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História Os Guardiões de Tupã - Capítulo 52


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Capítulo 52 - Abraços


Salão dos deuses, Gruta de Ubajara, Monte do Ibiapaba, Ceará

Os sete arrumavam suas coisas, os deuses haviam trazido do Vale da Lua, em Goiás, para que assim não precisassem dar tantas viagens. Havia um sentimento estranho no ar, mistura do orgulho do dever cumprido e uma melancolia pelo final de tudo.

— Muito bem, — disse Tupã — Abeguar, deus do voo, pode levar Maria Luísa e Bóris Tadeu ao sul. Pólo, deus dos ventos, com a ajuda do furacão de Sara irá levar os outros. A primeira parada é Tomé-Açu, no Pará, onde reside a avó de Manoel, em seguida as duas garotas vão para Manaus, por fim Polo levará Iago e Roberto para São Paulo de Olivença e Tabatinga, respectivamente. São cidades próximas da extremidade do Amazonas.

— Entendido. — todos responderam

Cada um terminava de fechar a própria mala. Era uma pena que não visitariam o outro salão antes de partir, pois era onde passaram tantos meses juntos.

— Acho que é isso... — suspirou Sara — Ao passar pela saída da caverna, nos separamos.

Carol estava de cabeça baixa. Era estranho pensar em sentir falta daquelas pessoas, já que nunca fez um laço muito forte com eles. Viu a amiga se aproximar dos gaúchos, esticou a mão para Bóris:

— Foi um enorme prazer te conhecer. — ela esboçava um enorme sorriso

Ele apertou a mão dela, feliz:

— Eu agradeço por querer ser minha amiga.

Ele se lembrava bem como se divertiram durante seu treinamento com a Sukuyu'wera, as inúmeras piadas de cobra que teve que ouvir da guria enquanto aprendia a se transformar. Foi uma experiência diferente de tudo o que já teve, poder se conectar com alguém que não tivesse medo de seus olhos, de sua existência.

Ela o puxou para um abraço, o apertava forte:

— Desejo tudo de bom pra você na viagem.

Malu ficava apenas encarando os dois, de braços cruzados. Assim que Sara o soltou, foi cumprimentá-la:

— Também te desejo tudo de bom. Cuida bem dele, tá? — ela piscou

A gaúcha apertou sua mão:

— Eu... Agradeço.

Não era muito de discursos ou despedidas, não sabia muito como agir nesse tipo de situação.

Sara retornou para o lado de Carol.

— Tá tudo bem? — perguntou Bóris

— Eu só estava pensando na forma como ela te abraçou... — disse em um tom cabisbaixo

— Hã...

— Não pense que foi ciúmes! — ela completou, nervosa

— Eu não disse nada. — ele ajeitou os óculos

— Eu só não entendo como é tão fácil para algumas pessoas abraçar alguém dessa forma, só isso!

— Malu... — ele começou, mas foi interrompido com a chegada de Beto

— Galera! — o rapaz vinha animado, fazendo escândalo — Eu nem acredito que a gente vai passar um tempão sem se ver!

A gaúcha se apressou em esticar o braço para um aperto de mão. Sabia que Beto era como Sara, alguém que tem "facilidade" em abraços. Ele percebeu o gesto dela, então aceitou. Não forçaria um contato se ela não queria.

— Tivemos bons momentos, apesar de tudo. — ele sorria

Ela encarava o colar no pescoço dele. Agora que reparou que havia recuperado, começou a pensar no que viveram em Fernando de Noronha, todo o treinamento, o que conversavam, sua batalha com Alamoa, tudo. Aquele tempo estava tão distante agora, e chegara o momento de se despedir daquele que lhe fez companhia, mesmo com seu jeito irritante. Não sabia dizer o porquê, mas o puxou para perto e o abraçou:

— Te cuida, guri. Tem muita sorte de ter uma família pra quem voltar.

Ele ficou surpreso, a abraçou de volta:

— Você não tá sozinha. Mesmo distantes, estamos com você.

Eles se afastaram, então Beto abraçou Bóris também:

— Foi um prazer te conhecer. Admiro sua paciência. Faça uma boa viagem, cuida bem dessa garota.

Ele sorriu.

Assim que Beto se afastou, o gaúcho olhava pra Malu:

— Abraçar não pareceu tão difícil agora. — ele riu

— Cala a boca, tchê!

Por último, Manoel e Iago vieram se despedir deles. Engraçado como um grupo de pessoas tão diferentes podiam ter tanto em comum, se entender. O fardo que cada um carregava acabou os unindo, e de certa forma, foi o que fez Malu repensar sobre a vingança. Matar alguém nunca seria fácil, e era algo sem volta. No entanto, Bóris carregava consigo uma serenidade, uma calma tão inexplicável.

— Foi bom poder falar com vocês. — sorriu Manoel — Eu nunca vou esquecer que foi a primeira pessoa a achar meu poder algo "legal", mesmo depois de eu descrever o terror que ele é.

— Mas eu realmente acho. — ela respondeu — Aquela coisa que tu vira é incrível, foi capaz de bater de frente com um deus!

— Você tinha razão no que disse. — comentou Bóris — Monstros morrem afogados, e você não é um deles.

— Bóris...

— Seu plano foi o que nos salvou. — disse Malu — Merece os méritos por isso.

Eles apertaram as mãos. Iago se aproximou:

— Foram as primeiras pessoas com quem pude conversar sobre meus irmãos abertamente... O fardo da morte... Eu sou grato por me ouvirem e não me julgarem.

— É bom ter com quem conversar. — sorriu Bóris — Eu sempre evitei falar de meus olhos, mas com vocês foi tudo tão natural... Precisamos sair pra almoçar juntos qualquer dia desses. Traz o Beto contigo, o guri é uma figura.

Iago suspirou, isso ele era com certeza.

— Vamos sim. — ele estendeu a mão — desejo boa viagem aos dois.

Se despediram, era chegado o momento de Abeguar levá-los ao Rio Grande do Sul. Estava pronto para voar quando Carol os deteve:

— Esperem!

— O que houve? — perguntou o deus do voo

— Preciso agradecer! Eu não tenho como retribuir o que fizeram...

— Não é necessário. — respondeu Malu

— Tudo o que eu disse pra vocês antes... Eu lamento tê-los julgado mal... Bóris! Obrigada por ser amiga de Sara e ter ajudado ela quando ficamos longe! Malu! Obrigada por tudo o que me disse quando estava prestes a me unir ao outro lado! Obrigada aos dois por tudo! — ela sorriu

Bóris sorriu de volta:

— Fico feliz por estar bem agora.

Malu sentia algo estranho no peito, não sabia explicar. Pensar que, de algum jeito, havia ajudado aquela garota, a fazia refletir sobre sua mãe. Se pudesse salvá-la, se daria por satisfeita. Esboçou um sorriso:

— Te cuida, guria.

— Acho que com isso podemos ir. — disse Abeguar. Segurou os gaúchos, abriu asas e voou, rumo ao sul do país. Eram mais de 4000 km de distância, mas como o deus voava como um avião, a viagem durou em torno de 4 horas para chegar em Porto Alegre, capital do estado. A pedido dos dois, o deus os levou para a cidade de Malu primeiro.

União da Serra, Rio Grande do Sul

— Eu vos deixo aqui. — Abeguar se despediu — imagino que é o bastante para seguirem seus caminhos.

— É sim. — respondeu Bóris — muito obrigado.

— Eu quem agradeço. — disse abrindo as asas novamente — os deuses têm uma dívida com vocês. Aliás, — se aproximou de Malu — Rudá disse que adorou te conhecer, estará contigo se precisar.

— Eu não sou de rezar. — ela fechou a cara — mas diga a ele que aprecio.

— Como quiser. Até a vista, jovens!

Abeguar voou para longe. Ficaram um pouco em silêncio enquanto caminhavam, não estavam longe da casa dela.

— Por que veio comigo? — ela perguntou sem olhar pra ele

— Queria conversar a sós, disse que quando saíssemos da caverna...

— Entendi. — respondeu meio seca — Se quiser, pode falar agora.

— Não quer chegar em casa primeiro? Sei o quanto está preocupada com seus cavalos.

— Daí espera que te convide pra entrar pra gente conversar? É o que quer? — ela estava um pouco alterada

— Você tá bem?

As mãos dela tremiam, seu rosto ficou em chamas.

— Tô ótima! — respondeu, zangada — O que que você acha?

— Eu não tô entendendo o que te deixou assim. — disse calmo, porém preocupado — É por ter voltado pra sua cidade? Tem a ver com sua mãe ou com seu... Sabe...

— Com você. — ela respirou fundo, tentando se acalmar — Você é o problema.

Ele arqueou as sobrancelhas:

— Eu fiz algo errado? Escuta, se não quiser que eu te acompanhe até em casa, tudo bem.

— Você me deixa confusa e isso me deixa estressada! — suas chamas se intensificavam — Não tem nenhuma necessidade de me acompanhar pra lugar nenhum, guri! Eu estava com você pra aprender sobre meu poder, controlá-lo e assim matar meu pai. Eu já tenho o que eu quero, mesmo que não vá mais matá-lo, então pode voltar pra tua casa!

Ele ficou um pouco em silêncio, processando tudo.

— Se é só isso mesmo, por que me abraçou na caverna?

Ela arregalou os olhos, a chama apagou, virou a cara, cruzou os braços:

— Era sobre isso que queria falar?

— Você mesma disse que não é de abraçar, e mesmo assim...

— Você tá se achando só porque num momento de desespero eu agi sem pensar?

— Não foi sem pensar. Naquele momento, achando que íamos morrer, você não pensou na vingança, em como seu pai continuaria vivo aqui fora se você perdesse a vida ali. O que passou pela sua cabeça pra estar disposta a abandonar tudo?

— A culpa deve ser toda daquele idiota do Rudá. — resmungou ela — acho que só mandou esse recado pra me provocar.

— Por isso ficou nervosa agora? Por causa do que o Abeguar falou?

— Exatamente. Ele me fez lembrar como eu odeio deuses. Minha luta nunca foi por eles. Eu não sou uma pessoa boa como vocês que querem bancar os super heróis da natureza.

— Malu, acho que tá saindo do foco. O que eu tenho a ver com isso?

Ela respirou fundo. Ou ele era sonso ou realmente faria ela dizer. Virou-se para ele, encarando seus óculos escuros. O olharia nos olhos, se isso não fosse terrivelmente mortal. Então se lembrou:

— Você não tem medo do meu rosto em chamas, não é?

Ele corou.

— Não, mas por quê?

— Eu quero olhar nos seus olhos mais uma vez, e só consigo nessa forma. Tem problema pra você?

Ele engoliu seco. Aquelas perguntas o deixaram nervoso.

— Isso é bem perigoso, você sabe... — baixou a cabeça

— É o último favor que te peço.

Ele assentiu, seu coração estava acelerado. Ela incendiou o rosto mais uma vez e esperou ele cumprir a parte dele. O rapaz levou as mãos ao rosto devagar, tirou os óculos com cuidado, deixando seus olhos expostos. Aquela visão do fogo era majestosa. Ficaram um tempo em silêncio, ela contemplava a beleza dos olhos dele. Suspirou, era uma das coisas mais difíceis que já fez na vida.

— Eu não sou de falar de sentimentos, tá legal? Então não espere palavras bonitas nem nada assim.

Ele assentiu em silêncio.

— Eu nunca fui próxima de ninguém antes, então tudo isso é novo pra mim. Eu sou acostumada com raiva, desprezo, só me sentia bem com os cavalos, mas aí você apareceu... — a fala dela ficava mais calma — Eu sempre te achei um esquisito, não só pelos seus trezentos olhos, mas essa sua calma... Essa paz mesmo de frente pra morte... Eu te invejo, sabe? Como alguém consegue ser assim o tempo todo? A única vez que te vi surtar foi na tempestade... Eu tive tanta raiva daquela bruxa jacaré achando que ela tivesse te machucado de alguma forma... Na caverna, quando eu te abracei, no começo achei que podia ser por isso, queria um pouco da paz que você tem, mas no fundo eu sabia que não era o motivo.

Ela ficou um pouco em silêncio antes de continuar, observando as reações dele. Depois que terminasse, não tinha volta.

— Bóris... acho que estou apaixonada por você.

Arregalou os olhos, não esperava ouvir isso dela. Não queria supor que seria isso, embora algo dentro dele quisesse muito. Ela estava em silêncio, provavelmente esperando uma resposta. Ele limpou a garganta:

— Malu eu... Eu... — sua mente revirava procurando as palavras certas

— Se não sentir o mesmo eu vou entender. — ela virou a cara, ainda em chamas

— Eu também sou apaixonado por você. — ele respondeu — desculpa, esse fogo me tira muito a atenção, posso por meus óculos de volta?

— Bóris! — disse num tom zangado

— É a minha vez de olhar nos seus olhos. — ele respondeu

Ela ficou surpresa, então assentiu. Ele pôs os óculos de volta, ela voltou o rosto ao normal.

— Ainda é linda mesmo sem o fogo. — suspirou

— Como é? — ela ficou levemente rubra

— Escuta, eu também nunca tive ninguém muito próximo ou que se importasse comigo. Quanto a ser calmo... — ele coçava a cabeça — acho que só é meu jeito mesmo... Eu não sei quando eu comecei a ter sentimentos por você, mas nunca falei nada antes porque achei que... Bem, achei que não fazia sentido falar nisso, só que quando você me abraçou eu fiquei confuso. Eu só consigo pensar em como sua felicidade é importante pra mim, mas nunca quis ser inconveniente.

— Não é. Provavelmente é a pessoa mais compreensiva que eu já conheci...

— Malu... — ele suspirou

Ela se aproximou, agora que ele estava de óculos, não precisava se preocupar. Segurou na gola da jaqueta e o puxou para perto, o beijando. Ele levou um leve susto pela iniciativa dela, mas entregou-se aos seus lábios, pôs as mãos em sua nuca, acariciando seus cabelos. Nunca haviam sentido nada parecido antes por ninguém, era intenso, mais ardente do que qualquer chama que disparassem. Separaram-se, ofegantes. Bóris arrumou os óculos no rosto, ainda sentia suas bochechas queimarem. Abriu um sorriso. Malu parecia pensativa no que tinha acabado de fazer, acabou sorrindo também:

— Só não fica convencido. — ela disse — Não pense que é tão fácil isso acontecer de novo.

— Não tem problema, eu fico aguardando. — brincou ele.

Andavam juntos rumo a casa de Malu, a garota agora se sentia mais leve.


Notas Finais


Eu amo meus gaúchos do fogo


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