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História Os Guardiões de Tupã - Capítulo 19


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Capítulo 19 - Rudá, deus do amor


Jardim Zen, GO

 

Bóris e Malu seguiam Tatamanha, mãe do fogo e deusa das faíscas e labaredas, e Angra, deusa do fogo, ambas mulheres que eram inteiramente feitas de fogo, mas antes que chegassem ao seu local de treinamento, Rudá as deteve:

— Preciso falar com a garota. Podem seguir com o rapaz.

— O que você....— começou Malu, mas os outros foram sem ela.

Bóris virou pra trás, viu a expressão nervosa dela, mas não desobedeceria os deuses. Assim que se afastaram, ela reclamou, Malu estava de braços cruzados, zangada. O "deus do amor" era a última coisa que queria ver.

— Você não tem ninguém pra incomodar?

— Tenha respeito, garota. Eu sou um deus.

— Eu sou ateia, não ligo pra deuses. O que você quer comigo?

— Eu sinto o que você sente no seu coração. Estou aqui pra ajudar.

— Eu preferia estar aprendendo a controlar o fogo.

— Seu fogo não pode ser controlado enquanto vier de raiva e ódio. Eu estou aqui pra lhe falar de amor.

— Me poupe. — ela revirou os olhos

— Eu sou o deus romântico dos apaixonados, mas o amor é mais do que isso. O amor é fogo, força e coragem. 

— Hum.

— Viu aquelas duas garotas? Sara e Carol? A força delas está no amor que tem uma pela outra, que supera barreiras, dá confiança. Beto tira forças do amor de sua família, ele tem um pai e mais nove irmãos que torcem por ele. Iago tem amor às canções, à sua voz, e aos seus pais adotivos que lhe apóiam. Manoel tem amor à sua avó e à essa terra que quer tanto proteger. Todos eles, de formas únicas e verdadeiras, tiram a força do amor. Enquanto seu coração só tiver ódio, não controlará o fogo e só trará destruição.

— E como espera que eu "ame" algo ou alguém? — gritou furiosa — Disse que pode ver meu coração, então sabe o que passei! Sabe que nunca tive amor! Que minha mãe é uma drogada e meu pai um abusador! Sabe que todos me odiavam por eu ter nascido! Na escola até os professores me evitavam! Eu nasci pelo ódio e é tudo o que conheço!

— Exatamente por isso preciso lhe falar de amor. Essa raiva não é só sobre seu genitor. No fundo, você mesma se odeia, se culpa por ter nascido. Sabe que se sua mãe abortasse nunca a deixariam em paz, seria chamada de "assassina". Sabe que se denunciasse o padre seria uma "mentirosa". Mas nada disso é sua culpa, Malu. Precisa se perdoar. O único culpado aqui foi o homem que de santo não tem nada. 

— Ele ainda está lá fora! Eu preciso me vingar dele!

— Matá-lo não te fará se sentir melhor. A raiva corrompe, destrói.

— Então você espera que eu não faça nada?

— Não foi o que eu disse. Ele cometeu uma barbaridade, pagará por isso, mas não pelas suas mãos. Você não se tornará uma assassina, um erro não consertará o outro. O que sua mãe dirá quando souber?

— Capaz de comemorar a morte do infeliz.

— Bem, essa parte sim, mas e quando souber que foi pelas suas mãos? Como se sentirá quando a filha tiver se tornado uma assassina?

Malu respirou fundo. 

— Eu entendo o que diz, mas não vou mudar de ideia. A justiça é lenta, até ele ser excomungado e preso, outras mulheres já terão sofrido. O que ele fez não pode ser esquecido enquanto eu viver.

— Entendo seu desejo de vingança. Seu coração se tornou amargo após tudo o que passou. Eu estou aqui justamente pra curar isso.

Ela não respondeu, não o olhava diretamente.

— Cairê! Catiti! — ele chamou

Duas garotas apareceram, seres de luz, representavam a Lua Cheia e a Lua Nova, respectivamente.

— Essas são minhas ajudantes, são encarregadas de tocar o coração das pessoas. É para elas que as mulheres rezavam para seus maridos voltarem em segurança da guerra e tocavam o coração dos amantes ausentes para retornarem em paz.

— E eu com isso. — bufou ela

— Eu a levarei para um lugar onde se sentirá bem, lá nós conversaremos.

Ela andou emburrada, não esperava nada daquele deus. Se surpreendeu quando viu o tal lugar, um campo enorme com vários cavalos:

— Como você...

— Esse lugar é famoso pela "Cavalgada Zen". Pode montar neles e relaxar, como se estivesse em casa.

Ela olhou pro deus, não disse nada, apenas admirava os belos equinos.

— Malu... — ele pôs a mão no ombro dela — Você tem um bom coração. Eu sei o quanto ama cavalos, mulas, burros e outros animais desse tipo. Se quiser controlar o fogo, deve primeiro controlar a raiva. Se concentre no que você ama e o que quer proteger, isso vai acender sua chama. Está entendendo?

Os cavalos corriam alegremente, guiados por Cairê e Catiti.

— Consegue ver meus cavalos? — ela perguntou

— Como?

— Eu os deixei aos cuidados de um fantasma. — disse ela — Se puder me garantir que eles estão bem, eu escuto suas baboseiras sobre amor.

— Muito bem. — disse o deus — Negrinho do Pastoreio está fazendo um ótimo trabalho. Seus equinos o adoram e o seguem. Se sente melhor?

Ela respirou fundo, não olhava pra ele:

— Eu não acredito em deuses.

— Mas estou aqui. Sabe disso.

— E onde esteve quando minha mãe precisou? Hein? — ela aumentou a voz — Onde estavam todos os deuses? 

— Malu...

— Vocês não passam de inúteis. Sem os humanos, não são nada.

Rudá tinha uma expressão triste, respirou fundo:

— Não fui criado pra grandes coisas. — disse ele — Mesmo no início da criação, minha capacidade era subestimada.

Ela franziu a testa.

— No início, tudo era escuro. — disse ele — Então Guaraci, o sol, iluminou o mundo. Infelizmente, só ficava por um tempo, e quando fechava os olhos, tudo voltava a escurecer, trazendo caos. Para reverter isso, Jaci foi criada, sua luz amena clareava a noite. Ela era tão bela que Guaraci apaixonou-se por ela, mas não podiam coexistir, pois onde havia Sol, a Lua se escondia, ele de dia, ela de noite. Foi aí que me criaram, o deus que levaria os recados apaixonados de Guaraci e Jaci, e assim se amavam.

— Então vocês não passa de um carteiro? — perguntou Malu — um? "Garoto de recados"?

— Inicialmente, sim, até descobrir meu potencial. Minhas fiéis ajudantes me ajudaram a traçar o caminho que levava ao coração das pessoas.

— Hum. — Malu resmungou

— Eu lamento por sua mãe. Nós não interferimos nas ações humanas, eles tem seu livre árbitro e escolhas. Estou pedindo para que não vá atrás de vingança, mas que busque outro meio. Mesmo se o matar, não terá paz.

— E o que me sugere?

— Se conecte com sua guardiã. Ela te entende melhor do que ninguém.

Ela não respondeu. Sentou-se na grama, nervosa. Fechou os olhos, o som do trotar e do relinchar dos cavalos a acalmava.

Abriu os olhos, parecia ainda estar em um estábulo. Uma bela mulher se aproximou:

— Posso ajudá-la?

— Quem é você? — perguntou nervosa

— Meu nome a muito tempo se perdeu, só restou o que sou hoje.

— Eu não tenho cabeça pra enigmas. — respondeu seca

— Interessante escolha de palavras. Eu vou me transformar para que me entenda.

Malu observou a mulher mudar de forma, seus pés e mãos virando cascos, sua cabeça incendiar, seu relinchar assustador, que se traduzia em palavras:

 

— Sou a Mula-sem-cabeça, uma mulher amaldiçoada. Eu fiquei com um padre e por isso fui condenada.

Malu paralisou ao ouvir aquilo, seus olhos arregalados, a voz não saía.

— É a história que contam. — continuou a Mula — Culpam a mulher que se mete com "homem santo", mas ninguém pergunta se a relação foi consentida. — ela se transformou de volta em uma mulher — Existem outras versões da história, onde uma mulher que fica com um homem antes do casamento também é amaldiçoada. Curioso, não é? Ambos consumam a relação, mas a culpa só cai pra mulher, desde o início dos tempos. 

Malu respirou fundo, nervosa. Cruzou os braços, desviou o olhar:

— Sei exatamente como é...

— Escute, Malu. Nada do que aconteceu foi culpa sua ou da sua mãe. Sei que passou a vida ouvindo o contrário, mas não é verdade. — pôs a mão no ombro dela, olhava seu rosto — Vire para mim, não precisa me evitar. Eu estou aqui pra você.

Ela ainda estava hesitante, respirou fundo, então se virou para a mulher. Há muito tempo não olhava nos olhos de alguém dessa forma, tão próxima. Antes que dissesse algo, a mulher a abraçou:

— Você vai conseguir passar por isso. Não deixe a raiva por seu genitor destruir sua vida. 

Malu sentiu lágrimas chegarem, mas tentou contê-las:

— Pode chorar, garota. Você já foi forte tempo demais. Só tem nós duas aqui. — ela a abraçou mais forte — Eu te ajudarei a controlar seu poder, ninguém mais vai te machucar.

Finalmente a gaúcha cedeu, abraçou de volta e deixou que as lágrimas saíssem. Estava cansada, não queria mais pensar em nada disso, mas sua paz não viria até seu "pai" pagar.

— Ele ainda está lá fora... — disse ela — Está machucando outras pessoas...

— A morte não o fará pagar. Pense nisso.

Malu despertou, ainda estava no estábulo. Passou a mão em seu rosto, não havia lágrimas pra secar, tudo estava em sua mente. Rudá e suas ajudantes brincavam com os cavalos, ela respirou fundo e se levantou:

— Eu posso ir ao meu treino de fogo agora?

— Conversou com sua guardiã?

— Sim. Você tinha razão, ela me entende. Podemos ir agora?

— Como desejar.

Ela montou no cavalo, seguiram para onde estava Bóris e as deusas do fogo.


Notas Finais


Foj um capítulo extremamente difícil de escrever


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