prece em agradecimento pela comida. É traduzido aqui nesse ocidente exatamente desta forma “obrigado pela comida/refeição”.

[5] Kochirakoso: o prazer é meu.



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