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História Os Guardiões das Chaves (Interativa) - Capítulo 8


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Notas do Autor


É, eu havia dito que tentaria aumentar a frequência, e acabei diminuindo ainda mais...
Bom, como eu estou a muuuuito tempo sem postar, decidi separar este capítulo que eu estava escrevendo em dois, já que eu estive com certa dificuldade para escrever ultimamente (e por isso esse capítulo é curto). O próximo, se Deus quiser, não demorará tanto para sair, e será maior também.

Capítulo 8 - Entre Profecias e Desconfianças


Floresta Baixa, 15 de Janeiro de 665, um dia após o ataque aos Guardiões

Jonas sentiu um longo e fino ruído após desmaiar; um ruído que atrapalhava os seus sentidos, invadia sua mente e o impedia de sonhar. Ele sentia que estava em algum lugar familiar, mas as sombras ao seu redor eram fortes demais para que ele pudesse enxergar qualquer coisa, mergulhando sua visão em uma escuridão perpétua. Ou, ao menos, assim ele imaginava ser, até o singular momento em que uma sensação de alívio invadiu seu corpo e penetrou fundo em seus nervos. Essa força doía, mas o reconfortava; tal qual uma cicatriz, que para impedi-lo de sangrar deveria primeiro deixar uma marca.

Ao acordar, Jonas pensou ter dormido por horas e não considerou olhar ao redor, pois sua cabeça doía e seus olhos estavam sensíveis à luz. Ele ainda não se lembrava do que ocorreu na noite passada, e passou a considerar que havia dormido demais — ou estava muito doente. Logo tentou se levantar, mas o seu equilíbrio falhou em mantê-lo de pé e ele caiu novamente. Antes que seus joelhos se dobrassem ao chão, no entanto, alguém segurou-o pelo braço, e ele finalmente pôde olhar para cima e ver a mesma surrada e marcada face de Valamir.

— Você está bem, garoto? — Disse Valamir, com um tom de dúvida e desconfiança.

— Eu... Estou sim. — Respondeu-lhe Jonas, a medida que suas memórias tornavam-se frescas novamente.

De súbito, o ladino olhou desesperadamente para todos os lados; as sombras que antes estavam embaralhadas agora revelavam o seu redor. Ele estava deitado sobre uma cama improvisada com peles sobre uma pedra, dentro de algum tipo de gruta aquecida por uma fogueira que manteve ele e Valamir vivos naquela noite. Agora, com todos os seus sentidos de volta, Jonas passou a tatear todos os seus bolsos, procurando quase que involuntariamente sua Chave; ele não a achou, e instantaneamente encarou o cavaleiro nos olhos, cobrando-o antes mesmo de dizer qualquer palavra. Pela primeira vez, ele sustentou o olhar do cavaleiro-mercenário na mesma altura, se levantando.

— Você pegou as minhas coisas? — Disse Jonas, quase grasnando.

— Peguei as suas coisas? Eu salvei-lhe a vida, e você deveria estar mais grato por isso. — Replicou o cavaleiro, enquanto puxava uma pequena bolsa de couro que o ladino sempre carregou na cintura. De dentro desta, Valamir tirou uma pequena ferramenta semelhante à um canivete que possui algumas hastes de finos e precisos metais. — Agora que sei, vejo que não te falta coragem, mas te sobra tolice. O que um ladrãozinho veio fazer aqui, afinal? E pergunto mais: de quem é que você roubou essa Chave?

O que Valamir havia achado eram as ferramentas de ladrão de Jonas, que ele utiliza para abrir portas e baús. Todo aventureiro deveria saber como utilizar uma, mas aos olhos de virtuosos e leais cavaleiros, isso era sempre um sinal de desonestidade. Valamir não era mais tão virtuoso e leal, entretanto, e não carregava expressões de desaprovação na face. Em sua outra mão, o cavaleiro-mercenário segurava a Chave do Frio, apontando para Jonas. O ladino pegou-a rapidamente, e sentiu-se bastante aliviado.

— Eu não roubei essa chave de ninguém... Se roubei, foi de um corvo, e não acho que ele a usaria, de qualquer forma. — Comentou Jonas, pensativo.

— Ah, claro. Não é menos ladrão que eu, então. Não haveria como você mencionar um corvo se não fosse você mesmo o portador da Chave. — E, ao dizer isso, Valamir retirou de seu bolso a sua Chave da Guerra, vermelha como sangue.

— Você... Também tem uma chave! Eu pensava ser o único desta sorte. — Observou Jonas, surpreso e, de certa forma, aliviado.

— Não só nós três, como mais outros, aparentemente. — Disse Valamir, agora seco e indeciso.

— Nós três? Isso significa que... — E, por um instante após falar, Jonas recobriu suas memórias por completo. — A bruxa! Onde ela está agora?

— Ela foi atrás daquele maldito pássaro preto. O que aconteceu ontem foi... Surreal. — Relembrou o cavaleiro-mercenário, agora sentando-se em uma das curvas das paredes daquela gruta. — Jamais vi, em todo o meu tempo, uma batalha entre duas entidades tão poderosas antes, e eu já estive em mais de uma dúzia dessas. Já vi feiticeiros, bestas mágicas e outras bruxas, porém nada se compara, nenhum fogo de nenhuma magia, nenhuma bênção de nenhum clérigo...

Valamir parecia pensativo e, pela primeira vez em muitos anos, surpreso. A batalha que ele viu acontecer no dia anterior havia, de fato, marcado sua mente e abalado suas crenças, de modo que o cavaleiro passou a duvidar se o que ele acreditava ser mágico e surreal fosse mesmo o limite. O pouco do que Jonas lembrava também era assustador e o suficiente para que o abalasse severamente e, assim, ambos ficaram sentados por alguns minutos, refletindo. O barulho do gotejar rítmico da gruta era o único som que ouviam, e a luz daquela manhã parecia mais fraca do que deveria; talvez, todos os animais tenham fugido depois do que viram e ouviram na noite anterior.

— E como foi que eu sobrevivi, Valamir? — Disse Jonas, quebrando o silêncio.

— Feito da Bruxa. Ela curou os seus ferimentos. Algum feitiço, com certeza, pois não a vi triturar nenhuma erva. Acho que era sua única chance, na verdade, pois remédio algum curaria uma perfuração tão funda. Se você está amaldiçoado ou não, aí é outra história... Agora que acordou, é esperar ela voltar para termos algumas respostas. — Respondeu-lhe Valamir, um tanto frustrado e melancólico.

E, dessa forma, ambos os sobreviventes esperaram ansiosamente por algumas horas, tempo o suficiente para que Jonas ficasse angustiado e quisesse sair pela floresta. O ladino já estava com fome, e seu cantil estava prestes a secar-se. Valamir chegou a aventurar-se um pouco nas redondezas, e trouxe consigo algumas poucas raízes que ele identificou como comestíveis, algo que mal poderia sustentá-los até o meio-dia. Eventualmente, Jonas já estava recuperado e pronto para sair, e enquanto eles se organizavam e mediam seus recursos, passos leves puderam ser ouvidos na entrada da caverna.

Era Ravou’yah, a chamada bruxa da Floresta Baixa, que carrega muitas outras alcunhas além desta. Ela chegava com uma expressão perturbada, como se tivesse presenciado algo maligno invadir a sua casa. Em suas costas, ela carregava uma sacola de pano remendado, cujo qual ela havia enchido com todos os tipos de recursos que ela fosse precisar em uma longa viagem. Em volta de seu corpo, pendia a corda de um arco longo, rusticamente feito com os recursos de sua floresta; empunhando sua lança como um cajado, abriu caminho entre as pedras e chegou ao encontro dos dois sobreviventes, que a observavam com dúvida. Valamir ainda embainhava cautelosamente sua espada longa, esperando que Jonas estivesse preparado; ele não confiava na bruxa, e por isso deixou o ladino ficar com sua espada curta, mesmo que este não soubesse usá-la com eficácia. Por alguns segundos, Ravou’yah deixou um silêncio desafiador no ar, esperando a reação dos dois rapazes.

— Obrigado... Bom, valeu por me salvar.

O agradecimento de Jonas pegou a bruxa desprevenida, arrancando um pequeno sorriso de seu rosto. Ela deixou sua sacola no chão e, dirigindo-se até um lado da gruta, reabasteceu sua aljava com mais flechas que ela havia fabricado em dias anteriores.

— O que você achou lá fora? — Questionou Valamir, sempre em uma distância segura; não muito longe, para ser capaz de reagir e não muito perto, para poder desviar-se caso necessário.

— Nada. Subi as paredes e vasculhei o nível acima, porém o exército negro parece ter simplesmente desaparecido. Toda a vida que aqui reinava parece ter se calado, e nem mesmo as árvores tem determinação para falar. — Respondeu-lhe Ravou-yah, com um claro sotaque centenário; um tipo de sibilar quase hipnotizante.

— E quanto ao corvo? — Continuou Jonas.

— Desapareceu por completo. Me preocupa, mas não é motivo de histeria, pois Morbus faz isso frequentemente. Eu ainda consegui lhe curar, incendiário, então isso significa que ele ainda está vivo, escondido em algum lugar obscuro deste mundo para recuperar as suas forças.

A menção de Jonas como “incendiário” serviu para comprovar para Valamir que foi o ladino que ateou fogo à floresta. Um pequeno sorriso escapou dos lábios do cavaleiro, pois foi uma ideia muito boa, mesmo que arriscada. Após isso, Ravou’yah virou-se e fitou Valamir, em desafio. Ambos sabiam (ou fortemente suspeitavam) a rixa que eles involuntariamente tinham, fruto de um avulso contrato que o cavaleiro-mercenário aceitou dias antes, no vilarejo de Pedouro, ao sul da Floresta Baixa. Eram poucas moedas para o serviço que se provou muito mais difícil e que, agora, ele não poderia mais concluir. Valamir sentiu-se sujo ao pensar que ele poderia, pela primeira vez, falhar em uma de suas missões.

— Não me olhe com desgosto, cavaleiro. Sabe bem que eu salvei a vida de seu companheiro, o mesmo ladrão que incendiou minha casa. Não lhe parece uma prova de boa fé decente? Quer algo mais para provar minha honestidade? — Disse Ravou’yah, repentinamente direcionando-se ao cavaleiro. Suas palavras eram afiadas, carregadas de razão e persuasão.

— Você é uma bruxa de pacto, por isso seu poder advém daquela entidade. Quantos tipos de rituais escusos, diabólicos e corruptos poderiam existir e envolver situações como a nossa? — Retrucou Valamir.

— Ah, claro, se prende ao pouco que sabe e já se considera dono da verdade. Tão tipicamente... Humano. Eu não fiz nenhum ritual; não matei nenhum bebê e não profanei nenhum templo, se é isso que quer saber. Acredite no que quiser, mas é sábio confiar naquilo que você sabe que nunca mente. — Replicou a bruxa, cujas palavras penetravam a mente do cavaleiro e desarmavam-no por completo. A Chave da Guerra não mente, nunca mentiu, e ela não estava pesada neste momento.

— Tudo bem, eu posso não entender o que está acontecendo, mas suponho que estão atrás de nós porque possuímos essas chaves. Nosso inimigo parece ser muito mais perigoso que um nobre em busca de tesouros. O que isso tudo significa? — Disse Jonas, genuinamente preocupado.

Ravou’yah abaixou a cabeça, por um templo. Seus olhos, iluminados pela luz da fogueira, refletiam uma cor esbranquiçada e esfumaçada, digna de espanto. Ela moveu seus dedos enquanto falava, como se seus gestos contassem histórias e reproduzissem suas memórias, prendendo a atenção de seus dois ouvintes.

— Há muito tempo Morbus vem caçando os portadores dessas chaves. As Chaves do Apocalipse são artefatos poderosos, capazes de impedir o verdadeiro fim do mundo. Os poderes dessas peças pareciam adormecer no metal frio, que antes era cinza e ferrenho. No entanto, quando chega a hora de serem utilizadas, uma era que nunca pode ser adivinhada ou controlada, elas voltam a ter suas cores e encantos. Esse não era o seu fardo original, mas Morbus, ao perceber que o fim estava próximo, tomou como missão descobrir onde estavam as Chaves e distribuí-las aos Guardiões que ele julgasse preparados. Não sei dizer se ele achou todas, que são Sete ao total, mas sei que ele nos influenciou para que nos encontrássemos aqui. Morbus é cheio de mistérios, mas nunca erra: uma grande catástrofe acompanhará esses dias frios, e ele me disse para nos protegermos na capital de Oru até que juntemos todos os Guardiões. Querendo ou não, somos agora destinados a parar o que vocês chamam de apocalipse.

 

Todos ficaram calados, por um tempo. Valamir voltou a sentar-se na pedra, enquanto Jonas desabou no próprio chão da caverna. Era muito para digerir, e tudo poderia fazer sentido depois do que viram na noite passada; uma batalha digna de contos heroicos antigos, que pareciam estar tão longe, adormecidos em livros velhos. O cavaleiro tentou dissuadir a si mesmo que aquilo era uma mentira inventada por uma bruxa, que ela o havia encantado com algum feitiço medonho, mas não; ele sabia, no fundo, que era tudo verdade, e lamentava por não poder desvencilhar-se daquele objeto maldito, pelo simples fato de que ele já parecia preso em seu corpo. De fato, talvez seja por isso que Morbus interferisse coletando as Chaves: Valamir sentia que esse artefato fazia parte de si agora, e não trocaria ele por nada neste mundo.

Jonas, por outro lado, aceitou a história com mais facilidade, só não tentou esconder o baque como o cavaleiro fez; talvez a bruxa realmente conjurou algum feitiço nele. O ladino, apesar de atordoado com todas essas novas informações, foi capaz de captar a mensagem de Ravou’yah, de que eles deveriam continuar juntos a partir de agora. Ela mesma não parecia confortável e feliz com isso, mas seguiria os conselhos de Morbus até o final.

— Então nós devemos fugir para Oru e nos esconder da catástrofe até que Morbus esteja recuperado e pronto para nos contar os próximos passos? — Disse Jonas, reatando a conversa.

— Ou até que nós mesmos descubramos o que temos que fazer. — Objetou Valamir.

— Sim, por hora devemos alcançar Oru. — E, dizendo isso, Ravou’yah puxou sua sacola de volta, como seus preparativos finais para uma viagem. — E para isso deveremos cruzar toda a floresta, do centro ao norte, e caminhar mais algumas milhas até a civilização.

Ambos a bruxa e o ladino já estavam decididos, e começaram a caminhar para fora.

— Não, assim gastaremos mais tempo. — Explicou Valamir, continuando: — Para chegarmos mais rápido, precisamos de mobilidade. Há uma vila ao sul daqui, que acredito estar a pouco mais de um dia e meio de viagem, onde nós poderemos encontrar o meu e outros cavalos. Pelas estradas e a galope, poderemos chegar com um espaço de dias muito menor.

— Não acredito na eficácia de suas estradas, ainda mais com um exército atrás de nós. A floresta me parece mais segura, pois esconderijos se espalham por entre suas copas. — Discordou a bruxa, levantando uma de suas sobrancelhas.

— O exército que por acaso está atrás de nós monta cavalos espectrais, que se mostraram capazes de trotar no meio de raízes e solos úmidos. Na estrada e campo aberto, não seremos surpreendidos. — E, pegando as suas últimas coisas, com um suspiro, Valamir continuou, sério como nunca antes: — E eu jamais vou abandonar o meu cavalo. Se escolherem ir pela floresta, eu os encontro depois.

— Um cavaleiro apaixonado por sua montaria... — Observou Ravou’yah, em um sussurro. Ela olhou para os olhos de Jonas, e prosseguiu. — Então deixe o nosso ladrãozinho dar a palavra final. Por onde vamos, Jonas, O Eterno Tolo?

 

E o simples olhar persuasivo daquela bruxa foi capaz de amedrontar Jonas novamente. Caberia a ele, o ladino quase morto, o ladrão que sempre é visto, o homem mais fraco de todos... Caberia a ele decidir qual a trilha que eles seguiriam para fugir da morte?


Notas Finais


Espero que tenham gostado, e perdoem-me pelos erros de português. Comentem o que acharam, me ajuda muito!


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