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História Our Time - Capítulo 70


Escrita por: paansy

Notas do Autor


CHEGUEI. Cês tão bonzinhos? Eu tô meio pra lá, meio pra cá que nem o passinho de dance em ptd. Mas vamos seguindo. Desculpem pelo atraso, mas cá estou.

Oito k de puro amor e família. Esse capítulo tem 2 partes e eu vou tentar trazer ela na semana que vem, mas ando tão furona e fujona, que nem vou prometer nada.

Obrigada aqui publicamente, aos que foram me assistir no #FanficShow na sexta passada, foi tudinho e eu amei interagir com vocês no podcast. Nossa primeira entrevista, cara, a gente é muito nojento. NÃO ME EMPURRA Q JÁ TAMO NA BEIRA.

No mais, espero que tenham uma excelente leitura, tava morrendo de saudades de vocês. :{. Já sabem, o engajamento faz nossa casinha chegar em outras pessoas e é o salário de mainha, então... vamo q vamo. lets q lets.

Capítulo 70 - Reckoning Time, parte um


 

Quando criança, lembrava de sempre viajarem para a fazenda da família Choi em Jeolla do Sul. Eram boas memórias. Ficavam soltos pela imensidão de terra, podiam ver animais em qualquer lugar, muitas plantinhas e flores. E se fossem para o norte, logo após o pé de amoras, tinha um rio. Na verdade, era uma cachoeira, mas ela não ficava na propriedade.

Um dia, tinha o que... dez anos? Não lembrava! Um dia, Yugyeom lhe confidenciou que tinha aprendido o caminho exato de chegar na cachoeira e lá tinham peixes. Seu melhor amigo havia dito que viu uma carpa colorida.

Amava cores, então concordou em ir. Claro que não foram apenas os dois, conseguiram convencer os outros também. Foi difícil, mas conseguiram. Até Yoongi foi.

Acabou sorrindo, o rosto encostado no ombro do noivo. Olhou para cima, vendo-o focado em observar a janela do carro. Sabia o quanto o mais velho amava a paisagem campestre. Lembrava disso. Uma das poucas coisas que conseguiu guardar na caixinha da memória, foi o comportamento leve do baixinho enquanto estavam longe da cidade, longe de tudo.

Ele parecia mais feliz. Sorria mais. De repente a tecnologia era inútil, porque aqueles olhinhos se perdiam nos pássaros, no riacho, na brisa tocando as folhas... não se misturava muito porque preferia caminhar sozinho. Não era muito interessante, para as outras crianças, ficar perto dele. Queriam correr, gritar, se aventurar, brincar de caça ao tesouro ou com os animais – sempre estavam em cima de Youngjae para aprenderem a cuidar direitinho, alimentá-los.

Mas Yoongi, não. Sentar na clareira e ficar quieto, já estava bom. Isso já era o suficiente para ele. No dia da cachoeira, enquanto escorregavam nas pedras, espalhavam água um em cima do outro, brincavam de perseguir carpas, o mais velho ficava sentado observando, vigiando. Vez ou outra chamando atenção de Jungkook, de Jimin.

Aparentemente eles dois queriam afogar um ao outro e achavam a brincadeira divertidíssima. Yugyeom queria se enfiar no meio, mas sempre era afastado pelos garotos por ser "muito jovem", mas mesmo assim continuava voltando e tentando.

Taehyung gostava de ficar perto das pedras. Vigiava as formigas carregando sementes e folhas, ajudava algumas, tirando o galho da frente, criava caminhos mais fáceis... Hoseok também gostava de ver as formigas, mas desde o dia que foi picado, passou a ter medo, pavor, horror.

Pegava o irmão pelos ombros e o tirava de perto dos animais como se fossem sair carregando o menino. Olhava torto, até, para os grandes pontinhos marrons que andavam em fila, sempre trabalhando.

Eram memórias doces. Lembrar disso não doía. Não era ruim! Até a parte de chegarem na propriedade vizinha, pulando a cerca de arame farpado, não era ruim. Até porque, a cicatriz de um grande corte feito naquele objeto perigoso, não era na sua pele. Não foi seu sangue que pingou durante todos os quinze minutos de caminhada até a cachoeira.

Mas era para ser.

"— Eu sinto muito, Yoongi-ssi. — Juntou as mãos no peito, apertando a camisa entre os dedos, incerto se deveria ou não ajudar.

Mas ele negou e engoliu qualquer reação negativa. Sentou próximo da água e estendeu a perna, mostrando o sangue carmesim escorrendo pela tez branquinha, criando um impacto visual muito maior do que parecia ser. O garoto abriu bem os olhos, apavorado.

Machucou seu hyung. Apertou mais ainda os dedos no pano fino da camiseta. E se não fosse na ideia furada de Yugyeom? Aquele malandro não queria mais saber de nada. Mal chegou e já havia tirado as roupas, pulando na água cristalina, sendo seguido pelos outros. Por que ninguém parecia se importar? Havia tanto sangue. Tanto.

O jovem de dezenove anos formou uma concha com a mão e pegou um pouco de água, jogando na ferida aberta, espalhando mais o sangue.

— Está tudo bem. — Murmurou franzindo as sobrancelhas, ignorando a ardência. — Só tome mais cuidado quando passar por lá. — Levantou o rosto, a franja escura quase escondendo os olhos. Sorriu pequeno, quase nada quando viu o garoto de cabelo tigelinha, assentir sem hesitar. — Não seja tão medroso, pirralho, não foi nada. — Voltou a encarar o machucado, jogando mais água, repetindo o processo até só restar a pele avermelhada.

Taehyung se aproximou mais alguns passos, ainda meio incerto se deveria ou não. Seu irmão mais velho não gostava muito de proximidade, então... e ele deveria estar bravo. Por sua culpa, o rapper estava machucado. Foi por sua causa.

— Me desculpe. — Repetiu baixinho, a cabeça baixa.

Parou de lavar o machucado para encarar aquele pirralho enjoado. Sério que agora ia ter que aguentar aquele sentimentalismo furado? Fez uma careta desgostosa. Já sabia que ia levar uma porrada de broncas por ter levado as crianças para a cachoeira da propriedade vizinha – mesmo que a ideia tivesse sido daquele maldito cabeçudo de seu primo de dez anos, mas uma lábia de um vendedor de telemarketing –, mas se deixasse o príncipe da família, o bebê de seus pais, o mimadinho, o bonitinho, se machucar...

Fala sério. Ia ouvir até desencarnar. Ainda bem que não vivia junto com a família há um ano e não precisava servir de Super Nanny 24/7. Duvidava muito se Jennie tivesse ali, seus pais se aproveitariam tanto assim de sua atenção. Poderia ser um adulto como eles, não um...

— Hyung. — A voz baixa e temerosa do de dez anos, soou, o chamando a atenção. — Obrigado por ter me ajudado a passar da cerca. — Curvou o corpo esguio, um pouco alto demais para sua idade, o músico achava. — Se os papais perguntarem, então eu-...

— Ya, — Cortou o monólogo nervoso daquele pivete. — Kim Taehyung, — O encarou seriamente, vendo o medo brilhando nos enormes olhos castanhos. Quis rir. Por que era tão medroso? — mesmo que os garotos passem correndo por lá, me espere, okay? Não vá sem mim! — Avisou, tentando ser o mais responsável possível. O garotinho assentiu. — Não ligue pro papai, pro Jin, vá nadar. — O empurrou de leve, querendo que fosse logo.

Dali conseguia ver todos se divertindo, rindo. Não era muito certo deixar o bebê chorão ali, preocupado consigo. Além do mais, não era nada. Estava tudo bem. Em poucos dias ia sarar, logo nem iam mais lembrar do que havia acontecido. Não valia a pena pensar muito nisso!"

Pelo menos para Yoongi, porque isso marcou a vida de Taehyung. Conseguia se lembrar com riqueza de detalhes, daquele momento. O jeito que o mais velho, na volta, o colocou abaixo de si na hora de passar debaixo da cerca. Caso fosse para machucar, então não seria o mais novo. Nunca seriaporque daria seu corpo para servir de escudo. Mesmo que as cicatrizes jamais sumissem, não se importava! Não era narcisista e não se importava com elas, realmente.

Mesmo que a ferida inflamasse – e inflamou –, a cerca, um dia, seria removida – e foi! Anos depois, a fazenda vizinha foi colocada à venda e Jaebum, junto de Choi Sangwoo, compraram para dar de presente para Youngjae e Yugyeom. Agora a cachoeira era deles, não precisavam pular cercas e fugir antes do sol se pôr. Demorou alguns anos, tudo bem, mas o arame farpado foi retirado do caminho.

A cicatriz só estava ali para lembrar dos dias que precisavam burlar leis, no fim, deu tudo certo. A cachoeira estava lá, mas a última vez que visitou com Yoongi, ele acabou machucado. Ainda haviam regras a seguir. Depois daquele dia... claro, foi mais vezes com o amigo, os pais, os padrinhos e os irmãos.

Mas Yoongi jamais retornou. Nunca mais esteve sentado em uma pedra para vigiá-los, não tinha mais arames farpados no caminho. Todos estavam mais velhos, tudo estava diferente.

Todos estavam diferentes. O tempo estava passando, o mundo girando, a vida acontecendo. A vida... a vida é algo que não se pode prever. Nunca. Jamais! O ser humano era imprevisível demais, seus caminhos eram inúmeros. O amanhã não tinha nada a ver com o hoje e o ontem...

Já nem faz mais tanto sentido assim.

Suspirou, abaixando o olhar para as mãos unidas, entrelaçadas, repousadas na coxa do mais velho. Fez um carinho breve usando o polegar, recebendo de volta. Sorriu com o gesto. Era tão sutil, mas tão...

Parecia um sonho. Estava bem e foi liberado do hospital, na verdade, foi transferido para continuar o tratamento e acompanhamento em Seul. Aliás, estava na Coreia. Assim que recebeu alta, pediu para voltarem, não aguentava mais estar longe de casa. Então começou a grande viagem. Amsterdã para Incheon, Incheon para Jeolla do Sul e agora estavam indo de táxi para Mokpo.

Já fazia quase uma hora e meia que estavam ali. Envoltos em reservas naturais, fazendas e ranchos, sítios. Cada vez mais enfiados no interior.

— Não param de perguntar se estamos chegando. — Disse o delegado, sentado no banco do passageiro, os olhos vidrados no celular. — O Hoseok parece o burro do Shrek. "A gente já chegou?" — Imitou a voz do personagem, ouvindo a risada dos filhos.

Pior que era assim mesmo. O segundo filho mais velho era muito impaciente, não ficava quieto por um segundo se estivesse ansioso com algo. Principalmente em viagens.

— Seu celular tá com área? — Resmungou o cozinheiro, sem nenhum pontinho de sinal. — O meu sempre fica uma merda quando passamos por aqui, acho que nem comunicação alienígena eu poderia tentar. — Resmungou irritado. Era um homem ativo nas redes, queria postar storys. — Namjoon, — Cutucou o marido que o encarou por cima do banco. — eu vou mudar de operadora.

— Você fez isso ano passado, amor. — Relembrou o fatídico dia que algumas fãs de Jungkook descobriram o número do pai do garoto.

E não sossegaram enquanto o chef não mudou de número, porque toda hora era uma mensagem pedindo para que permitisse o casamento delas com o lutador. Ou pediam fotos, vídeos, o próprio número de Jungkook. Foi uma dor de cabeça. Uma grande, enorme dor de cabeça.

Mas passaram por isso, claro, ignorando o filho dizendo que queria o número de uma das garotas. A que ele apelidou de "bonitinha de Jeju", porque a foto de perfil era a moça na praia. Só isso. E, é, ela era bonita. Mas nem sabiam se era Jeju mesmo, se era uma mulher e não um velho de setenta e oito anos, tarado da internet. Não.

Chega. Chega de polêmicas. Parecia que aquela criança gostava disso, minha nossa, só procurava problema para se enfiar.

— Aqui eu nunca tenho sinal também. — Taehyung resmungou, se aconchegando mais ao abraço do mais velho, encolhido contra seu peito. Estava muito cansado.

Yoongi o observou, vendo se estava tudo bem e confortável. Manteve o braço disponível envolto nos ombros largos, o mantendo seguro em seu corpo. Já havia dito para ele dormir, porque quando chegassem na fazenda, seria difícil com o tanto de gente sequelada junto no mesmo lugar. Mas não era obedecido, nunca era.

E falando em celular? Onde estava o seu?

— Cadê meu celular? — Perguntou ao noivo, ganhando seu olhar na hora.

— Na bolsa com o meu. — Respondeu baixinho. — Você tinha me dado pra colocar no carregador portátil, lembra? — O rapper assentiu, tirando a franja castanha de cima dos olhos do outro. — Aí eu coloquei e guardei. Por quê? Quer usar? — Negou. — Pode usar o meu.

— Tô de boa. — Bocejou exausto, encostando a cabeça no banco, voltando a encarar a janela, ignorando os pais conversando sobre operadora de celular.

Até o taxista entrou na história, relatando quais eram as melhores ali na região. Fez até propaganda da rede exclusiva que tinham só em Mokpo. Descobriram que existia uma rede especial para atender a necessidade dos fazendeiros. Isso era muito chique, certo? Choi Youngjae e Im Jaebum estavam muito metidos.

Apesar que quem usava mais a fazenda, era a família Choi, os diversos membros. Jaebum nunca tinha tempo ou estava em casa, Youngjae não saía sem o marido. Muito menos ir para a fazenda, que morria de medo de ficar sozinho – porque ele mesmo dizia que não sabia quem era mais medroso, ele ou Yugyeom. Mesmo seu pai morando ali ao lado, na fazenda vizinha, não tinha coragem.

Tudo culpa daqueles filmes de terror que era obrigado a ver nas noites de cinema quando faziam em casa. Malditos filmes de canibais, assassinos e demônios. Já tinha dito que ia mandar construir uma imagem de dez metros do Buda e ia colocar como gnomo de jardim.

Cruzes. Chega arrepiar o corpo. Não podia com isso, não.

— Usa o meu. — O acastanhado estendeu a mão para trás, oferecendo o celular ao marido. — Aproveita e responde o Youngjae aí, que tá choramingando no privado.

— Por quê? — Pegou o celular imediatamente, já indo logar na própria conta que ficava salva.

— Jaebum. — Suspirou cansado, sabendo que apenas dizer o nome do melhor amigo era autoexplicativo.

Yoongi suspirou desgostoso porque já havia cansado de conversar com o padrinho sobre o mesmo assunto. Quando estava no exército e podia, eventualmente, ter contato com o comandante, tinha que ouvir as lamúrias dele. Todo o mimimi ridículo de um velho que estava casado há mais de quinze anos e não sabia lidar, ainda, separar certas coisas.

Enfim. O problema não era seu mesmo. Suas coisas estavam sendo resolvidas e já estava com a cabeça cheia demais para se envolver com outras coisas. Ainda estava puto pelos fotógrafos no aeroporto. Como diabos aquelas pessoas sabiam que iam chegar? Como caralhos a mídia sabia se nem tinha mais rede social e Taehyung não postou nada? Aliás, ninguém postou nada desde toda a confusão.

— Eles brigaram de novo? — Perguntou o artista plástico, um pouco receoso.

Quando seus padrinhos brigavam, era um saco. Parecia que o clima fechava para todo mundo.

— Não se liga nisso. — O moreno de cabelo curto, rapidamente atraiu a atenção do noivo. — Eles sabem se virar, não fica pensando nessas coisas. — Pediu baixo, sabendo que ele ficaria triste caso chegassem lá naquele clima ruim.

Fora que, quem estressasse Taehyung, ia levar um soco. O médico foi muito direto ao dizer que durante um mês deveriam fazer acompanhamento direto, e nesse meio tempo, se estressar estava fora de questão. Ainda não sabiam muito bem como o coração ia lidar.

Então, porra, com todo respeito, podia ser seus padrinhos, irmãos, pais, o caralho que fosse, mas se mexesse com o emocional de Taehyung, ia ficar muito puto. Não estavam saindo de Seul, para se estressar em Mokpo. Vai se foder.

Seokjin tocou a coxa do filho, apertando gentilmente os dedos no jeans escuro.

— O Yoongi está certo, monstrinho. — Disse suave, acariciando a perna do filho, vendo-o um pouco preocupado. — Não se preocupe com eles, você sabe, — Maneou a cabeça, pensativo. O casal de amigos estava passando por uma fase complicada. — Youngjae e Jaebum sempre estão se desentendendo e se acertando em seguida.

— E isso não tem nada a ver com você. — Completou o rapper, meio atravessado com aquele assunto que odiava.

Ganhou um olhar duro do pai, mas fingiu que não viu. Não adiantava Namjoon fazer aquilo! Estava mentindo? Porra. Jaebum era muito cabeça dura, não adiantava. Teimoso que nem uma porta. Já havia falado na cara dele que era bom amar mesmo o exército, porque logo ele iria casar com a instituição, porque o Choi ia meter o pé.

Depois que seu noivado de anos foi para o ralo, entendeu que era verdade o que dizem sobre o tempo não definir nada. Não deixar as coisas mais seguras. Realmente, quando tem que acabar, acaba, independente se for um casamento de vinte dias ou cinquenta anos.

E, nossa, não estava botando energias negativas no casamento de seus padrinhos. Nunca! O que estava querendo dizer é, se você não fizer por onde, o que você mantém seguro há anos, pode não estar tão seguro assim. É lógica. Por mais que doa, era a lógica.

Era um homem bem lógico, ao contrário do Im que dizia ser, mas na verdade parecia estar cego. Enfim. Que fosse! As pessoas podiam fazer o que quisessem fazer, não era seu problema, as suas responsabilidades, estava cumprindo e cuidando.

Taehyung não ia se envolver em problema dos outros. Sua família tinha essa mania e nem sempre era bom, já havia comentado com o padrasto. Às vezes, tinha que deixar quebrar a porra da cara. Que nem fez com Jungkook. Isso era bem mais eficiente do que se meter, tentar ajudar e foder com tudo, atrapalhar.

Sei lá. Pensava diferente de toda a sua família.

O mais novo dali suspirou pensativo, ainda aconchegado no noivo, recebendo carinho do pai que, com uma mão lhe dava atenção e com a outra, digitava. Provavelmente estava mandando mensagens para Youngjae.

— Fico feliz do Yug ter o Jungkook hyung, agora. — Sussurrou em um pensamento alto, mas teve a atenção do baixinho.

Não só a atenção, mas um assentir também. Concordava. Seu irmão era louco e totalmente fora de si, sem responsabilidades e noção das coisas, mas era um ótimo muro de proteção e contenção. Nele podiam descansar seguros, como uma casa segura, um esconderijo no meio do caos.

O caos, no caso, que ele mesmo causava, mas jamais envolvia as pessoas que amava, em suas brigas. Ao contrário. Jungkook mantinha os seus protegidos, calmos, enquanto ele mesmo estava em guerra. Então, é. Concordava. Ainda bem que Choi Yugyeom tinha Kim Jungkook.

Ainda bem que tinham um ao outro naquela família, porque podia mesmo ser um cara lógico e muito racional, podia não concordar com 70% da sua família e seus costumes muito inclusivos e participativos, mas de uma coisa não podia reclamar nunca.

Jamais ficou sozinho ou foi sozinho. Não tinha lacunas em aberto, havia sempre alguém grudado em si. E onde um vai, todos vão atrás, como uma gangue mesmo.

Podia não concordar, mas jamais ia dizer que não gostava disso.

...

A fazenda de Choi Youngjae era imensa e por isso não conseguiram ouvir o barulho do táxi chegando na propriedade. Ryujin, Hoseok, Jimin, Caterine e Yugyeom estavam por ali, jogados pela sala de visitas, conversando, contando os minutos para chegarem logo.

Havia tanta risada, piadas e fofocas entre eles, que quando a porta foi aberta, ninguém ouviu. Estavam mais preocupados em ouvir Caterine tentando aprender coreano. Melhor, xingar em coreano. De acordo com Hoseok, era a primeira coisa que ela tinha que aprender, porque seria muito útil.

Mas quando os cachorros começaram a latir e correr para a entrada da casa, todo mundo desconfiou. Jaebum tinha voltado? Mas ele tinha saído com Jungkook fazia menos de dez minutos. Moon estava cuidando do jardim, Youngjae estava vigiando a criança, se eles fossem entrar, o fariam pela cozinha, então...?

Oh. Merda. Merda! Jimin foi o primeiro a pular do sofá, assustando a musicoterapeuta que não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo.

Começou um falatório, latido de cachorro... ainda tinha o som ligado em alguma música coreana, embolando tudo em uma confusão auditiva.

— Tae-ya! — Jimin gritou, saindo correndo pelo chão de mármore polido. Porra! Seu irmãozinho.

Assim que bateu os olhos no garoto alto vestindo um enorme moletom, não se aguentou. Havia prometido que não... não seria muito... ahporra. Jogou-se nos braços dele, chegando a ficar na ponta dos pés. Afundou o rosto no peitoral largo, sentindo aquele perfume gostoso, aquele cheiro bom que ninguém mais tinha. Merda. Merda! Apertou os dedos nas costas dele, como se fosse perdê-lo no mísero piscar de olhos.

Não... não podia perder seu irmão. Nunca. Seu pai disse, quando era mais novo, que nunca perderia seu irmãozinho, poderia ser sempre o irmão mais velho. Que ele só ficaria doente e precisaria ir ao médico às vezes, mas que jamais precisariam dar adeus um para o outro. Então... então...

— Oh, merda, merda. — Repetiu consigo mesmo, sentindo o corpo ser agarrado na mesma força pelo maior.

Taehyung não dizia nada. Absolutamente nada. Deixou ser puxado, agarrado e agarrou de volta, como se pudesse se esconder dentro daquele abraço que sempre o acolhia. Sempre. Que segurava sua mão entre as grades do berço, que dizia que estava tudo bem se caísse, limpava seu rosto quando chorava, segurava-o pelas bochechas, juntava as testas e dizia:

"Meninos bonitos não choram!" Então por que ele quem estava chorando agora?

Logo atrás veio Yugyeom, abraçando o primo. Foda-se se não estavam acostumados com isso. Ficou apavorado com a ideia de... porra. Ele aguentou tudo sozinho lá longe. Sozinho!

— Tá. — Foi o que o menor disse sem reação, parecendo congelado no lugar. — Chega.

— Pare de ser ranzinza. — Afastou-se por alguns segundos, olhando-o nos olhos. Merda. Por que não podia ser legal uma vez? Estava quase chorando ali e nem um abraço ganhou. — Sabe o quanto eu estava preocupado com vocês? Porra, hyung. — Voltou a abraçá-lo, apertando o corpo pequeno, agora ganhando tapinhas nas costas. — Vocês são meus irmãos, porra. A porra da minha família, caralho. — Fungou, realmente largado nas próprias emoções. Sabia que não aguentaria quando visse os primos. Não... não conseguia.

Hoseok chegou com as duas mulheres consigo e foram cumprimentar os mais velhos dali, ajudando-os com a bagagem. Seokjin cumprimentou as noras com um delicado beijo na testa, que foi repetido pelo policial, perguntando se ambas estava bem, se estava tudo certo. Claro, com Caterine falou em inglês e a moça ficou aliviada por ter mais alguém que lhe entendia perfeitamente.

O educador físico afastou um pouco aquele abraço para conseguir ver o rosto do irmão, tocando-o com os dedos trêmulos. Estava tudo no lugar, certo? Tocou seus ombros, braços, mãos. Certo, certo...

— Nunca mais nos dê um susto desses. — Ordenou ao maior que assentiu. Repetiu o gesto. — Nunca mais. — Sussurrou sentido, tendo as mãos grandes secando as lágrimas que iam molhando as bochechas cheias. — Não posso perder você, nunca na minha vida, nunca. Nunca! — Repetiu entre soluços e o artista plástico assentiu, grunhindo um "eu tô aqui". — Você é o meu maninho, o meu-... — Soluçou, nem notando que Yoongi e Yugyeom agora o observavam, preocupados. — irmãozinho. — E voltou a chorar, sendo acolhido no abraço do mais novo.

Não podia perder seu irmão. Nunca. Era seu melhor amigo, sua metade. Quando Yoongi ligou chorando, falando aquelas coisas, sentiu seu coração parar junto. Ele estava tão longe e... antes de ir nem conseguiu se despedir direito, não o disse tudo que gostaria. Não... tinha sempre tão pouco tempo com ele, nunca faziam nada juntos e nunca dizia o suficiente que o amava, que era orgulhoso dele, que por toda a vida ia amá-lo com todo seu coração.

Yoongi ficou preocupado com Jimin, porque até já imaginava que ele ficaria mal, mas... estava ficando preocupado. Fez carinho nos fios negros, olhando brevemente para o noivo, checando se ele estava bem. Ele era outro que não podia se emocionar demais.

— Eu tô aqui, maninho. — Murmurou o mais novo, beijando o cabelo do irmão. — Não vou te deixar, ainda seremos nós dois, todos os dias. — Sentiu uma mão em suas costas, então se afastou um pouco e olhou para trás, encontrando a americana. Sorriu caloroso, ganhando outro sorriso em resposta. Ela era uma boa garota...

Logo Hoseok e Ryujin voltaram, indo cumprimentar Yoongi com um forte abraço. O dançarino ficou um tempo nos braços do irmão mais velho, o apertando com carinho e sendo apertado na mesma intensidade. Chegou a fechar os olhos para aproveitar melhor aquela sensação...

Ele não disse nada, sabia que não iria, também. O mais novo não era de dizer, não sabia falar bonito. Fazia a linha do bom humor, levava tudo na piada, preferia deixar o clima mais leve com sua energia. Mas, não havia problema! Seus gestos eram muito significativos.

Aquele abraço valeu qualquer discurso.

— Jimin, — Seokjin se aproximou do filho, tentando puxá-lo. — respire, está tudo bem, sua namorada tá aqui. Não fica assim, vai acabar assustando a menina. — Apelou para ver se o filho ia se recompor. Apesar que isso era meio inútil. Jimin nunca ligou muito de chorar na frente das pessoas, era chorão mesmo.

O educador físico respirou fundo, afastando o corpo e olhando o irmão. Forçou um sorriso. Ele estava bem... estava ali. Taehyung era mesmo um monstro forte. Céus. Seu irmãozinho... o puxou pelas bochechas, obrigando-o a curvar um pouco a coluna para conseguirem juntar as testas.

— Eu te amo. — O de cabelo castanho disse, rouco, triste por fazer o irmão chorar tanto. — Me desculpe se te fiz pensar que não voltaria. — Fechou os olhos, se concentrando na própria respiração, ouvindo o menor soluçar. — Como eu poderia te deixar? Como? — Sussurrou emotivo, sentindo uma mão afagar suas costas, mas não conseguia ver quem era.

Sua prioridade era confortar seu irmão, o resto poderia esperar. Ou melhor, não tanto assim, porque aquele gesto logo foi atrapalhado.

Não sem antes um grito ser ouvido.

— Hyung, Tae. — E logo o peso bruto de Jungkook estava jogado por cima de Jimin e Taehyung, puxando Yoongi com uma mão, enquanto envolvia os outros. Hoseok também foi puxado. — Porra. — Murmurou assustado, beijando o cabelo bagunçado do artista plástico. — Ninguém está autorizado a sair, ir pra longe. — Avisou seriamente, segurando todos os irmãos naquele abraço. Porra! Seus irmãos... — Sempre que alguém sai, vira alvo fácil, juntos conseguimos-...

— Engoliu um coach, caralho? — Yoongi resmungou sendo amassado naquele abraço. Estava sufocando com sua cara enfiada nas costas de Jimin, todo torto igual um corcunda. 

— Eu fiquei com medo, hyung, porra. — Confessou, soltando-os. Teve a atenção do irmão mais velho. — Não podia ir até a porra da Holanda, — Apontou para fora, elevando a voz. Seu rosto completamente vermelho. Aquilo estava o consumindo por dentro. — não podia calar a boca de todo mundo e nem trazer o Taehyung de volta. Por minutos, todos nós vivemos em uma realidade que teríamos que aprender a não ter vocês e isso foi um pesadelo.

— Ya. — Yugyeom se aproximou do lutador, mas ele recuou, sinalizando para não se aproximar. Suspirou, cansado. Que homem difícil...

O rapper sinalizou para o primo, o pedindo para deixar que aquela situação era sua. Lidaria sozinho. Estava tudo bem. Ganhou um afago de Hoseok, cujo já estava pronto para sair junto dos demais, sendo orientados por Taehyung que abraçou Yugyeom e pediu para irem ver sua irmãzinha. Queria abraçá-la. Arrastou Jimin, Caterine e Ryujin consigo. Seus pais não estavam por ali.

Jaebum e Youngjae também não.

Quando o dançarino ia saindo, Yoongi o segurou pelo pulso, negando quando ganhou um olhar confuso. Precisavam conversar, os três.

— Me perdoem. — Foi logo dizendo, o mais velho dali. Encarando um e depois o outro. — E obrigado! — Lambeu os lábios secos, respirando fundo. Sabia o que precisava dizer, mas era... difícil. Estendeu a outra mão, agarrando o garoto fortão, o trazendo para perto. — Me perdoem por sempre deixar vocês preocupados, por sempre foder tudo, por dificultar a vida de todos agora.

O segundo mais velho riu baixinho, negando. O que era aquilo agora? Tentou puxar o braço, mas foi segurado no lugar. O que deu em Yoongi? Foi encarado seriamente, como um aviso claro para ficar. Céus... não sabia lidar com aquelas situações. Coçou a nuca, desviou o olhar.

— Não adianta falar que não está tudo fodido por minha culpa!

— Isso é o de menos. — Respondeu, a voz soando mais baixa do que esperava sair. — Quase perdemos o Taehyung e sabe-se lá o que aconteceria com você longe, aguentando isso tudo. Fora isso, a gente pouco liga e você sabe!

Sem palavras para dizer, o mais alto abraçou o músico, quase se encolhendo para caber no aconchego do moreno que riu fraquinho e precisou de ambos braços para segurar aquele grande bebêzão. Respirou fundo, dando-lhe leves tapinhas nas costas. Por que tão sentimental? Encostou a cabeça na dele e suspirou tranquilo.

— Eu sei que falaria isso. — Murmurou rindo nasal, abrindo os olhos só para virar um pouco o rosto, vendo aquele desgraçado lindo demais. — E por isso, obrigado. — Continuou apertando Jungkook consigo, sentindo as mãos grandes agarradas em sua camisa, como se fosse fugir. Sorriu de lado, quase irônico. — Obrigado por mentirem sobre não ligarem pra todas as merdas. — Seu sorriso vacilou, realmente vacilou, mas piscou bem os olhos e forçou aquele humor falso.

Sabia que era mentira! Como Hoseok não ia se importar com o impacto que ia sofrer com todas aquelas polêmicas, os tabloides inflamados pela vontade de usar aquela pequena brecha para atacá-los como queriam há tempos? O negócio dele dependia da opinião pública, era diretamente ligado a mídia e indústria coreana de entretenimento. Como não sofreria impacto?

Assim como Seokjin. Jungkook... todos eles! Namjoon. Com a queda de um, todos pagavam. Foi assim na primeira vez, com o lutador. Não adiantava. Sempre iam os sete ao júri popular, julgados com pesos iguais, embora fossem pessoas diferentes. E se não fosse assim, davam um jeito de entrar na situação. Se um ia ouvir, então todos os outros também iriam.

Namjoon e Seokjin diziam que assim era menos pesado, doía menos se estivessem todos juntos. Conseguiam pensar melhor se todos estivessem juntos! Eram melhor em equipe, porque separados pareciam alvos fáceis. Precisavam andar em bando, porque quando eram atacados, sempre era em bando.

Não era uma mão apontando, eram várias. Pessoas que só esperavam um passo em falso para cuspir palavras ruins que colecionavam no coração, esperando, aguardando ansiosamente o momento de usá-las. Se fosse em um só, se pudessem acabar com um, sozinho, seria bom. Se estivesse todos juntos, então sempre haveria alguém por trás amenizando a situação:

"Você não é isso! Você não vai ficar assim para sempre! Você consegue! Você vai sobreviver! Você é melhor do que isso! Estamos juntos, você não está sozinho, nunca esteve e nunca estará! Vai passar! Respire fundo, erga a cabeça e olhe para mim, eu amo você."

Como destruir alguém que tem um muro de sustentação desses? Como gritar palavras ruins para alguém que é protegido por delicados e suaves sussurros de vozes que amava...?

Por isso Yoongi estava agradecendo. Por isso, estava ali. Porque acreditar naquela mentira, o fazia sentir que... sim, haviam coisas mais importantes. Coisas além do material. Coisas mais valiosas que a porra do dinheiro perdido. E não era mentira que havia, mas era mentira que era a única coisa que importava.

Mas... tudo bem, certo? Quem disse que todas as mentiras eram ruins e inoportunas? Nah. Hoseok sempre soube mentir muito bem e usava ao seu favor de maneira excelente. 

— Apenas seja feliz e faça toda essa merda valer à pena! — Disse o de camisa com um enorme girassol sorridente e estampa tie dye. Deu de ombros, acompanhando aquele sorriso sem muito humor. — Que se foda a grana e os costumes tradicionais! — Enfiou as mãos no bolso da calça vermelha de moletom, pressionou os lábios e ignorou os olhos cintilantes. — Só quero que meus irmãos sejam felizes e vivam pra ser os tios do meu filho. Só isso. — Forçou um sorriso choroso, limpando rapidamente algumas lágrimas. O de cabelo curto não disse nada, a garganta estava com um nó. — Chega de choro, de sofrimento, mentiras e vontade de morrer... chega, a gente não merece isso. — Sussurrou sentido, negando consigo mesmo. — Tanta cobrança e tristeza, questionamentos, fugas e segredos. Chega, vamos parar. — Jungkook finalmente se afastou, secando o rosto, fungando fraquinho. — Nós já estamos velhos, precisamos descansar... — Olhou o irmão mais novo, depois o mais velho. — vamos viver tranquilamente daqui por diante? Podemos apenas... — Suspirou. — apenas ser a gente? Sem dramas? Eu gosto de clichês, porra. — Murmurou com um bico contrariado por não viver como os filmes. 

 Na sua família qualquer roteiro era inútil, porque as coisas... elas não eram previsíveis. 

— Eu tô bem cansado disso, na real. — Riu fraquinho, fungando, realmente tocado pelas palavras do mais novo, porém mais alto, que desviou o olhar e se ocupou em enxugar o rosto. — Daqui em diante, quero ser apenas o irmão mais velho de vocês. — Olhou de um para o outro. — Não o Agust D, mas Kim Yoongi, o irmão mais velho que vai cuidar dos dois até o fim da vida. Que daria qualquer coisa, qualquer uma, — Ignorou a voz ficando mais trêmula. — pra manter vocês felizes e a salvo.

— Eu sei. — Murmurou o de cabelo grande, os olhos vermelhos e o rosto um tantinho inchado. Encarou o rapper. — Vocês dois, — Virou o rosto para o irmão de sangue, vendo-o negar e abaixar a cabeça. — eu quero ser igual a vocês dois quando for mais velho, porque são os homens mais fodas que eu conheço!

— Jungkook-ah! — Tentou impedir o irmão, o professor de dança, sabendo do que ele estava falando.

— Meu rosto pode lembrar alguém ruim, mas aqui — Bateu no próprio peito forte. — eu só quero ser parecido com vocês, os caras mais fodas do mundo pra mim. — Olhou o músico ao seu lado, as lágrimas mudas rolando pelas bochechas rosadas. — Eu faria tudo por vocês dois porque eu amo vocês. Pra caralho.

— Eu sei. — O baixinho estendeu a mão, bagunçando o cabelo escuro do lutador. — Nós sempre vamos te amar o dobro, porque você sempre será nosso mascotinho, o golden maknae. Nosso moleque de ouro.

— Você só parece Kim Jungkook, pra mim. — O de camisa tie dye sussurrou sentido consigo mesmo por ter falado coisas ruins no passado. Aproximou-se alguns passos do irmão. — Porque você é o meu Jeonggukie, o meu irmãozinho. — O segurou pelos ombros, orgulhoso. Olha como ficou bonito, forte. Sorriu largo sem mostrar os dentes. — Graças a você, eu sei que vou ser um bom pai.

Não conseguiu aguentar, acabou chorando ao ser abraçado pelo irmão mais novo. O apertou com vontade, ouvindo-o sussurrar "obrigado" repetidamente. Agradecia por ter sido salvo antes do pai chegar. Sem Hoseok, não sobreviveria. Podia não lembrar tudo e seu irmão não fazia questão de contar, mas sentia isso. Sentia quando olhava dentro daqueles olhos e ele olhava de volta com tanto amor. Todas as vezes que ele se preocupou com sua vida até nos mínimos detalhes...

Yoongi abraçou os dois, feliz por estarem juntos. Os três. Depois de tanto tempo, de tantos anos... ainda estavam juntos. Mesmo nunca tendo acreditado que isso seria possível. As pessoas iam e vinham em sua vida, não tinha chance de ter alguém para sempre. Tudo tinha limite e validade. Uma hora iam acabar. Iam cada um para lugares opostos...

"— O hyung acha que ele vai se cansar da gente? — Hoseok sentou ao lado do mais velho na soleira da porta, abraçando os joelhos contra o peito. Yoongi olhou o garoto de cabelo tigelinha e depois para frente.

Namjoon brincava com Jungkook, o forçando a exercitar as pernas, principalmente a que estava em tratamento ortopédico. Eles riam tão alto e corriam pelo meio da rua, brincavam de algo que não entendiam, mas parecia engraçado. Pelo menos para o segundo mais velho, porque o garoto mais velho não estava prestando atenção.

Não podia se apegar, logo voltaria para sua vida antiga, então qual o propósito? Só que não ia falar isso para os dois outros garotos. O pirralhinho de cabelo grande parecia estar adorando a estadia.

— Tudo tem início e fim. — Foi o que respondeu, olhando para frente, vendo os dois se divertindo. Jungkook estava andando bem melhor. — Logo não nos veremos mais ou lembraremos o nome um do outro, então não precisa memorizar o meu. — Suspirou ao olhar para o lado e ver o rosto tristonho do garoto que sempre falava gritando. — Talvez não estaremos juntos amanhã, talvez hoje à noite... mas não diga isso ao pirralhinho. — Indicou o mais novo. — Se prepare você pra cuidar dele sozinho quando o policial cansar e ver que ser pai não é atividade extracurricular.

Isso foi uma semana antes de todos enfrentarem uma reunião com a assistente social para oficializar a guarda para Kim Namjoon, o tal policial que esperavam que fugisse..."

Hoseok obedeceu Yoongi e realmente se preparou, mas nunca precisou botar o planejamento em ação, porque tiveram um pai foda. Fodidamente bom! Logo ganharam dois guardiões. Depois mais um pai e mais irmãos... quando chegaria a hora de "cansar e fugir"? Que besteira.

Depois de tanta merda passada, já estava óbvio que ninguém ia fugir ou cansar, porque eram uma família. Eram uma família e seriam uma família até o fim.

Cansados ou não, estavam juntos. E, porra, Yoongi nunca ficou tão feliz por estar errado.

...

Queria tanto mimar suas cunhadas, saber detalhes sobre a gravidez. Queria ter ficado mais tempo com Jimin e Moon, ter recebido mais atenção de Jungkook – que estava fazendo todas as suas vontades, pela primeira vez, sem reclamar. Ter conversado mais com Yugyeom ou esperado Jaebum chegar...

Mas ficou cansado. Muito! O médico disse que isso poderia acontecer durante o tratamento e, quando ocorresse, não era para ignorar. Deveria ir descansar o máximo possível. Então foi o que fez. Pediu licença para todos e foi para o quarto que seu padrinho indicou, onde seus pais já haviam deixado as malas. Assim que chegou, fez ligação de vídeo com Jinyoung e Jisoo, viu Yeontan por algum tempo, atualizou os amigos que estavam preocupados.

Durante todo aquele tempo, apenas Yoongi ficou em contato com os amigos. Da maneira que pôde, tentou acalmá-los e explicar, mas não adiantou muito. Notou que eram amados mais do que esperava ser. Mais do que aparentava. Por dias inteiros, horas incansáveis, teve tanto apoio, positividade e preces, presença mesmo que virtual, das pessoas que chamava de família.

E com isso, sentiu que era amado. Mais do que esperava, mais do que imaginava.

De todo o modo, o artista plástico foi se deitar após avisar o noivo que o faria. Yoongi lhe deu um beijo na bochecha e disse que logo iria. Disse que não precisava, ele estava conversando com Jimin e Hoseok e parecia muito sério! Isso era engraçado, certo? Aquele baixinho dizia que não ia se meter e não queria saber, mas olha só.

Lá estava ele conversando, todo sério, cheio de autoridade e responsabilidade com os irmãos mais novos. Usando a carta de primogênito para aconselhar antes mesmo dos pais.

Falando em seus pais... eles sumiram com Moon pela fazenda. Nem pôde ficar tanto assim com sua irmãzinha.

— Com licença. — A porta foi aberta e a voz doce de Youngjae preencheu o local.

Rapidamente se ajeitou na cama macia e virou de frente para a porta, feliz por tê-lo ali. Se agarrou no travesseiro macio e murmurou um "pode entrar", esperando que seu padrinho viesse de fato.

— Trouxe para acender com você. — Entrou, mostrando a vela branca em uma mão e uma caixinha de incenso na outra. Taehyung sorriu. — Benjoim! — Leu na caixinha, ouvindo o grunhido de satisfação do afilhado. — Vou te dar alguns quando voltarmos pra Seul.

Seus meninos precisariam. Benjoim era perfeito para espantar energias negativas, atrair as positivas, ativar o relaxamento mental e físico, funcionava como antidepressivo e ansiolítico. Usou muito durante a vida. Seria perfeito para seus afilhados naquele momento complicado. Precisavam atrair coisas boas. Os orientaria como utilizar, ia dar certo.

— Eu até procurei pra comprar, mas não achei. — A voz gasta mostrava seu enorme cansaço da viagem, mas se forçou a sentar enquanto o mais velho deixava a vela em cima da cômoda ao lado da cama, acendendo com um isqueiro que havia tirado do bolso. — Obrigado por enviar tanta coisa pra mim, — Se referiu a japamala, a pequena estátua do Buda, que seu pai havia levado e colocou ao seu lado no hospital. — só não garanto devolver!

— Pode ficar. — Respondeu concentrado em acender o incenso na vela, colocando no incensário logo após. — Você pode construir um pequeno altar.

— Falando nisso, — Riu fraquinho quando sentiu o cheirinho do incenso começar a tomar o lugar. — acho que o Yoongi hyung está com tendências católicas. — Ganhou o olhar assustado do mais velho. Riu mais ainda, assentindo. — É sério, estava louco pra te contar, padrinho.

— Meu Buda, eu vivi pra ver isso acontecer? — Sentou na cama, tirando os chinelos confortáveis para conseguir deitar ao lado do garoto que ainda ria. — Seu pai me contou algo sobre a mãe dele ser, não é isso?

— Hum. — Concordou, se aconchegando ao lado do homem que foi seu primeiro mentor na vida. Ganhou carinho no cabelo.

Amava Youngjae! Muito! Nunca conheceu alguém com uma energia tão boa e positiva como seu padrinho. Ele era aquele tipo de pessoa que tinha a presença gostosa, sabe? Ele era aquela pessoa que todos querem cumprimentar por primeiro, que podia se passar horas e horas conversando sobre tudo e nenhum celular seria capaz de tirar sua atenção, porque... ele era genial. Além de engraçado, era inteligentíssimo, carinhoso e carismático.

Lembrava de quando seu padrinho Jaebum chegava sozinho na sua casa, sempre ficava perguntando o porquê de não ter seu outro padrinho ali. Havia acontecido algo? Bem, chamava seus pais e pedia para que fossem lá buscar o Choi. Se o soldado não trazia, então iam buscar, ora essa. 

— Se funciona pra ele, — Continuou acariciando o cabelo ondulado, brincando com as mechas castanhas. — se o traz paz, então isso é ótimo.

Ficaram em silêncio, inalando juntos o aroma do benjoim, cada um aproveitando aquele remédio para algo diferente em si. Taehyung queria perguntar se o menor estava bem, onde estava seu outro padrinho, mas ficou receoso. O professor estava um tanto quieto, mesmo assim via-o se esforçando ao máximo para ser um anfitrião incrível, mas... fala sério! Viveram juntos a vida inteira. Conhecia aquele fazendeiro desde que se entendia por gente; ele achou mesmo que ia acreditar naquela falsa alegria?

Mas antes que pudesse falar qualquer coisa, mesmo sem saber bem que palavras usar, foi abraçado, puxado para o peito vestido com uma camisa branca que cheirava a algum perfume floral. Virou de lado na cama, o abraçando de volta, encaixando o rosto no pescoço do mais velho. Fechou os olhos e permitiu-se ficar ali... tranquilo...

Cansou de dormir no colo de Youngjae durante as aulas, o professor contava. Ele o segurava exatamente daquele jeito e o ninava murmurando alguma melodia. Hoje era meio muito grande para caber entre os braços de seu professor, mas ainda era o mesmo garotinho que amava sentir o cheiro floral e ouvir melodias sussurradas.

E o Choi sabia, por isso se preocupava tanto. Seu menino ainda era tão novo...

— Escuta, Tae, — Iniciou ainda brincando com o cabelo longo do afilhado, sobrinho. — você me faz lembrar da minha juventude... — Sorriu nostálgico, as costas escoradas na cabeceira da cama. Enrolou uma mecha macia entre os dedos. — me casei com a sua idade, me formei muito cedo da universidade, logo estava em Seul, tendo que ser adulto sem nem entender muito bem o que isso significava. — O garoto continuou em silêncio, demonstrando querer ouvir, então continuou. — Sempre vivi com meus pais, sob a proteção deles, então quando precisei viver em um lugar sem pessoas que faziam tudo por mim... eu fiquei muito perdido.

— Mas o padrinho estava com você. — Acrescentou óbvio e o acastanhado mais velho ponderou.

— Estava. — Concordou. Sim, Jaebum sempre esteve ao seu lado! — Ele se esforçou muito pra suprir tudo o que eu precisava, mas tem coisas que apenas eu posso fazer por mim. — Taehyung assentiu compreensivo. Amava a história de seus padrinhos tanto quanto amava a de seus pais. — E sabe o que eu e o Jaebum nunca contamos sobre isso?

— O quê? — Virou um pouco o rosto para cima, querendo ver o homem de olhos felinos que agora sorria melancólico.

— Nós nos arrependemos de casar tão cedo e só descobrimos isso quando estávamos separados durante o serviço militar. — Viu a expressão estranha do menino, então acabou rindo antes dar-lhe um beijinho no vinco entre as sobrancelhas. — Nós dois concordamos que deveríamos ser um pouco mais prudentes, pacientes. Que eu não tinha idade, nem ele, pra isso. Ainda podíamos esperar um pouco mais.

— Mas-... — Continuou confuso. Aquilo não fazia sentido. — eu não entendo. — Murmurou realmente desapontado em ouvir aquilo. Jaebum e Youngjae sempre pareceram estar em outra sintonia. — Vocês sempre pareceram certos de tudo que-...

O budista suspirou e negou. Não era bem assim. Ele amava Jaebum com sua própria vida e, realmente, não se via sem ele. Nunca. Era seu primeiro e único amor desde a juventude, não o trocaria por nada e nem ninguém. Com ele teve seus melhores anos, melhores memórias... mas mesmo assim, não era perfeito. Ninguém é! Todos viam o que queriam mostrar, mas não era tecnicamente tudo o que tinham.

Todo casal tem seus altos e baixos. E, o mais importante, só quem saberia tudo sobre aquele relacionamento, que entenderia do ponto inicial até o final, eram os dois que estavam envolvidos. Ninguém mais. Então... não esperava que as pessoas entendessem mesmo.

— É questão de autopreservação e amadurecimento. Coisas que apenas o tempo vai nos dando por situações que precisamos enfrentar.

Então o artista plástico ficou em silêncio, pensativo. Seu padrinho estava falando de si próprio, mas querendo dar indireta para seu casamento? Era isso? Piscou rapidamente os olhos. Poderia ser. Seus pais estavam preocupados com isso também. Principalmente por conta de sua idade.

Ao que parecia, todos achavam que era novo demais para se comprometer tão seriamente.

— Eu não vou me arrepender. — Respondeu depois de algum tempo em silêncio, ainda recebendo carinho no cabelo. — Não tem como. — Ajeitou-se no abraço, querendo observar o lindo rosto do professor. — Sabe quando eu notei isso? — O de cabelo acobreado moveu delicadamente o rosto, pedindo continuação. — Quando eu morri naquele domingo à noite. Eu jurava que ia acabar perdendo ele, não tinha forças o suficiente para segurar as pontas dessa vez. Meu corpo não aguentou todo o peso, meu cérebro, meu coração... — Manteve o tom calmo, baixo, embora estivesse sério. — Mas quando eu voltei, ele estava lá, lutando por nós dois, por mim... sozinho. Enquanto eu não tinha forças nem pra abrir os olhos, ele estava fazendo uma guerra pra nos salvar. — Riu fraquinho, nasal, ainda sem acreditar na coragem do noivo. Ele foi muito bravo! — como eu poderia pensar em me arrepender se eu voltei justamente por ele? Pra me casar com ele. Pra ser o marido de Kim Yoongi.

O Choi ficou sem palavras. Realmente não sabia o que dizer. Prometeu a Seokjin e Namjoon que tentaria conversar com Taehyung – porque Yoongi não dava abertura para essas conversas mais profundas. Apenas Jaebum tinha essa brecha. Então, tentaria. Também estava preocupado com o afilhado, por tudo o que aconteceu e estava acontecendo.

Só que não esperava ouvir aquilo.

— Por que eu iria esperar mais se já esperei anos pra chamá-lo de meu? — A voz quase não saiu, de tão rouca e baixa. Os olhos grandes analisavam o outro, realmente esperando ser contrariado. — Tudo o que eu fiz, foi esperar. Aguardar pacientemente o dia que eu poderia ser dele e ele ser meu, sem mentiras, sem segredos. Então por que eu deveria continuar esperando se esse dia chegou?

— Estamos preocupados com vocês, meu filho. — Confessou em um suspiro, tocado por aquelas palavras bonitas. Não tinha como fazê-lo mudar de ideia, certo?

Era mesmo igual a si na juventude. Brigou por Jaebum até o último segundo, então por que estava tentando conter Taehyung? Deveriam mesmo deixá-lo brigar por Yoongi. Aliás, brigar não. Já haviam passado dessa fase.

Que os deixassem casar de uma vez.

O de cabelo longo sorriu, realmente sorriu. Ficava feliz por ter tanta atenção, cuidado e preocupação de seu padrinho, mas estava bem. Agora estava.

— Não se preocupe, padrinho. — Pediu com convicção, sabendo que não adiantaria, mas mesmo assim... — Agora sim começa nossa vida, nossa felicidade.

E era verdade. Agora sim era o tempo de felicidade. Leve, limpo das mentiras e segredos, puro e totalmente vivo. Cem por cento vivo, pronto para desbravar o mundo e derrotar qualquer gigante. Derrubar muros e conseguir chegar no momento onde diriam "sim" um para o outro. Em todos os sentidos.

Sim, eu te amo e todo mundo vai saber.

Sim, eu sou seu e você é meu.

Sim, eu aceito. Sim.

— Que Buda te proteja, porque você é igualzinho a mim, garoto. — Zombou risonho, lembrando de si mesmo na idade do maior que gargalhou.

— Deve ser por isso que passo tanta coisa ruim, certo? — O cutucou na cintura, ganhando risadas. Ele sentia cócegas muito fácil! — Buda me odeia tanto quanto odeia você.

Mas não tem problema, com ódio ou amor divino, conseguiu vencer aquela guerra mesmo. Sobreviveu e agora nada podia lhe impedir de casar com Kim Yoongi.

— Devemos meditar mais? — Murmurou para o afilhado que ainda gargalhava, então riu junto.

Buda lhe deu apenas um filho com Jaebum, mas a vida lhe deu cinco à mais para cuidar e amar. Então talvez não fosse tão odiado assim... gostava de pensar que não era.

Tudo bem que nenhum deles era certo das ideias, mas quem era? Fala sério! Por isso todos se davam tão bem e estava ótimo assim.


Notas Finais


Lembrando que esse capítulo tem parte dois e em breve ele vem aí pra vocês. Nesse momento da fanfic, vamos ver algumas pontas soltas, se encontrando. Problemas antigos se resolvendo, coisas burocráticas familiares.

O que o Tete diz pro Youngjae sobre o casamento com o Yoongi me fez... sei lá. Me sentir tão solteira e triste. Escrever essa fanfic é cada tapão na cara, sabe, vidas. É isso..............

NO MAIS, meu twitter para chamegos, choro e chutes: sarcasmoflet. A tag oficial da fanfic no twitter, o resto é fake news: #wuahtaegi. E até o próximo, 'cause we don't need permission to dance. BEIJO, BEIJINHO. ♥


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