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História Os Guardiões de Tupã - Capítulo 17


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Capítulo 17 - Canções, obsessões e paciência


Fanfic / Fanfiction Os Guardiões de Tupã - Capítulo 17 - Canções, obsessões e paciência

Gota Kaliandra, GO

 

Iago seguiu as deusas até um lugar diferente de tudo que já havia visto, um salão em forma de gota. Na entrada, uma placa sinaliza que o local era aberto ao público e que ali é um espaço dedicado ao ouvir.

— Não se preocupe. — disse Picê, deusa da poesia — Mortais não podem nos ver nesse momento.

o instruíram a tirar os sapatos, silêncio absoluto. O chão estava espalhado de colchonetes e almofadas, uma luz amarelada e fraca tomava conta do ambiente. A acústica da Gota chamava a atenção, onde até o pensamento parecia ecoar. Anhum, deus da música, era um indígena com cocar verde e amarelo, carregava  uma espécie de flauta. Sentou em uma das almofadas e as deusas o acompanharam. Iago sentou do outro lado, de frente para eles:

— O que esperam de mim? — ele perguntou

— Seu canto é muito poderoso. — disse Anhum — Por isso meu avô me instruiu a montar uma equipe com as deusas para te ajudar.

— Escuta, sem querer ofender os deuses, mas eu estudo canto desde que me entendo por gente. Como acham que podem me ajudar? — ele jogou o cabelo pra trás e cruzou os braços.

As deusas cochichavam entre si, Anhum levantou a mão pedindo silêncio:

— Nós concordamos que sua voz é bonita para níveis humanos, mas se tem interesse em enfrentar o Japiim, precisa alcançar o nível dos deuses.

— O conhecem? — ele arregalou os olhos — Sabem como posso achá-lo?

— Tudo a seu tempo. — disse Graçaí, deusa da eloquência, uma mulher indígena séria — Não adianta tentar ir agora, não está pronto. 

— Mas vocês sabem quem ele é? Podem me contar?

— Vamos do início. — disse Anhum — primeiro escute sobre a criação da música no mundo, depois entrará em contato com sua guardiã.

Iago ficou emburrado, mas decidiu aceitar, aqueles deuses eram sua melhor chance de encontrar seu rival.

— Começou quando visitei o mundo dos homens. — disse Anhum — Passeava em Eldorado dos Carajás, no Pará, as margens do Rio Araguaia, em companhia de minha noiva, a deusa Solfá, percebemos que o mundo dos homens era vazio e sem graça. O próprio deus Polo passava sem ruído e Tainacam vivia sem brilho. Ao voltar ao Monte Ibiapaba, nosso salão divino, convoquei uma reunião com deuses, semideuses e mortais para pedirmos ao meu avô Tupã o desenvolvimento de três altares de criação: no primeiro, Araci, deusa da aurora e das madrugadas, que desenhou na madeira uma pauta composta de cinco linhas e quatro espaços, e além destas, outras linhas e outros espaços, pondo o nome nas primeiras de "naturais" e nas segundas de "suplementares superiores e inferiores". Em segundo lugar, convoquei Vapuaçú, deus dos sonhos amenos e das suaves ilusões, que criou as sete claves, representadas por três interessantes figuras às quais deu os nomes de Sol, Fá e Dó. Em terceiro lugar, chamei Abeguar, deus do voo, que rapidamente colocou sobre as linhas, sete pontos que foram chamados notas, então eu dei nome a elas: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Depois, Manati formou a primeira harmonia aplaudida por todos. Em seguida, o poderoso Guaraci, deus do sol, executou o primeiro ritmo cadente e a primeira canção. Tujubá, o poderoso mortal, apresentou os primeiros acidentes, Sustenidos e Bemóis, formou as escalas, e criou os tons, os semitons e os intervalos. Minha noiva Solfá criou o primeiro cântico divino. O Saci pintou as notas de preto e deu valor a cada uma. Meu avô ficou satisfeito e deu seu toque divino, e assim nós criamos a música.

Iago ouviu a história, era incrível pensar no trabalho em equipe realizado por cada um dos deuses para a criação dessa arte tão presente em sua vida. Olhou para as deusas que estavam sentadas:

— E elas?

— Foram feitas na criação do mundo, são sete irmãs. 

— Onde estão as outras três?

— Biaçá, deusa da astronomia e Açutí, deusa da escrita, não tinham muito como ajudar. Guaipira, deusa da história, vai auxiliar seu colega Manoel.

— Entendi. Como posso começar?

— Pelo básico. Cante para nós e será devidamente avaliado.

— Tem alguma preferência?

— Pode ser só um trecho.

Ele pensou bastante, optou por Planeja Água, de Guilherme Arantes. Contava impressionar os deuses com isso:

— Água que nasce na fonte

Serena do mundo

E que abre um

Profundo grotão

Água que faz inocente

Riacho e deságua

Na corrente do ribeirão

 

Águas escuras dos rios

Que levam

A fertilidade ao sertão

Águas que banham aldeias

E matam a sede da população

 

Águas que caem das pedras

No véu das cascatas

Ronco de trovão

E depois dormem tranqüilas

No leito dos lagos

No leito dos lagos

 

Água dos igarapés

Onde Iara, a mãe d'água

É misteriosa canção

Água que o sol evapora

Pro céu vai embora

Virar nuvens de algodão

 

Os deuses se entreolhavam, mas aguardaram até que Iago terminasse de cantar:

 

— Gotas de água da chuva

Alegre arco-íris

Sobre a plantação

Gotas de água da chuva

Tão tristes, são lágrimas

Na inundação

 

Águas que movem moinhos

São as mesmas águas

Que encharcam o chão

E sempre voltam humildes

Pro fundo da terra

Pro fundo da terra

 

Terra! Planeta Água

Terra! Planeta Água

Terra! Planeta Água

 

Ele terminou, sorriu com a certeza de que havia os encantado, mas percebeu o rosto deles preocupados:

— Não gostaram?

— Foi magnífico, — disse Piná, deusa da simpatia — Só ficamos perplexos com a menção a sua guardiã.

— Como assim?

— Iara, mãe d'água. — disse Graçaí — Alguém já havia lhe contado?

— Iara? A sereia Iara?

— Ela mesma. 

Iago teve uma epifânia, se lembrou de quando quase morreu afogado, os peixes que o salvaram, o fato de compreender Beto em golfinhês, os deuses terem lhe dito que treinaria com Juruti, mãe dos rios. Tudo parecia fazer sentido agora:

— Eu sou algum tipo de sereio também?

— Nossa parte é com sua voz, — disse Anhum — Mas se quiser, podemos deixá-lo se conectar à guardiã. Vamos trabalhar seu canto hipnótico para que o controle com perfeição, assim poderá cantar sem preocupações.

— Esse canto pode vencer o Japiim? Eu já o fiz uma vez, encantei uma plateia, mas ele não pareceu sofrer nenhum efeito. Quem afinal é João Japiim Xexéu?

As deusas voltaram a cochichar, o que deixava Iago zangado:

— Por que não me respondem de uma vez? Se é meu destino enfrentá-lo, eu preciso saber!

— E saberá. — disse Anhum — Nós contaremos depois. Agora deve meditar e encontrar Iara.

— Do que vocês têm medo? 

— Acho melhor medir o tom pra falar com os deuses. — disse Graçaí — Sabemos que se falarmos onde ele está, irá atrás dele. Não está pronto, só o que conseguirá é mais uma derrota.

— O que vocês sabem sobre mim? Eu sempre fui o melhor cantor! Eu era o favorito!

Essa frase acertou as deusas em cheio, olhavam para Anhum, preocupadas. Ele se levantou, pôs a mão no ombro de Iago:

— É por essa atitude que ainda não pode vê-lo. Se conecte com Iara, daí conversamos. Japiim não é alguém comum. Pense em quem são os cantores da natureza e entenderá porque ele é superior a você.

— Cantores da natureza?

— Conversaremos depois.

Iago baixou a cabeça em silêncio.

O rapaz se concentrou, quanto mais cedo fizesse isso, mais cedo podia treinar. Fechou os olhos, respirou fundo, deixou os pensamentos fluírem como a água, sentiu como se mergulhasse. Dentro de sua mente havia muita água, então ouviu uma bela voz e a seguiu, encontrou uma sereia penteando o cabelo sentada em uma rocha, era uma indígena com longos cabelos esverdeados e olhos castanhos, Iago se assustou com sua semelhança com ele mesmo, exceto pela cauda de peixe.

— Estava esperando você. — ela sorriu apontando para as pedras.

Ele se sentou, os dedos dos pés tocavam a água:

— Você é a Iara?

— Isso mesmo. É o nome com o qual me sinto bem.

— O que quer dizer com...

— Eu sou como você, Iago, embora nem todos saibam disso.

Ele engoliu seco.

— Não precisa ficar nervoso. Não pretendo que me fale seu nome morto, mas para que entenda minha essência, lhe contarei do meu. — ela respirou fundo, passava a escova delicadamente pelos cabelos, olhava o horizonte — foi entre os séculos XVI e XVII. 

Eu me chamava Ipupira, "homem-peixe". Não me orgulho muito dessa época. No século XVIII foi quando mudei meu nome para Iara, me identifiquei melhor assim, e então todos me conheciam dessa forma, como mulher, "mãe d'água". Eu entendo pelo que você já passou, por isso pode confiar em mim.

— Estou surpreso, mas acha que pode mesmo entender?

— Sim, posso sim. Eu fui a melhor guerreira de meu povo, então meus irmãos, com inveja, tentaram me matar. Acho que já ouviu essa história também, correto?

Iago arregalou os olhos, nunca tinha conversado sobre isso com ninguém:

— Eles tinham inveja por eu ser o favorito...

— Eu sei disso. Escute, não vou defendê-los, mas vou te dar um conselho: repense em suas atitudes. Não acha que está sendo arrogante demais? Ser "o favorito" é tão importante assim pra você?

— Eu... Eu não consigo superar a derrota. Eu me esforcei tanto, e ainda assim o Japiim era melhor do que eu. Onde eu errei? Por que não tive chance?

— Espera um pouco. — ela disse largando o pente — Quem te disse que ele era melhor que você?

— Os próprios deuses me disseram que vou perder se enfrentá-lo. 

— Ele cantar melhor não o faz melhor. Essa obsessão vai te destruir se não parar com isso.

— Eu não posso me deixar ser derrotado! Os deuses sabem quem ele é e não me contam!

— Iago... Aceite a ajuda que te oferecem. Aceite que não se pode vencer sempre. 

— Que tipo de guardiã você é? Está me dizendo pra perder?

— Não. Você deve dar seu melhor sempre, mas não significa que vai vencer. No mundo sempre existirá gente melhor. O erro do Japiim foi não entender isso, você não deve seguir o mesmo caminho.

— Acha que sou arrogante como ele?

— Pense direito, Iago. O motivo de ter tanta raiva é por saber que vocês são iguais.

Ela mergulhou.

— Espera! — ele chamou, mas ela havia sumido.

Ele despertou, as deusas continuavam cochichando, pararam ao ver que acordou:

— Se conectou com a Iara? — perguntou Piná

— Sim... Acho que devo desculpas pra vocês.

— "Acha"? — Graçaí levantou a sobrancelha

— Eu sinto muito. Eu quero vencer, mas não vou conseguir sozinho.

— Talvez a Iara tenha colocado juízo nessa cabeça. — disse Picê

— Mas vocês não podem mesmo me falar do Japiim?

— Paciência, jovem. — disse Anhum — Agora que está mais calmo, vamos trabalhar seu canto. 

Ele respirou fundo.

— Certo. Seguirei todas as instruções.

— Muito bem. — disse Graçaí — Eu sou a deusa da eloquência, que é a capacidade de se expressar com desenvoltura e de persuasão através das palavras. Eu irei te guiar para que seu canto só seja ativado com as palavras corretas, não com qualquer canção.

— Eu, Picê, sou deusa da poesia. Vou te ajudar a compor sua própria música, transformar seus sentimentos em poesia.

— Eu, Arapé, deusa da dança, lhe ensinarei sobre as linguagens do corpo. 

— Dança?

— Se seu canto não for o bastante, precisará saber se movimentar. Desviar de vespas vai ser útil.

— Vespas? Do que está falando?

— Arapé! — repreendeu Anhum

— Ele vai precisar saber depois. Não dá pra ficar escondendo.

— E eu sou Piná! — a deusa tentou prosseguir — Sou a deusa da simpatia. Ajudarei a harmonizar seu canto. Também gostaria de trazer um pouco mais de humildade para suas ações... Sabe como é, ninguém quer lidar com um segundo Japiim....

— Piná! — disse Anhum — Meu avô não gostará de saber o que pensam sobre o Japiim.

— Mas seu avô o castigou. — disse Piná — todos sabem que ele só se aliou ao Anhangá por birra contra Tupã.

— Já basta! — disse Anhum, depois se virou ao Iago — Vamos começar, então depois se encontrará com Juruti para desenvolver seu lado sereio.

— Pelo que eu entendi, ninguém aqui vai com a cara do Japiim.

— Ele não era um cara legal. — disse Anhum — Não pense nisso agora.

Iago precisava aceitar e ter paciência. Ouvia as instruções de cada uma e seguia os ensinamentos, mais tarde seria guiado para Juruti.



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