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História Os mundos de Sakura - Capítulo 14


Escrita por:


Notas do Autor


Então... Eu realmente não sei o que dizer, já faz tanto tempo que esse capítulo me prendeu a sua escrita.
Mas enfim, está pronto.
Eu o dividi em duas partes porque ia ficar um capítulo de 16.487 palavras.
Então aqui vai a primeira parte, espero que gostem tanto quanto eu gostei de escrever.
Prometo voltar em breve.

Capítulo 14 - A Deusa que habita em mim: início.



Era estranho ouvir a palavra família, depois de tanto tempo ser direcionada a mim.
Me sinto amedrontada por ter sido controlada, e embora eu não esteja presa a esse lugar, sinto como se não houvesse para onde fugir. Eu havia sido bem recepcionada, mas ainda estava receosa, afinal, nunca havia ouvido falar de uma tribo vivendo na Inglaterra, ou sabe-se lá em que parte do mundo eu esteja. Nunca, em momento algum, ouvi sobre eles em Hogwarts, creio que nem os livros de história dos trouxas relatem algo sobre eles, creio que tampouco o ministério da magia tenha conhecimento.
Já estávamos caminhando à alguns minutos, íamos devagar, devido a idade já avançada, do que eu acredito que sejam os líderes. Os outros homens e mulheres foram na frente, e já não podiam mais ser vistos, apenas a paisagem que me levava a questionar se ainda estava no mesmo mundo.

- sua cabeça está fervendo em questionamentos minha jovem. - disse a senhora, me levando a crer se por acaso não estaria lendo minha mente. Eu devia ter deixado isso explícito, já que ela riu e logo explicou. - está basicamente escrito em sua testa. - ótimo, com a testa grande que tenho, com certeza da pra escrever muita coisa.

- iremos responder a todas as suas dúvidas criança, mas primeiro vamos nos alimentar. - disse o senhor de forma gentil.

Logo a paisagem, antes totalmente verde, foi tomando novo formato. Aparentemente o que eu tinha conhecimento como tribo, estava mudando naquele momento, não era nada do que eu esperava, havia a simplicidade, mas não eram casas feitas de palha em volta de uma fogueira, como em alguns dos livros descreviam. Havia um arco de pedras indicando a entrada, nele havia escrituras, que eu duvidava que se tratassem de runas. O local era simplesmente magnífico, era como se eles houvessem parado no tempo, suas construções eram muito semelhantes ao que se vê em livros que retratam sobre estruturas antigas no mundo da magia. Mas que ao mesmo tempo, nada no mundo podia servir de referência, era como se eu houvesse entrado em um dos livros de ficção que Carlinhos tanto gosta.
O caminho era marcado por pedras, e sua vegetação era preservada, haviam pequenas casas ladeando a entrada. Casas essas que, eram simples e ao mesmo tempo ricas em detalhes, era como se tudo fosse mágico, mas não semelhante a magia que já conheço, não, era uma magia diferente, e a essa altura, não duvidava que fosse.
Conforme íamos passando, os moradores saiam de suas casas e saudavam-nos. Não haviam muitas pessoas, e a sua maioria eram jovens e crianças, quando chegamos ao fim da rua, pude avistar um monumento feito de pedra, representando um lobo. Era como se ele olhasse pra mim, me chamasse. Meus pés se moveram sozinhos e minha mente ficou branca, e eu pude jurar que a vi se mexendo. Logo ouvi um burburinho se formando, e então uma leve mão tocar meu ombro.

- vamos filha. - disse a senhora. E então, andamos mais um pouco, eu tinha a impressão, de que as casas formavam um grande círculo, e então outro círculo se formava dentro daquele círculo de casas, e assim sucessivamente, até chegarmos ao centro, uma grande construção em formato de meia lua havia ali. Não havia paredes, apenas colunas grandes de madeira que sustentavam o teto feito de palha. Era simples, assim como tudo ali, mas prestando atenção, existiam escrituras ali também, entalhado em cada coluna.
No centro, várias mesas compridas e bancos existiam, me levando a crer que suas refeições eram postas ali. Teoria minha que se confirmou, pois aos poucos os mesmos moradores que antes nos receberam, agora se juntavam a todos. Não tardou muito, outro grupo, esse com pessoas mais velhas chegou, e foram os primeiros a se sentar.

- eles se alimentam primeiro, depois somos nós. - disse uma garotinha ao meu lado. - por que seu cabelo é rosa? - questionou a criança, que não deveria ter mais de cinco anos. Era incrível, todos ali possuíam os mesmos cabelos prateados, o que me levou a pensar em Kakashi-sensei, e principalmente em minha mãe e minha irmã, que devia estar preocupada comigo.

- é rosa desde que nasci. - respondi calmamente. - onde eles estavam? - perguntei a criança.

- jejuando e rezando pelo nosso povo. - falou baixinho. Logo a menina segurou minha mão e chamou minha atenção. - você tem o lobo? - perguntou mais baixinho ainda.

- tenho sim. - respondi baixinho também. - qual seu nome?

- Sabina, e o seu?

- Sakura!

- Sabina! - chamou uma senhora, que vi nos acompanhando quando chegamos. - não incomode a moça, está bem?

- não estou incomodando vovó! - disse a menina docemente.

- tudo bem, ela não está incomodando.

- viu vovó? - perguntou a menina a avó, mostrando que tinha razão.

- sou a vovó Zilda, é um prazer finalmente conhece-la.

- o prazer é meu! - por mais estranho que possa parecer, eu estava me sentindo bem em meio a todos eles. Era como se eu os conhecesse a muito tempo.
Eu vi o senhor, que de alguma forma me trouxe até aqui, caminhar calmamente até a mesa, e falar algo ao mais velho ali presente. Ele sustentava uma face calma e transmitia serenidade, sua pele era um tanto palida, seus cabelos eram extremamente brancos e compridos, exatamente como sua barba, suas vestes eram brancas e longas, mas em suas mangas haviam detalhes em dourado, assim como a corda que levava amarrada em sua sintura. Ele se levantou calmamente, chamando a atenção de todos ali presente, para seu comunicado.

- hoje, depois de muito pedir a Deusa, o equilíbrio, enfim, será restaurado. - dizia ele com a voz rouca e cansada. - depois de séculos a loba retornou ao seu lar.

- do que ele está falando? - perguntei a senhora que havia nos acompanhado até aqui. Eu não estava com um bom pressentimento e pelo visto ela percebeu isso também.

- não se preocupe querida, ninguém vai prender você aqui, ele se refere ao fato de você e sua Loba saber a que lugar pertence. Você tem todo o direito de ir e vir.

- entendo. - disse mais aliviada. - desculpa minha falta de educação, eu nem sequer perguntei seu nome.

- sou Lana, e meu marido se chama Ariosto. Somos os representantes dessa tribo, na comunidade Céltica.

- Celtas? - perguntei abismada.

- sim, nós pertencemos a tribo dos Druidas!

- a magia de vocês vem dos deuses. - disse em um sussurro.

- sim, existimos à muito tempo antes de Cristo, e depois de sermos considerados pagãos e o cristianismo ser adotado em quase todo o mundo, decidimos que seria melhor vivermos de forma paralela ao mundo lá fora, e então a Deusa nos abençoou. Temos orgulho de sermos druidas.

- acho que é muita informação.

- acho que sim. - respondeu risonha.

- há outras tribos ainda?

- sim, vamos, os anciãos querem lhe conhecer criança.

Durante o pequeno percurso, minha cabeça tentava desfazer o nó ali presente. Todos acompanhavam meus passos, e pareciam esperar algo espetacular de mim. Pobres criaturas, eu nem ao menos sei o poder que a loba pode ter, quem dera saber usá-lo.
Ao chegar próximo a mesa, todos os homens que estavam sentados, levantaram-se e fizeram uma breve reverência, a qual eu retribui em sinal de respeito, já que no mundo Shinobi esse tipo de cumprimento é normal. Portanto, já estava acostumada.

- criança, não fique assustada. - disse o senhor, cuja fisionomia muito me lembrava Dumbledore. - este velho de nada pode lhe fazer mal, jovem guerreira. - disse me tranquilizando.

- ora, é realmente bela a flor de cerejeira! - disse outro senhor com um sorriso simpático.

- uma beleza peculiar. - dizia outro, estalando a língua, enquanto eu sentia minhas bochechas ficarem quentes, e uma leve risada se formar.

- diga criança. - começou o mais velho. - por que esta flor está tão machucada? Como, mesmo tão jovem já carrega tantas cicatrizes?

- encontrei alguns espinhos no caminho. - disse me sentindo observada.

- vejo que sim! - disse outro senhor. - sou Vougan, este é Brígido. - disse apontando para o senhor a sua frente. - e esse é Almiro, o ancião mais velho que representa a todos nós no concelho. - disse, indicando o senhor que me lembrava Dumbledore.

- seu interior grita por respostas! - disse Almiro, me observando. - venha, sente-se conosco, não vamos conseguir sanar suas dúvidas de barriga vazia, e cá entre nós, já faz um tempo que não provamos uma deliciosa comida. - disse sussurrando ao se aproximar de mim, como quem guarda um segredo.

Em pouco tempo todos foram se acomodando e se servindo. Na mesa, nada se dizia. Talvez em respeito ao alimento ali servido, mantinham-se em silêncio. Os mais jovens esperavam sua vez, já que a mesa estava cheia. A comida era realmente deliciosa, e embora eu estivesse me sentindo bem, minha consciência estava pesando por preocupar minha madrinha e os outros.
Assim que Almiro terminou sua refeição, um pouco depois de mim, ele se levantou, se despediu dos outros, e me pediu para segui-lo. E assim eu fiz, caminhamos por entre as casas feitas de pedras, e em cada porta novamente uma escrita que eu desconhecia.

- desculpa perguntar, mas, que escrituras são essas? - perguntei apontando para as palavras ali gravadas. - Eu a vi entalhada no arco de pedra também, está por todos os lados.

- que escrituras? - questionou risonho.

- desculpe, não devia ter perguntado.

- não se desculpe, a senhorita deve perguntar. - ele respondeu calmamente, me indicando para entrar em uma das casas. - eu simplesmente não vejo escritura alguma.

- entendo. - disse me sentando em uma cadeira indicada por ele. A casa era pequena, provavelmente como todas ali, mas havia algo que chamava minha atenção, eu só não tinha entendido o que era.

- a senhorita parece preocupada!

- a minha madrinha e os outros devem estar preocupados.

- não se preocupe, um mensageiro foi enviado.

- senhor!

- sim?

- por que exatamente me trouxeram para cá?

- por alguns motivos.

- o senhor poderia me dizer?

- que tal um chá? Talvez ele te ajude a relaxar! - disse se levantando. Enquanto pegava algumas ervas, penduradas em um cordão acima da pia, então Almiro começou a explicar. - o primeiro motivo foi querer conhecer você!

- por que?

- porque você é especial! - disse como se fosse óbvio.

- e os outros antes de mim, também vieram para cá? O meu avô...

- não, você é a primeira que nos ouviu, por isso é tão especial.

- e os outros motivos?

- sua conexão com sua Loba, é a mais forte que já vi em centenas de anos!

- centenas? - perguntei abobada.

- sim. - disse caminhando até a mesa com duas canecas fumegantes de chá.

- é um pouco difícil de processar tudo de uma vez, pode parecer uma pergunta um tanto quanto idiota, mas, como assim centenas de anos?

- nenhuma pergunta é tola, a senhorita tem suas dúvidas e de nada sabe sobre nós, é normal que tenha perguntas como essas. - respondeu com toda sua calma. - bom, vivemos mais que muita gente neste mundo, por exemplo, os bruxos vivem mais que pessoas normais, sem magia. Nós, vivemos mais que a comunidade bruxa. Um exemplo disso é o alquimista Nicolau Flameu, acho que já ouviu falar dele não é mesmo?

- sim senhor, mas é justamente por possuir a pedra filosofal que ele viveu tanto tempo.

- sim, mas assim como ele, temos nossos meios.

- o poder de vocês vem dos deuses, não é?

- sim.

- certo, nem tudo o que vejo é como realmente é.

- por que pergunta isso?

- não foi uma pergunta senhor! - respondi calmamente.

- é o que te faz uma de nós! - disse sorrindo.

- as escrituras protegem o solo de vocês, do mundo lá fora, é uma magia protetora.

- sim!

- é realmente incrível senhor.

- mas ...

- ainda é perturbador.

- o que exatamente é perturbador para a senhorita?

- o senhor sabe que, assim como a comunidade bruxa, vocês são vistos apenas como lendas, não é?

- sim, isso é realmente perturbador, alguns poderiam dizer que perdemos nosso lugar no mundo.

- mas estariam errados, o ar desse lugar não está pesado como lá fora.

- a guerra.

- sim.

- mais uma guerra em sua vida.

- mais uma.

- como se sente em relação a isso?

- perturbada, amedrontada, angustiada.

- a senhorita precisa encontrar equilíbrio dentro de si, se não pode acabar se perdendo. - disse preocupado.

- e como faço isso?

- nós estamos aqui para ajudá-la, afinal esse é um dos motivos pelo qual a trouxemos aqui.

- e os outros motivos?

- sua tia avó. - disse com pesar.

- desculpe? - questionei sem entender.

- a tia de sua mãe fez algo terrível à senhorita, antes mesmo do seu nascimento Sakura.

- o que ela fez?

- ela amaldiçoou você, ela utilizou de magia negra para poder controlar o que há dentro de você.

- o que exatamente há dentro de mim?

- Evelin matou suas filhas para trazer a Deusa para dentro de você criança, ela utilizou de algo terrível para ter apenas poder.

- por isso ela levou minha irmã.

- sim, ela acreditava que por ter traços tão puros, sua irmã seria a portadora da segunda alma e por consequência disso, teria parte da Deusa também.

- o que há dentro de mim?

- ela ligou a loba a Deusa, e quando a loba escolheu a senhorita, levou traços da Deusa para dentro de ti.

- o que exatamente isso traria a ela?

- a ela nada, mas ao lorde que ela servia, tudo.

- por que a loba tenta me por contra as pessoas que amo?

- porque seu interior está turbulento, por mais que ela enxergue seus feitos, não consegue chegar até seu coração. Por isso precisa de nós, e nós precisamos da senhorita, o equilíbrio precisa ser restaurado. Ele não pode vencer. Se ele por as mãos na senhorita e controlar a loba, ele terá vencido, irá tranferir a alma para ele e se tornará imortal, se ele ter a loba e a Deusa, se tornará um Deus também. - disse vacilante.

- o que eu preciso fazer? - perguntei temerosa.

- na lua cheia iremos ao salgueiro, lá a senhorita encontrará o caminho que precisa percorrer. Estaremos ao seu lado.

- qual o nome da Deusa?

- ela não é nomeada, ela está a nossa volta, é tudo que vemos e tocamos.

- e o nome da loba?

- só o portador sabe, como ela se apresentou? - questionou curioso enquanto se levantava para pegar algo.

- algo me diz que, não é seu nome real! - disse o acompanhando com o olhar.

- o nome dela tem muita força, se for chamada pelo nome ela se ligará a pessoa eternamente.

- como assim? A pessoa se torna imortal?

- não se sabe, isso nunca aconteceu. Mas chegamos a conclusão de que, se não tornar a pessoa imortal, a alma do último portador irá acompanhar a loba para o próximo escolhido.

- entendo.

- bom, esse velho precisa descansar a coluna, já não sou jovem a muito tempo. Sugiro que descanse, a noite nos renderá surpresas.

- é hoje, não é?

- sim querida, vou lhe mostrar seus aposentos.

Talvez por segurança ou por algum motivo que ainda desconheça, fiquei alojada na casa de Almiro. Era um quarto simples, suas paredes eram brancas e tinha detalhes florais em vários tons de azul. Era lindo e aconchegante, a cama era macia e quentinha.

- era de minha filha, ficou vazio depois que formou sua família. Agora descanse, está bem? Lana irá trazer vestes limpas para a senhorita e ajudá-la no banho.

- muito obrigada senhor.

- descanse filha. - disse se retirando do quarto.

Era um ambiente aconchegante, e o ar era fresco. Retirei o tênis e a meia e me cobri com o cobertor. Fiquei observando o této, nele haviam desenhos de nuvens e pássaros, e somado ao som da natureza que entrava pela janela, logo o sono me foi tomando e aos poucos fui sendo levada a outro mundo, um mundo de lembranças.

" - onde está minha preciosa flor? - perguntava a mulher risonha.

- mamãe, nosso brotinho se escondeu! - dizia o homem enquanto caminhava pelo cômodo na ponta dos pés.

mãe... pai! - eles não me ouviam. Ao fundo escutei uma leve risada.

- papai, acho que o brotinho não está aqui. - disse apontando para baixo da cama. - ela sacou a varinha e lançou um feitiço que fez com que a cama flutuasse no ar, fazendo com que a minha versão mais nova caísse na gargalhada.

- achamos o nosso brotinho. - disse o homem a levantando no colo, ah como eu sentia falta desses momentos. Cada palavra de carinho, cada incentivo, cada curativo ao meu joelho ralado.

- canta mamãe? - eu pedia.

- então vamos para a cama. - e assim eles fizeram, se acomodaram na pequena cama, eu estava deitada encostada no peito de minha mãe, enquanto meu pai estava deitado ao meu lado segurando minha mão. E então, com sua aveludada voz ela começou.

- "I have a dream/A song to sing/To help me cope/With anything/If you see the wonder/Of a fairy tale/You can take the future/Even if you fail

I believe in angels/Something good in/Everything I see/I believe in angels/When I know the time/Is right for me/I'll cross the stream/I have a dream

I have a dream/A fantasy/To help me through/Reality/And my destination/Makes it worth the while/Pushing through the darkness/Still another mile

I believe in angels/Something good in/Everything I see/I believe in angels/When I know the time/Is right for me/I'll cross the stream/I have a dream."


Eu sempre gostei desta canção, lembro que em algum momento meus pais ouviam um disco de vinil desta banda. Embora seja uma memória distante, ainda lembro das músicas, lembro de uma das minha vindas a este mundo, eu devia ter doze ou treze anos, e Carlinhos estava ouvindo. Obviamente lágrimas banharam minha face naquele momento, lembro de Carlinhos querer desligar, mas eu não deixei, pois não estava triste, apenas com saudade. "

Logo fui tirada deste mundo de sonhos e lembranças, com uma enorme saudade em meu peito, mas com uma sensação gostosa e quentinha por tê-los visto mais uma vez.

- Sakura querida, logo irá anoitecer, vamos, você precisa tomar um banho e trocar suas vestes para o ritual.

- a senhora poderia me dizer como será o ritual?

- com música, dança, fogo, e sacrifícios!

- sacrifícios? - questionei preocupada, eu já tinha conhecimento de algumas histórias sobre os Druidas e seus sacrifícios, e isso me assustava.

- não se preocupe querida, ninguém irá morrer, há muitas histórias contadas sobre nós que não nos cabem, confesso que no início havia a possibilidade de sacrifícios de animais ou pessoas, eu não duvido de que de fato tenham existido, afinal eram outros tempos. Mas o que chamamos de sacrifícios, podem ser chamados de oferendas também, apenas comida e bebida posta em um altar para a Deusa.

- outros tempos. - disse aliviada.

- bons tempos. - disse rindo levemente, referindo-se ao tempo presente.

Acompanhei Lana até uma casa um tanto afastada, havia algumas moças me aguardando, era uma casa de banho semelhante as que há no mundo Shinobi.
Por mais que eu tenha insistido que poderia tomar banho sozinha, parecia fazer parte do ritual que todas as moças se banhassem juntas, e as mais velhas cuidavam da água, dos sais e também dos cabelos.
Em meio ao vapor que da água saía, ninguém podia notar ninguém, o que me deixou confortável, já que me sentia pequena demais comparada as outras moças da minha idade, eu realmente sempre fora magrela, mas pelo menos, graças ao duro treinamento com minha mestra, resistência e força bruta eu tinha.
Pelas frestas de madeira, pude notar que já havia escurecido totalmente, todas já estávamos prontas, ambas usavam vestidos brancos simples, pés descalços, cabelos soltos e uma tiara de flores os enfeitando, e o cheiro floral havia tomado conta do lugar.

- vamos, a cerimônia já vai começar. - disse a vovó Zilda, que também estava nos acompanhando.

Saímos da casa de banho em silêncio, caminhamos por entre as árvores até alcançar um velho e grande Salgueiro, havia pequenas pedras em volta da árvore. Almiro usava suas vestes brancas e adornando sua cabeça havia uma coroa de louros, ele estava de frente para uma pequena fonte feita de pedra, do qual encheu suas mãos e bebeu daquela água. Paramos um pouco distante do Salgueiro, aguardando sermos chamadas. Tudo estava indo bem, até que um burburinho começou.

- o que ela tem de tão especial? - sussurrou uma das moças próximas a mim.

- ela veio de fora, não devia estar aqui! - sussurrou outra. De fato elas estavam me irritando, mas decidi ignorar.

- senhoras! - disse um rapaz de fisionomia semelhante aos demais. - o ancião irá recebe-las em breve. - disse olhando demoradamente para mim, sustentei seu olhar, e então o burburinho voltou.

- quem ela pensa que é? - sussurrava com raiva.

- ela está encarando o Nikolas, e ele está retribuindo. - dizia a outra.

"elas estão me irritando"

"como se soltou?"

"aqui eu sou livre, vou cuidar delas"

"não"

- a senhorita está bem? - perguntou o rapaz que havia se aproximado. Ele tocava meu ombro com delicadeza, mas de alguma forma, seu toque me incomodava.

- diga as suas namoradas que parem de sussurrar asneiras... - disse afastando seu toque e apontando para as duas, que exalavam medo. Percebi que o rapaz ficou assustado do minha fala, pois eu não havia olhado para lado algum, então continuei. - a loba está ficando irritada, e eu não vou segurá-la por muito tempo.

- quem você pensa que é estrangeira? - disse a moça com raiva.

- é melhor se calar Bárbara! - disse Nikolas sem olha-la.

- vai defende-la Nikolas? - questionou Bárbara.

- é claro que vai, ele defende os fracos e oprimidos.- disse a outra rindo.

- bem lembrado Lúcia. - respondeu.

"Vamos assustá-las um pouco"

- faz sentido... - eu disse rindo, fechei os olhos e respirei fundo, senti meu corpo flutuar e se mover, quando abri os olhos percebi o brilho verde que deles saiam, o céu estava encoberto por nuvens pesadas, o vento açoitava meus cabelos e raios dançavam nos céus. Eu as dei um vislumbre da loba dentro de mim, aos poucos meus pés tocaram o chão novamente e ainda olhando para elas eu disse. - vocês não passam de garotinhas fúteis, desconhecem da verdade, são parte de algo imenso e ainda assim, nada aprenderam, realmente precisam de proteção.

Todos a nossa volta, olhavam para ambas com vergonha, o que de certa forma me machucou também, eu não queria trazer nada de ruim para eles. Deixei que minha mente se limpasse e que a loba se acalmasse, ao abrir os olhos, os direcionei ao céus, que já estava limpo, coberto de estrelas e com a lua cheia o enfeitando. Ao voltar minha atenção para todos ali, percebi que se curvavam, olhei ao redor procurando por algo, mas nada encontrei.

- o que estão fazendo? - perguntei.

- a Deusa vive na senhorita! - respondeu Lana sorrindo para mim, mas sem se levantar por completo.

- levantem-se, por favor! - eu disse, não gostando nada do rumo que estava tomando. Ao se levantarem percebi que tanto Lúcia, quanto Bárbara estavam chorando. - por que estão chorando?

- ofendemos a Deusa! - disse Lúcia sem me olhar.

- errado! - eu disse. - ofenderam a mim. - e assim ganhei a atenção de todos. Me direcionei a Almiro e disse. - não me confundam com sua divindade, sou humana como qualquer um aqui, não escolhi e nem aceito a responsabilidade de algo tão poderoso, sou uma mera mortal e assim continuarei. Sou uma Bruxa e sou uma Kunoich, sei ferir e sei curar, pertenço a este mundo, assim como pertenço ao mundo Shinobi. - e me direcionando as meninas eu disse. - e como ser humano que sou, exijo respeito em troca de respeito, me entenderam?

- sim senhora! - responderam juntas.

- me chamo Sakura Myers Haruno, não senhora! - disse sorrindo. - tudo bem errar, todos erramos, mas não cometam o erro de julgar sem conhecer.

- me desculpe. - disse Lúcia.

- a propósito... - disse me direcionando a Bárbara, que até então nada havia dito. - você me chamou de estrangeira, sabe ao menos o significado do seu nome? - perguntei risonha, e ao fundo ouvi as outras moças rindo, e então Almiro veio até nós.

- significa forasteira, estrangeira ou a estranha. - disse Almiro estalando a língua e ganhando mais risadas, o que acabou tornando o momento mais leve.

- exatamente, muito obrigada senhor Almiro.

- disponha!

Um bico havia se formado na face da moça, e estava sendo severamente cutucada pela amiga para que dissesse algo.

- me desculpa! - disse com sinceridade.

- tudo bem!

- vocês duas devem se retirar, a cerimônia começará agora mesmo. - disse a vovó Zilda.

- sim senhora. - responderam de cabeça baixa.

- espero que usem deste tempo livre, para pensar em suas atitudes infantis. Amanhã conversaremos sobre o que aprenderam. - disse Lana, um tanto quanto zangada. - não esperava esse tipo de atitude das duas.

- sim senhora. - responderam.

- senhora. - disse chamando sua atenção. - se for por mim, elas podem continuar aqui, acho que já entenderam a lição, afinal a própria loba as mostrou que estavam erradas em seu julgamento e atitude. - disse me direcionando à elas.

- se pela senhorita está tudo bem, então que permaneçam. Mas a gente conversa em casa mocinha. - disse Lana de direcionando a uma das meninas.

- sim vovó. - respondeu Lúcia.

- me desculpe pelo comportamento infantil de minha irmã e sua amiga. - disse Nikolas, fazendo com que o bico de Bárbara aumentasse.

- tudo bem, já passou.

- Sakura, querida, venha. - disse Almiro.

Caminhei até ele, e todos a nossa volta formaram círculos. Eu estava de frente para o senhor de fisionomia gentil, ele me fez beber da água.

- agora lhe sirvo da água, banhada pela lua cheia, o presente divino da Deusa.

E então eu bebi, Almiro segurou minha mão direita, Volgan a esquerda, Brígido estava ao lado de Almiro, Ariosto que também estava presente ficou ao lado de Volgan, e mais um senhor se posicionou entre eles, nós formamos um círculo em volta do Salgueiro, as moças formaram um círculo a nossa volta, e por fim, a senhoras que nos acompanharam o tempo todo, formaram também um círculo.

- perante ao Salgueiro, buscaremos as respostas que procuramos, pediremos a Deusa que nos guie durante o ritual. - dizia Almiro.

- esta é a primeira etapa, não se preocupe minha querida, estaremos com você o tempo todo. - disse Volgan.

O silêncio havia se instaurado e apenas a natureza podia ser ouvida, e então o som de tambores pode ser ouvido, as moças acenderam a fogueira que circulava o Salgueiro, as senhoras deram um passo a frente e no fogo despejaram as oferendas como sacrifícios. E então, todas formaram um grande círculo a nossa volta, e começaram a dançar.
Segui os passos dos anciãos, andamos um pouco a frente, e estendemos nossas mãos até alcançar o corpo da árvore, para então fechar os olhos.
Eu senti um solavanco, e uma brisa gélida soprar meu rosto, aos poucos pude notar que a música já não podia mais ser ouvida, assim como uma grande claridade passou a existir.

- abra os olhos criança. - disse uma voz feminina.- não tenha medo. - e assim eu fiz, senti meu corpo travar, e ao olhar para o lado percebi que os anciãos estavam ajoelhados e de cabeça baixa, ao tentar fazer o mesmo fui impedida. - não criança, você não precisa. - eles se mantinham calados. - esses homens indercederam por você, para eles, a culpa não cabe a você, porém me resta perguntar, a culpa é sua? Responda criança, é culpa sua, que estou presa dentro de você? Uma mera mortal?

- de fato a culpa cabe mim, já que alguém de meu próprio sangue cometeu o ato. Quanto a estar presa dentro de mim senhora, espero que eu possa reverter tal situação, também não me contento em ter uma divindade dentro mim. - respondi calmamente e diretamente, não tinha tempo para rodeios.

- então você não está contente com meus poderes?

- nunca pedi por eles, com todo respeito senhora, mas sou uma bruxa e também uma Kunoich, treinei arduamente para chegar onde estou, nada me veio de forma fácil, eu nunca soube o que há dentro de mim.

- vejo que fala com o coração. - disse suavizando sua feição. - suas palavras são honestas, então serei honesta com você também, o caminho a partir daqui será decisivo, suas escolhas terão grande impacto. Está pronta?

- sim senhora.

- então está bem, eles saberam o que fazer. - ela disse se afastando. - a propósito, não diga a eles como sou!

- eles não podem vê-la?

- não, somente você pode!

- por que?

- eu respondo quando nos vermos novamente. - disse sorrindo. - até breve!

A claridade ficou mais forte, até que nossa consciência foi trazida de volta. Os tambores silenciaram e as mulheres que antes estavam dançando, agora estavam paradas em volta do circulo de cinzas que havia restado, suas mãos estavam erguidas em direção ao céu e seus olhos estavam fechados. Pude notas que a noite estava fria, e que todos permaneciam calados, aguardando os anciãos tomarem a palavra. Em silêncio, apenas observava.

- a Deusa nos mostrou o templo de pedra. - disse Almiro pensativo.

- o templo? - questionou Lana assustada.

- sim! - respondeu Ariosto, seu marido.

- algum problema? - questionei.

- faz mais de um milênio que a Deusa não envia alguém para lá! - disse Lúcia.

- e o que isso quer dizer? - questionei novamente.

- quer dizer que o caminho que a senhorita vai percorrer requer proteção, tanto para ti, quanto para a loba. - disse Almiro.

- tenha cuidado com suas escolhas! - disse outra moça.

- um passo em falso, e você não sairá de lá com vida. - disse Lúcia.

- mas a Sakura se sairá bem, não temos com o que nos preocupar. - disse Lana, tentando acalmar todos.

- vamos, é melhor nos alimentamos, estaremos com você o tempo todo. - disse Ariosto, enquanto Brígido, Volgan e o outro homem permaneceram pensativos.

Fizemos todo o caminho em silêncio, eu me deixei mais para trás, queria pensar em tudo o que estava me acontecendo. E avaliando tudo, acho que estava bem increncada. Fui controlada, me transformei na loba e fui trazida para cá, conheci pessoas que dizem ser minha família, falei com uma Deusa que talvez não goste tanto assim de mim, e nem o direito de julgar eu tenho, afinal, minha velha tia avó fez uma coisa terrível, e se eu não consertar a tempo, posso ser usada pelo lorde das trevas e então, o mundo teria um fim terrível. Por fim, acho que não tenho escolha a não ser confiar que eles podem realmente ajudar.

- ei... - ela me chamou, senti sua mão em meu braço, me chamando para longe.

- o que? - questionei séria.

- me desculpe por antes, é que...

- você gosta dele! - disse sincera.

- sim! - disse Bárbara de cabeça baixa.

- quer falar sobre isso? - questionei.

- não! - respondeu ainda de cabeça baixa, mas pude ouvi um leve fungar. Eu conhecia essa sensação, e não pude deixar que me sensibilizar. Então fiz o mesmo que Tsunade fez um dia comigo, a abracei.

- tudo bem, pode chorar. - mais que de pressa ela retribuiu o abraço.

- me desculpa, eu ofendi você...

- já disse que está tudo bem, quando gostamos de alguém acabamos cometendo erros assim.

- você já gostou de alguém? - perguntou se afastando de mim e enxugando as lágrimas.

- gostar não é bem a palavra. - respondi. E logo voltei a andar, fazendo com que Bárbara me acompanhasse.

- como assim? - questionou curiosa.

- meu coração não me pertence a muito tempo.

- vocês são namorados? - perguntou claramente empolgada.

- não ... O sentimento não é recíproco!

- entendo!

- ele sabe o que sente? - perguntei.

- acho que sim!

- e?

- eu cresci com a Lúcia, veja bem, eu tenho quinze anos e ele vinte e cinco.

- ele viu você crescer!

- exatamente, ele dizia a todos que eu era irmã dele também, no começo era divertido, mas de um tempo pra cá começou a incomodar.

- incomoda que ele veja você como uma irmã?

- sim.

- entendo!

- você superou?

- não, mas me acostumei. Sabe... prefiro ama-lo a distância do que ...

- o que?

- acho que aprendi que, amar requer sacrifícios.

- como assim?

- vou ficar feliz, se ele estiver feliz, mesmo que seja longe de mim e com outra a seu lado.

- parece doloroso.

- é sim. Mas não se apegue a minha história, talvez um dia ele te veja de outra forma, afinal, você ainda tem quinze anos, mas, se isso não acontecer...

- o que?

- não faça o mesmo que eu, aprenda a recolher o que sobrar do seu coração, e escolha amar quem estiver disposto a te ajudar a consertar o estrago.

- você tem bons conselhos, devia segui-los também.

- é um bom conselho! - acabamos rindo juntas, já estávamos próximas ao grupo de moças, quando Bárbara perguntou.

- por que você achou que Lucia e eu fossemos namoradas dele?

- bom, digamos que eu tinha uma amiga, porém rival. Gostávamos do mesmo garoto, mas sempre defendíamos uma a outra.

- o mesmo rapaz a quem você entregou seu coração?

- sim.

- só mais uma pergunta.

- só?

- desculpa - ela disse em meio aos risos. - por que você ficou encarando o Nikolas?

- ah sim! Bom, não gosto que fiquem me encarando, senti como se ele estivesse me avaliando, quer dizer a loba sentiu, foi meio que, avaliar se ele iria ceder, mais aí minha mente foi levada pra escanteio, a loba tomou conta, e enfim, você meio que viu o resto.

- foi assustador!

- desculpa, eu não tenho controle algum sobre isso. - disse com certo remorso.

- está tudo bem, eu merecia aquilo, só espero não ficar muito tempo de castigo.

- quando a isso boa sorte.

- ela está incomodando você novamente? - questionou Nikolas, olhando de forma severa para ela.

- eu não...

- não falei com você!- disse fazendo com que ela baixasse a cabeça.

- não fale com ela assim, você não é irmão dela, e se serve como resposta, Bárbara está sendo uma ótima companhia, estávamos tendo uma conversa agradável. - disse segurando a mão da garota, que estava visivelmente chateada.

- vai defende-la?

- eu já tive quinze anos, já cometi erros, e creio que você também não seja perfeito.

- é sério?- perguntou me olhando de uma forma da qual eu não gostei, dando com que a loba despertasse e rosnace para ele, eu senti meus dentes mudarem momentâneamente, para logo voltar ao normal, o rapaz que já era branco, agora parecia papel. Ele nada disse, virou as costas e partiu.

- é sério que você gosta desse idiota?

- ainda bem que só gosto, o cara que você gosta, também age assim?

- pergunta curiosa.- respondi, enquanto voltávamos a andar. - na verdade, ele geralmente é bem idiota, você acredita que ele tentou me matar?

- que? - perguntou assustada.

- longa história, mas eu tentei matar ele também, outra longa história. Mas não consigo odiá-lo, simplesmente não consigo.

- você é bem estranha. - disse ela em um sussurro e de olhos arregalados.

- obrigada. - eu disse rindo. - olha, são mundos diferentes, passamos por uma guerra a uns dois anos atrás, foi horrível, e ele estava perdido.

- guerra?

- sim, mas depois de tudo, ele acabou voltando, e se redimiu por seus erros, erros esses que ele se julga até hoje.

- parece que você passou por muita coisa!

- passei!

- e vai enfrentar muita coisa hoje.

- como assim?

- o templo, você vai estar sozinha lá dentro, tudo vai depender de você, os anciãos vão lhe acompanhar, mas não podem entrar, ficaram do lado de fora, orando a Deusa e intercedendo por você.

- o que vai acontecer?

- você vai se conectar a Deusa, e entrará no mundo espiritual. - disse Bárbara. - o templo existe a milênios, muito antes de vivermos escondidos, e só aquele que possui a alma da loba pode entrar e ter o direito de sair, se qualquer um de nós entrar, não sai mais, ficaríamos perdidos, entre este lado e o outro, vagando pela eternidade.

- bizarro, mais curioso. Mais alguma coisa que eu deveria saber?

- é só o que sei.

- estava procurando você! - disse Lúcia correndo em nossa direção. - você fez mais alguma coisa? Já estamos bem increncadas! - dizia ela a Bárbara. - perdoa ela, minha amiga sofre de demência temporária, ela até é normal de vez em quando! E me perdoa também. - dizia ela me fazendo rir.

- demência temporária? - questionou Bárbara.

- vocês são engraçadas! - eu disse ainda rindo. - ela não fez nada, e esqueça o que passou. Está bem?

- certo. - respondeu. - mas por que meu irmão está tão assustado?

- ele bancou o idiota e a Sakura assustou ele!

- sério?

- algum problema? - questionei.

- geralmente as garotas ficam bobas perto dele.

- parece que seu irmão precisa de um choque de realidade. - eu disse. - bom, o que acontece agora?

- agora será servido o jantar, é bom se alimentar bem, sabe-se lá quanto tempo você vai ficar dentro do templo! - disse Lúcia.

- como assim? - questionei em busca de mais explicações.

- você só sai de lá quando terminar sabe-se lá o que! - disse Lúcia.

- vocês não sabem o que acontece exatamente lá dentro?

- temos uma base, mas não sabemos exatamente como será...

- era um rito de passagem, do adulto a ancião, o portador do lobo entrava no templo, e sua alma era julgada, algo assim, só que antes do último portador da alma do lobo que viveu entre nós, partir da comunidade, esse rito foi banido, pois alguns não saíram vivos de lá.

- e então, a mais de dois milênios, o último portador fugiu da comunidade. - disse Bárbara.

- por que? - questionei.

- fugiu de um casamento arranjado. - disse Lúcia.

- naquela época era comum, mas ainda assim, tínhamos a liberdade de escolher viver aqui ou lá fora. - explicou Bárbara.

- assim como nos dias de hoje, só que ele nunca mais voltou.

- e só agora que...

- o que? - questionei.

- bem ... você tem a alma, pertence a esse lugar...

- você vai ficar? - questionou Lúcia.

- não!

- por que? - perguntou Lúcia.

- ultimamente... as pessoas me dizem que pertenço a tantos lugares, que de fato já não sei onde chamar de lar, entendam, eu criei laços em todos esses lugares.

- então você pertence a todos eles. - disse Bárbara convicta.

- não precisa se prender a nenhum deles, mas vizita-los de tempos em tempos não me parece uma má ideia! - disse Lúcia.

- tem razão, olha... vocês nem parecem aquelas pirralhas me provocando. - disse rindo e andando ao lado dela até a mesa.

- ah! Senhoritas, vejo que suas diferenças ficaram para trás. - disse Almiro se aproximando de nós. - fico feliz, aproveitem o jantar, nos encontramos a meia noite.

- até mais senhor! - eu disse. - é estranho. - disse em um sussurro ao me sentar à mesa.

- o que? - questionou Bárbara, enquanto se sentavam ao meu lado.

- é que... por mais que eu nunca tenha pisado aqui antes, não me sinto deslocada, é a mesma sensação de quando estou na casa de minha madrinha. Simplesmente me sinto bem, e isso me incomoda.

- por que? Não deveria ser algo bom? - perguntou Bárbara.

- por isso me incomoda, me deixa confusa.

- vou me sentar com vocês - disse Nikolas visivelmente chateado. - fui designado a fazer companhia a vocês. - disse se sentando ao lado da irmã.

- tanto faz, e então... o que fazem aqui? - questionei curiosa.

- ah, depende... - ia dizendo Nikolas.

- não me leve a mal, mas eu perguntei as meninas. - disse um pouco envergonhada.

- recebemos treinamentos - respondeu Bárbara, segurando o riso.

- que tipo de treinamentos? - questionei.

- linguagens antigas, magia sem varinha, poções, rituais... - respondeu Lúcia.

- dança, medicina natural, arquearía, luta com espadas.

- gostei, é tipo uma Hogwarts, só que com aulas extras.

- Hogwarts! - disse Nikolas pensativo. - como é?

- como assim? Sua estrutura ou as aulas? - perguntei.

- tudo! - disse Lúcia.

- é enorme, já me perdi algumas vezes, tem escadas que mudam de lugar, andares proibidos, cômodos secretos, passagens secretas, é um lugar incrível, é muito bonito também, poderia perder horas admirando o lugar. Já as aulas, bem, são aulas como em qualquer lugar, mas são incríveis, são ótimos professores.

- legal - disse Nikolas. - existe alguma possibilidade de algum de nós visitar?

- não faço ideia. - respondi. - e você Bárbara, alguma curiosidade?

- várias! Mas posso deixar para outra hora! - respondeu calmamente.

- posso me sentar com vocês? - perguntou um jovem rapaz, cuja fisionomia era diferente dos demais, ele tinha seus cabelos escuros como a noite, sua pele era um tanto bronzeada e seus olhos eram incrivelmente verdes, ele, assim como qualquer um, era mais alto que eu, mas devia ter seus dezesseis ou dezessete anos. Ele parecia ter algum sentimento por Bárbara, já que a olhava em busca de uma resposta.

- claro Henry! - disse Bárbara, e logo o rapaz sentou ao seu lado.

- então... a senhorita se chama Sakura? - perguntou tímido.

- sim. - respondi calmamente.

- sua madrinha é bem energética... - disse em um quase sussurro. - e seu primo Carlinhos é um tanto amedrontador.

- desculpa... Mas você os conheceu? - questionei.

- fui o mensageiro enviado.

- você está bem? - questionei.

- estou sim. - respondeu com um sorriso.

- como eles estão? - questionei.

- estão mais tranquilos por terem notícia do seu paradeiro, mas fui avisado que se você não voltasse sã e salva eu seria amaldiçoado.

- por Merlin, eles conseguem ser assustadores quando querem. - respondi, já que conhecia muito bem, esse lado tão protetor deles.

- são mesmo. - disse baixinho olhando para o prato.

- você está bem Henry? - perguntou Bárbara.

- estou sim, obrigado por se preocupar.- respondeu corado. Ao meu ver, talvez eu pudesse melhorar algumas coisas antes de ir embora.

A conversa seguiu entre eles, enquanto eu, passei a prestar atenção em minha refeição. Enquanto minha mente criava suposições do que iria enfrentar, me peguei pensando se eu faria falta se nunca retornasse à Konoha, se naquele momento alguém sentia falta de mim no mundo Shinobi, por mais egoísta que venha a parecer, eu gostaria que sim.
Gostaria que depois de todo treinamento, sentissem falta do meu trabalho, então eu teria certeza de que fiz algo útil. Mas ao mesmo tempo, penso que seria melhor que já não lembrassem mais de mim, caso algo aconteça e eu não possa mais retornar, me sentiria melhor assim.
Os minutos passaram lentamente, já estávamos caminhando por entre as árvores, as meninas decidiram me mostrar os lugares mais bonitos. Eu fiquei encantada com um lago que havia ali, com a água calma, o céu refletia sem problema algum, a lua brilhava grandemente e iluminava com delicadeza.
Ao andarmos mais um pouco, me deparei com um campo aberto, havia ali as mais lindas flores. Minha menta está calma, e eu já estava aceitando as possibilidades do que iria encarar.

- é lindo, não é? - perguntou Bárbara.

- é sim! - respondi, sem conseguir tirar os olhos do campo.

- como é no seu mundo? - questionou Lúcia.

- tem sua beleza também, mas nunca tive a oportunidade de conhecê-lo melhor. - respondi.

- você vai voltar, não vai?- questionou Bárbara. - digo, quando essa guerra acabar, você vem nos visitar, não é?

- se eu sair viva dessa, eu venho sim. - respondi. Bárbara apenas fez um aceno em concordância, logo se afastou e passou a andar entre as flores, me deixando para trás com Lúcia. - ela parece chateada com algo.

- falar do mundo exterior mexe com ela.

- por que?

- quando ela diz que crescemos juntas, é porque foi exatamente assim. Antes dela nascer, o pai dela foi embora da comunidade, dizendo que voltaria para buscar a esposa e a filha, mas ele nunca retornou. E isso afetou a mãe dela, depois que Bárbara nasceu, poucos meses depois, sua mãe se foi. Ela não conheceu nenhum deles, e sempre se pergunta do porquê do pai nunca ter voltado.

- isso deve machuca-lá muito, mas fico feliz por ela... ainda assim ela tem uma família. Não apaga a dor, mas trás algum conforto.

- você também perdeu seus pais?

- quando eu tinha três anos invadiram minha casa, e assim eu fui para o outro mundo, cresci com meus tios, eles eram boas pessoas, mas nunca fechou o buraco.

- sei que é egoísmo, mas fico feliz por não saber o tamanho dessa dor.

- não é egoísmo.

- ele gosta dela! - disse Lúcia, olhando para frente.

- e? - perguntei, enquanto olhava Henry se aproximando de Bárbara.

- eu já disse ... demência temporária. - respondeu, nos fazendo rir. - ela gosta dele, eu sei que gosta, ela só tem medo de sofrer como a mãe sofreu, Então mente para si mesma que gosta do meu irmão, por ser um romance impossível. Mas no fundo, ela o ama como um irmão.

- já tentou dizer isso a ela?

- tenho medo de que ela se ofenda!

- você é amiga dela, deve dizer.

- mas...

- ela pode ficar magoada a princípio, mas no fim, ela vai compreender. A faça entender que nem todo homem é igual ao pai dela.

- tem razão. - disse Lúcia. - talvez quando você retorne já esteja tudo resolvido.

- eu espero que sim.

- está na hora! - dizia Nikolas enquanto se aproximava. - preparada?

- nem um pouco! Muda alguma coisa?

- receio que não! - respondeu olhando ao redor. - EI ... VOCÊS DOIS... VAMOS LOGO! - gritou Nikolas para Bárbara e Henry. - não deixe esses dois sozinhos Lú.

- não vejo problema!

- ela só tem quinze anos, e ele dezoito, preciso cuidar de vocês duas.

- ela se dá o respeito irmãozinho, ao contrário de você. - disse Lúcia me fazendo esconder um riso.

- cuidado com o que diz, ou ela vai pensar coisas erradas a meu respeito. - disse pouco baixo à irmã.

- vamos? - questionou Henry ao se aproximar.

- vamos! - respondeu Nikolas.

- para onde vamos? - perguntei.

- direto ao templo, os anciãos iram orar pela senhorita, e então quando derem o sinal, poderá entrar no templo. - respondeu Nikolas.

- certo.

- nós poderemos ficar lá? - perguntou Bárbara.

- não, dessa vez iremos pra casa, mamãe quer falar com vocês!

- tô ferrada! - disse baixinho.

- estamos! - disse Lúcia em melancolia.

- se eu for expulsa, posso ir morar com você Sakura? - questionou Bárbara desanimada.

- você não vai ser expulsa, mas com certeza irá ficar de castigo. - disse Nikolas. - você é minha irmã também, jamais deixaria você sozinha.

- desculpa. - respondeu cabisbaixa.

- vamos logo. - disse Nikolas, abraçando as duas.

Henry manteve uma distância curta, ele estava incomodado com a situação. Então resolvi chama-lo.

- Henry!

- sim.

- desculpa perguntar, mas, você viu minha irmã?

- vi sim, ela está bem, estava abalada como todos com seu sumiço repentino, mas ficaram calmos depois que expliquei o que havia acontecido.

- certo, obrigada por avisá-los, me livrou de uma bronca e tanto.

- não por isso. - respondeu simpático.

- só mais uma perguntinha.

- pois não?

- o meu primo, Carlinhos, ele parecia bravo comigo?

- parecia mais preocupado, por quê pergunta?

- tivemos um desentendimento, mas não gosto de ficar mal com ele, eu o amo, é um irmão pra mim.

- tenha certeza que ... qualquer desavença ficou para trás, ele estava muito preocupado e ansioso por sua volta, independente da situação, ele sente o mesmo por você.

- é bom ouvir isso! - respondi mais aliviada. - vamos acabar logo com isso?

- claro.

Andamos até uma clareira, além da imensa lua que brilhava lindamente, naquela parte da floresta havia uma infinidade de vagalumes, tudo parecia mágico, ao centro da clareira estava o imenso templo de pedra, suas paredes eram enormes blocos, ligados um ao outro formando um círculo. Suas paredes estavam cobertas por musgo e pela vegetação que havia tomado conta, plantas floresceram até o teto pontudo.
Os anciãos estavam me aguardando, não demorou muito para que restasse apenas nós.

- nós não sabemos o que irá acontecer lá dentro, mas vamos interceder pela senhorita aqui de fora. - disse Volgan.

- não tenha medo criança, seu coração já foi reconhecido. - disse Almiro tentando me tranquilizar.

- onde é a entrada? - questionei.

- ela será revelada na hora certa. - respondeu Brígido.

- vai dar tudo certo! - disse Ariosto. - confie em si mesma.

- obrigada por tudo que estão fazendo. - eu disse.

- não precisa agradecer, este é o nosso dever. - respondeu Ariosto.

- posso fazer um pedido? - perguntei.

- claro! - disse Brígido.

- se algo acontecer e ... e eu não sobreviver, poderiam levar meu corpo até os Weasley? - perguntei. - peçam para me colocarem ao lado de meus pais?

- você vai voltar para casa criança ... com suas próprias pernas, eu sei que vai! - disse Almiro, e de alguma forma me trouxe calma.

- obrigada.

- vamos começar! - disse Ariosto. - venha, fique aqui.

Eu fiquei posicionada em frente a um bloco maciço, enquanto os anciãos se posicionaram em volta do templo. Eu permaneci ali em pé, olhando tudo ao meu redor, admirando cada detalhe. A lua me chamava atenção, era como se me chamasse.
As vozes dos homens ali passaram a ser ouvidas, era como se entoassem um cântico muito antigo, eu realmente desconhecia tal idioma ou dialeto. De repente, eu senti uma brisa leve soprar, fazendo com que meus cabelos balançassem um pouco, assim como o vestido branco. Os minutos se passaram e o cântico cessou, o ranger das pedras passou a ser ouvido por mim, ao olhar para os homens, vi que estavam com as mãos voltadas para o céu e oravam em voz baixa.
Ao voltar minha atenção para as pedras, vi que estavam realmente se movendo, o que antes era um templo completamente fechado, agora estava se abrindo, seus blocos estavam alinhados, igual a quando brincamos com dominós, estavam em fileira, mas ainda formavam um círculo. Quando pararam de se mover, eu dei o primeiro passo, mas hesitei no segundo, não era hora de ter medo, eu não podia fraquejar. Então lembrei de Naruto, de sua força, sua amizade, e tudo que aprendi com seu jeito único de ser, ele enfrentaria sem medo. Foi aí que andei até estar no centro do templo, as pedras que formavam o círculo, começaram a rodear em volta de mim, e com um estrondo forte o teto se abriu, permitindo que a luz da lua entrasse e quando sua luz tocou minha pele, eu parti dali para o desconhecido.


Notas Finais


Espero que tenham gostado, se quiserem a outra parte logo, eu posto até amanhã.

Bjocas e até mais.


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