História Os outros - Capítulo 3


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção Científica, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Anomalias


Chegando em casa e se trancando em seu quarto Paulo pôde verificar o que se passava. Le glaive estava toda vermelha, e muito quente. Ele a depositou sobre a escrivaninha, falando com ela na tentativa de obter qualquer resposta. O objeto apenas murmurava coisas ininteligíveis.

Isso durou cerca de quinze minutos. Depois Le glaive pareceu voltar ao seu normal, inclusive agindo como se nada tivesse acontecido. Paulo não soube se ficava aliviado ou preocupado com a situação: passou os próximos minutos tentando conseguir qualquer resposta da faca, mas sem sucesso. Depois, considerando com mais calma os acontecimentos, chegou à conclusão de que talvez fosse melhor deixar o assunto de lado e tentar fazer qualquer outra coisa.

Obviamente não conseguiu, permanecendo preocupado por quase toda a extensão do dia.

 

Naquela noite ele novamente ficou sem dormir. Na esperança de atrair o sono, tentou ler o livro que disse para Lisa que estava lendo. Não conseguiu avançar nem uma linha. Le glaive jazia ao lado de sua cabeça na cama.

Logo o garoto começou a falar com a coisa, sem motivos ou lógica, apenas largando palavras como se estivesse a conversar com um conhecido de longa data. A faca respondia em um tom parecido, e assim as horas foram seguindo: foi durante a madrugada, assim conversando, que ele conseguiu esquecer as preocupações de mais cedo.

Paulo nem mesmo reparou quando a luz do sol começou a adentrar seu quarto. Foi Le glaive quem o disse que provavelmente estava quase na hora de se aprontar para a escola.

 

O dia de aula passou sem maiores acontecimentos. Paulo falou com Ismael, conseguiu evitar a presença de Cléber e seus amigos, mal prestou atenção naquilo que os professores falavam, e retornou para casa.

No caminho para o ponto de ônibus pensou consigo se Lisa apareceria; seria fácil para ela, afinal morava perto do local onde Paulo estudava, e consequentemente do caminho que ele percorria para chegar ao ponto. No fundo não sabia realmente se queria ou não encontrar a amiga, mas acreditou ficar qualquer coisa decepcionado quando o ônibus partiu sem que ela tivesse surgido. Depois simplesmente esqueceu.

Apesar de quaisquer outras coisas às vezes atravessarem sua mente, o garoto não conseguiu naquele dia desgrudar os pensamentos de Le glaive

 

Os dias que se seguiram não foram muito distintos. Paulo, na escola, no máximo trocava algumas poucas palavras com alguns colegas. A maior parte deles o garoto nunca havia conhecido mais intimamente, mas outros já haviam sido seus amigos, ou quase. Paulo por vezes considerava quando é que haviam deixado de ser, e se esse era mesmo o caso. Terminava por chegar a conclusão que sim, e que isso era talvez qualquer coisa de inevitável. Nesses momentos ele quase tentava contar com algum pesar quantos dias faltariam para que ele e Ismael também se afastassem…

“E eu e Le glaive, quem sabe?”, completou certa vez…

 

Paulo conseguiu dormir nas noites seguintes, mas não muito.

Seu sono era estranho: sonhava com coisas que nunca havia sonhado antes, como grandes paisagens das formas mais distintas, às vezes mesmo qualquer tanto surreais, nas quais nada acontecia além do zumbir de um som muito baixo mas constante, que aliás ele não conseguia identificar o que era, de onde vinha, mas que permanecia com o garoto ao menos uma hora depois dele acordar.

Ele chegou a comentar sobre esses sonhos com Le glaive. A coisa respondeu que também possuía sonhos, ainda que se lembrasse de muitos poucos. Alguns, segundo ela, eram qualquer coisa semelhantes àqueles que Paulo estava tendo. Le glaive disse ainda que sabia que os tinha desde sempre, ainda que nem sempre se lembrasse: disse que os tinha antes mesmo de saber o que sonhos eram, ou o que qualquer coisa era. Paulo ficou algum tempo pensando sobre isso.

Logo chegou sexta-feira.

Naquele dia, ao contrário do que acontecia em praticamente todos os demais, Paulo encontrou seus pais antes de sair à aula. Eles trocaram breves palavras, a mãe do rapaz perguntando qualquer coisa sobre a escola, o pai se contentando em secundar tudo o que a mãe dizia. Paulo conversou com eles normalmente, ainda que não quisesse o fazer. Logo os pais do garoto tiveram que sair ao trabalho, e ele sentiu-se aliviado por só precisar revê-los quando a noite caísse, momento em que provavelmente estariam cansados demais para perguntá-lo qualquer outra coisa que fosse.

Paulo saiu alguns minutos depois.

Agora ele portava constantemente Le glaive em um de seus bolsos, por mais que com o passar dos dias as dimensões da criatura houvessem gradativamente aumentado ao ponto de se tornar quase impossível escondê-la propriamente. A coisa havia também se tornado mais afiada, mais pontuda, e por vezes Paulo podia jurar que sentia a lâmina cortar ou perfurar sua pele. Era coisa de segundos, e em verdade nada nunca acontecia… mas a sensação estava presente.

O garoto havia conseguido pegar um lugar à janela no ônibus, coisa rara. Ele olhava para o céu cinzento um pouco sonolento, os olhos marejados e mal lavados. Ao seu lado estava uma senhora de meia-idade, mas não que ele a desse qualquer atenção ou mesmo a percebesse. Suas ideias flutuavam em qualquer outro lugar, e talvez a única coisa que ele notasse além de seus devaneios fosse o distinto contorno de Le glaive contra seu peito no bolso do agasalho escolar…

Paulo estava tão desligado que não percebeu quando o ônibus parou para pegar mais mais alguns passageiros, e também quando dois desses passageiros subitamente começaram a gritar com os demais. Ele não percebeu quando alguns dos outros passageiros gritaram de volta, ainda que não no mesmo tom… Em verdade Paulo só foi perceber qualquer coisa quando uma mão tocou em seu ombro e uma voz lhe disse:

― Perdeu, filho da puta…

A senhora de meia-idade estava encolhida sobre seus próprios joelhos. Ao lado dela, em pé, uma figura encapuzada estendia uma das mãos ao ombro do garoto, a outra segurando um calibre 38.

― O dinheiro, filho da puta…

Quando Paulo se deu conta da situação praticamente todo o ônibus já havia sido roubado. Ele havia sido deixado como um dos últimos, muito por não ter percebido o que acontecia, muito por alguma sorte estranha.

O garoto não conseguiu falar nada que possuísse algum nexo, apenas balbuciando quaisquer palavras ininteligíveis que chegavam ao pensamento.

― Cala a boca, seu merdinha. O dinheiro…

Ainda assustado, ele começou a tatear os bolsos.

Paulo mal podia perceber o outro assaltante que terminava que pegar o dinheiro de alguns variados passageiros mais ao fundo do veículo. Sua atenção estava totalmente voltada à arma, e além de vê-la e fazer quaisquer movimentos desordenados em busca da carteira ele apenas conseguia tremer, suar frio, e sentir seu coração pulsando fortemente. Pulsando ao lado de Le glaive.

E foi então que em uma fração de segundo uma ideia passou por sua mente…

“Eu estou armado.”

Le glaive, afinal, era uma lâmina.

Esse pensamento fugiu tão rápido quanto veio, mas foi o suficiente para acalmá-lo de qualquer forma. Ele pegou sua carteira em um dos bolsos da calça, abriu-a e tirou as últimas notas surradas que tinha. No momento nem notou a irritação do assaltante com o ato; o outro provavelmente esperava receber a carteira inteira e sem demoras. Paulo simplesmente entregou o dinheiro, desviou o olhar e ficou escutando o resto dos acontecimentos.

Os assaltantes gritavam mais algumas palavras de ordem.

O garoto ouvia aquilo, e enquanto ouvia começou a sentir qualquer desprezo pelos bandidos.

Não era um sentimento lógico, não era qualquer coisa relacionada à ação que eles realizavam. Paulo simplesmente sentiu subitamente que os desprezava de uma maneira total. E logo depois que os odiava profundamente. Uma certa vergonha de si rapidamente se misturou a esse ódio: ele pensava que, em outras situações, poderia ter evitado o acontecido, ainda que não soubesse como, e por mais que não estivesse muito preocupado com o dinheiro que perdera. Paulo se sentia qualquer coisa humilhado, e não gostava disso.

“Mas você não é humilhado quase todos os dias?”, disse por fim uma voz em sua cabeça. Uma voz que não era a sua.

O garoto demorou alguns segundos para entender.

Apenas quando os bandidos já saíam do veículo é que ele percebeu que Le glaive acabara de falar com ele dentro de suas próprias ideias. A simples surpresa desse fato quase fez com que todos os outros sentimentos daquele momento desaparecessem.

Enquanto as pessoas tentavam se recompor, ele simplesmente tentava chamar sua companheira mentalmente. Mas a faca nada respondia. Paulo apenas notava que ela pulsava rapidamente, na mesma velocidade em que seu próprio coração, e que queimava, queimava mais do que já havia queimado em qualquer outro momento até então.

 

Paulo não contou sobre o assalto a Ismael quando chegou à escola. Em verdade ele não contou para ninguém.

No retorno para casa, ele quase desejou que algo semelhante voltasse a acontecer, apenas para que talvez Le glaive voltasse a falar mentalmente com ele. Mas coisa nenhuma de anormal tornou a se produzir naquele dia.

Em casa ele bem que tentou questionar sua companheira sobre o que havia acontecido, mas Le glaive simplesmente respondia que não sabia do que Paulo falava. O garoto sentiu de alguma forma que a coisa estava sendo sincera, e por isso não insistiu…

Naquela noite Paulo conseguiu dormir quatro horas, e sonhou com um campo verdejante cercado por altas montanhas, seu céu encoberto por colossais nuvens cinzentas das mais variadas e impossíveis formas: animais, pessoas, objetos; às vezes até uniões de todas essas coisas… E no meio de todos esses contornos havia uma simples faca de dois gumes, talvez o desenho mais comum, da qual o garoto não conseguia desgrudar os olhos.

Paulo acordou completamente descansado ainda durante a madrugada. Le glaive então repousava serenamente ao lado de seu travesseiro, olho fechado, imóvel, mais pálida do que nunca sob a luz do luar que penetrava pelas frestas da janela.

 

Naquela madrugada dois homens, conhecidos pela força policial da cidade por diversos assaltos e mesmo algumas suspeitas de assassinato, foram encontrados mortos. Eles haviam sido executados com ao menos oitenta facadas cada um.



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