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História Os Sete Reinos (Interativa) - Capítulo 10


Escrita por: e LadySkygge


Notas do Autor


Bom dia, boa tarde e boa noite para todas as almas que por aqui vagam!

Após longos dias de espera — mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa — um novo capítulo acabou de chegar!

Apresento-lhes dois personagens: a princesa Astrid — que certamente precisará de terapia para controle da raiva no futuro — e o doce Lyon — que foi entregue a mim pela corajosa Samadhi (moça, pelo amor das batatinhas sagradas, me avisa se eu fizer besteira com seu personagem!

Então, aproveitem o capítulo! *puxo as cortinas* Divirtam-se!

Capítulo 10 - Capítulo 01 Tramas ocultas no Reino Vermelho


Fanfic / Fanfiction Os Sete Reinos (Interativa) - Capítulo 10 - Capítulo 01 Tramas ocultas no Reino Vermelho

Astrid rangeu os dentes, o peito em chamas com a raiva, mas manteve o olhar fixo no chão de pedra. Ela sentiu o peso das algemas de ferro que a marcavam como escrava da nobreza e calculou quantos fios de lã foram usados para tecer os ridículos sapatos de pano que usava agora. Pensamentos vagos, inofensivos. Não era inteligente — muito menos sensato — encarar diretamente os membros da realeza; mesmo se o membro da realeza em questão era seu irmãozinho e você sentia uma vontade louca de jogá-lo na lareira mais próxima.

Ferir o herdeiro do trono, ou mesmo ameaçar sua vida, era encarado como traição e a penalidade era uma passagem só de ida para o calabouço do castelo.

Astrid podia estar furiosa, mas não era suicida.

— Está me ouvindo? — Dioros agarrou a irmã pelo queixo e a puxou para frente.

O aperto em sua mandíbula se tornou doloroso e ela teve certeza de que seu rosto exibiria hematomas mais tarde.

Piscou lentamente, como se despertasse de um transe.

— Sim, alteza. — respondeu numa voz baixa e submissa.

— Você lembra o que eu disse hoje de manhã? — ele perguntou devagar. Veneno gotejava de cada palavra.

Como se eu pudesse esquecer, seu merdinha, a resposta insolente estava na ponta da língua, mas ela se obrigou a engoli-la e anuir debilmente.

— Que ótimo! Então me explica o que é aquilo ali!

Empurrou a irmã, praticamente a jogando no chão, e a garota cambaleou, quase caindo de cara no tapete... e no monte de cocô de cachorro espalhado ao redor. Não montinhos secos e fáceis de limpar, mas verdadeiras piscinas de cocô amarelo-esverdeado que exigiriam horas de trabalho apenas para remover as manchas do tecido.

O casal de galgos olhou para os dois, alheios ao problema. Um deles coçou as costelas magras com os dentes. Ótimo. Agora eles também tinham pulgas.

Você sabe, irmãozinho, os cachorros fizeram o que todos os cachorros fazem... por que está me culpando?, Astrid conteve o impulso de arquear as sobrancelhas cinicamente. Ao invés disto curvou-se da maneira mais servil possível e juntou as mãos no peito, imitando o gesto que via em tantas outras servas.

— Perdão, meu senhor! — implorou baixinho, no tom mais choroso que conseguiu usar. — Limparei vosso aposento imediatamente!

Dioros bufou, cheio de desprezo, e se afastou. Esfregou as mãos num lenço de seda e o jogou nas chamas da lareira. Astrid assistiu a cena em silêncio, muito quieta, esperando.

— E então?! — o garoto ralhou chutando o balde ao lado da mesa de centro. — O que está esperando?

— Perdão, meu senhor!

Recolheu o balde e se pôs de joelhos. Graças ao temperamento irascível de seu irmão as cortinas também precisariam ser estendidas para secar. Revirou os bolsos do avental e encontrou a escovinha de cerdas grossas e a pequena pá de metal normalmente usava para recolher a fuligem das lareiras.

— Mulheres. — Dioros resmungou usando o mesmo tom desagradável que os velhos cavaleiros gostavam de usar. — Vocês servem apenas para esquentar nossas camas. — olhou-a de cima abaixo, cheio de nojo. — Mas irmãs? Irmãs são totalmente imprestáveis. Papai deveria ter matado você quando teve chance. É um erro que não vou cometer quando eu me tornar rei.

Que os deuses tenham piedade do mundo se um dia você se tornar rei, seu merdinha arrogante, Astrid pensou e raspou a sujeira com ânimo redobrado. Os servos desprezavam o príncipe herdeiro; as mulheres desconfiavam de suas palavras cruéis e comportamento violento, e os homens não podiam levar a sério um pirralho que ordenavam espancamentos sempre que algo o aborrecia.

Dioros era instável, agressivo e propenso a birras infantis... mas também era burro demais para entender a extensão de seu poder e muitos acreditavam que o garoto não conseguiria ser tão cruel e infame quanto o pai; um pensamento reconfortante, dados os danos que as guerras causaram no início de seu regime.

— Príncipe Dioros, vosso pai o aguarda no pátio de treinamento. — um cavaleiro anunciou através da porta entreaberta.

Astrid olhou para o irmão de soslaio e sorriu perversamente quando o pirralho empalideceu e se encolheu contra a parede. A postura arrogante desmanchou por completo e, por um segundo, Dioros parecia prestes a mijar nas próprias roupas de tanto medo.

Que bonitinho, ela zombou em silêncio.

O garoto engoliu em seco, afastou os cabelos escuros do rosto e pegou a espada que havia jogado sobre a mesa de centro. As mãos tremiam enquanto ajustava o cinto e marchava para a saída. Parou, olhou para a irmã e arreganhou um sorriso maníaco.

— Acho bom esse quarto estar limpo quando eu voltar, irmã.

A porta abriu e fechou com um baque alto. Os passos do príncipe e de sua escolta podiam ser ouvidos se afastando pelo corredor e apenas quando o silêncio se tornou absoluto a garota largou a escova e apoiou o peso do corpo nos calcanhares.

A postura subserviente se desfez e Astrid levantou a cabeça, fúria gélida cintilando em seu olhar. Os cães se animaram e correram para sua mestra. Dioros podia tê-los comprado, mas era à Astrid que dedicavam sua devoção.

— Oh, meus queridinhos... — ela deixou que os cães fizessem sua festa, apenas recuando quando tentavam lamber seu rosto. — Eu sinto muito... sinto sim... coloquei amieiro-negro em sua ração, mas foi por uma boa causa. Eu precisava ficar aqui, entendem? Sim... eu sei que entendem... vocês são os cães mais espertos do reino...

Astrid ofereceu algumas tiras de carne seca para os galgos e se acercou da janela. Afastou as cortinas pesadas, mantendo-se na sombra, e olhou para o pátio de treinamento abaixo.

O Rei Vermelho, cercado por seus leais cavaleiros, assistia ao treinamento do filho com interesse vago. Não havia traços de simpatia em seu rosto escuro, nem mesmo um grama de carinho pelo herdeiro do trono, apenas um frio julgamento e o ocasional ricto de desprezo quando Dioros falhava em suas investidas.

Murray Rhodes, o Rei Vermelho, não era um homem piedoso e muitos acreditavam que era o regente mais cruel e sanguinário que ascendera ao trono. Suas campanhas de guerra causaram perdas incalculáveis e ainda hoje as pessoas lembravam como os campos do sul arderam em chamas quando o Rei decidiu incendiar o vale para destruir um pequeno grupo de rebeldes.

A família Rhodes estava no poder havia 200 anos e nesse meio tempo construíram reputação como senhores da guerra, implacáveis e extremamente violentos. Conquistar terras e destruir inimigos era tão simples quanto respirar e, embora alguns deles fossem completamente loucos, ninguém no Reino poderia negar que a riqueza nos cofres aumentara grandemente sob o comando dos Rhodes.

Essas glórias, porém, nada significavam para Astrid.

Ser mulher, no Reino Vermelho, era um grande problema; mas pertencer à família real era como pedir para nascer no inferno. As princesas raramente atingiam a idade adulta e, exceto por Irene Buehlman, nenhuma delas conseguiu cruzar as fronteiras do Reino.

Em duas semanas Astrid completaria 20 anos de idade e ganharia direito ao Exílio. Eles removeriam as algemas em seus pulsos, lhe dariam roupas limpas e não mais a tratariam como escrava; em troca ela nunca mais poderia voltar ao Reino Vermelho enquanto vivesse. Um acordo vantajoso, não fosse o fato de que também era sua sentença de morte.

Fora Irene Buehlman, nenhuma outra princesa sobreviveu ao Exílio, então Astrid tinha duas opções: deixar-se matar, como todas as outras princesas, ou seguir os passos de Irene e encontrar uma saída antes que fosse tarde demais.

Ouviu-se um estalido, um grunhido alto, e Dioros foi ao chão como um saco de batatas. A princesa abafou o riso e ergueu o queixo arrogantemente. Seu irmão não tinha o menor talento para esgrima e seu temperamento o tornava terrível na manipulação de seus poderes. Não importava quantas surras recebia, nem quantas vezes as instruções se repetiam, Dioros continuava fracassando nos treinamentos e seus tutores raramente o perdoavam por esse fraco desempenho.

E esta era a única razão para Astrid tolerar os desmandos de seu execrável irmãozinho: o quarto de Dioros ficava acima da área de treinamento e, dali, ela podia ouvir claramente todas as instruções que o irmão era incapaz de aprender.

Astrid desenvolveu seus poderes em segredo e aprendeu como controlá-los... mas o que aconteceria se o Rei Vermelho e seus asseclas descobrissem que ela tinha essas habilidades?

Se o Rei descobrir o que posso fazer... ele me matará antes que eu tenha uma chance de fugir, ponderou tranquilamente. Crescer com ameaças de morte cuspidas em sua cara e sofrendo espancamentos constantes tornara seu caráter muito duro e a perspectiva de um assassinato acontecer não a surpreendia em nada.

Astrid sentou no parapeito da janela e olhou para baixo, para o irmão que avançava descoordenadamente e desabava aos pés do cavaleiro com quem lutava.

Ela queria tanto jogar o irmão para fora da arena e mostrar como uma luta de verdade deveria ser! Nada de movimentos rebuscados e força excessiva, nada de resmungos e queixas sobre injustiças, mas uma batalha pela chance de sobreviver, pelo direito de manter a cabeça erguida.

Astrid era uma lutadora, uma sobrevivente nata, e era nisso que iria se fiar. Em duas semanas estaria livre do Reino Vermelho e ela protegeria essa liberdade com unhas e dentes até o último fôlego.

 

— Lyon! — mesmo àquela distância a voz de Milo transbordava contentamento.

— Ah, não... — o cavaleiro gemeu baixinho, desanimado. — Você não...

Lyon adoraria ignorar o irmão, dar meia volta e desaparecer na floresta circundante, mas sabia que não poderia se esquivar daquela conversa por muito tempo. Milo podia ser muito persistente quando queria algo.

O cavaleiro baixou os ombros, resignado, e olhou para os céus, implorando aos deuses que lhe dessem um pouquinho mais de paciência. Virou-se para Milo e o encontrou a meio caminho dos estábulos.

Aos dezoito anos de idade Milo era uma cabeça mais baixo que o irmão, embora tivesse ombros mais largos e músculos suficientes para intimidar um touro. Os cabelos escuros, cortados rente ao crânio, destacavam os traços rígidos do rosto moreno e o queixo largo. Traços harmoniosos, verdade, mas que denunciavam a personalidade dura e obstinada.

Milo era uma das pessoas que Lyon mais amava no mundo, honestamente, no entanto o moleque tinha um talento único para dizer e fazer todas as coisas erradas em um único movimento. Milo era ambicioso, obcecado pelo status de cavaleiro, e não se importava de ser visto entre os lacaios do príncipe Dioros.

Família é família, não é? E essa conversa não pode ser pior que as outras, Lyon se consolou. Entregou a sela e os estribos para o cavalariço e se aproximou do irmão. Milo o abraçou, apertando sua cintura até quase sufocá-lo, e Lyon retribuiu cutucando-o nas costelas até conseguir se libertar.

— Onde esteve? Não o vejo faz dias! — o rapaz perguntou tão logo se afastou.

— Patrulha nas fronteiras de lorde Rackham. — replicou serenamente. — Ladrões de gado. Nenhuma novidade.

— Espero que tenham conseguido pegar os canalhas.

— Eles fugiram. — Lyon deu de ombros, indiferente à frustração do irmão.

Os ladrões eram crianças, em sua maioria meninos órfãos, e muitos deles se escondiam na floresta, saindo ao anoitecer para procurar comida. Não eram diferentes de pequenas raposas assustadiças, esfaimados demais para pensar em alternativas menos perigosas. Ninguém saberia que Lyon os havia encontrado e levado para a fronteira, deixando com eles uma boa parte de seu soldo para que pudessem escapar em segurança.

O capitão Dorigatti culparia os trolls das Gêmeas Cinzentas e as pessoas do reino aceitaria essa desculpa sem hesitar. Os trolls aproveitavam as longas noites de inverno para descer as montanhas e caçar os homens na encosta; atacar o gado no caminho fazia sentido.

— Que pena. — Milo bateu nas costas do irmão simpaticamente. — Mas, e agora? Para onde está indo?

— Para casa. — Lyon massageou o pescoço aliviando a tensão nos ombros. — Prometi ao Alec que voltaria a tempo de ler uma história...

A mudança na atmosfera foi palpável e o jovem cavaleiro nem precisou usar suas habilidades para sentir a hostilidade no ar.

Embora amassem Lenora com todas as forças, Lyon era o único membro da família Dornelles que aceitava a existência de Alec e o encarava como uma criança comum, que merecia amor e cuidado como qualquer outra. Milo, assim como o pai de ambos, culpava o garoto pelas desgraças que recaíram sobre a família, tendo um rancor especial por considerar Alec o causador da morte de Lenora.

Eram sentimentos confusos, muito dolorosos, e por não suportar essa pressão constante Lyon abandonou a casa do pai, levando consigo o pequeno Alec.

Milo se pôs no caminho do irmão, segurando-o pelos ombros.

— Por que não fica? Haverá um banquete hoje! — o rapaz anunciou determinado a manter a conversa, mesmo com o clima azedo entre eles.

— Um banquete? — inclinou a cabeça para o lado, se perguntando por que estariam comemorando daquela vez. — E qual o motivo? Dioros matou uma galinha?

Milo se esforçou para disfarçar o riso.

Andava com o príncipe herdeiro e seguia suas ordens por almejar um posto mais alto na hierarquia do castelo, mas todos sabiam que o filho caçula de Mateo Dornelles era muito mais habilidoso que o infeliz Dioros. Lyon sentiria extremo orgulho pelos talentos do irmão, se não estivesse consciente da arrogância e mesquinhez que esses dons provocavam no espírito de Milo. Sentimentos perigosos de cultivar e nocivos demais quando se enraizavam nas almas das pessoas.

— Não é pela morte de uma galinha. — o rapaz conseguiu dizer depois de alguns minutos. Olhou ao redor e baixou a voz. — O rei vai escolher o próximo Assassino de Princesas.

Lyon olhou para o irmão e sentiu o estômago revirar.

A ideia de matar a princesa, uma garota que ele via ocasionalmente vagando pelos corredores do palácio, era absurda e tremendamente injusta... mas o pior é que ele podia sentir como Milo estava eufórico com a possibilidade de ser ele o escolhido para o serviço.

Um pouco desse mal-estar transpareceu em seu rosto porque o rapaz segurou o irmão pelos ombros, preocupado.

— Lyon? Você está bem?

— Estou. — engoliu em seco e desviou o olhar, oferecendo um fraco sorriso. — Acho que me cansei mais do que havia imaginado.

— Oh... — Milo anuiu compreensivamente. — Bem. Vá para casa. Descanse. Se estiver melhor venha para o banquete. — bateu nas costas do irmão mais uma vez. — Prometo que vou reservar um lugar para você à mesa.

Lyon se despediu do irmão, prometendo que dormiria por algumas horas e comeria um jantar decente naquela noite, e assistiu o irmão se reunir aos colegas de tropa na entrada do galpão de armas. Só então, sentindo o coração gelado, pegou a trilha que levava à saída do castelo.

Como ele consegue fazer isso? Como ele pode olhar para a princesa Astrid e não ver que ela é uma garota, alguém que tem sonhos e ambições e tanto direito de viver quanto qualquer outra pessoa?, o cavaleiro ainda sentia o corpo congelar só de lembrar como o irmão estava encantado pela simples ideia de ser o próximo Assassino.

Tomou um atalho familiar, através das vielas decrépitas que pontilhavam a Cidade Vermelha, e evitou as ruas mais movimentadas. A Praça dos Reis, sempre no limite de sua visão, estava apinhada de mendigos, comerciantes e aleijados implorando por comida. Em breve, antes de as chuvas começarem, o conselheiro ordenaria um novo Expurgo e as ruas seriam banhadas em sangue outra vez.

Estava chegando ao limite da cidade quando avistou o pequeno casebre que dividia com o sobrinho. Uma casa geminada, de janelas pequenas e tintura descascada. Nada extraordinária, mas era quente no inverno e suportável no verão.

Lyon avistou a velha Olma, sua vizinha, sovando as roupas da casa no tanque comunitário. De costas curvadas os cabelos brancos caiam sobre os ombros como uma cortina de teias de aranha. Ao lado dela uma menininha sorridente andava de um lado para o outro. Uma corda vermelha, de cânhamo, prendia o pulso da velha ao tornozelo da menina.

Ninguém sequestraria a criança, não com a velha Olma vigiando.

Lyon acenou para as duas e, embalado pela risada estridente da garotinha, entrou na própria casa. As luzes do vestíbulo estavam acesas e o cheiro de pão morno impregnava o ar. O rapaz tirou as botas e se desfez da pesada armadura, aliviado em deixar a pele respirar e os músculos doloridos relaxarem. Queria tomar um banho e dormir por algumas horas, mas antes queria se certificar de que o sobrinho estava bem.

Encontrou Alec sentado no tapete da sala, brincando com a massa de modelar que Lyon havia comprado de um mercador meses atrás. A massa tinha um cheiro forte, bastante desagradável, e ocasionalmente precisavam mergulhá-la em óleo para torná-la flexível, mas era o brinquedo favorito do garoto.

Alec inclinou a cabeça para o lado e voltou os olhos cegos na direção do tio.

— Tio Donnie? — chamou suavemente.

— Sou eu, garoto. — Lyon confirmou.

Sentou ao lado do sobrinho e o abraçou, absorvendo o cheiro de sabão e bolo em seus cabelos. O menino riu, retribuindo o carinho.

— Edith esteve aqui. Ela fez pães. — avisou.

— Edith é um anjo em forma humana. — o rapaz declarou.

— Os anjos não iam gostar de ser como ela. — Alec torceu o nariz. — Ela estava reclamando dos joanetes de novo.

Lyon sufocou o riso.

A velha Edith morava duas ruas abaixo e, por ser incapaz de ter filhos, atingiu a velhice sem filhos ou netos que pudessem cuidar de seu bem estar. Trabalhou como parteira durante a juventude e, quando suas mãos deixaram de ser finas e ágeis, passou a atuar como lavadeira.

Agora, com quase cinquenta anos de idade, Edith não tinha forças ou agilidade para serviços pesados, mas tinha experiência e temperamento agradável e Lyon confiava nela para cuidar de Alec quando precisava se ausentar por alguns dias.

Isto não significava que Edith estava livre de surtos de rabugice, ou não presenteava Lyon com olhares acusadores, resmungando sobre como a casa precisava de uma mão feminina e como Alec deveria brincar com os outros garotos, ou ao menos interagir com as crianças ao redor tanto quanto possível. Era terrível... mas o pães eram deliciosos.

— Trouxe um presente para você. — Lyon anunciou de repente.

— Um presente? — o menino se agitou. — Sonhei que você me daria um brinquedo macio, algo de abraçar, com olhos de vidro e orelhas compridas! Eu sonhei certo?

O rapaz encarou o sobrinho, maravilhado e afastou a barra da camisa revelando um coelho de pelúcia macio, com olhos de vidro azulado e compridas orelhas cinzentas. Apesar de Alec não conseguir descrever cores ou objetos corretamente sua habilidade de predição era extraordinária.

O menino recebeu o coelho de pelúcia delicadamente, dedos pálidos escovando o tecido, tocando e reverenciando cada pedaço do presente. Ele sorriu e pressionou o rosto contra o boneco.

— Obrigado, tio Donnie! Obrigado! — o menino cantarolou e Lyon sentiu o coração desmanchar.

Ah, garoto... se houvesse uma maneira de manter você seguro... eu faria qualquer coisa para te dar uma vida melhor, pensou tristemente. Levantou devagar, o cansaço assentando cada vez mais em seus ossos, e se virou para informar ao sobrinho que pretendia tomar um banho... foi nesse momento que viu o garoto congelado, olhando para o nada.

— Alec? — chamou preocupado.

Palavras estranhas foram balbuciadas, baixo demais para que pudesse ouvir, e então Alec pulou como se estivesse sentado em brasa.

— Tio! — o garoto agarrou as mãos de Lyon com força. — Tio, eles vão matar a princesa!

Lyon estremeceu e olhou ao redor. As janelas estavam fechadas e as cortinas puxadas. Ninguém os ouviria ou veria. Ajoelhou-se diante do sobrinho e o segurou pelos ombros.

— Milo disse que haverá um banquete para selecionar o Assassino hoje. — Lyon admitiu. — Ele me disse hoje cedo.

Alec anuiu. O rosto estava muito pálido.

— Era o tio Milo. Ele e um homem chamado Kollman vão caçá-la. — respirou fundo. — Mas não podem matá-la, tio! Você tem que salvar ela!

Lyon ameaçou recuar, assustado, mas os olhos cinzentos do garoto o mantiveram onde estava.

— Não posso fazer isso... — murmurou fracamente. — Ir contra a vontade do rei é traição...

— Mas nós precisamos fazer isso, tio. — Alec o segurou com mais força, desesperado. — Por que... eu não sei como, tio... mas ela vai achar o caminho para a Linha Fantasma. Eu vi. Você e eu estávamos com ela. Tio... nós precisamos salvar a princesa!

Lyon sentiu o sangue congelar em suas veias.

Traição era um crime grave, punido com tortura e subsequente execução em praça pública, mas... a esperança, a chance de sair do Reino Vermelho, era tão tentadora, tão absurdamente incrível, que Lyon se viu olhando para o sobrinho e murmurando as palavras que selariam os destinos de ambos:

— Como podemos salvá-la? 


Notas Finais


E chegamos ao fim! O que acharam?

Oh, sim! Apesar de ter me esforçado muito na correção sei que provavelmente deixei algumas coisinhas escaparem — juro que é um complô do universo contra minha paz de espírito —, então, se encontrarem algum erro, por favor, me digam! Vou corrigir rapidinho e serei muito grata, ya?

Abraços!!


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