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História Os sonhos de Marina - Um conto de Castelobruxo - Capítulo 14


Escrita por:


Notas do Autor


O universo aqui descrito é baseado no mundo criado por JK Rowling com influências de contos folclóricos brasileiros livres de direitos autorais.

Capítulo 14 - Grutas e Estrelas


Naquela noite, Marina dormiu tranquila e animada, novamente sonhou a voz do pai, e de novo, não distinguiu o que ele dizia. Algumas imagens se repetiram, viu-se atrás da cachoeira, coberta de fuligem, depois viu chuva e raios, mas dessa vez também sonhou com toda a sala a aplaudindo após a realização de um difícil encantamento.

Acordou cheia de energia para mais um dia de aula, mas a aula de Transfiguração se mostrou um fiasco. A linha de lã que deveria se enrijecer e se tornar um palito de dente apenas se contorcia quando a garota repetia o feitiço apontando para ela. Mais uma vez, um professor pediu que ela praticasse após a aula, e mesmo com Tami e Jéssica se oferecendo para ajudar, ela se desanimou. Tentou se concentrar na aula de História da Magia, mas o sentimento de incapacidade a visitou várias vezes. Até o professor Faustino a olhou com certa decepção, esperava a mesma Marina participativa do dia anterior, mas dessa vez o riso debochado do grupo que ignorava sua aula se sobressaiu.

Tinha um período livre antes da aula noturna de Astronomia. As meninas queriam ir até a vivência, aproveitar o primeiro período livre do primeiro ano para conhecer o que CasteloBruxo tinha a oferecer, mas ela decidiu ir até seu dormitório. Poderia praticar sozinha, se esforçar mais. Tentou e tentou, mas nada parecia funcionar, quando algo parecia prestes a acontecer, a pena caia ou a linha de lã se enrolava em volta dela mesma. Jéssica foi até lá, ficou quase uma hora com a amiga, mas sem grandes resultados.

À noite, subiram toda a escadaria do castelo, pela primeira vez Marina passou em frente à biblioteca e olhou lá dentro. Ficou completamente encantada com o tamanho do lugar, mas seguiu para a torre de Astronomia, empurrada pelos demais colegas.

Como o restante do castelo, as paredes do lugar eram douradas. Não havia um teto propriamente dito, e vários telescópios e aparelhos de medição podiam ser encontrados por toda a volta. A professora ainda não estava no observatório quando elas chegaram, mas logo uma bruxa alta, magra e de traços indígenas entrou na sala. Vestia uma espécie de vestido de renda branco, os cabelos negros já ganhavam tons grisalhos, e nas mãos carregava um cajado com uma pedra azul na ponta.

- Os céus dão as boas vindas a cada um de vocês. É na imensidão negra acima de nossas cabeças que mergulharemos hoje.

Marina respirou fundo, e mais uma vez tentou se concentrar em algo que não o mau desempenho com feitiços. O céu sempre a cativara, mas dessa vez teve dúvidas se isso seria o bastante para manter seu foco. Ouviu daquela mulher de voz etérea o nome de constelações, planetas e satélites, porém, o que realmente ganhou sua atenção foi quando todas as luzes do observatório se apagaram.

A professora pediu que todos se deitassem no chão, em colchonetes que ela conjurou magicamente, ao olharem para cima, o céu estralado era sem duvida alguma a coisa mais bela que Marina já havia visto. Ele parecia infinito. Uma tela negra com bilhões de respingos cintilantes. Os olhos da garota pareciam brilhar conforme a luz de cada estrela os atingia.

Foi dormir com aquela imagem na cabeça. O infinito estava sobre ela, era pequena demais frente a muitas das coisas ao seu redor. “O tempo vai tomar seu lugar. As coisas acontecem como devem acontecer. Não se cobre demais, apenas aproveite a oportunidade que o universo te deu de ser mais um grão de areia nele” foi o que a voz do pai disse naquela noite.

Na manhã seguinte, viu pela primeira vez uma caipora mais de perto. A aula de Magizoologia foi fantástica. Uma bruxa negra, de grandes cabelos crespos e sorriso fácil falou sobre a divisão entre seres e criaturas, comentou sobre espécies humanoides, animalescas e as consideradas perigosas, e então as apresentou aos seres que recebiam a todos na floresta de CasteloBruxo.

Pelos rubro-negros cobriam todo o corpo daquela criatura. Os olhos brilhavam travessos, as orelhas eram pontudas e os dentes pontiagudos. Havia duas ou três delas lá, e curiosamente pareciam se conter.

- Em uma situação normal, elas já teriam revirado seus cabelos e amarrado vários de vocês nas árvores. São criaturas brincalhonas, e só fazem mal de verdade a quem oferece perigo para a mata. Em respeito a mim, e aos meus vários anos por aqui, elas prometeram se comportar. – Disse a professora enquanto as caiporas cochichavam entre si.

Marina viu que vários alunos se afastaram, com medo, mas ela não. Ria junto com aqueles seres curiosos. E de uma forma inexplicável, sentia-se protegida pela presença delas.

- Reparem nos adereços em seus braços e pernas. Embora vivam em bandos, gostam de mostrar sua individualidade. Vocês nunca vão encontrar duas caiporas exatamente iguais, mas não se enganem por isso. Elas não têm os problemas de ego que nós humanos temos. Jamais irão priorizar interesses individuais ao invés dos interesses do grupo.

Jéssica, Tami e Marina desenharam e identificaram características daqueles seres em seus pergaminhos. Depois da aula, seguiram conversando sobre elas e se perguntaram quais outros seres habitavam aquela mata. Marina se lembrou das lendas do folclore que já havia ouvido. Se todas fossem verdadeiras, criaturas muito perigosas também viviam por ali.

Depois do almoço, foram orientadas a seguir para a cachoeira, lá teriam sua primeira aula de poções. Pela primeira vez repararam, de fato, na beleza daquele lugar. A água vinha forte e respingava no pequeno rio formado por ela. Borboletas coloridas passeavam por entre as folhas que a margeavam, e uma enorme gruta ecoava o som das águas.

Seguiram o caminho instintivo por trás da queda d’água, chegando á uma espécie de caverna de pedra, ampla e limpa. Um calouro ia à frente delas, olhando cada centímetro ao seu redor. Assim que entrou, as garotas o viram correndo de volta, completamente assustado.

- Jacaré! Cuidado! Corram!

Sem entender, as garotas seguiram em frente, e viram a bruxa idosa de cabelos cor de palha, que viram no almoço de boas vindas, balançar uma cauda reptiliana que logo se tornou a parte de trás da sua capa.

- Acho que o amiguinho de vocês se assustou comigo. – Disse ela entre risos. Sua voz era gutural, e arrepiou os cabelos na nuca de Marina. – Por algum motivo as crianças sempre se assustam.

- Desculpe, mas a senhora acabou de se transformar? – Perguntou Tami, curiosa.

- Me transformar? Como assim, criança? – Perguntou ela com uma voz gentil

- Eu tenho certeza que vi uma cauda de jacaré. – Afirmou Jéssica, tentando parecer mais corajosa do que se sentia. – A senhora é uma animago?

- Sou uma feiticeira muito antiga, criança, tão antiga quanto podem imaginar. Não sei dizer se o termo “animago” pode ser aplicado a mim, mas consigo mudar minha forma sim.

E sem nem mais um minuto de espera, se transformou em um enorme jacaré e abriu a bocarra. Um urro gutural encheu a caverna e ecoou, mas um segundo depois, a mesma bruxa idosa e bondosa se materializou na frente delas, deixando uma cauda reptiliana balançar por baixo de sua capa antes de sumir por completo.

- Hahaha, é sempre tão divertido. – Riu ela.

Mesmo assustadas, as garotas se acomodaram em seus lugares, atrás de seus caldeirões, embora escolhessem os mais afastados possíveis daquela mulher. Assim que todos entraram, ela começou a explicar com a mesma voz arrepiante e bondosa, quais as diferenças de poções, infusões e chás.

 Sua voz parecia hipnotizar cada um dos alunos. A própria Marina sentiu-se meio sonolenta, embora o medo continuasse a mantendo alerta.

- Mirinatá. – Disse ela. E pequenas chamas brotaram sob cada um dos caldeirões. – Comecemos nossos preparos. E não nanem, nenéns. Temos muito pela frente.

Marina seguiu a risca as instruções do livro, algumas linhas ela já conhecia de cabeça. Sua poção ficou no exato tom esverdeado lá descrito. Sorriu por dentro e por fora, e tentou ajudar Jéssica a filetar suas pétalas. A professora acenou positivamente ao ver seu preparo.

- Muito bem, criança, muito bem. Vejo que tem um dom nato, mas lembre-se que nada vem sem esforço.

A garota assentiu e continuou ajudando a amiga. Ao fim da aula, ficaram satisfeitas com seus resultados, e com as notas que receberam daquela antiga feiticeira.

- A cada aula teremos notas, mas fiquem tranquilas, hoje foi só um teste. – Disse olhando para a expressão desesperada do garoto que se assustara logo de cara, cuja poção virara uma espécie de geleia, vermelha e grudenta . – Assim não fazemos provas e tudo fica mais divertido. Agora podem ir, o jantar já vai sair. Eu também estou morrendo de fome.

Ela olhou novamente para o mesmo garoto, e Marina teve certeza que viu seus dentes se transformarem em presas crocodilianas.


Notas Finais


Esse capítulo demorou um bocadinho, mas espero que gostem.
Sugestões e críticas são sempre bem vindas.


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