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História Our Time - Capítulo 29


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Notas do Autor


Feriado na ourlandia, de volta a programação normal de toda terça-feira. Cá estamos. Eu senti falta de vocês na semana passada e espero que tenham sentido de mim também, ein, sou ciumenta.

Obrigada pelos favoritos, pelos comentários, cês são 10.

Capítulo 29 - Grenade


Não fazia ideia de quanto tempo perdera só olhando para aquele cartão jogado no chão. Isso era estranho. Aquilo tudo era um pouco estranho... Assassino... Então ainda era tido como um?

Apertou os dedos unidos sobre o colo e passou a língua vagarosamente entre os lábios. Quase não piscava. Aquele cartão branco estava ali, jogado em seu tapete e, se pensasse muito sobre, quase podia ouvir a voz de Yoonjin repetindo aquelas mesmas palavras. Aquelas palavras. Por que seu tom rígido ainda estava ali? Por que ela ainda falava como naqueles dias em que só tinham um ao outro? Haviam se passado tantos anos...

Ainda era tido como um assassino?

Era um assassino?

Aquela imagem era borrada em sua mente. Não conseguia se lembrar de nada além das chamas grandes, da cor forte pintando, lambendo todo aquele cômodo. Viu como a madeira escura dos novos armários era engolida pelo laranja brilhante. Era rápido, era quente, era colorido. Ouviu os estalos da madeira rinchando e também ouviu o grito horrorizado da mulher de meia idade, ao entrar na cozinha, vendo tudo em chamas.

Ouvia claramente o grito de horror no meio do relinchar da madeira. Ouvia, mas nada conseguia fazer além de olhar. Eram essas suas lembranças e nunca pensou muito sobre isso. Quando fugiu naquela noite, prometeu para si mesmo que não pensaria mais naquilo, que viveria como outra pessoa.

Em outro lugar seria outra pessoa, e se não abrisse a boca para mais ninguém, então não teria motivos para machucar ninguém e ninguém lhe machucar. Era um monstro, era ruim, por isso, quanto mais distante, melhor. Ninguém gritaria consigo e também não gritaria com ninguém.

E era isso.

Piscou os olhos devagar. Isso era... engraçado. Pensar nisso era engraçado. Em uma noite teve que decidir aprender a estufar o peito, fechar a cara e fazer o que pudesse para se manter a salvo. Não tinha mais ninguém, então isso significava que não machucaria ninguém e ninguém lhe machucaria, não é?

Não precisava ter culpa de nada. Não queria ser um assassino.

— Hey. — Acordou de seus devaneios assim que ouviu a voz rouca se aproximando. Respirou fundo. As chamas haviam sumido... — Quer sair um pouco? Podemos ir ao rio Han, dar uma andada. — Ele ofereceu gentil, sentando-se no chão, entre suas pernas. Encarou-o, vendo ali uma doçura que conflitava com seus pensamentos. — Tenho algumas horas antes de precisar sair.

Não respondeu. Sua face continuou estóica, voltando à sombra daquela personalidade fechada que há muito havia suavizado. Taehyung não via mais aquele brilho no olhar do namorado. Ele podia ser rabugento, mas conseguia sentir algo bom nele. Mas ali não sentiu mais. Isso o preocupou. Yoongi era quieto, de fato, porém, havia um silêncio diferente nele...

Aquele silêncio que preocupava todos que o conheciam de verdade.

Acariciou-lhe a coxa, passando demoradamente os dedos no jeans escuro, sem tirar a atenção do rosto sem expressão. Ele pouco olhava para outra coisa que não fosse o cartão jogado no chão. Deveria pegá-lo?! Não. Melhor não. Aquela situação precisava de cautela. Iam devagar, no tempo dele.

Apoiou os braços nos joelhos magros, deitando ali, mas sem desfocar o olhar. Queria que ele soubesse que estava ali. Não ia embora, não importa o que falassem.

Ficaram um tempo naquele silêncio desconfortável. Os olhos pequenos do músico piscando devagar e sua respiração pesada ressoando. Ele parecia um boneco.

— Sabe qual foi meu primeiro diagnóstico psiquiátrico? — Perguntou do nada, a voz baixa saindo mais grossa que o normal. Os olhos nem piscaram ou se moveram. Taehyung ficou mudo.

Aquilo era um assunto em que jamais tocaram, era uma coisa que Yoongi não gostava de discutir. Nunca soube muito bem sobre porque aparentemente apenas Namjoon e Seokjin sabiam daquilo com detalhes. Ainda assim, nem seu pai sabia sobre tudo, seu outro pai acabava sendo o mais responsável por todo aquele assunto, por ter conhecido o rapper nos dias mais difíceis.

Ele não gostava de falar, então respeitava. Mas sabia que havia alguns problemas, certamente havia, mas quem não tinha problemas? Fala sério. Nada, nada mesmo, faria-o desistir do músico. Aliás, nenhum diagnóstico o provaria o contrário do que acreditava. O homem que amava era incrível. Ele era bom, ele era lindo e, mais do que isso tudo, ele admitia que tinha problemas e procurava se cuidar eventualmente.

Foda-se o diagnóstico, também tinha um extenso e jamais deixou isso o definir. Também não deixaria definir o mais velho!

— Me chamaram de sociopata. — Engoliu em seco, o menor, erguendo as sobrancelhas, respirando fundo, parecendo debochar daquilo. — Perguntaram o porquê eu fiz aquilo... — Pensou por um momento, revivendo aquelas memórias velhas. Com o silêncio, continuou. — mas eu não soube responder. — Riu fraco, o som saindo nasal e curto. Aquilo era ridículo.

Sua adoção foi um pouco caótica e admirava muito Namjoon por não ter desistido. Disso conseguia se lembrar um pouco mais. Conseguia se lembrar de seu avô querendo avançar para, provavelmente, deixar sua pele em carne viva por conta dos lanhos de seu cinto de couro. Lembrava-se de Namjoon entrar na frente e o impedir, dizendo que isso não ia acontecer. Lembrava-se também de não se mover, de não falar nada – nem quando ele gritou em alto e bom som que ele era um pequeno demônio, um assassino.

Lembrava-se também de seus tios e os olhares rudes... lembrava-se de não conseguir desviar dos olhos deles, também.

— Ainda não sabe? — O azulado se arriscou a entrar naquela conversa, mesmo um tanto hesitante de incomodar o rapper.

Mas ele negou. Fraco, lento, quase como se aquilo fosse ensaiado. Sabia responder? ...Isso era uma dúvida que jamais parou para pensar em como solucionar. Não precisou pensar mais nisso depois que foi morar com o pai. Acatou o que ele disse na época:

"Escute, Yoongi-ya, eu não ligo para o que você fez ou deixou de fazer ontem. Mas agora somos nós dois, ok? Somos parceiros, amigos, então esqueça tudo e não repita mais. Eu acredito em você e você não precisa acreditar em mim agora se não quiser, mas me ouça. Vamos fazer essa parceria dar certo, ok? Sem memórias velhas, precisamos de espaço para criar novas!"

Ele estava de joelhos à sua frente, logo após o jantar, disse tudo aquilo olhando em seus olhos... Não era igual aos seus tios. Não havia coisa ruim ali. Não respondeu, mas também não precisou. Aquele altão riu grande e lhe bagunçou o cabelo, dizendo que lavaria a louça e ele poderia ver TV.

Ele... poderia ver TV. Sozinho. Ficou hesitante em sentar no sofá branquinho e mais ainda em pegar o controle. Seu estômago embrulhou e ficou um bom tempo em pé, analisando o cômodo pequeno, a TV um tanto antiga. Ele... podia mexer ali? Olhou para trás e viu o policial lavar a louça, assobiando alguma melodia. Não o estava vigiando, não era um teste, certo? Ele... podia... assistir.

Limpou o short que vestia, mesmo que fosse novo e limpo. Limpou o corpo todo e ainda verificou se havia algo para sujar. Sentou na pontinha e tremulou para pegar o controle. Seus dedos estavam frios e suados. Era só pegar, não é? Piscou os olhos rapidamente e engoliu o bolo que havia se formado em sua garganta.

Visualizou o cinto grosso de couro lhe acertando a mão quando tentava pegar algo e rapidamente afastou a mão, guardando-a em seu colo. Okay, certo. Respirou fundo e olhou para a cozinha. Namjoon ainda estava lá, não havia cinto.

O controle ainda estava ali...

— Ei, pirralho, você gosta de basquete? — Perguntou alto, um pouco escandaloso para seu gosto. Não respondeu, mas estava encarando as costas largas do homem. — Está passando um jogo foda, Celtics contra Nets. — E, de repente, um barulho de algo caindo. Talvez um copo? — Porra! — Ele ganiu e acabou sorrindo pequeno, achando aquilo engraçado. — Namjoon, burro, desastrado. — O oficial xingou em terceira pessoa e isso só lhe deu motivo de rir fraquinho novamente.

Não entendeu nada do que ele havia falado sobre basquete, não sabia nem que idioma era aquele que ele tava falando. Era nome de time? Não era coreano. Ficou quieto, observando o mais velho terminando aquilo antes de vir para o sofá e se jogar despreocupado ao seu lado, pegando o controle e ligando a TV. Imediatamente encarou aquilo e seus olhos brilharam.

Era bonito... colorido... ficou em silêncio apenas observando a quadra, aqueles homens correndo com bola na mão. O idioma não era coreano mesmo, por isso não entendia bulhufas e se assustava sempre que Namjoon gritava para "passar a bola", mas acabou descobrindo depois que amava basquete.

Amava basquete e, eventualmente, passou a amar assistir jogos com Kim Namjoon. Passou a gostar de gritar junto para "passar a bola" e descobriu que eram de times opostos, afinal, Lakers sempre seria melhor que os Rockets.

Voltou a si quando parou para prestar atenção nos dedos longos do namorado lhe fazendo carinho nas coxas, subindo para a cintura. Sorriu um pouco mais tranquilo após aquele devaneio.

— Não tive tempo para pensar nisso. — Foi honesto, porque obedeceu ao pedido do pai. Esqueceu para ser feliz. E foi. — Eu sei que não queria machucar ninguém, não queria matar ninguém, embora eles sim. — Acabou rindo um pouco mais, dessa vez amargo. O outro não esboçou a mesma reação. — Lembro de odiar os armários e me perguntar o por quê de não poder tocar neles. Eram melhores que eu? — Tombou um pouco a cabeça para o lado, observando o cartão ao longe. A imagem das chamas lambendo a madeira escura, em sua mente. — Minha avó defendeu os armários, ninguém podia tocar neles, mas — Fez um biquinho pensativo, nem percebendo que seus olhos ganhavam um tom avermelhado brilhoso pelas lágrimas empoçando. — ela não fazia o mesmo por mim. — Sussurrou, rindo fraco no final.

Sentiu um aperto em seu joelho, sabia que Taehyung estava ouvindo tudo aquilo e não sabia ao certo o que ele estava sentindo, não tinha como saber, mas havia aquela ardência em seu peito... havia aquilo... aquele peso. Aquele nó em sua garganta que jamais descia, que lhe roubava o ar sempre que alguém novo se aproximava. Sempre que alguém tentava tocar em seu corpo.

Havia aquela necessidade de jogar todos para longe e ficar escondido. Um quarto escuro, um espaço pequeno onde só coubesse seu corpo. Era o suficiente. Ninguém ia se machucar, ninguém ia sentir...

— Então eu acabei com eles. — Admitiu com a voz trêmula, mesmo que seu corpo continuasse parado e seu olhar perdido. Rolou algumas lágrimas pela bochecha pálida. — Queimei tudo.

— Sua avó estava na cozinha? — O azulado perguntou, sem saber conter a língua curiosa para saber mais sobre aquela história.

O músico negou.

— Ela estava na sala dormindo. — Piscou os olhos rapidamente, fazendo mais lágrimas rolarem. — Não lembro como ela descobriu, só — Gesticulou pesadamente, virando o olhar para o mais alto. — dos gritos de socorro e ela tentando apagar o fogo com a água da pia, mas não adiantou. Óbvio que não. — Rolou os olhos e jogou o corpo para trás, descansando no estofado macio. Olhou para o teto alto, o lustre enfeitando. — Eu não conseguia me mover.

— Ficou assustado? — Continuou fazendo carinho nas coxas do outro que negou após alguns segundos. Lambeu os lábios e ficou sem saber o que falar.

Tudo aquilo era novo e ouvir a história de Yoongi era um pouco... pesado, embora soubesse que tinha que acontecer. Aquilo tinha que vir à tona. Ele precisava falar, colocar para fora ou então morreria engasgado. Estava ali para ouvir e para dizer no final que estava tudo bem. Acabou, passou.

Ele não precisava mais pensar naquilo, porque ele já não era mais aquela criança. Ele se tornou um adulto diferente, alguém melhor, que fazia diferença na vida de tantas pessoas com suas músicas...

Aliás, teve uma ideia, mas, antes que pudesse pensar mais sobre, ele respondeu:

— Não senti nada. — Aquela honestidade do mais velho sempre foi algo forte, um pouco assustadora, também.

Analisou o rosto dele, o modo como as lágrimas desciam, mas ele ainda permanecia estóico, quando não rindo de maneira irônica ou amarga. Respirou fundo. Pelo que havia entendido, a infância de Yoongi havia sido difícil enquanto estava com sua família biológica. Ele sofria abuso psicológico, era espancado e ainda tinha que lidar com seus avós lhe privando de comida ou outras coisas de que naturalmente uma criança precisava.

Acabou abaixando a cabeça e se controlando para não chorar. Não ia chorar. Imaginar seu Yoongi, tão pequeno, com fome e sofrendo maus tratos por conta disso, o enfurecia. Era apenas uma criança, ele era só uma criança, merda. Encostou a testa no joelho do músico e soluçou baixo. Merda... não... não podia chorar, mas quando percebeu estava jogado com o rosto no colo do menor, abraçando ali e chorando.

Como alguém podia ser tão cruel? Pensou em Moon, pensou em si mesmo... foi uma criança problemática, tinha muitos problemas de saúde e, droga, imagina se caísse nas mãos de carrascos como aqueles? Talvez, em sua primeira crise de epilepsia, deixariam-no engasgar com sua própria saliva e morrer. Não duvidava! Não duvidava mesmo.

Porra. Estava tão agradecido pela vida de seus pais, de seus tios, seus avós... merda, merda, merda. Queria tanto se jogar nos braços de Namjoon, Seokjin, lhes beijar e dizer obrigado. Obrigado por tudo, por existirem, pelo amor, pela vida, pela comida, pela educação, pela respiração que eles davam todos os dias...

Queria agradecer, queria dizer que os amava e que nunca, nunca mesmo, queria alguém além deles. Não importa quem fosse seu pai, sua mãe; ele queria seus pais. Aqueles dois homens.

Estava tão grato por sua vida e sentindo tanto pela infância de seu namorado...

O rapper respirou fundo e olhou para baixo, vendo aquele garoto chorão molhando suas calças com as lágrimas. Bobo. Riu fraco e esfregou as mãos no rosto, secando as bochechas.

— Pare de chorar, criança. — Pediu rouco pelo choro, mas o abraço só se intensificou. Negou. Deu-lhe uns tapinhas no braço. — Eu estou-...

— Eu faço tudo por você. — Ele disse em soluços grandes, apertando seu corpo com um desespero quase palpável. Observou aquilo. — Eu passaria por toda essa dor se eu pudesse estar ao seu lado. — E mais soluços. Negou, olhando com carinho para aquele enorme chorão. — Eu queria estar contigo nesse momento, eu queria-...

— Você está aqui agora. — Com jeitinho, puxou o rosto dele, tirando de suas coxas, fazendo-o olhar para cima. Queria que ele enxergasse seus olhos. — Não precisa se queimar por minha causa, se machucar no meu lugar. — Passou os polegares na pele macia e corada, vendo-o soluçar. — Eu, provavelmente, se visse você em uma situação dessas, morreria mil vezes mais. Eu sentiria tudo. — Suas últimas palavras soaram fracas, quase sem som. Engoliu em seco, encarando os olhos grandes do mais novo.

— Você não é um sociopata! — Afirmou, o azulado, tentando engolir o choro, o cabelo ondulado colando no rosto. Negou repetidas vezes e o rapper riu fraco.

Oh, então aquele espertalhão estava virando psiquiatra agora? Olhou-o com diversão.

— E por quê?

— Porque você me ama. — Respondeu sem hesitar, soluçando, choroso. Viu o rosto do moreno se tornar mais relaxado, doce, quase. — Porque preferiu se machucar pra me deixar livre. — Seu choro se intensificou, mas pouco ligou. — Esteve disposto a se matar por dentro, pra não machucar nossos pais, nossa família. Você preferia morrer ao fazer isso, eu sei disso. — E, sem perceber, o músico voltou a chorar, mas dessa vez seus lábios tremeram e seu coração apertou. — Pra você ser isso, então não pode ter empatia, certo? — Tentou secar suas próprias lagrimas, o garoto, mas chorou um pouco mais enquanto se levantava. — Mas você ficou amigo de Kim Jiwon, mesmo ele sendo um fodido, você se preocupa com seus fãs, ainda procura saber do Jungkook hyung mesmo ele tendo sido um babaca com você. — Seu corpo tremulou um pouco, mas se manteve de pé. — Você sempre pensa nos outros antes de si mesmo, você-...

— Eu tenho medo de ser ruim. — Assumiu o mais velho, permitindo-se ser frágil, mostrar seu lado frágil. O Yoongi que se perdeu naquele dia das chamas. — Eu não quero machucar ninguém, eu nunca quis...

— Eu acredito! — Foi para o sofá, sentando ao lado do namorado e lhe segurando seu rosto molhado. — Eu acredito, meu amor, eu acredito em você. — Tentou sorrir para ele, mas não conseguiu. Não conseguia sorrir com Yoongi tão quebrado em seus braços. — Mas você também precisa acreditar em você, então o mundo todo também vai acreditar. — Fungou, acariciando a pele molhada do músico que fechou os olhos e se permitiu chorar com força, deixando aquele peso sair de suas costas.

O azulado o acolheu em seu corpo, deixando-o chorar em seu peito, guardando-o naquele abraço forte, protetor. Ele precisava entender que ninguém o machucaria, ninguém tocaria em seu corpo, ninguém falaria coisas ruins. Ninguém. Beijou-lhe a têmpora e chorou junto, porque de alguma forma sentia aquela dor, mesmo não sabendo da dimensão da ferida que haviam deixado naquele homem.

Ele tinha trinta anos, mas aquilo ainda doía. Isso era tão injusto. Acariciou-lhe as costas, a nuca, o cabelo curto... Quis acalentar o namorado, mas estava tão quebrado quanto. O choro dele estava tão dolorido e intenso que não sabia o que fazer, a não ser deixá-lo apertar seu corpo e se desmanchar ali, jogando para fora toda aquela bagagem enterrada por anos. Não havia mais a máscara estóica, não havia mais o "eu não dou a mínima"... Não havia...

Não havia mais aquele nó na garganta. Ele estava sendo cuspido no meio dos soluços, das lágrimas que molhavam a roupa do artista plástico. Não havia mais peso porque estava derretendo em lágrimas quentes e Taehyung estava colhendo todas elas. Nunca se esqueceria daquilo.

Não ia esquecer, porque ia fazer o possível para transformar cada lágrima derramada em sorriso. Milhões deles. Não era opção, era meta.

E sempre foi bom em cumprir metas, ainda mais se Yoongi estivesse envolvido!

...

Viajar para Busan, no meio da semana e ainda dirigindo foi seu meio encontrado para fugir um pouco da realidade e pensar nos últimos dias. Não parecia lá uma ótima ideia – porque teria que dirigir por algum tempo, sem parar, mas ainda assim estava ok com isso. Poderia lidar.

Estava afastado, por ora, de suas lutas competitivas, isso era frustrante. Seu treinador o puniu com alguns meses de detenção por ter brigado. Obviamente foi obrigado a contar para ele todo o problema com seu irmão, escondendo os motivos reais, apenas disse que se desentenderam.

Foi o bastante para ser vetado. Fácil assim.

Bufou enquanto olhava sob as lentes escuras do óculos redondo, os números da máquina de gasolina subindo enquanto abastecia o carro. Por que demorava tanto? Seu corpo agitado queria acabar com aquilo logo e ir embora logo de uma vez. Merda.

Iria para Busan porque seus alunos do centro comunitário teriam um torneio interestadual e ele precisava ver se eles estavam realmente bons o suficiente.

O que era provável, porque ele nunca foi alguém realmente fácil para aquelas crianças. Extraía o melhor delas, sabia que elas poderiam ser bem maiores do que eram.

Ouviu o ronco de um motor e logo uma moto preta lustrosa, enorme, encostou à sua frente. Riu sozinho e negou, abaixando a cabeça, deixando que a franja longa cobrisse as lentes dos óculos. Focou ali, no tanque de seu carro.

Ou melhor, tentou, mas teve que espiar entre o cabelo o modo que o mais novo saía do veículo e tirava o capacete de forma apressada. Ele estava emburrado, porque tirou o celular do bolso e atendeu com uma cara...

— Você tá achando que eu sou uma espécie de uber? — Ele gritou irritado, jogando o capacete em cima do banco, pouco ligando para o cabelo jogado no rosto. — Não me importa realmente se o pirralho do Jaehyun precisa ir pagar as contas dele que estão atrasadas, o que eu tenho a ver com isso? — Apertou o celular no ouvido com o ombro vestido com aquela jaqueta de couro que ele usava muito. Sem muito jeito (e paciência), ele foi até a máquina, já puxando algum dinheiro do outro bolso. Ele estava todo enrolado, teve que rir. — Foda-se, querido Kang Taeyong. — Quase soletrou, mesmo que estivesse quase gritando. — Mas que porra, essa máquina não tá funcionando? — Murmurou dando um tapa na lateral desta, bufando.

Teve que rir mais contido, focando no seu próprio a fazer. Sua máquina deu uma espécie de apito, avisando que já havia acabado, então retirou o ejetor de combustível, guardando e fechando seu tanque. Estava pronto. Limpou as mãos na calça de moletom e passou a mão no cabelo, tirando da cara, esquecendo por um momento que Choi Yugyeom estava logo à frente.

Provavelmente amaldiçoando a máquina de gasolina.

— Olha aqui, seu emo metidinho,-... — Chamou um pouco mais alto, parecendo se enfurecer com algo, atraindo sua atenção (já que só tinha os dois ali no momento) imediatamente. Mas parou de falar no mesmo momento que virou e deu de cara consigo.

Ele calou a boca, sim, mas seus olhos estavam praticamente gritando todos os xingamentos que sua garganta queria gritar. Sabia disso. Aquele pirralho era expressivo. Forçou um sorriso e acenou, mesmo sabendo que ia ser ignorado.

E foi.

Riu consigo mesmo e resolveu terminar seu itinerário. Foi até a loja de conveniência, precisava de algumas coisas antes de colocar o pé na estrada. Pegou uma cestinha e saiu jogando dentro alguns biscoitos, certa quantidade reduzida de doce – estava tentando evitar sua hiperatividade, sem ter que ficar dependendo tanto assim de remédios. Pegou água e uma garrafinha de isotônico.

Ouviu a porta ser aberta novamente e, mais uma vez, aquela voz estridente soando.

— A máquina cinco não está funcionando? — Perguntou impaciente, como costumeiro. Era um verdadeiro coreano de Seul.

Sua definição clara de: "rápido, rápido, rápido"!

— Não, senhor. Temos três máquinas quebradas. — Explicou, a garota do balcão, com uma voz entediada. Jungkook pegou um pacote de Pringles e, ok, estava pronto.

Foi para o caixa. Sorriu educadamente para a menina que não tinha muito mais que dezessete anos e deixou a cestinha em cima do balcão. Sentiu o olhar julgador do Choi, mas procurou não responder àquilo. Estava evitando conflitos.

E ficou aquele silêncio esquisito, que só era quebrado pela máquina que estava batendo o preço dos produtos. Por que ele ainda estava ali?

— Pode usar a minha, Choi Yugyeom. — Disse educadamente, pegando a carteira do bolso para pagar sua conta. — Já estou saindo, de todo modo. — Indiferente, começou a procurar o cartão de crédito naquele objeto que mais parecia um sumidouro.

Os olhos pequenos e um tanto maquiados do rapaz de jaqueta de couro com spikes, focaram ali, algo chamou sua atenção. Havia uma foto presa onde era para estar algum cartão ou algo assim. Havia três garotos nela, eram crianças e estavam dormindo juntos em uma cama, embolados em uma confusão de cobertor, pernas e braços.

Acabou rindo.

Sua visão foi interrompida assim que ele achou o que queria e fechou a carteira. Piscou os olhos rapidamente e voltou a sua carranca habitual, suspirando e assentindo. Não tinha muito o que fazer.

— Débito, por favor. — Educadamente, ele entregou o cartão para a garota que leu o nome impresso ali e acabou se assustando.

— Oh. — De repente, seu tédio passou na hora. Olhou assustada para o lutador. — Você é irmão de Agust D, não é? Kim Jungkook. — Apontou para o rapaz de óculos escuros e cabelo grande.

Yugyeom, com uma expressão altamente interessada no rosto, cruzou os braços sobre o dorso e encarou o mais baixo, querendo ver o que ele ia responder. Ficou analisando aquele rosto maldito, perfeito, o modo como ele sorriu relaxado, mesmo sem mostrar os dentes.

Surpreendeu-se um pouco.

— Sim. — Respondeu sem pensar muito, parecendo tranquilo quanto à resposta.

De repente, a atendente pareceu ficar mais eufórica e isso atraiu a atenção – e o olhar julgador – do dançarino. Mas que merda? Ela deu um pulo da cadeira e puxou o celular com uma capinha exageradamente cor-de-rosa cheia de pedrinhas brilhantes. Novamente: mas que merda?

E a compra dele? Ela não ia debitar? Precisava abastecer a merda de sua moto.

— Pode tirar uma foto comigo, por favor, oppa? — Pediu com aqueles olhos brilhando e um sorriso exagerado na boca. Mirou a atenção pra Jungkook e viu-o dar novamente aquele sorriso pequeno.

— Tudo bem.

Agora ele queria ser educado? Oh, não era ele que não queria mais contato com Yoongi? Agora ele era irmão dele? Me poupe. Bufou e negou, impaciente, batendo o pé no chão. Queria sair logo dali, tinha coisas a fazer. Ainda precisava ir ver seus primos, seus tios, ensaiar e ainda tinha uma audição. Será que aquele idiota ia demorar muito com o fanservice?

Observou-os posando para foto, ela fazendo aquela pose comum e ele imitando, mas sem tirar os óculos escuros. Pff. Idiota estiloso e bonito.

— Obrigada, oppa. — Ela curvou o corpo assim que terminaram, feliz. O Kim negou, mostrando que não havia sido nada. — O irmão do oppa é realmente muito legal, gosto muito dele. — Apertou o celular nas mãos, parecendo muito sonhadora de repente. — Tão bonito. — Pensou alto e o mais alto quis rir, mas não o fez.

Nunca foi fã de algo propriamente dito, era mais de admirar algumas bandas, alguns cantores... Mesmo que seu pai Youngjae fosse totalmente sasaeng do Super Junior – o que envergonhava seu pai Jaebum e ele porque, se tinha show, todos tinham que ir. Era "programa em família". Sabia a discografia todinha, e nem era fã.

Às vezes se pegava cantando 2YA2YAO! sozinho e depois batia na própria testa, lembrando-se do próprio pai cantando aquilo no karaokê, em casa, no carro... na vida...

Acreditam que, quando tinha nove anos de idade, foi arrastado para um fansign e seu pai o usou para ganhar a atenção de Yesung? O tal "bias" dele? Fala sério... era apenas uma moeda de troca.

Sentia-se aproveitado.

— Vai dar a comida de graça pra ele, também? — Provocou a adolescente que tomou um susto com a rispidez daquele cara alto com olhar firme.

— Desculpe. — Sussurrou sem entender bem a ignorância, curvando o corpo devagar, vendo-o rolar os olhos de maneira impaciente.

Jungkook riu um pouco, mas ficou na sua. Pagou sua compra e se despediu formalmente antes de sair dali com o garoto em sua cola. Era estranho não terem assunto – ou melhor, não terem jeito para conversarem. Sempre foram ok um com o outro, brincavam tanto, juntavam-se para irritar seu padrinho... era divertido, rendia boas risadas. Era muito desconcertante mal se olharem agora.

Abriu a porta do motorista e já ia entrando, jogando suas compras no banco ao lado, pronto para sair. Não desrespeitaria o espaço pessoal do mais novo.

Porém.

— Bonita foto. — Ele disse do nada, encostado na bomba de gasolina, encarando-o.

Franziu o cenho sem entender. Que foto?

— A selca?

Yugyeom rolou os olhos. Como podia ser tão lerdo? Era mesmo irmão de Kim Taehyung, pela paciência do Buda sagrado.

— Na sua carteira. — Explicou e viu o rosto do lutador, clarear. Forçou um sorriso e abaixou a cabeça, encarando os próprios pés vestidos com all star.

— Hum. — Concordou sem saber muito o que falar. Lambeu os lábios e pensou um pouco.

Era a primeira vez que se encontravam frente à frente e não levava sermão ou quase um soco, então o que deveria fazer ou falar? Não sabia ao certo. Coçou a cabeça e olhou para o próprio volante, suspirando devagarzinho. O clima estava pesado, esquisito. Queria que aquilo passasse, estava sufocando-o. Era tão estranho.

Negou consigo mesmo. Era uma piada mesmo. Uma piada de muito mau gosto do destino.

— Escuta, — Iniciou depois de alguns segundos, apertando os dedos no volante, atraindo o olhar receoso do Choi. — me desculpe por aquele dia. — Virou a cabeça para o lado, encarando os olhos maquiados, aquela pintinha próxima. — Eu realmente sinto muito por aquele dia, não queria ofender você!

— Queria ofender seu pai? — Retrucou debochado.

— Não? — Franziu o cenho sem entender. Mas que porra?

O garoto riu e negou, parecendo realmente estar curtindo uma piada. Mas será possível que não podiam conversar sem parar em um terreno hostil?

— Foi o que pareceu... — Cantarolou irônico.

Bufou querendo tacar a cabeça no volante para ver se aquela porra parava de vez. Que situação merda.

— De todo modo, — Yugyeom reiniciou seu argumento, desencostando de onde estava, rodando as chaves da moto em seu dedo indicador. — não é pra mim que você deve pedir desculpas. — Deu a dica, batendo uma continência relaxada antes de sair, indo para a moto à frente.

O mais velho respirou fundo e ficou analisando aquilo. É... devia alguns pedidos de desculpa por aí, sabia disso, mas... como? Ainda não sabia como fazê-lo. Estava se sentindo tão inútil e pesado. Todo encontro com aquele garoto era mais um peso que se acumulava em suas costas. Fechou a porta e ligou o carro. Independentemente disso, tinha que fazer algo, sabia que sim.

Olhou para baixo, perto da marcha do carro, junto com algumas moedas, seu celular, havia uma foto polaroid. Acabou rindo fraco. Sabia que foto era aquela... foi do dia que viajaram em família para a casa de campo de seu avô. Foi difícil tirar, mas saiu todo mundo. Foi um dos poucos momentos em que estavam todos juntos, literalmente todos.

E foi um dos melhores dias de sua vida...

Suspirou, dando a partida no carro. Precisava se mover, precisava sair do lugar.

Sentia falta daquilo, daquela união. Por isso precisava se mover, mas como?

...

Ficou um tanto confuso e com o coração acelerado quando recebeu aquela mensagem de: "podemos nos encontrar?"

Inicialmente não soube bem o que responder, ficou nervoso, mas aceitou. Podia ainda não saber o que falar ou pensar, mas sabia que precisava muito ver o irmão, abraçá-lo e sentir que ele estava bem. Bem de verdade. O resto vinha depois, não era tão importante assim.

Jungkook havia viajado, então seu apartamento ficou chato e silencioso. Morar sozinho era um pouco... hum... sei lá. Só sabia que não gostava tanto assim. Pelo menos ali, na Coreia, quando podia muito bem ficar perto de quem amava.

Enfim. Marcaram de se encontrar ao cair da noite, em uma cafeteria mais reservada.

Moveu os dedos impacientemente sobre o tampo da mesa, seu café estava esfriando e certamente não ligava para isso. Olhou para o lado, vendo o andar de baixo, vigiando a porta. Ele viria mesmo? Estava um pouco inseguro. Voltou a encarar seus dedos, seus anéis. O que falaria? Com todo aquele tempo e espaço que estipulou entre ambos, ainda não sabia o que falar.

Tanto com Taehyung, quanto com Yoongi.

Sentia uma falta absurda deles, eram seus irmãos, seus amigos mais próximos, mas ainda estava preso em um limbo onde seus sentimentos estavam embaralhados. Não conseguia entender o que eles estavam pensando – ou sentindo –, ainda parecia uma piada, mas não era como se eles precisassem de sua autorização ou "bênção" para algo. Eles eram adultos e independentes, o resto era apenas o resto.

Inclusive sua opinião.

Ouviu a porta abrir e olhou imediatamente para baixo, vendo o garoto de óculos de grau, moletom grande e short. Riu fraco. Por que ele estava parecendo um garoto pré-escolar? Havia avisado que estaria no andar de cima, por ser mais reservado, então o olhar felino do mais novo subiu direto para seu rosto. Acabou sorrindo... droga, sorriu mesmo.

Um sorriso quase aliviado se abriu em seus lábios. Seu azulzinho estava ali, finalmente. Seria muito piegas dizer que seu coração estava acelerado? Oh.

— Hyung. — Virou para frente assim que Taehyung chegou, chamando daquela maneira hesitante. Levantou-se na hora. — Me desculpe pela demora. — Ele riu sem graça e coçou a nuca, curvando um pouco o corpo. — Precisei levar o Tannie para o Petshop antes e o uber não estava disposto a me esperar, tive que arrumar confusão. — Murmurou parecendo irritado, teve que rir.

Ele sempre era azarado. Incrível. Riu daquilo, óbvio que riu, negando em seguida. Estava acostumado com aquelas coisas, ainda mais que seu irmão caçula era sempre o atrasado de todos os encontros. Não importa quando ou onde. Ele sempre atrasava.

Por que ele estava explicando daquela vez? Não era um estranho...

— Você é azarado, isso eu sempre soube. — Suspirou voltando a se sentar assim que ele fez o mesmo.

— Nu-uh. — Balançou o dedo indicador para os lados, negando. — Isso se chama inferno astral, já ouviu falar? — Apoiou os braços na mesa, encarando o rosto fofo do mais velho que franziu o cenho confuso, estranhando aquele papo. — Temos que fazer seu mapa astral. — Estalou a língua no céu da boca, ainda encarando o rosto confuso de Jimin.

Que, inclusive, tossiu forçadamente, fingindo estar escapando daquele assunto moderno demais para sua cabeça lenta. Seu irmão sempre tinha aquele interesse esquisito por coisas aleatórias, não estranhava que ele viesse com esse papo de signos uma hora ou outra. Não ligava.

Contanto que ele não virasse hippie e fugisse em uma kombi laranja... tudo bem.

— Esquisito. — Forçou um sorriso e o azulado fez uma careta, jogando-se para trás e escorando na cadeira de madeira.

Riram um pouco daquilo, mas logo o silêncio voltou e o clima pesou. Não se viam ou falavam há dias, tudo estava meio... desconfortável. Por um lado, o mais novo tinha receio de falar qualquer coisa e piorar tudo, por outro, o mais velho ainda não sabia direito como agir, o que dizer. Seria hipócrita se dissesse que não se incomodava ou que aquilo estava ok para si.

Porque, não. Era muito estranho e duvidava um pouco sobre o dia que ficaria normal aos seus olhos, mas, mais uma vez, não dependia de sua opinião. O mínimo que podia fazer era se manter perto dos irmãos porque a ausência deles, sim, quebrava-lhe as pernas.

O que eles faziam ou deixavam de fazer podia até ser um problema chato, mas, não podendo fazer nada, apenas estaria ali. Para ambos. Eram uma família, o que mais podia fazer?

— Fiquei sabendo que vocês e os papais saíram para comer um dia desses. — Puxou o assunto após alguns segundos, mexendo em sua xícara de café. Taehyung assentiu, ainda parecendo desconfortável. Respirou fundo. — Foi tudo bem?

— Uh. — Concordou sem pensar muito. — Fomos ver a apresentação da Moonie no colégio e depois fomos jantar, não foi nada demais, de todo o modo. — Quase disse sem som suas últimas palavras, com medo de que Jimin levasse para o pessoal.

A situação estava tão delicada que estava evitando qualquer coisa que trouxesse mais peso para a relação familiar já um tanto abalada. Ficaria triste se ele achasse que os pais privilegiaram ele e Yoongi, esquecendo os outros.

Mas o sorriso calmo do moreno mostrou que tudo bem. Estava tudo bem. Ficou mais tranquilo, pôde até relaxar a expressão.

— Eu fico feliz que as coisas estejam caminhando para algo mais — Parou e pensou em uma palavra que coubesse naquela situação. Gesticulou suavemente antes de suspirar. — calmo? — Tombou um pouco a cabeça para o lado e riu fraco quando viu o maior assentir, sorrindo do mesmo jeito. — Sei que as coisas vão demorar a se encaixar, — Desceu o olhar inchadinho para o café, sem jeito de continuar encarando-o. — mas pelo menos já é um começo.

O azulado assentiu mais para si, respirando fundo e devagar, parecendo escolher bem o que gostaria de falar. Quando pensou em chamar Jimin para se verem, foi na emoção. Sua manhã fora muito dramática, pensou e repensou muito no quesito "família", em como estava sendo egoísta em alguns – muitos – pontos e como deveria ser grato pela família que tinha. Considerava-se alguém que precisava passar pela fase complicada para ver com clareza, isso era difícil.

Mas, contudo, conseguiu o apoio do namorado quando disse que estava com muita vontade de ver seu irmão. Era uma questão de necessidade. Estava com tanta saudade... Ainda que nem conversassem bem sobre, mas... não sei... se pudesse apenas vê-lo, já seria o suficiente.

— Jimin-ah. — Chamou baixinho, receoso, ganhando o olhar do homem que bebia um gole do café. — Eu sinto sua falta. — Admitiu rouco, apertando os dedos na mesa, parecendo nervoso. Estava nervoso.

O educador físico afastou a xícara da boca e sorriu doce, como sempre fazia. Desde que era criança, bem novinho mesmo, lembrava-se daquele sorriso doce que derretia qualquer um que ele sempre dava para si quando aprendia algo novo e queria mostrar-lhe. Era o sorriso que ganhava de presente por fazer algo bom, algo que orgulhasse seu irmão.

E ali estava aquele sorriso...

Mal piscou, ficou encarando o baixinho que tinha aquela franja escura quase cobrindo os olhos pequenos. Amava olhar para aquele cara, ele era perfeito e o amava tanto, tanto, tanto. Era sua alma gêmea, sua outra metade. Como podiam ficar longe um do outro? Nunca. Nunca mesmo!

O Kim mais velho colocou a xícara de volta na mesa e estendeu as mãos até tocar nas do outro, juntando seus dedos pequenos aos maiores, entrelaçando carinhosamente. Respirou mais aliviado. Seu irmãozinho...

— Podemos ignorar tudo isso por um momento? — Perguntou baixinho, o moreno, olhando para os dedos unidos, o modo como ganhava carinho. — Podemos fingir que nada disso aconteceu? Só por hoje? — Elevou o olhar cansado para o azulado que sorriu pequeno e assentiu. — Podemos ser apenas nós dois, como sempre? — Não se importou de ter uma expressão abatida, quase desesperada. Queria tanto abraçar Taehyung...

Ele sorriu um pouco maior, aquele sorrisão quadrado acompanhado com olhinhos fechando. Esse era seu garoto. Seu menino! Riu um pouco, quase bobo. Fala sério, por que estava com vontade de chorar?

— Sinto sua falta, hyung! — Sussurrou tão emocionado quanto.

Foi questão de poucos segundos até mudar de cadeira, indo para a que estava ao lado do mais velho, jogando-se nos braços curtos do professor, apertando-o em um abraço forte. Lembrou-se de quando era criança, quando era menor que Jimin... Lembrou-se de quando ele foi para um passeio do colégio e teve que dar tchau para ele, mas não conseguiu, porque começou a chorar. Não queria que ele fosse, ficaria com saudades...

Nas primeiras noites que o menor esteve na América, quando havia se mudado, acabou chorando, era como se não fosse vê-lo mais. A ideia de perder aquele baixinho de sorriso bonito, acabava consigo. Era horrível. Apertou os dedos no suéter que ele usava, puxando-o mais para seu corpo, mesmo naquela posição desfavorável. Não queria soltar.

Não ia soltar.

— Você lembra, irmãozinho? — Disse com a voz doce, o professor de educação física, fazendo carinho nas costas do outro. — Somos metade um do outro. — Sussurrou como um segredo, os olhos fechados só para sentir aquele perfume cítrico, o abraço quente e apertado. — Não importa o que aconteça, ainda somos eu e você.

— Então não me deixe... — Implorou emocionado, afundando o rosto no ombro vestido com linho vermelho.

Tsc... seu bebêzão era sempre tão intenso e sentimental. Subiu uma mão para o cabelo ondulado, acariciando devagar, passando os dedos pacientemente nos fios azuis. Nunca o deixaria. Eventualmente, poderia sim ir para um pouco longe, mas jamais o deixaria. Nem se quisesse.

Não se consegue viver apenas com uma metade. Precisam dois pés para caminhar.

— Como eu poderia? — Virou um pouco o rosto e deixou um beijo demorado no cabelo cheiroso, feliz por finalmente estar perto de seu irmãozinho.

Não souberam quanto tempo ficaram ali, abraçados, sem falar muita coisa, não aprofundando em nenhum assunto que pesasse o clima. Naquela noite ficariam apenas os dois vivendo como antes, falando trivialidades, besteiras, rindo e tirando fotos juntos. Era isso. O resto poderia esperar, tudo poderia esperar naquele momento.

Inclusive a primeira mensagem mandada no grupo da família depois de toda aquela confusão.

• jin (6:24PM): Sabem que data está chegando?

 


Notas Finais


E aí? Cês sabem que data é essa que está chegando? Ela é boa, não fiquem assustados. Meu coração ficou quentinho com essa primeira mensagem no grupo da família, saco ): amo eles demais.

Nesse eu tenho uma pergunta e por favor me respondam com honestidade, ein? Quem da saga (inteira) vocês mais se identificam e por quê?

Quem quiser rir dos memes que os leitores mesmo fazem da fanfic, é só correr na tag do twitter que eu sempre tento interagir com todos vocês: #wuahtaegi


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