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História Os Segredos - Capítulo 4


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Notas do Autor


Oiê! Eu acabei apagando o capitulo anterior a esse por acreditar que não encaixava no que eu estava querendo fazer, então acabei unindo ele ao novo capitulo e modifiquei algumas coisas.
Espero que gostem e vamos sobreviver!
P.S - Essa história terá mais dois ou três capitulos. Sim, Os Segredos está chegando ao fim.

Música - Monster willyecho

Capítulo 4 - Salve-me, ó fonte de piedade!


Fanfic / Fanfiction Os Segredos - Capítulo 4 - Salve-me, ó fonte de piedade!

Assim como o brilho breve dos raios de sol não é notado pelos olhos de homens cegos, o começo do horror passou despercebido, com o guincho do que ocorreu em seguida, o início foi, na verdade, esquecido e talvez não relacionado de forma alguma ao horror. Era difícil saber.

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Ao voltar para o apartamento, Nina brigou com Jason, cuidadosamente examinou a cirurgia improvisada dele. Então limpou a ferida, primeiro retirou os pontos, depois com sabão e água, por fim álcool e novos pontos. Após isso, passou sobre o ferimento uma espécie de creme antibiótico, depois enrolou o ferimento com faixas brancas.

- Tome uma pílula a cada seis horas. – disse ela. – Vai te ajudar com a dor e evitar que alguma doença se espalhe.

Na sala, Guilherme estava sentado deitado de bruços, com os olhos fixos na tela do tablet.

- Espero que não esteja dando uma olhada em um desses sites em que você tem que clicar em “Confirmo que tenho dezoito anos ou mais” pra entrar. – disse Jason. Mas ele arrependeu-se daquilo assim que disse.

- Infelizmente não. – disse ele.  – O sinal morreu de vez. Estamos no meio do nada, sem comunicação e com um Franksomen por aí.

Quando percebeu que Nina o olhava, ele disse:

- O que foi?

- Franksomen? – disse ela. – Sério?

Jason havia permanecido em pé enquanto conversavam e seu tornozelo estava começando a latejar. Também estava se sentindo subitamente cansado.

- Talvez eu perdi mais sangue do que eu havia pensado. – pensou ele.

Ele foi mancando até o sofá e se sentou. Nina o observou atentamente enquanto estava caminhando e, apesar de franzir o rosto, não disse nada a respeito do ferimento de Jason, que ficou agradecido por isso.

- Ele vai ficar bem? A gente provavelmente deveria leva-lo num médico antes de voltar a investigar ou que ele pegue alguma doença... raiva...

- Você está brincando, não é? Criaturas sobrenaturais não pegam doenças naturais. – disse Jason, olhando para ele.

- Como é que eu ia saber disso? – Guilherme sorriu ironicamente. - Mesmo assim, é melhor prevenir do que ter hidrofobia, não é, não? Só vai precisar de uma série de injeções abdominais incrivelmente dolorosas.

- Não é assim que se trata raiva. – disse ela, encostando-se na parede e cruzando os braços. - Eles dão uma injeção de vacina no ombro, depois gamaglobulina na ferida e no quadril ou na bunda. Elas não são mais dolorosas que injeções normais. Mas isso não importa, porque ele não precisa disso.

Guilherme suspirou.

- Enfim, quem disse que o que ele viu é sobrenatural? Pelo que o Jason disse, a coisa parecia algo que um cientista maluco juntou com partes sobressalentes.

- Frankenstein é só um romance de Mary Shelley – Nina disse. - Você já chegou a ler?

- Eu vi todos os filmes – Guilherme respondeu.

Nina o ignorou e prosseguiu:

- Shelley escreveu o romance no começo do século 19, bem antes da era moderna da ciência. O procedimento sobre o qual ela escreveu é pura ficção. Nunca funcionaria no mundo real. Não dá pra fazer um único corpo com um monte de partes separadas. Não precisamos nem falar sobre atrelar o sistema nervoso central, só os problemas de rejeição de tecidos... – Nina saiu do assunto quando percebeu que Guilherme a estava encarando. - O que foi?

- Pensei que você fazia Arquitetura, não Medicina.

- O que quero dizer é que, o que quer que o Jason tenha visto, não é um produto científico.

- Tudo bem, vou acreditar no que você diz, dra. Nerdona.

- Vocês conseguiram alguma coisa interessante na cidade? – perguntou Jason.

- Além dos dois pombinhos, nada. 

- Bem, nós não tivemos problemas para conseguir acesso aos corpos de Meredith Hollor e Benjamim Werley. – disse Nina. – O médico legista suspeita que alguma espécie de contágio esteja relacionada à morte deles, então ele não havia realizado autópsias completas. Estava esperando que o CDC enviasse um relatório acerca das amostras de tecido que havia mandado, o que significava que eu tinha um par de corpos intocados para verificar. Ambos os corpos estavam na mesma condição.

- Eles pareciam carapaças vazias deixadas para trás por cigarras quando assumem a forma adulta. – interrompeu Guilherme. - Coisas esquisitas pra cacete!

- De acordo com os achados preliminares do legista, os corpos ainda contavam com todos os órgãos internos, mas era como se cada gota de umidade houvesse sido drenada deles. – Nina retomou a narrativa. -  E nem mesmo apenas sangue. Todos os fluidos haviam sumido, água, fluido espinhal, sucos gástricos, tudo, tudo mesmo, fazendo com que os corpos parecessem esqueletos cobertos por papel de pergaminho fino e cinza.

- Deixa eu adivinhar. – disse Jason. – Os corpos compartilhavam uma outra característica saliente: talhos violentos na garganta.

- Sim, o legista postulou que os ferimentos haviam sido causados post mortem por algum animal que se alimentasse de carniça. – respondeu Nina. – Entendi, as feridas foram causadas pelo cachorro monstruoso.

Nina respirou fundo e soltou um pequeno gemido de cansaço. 

- Eu sei que alguma coisa não está certa nessa cidade, e sei que concordei em tentar resolver isso, mas não consigo parar de pensar em como isso é insano demais. Algumas semanas atrás minha única preocupação era me formar e comprar sachê para o meu gato. Agora eu sei que o mundo está cheio de monstros, e meu serviço é impedir que eles destruam a humanidade.

- Sem mencionar que tem o exército de terroristas que são uma ameaça para porra do mundo inteiro! – disse Guilherme sem desviar sua atenção do tablet.

- Cronos...- murmurou Jason.

- O quê?

- Viu? Ele já não está falando coisa com coisa...vamos amputar a perna dele. – disse Guilherme.

- Me escutem... muito tempo atrás meu avô me contou uma história... – disse Jason. – Ele encontrou com Cronos, um deus ou titã grego, algo assim. 

- Deus? – Guilherme bufou. – Isso aqui virou Percy Jackson?

Jason o ignorou e continuou.

- Ele me disse que existem criaturas muito poderosas do outro lado, algumas criaturas conseguem vir para o nosso mundo de maneira fácil. – disse ele. – Mas existem coisas que são tão grandes e poderosas que não passam com facilidade pela membrana...

- Isso quer dizer...?

- Que são essas criaturas foram as que deram origens a todas histórias. Dracula, O Lobisomem, Entidades, Poltergeist, Cthulhu etc... – retomou a explicação. – Eu acho que podem estar tentando invocar alguma coisa ou já conseguiram.

- Não basta ter um mundo completamente distorcido do outro lado... agora temos criaturas vagando pelo mundo... QUE BA-CA-NA! – disse Guilherme, parando de digitar e voltando sua atenção para a conversa. 

- O que o seu avô disse sobre o Cronos? – perguntou Nina.

- Bem, claro, ele disse que Cronos usava uma magia para viajar no tempo e era uma coisa muito poderosa. Foi por causa disso que ele recebeu um ferimento na perna. Os corpos que vocês viram hoje parecem exatamente com vítimas de Cronos, eles possuem muitas semelhanças chocantes com a história que meu avô me contou.

Guilherme e Nina franziram o rosto.

- Você acha que podemos estar lidando com um deus aqui? – perguntou ela.

- É cedo demais pra dizer. Mas é como eu disse, a história que meu avô me contou me fez pensar. Eu poderia tentar para meu avô e tentar descobrir mais alguma coisa, mas estamos sem sinal.

 - Cara, não consigo acreditar que agora existem deuses na jogada. Pelo jeito, estamos cada vez mais atolados na merda.

- Aliás, andem com os equipamentos. – disse Jason. – Aquela coisa que me atacou era rápida. Pelo visual, aquilo deveria ter problemas até para andar, mas se mexia mais rápido que eu conseguia acompanhar.

- Tem mais alguma coisa, né? – perguntou ela, analisando as feições dele.

- Sim. Havia mais alguém naquela floresta. – respondeu ele. – Aquela coisa quase me matou, mas alguém atirou na besta e eu consegui me livrar.

- Isso está ficando cada vez melhor. – disse Guilherme. – Será que é alguém da Bravo?

- Não sei... – disse Jason. – Mas aquela coisa recebeu muito dano e parecia não se importar. Eu atirei na cabeça dele e ele continuou a caminhar, ele não deveria estar se movendo nem um pouco, mas o ferimento só o deixou mais lento...

Uma onda de cansaço caiu sobre Jason, e ele abafou um bocejo.

- O que é que está errado comigo? Não é nem cinco horas ainda e eu estou pronto pra ir para baixo das cobertas. – pensou ele.

- Mas como é que vocês acham que todas aquelas partes de cachorros se juntaram? – disse Nina. - Talvez a gente devesse checar a cidade em busca de um cemitério de animais. Ou talvez...

Jason lutou contra outro bocejo.

- Vou ver o que consigo encontrar a respeito de feitiços que supostamente... fazem partes de corpos se... fundirem. – disse Guilherme. – Alias, antes de ficarmos sem internet eu encontrei algumas coisas bizarras sobre essa cidade.

- O quê? – perguntou ela.

- Muitos relatos que eu encontrei em alguns sites referiam-se à lugar como um lugar mergulhado em segredos, mas nada particularmente bizarro ou sangrento. Nenhuma batalha foi travada aqui, e tampouco presenciaram atrocidades ou execuções. Entretanto, eu fui mais afundo...

- Para de fazer suspenses. – disse Nina.

- Eu vaguei por todas as áreas possíveis na internet normal e só encontrei isso sobre esse lugar. – começou ele. – Então eu fui mais afundo, acabei encontrando relatos de pessoas que diziam ter morado aqui, e todos falavam coisas horríveis que foram feitas aqui. Que havia sangue humano nas argamassas entre as pedras da cidade. Sangue de crianças. Outros dizem que a mulher do Demônio morava nesta região. Adivinha, em uma casa na floresta. Chamavam ela de Lilith.

- Não podem ser histórias falsas? – perguntou ela.

- Ah! – ele sacudiu a cabeça. – Eu também pensei nisso, porém as histórias não se contradizem e os detalhes são muito ricos.

- Os moradores locais não falaram nada sobre isso. – murmurou ela, levanto uma das mãos ao queijo.

- Lógico, eles não querem que a cidade fique com fama de cidade assombrado. – disse Jason. –

- Os relatos afiram que a cidade é amaldiçoada. – disse Guilherme. – Vamos ter que investigar essa merda, né?

- Foi para isso que viemos aqui - respondeu Nina. – Por sua causa, encontramos mais um mistério.

- Sinto muito por ser tão capaz. – disse Guilherme, com grande sorriso irônico. – Estou com fome...vamos pedir um mexic...

- Não, não - interrompeu-o Nina. – Não aguento mais! Ontem na janta, no café da manhã, no lanche da manhã e tarde, almoço e agora de novo? Chega! Não aguento! Jason concorda comigo.

Dessa vez Jason não conseguiu evitar o bocejo e desabou no sofá sem se importar em cair sobre as coxas de Nina.

- Ei, Jason, você está b... – disse Nina.

Foi a última coisa que ele escutou antes de uma escuridão quentinha e maravilhosa pegá-lo e levá-lo embora.

- Acho que o vegetariano foi de base. – murmurou Guilherme. – Nina, posso te fazer uma pergunta? Sem que te ofenda...

- Eu não me ofendo facilmente. – ela ajeitou a cabeça de Jason nas pernas dela. - Não se preocupe.

- Bem... é apenas que, quanto mais eu fico perto de vocês, menos eu consegui ver ele como um dos príncipes do submundo. – disse ele. – E não consigo imaginar você namorando o verdadeiro Jason, você parece tão...

- Inocente? Boazinha? Docinha? Menininha? – disse ela.

 - Eu a ofendi, né?

- Não, você apenas viu a verdade. – disse ela. – E o “verdadeiro” Jason não é esse monstro que você pensa, ele é uma pessoa boa! Todos nós somos... como é que vou dizer isso?... humanos com mais do que nossa quota de defeitos. O temperamento, porém, jamais foi considerado satisfatório.

- O temperamento dele?

- Acho que, certa vez, ele jogou uma Bíblia na cara de uma das testemunhas de Jeová que insistiram em algo...

Guilherme soltou um risinho, abafado um momento depois.

- A Bíblia matou o homem...

- Matou...

- Um acidente, mas ainda assim...

- ... com uma Bíblia? Claro que não. – disse ele. – O mais importante de tudo. – ele segurou um segundo riso. – Como diabos vocês se encontraram?

- Nós praticamente crescemos juntos. – respondeu ela. – Mas quando completamos oito ou dez anos acabamos nos separando, cada um para um canto. Então, um belo dia, acabei entrando em uma livraria na Lower East Side e ele estava na seção de ficção.

Um encontro estranho entre minha pequena Lily Collins e meu enigmático Timothée Chalamet em uma terça-feira, 10:06.

- Esbarramos no caixa. – disse ela. – Ele com um livro do Stephen King e eu com Paula Fox. Desde então nunca mais nos separamos...até...

O rosto de Nina entristeceu-se e ele percebeu isso, então disse:

- Vou buscar comida mexicana. – disse ele, saltando em direção da porta.

- PARA COM ISSO! – gritou ela, largando Jason com tudo no sofá. – EU NÃO AGUENTO MAIS, GUILHERME! SUSHI OU ITALINA! QUALQUER COISA, POR FAVOR!

- Não!

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Eu sou Vermelho. Você é Branco.

O Sol de Março nos engole em Preto.

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Nossa história, como todas histórias assim, possuem um nazista. Desculpe-me. Um cientista.

Ela estava com o jornal local em mãos, seus olhos fixados na manchete, as quatro vidas perdidas por trás dela. A reportagem apresentava poucos fatos e muitas suposições fomentadas pela histeria. Mas ela sabia exatamente quem era a derradeira responsável pela morte daquelas pobres pessoas. Ela usava um manto vermelho por cima de um pulôver preto com uma gola alta e grossa, mas ainda assim tremia de frio. Sentia tanto frio, tanto por dentro quanto por fora.

- Não é culpa sua, Elizabeth.

A voz era suave, mal passava de um sussurro, na verdade, com um leve sotaque alemão. Um aroma sutil pairou no ar até ela, o cheiro lembrava os produtos de um embalsamento.

- List, eu não o esperava tão cedo. – disse ela.

Apesar de estar tralhando com ele já há alguns meses, ela ainda tinha que se esforçar para não fazer uma expressão de desprezo todas as vezes que olhava para ele. Ele não possuía um visual horroroso. Era um homem magro, na casa dos quarenta e poucos anos, não passava de um metro e setenta, tinha uma cicatriz profunda sobre o lábio superior, queixo fino, cabelo preto e espetado, sem nenhum sinal de grisalho. Sua característica mais marcante, porém, estava em seus olhos pequenos e penetrantes. Eram sobrepostos por sobrancelhas, bem feitas, grossas e negras, e a cor deles era indeterminada, parecendo mudar cada vez que olhasse para ele. Às vezes eram azuis claros, às vezes cinzas como uma nevoa, e outras negros como a noite.

Como sempre, estava vestindo um terno, desta vez um cinza com uma camisa social branca, sem gravata, e um broche no tecido do terno. Não era a aparência dele que ela achava desagradável. O que a incomodava era algo mais indefinível, a presença dele.

Ele exalava uma aura que ela achava repulsiva. Sempre que ele se aproximava, ela sentia uma vontade urgente de se afastar, de manter tanta distância dele quanto possível. Ele não fazia nada explicito para intimida-la, mas ela tinha que se esforçar para se manter onde estava sempre que estavam juntos no mesmo ambiente, o quê, naqueles últimos dias, acontecia com frequência.

- Espero que não volte atrás. – disse ele, de forma calma e fria. – Não gostaria de...

- Eu fiz um juramento, Von List. – ela o interrompeu, com uma voz firme e confiante.

Ele mostrou um leve sorriso, quase de diversão, passou a mão pelo cabelo curto. Naquele momento, subitamente, ela sentiu uma necessidade terrível de tomar um longo banho.

Ele deu um passo à frente. Por um momento ela temeu que ele tivesse a intenção de toca-la, mas ele passou por ela e caminhou em direção a mesa de pedra atrás dela. No centro da clareira havia uma mesa de pedra. Era uma grande pedra enegrecida, sustentada por outras quatro. Parecia muito antiga e toda a pedra estava gravada com escritas e figuras esquisitas, caracteres de uma língua desconhecida. Olhar para ela dava uma sensação estranha, era como se toda sua energia vital fosse sugada. Sobre a mesa estava uma faca de marfim e, flutuando sobre ela, um menininho de seis anos de idade.

- Se você procurar a verdade – disse ele -, procure saber tudo. Conhecer metade é pior do que nada. Mesmo que tenha que sacrificar bilhões de vidas.

Ela levantou a cabeça e olhou para ele, com os dentes cerrados de raiva. Ele deixou os olhos semicerrados, mas sua voz permaneceu baixa e calma.

- Eu sei o que você pensa. O que nós buscamos é algo pelo qual essas pessoas se sacrificariam de boa vontade. O mundo irá muda para sempre. Traremos a pureza para a vida humana.

- Se levarmos em conta que não podemos perguntar isso para eles, nós nunca vamos saber com certeza, não é?

Os dois permaneceram em silêncio por um tempo depois disso. List retirou os braços do lado do corpo, pegou a faca de marfim que estava sobre a mesa. Depois, começou a afia-la.

- Os humanos são solitários neste mundo por uma razão. Matamos e massacramos tudo que desafia nossa primazia. Sabe o que aconteceu aos Neandertais? Nós os comemos. Destruímos e subjugamos esse mundo. – ele fez uma pequena pausa, olhando para a lâmina. – E quando não havia mais criaturas para dominar… se acomodaram. Chamaram nosso Führer de monstro, perverso... não existe bem nem mal, só existe o poder, e aqueles que são muito fracos para o desejarem.

A faca tinha uma forma esquisita e nada agradável. Por fim ele aproximou-se do garotinho desacordado. Um momento antes de desferir o golpe, ele inclinou-se e sussurrou, vibrando com a voz:

- Rette den Sieg

Elizabeth não conseguiu ver o ato cruel. Tinha desviado o olhar. Naquele instante, ela passou por grande perigo. Gritos selvagens e o som de trombetas ecoou por toda a floresta. Ventos gélidos saíram do peito do menino, o chão tremeu com o som de cascos. Esvoaçou sobre as cabeças dela uma grande mancha imunda de abutres e morcegos gigantes. Em outra situação, teria tremido de medo, mas ela havia sacrificado tanta coisa por aquilo que não iria fraquejar diante do medo.

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Manhã cansada

Oeste de Morte

Noite de insônia

Tarde...

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- Jason? Jason!!

Ele levantou o corpo com muita dificuldade para ficar sentado, ao abriu os olhos viu as mãos de Nina em seu ombro, ela o sacudia. Tirou as mãos dela e então bocejou.

- O que foi?

- Você estava gemendo igual uma cabra. – gritou Guilherme. – Espero que não tenha sonhado nada erótico comigo.

Nina revirou os olhos, mas não deixou de sorrir.

- Parecia que você estava tendo um sonho bem sério, e não do tipo bom. – disse ela.

Jason esfregou os olhos. Não se lembrava de ter ido dormir.

- Que horas são? – seus olhos verdes moveram-se na procura de algum relógio, parou ao encontrar o relógio digital da cozinha: 10:13. – Uau, eu devo ter apagado. Eu cochilei durante... o quê, mais ou menos três horas?

- Você dormiu um pouco mais que isso, Jason. – disse ela. - São dez da manhã de sexta.

A cabeça dele estava latejando como se estivesse de ressaca, levantou a mão para bloquear a claridade que vinha das janelas panorâmicas enquanto desviava o olhar.

- Você dormiu por quinze horas. – disse Guilherme. – Quase que meti uma estaca em você, mas ela não deixou. Triste.

- Acho que tinha que compensar o meu cansaço. Desculpa. – murmurou ele.

Endireitou a postura, ficando sentado de vez e encostando os pés no chão. Estremeceu quando o pé direito encostou no chão e então se lembrou do ferimento. Essa lembrança trouxe as outras consigo, então acordou de vez. 

- Então, alguma novidade a respeito do caso enquanto eu estava fora do ar? – perguntou ele, levantando-se e tentando não fazer uma careta quando colocava o peso sobre o tornozelo ferido. Estava doendo, mas não tanto quanto na hora de estar sendo mastigado.

- Vai com calma, James Bond – ela o interrompeu, empurrando-o delicadamente para trás.

- James Bond? – murmurou ele.

- Vimos um filme dele ontem à noite enquanto você estava apagado. – disse Guilherme, preparando algo na cozinha.

Jason levantou a sobrancelha, surpreso. Ele não gostou do que ouviu.

- Jason. – a voz dela soou como se estivesse pronta para pedir desculpas, mas mudou no meio do caminho – De qualquer forma, antes da gente voltar ao trabalho, quero dar uma olhada nesse seu tornozelo.

- Para quê?

- A gente não sabe exatamente o que é a coisa que te mordeu, e depois do jeito como você desmaiou na noite passada, quero ter certeza de que você está bem.

- Eu não desmaiei – ele murmurou. - Eu dormi.

Jason sabia que não conseguiria ir contra o raciocínio dela e, além disso, sabia que Nina não iria deixar aquilo para trás até ficar satisfeita.

- Anda logo, vegetariano. – disse Guilherme, tomando um gole de café. O cheiro do liquido irritou o estomago de Jason

 – Vamos dar uma olhada nesse tornozelo e garantir que você não vai se transformar em um franksomem. – disse ela.

- Está bem.

Jason colocou o pé sobre o sofá. Havia dormido sem tirar a roupa, porém havia tirado as botas antes dela fazer o curativo no tornozelo na noite anterior, tudo que precisou fazer foi levantar a barra da calça um pouco e começar a desfazer o curativo. Ele terminou de tirar o curativo e ficou feliz de ver que o ferimento parecia muito melhor comparado a como estava no dia anterior. Não estava mais sangrando e já começava a formar cascas. O tecido em volta da ferida não estava inchado nem vermelho, mas o apalpou com a ponta dos dedos por garantia. A carne estava macia, mas não quente: nada de infecção.

- Tenho que admitir, está parecendo muito boa – Nina disse.

- Então acabou a preocupação quanto a eu virar um Lobisomem ou algo do tipo?

- Vamos ver. – disse ela, soltando um sorriso.

Nina buscou a bolsa de primeiros socorros e refez o curativo em volta da ferida.

- Como eu estava dizendo, alguma novidade?

- Não de verdade. Nenhuma coisa fora do normal.

- Ainda estamos sem sinal. – disse Guilherme. – Nada funciona. 

- E decidimos tirar o dia de folga. – disse ela. – Essa cidade parece ser bem pacata, então vamos descansar um pouco e depois partir para o trabalho.

Jason franziu o rosto.

- Como é que é?

- Aqui talvez seja a cidade menos interessante da merda do mundo inteiro. – disse Guilherme. – Por deus, estou pensando em me aposentar aqui um dia.

Nina sorriu.

- Enfim, estávamos pensando em preparar o almoço. – disse ela. – Passamos no mercadinho da cidade e pegamos algumas coisas. Então, quer nos ajudar?

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Em frente ao prédio dos três, um ser estava parado. Não havia ninguém ao redor, mas mesmo se houvesse, não poderiam vê-la. A menos que desejasse. Uma brisa suave estava soprando, mas apesar de afagar sua pele, ela não a sentia. Mesmo dali, conseguia sentir o ferimento que havia sido causado a Jason, tanto seus componentes físicos quanto espirituais. Dos dois, o último era de longe mais sério.

- Isso não é bom - pensou. - Nem um pouco bom.

Mas tudo que podia fazer era ficar parada ali e continuar observando. Naquele momento, pelo menos.

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Ainda há gente que não sabe

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Sobre a bancada de pedra da cozinha haviam: um padeço de presunto e bacon; cebola e cebolinha; duas trutas pequenas; batatas; leite e entre outras coisas. Jason preparava as batatas e alguns legumes, enquanto Nina temperava e colocava as trutas na frigideira que já chiava. Guilherme preparava a mesa, cortava o pão e colocava os pratos.

- Por que não pedimos comida mexicana de novo? – grunhiu Guilherme.

Eles apenas o ignoraram.

- Está quase prontinho! – disse Nina.

Cada um puxou sua cadeira, prontos para se fartar. Sobre a mesa havia um jarro de suco e um de água; um pedaço manteiga; uma salada verde mista; purê de batata; batata cozinha com manteiga. 

- Não há nada melhor do que um peixinho de rio. – disse Nina, fechando os olhos ao sentir o gosto do peixe.

Guilherme concordou inteiramente com ela. E, depois do almoço, Nina tirou do forno um rocambole muito fofinho, ainda fumegando. Na frente dela uma xicara de chá, com seu respectivo pires, um açucareiro, uma tigelinha de creme de leite e uma grande chaleira ainda a chiar. Jason estava com uma xícara de café, e Guilherme procurava uma Pepsi na geladeira.

Para oeste, nuvens enormes e cinzentas com trovoadas empurravam o céu azul. Relâmpagos faiscavam dentro delas. O ar começou a mover-se, primeiro intermitente, erguendo a bandeira da prefeitura e deixando-a cair de novo. Começou a refrescar e uma brisa se firmou; primeiro esfriando a transpiração dos corpos, depois parecendo congelá-la.

- Acho que vem uma tempestade e tanto por aí. – disse Guilherme, levando o bico de uma garra de Pepsi a boca.

Os dois que ainda estavam sentados na mesa o fitaram dubitativamente. O lago que outrora lembrava o oceano, com ondas enormes que se quebravam e lançavam espuma acima das docas e quebra-mares, agora estava fantasticamente calmo.

- Já tivemos trovoadas na noite de ontem também e não deu em nada. – disse Nina, largando a xicara e o pires sobre a mesa.

- Esta não parece ser normal. – disse Jason.

- Você acha? – murmurou Guilherme. – Para mim parece uma tempestade.

- Em lugar algum dizia que iria haver um temporal. – disse Nina, caminhando até as janelas.

- Para ser franco, eu estou com um péssimo pressentimento. – falou Jason, em tom sincero.

As nuvens se torciam e rolavam, sobre todo o lago, e podia-se ver uma coifa delicada de chuva que caía delas. Tudo ainda muito distante. Foi então que avistaram o véu prateado, cruzando o lago. Em segundos apagou o horizonte da vista e foi em direção da cidade.

- Vocês viram? O que era aquilo? – perguntou Guilherme.

Jason levantou-se de sua cadeira. Nina lançou um olhar rápido e assustado para ele. Olhar para aquilo era hipnótico. Nina e Guilherme estavam parados bem à frente do janelão que dava uma vista panorâmica do lago. Um relâmpago riscou tudo com tanta luminosidade, que a paisagem permaneceu em negativo nos olhos de todos, por alguns minutos depois. Jason teve uma daquelas terríveis visões em que a janela panorâmica se estilhaçava, disparando milhares de flechas de vidro no estômago nu de Nina, ao rosto e pescoço de Guilherme. Ele agarrou os dois com firmeza pelos braços e os puxou para longe dali. Escorregaram para de trás da bancada de pedra.

- Diabo, o que estão fazendo? Estão loucos? – gritou ele, a fim de ser ouvido.

Nina deu-me um olhar assustada. Guilherme apenas olhou para ele como se parcialmente despertasse de um sono profundo. Então as janelas se estilhaçaram e milhares de flechas de vidro explodiram para dentro do apartamento.

- Que merda é essa? – gritou Guilherme.

O vento chegou. Ouvia-se um assobio arquejante e agudo, às vezes aprofundando-se em um rugido grave. A água estava absolutamente calma. Um embarcadouro fora arrancado com seus esteios principais, virando-se alternadamente para o céu e enterrando- se na água encapelada. Eles esperaram alguns minutos, então tiveram que dar uma espiada na tempestade.

De repente, um barulho agudo começou na distância, aumentando rapidamente até transformar-se no louco ulular de uma sirene policial. Houve um chiado de freio e borracha queimada. A sirene chegou ao auge quando se aproximou dos prédios, começando a diminuir à medida que a viatura policial se afastava. Então, o apito de incêndios da cidade começou a gemer, lentamente passando para um guincho todo próprio, caindo e tornando a subir.

- Não estou gostando disso. – murmurou Guilherme. – Essa sensação de Dia do Juízo em grande escala, que merda é essa?

A cidade e toda a região foram cobertas. Era branco e brilhante, mas sem reflexos, tendo engolido a maioria do sol. Onde o sol estivera, havia agora uma moeda de prata no céu, como uma lua cheia, vista através de uma fina camada de nuvens.

- Esse cheiro. – disse Jason. – É a morte! Sinto cheiro de morte!

Nina e Guilherme trocaram olhares. Deram alguns passos em direção da janela. Então, as coisas começaram a acontecer em ritmo acelerado e confuso.

- Há alguma coisa naquele nevoeiro! – disse Nina, dando alguns passos para trás.

Foi quando começou a escurecer. Não que estivesse realmente anoitecendo, mas sim que as luzes da cidade haviam sido apagadas. O nevoeiro vinha rapidamente. Ele rolava imparcialmente apagando tudo de vista.

- Cristo, o que está acontecendo? – disse Guilherme, nervoso. – Estamos no O Nevoeiro?

Um guincho saiu do nevoeiro. Ele afastou-se da janela e foi para perto dos dois. O guincho estendeu-se, prolongadamente. Então ele parou subitamente. Jason tapou a boca dos dois. Algo pareceu mover-se, uma sombra cinzenta em toda aquela brancura.

Por um instante, houve silêncio total. Outro grito brotou do exterior cortando o silêncio, este abafado e soando algo distante.

- Jason, o que está acontecendo? – perguntou ela, em um tom baixinho. Mostrava grandes gotas de suor no belo rosto e liso. - O que é isto?

- Não faço a menor ideia – respondeu.

Guilherme estava pronto para perguntar algo, quando houve um baque surdo. Um baque estranho, estremecido, que eles sentiram principalmente nos pés, como se todo o edifício houvesse subitamente afundado.

- Acho que foi um terremoto - disse Guilherme, arrumando os óculos. - Sinceramente, acho que foi um terremoto.

- Aquilo foi Cascos - contradisse imediatamente Jason, empregando os tons indisfarçáveis de veterano sobrenatural.

O nevoeiro surgiu em um piscar de olhos. Chegou engolindo a tempestade e tudo que via pela frente. O máximo que se conseguia ver era um palmo a frente, pois o branco opaco reinava. 

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Não encha sua cabeça de coisas e não pense que você está livre;
Eu posso sentir o cheiro do medo...

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Às quatro horas seguintes transcorreram em uma espécie de sonho. Houve uma longa e histérica discussão entre os três, possivelmente seria a necessidade de Nina em digerir tudo aquilo, procurando ver a situação de um ponto de vista plausível, porém era perca de tempo.

Ching-Chong!

A companhia tocou. Eles olharam em direção a ela com o coração aos pulos, Jason levou a mão em direção da cintura, porém não estava armado. Os dois olharam para Jason esperando uma resposta superficial, Nina ficou surpresa quando ele franziu o cenho e olhou para o chão. Ele parecia estar pensando. Quando finalmente levantou a cabeça, seus olhos estavam sérios.

- Não abram a porta. – disse com a voz baixa. – Irei pegar os equipamentos, não deixam que entrem... de jeito nenhum.

Os dois trocaram olhares enquanto Jason mancava em direção ao quarto dele. Nina respirou fundo e caminhou até a porta. Olhou pelo olho mágico. Seu coração gelou, seus cabelos naquele exato momento se arrepiaram, seus olhos arderam, e suas mãos ficaram frias.

De pé no outro lado da porta, havia uma mulher com aparência de quase oitenta anos. Cabelo comprido e bonito, totalmente branco. Por trás dos óculos sem aro estavam olhos azuis como as águas do lago. Ela vestia um vestido vermelho de seda. O rosto cheio de rugas era gentil.

- Sim? – perguntou Nina.

- Me chamo Felepina. – disse a velha, devagar e em voz baixa. – Sou a locatária desse apartamento, poderia entrar?

Nina esperou, tentou ouvir algo a mais do outro lado por um momento, então perguntou:

- Sra. Felipina... hã... bem, estamos um pouco ocupados.  

Houve um pequeno silêncio, então algo respondeu.

- Estou com medo, querida.

Mas não era ela. Parecia a voz dela, como se algo estivesse forçando a voz quase no mesmo timbre, mas a voz era abafada como se ela falasse com um punhado de terra na boca. Até aquele momento, Guilherme considerava tudo aquilo “normal”. Mas algo naquele momento o fez ter um pressentimento assustador. Ele correu em direção a porta e se colocou como obstáculo. 

Silêncio.

Nina olhou novamente pelo olho mágico. A velha sorria para Nina, um sorriso apertado, a jovem notou que algo havia mudado. Seus olhos outrora azuis agora estavam amarelos e murchos, cobertos por linhas vermelhas irregulares. O cabelo estava fino, malcuidado, cinza e sem vida. Ela olhava maliciosamente para o olho mágico. Os dentes amarelados apareciam naquele sorriso repulsivo, quase predador. As rugas na pele estavam mais profundas. A pele rosada e leitosa tinha ficado amarela em um tom doentio. Os dedos eram finos e longos, quase como se fossem uma única coisa.

- Me deixa entrar, querida.

Os dois sentiam o hálito dela com cheiro de coisas mortas. E então, como uma boa locatária e vizinha que era, ela tentou arrombar a porta. Berrava obscenidades. Gritava de raiva. Gemia baixo e murmurava coisas sem coerência.

- Essa velha miserável tem mais força do que eu imaginava. – gritou Guilherme, segurando a porta, segurando o vomito por causa do cheiro forte.

Ela jogava todo o peso do seu corpo contra a entrada enquanto balbuciava algo em uma língua desconhecida. Nina perguntou novamente e ela repetiu:

- Sra. Felepina, o que está acontecendo? Pare com isso!

- Querida, se você for esperta, você vai correr, correr de volta pro lugar de onde veio, e bem rápido, porque ficar vai ser pior do que sua morte. Mas... você já sabia disso... agora pode acreditar... - gritou dando risadas com voz alta e aguda. – Estamos todos esperando por vocês!

As unhas dela arranhavam a superfície da porta, fazendo marcas fundas. Tinha algo naquela voz, trazia uma sensação horrível, como se um alfinete estivesse próximo aos seus olhos quase os atravessando. Aquela voz conseguia passar por todas as proteções de uma pessoa deixa-la completamente exposta. Era como se ela sugasse algo de você. Algo que ela desejava.

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Jason pulou violentamente para dentro do seu quarto. Estilhaços de vidro se encontravam por todo o local, algumas partes machadas com uma gosma preta, mas ele não notou e, mesmo se houvesse notado, não teria se importado. Tinha coisas mais importantes com que se preocupar naquele momento do que uma pequena bagunça. Naquele momento o TOC foi para o inferno. Manteve a mente clara, colocou a mochila com os equipamentos as costas e preparou a espingarda.

- Ela não vai entrar. – Jason disse para si mesmo. – A fechadura é forte. Eu sei, porque eu mesmo inspecionei. Então, de qualquer jeito, estamos seguros.

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Duas patas tortas e longas como as de um louva deus perfuraram a porta. Os dois pularam para trás ao verem as patas. Então a porta escancarou-se para dentro sem nenhum aviso, as dobradiças se soltaram, o ferrolho atravessou o batente. A porta deslizou pelo chão e parou ao chocar-se contra o outro lado do apartamento.

O susto fez com que Guilherme tropeçasse e desabasse com força sobre a própria bunda. O impacto sacudiu sua coluna e fez om que seus dentes batessem um ao outro dolorosamente. No processo, mordeu a ponta da língua, e sangue começou a encher sua boca. Tentou cuspir, mas acabou engolindo o sangue ao presenciar a criatura grotesca a sua frente.

Ele não conseguiu segurar e acabou vomitou apenas o ácido amargo, queimando sua garganta. Ele expeliu uma grande quantidade de ácido e sangue. O liquido cobriu seus pés. A criatura humanoide entrou no apartamento balançado a cabeça, um sorriso malicioso crescia em seu rosto enrugado, seus olhos eram pretos como obsidianas. Nina cobriu a boca com a mão para abafar um grito, o rosto de Felepina se contorcia numa máscara de irá, os lábios repuxados em direções opostas, e a língua túmida serpenteado para fora da boca. Ela um hibrido entre mulher e louva-deus, sua pele era mole e gosmenta, as feridas pelo corpo abriam-se e fechavam-se, era uma criatura acinzentada e decadente, como um corpo em decomposição na água a semanas, seus seios eram flácidos e caídos, seus braços e pernas pareciam ter sido substituídos por patas de insetos.

Assim que entrou no apartamento a criatura avançou sobre eles. Nina pulou para trás, mas Guilherme escorreu no vomito, seu braço direito acabou se propulsionando para frente na tentativa de agarrar em algo. Nina sentiu a garganta fechar ao ver tal visão horrível, ela pode escutar a respiração dele sair como um chiado tenso. Mas ele ainda estava vivo, se contraindo para tentar sair das presas da criatura.

Jason saiu do quarto segurando uma espingarda calibre doze com as duas mãos apontando-a para a criatura. Seu dedo apertou o gatilho com força o suficiente para fazer com que o tiro explodisse a cabeça da besta. O lado direito de Guilherme estava banhado com um vermelho-vivo. Sangue fluía por todo o chão do apartamento pelo buraco esfarrapado onde ficava o braço direito. Um pedaço de osso, horrivelmente branco, aparecia no tecido rasgado. Ele urrou de dor, soltava gritos alucinantes.

- E-eu... vou morrer. – disse ele.

– Não, você não vai. –  gritou Nina, ajoelhando-se ao lado dele, arrancou um pedaço da camisa dele e utilizou para estancar o machucado. Ao retirar parte da camisa, revelou uma tatuagem na lateral de seu abdômen. Ela e Jason se encararam, mas não disseram nada a respeito. O deitou de barriga para cima. Jason entregou os primeiros socorros para Nina e ela começou seu trabalho o mais rápido que podia.

- Você já fez isso alguma vez na vida? – perguntou ele, com uma risada trêmula por trás da voz. – Me esqueci... você é arquiteta...

- Você ficaria surpreso com as coisas que eu sei fazer. – respondeu ela.

Ele sabia que poderia se surpreender muito com aqueles dois. Enquanto ela o atendia, Jason ficava de guarda.

- Isso irá doer - dizia ela.

A dor se espalhou pelo seu corpo, ela colocou um pedaço de pano na boca dele para evitar que gritasse. Lágrimas escorriam dos cantos dos seus olhos. A dor sumiu e voltada novamente, sentia a uma dor indescritível.

- Consegui - disse ela. E soltou um pesado suspiro.

Ele olhou para Nina, e ela estava chorando.

- Por que está chorando, nerdona? – perguntou ele.

- Pensei que iriamos te perder. – disse ela, fungando.

Ela limpou a pele ao redor da ferida com algo gelado.

- Hora de... – disse ela.

Antes que ele pudesse falar ou fazer qualquer coisa, ele sentiu algo queimar em seu braço. Ela parecia ter feito aquilo um milhão de vezes. Guilherme contraiu a mandíbula e se mantive quieto desta vez. De todas as dores que sentiu em toda a vida, aquela era a pior de todas. Nina terminou de suturar a ferida, colocou um curativo sobre o machucado.

- Tudo certo? Então vamos. – disse Jason. – Vamos embora.

- Você quer que ele caminhe? – perguntou Nina. – Você está louco?

- Ele perdeu uma perna? – disse ele, friamente. – Não. Ele vai caminhar. Agora precisamos sair desse lugar.

Ela o ajudou-o a se levantar. Jason retirou uma pistola de tamanho médio da mochila. Examinou-a e abriu o tambor, checou-a para ver se estava carregada e entregou para Nina.

- J-Jason, eu nunca disparei uma arma na vida. – disse ela.

- Ele desse jeito não vai conseguir atirar. – disse ele, calmamente. – Não posso cobrir todos os lados.

- Muito bem. – disse ela.

Ela pegou a arma e a colocou na parte da frente por dentro da calça, deixando um volume. Jason checou à espingarda em sua mão de modo profissional e voltou-se em direção da porta. Nina nunca havia percebido o quão os olhos de Jason eram frios.

- Você tem algum plano, Jason? – perguntou Nina, ajudando Guilherme a caminhar.

- Pegar o jipe e sair da cidade. – respondeu ele. – Não podemos ficar na cidade.

Desceram as escadas rumo a porta principal.  Quando alacaram a porta, ouviram o som de passos e ele impediu que os dois saíssem.

- O que vamos fazer agora? Jason, o que vamos fazer? – perguntou Nina, passando a língua pelos lábios secos e olhando para a neblina do lado de fora. – Ele estão lá fora?

- Mais ou menos. – respondeu ele. – Acho que estão pela cidade inteira.

Ele espiou pela fresta da porta. A cidade parecia a mesma de sempre, com exceção da nevoa e uma espécie de poeira sobre o solo que era quase como se toda a cidade estivesse coberta por uma fina camada de fuligem. O som que ecoava pela rua era desagradável, algo muito maligno caminhava pela cidade. Todos sentiram a energia maligna os abraçando. As respirações ficaram suspensas por um momento e depois reiniciada com certa dificuldade. O rosto de Nina estava inteiramente tenso, e o rosto de Guilherme estava coberto por filetes de suor.

- Vamos sair pelos fundos. – ele apontou, com relutância, o facho da lanterna para os fundos do prédio.

Guilherme emitiu um som sufocado de dor.

- Aguente firme. – murmurou Nina, ajudando-o a andar.

- Vamos sair daqui. – disse ele.

Jason empurrou as portas duplas dos fundos e penetraram em um beco. Aquele cenário que viram parecia a cidade que eles haviam conhecido, porém era distorcida e decadente, além dos prédios aparentarem estarem em completo abandono. Não havia cor alguma, apenas a neblina e o cinza. O ar era carregado por esporros que flutuavam no ar como moscas.

- Pessoal – disse Guilherme, olhando para cima , parece que temos um problema de certa magnitude por aqui.

Seu rosto estava mais pálido, e seus olhos espantados. Nina e Jason seguiram os olhos dele e seus rostos empalideceram. O céu era vermelho, trovões e raios percorriam o céu. Um filete de sangue escorreu pela testa de Nina até o queixo, assemelhando-se a um pingo de chuva descendo por uma calha. Uma chuva rubra caiu sobre eles. Ela parecia sugar a energia deles, como se fosse uma espécie de pequenos buracos negros. Luz, calor, até mesmo a própria vitalidade deles pareciam ser drenados por aquela chuva de sangue, e eles sentiam-se cansados depois de passar algum tempo ali.

- Isso é sangue? – murmurou Nina.

- O que é aquela coisa? – murmurou Guilherme, olhando agora em direção do final do beco.

Através da nevoa, viram um vulto andando pesadamente pela rua principal, o som de metal raspando no asfalto vinham junto. Aquela visão fez a pele deles formigar. Era uma silhueta de algo enorme. Parecia possuir duas cabeças e quatro braços. Tinha, fácil, mais de dois metros de altura. Da cinturava para baixo, parecia usar um vestido que se arrastava no asfalto. Eles engoliram em seco.

- O Guardião. – uma voz suave e clara surgiu atrás deles.

Jason reconheceu imediatamente a voz virando-se quase que imediatamente. Ele se surpreendeu com a aparência dela.

- Bianca. – murmurou ele.

- Ei, noivo, o que é que você conta? – disse ela, com um largo sorriso.

Uma garota outrora de vinte e poucos anos agora estava na faixa dos cinquenta. Era difícil dizer a idade das pessoas naquele lugar. Viver ali tinha seus preços. Seus longos cabelos pretos agora estavam grisalhos. Ela havia sumido há apenas alguns meses, mas nesse curto período, já havia mudado a ponto de não gostar de se olhar no espelho. O rosto estava magro, a feição extremamente pálida, olhos avermelhados, a pele embaixo deles inchada, parecendo estar com um hematoma. Vestia um grosso sobretudo de lã preto com capuz. Estava velho, mas ainda era elegante. Estava embaixo de um guarda-chuva amarelo, segurava um garrafão de sal na mão esquerda. Ela caminhou lentamente até eles.

- Tudo está uma merda, né? – disse ela, encolhendo os ombros.

A verdade é que tudo ficou ruim. Mas, normalmente, há um limite para o "ruim", e o que aconteceu naquela cidade ultrapassou qualquer fronteira.


Notas Finais


Nos vemos daqui algumas semas ^-^. Como sempre, eu irei reler a história para algumar certos erros, e com isso eu posso fazer algumas alterações.


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