História Os Minutos de Valet - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Ladrões, Original, Romance, Tragedia
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Luta, Romance e Novela, Shonen-Ai, Suspense, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Ato II


No “esconderijo” improvisado do grupo, um apartamento abandonado no segundo andar de um prédio a ser demolido, Valet estava analisando um anel de rubi que há pouco roubara. Sentado ereto em sua poltrona verde em farrapos, não deu importância quando Mary entrou no cômodo tentando atrapalhar sua concentração.

– Sam, por que a gente não rouba dinheiro também? – Mary insistia naquele assunto, fazendo Valet suspirar aparentando um cansaço que era, na realidade, sempre evidente em seu semblante. Quando Mary encarou seu irmão, se arrependeu automaticamente de suas palavras.

– Sam...

– Já conversamos sobre isso Viola. Dinheiro é fácil de ser rastreado. Onde Cristopher está? – Ele precisava conversar com o rapaz sobre uma informação que obtivera mais cedo naquela manhã.

Mary ficou silenciosa, não respondendo a pergunta e desviando o olhar.

Com uma careta de dor Valet se levantou, esquecendo o anel de rubi sob a mesinha de centro, ficando cara a cara com a irmã. Mary era alguns centímetros, talvez cinco, menor que Valet. Seu rosto com maquiagem preta de baixo custo cabelo descolorido em tons de cinza e branco a tornavam o oposto do irmão, com seu cabelo em seu tom preto original e pele em um tom pálido doentio. Ninguém conseguia imaginar que algum dia ele tivera a pele bronzeada do sol da praia de Nara.

Viola Mary não gostava de olhá-lo por muito tempo, as lembranças sempre vinham quando o fazia.

– Onde ele está Viola? – Mary retornou a olhar para a imensidão negra que era a íris do irmão e suspirou.

– Ele saiu Sam... Disse que queria ver o pai, nem que se fosse de longe...

Por logos segundos Valet nada disse, até que calmamente voltou a sentar-se na poltrona e, sem olhar mais para a irmã, falou:

– Chame o pessoal. – E Mary sabia que seu irmão, o líder do grupo, apenas mandava reunir o pessoal por um motivo: uma missão.

O grupo estava disposto em roda. Valet ainda sentado em sua poltrona verde, calmamente esperando que todos se acalmassem. Ao seu lado direito, Mary, ao lado dela Anna. Ao lado de Anna estava Marcos e ao lado desse, ninguém, Havia uma cadeira vazia entre Marcos e Valet: o lugar de Cristopher.

– Todos se acalmem. – Valet começou quando percebeu que não ficariam quietos. – Como obviamente podem ver, Cris não está aqui. Mas isso vocês já sabem, afinal estavam escondendo essa informação de mim. – Todos permaneceram em silêncio, tentando ao máximo não olhar para o líder e sua fúria.

Todos sabiam como Valet se sentia, mas a feição dele não demonstrava a fúria e a raiva que naquele momento sentia. O líder era bom em esconder suas emoções.

– Sei que vocês se consideram como irmãos. Protegem um ao outro, mas esconder de mim, em um momento crucial como esse, a saída de Cristopher é, falando o mínimo, irresponsável e intolerável.

O silêncio prevaleceu, mas agora Anna mexia inconscientemente no fiapo solto do encosto da cadeira; Mary cutucava a unha do mindinho e Marcos limpava freneticamente a ponta do tênis azul escuro.

Dois minutos se passaram e Valet os contou no relógio.

– Hendric está atualmente retido no Nara Presídio de Segurança nível II. – Valet esperou que os companheiros passassem a prestar atenção nele e continuou. – Ele foi transferido essa manhã e Cristopher conseguiu essa informação invadindo o terminal da polícia central. – Ninguém ousou perguntar como o próprio Valet conseguira tal informação. Cristopher nesse momento deve estar invadindo o local para tirar o pai de lá.

A informação pareceu impactar os três companheiros que a escutavam.

– Arrumem os equipamentos. Saímos em cinco minutos. – Ao fim todos se levantaram alarmados, permanecendo no cômodo apenas Valet e Mary.

Mary não sabia como tocar no assunto, por isso resolveu ser direta.

– Sam... Sam, você não pode ir com a gente... Seu corp–

– Viola – Valet interrompeu a irmã. – como estou agora não é relevante. – Suspirou em uma pausa. – O encontro de hoje com a polícia deixou claro que eles estarão atentos a qualquer movimento errado nosso. Não há possibilidade de eu deixar três crianças invadirem um presídio procurando por outra criança.

Mary se aproximou e se ajoelhou na frente da poltrona verde, tendo seu irmão a olhando olho no olho.

– Me perdoa irmão... Vamos encontrar o Cris rápido e te deixar descansar... Eu prometo. – Valet ouviu calmamente as palavras da irmã e, ao final, curvou-se em sentido a ela e beijou sua testa. Um singelo gesto de carinho que fez lágrimas deixarem os olhos de Viola Mary.

Ela deixou o cômodo para arrumar suas coisas e Valet se levantou, deixando a poltrona, e seguiu para perto da única janela do cômodo, fechada por uma grossa cortina marrom. Ali Valet encarou o céu amarelado do meio dia: era um típico dia de verão.

Em segundos, preso nessa calmaria de verão, Valet se dobrou em dor, agachando e respirando pesadamente a procura de ar. Ele ignorou isso. Afastou da mente qualquer pensamento negativo.

Caminhou rapidamente até a pequena cômoda em madeira envelhecida e a abriu, tirando uma camiseta preta e uma jaqueta no mesmo tom. Agora em gestos mais lentos tirou o moletom de tecido pesado, jogando a peça em algum lugar do cômodo. Nu da cintura para cima não era uma visão que Valet gostava de ter: magro demais para o que ele considerava bonito. Colocou a camiseta e a jaqueta e saiu do cômodo. Na porta seus três protegidos o esperavam, com todo o material já arrumado. Eles não sabiam que Valet mentira e na realidade não usariam material algum.

Mary estendeu a máscara preta em tecido para o irmão e todos saíram rapidamente do apartamento. Viola Mary não imaginava que o irmão não faria uso daquela máscara.

 

Dentro do carro o silêncio reinava. Marcos dirigia de forma prudente para não ser parado logo de cara, mas a verdade era que o grupo não sabia como iriam entrar no presídio.  Não, Valet já estava com um plano bem traçado na mente.

– Eu quero que você – apontou para Mary – e você – agora apontou para Anna – fiquem no carro. Nenhuma de vocês tem carteira de motorista, mas situações inesperadas pedem medidas desesperadas. – Suspirando tirou do bolso um pedaço de plástico duro e entregou para a irmã. – Essa é uma carteira falsa muito bem feita Viola. Mas não deixe ninguém ficar olhando ela por muito tempo, porque é claro que vão achar alguma imperfeição.

– Sam... Por que isso? – Mary perguntou olhando o irmão sentado no banco da frente do carro.

– Porque Marcos vai me acompanhar e apenas ele. Caso alguma coisa acontecer quero que você pegue esse carro e dirija para bem longe daqui. – E sem deixar Mary reclamar mais, Valet saiu do carro assim que Marcos estacionou duas quadras longe da instalação do presídio.

De longe Mary olhava o irmão e mordia nervosamente os lábios. Seu cabelo curto e repicado não servia de muita coisa para ser puxado em sinal de nervosismo.

Anna percebeu o comportamento da amiga e segurou sua mão. Anna era uma menina meiga e solitária, mais parecia um anjo no meio daquele grupo desajustado. Certa vez, em um supermercado, a questionaram se o grupo com quem estava a havia sequestrado. Por quê? Ora, porque Anna era diferente não só no jeito calmo, comedido e meigo, mas sua aparência também era um destaque: cabelo longo e de um tom de loiro que lembrava fios de ouro contrastando com seu par de olhos verde esmeralda.

Mary agradeceu o carinho da amiga, saiu do carro e se posicionou no banco do condutor e assim fez Anna, sentando-se no lado, no passageiro. Mary queria correr e ir de encontro ao irmão, o ajudar, mas sabia que na verdade o estaria atrapalhando se fosse. E, de forma alguma, queria causar mais dano ao irmão do que já causara.

Restara apenas rezar de forma silenciosa para qualquer deus que se disponibilizasse a escutá-la.

 

Marcos seguia o ritmo de Valet, mesmo que para ele esse ritmo fosse lento demais.

– Valet, como vamos achar o Cris e sair do presídio? E se ele já conseguiu pegar o pai? – Valet pensou um pouco nas perguntas. Ele tentava ao máximo andar rapidamente, mas a verdade era que seu corpo não respondia muito bem aos seus comandos.

– Se ele já tivesse conseguido chegar até o pai dele e tentado o tirar da cadeia, neste momento um alarme ensurdecedor estaria tocando... E eu tenho uma ideia de como sair.

Marcos olhou desconfiado para o amigo. Ele não conhecia ninguém que estava preso ali, então não sabia como conseguiriam entrar com alguma desculpa como essa... Espera.

– Valet, você conhece alguém que está preso ali? – Eles estavam chegando já na entrada do presídio quando Valet parou por um momento e falou em tom baixo:

– Marcos, preciso que você dê a volta e me espere no portão leste, perto de onde você parou o carro. É fácil de achar, é onde acontece o descartamento dos materiais higiênicos. Não deve ser difícil de entrar...

Marcos olhou surpreso para seu líder e adotou uma postura amedrontadora.

– Você está querendo dizer que vai entrar sozinho e pela porta da frente em um presídio de segurança nível II?! – Marcos sabia que estava sendo petulante ao falar assim com seu líder. Eles tinham a mesma idade, vinte e um anos, mas Valet era de longe um legítimo líder e Marcos nunca poderia competir com isso.

Valet deu um meio sorriso. Ele não recebeu as palavras do amigo como negativas. Na verdade ficava até um pouco feliz de Marcos estar pensando na sua proteção.

– Eu realmente preciso que você faça o que eu estou pedindo Marcos. Preciso que você nos espere no portão leste, você quem nos dará cobertura e proteção. Sem você lá nos esperando estaremos vulneráveis. – Ainda irritado e sem dizer uma palavra, mas obviamente entendendo o plano do amigo, Marcos saiu caminhando calmamente rumo ao portão leste.

Valet suspirou, ajeitou sua postura e caminhou mais um pouco até a entrada do presídio.

No balcão ele foi recepcionado por uma senhora que deveria estar na casa dos seus setenta anos, trajando um moletom em tom bege e com um sorriso caloroso nos lábios.

– Sammuel, meu querido menino! – A senhora correu para dar um forte abraço em Valet, que sorriu verdadeiramente com o gesto.

– A senhora está linda como sempre, dona Aurora. – Aurora sorriu mais ainda quando escutou aquilo. Ela havia se afeiçoado ao rapaz quando, há cerca de dois anos, ele frequentava bastante a ala de visitas do presídio.

– Fiquei preocupada quando você não veio mais visitar seu irmão... Você está bem? – Aurora perguntou curiosa.

Valet sorriu outra vez, mas agora um sorriso amarelado.

– Aconteceram algumas coisas... Mudei de cidade... Comecei a faculdade... Consegui um emprego... – E Valet mentia livremente de uma forma tão genuína que qualquer um que escutasse acabaria acreditando. Aurora nada perguntou sobre Viola, pois Sammuel nunca contara que tinha uma irmã também.

– Que bom que você está no bom caminho meu menino! – Ela caminhou para detrás do balcão novamente, pegando uma ficha e entregando para Valet.

Na ficha Valet preencheu com seu nome completo: Sammuel Vicent Valent e, no campo do interno a quem estaria visitando ele escreveu desgostoso e com letra quase irreconhecível: Michael Henry Valent.

Entregou a ficha para a dona Aurora e sorriu, seguindo o guarda que o levaria até a sala de visitas. Tinha sorte. Era quarta, o dia mais longo para se visitar alguém naquele presídio. Valet foi rapidamente revistado pelo guarda que não parecia fazer muito bem o seu trabalho.

Sentado sozinho na saleta de visitas, Valet pensou no que diria ao irmão. Não estava planejando dizer nada, mas precisava que o guarda que o trouxera até ali saísse do local para então poder colocar seu plano em prática.

O tempo pareceu parar no segundo que Michael entrou na sala.

Michael Henry Valent poderia ser considerado um rapaz muito bonito. Com seu 1,83, cabelo preto piche repicado na altura do ombro e olhos em tom de âmbar, ele realmente havia desperdiçado sua vida, era o que Valet pensava... Mas não que Valet estivesse fazendo muito diferente. Bom, pelo menos no histórico de Sammuel Vicent Valent não havia “assassinato” escrito. Já era um começo.

Sentado frente a frente com o irmão que Valet não via há dois anos, os dois esperaram em silêncio o guarda sair para esperar do lado de fora.

Michael que começou enquanto ainda encarava o irmão menor:

– Dois anos Sam... Dois anos... Não posso dizer que estou feliz em te ver e nem que “você parece bem”. – Michael debochou constatando as olheiras, a pele pálida e a magreza do irmão. No fundo, bem no fundo, Michael se perguntou o que estaria acontecendo para o irmão estar com aquela aparência.

Valet suspirou já cansado daquele encontro sem sentido. Estava mais cansado ainda só de pensar no que se seguiria em instantes ali.

Michael estava algemado, mas isso não foi problema para Valet que, sem dizer uma palavra, pegou de dentro da bota um fino pedaço de arame e jogou para Michael que rapidamente pegou sem deixar a câmera registrar o acontecimento.

Michael, esperto e fugaz como era, pegou o arame e o escondeu entre as mãos, começando a já trabalhar nas algemas enquanto não desviava o olhar do irmão.

Ali não havia escutas, apenas a câmera pegando seus movimentos.

– Você sabe que quando eu me soltar eu vou te socar até você apagar Sam... Você enlouquecer por um acaso? Mesmo que isso seja uma armadilha pra mim, nenhum homem nessa terra vai conseguir me tirar de cima de você e você sabe disso. – Michael comentou calmamente enquanto terminava de se soltar.

Valet sabia daquilo. Sabia que o que o irmão mais queria era machucar ele... Bom, naquele momento era isso que Valet queria também.

Os dois ouviram o som do cair das algemas na mesa e Michael olhou de forma quase louca para o irmão.

– Você veio aqui para morrer Sammuel? – Michael perguntou nitidamente curioso pelos atos do irmão.  Mas não esperou resposta, ele empurrou a mesa que o separava do mais novo e caiu em cima do irmão, prendendo Valet ao chão e acertando fortes socos no rosto pálido.

Quando o guarda finalmente entrou, Michael não estava mais socando o rosto de Valet. Agora suas grandes e fortes mãos estavam no pescoço fino do irmão, fazendo uma força e pressão monstruosa no local. Valet estava sufocando e o guarda não parecia estar tendo muito sucesso em tirar o detento dali.

Com um esforço gigantesco Valet respondeu a pergunta anterior do irmão, fazendo pela primeira vez sua voz ser ouvida ali:

– Eu já estou morrendo meu irmão. – Assim que escutou as palavras, em tom baixo e fraco, do irmão, Michael soltou Valet, o deixando respirar.

Mesmo fraco e ainda tossindo muito, Valet olhou uma última vez para o olhar pasmo que Michael estava dando enquanto era contido pelo guardo, e saiu correndo da saleta. Ele estava no prédio B e precisava rapidamente chegar ao prédio D, onde Cristopher estaria tentando tirar seu pai.

Enquanto corria estava achando estranho que não havia mais guardas em lugar algum e xingou internamente quando escutou o alarme estridente. Ao longe Valet viu Cristopher correndo junto com seu pai, tentando encontrar uma saída.

Sem fôlego Valet parou e se apoiou numa parede próxima. Puxou a maior quantidade de ar que conseguiu e gritou por Cris, que parou e virou assustado, vendo seu líder ali.

Cris e seu pai se aproximaram e rapidamente Valet disse que havia um jeito de fugir dali que poucos sabiam e que daria para o portão ao leste, onde Marcos estaria esperando. Valet sabia de tudo isso, pois, há dois anos quando seu irmão fora preso, ele havia pesquisado formas de tirar o irmão da cadeia. Isso no passado, é claro.

Eles voltaram a correr sem nunca encontrar um guarda, pois, de acordo com os auto falantes do lugar, Michael parecia ter conseguido pegar uma arma e estava dando trabalho para os guardas que se aglomeravam ao seu redor. No final o irmão se mostrava mais útil do que Valet poderia ter imaginado.

Quando estavam quase atingindo a saída, o portão leste, Valet subitamente parou, escorando na parede, com a respiração ofegante e tossindo muito. Ele não conseguiria continuar. Ele havia chego até ali pela pura adrenalina no seu corpo. Agora que Cris já poderia fugir com o pai, Valet poderia finalmente descansar.  

– O que está fazendo Valet? A gente tem que ir! – Cris perguntou alarmado. Valet nem conseguia falar. Sua visão estava ficando turva, mas ao longe ele podia ouvir passos. Alguém se aproximava. Cris ouviu também os passos e tentou pegar Valet pelo braço para tirá-lo de lá. Mas Valet não conseguia mais, estava quase perdendo a consciência e seria um peso para o colega.

– Vai! – E com apenas essa ordem Cris correu para a saída junto com o pai enquanto o chefe de polícia de Nara, Mathew Stone, alcançava Valet e o jogava no chão. 


Notas Finais


Boa tarde pessoal!
Acho que essa é a original que estou mais entusiasmada em escrever... Eu espero que vocês estejam gostando e, se possível, deixem um comentário sobre o que estão achando!


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