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História Os Sofrimentos do Jovem Werther - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo Único


Analisar o cenário de uma morte é como ler um romance de Dostoiévski com uma tradução bem porca. Ao mesmo tempo que tudo parece estar no lugar, caminhando para uma resolução, sempre fica aquela dúvida: “como seria a experiência se a tradução estivesse adequada?” Como seria se o rapaz estirado no chão tivesse deixado um bilhete? Como seria se a primeira pessoa a chegar aqui fosse um amigo e não um policial? Esse garoto estaria salvo? 

Em todos os meus anos como repórter, posso assegurar que já li muitos romances mal escritos ou mal traduzidos. Mas esse era de longe o que mais me incomodava. Cada pessoa entrevistada dava uma versão diferente, como reedições de um mesmo livro. 

Os familiares dele me davam a versão de capa dura, bonita e higienizada, “ele era um bom menino”, “nunca teria feito algo do tipo”, “ele não tem culpa, nós somos os culpados”. Sim, de certa forma, vocês são. Os amigos tinham uma versão mais acabada, um livro de sebo cheio de anotações, algumas páginas rasgadas e amareladas, “ele sempre foi desse jeito”, “era só uma questão de tempo até ele explodir”, “ele era louco, até mesmo fazia terapia”. Não, ele nem sempre foi assim. Não era louco, ficou louco, são coisas completamente diferentes.

Já o namorado tinha exatamente a versão mais próxima da qual eu queria, aquela edição especial com algumas anotações revisadas do autor, “isso já estava planejado há tempos, mas nunca achei que ele fosse pôr em prática”, “parecia uma brincadeira, como podia estar falando sério?”. 

Tomura cresceu no abrigo conosco, mas ao contrário de mim, ele manteve contato com Touya mesmo depois que foi adotado pelos Todorokis. Foi estranho reencontrá-lo nessas circunstâncias. Não o via desde que desapareci aos dezessete para fazer faculdade, e ele foi morar com Touya para ajudá-lo com o sonho de ser artista. Parece que eles conseguiram, já que todos os jornais estampavam em suas capas:

 Dabi, o artista revelação por trás do sucesso de vendas ‘league of villains’, é encontrado morto em um quarto de hotel depois de passar meses desaparecido.

 

Como um colecionador ávido, não podia me contentar com essas publicações meia boca, eu precisava da edição certa, a mais rara, a mais completa, a mais crua, aquela que nunca passou por um revisor que nunca foi julgada pelo público. Eu queria o manuscrito do autor.

 Visitei a cena como quem visita um leilão de arte ou uma biblioteca universitária. Uma hora ou outra eu encontraria o exemplar que queria, nem que isso consumisse minha vida. O corpo já havia sido retirado, todas as provas recolhidas, o quarto estava completamente limpo, mas ao mesmo tempo parecia intocado. Meu mandato de busca falso era minha licença poética, eu podia fazer o que quisesse. 

Revirei todas as gavetas, passei de estante em estante, prateleira por prateleira. Uma perda de tempo. Como em museus, as obras mais preciosas ficam escondidas no subsolo, protegidas. Não fiquei surpreso ao encontrar o pergaminho perdido em um fundo falso na gaveta de cuecas. O diário dele estava em minhas mãos. Pobre Edgar, não foi fácil crescer na Rua Moorgue.Tenho que admitir, o pai dele o deixou no jeito certo para mim

Estava encantado pelo o que lia, não porque tinha algo de extraordinário, era um diário comum, de um garoto comum, que teve uma vida comum. Estava encantado porque sabia que eu era o único a conhecer a verdade, tinha a solução do caso em minhas mãos. Todo colecionador de livros é um colecionador de histórias e essa é a minha mais nova aquisição. Guardei o diário em minha bolsa e volte para casa em paz. Minha coleção era particular, apenas para meus olhos e mais ninguém.

 Em meu porão tinha um verdadeiro necrotério de memórias, cada diário de assassino ou suicida era como uma câmara frigorífica cheia de histórias mortas e esquecidas. Fichários e mais fichários de estudos feitos por um hobbie mórbido. Documentos que não deveriam estar em minha posse, espalhados a torto e a direitos em pilhas e mais pilhas de papel. Fitas cassete, cds, dvds e pen drives, cheios com confissões. Lembrava de todas só pelo título e isso me fazia sorrir. 

Qualquer pessoa diria que sou um abutre e não posso discordar, faço a festa com o que há de mais podre. Como um anjo da morte, ganho ao noticiar tragédias. Na minha área, todos já sabem, nada de bom acontece quando Keigo Takami está por perto. Com esse novo diário em mãos, sentia a mesma alegria que um pai sente ao trazer um filho recém nascido para casa. Me sentei em minha cadeira, bem no meio de todas as estantes e comecei a ler o diário em voz alta. Queria apresentar o novo irmãozinho para todos os presentes.  

Sábado - 27 de junho de 2020

Sinto que estou sendo observado. Seguido. Caminhando cada vez mais para uma armadilha. Todos acham que estou ficando louco. Escuto passos na minha porta e na escada de incêndio do lado de fora da janela. Tenho certeza que quem quer que seja já entrou aqui e ficou sentado me vendo dormir… eu estava acordado, mas não tive coragem de me virar para ver quem ou o que estava lá. 

Isso já dura meses. Me escondi nesse hotel porque não quero colocar mais ninguém em perigo. Contei para minha terapeuta o que estava acontecendo, ela não acreditou em mim. Meus amigos acham que sou insano. Disse para o meu namorado que vou matar essa pessoa mesmo que ela já esteja morta. Todos os dias vem me visitar. Todos os dias na mesma hora. Não sei o que quer comigo, não sei porque não me deixa em paz. Já não consigo viver direito desde que isso começou… Amanhã, vou matar essa pessoa e provar de uma vez por todas que não sou insano

    Essa era a última página do diário. A última página antes da minha visita.

— “Não sei o que quer comigo”, isso é hilário, não acham — Perguntei para as estantes. Nunca quis nada com ele, além de brincar. Queria, pela primeira vez na vida, ser o autor de algo, apenas isso. Meses e mais meses dedicados a mim, todas essas páginas escritas sobre mim. 

Eu era o autor e conduzi meu personagem até onde queria, até o melhor dos finais. Viva a tragédia. Me sentei na escrivaninha e comecei a escrever o epílogo. O que acontece depois que o sofrimento do jovem Werther cessa. Como um dossiê, descrevi detalhadamente a nossa última noite. Cada palavra passada para o papel com precisão cirúrgica.

Eu estava vivo, ele morto, tirou a própria vida, pois sabia que eu não o deixaria em paz a menos que me matasse, mas, ao ver meu rosto, não teve coragem de puxar o gatilho. Pobre Touya, seu erro foi ter me reconhecido. 

— Só queria brincar, ficar por perto, quando como éramos pequenos… — Falei para mim mesmo antes de anexar o final da minha obra definitiva e deixar que ela se perdesse em meio às demais. Depois de tantos anos perdidos e de ler essas páginas, me satisfazia saber que tudo começava e terminava com nós dois. Comigo estendendo a mão quando nos conhecemos e com ele me apontando uma arma quando nos despedimos. O ciclo perfeito.



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