História Outro tom de azul - Capítulo 4


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Categorias Once Upon a Time
Personagens Capitão Killian "Gancho" Jones, David Nolan (Príncipe Encantado), Elsa, Emma Swan, Liam Jones, Mary Margaret Blanchard (Branca de Neve), Milah, Regina Mills (Rainha Malvada), Robin Hood, Zelena (Bruxa Má do Oeste)
Tags Captain Swan, Captainswan, Emma Swan, Killian Jones, Once Upon A Time, Ouat
Visualizações 33
Palavras 7.406
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, lovebugs!

Mais um capítulo de OTDA saindo, espero que gostem. Tenham uma boa leitura e não se esqueçam da música inicial <3

Capítulo 4 - Respire fundo


Fanfic / Fanfiction Outro tom de azul - Capítulo 4 - Respire fundo

“You’ve taken lots of chances before, but I’m not gonna give anymore. Don’t ask me, that’s how it goes. [...] Don’t leave false illusions behind. Don’t cry, I ain’t changing my mind, so find another fool like before.” (m. Eye of the sky – Alan Parsons Project)

 

Um dia havia se passado desde a confusão com Milah e as vizinhas. Desde que Killian assumira a necessidade de definir, de uma vez por todas, o rumo que a vida dos dois seguiria.

Um dia inteiro que seu coração pulsava mais forte.

Respire fundo, vai passar.

Ele estava nervoso e não conseguia ignorar tal sensação, mesmo se tentasse. O formigamento nas mãos e inquietação estomacal lhe provocava o tempo inteiro e, ainda mais, a cada passo dado em direção ao seu apartamento.

Jones não sabia se agradecia ou amaldiçoava os membros da banda por cancelarem outra sessão, o liberando mais cedo do serviço e, com isso, antecipando seu confronto com a esposa.

Em parte, ele já poderia sentir o que estaria para ser resolvido, mas Killian ainda alimentava aquela pontinha insistente e incômoda de esperança que estava fixada em seu peito. Como ele poderia evitar?! Suas irmãs estavam pra lá de corretas, ele era um romântico incorrigível e, por esse mesmo motivo, insistiria até o fim.

Killian optou por seguir o trajeto a pé, respirando fundo e recolhendo suas energias para conversar civilizadamente com Milah. Aproveitava, também, para observar as pessoas e, por vezes, até mesmo se questionava se alguém naquela multidão estava tão infeliz quanto ele.

O moreno parou alguns instantes para observar o céu e tirar dali alguma previsão para o dia, corroborando ou excluindo hipóteses elaboradas por sua mente fértil. Entretanto, lá estava o azul mais distinto que tinha visto em Nova York: um misto da tela acinzentada que lhe era de costume para o meio da tarde, mas, também, trechos pontuais de um azul intenso e vivo.

Ora, se nem mesmo os céus poderiam lhe dizer o que estava por vir, por que ainda tentava?

Ignorando contato visual com alguns possíveis conhecidos e duas ou três mensagens recebidas no celular, seguiu seu caminho para casa. Aquele era seu momento de solidão, seus minutos de paz antes da tormenta.

Ninguém iria atrapalhá-lo.

Ao chegar no andar de seu apartamento, já sentindo os pulmões trabalharem com certa dificuldade, teve uma espécie de retorno à cena do dia anterior. A porta de sua casa estava aberta de maneira escancarada, algo que jamais acontecia, e tudo o que ele pensava era: Milah saiu mais uma vez, Danny ficou sozinho, Ariel veio salvar.

Respire fundo.

Seria abuso pedir um chá de camomila para dona Aurora?

Vai passar.

E, dando passos largos até seu destino final, repetiu como um mantra: “Ariel está aqui. Ariel veio salvar. Ariel está aqui. Ariel veio salvar.”

A sala de estar, jantar e cozinha eram completamente integradas, o que permitia uma visão ampla e clara do cômodo inteiro apenas da porta de entrada, e foi assim, sem muito esforço, que ele a encontrou.

Stewart estava de pé, perto da ilha da cozinha, beijando um outro homem. As mãos do indivíduo seguravam a cintura da morena de maneira possessiva, o que denunciava não ser um evento novo para nenhum dos dois, e ela estava mais que entregue ao carinho de seu amante.

Killian não sabia o que fazer, a voz lhe faltou e sequer xingamentos saíam de sua garganta, deixando-o apenas com o olhar assustado, observando até que a cena chegasse no final. Espectador silencioso de sua própria dor.

E, como se já não fosse ruim o suficiente testemunhar a traição da esposa, Jones notou três malas próximas do sofá principal – e foi ali que seu coração começou a acelerar de maneira descontrolada. Ela planejava ir embora, sumir dali.

Onde estava Daniel?

— Mas que merda é essa aqui? – disse finalmente com o pouco de força que lhe restava, interrompendo o momento da dupla que, aparentemente, não terminaria tão cedo.

E, quando os dois viraram para encará-lo, tudo começou a fazer sentido. Compreensão e raiva crescendo de maneira expoente e proporcional. Aquele era o mesmo cara que encontrara no bar dias atrás e que trouxera a morena desacordada diversas vezes. Jason.

Oh, claro! “Peça para que ela me ligue quando tudo estiver bem”, que imbecil!

— Killian. – Milah falou assustada. – O que está fazendo aqui? Seu horário—

— Eu sei muito bem qual é o meu horário.

— Você nunca chega tão cedo... – murmurou ao dar passos hesitantes, ainda inquieta pelo flagrante.

— Então é isso que você faz quando eu estou fora? Chama o seu “amigo” para vir aqui em casa? – Jones retornou, fechando a porta para poupar os vizinhos do que estava prestes a acontecer. – Qual o próximo passo? Levá-lo para a nossa cama? Aliás, quantas vezes você já fez isso? – ele disparava irritado.

— Calma, cara, não é bem assim. – o outro homem tentou intrometer na conversa, instigando o moreno ainda mais.

As orelhas e nuca avermelhadas de Killian eram prova perfeita do ódio que o dominava e não fazia questão alguma de esconder. Jones nunca fora de esconder seus sentimentos, não seria naquele momento que desistiria de tal transparência.

— Ele nunca veio aqui dentro, é a primeira vez. – Milah argumentou. – Me desculpa, eu não queria que fosse assim, eu achei que chegaria mais tarde. Eu teria saído antes que pudesse voltar e—

— Sair antes que eu chegasse? Onde está Daniel? O QUE DIABOS VOCÊ FARIA COM O MEU FILHO? – vociferou, perdendo completamente a compostura. – Você ia simplesmente levar Danny sem que eu visse? E junto com seu amante?

Stewart poderia fazer o que quisesse com ele, mas não permitiria que ela levasse um fio de cabelo sequer do garoto. E mataria por isso se fosse preciso.

— Eu não iria leva-lo comigo. – falou de maneira firme.

Jones não sabia se ria de desespero, alívio ou se ficava ainda mais enfurecido pela atitude que a esposa havia escolhido tomar.

Respire fundo.

Mas, honestamente, por qual razão ele ainda se surpreendia? Não era tudo que Milah tinha feito nos últimos meses, abandonar a criança sozinha em casa?

Não deixe a raiva dominar.

— Você é covarde, Milah. Uma grande e estúpida covarde! – acusou Killian, sentindo as primeiras lágrimas escorrerem pelo seu rosto.

— Não fale assim com ela! – Jason defendeu a morena.

— Cala a boca! – o músico gritou para o homem. – Você ainda está na minha casa, então se não quiser ser silenciado à força, veja se tem um pingo de dignidade restante dentro de você e faça isso sozinho.

— Você não tem direito de falar assim conosco. – Milah murmurou.

— Oh, não? A adúltera agora tem os sentimentos feridos? Você planejou isso desde o princípio e ainda teve a coragem de me chamar de baixo! – Jones retrucou. Stewart notou a mudança instantânea no moreno, com o escurecer dos olhos azuis e a presença de uma sombra assustadora em suas orbes. Não tinha mais afeto algum ali, apenas amargura. – Disse que queria mais tempo com Daniel, mas, na verdade, estava apenas arrumando desculpas para se encontrar com o amante! – delatava, aumentando o tom de voz cada vez mais. – E colocando o palhaço aqui para se matar de tanto trabalhar!

— Killian eu—

— Dezesseis horas por dia. De segunda a sexta! E tudo para dar a você e Danny a melhor vida possível. Eu sacrifiquei o meu próprio corpo para atender ao seu pedido e, enquanto isso, você estava abandonando nosso filho todos os dias para abrir as pernas para esse desgraçado?

— Não foi bem assim. Eu não conhecia o Jason antes e não pude controlar, eu-eu...

— Você é baixa, Milah! – berrou novamente. – Elaborou todo esse plano sujo para cima de mim, me fez sentir culpa pelos seus chiliques e jogou toda responsabilidade nas minhas costas enquanto tudo o que você fazia era encher a cara e me trair. – prosseguia, deixando as lágrimas rolarem de seu rosto e retirando minimamente o pesar de seu peito, e que se dane Steve! Ele já havia sido otário por tempo demais. – Eu fui te buscar bêbada num bar em uma semana, Danny quase foi sufocado na outra e ainda assim eu acreditava que você poderia voltar ao seu normal.

Jones riu debochado e, àquela altura, não sabia mais se era pelas atitudes de Stewart ou sua própria ingenuidade.

— Eu não queria que as coisas fossem assim. – a mulher começou com a voz embargada. – Não me leve a mal, não é nada com você. Killian, você é um homem incrível e foi um marido maravilhoso, mas—

— Espera! – ele a interrompeu, levantando uma das mãos. – Você acha mesmo que eu estou puto por você me trocar por esse aí? – indagou, apontando para Jason do lado de Milah. – A minha raiva é pelas suas mentiras, pela cara de pau que você teve em vir para dentro de casa todos os dias da forma que vinha e ainda tentar virar o jogo, se colocando no papel de vítima. Você precisava de que? De algum suporte para sustentar suas traições? Colocar a culpa no imbecil aqui te fez sentir melhor?

— E você queria que eu te falasse que estava saindo com outra pessoa, é isso?

— Não é lógico?! – exclamou abrindo os braços. – E que falasse antes de sequer começar, isso teria nos poupado essa cena ridícula de vocês e resolvido toda essa merda há muito tempo!

— Então você não sente absolutamente nada por me ver com outro homem? – a morena indagou, ignorando completamente os protestos de Jason ao seu lado e, por um instante (mesmo que mínimo), Jones pode sentir a dor em sua voz.

— VÁ SE FODER, MILAH! É isso que você quer ouvir sair da minha boca? Quer me ver lamentar a sua perda e ajoelhar para que você fique? – começou de maneira ríspida. – Quer me ouvir dizer que te amo? Pois está aí, eu ainda te amo apesar tudo, porque nós passamos anos juntos e, diferentemente de você, meus sentimentos não somem do dia para a noite. Mas se quiser me ver implorando pela sua permanência, comece a sonhar com isso, pois não tem a mínima chance de acontecer na vida real.

— Me ama e não me quer?! – questionou de maneira sarcástica. – E como isso é possível?

— Por que diabos eu vou querer alguém que só me usou e traiu? Eu tenho mesmo cara de otário, não é? – Jones comentou descrente e, olhando para Jason parado ao lado dela, começou a rir. E ele só não sabia ainda se era de deboche ou desespero. – Sabe o que é mais impressionante nessa história toda? Você estava comigo e corria para ele, agora você está prestes a ficar com ele e quer que eu corra atrás de você. Quão dependente você é de seu ego inflado, Milah?

— Não me coloque no meio disso! – o homem retrucou, mostrando-se firme pela primeira vez. – É completamente normal e aceitável que ela se sinta dessa maneira, você mesmo disse que ficaram anos juntos. Tenho plena consciência que ela não deletou você por completo e jamais a obrigaria ser fria num momento delicado como esse.

Jones ignorou o comentário.

A sala entrou em um silêncio incômodo até que a mulher resolveu se mover e ir até a ilha da cozinha novamente, tomando um bocado de papéis em suas mãos e caminhando até o marido. Sem qualquer explicação, simplesmente entregou o conteúdo, esperando que o moreno os examinasse e, por fim, fizesse seu pronunciamento.

Logo nas primeiras páginas, Killian já sabia do que se tratava: o divórcio e guarda de Daniel. Entretanto, ao ler alguns trechos de forma dinâmica, surpreendeu-se quando viu que a mulher não solicitava nada em troca, apenas a anulação do matrimônio e a transferência total da responsabilidade do filho.

Jones não pode evitar sentir pontadas no peito a cada linha que lia ou consideração demarcada.

Ela estava literalmente os abandonando, deixando tudo para trás.

— Eu te pedi uma coisa, Milah. Diálogo. – o moreno respirou profundamente antes de continuar. – E o que você fez? Arrumou as malas, chamou o amante e preparou sua fuga. Iria fazer o que depois?! Largar o bebê mais uma vez para esperar a minha chegada e rezar para que ele não se sufocasse no processo? – ele disse antes de balançar os papéis que a mulher havia o entregado. – E você preparou tudo com antecedência! Preparou toda documentação enquanto o idiota do seu marido se matava para te agradar de alguma maneira e entender o que diabos tinha acontecido com você.

— Eu só queria facilitar as coisas, Killian. Ir embora e te deixar livre de vez de mim... eu não fiz por mal. – murmurava em meio ao choro, recebendo o abraço de lado do novo companheiro.

— Não se culpe, meu amor, você fez o que estava a seu alcance. – Jason comentou, provocando uma nova onda de ira em Jones.

Ele apenas observou o momento, mais uma vez, descrente do que estava vendo e ouvindo.

Aquilo só poderia ser um maldito sonho bizarro.

— Como é que pode você falar uma coisa tão estúpida dessas, pelo amor de Deus?

— E você queria que eu fizesse o que então, Killian? – ela retrucou nervosa. – Queria que eu preparasse as coisas de Daniel e o levasse comigo? Nenhuma das duas alternativas eu consigo o visualizar feliz.

— Duas? Só isso? Acho que encontramos o problema principal desse circo aqui então. – disse ao balançar os documentos de novo. – Você considerou apenas dois desfechos e nenhum deles é minimamente adulto. Ontem eu fui bastante claro quando disse que queria sentar e conversar com você, no entanto, veja só qual foi a sua decisão! – Jones exclamou ao esticar os braços em direção às malas. – Eu não ficaria feliz de maneira alguma, você está coberta de razão nesse ponto. Mas pense por um lado, agora eu e você temos algo em comum de novo, senti isso todos esses meses. Dói saber que o outro jamais ficará contente com o que somos de verdade, não é?

Killian se aproximou a passos lentos de Milah enquanto falava, ficando a apenas alguns centímetros de distância quando ele finalizou. E aquela foi a primeira vez que o casal sustentou uma troca de olhares, por mais de alguns breves segundos, desde que a confusão começou.

Stewart sentiu a ardência de suas lágrimas, representando o buraco que se formava em seu peito. Querendo ou não, o homem a sua frente ainda era o seu amor, aquele que esteve ao seu lado por anos e que construiu uma vida junto com ela. Contudo, essa mesma vida não suportava suas ambições e, naquele momento, ela precisava seguir seus próprios sonhos, por mais que isso fosse egoísta.

Jones, por outro lado, não chorava mais pela dor da traição ou pela raiva das atitudes infantis da esposa. Era alívio. A libertação de um homem que se colocou no pior dos cenários para agradar alguém impossível, a retirada do peso de suas costas com a realização de que o problema nunca esteve com ele.

Era ela o tempo inteiro.

— Vai embora logo, Milah. – disse, quebrando o silêncio ao se afastar. – Mas eu quero que saiba de uma única coisa: da porta para fora, não tem mais volta. Não digo do nosso relacionamento, esse já virou pó. Falo da sua relação com Daniel. Você deixou claro que não quer nada com ele e não o terá volta. Ele irá crescer sabendo da verdade, não vou mentir para o meu filho.

— Eu estou ciente disso, Killian. – ela replicou firme, embora visivelmente entristecida, começando a pegar uma de suas malas e deixando as outras duas com o amante. – Eu não sirvo para brincar de casinha, essa não é a vida que eu planejei para mim. Ter um filho foi um erro. – a morena dizia entre soluços. – Eu preciso mudar a minha vida.

Ter um filho foi um erro.

Ele não sabia o que poderia doer mais que aquela frase, entretanto, preferiu não comentar nada a respeito. Não por falta de desejo, mas pela incapacidade de elaborar seus pensamentos diante de tal atrocidade.

Como Milah conseguia visualizar sua vida sem Daniel? E, ainda, classifica-la como “melhor”?

— Não me venha com essa história de “mudar de vida”, porque, até onde eu sei, “abandono” ainda não mudou de nome.

— Por favor, Killian, não complica as coisas para nós dois. Por favor. – suplicou num sussurro.

Ele não falou nada, apenas colocou as folhas na coxa e assinou página por página dos papéis que lhe foram entregues. Quando acabou, fez questão de mostrar ao novo casal cada assinatura sua bem ao lado das de Milah, feitas previamente.

— Estão livres agora.  – Jones disse finalmente, e seu tom de voz transbordava desprezo. A ânsia de nunca mais vê-los também estava presente em seu olhar, contudo, havia uma coisa que ele desejava dizer e não perderia essa última oportunidade. – Eu só tenho uma pergunta.

— E qual é? – a voz dela apareceu enfraquecida.

— Você se lembra do que me disse quando descobriu que estava grávida de Daniel?

— Killian... – o murmúrio embargado da morena denunciava sua recordação, mas o músico queria ouvi-la dizer. Ela não havia feito o mesmo com ele poucos minutos atrás?! Era uma troca justa.

— Responda.

— Se ela—

— Você ainda está aqui? – o canadense questionou, visivelmente incomodado com as interrupções de Jason. – Eu estou falando com ela. Diga, Milah.

— Eu... E-eu disse que tinha medo de ser mãe. – respondeu, rendendo-se ao choro.

— Por qual motivo? – Jones insistiu, determinado a ouvir as palavras novamente.

— Killian... Por favor... – suplicou, mas a carranca do homem não se desfez. E, alguns soluços depois, Stewart pareceu tomar coragem para continuar. – Eu disse que não queria ser como o meu pai.

— Ótimo. Eu só queria te dar os parabéns por ter falhado incrivelmente bem na tarefa. – Jones replicou ao sentir o choro retornar, dificultando qualquer firmeza em sua voz. Ele a odiava por tudo o que causaria na vida do filho. – Iria deixar sua família para trás da mesma maneira que ele fez quando você era pequena... Sinto muito por ter chegado antes e interrompido a réplica da cena, Nora.

— Não me chama assim! – foi a vez da morena gritar. – E é completamente diferente, ele foi embora porque amava mais o carteado que sua esposa e filhos. Você sabe disso.

O Senhor Stewart sempre chamou a filha por seu nome do meio e, desde o abandono, Milah passou a ignorá-lo com todas as forças. Esse foi um dos motivos pelos quais ela optou por não pegar o sobrenome de Killian, alegando não querer unir o “Jones” à maldição de sua própria família – e justificando o mesmo para a escolha do nome do pequeno Danny.

Embora tivesse se chateado no passado, no momento atual, vibrava com tal recordação. Seria um problema a menos, no final das contas, já que ele se recusaria a deixar o filho carregando o nome da mãe por aí. Ou permitiria que ela manchasse a história dos Jones.

O canadense deu de ombros e, abrindo a porta para que o novo casal passasse, complementou:

— Eu não vejo muita diferença entre vocês dois. O fruto não cai tão longe da árvore, eles dizem.

E antes que ela pudesse oferecer qualquer retorno, o choro de Daniel ecoou pelo apartamento.

Killian sentiu seu coração quebrar em milhões de pedaços, pois era como se o filho estivesse sentido a distância da mãe e o que estava para acontecer. Como num reflexo, a mulher fez menção de ir até o quarto do garoto para vê-lo, mas foi impedida pela negativa alta e clara do homem.

— Não! Você vai embora. Agora. – disse entredentes. – Nem pense em tentar entrar naquele quarto.

— É o meu filho!

— Não mais, Nora. – Jones respondeu com os papéis em mãos. – E a casa também não. Vocês já estão com tudo o que precisam, agora saiam.

A partir dali tudo não passou de um borrão para Jones.

Ao mesmo tempo em que Daniel continuava a chorar no quarto, Milah saía de casa ao lado de Jason, levando suas malas. E, como se já não lhe fosse informações suficientes, a voz de Regina ecoou no corredor, enfrentando a ex-cunhada sem sequer saber o motivo.

— Mas que palhaçada é essa aqui? – ele ouviu ao longe.

Respire fundo.

Vai passar.

— Eu sabia que não podia confiar em você!

Tem que passar.

[...]

— Killy, acorde, por favor. – uma voz doce o chamava, enquanto sentia mãos delicadas o chacoalhando.

Com certa dificuldade, o moreno abriu os olhos, piscando algumas vezes para se adaptar à claridade. E, também aos poucos, a consciência lhe trouxe as últimas memórias antes que ele desmoronasse no sofá.

— Você está bem? – a ruiva insistia.

Era Zelena.

Quando Milah e Jason chamaram o elevador, não esperavam encontrar as irmãs Mills ali e não precisava ser nenhum vidente para saber que outra confusão havia começado. Contudo, mesmo que Regina quisesse arrancar os cabelos de Stewart, fio a fio, a mais velha estava por perto para impedi-la de uma nova cena pública.

E Jones pode ouvir, mesmo que de maneira abafada, a voz argumentar que ele era mais importante.

E lá estavam elas, poucos segundos após o comentário, adentrando seu apartamento como dois furacões. Como numa dança ensaiada, as duas se dividiram em tarefas: enquanto uma corria para atender Daniel, a outra ficava por conta de Killian. Depois disso, não tinha mais nenhuma lembrança.

— Sim. Eu acho. – Jones respondeu incerto.

— Tome um pouco desse chá, acabei de fazer. É camomila. – Zelena disse, oferecendo-o uma caneca com o líquido quente. – E cuidado, não deu tempo de esfriar ainda, não vá se queimar também!

— Obrigado. – respondeu simplesmente, aceitando a bebida e logo o soprando um pouco. – Onde está Daniel?

— Com Regina no quarto, não se preocupe. – replicou delicadamente, sentando-se ao lado do irmão e acariciando seus ombros.

— Quanto tempo eu dormi?

— Só meia hora... Deve ter sido algum tipo de descarga emocional, quando chegamos sua pele estava extremamente quente e você tremia um pouco.

Ele assentiu, mas não ofereceu nenhuma réplica vocal, voltando a soprar e bebericar o chá feito por sua irmã. Apenas o cheiro da camomila fazia seu trabalho em acalmá-lo, mas não podia negar que a bebida sempre o colocava nos eixos, bem como faziam na fazenda.

— Está muito bom. Obrigado.

E foi a vez de Mills não retornar, apenas balançando a cabeça e esperando que Jones finalizasse.

Um mundo de pensamentos e hipóteses passavam pela cabeça de Zelena, mesmo sem saber do que se tratava toda aquela confusão. Tudo o que sabia era: Milah havia os largado e ido embora com o amante, o que já era motivo suficiente para provocar sua revolta, mas algo lhe dizia que ia muito além daquilo. E, exatamente por isso, culpava-se por não ter dado ouvidos às queixas de Killian quando teve oportunidade.

— Eu sinto muito. – falou em tom baixo após alguns minutos de silêncio.

— Não foi culpa sua. – ele retornou, deixando a caneca na mesa de centro da sala. – Milah fez as próprias escolhas.

— Deveria ter acreditado em você antes. – Zelena comentou ao encarar o irmão. – Você tentou nos dizer várias vezes que algo não estava certo e não ouvimos o seu pedido de socorro. Perdão.

Ele não respondeu de prontidão, sentindo os olhos arderem mais uma vez, mas sabia que o pedido da ruiva era genuíno. E quem seria ele para negar aqueles olhos tão carinhosos?

— Você está aqui agora, não é?! – replicou com um sorriso fraco. – Obrigado.

— Sempre estaremos, Killy. Agora venha aqui, me dê um abraço! – falou mais animada, abrindo os braços e esperando que Jones se aconchegasse, como sempre fazia.

— Como vocês sabiam que eu precisava de vocês? – indagou assim que abraçou a irmã.

— Estava tomando um café com Regina e ela começou a sentir um aperto no peito, logo depois seu pai ligou perguntando se estávamos bem e se sabíamos onde você estava. Parece que ele te mandou uma mensagem e você não respondeu, algo do tipo. – começou a explicar. – Dissemos que provavelmente você estava ocupado com a banda, mas que passaríamos lá para ter notícias, já que estávamos no caminho.

— E não me acharam lá. – complementou, já sabendo do restante da história. – Eu amo vocês, obrigado por virem me ver.

Killian deu um beijo na bochecha de Zelena, mas logo retornou para o abraço apertado da irmã, permanecendo em silêncio novamente até a interrupção da Mills mais nova.

— Eu espero que tenha espaço ai para mim!

— Sempre tem, você sabe disso. – Jones endireitou o corpo no sofá, deixando apenas um braço envolto da ruiva e esticando o outro para que a morena se acomodasse.

— E Danny está bem, o choro era só sede, não se preocupe. – comentou para tranquiliza-lo.

O trio ficou abraçado por um bom tempo sem iniciar qualquer tipo de conversa, e permaneceu unido quando Killian começou a contar sobre os últimos acontecimentos do casamento, até a discussão que tivera com Milah antes de chegarem.

Para Jones, a chegada das duas foi um presente de Deus, intermediada por sua Estrela Dara, pois ele não sabia o que faria sem sua família ao lado naquele instante. Desejava que Brennan e Cora estivessem ali para confortá-lo também, mas, além disso, a ausência de Liam era a que mais lhe machucava.

E ele não estava preparado para dar a notícia a nenhum deles. Mas, inevitavelmente, teria que fazê-lo.

O moreno evitou qualquer tipo de diálogo com os pais ou irmão por um mês, até ser repreendido por uma Regina Mills furiosa. E ele não a culparia por apressá-lo em tornar as coisas oficiais.

— Killy, eu não quero esse tipo de confusão no meu casamento. – argumentou. – Eu sei que é difícil para você, mas não é justo que você fale logo no dia em que vou me casar com Robin. Você me pediu ajuda para ir ao cartório e firmar seu divórcio com Milah e eu fiz tudo, nossa família inteira tem direito de saber.

— Eu sei disso... Eu sei. Eu vou falar?

— Promete?

— Sim. – replicou com um suspiro.

O que ele não fazia por sua irmã?!

O músico não demorou muito para telefonar e contar, na versão resumida, a Brennan e Cora sobre o fim de seu matrimônio, avisando-os também que Regina havia proibido qualquer aproximação de Milah na celebração e festa.

E tudo correu como ele esperava: espanto, negação, inúmeras indagações de “e se”, até piedade e aceitação relutante. Um cenário típico, podia compreender a apreensão de seu pai e madrasta, mas sabia que não teria a mesma sorte com Liam.

Com o irmão, Jones preferiu fazê-lo por chamada de vídeo e, ao contrário dos mais velhos, revelar a versão completa dos fatos. Mas ele sequer conseguiu chegar aos detalhes. Aconteceu que Milah já havia comunicado o ex-cunhado de sua separação e, obviamente, alterado inúmeras partes e momentos. Liam estava extremamente furioso com o irmão e nem o deixou dar sua versão dos fatos, desligando a chamada assim que Killian insistiu em se pronunciar.

Respire fundo, vai passar.

O moreno tinha consciência que sua vida mudaria completamente com a ausência de Stewart. Quem ficaria com Daniel? Como conciliaria seus empregos? Qual seria sua nova rotina com o filho e como poderia reorganizar tudo?

Regina e Zelena estavam sempre por perto para ajuda-lo, mas a disponibilidade de ambas diminuía com a proximidade do casamento da morena e todos os preparativos necessários. O pesar no olhar e voz dos pais, mesmo que por Skype, não lhe ajudava em nada e Liam sequer o respondia mais.

Jones tivera que se adaptar a muitas tormentas de uma vez só e dia após dia tornava-se mais fechado ao mundo.

Ele tinha abandonado a banda e voltado a trabalhar apenas com as composições no período da manhã e tarde, enquanto Daniel ficava no daycare que, graças a alguns contatos de Robin, conseguira a vaga e um desconto generoso. Em casa, desdobrava-se para manter o local limpo, as comidas sempre preparadas e, ainda, cuidar corretamente do filho.

Oh! E, claro, tentar encontrar alguma desculpa temporária sempre que Danny chamava por sua “mama”.

O aperto em seu peito parecia piorar com o passar dos dias, pois sentia-se completamente solitário. Por mais que as irmãs aparecessem ocasionalmente, Robin o chamasse para sair e até mesmo Ariel e Eric o visitassem com ofertas de ajuda, nenhum deles preenchia o vazio que Nora havia deixado.

Ele não trabalhava mais dezesseis horas por dia, mas estava sempre na correria dentro e fora de casa. Sua saúde física e mental continuava deixada de lado, ignorada por completo e substituída por necessidades primárias – que, em suma, eram diretamente ligadas ao filho.

E ele sequer percebia o quão desgastado estava.

[...]

O casamento de Regina e Robin finalmente havia chegado e Killian não poderia estar mais feliz por seu melhor amigo e irmã. Lhe aquecia o restante do coração saber que ao menos um deles estava feliz, pois há meses tentavam ajustar o orçamento e fazer a cerimônia acontecer.

Ao olhar-se no espelho, contudo, deparou-se com um homem pálido e com barba de dias para fazer. Apesar de ter gostado relativamente do novo visual, vendo os pelos sem qualquer aparo, parecia ser um bêbado qualquer jogado na rua – ou um aspirante a Papai Noel, se imaginasse tudo aquilo na cor branca.

Ele sabia que precisava dar um jeito em sua vida, mas não tinha forças... Mas, certamente, não queria que sua família lhe visse hoje de tal maneira e jorrasse toda aquela pena. Ele não poderia suportar isso.

Contudo, Killian sequer imaginava que tudo estava prestes a desmoronar ainda mais...

Regina estava deslumbrante em seu vestido de noiva que, certamente, roubou o ar de seu pobre amigo Locksley. Com a sorte de ter uma estilista em casa, a morena pode fazer o seu modelo dos sonhos com o talento inegável de Zelena. A peça tinha toda sensualidade ao contornar as curvas da noiva, decorado por inteiro com rendas sutis e tudo aquilo que sua cúmplice sempre imaginou.

Ela estava linda.

E era esse o pensamento de Killian sempre que o coração apertava: “alegre-se, sua irmã está linda e realizando o sonho dela”. Mas ele deveria admitir, ver um casamento iniciar ao ter o seu há poucos meses arruinado, não era a melhor das sensações.

Para piorar todo desconforto que sentia, Brennan e Cora não deixaram de despejar todas as lamúrias quando o viram. Sim, ele sabia que estava com a aparência cansada, que era a primeira vez que ele deixava a barba crescer, que “Daniel parecia feliz apesar de tudo” e que os convidados estavam perguntando de Milah.

Ele sabia de tudo isso, mas será que poderiam poupá-lo ao menos por um dia?

Talvez, para os mais velhos, essa não fosse uma tarefa tão difícil, considerando que estavam prestes a explodir de alegria com a união de Regina e Robin. Entretanto, uma pessoa em especial parecia não seguir o mesmo ritmo.

— Não vai mesmo falar comigo? – indagou Killian, aproximando-se do irmão com as mãos nos bolsos e agradecendo por Cora ter se oferecido para cuidar de Daniel por um instante.

— Adianta de alguma coisa? – Liam retrucou sem encará-lo.

— Eu acho que sim. Nós ainda somos irmãos, esqueceu?

— Você pensou nisso quando não me contou sobre o que fez com Milah? – o mais velho questionou, virando-se para confrontá-lo.

— O que eu fiz? – o músico riu. – Qual a parte do “ela me traía e fugiu com o amante” você não entendeu?

— Isso é o que você diz.

— Ah, e existe alguma outra justificativa? – perguntou com a voz um pouco mais alta, chamando atenção das pessoas que estavam próximas.

— Ei! Vocês dois! – Brennan interrompeu a discussão antes que Liam pudesse responder. – As pessoas estão olhando, respeitem a festa da irmã de vocês.

— Esse idiota vem falar que eu fui o culpado pela separação e você quer que eu fique calado? – acusou.

E, sabendo que não poderia impedir que os Jones discutissem, o senhor apenas puxou os filhos pelos braços, levando-os até uma área externa sem qualquer convidado por perto.

— Querem se matar? Ótimo, façam isso aqui, longe o suficiente dos noivos.

— Não estava contente em estragar seu próprio casamento e queria arruinar o de Gina também, Killian? – Liam provocou, fazendo o irmão irritar-se e ir para cima dele na tentativa de deferir-lhe um soco na cara. Contudo, Brennan ainda estava ali e era forte o suficiente para separá-los.

— Qual o problema de vocês hoje?

— O que está acontecendo aqui? – a voz de Cora veio por trás dos homens, fazendo-os parar imediatamente e observá-la se aproximar com Daniel no colo e Zelena logo ao lado.

— Parece que esqueceram de crescer. – o mais velho esbravejou.

— Ao invés de me apoiar e saber como eu estou, o seu filho vem com mil pedras nas mãos e falando o que não sabe sobre o que aconteceu com Milah. Eu já estou comendo o pão que o diabo amassou e ainda tenho que aturar esse tipo de coisa? – o mais novo retrucou ao pai.

— Liam, deixa de ser babaca! Eu não acredito que você está fazendo isso com ele. – Zelena comentou, intrometendo-se na briga e recebendo o olhar repreensivo da mãe. – O que é, mãe? Ele está fazendo o que pode sozinho, ninguém o ouviu antes e agora que precisa de ajuda, ninguém move um dedo. Vocês continuam no Canadá e Liam sequer faz uma ligação!

— Era ele quem deveria ter ouvido o que Milah tinha a dizer e o que estava pensando. Ela me ligou dias após ter saído de casa e me contou tudo o que estava sentindo e a forma que foi expulsa de lá! – o outro argumentava, agarrando-se completamente na versão dada por Stewart. – Meu próprio “irmão” me ligou um mês depois e cheio de mentiras!

— E desde quando a palavra dela vale mais que a minha? – o moreno indagou exasperado. – Nem toda situação é igual a sua, Liam!

— Killian! – foi a vez de Cora repreender o homem, sabendo exatamente do que ele estava se referindo.

— Não toca nesse assunto. – Brennan complementou, apertando os punhos para tentar se conter.

— Ah, veja só, agora eu mexi com o protegido! – o músico começou de maneira debochada. – Ninguém pode falar sobre o passado de Liam, mas todos tem opiniões para dar sobre o meu, não é?

— É diferente e você sabe disso! – o outro respondeu com uma carranca.

— Exatamente! É diferente! Você perdeu a sua esposa porque não saia da faculdade e sequer dava atenção ao que Jamie tinha a dizer. Ela poderia gritar na sua cara que iria fazer um rodeio na sala de estar e você sequer olhava para ela! – disparou ao aproximar-se do irmão com raiva. – Não é porque você foi um marido e um pai de merda que tem o direito de igualar o meu divórcio com o seu!

E, então, o soco bem merecido em seu nariz, seguido do gosto metálico do sangue escorrendo em sua boca. Se ele estava tentando bater o recorde de atitudes babacas, estava de parabéns pelas últimas tentativas.

— Killian, qual o seu problema? – Cora indagou nervosa e, como poucas vezes, se posicionou de maneira maternal a um dos filhos de seu marido.

Apesar de estarem juntos há alguns bons anos, e até mesmo chamar os homens de “filhos”, a senhora Mills tentava ao máximo deixar as decisões e conversas mais sérias para Brennan. Naquele dia, porém, ela faria isso sozinha.

— O meu problema é que desde que minhas brigas com aquela lá começaram nenhum de vocês parou para me ouvir ou apoiar. Só Regina! – ele acusou. – E depois que a bomba estourou, graças a Deus, Zelena também veio me ajudar. Meu pai, madrasta e irmão pouco se lixaram para o que eu estava passando! E eu ainda tenho que aturar esse idiota defendendo a estúpida da minha ex? Eu tenho que desenhar para vocês que ela nos abandonou? – completou quase sem fôlego, tamanha rapidez que disparava seu desabafo.

E seu nariz doía.

— Querido, esse não é você falando. Onde está nosso Killian compreensivo e disposto a dialogar? Você nunca tendeu a esse tipo de agressividade. – a senhora tentou tocá-lo, mas o moreno apenas afastou.

— Afeto, diálogo e tudo isso aí só me levou para o fundo do poço. Veja só Liam! Ele é incapaz de pensar por si próprio desde que Jamie o deixou, tudo o que ele faz é balançar a cabeça e acatar tudo o que Milah diz. E ele ainda tem a cara de pau de falar que eu não fazia mais que a minha obrigação como marido, mas onde estavam os deveres dela?

— Meu amor, escute-me, por favor. – a voz suave da senhora era quase inaudível com o som alto da festa ao fundo. – Você ama o seu irmão, vocês precisam ajeitar as coisas.

— Não tem como ajeitar nada com ele! – Liam retrucou.

— Assunto resolvido, então. Eu já tive minha lição, Cora. O amor é uma fraqueza, não traz nada além de tormenta. – Killian replicou de maneira firme, esticando as mãos para pegar seu filho e sair dali o mais rápido possível.

— Eu também pensava assim, até conhecer o seu pai.

Ele riu de maneira debochada.

— Pode esquecer, não vou nem ouvir o resto.

— Killian, vai embora. – Brennan pronunciou-se novamente e, pela carranca, o músico poderia ter uma breve noção do quão irritado seu pai estava. – Não acho que sua presença seja bem-vinda aqui.

Aliás, “puto” era a palavra certa.

Ele era um idiota e merecia tudo aquilo.

Merecia sofrer sabendo que foi o responsável pela tristeza no olhar de Liam ao lembra-lo de Jamie e na decepção que causara em Brennan e Cora. Merecia ouvir o choro do filho ao afastar-se da avó e tia, e merecia encarar o olhar entristecido de Regina ao vê-lo sair de sua festa com o nariz ensanguentado.

Mills não estava o acusando de ter feito exatamente o que tanto havia suplicado para que ele não deixasse acontecer, mas era o que ele sentia.

O soco e o pedido do pai para que fosse embora dali era tudo o que alguém como ele poderia ter.

Ele foi traído e trocado pela esposa, abandonado sozinho com seu bebê. Havia estragado o casamento de sua irmã preferida, desapontado o restante da família e dito a coisa mais estúpida que poderia sair de sua boca, mesmo depois de ter jurado cumplicidade a Liam.

Ele era um idiota e merecia a solidão.

Respire fundo.

××××××××××

 

Killian não falava com o pai, madrasta ou irmão desde o casamento de Regina e a saudade em seu peito apertava. E a ocasião estava prestes a completar um ano e meio.

Dessa maneira, então, voltar para Prince George estava fora de cogitação, bem como pedir ajuda a qualquer um deles, mas permanecer em Nova York não era uma opção mais. Jones estava esgotado, cansado da rotina que tinha na grande cidade e precisava desacelerar o ritmo, caso contrário, iria surtar.

Graças a Zelena, ouvindo algumas conversas entre Brennan e Liam, o músico ficou sabendo que um dos antigos amigos da família estava precisando de um ajudante na nova fazenda e aquela era sua oportunidade perfeita. Mills ainda conseguiu o endereço para o irmão e tudo o que ele precisava fazer era encontrar o senhor Frank. Além de rezar para que o fazendeiro o desse chance de recomeço.

E sua jornada estava apenas começando.

O zumbido dos carros, passando em alta velocidade, era a única melodia que poderia se ouvir de dentro de sua picape parada no acostamento.

Killian fora obrigado a interromper sua viagem para que pudesse ajeitar a criança no banco de trás. O menino, de quase quatro anos agora, estava firme pelo booster e cinto de segurança, mas a cabeça pendia para o lado ao ser dominado por um sono profundo, que o impedia de manter a postura rígida.

O mais velho sabia que não seria fácil viajar com uma criança ainda tão dependente, cruzando quase toda extensão do país, mas também tinha consciência da necessidade de tal jornada. Eles precisavam fugir do passado, recomeçar e, finalmente, permitir que a vida fosse agradável novamente.

Ele não poderia deixar o filho crescer amargurado como a mãe cresceu. Ou como ele estava naquele momento.

Daniel merecia mais.

— Ah, Danny. Danny. Danny... – murmurou ao sair do automóvel e abrir a porta de trás para acomodar corretamente o garoto.

Em alguns momentos, olhar para ele era algo que o machucava, pois o moreno sempre encontrava traços de Milah. E ele odiava aquela sensação.

Jones não havia mentido para Cora, seu coração fechara-se completamente e um novo homem, mais rude e sério, nascera com o final de seu casamento. Mas ainda assim culpava-se por sentir aquilo, seu filho não era responsável por nada daquilo.

Perdido em pensamentos e na tarefa de ajeitar a criança sem acordá-lo, não percebeu quando um outro veículo estacionou logo atrás de onde estavam. Seu corpo ficou tenso rapidamente, esperando ter que iniciar uma fuga a qualquer momento e correr dos prováveis assaltantes de estrada, mas então a voz feminina apareceu.

E era doce demais para ser um perigo.

— Ei! Problemas com o carro? – ela perguntou ao se aproximar. – Sinto informar, amigão, mas o próximo posto e borracharia ficam bem longe daqui.

Virando-se para encarar sua companheira de acostamento, Killian quase engasgou-se com o ar com a imagem da mulher de cabelos longos e loiros. Ela era uma visão por si só, mas tinha algo em seu olhar esverdeado e postura confiante que lhe roubava qualquer palavra capaz de descrição.

— Hm, desculpa, eu te assustei? – indagou ao vê-lo ainda imóvel e sem reação.

Ele pigarreou, passando a mão pelos cabelos e atrapalhando-se para fechar a porta onde Daniel estava.

— Não, não, de forma alguma. Eu só estava distraído. – respondeu rapidamente, ajeitando a postura e apontando para o garoto através do vidro. – E não se preocupe, o carro está ótimo, só estava ajeitando o bebezão ali.

Sem cerimônia alguma, a loira se aproximou para observar a criança no banco de trás, espremendo os olhos para ver algo além do vidro temperado. E, em seguida, oferecendo-o um dos sorrisos mais lindos que já havia presenciado.

— Seu filho?! – questionou quase retoricamente. – Ele é tão fofo!

— Oh, obrigado. – respondeu sem jeito. – Danny ficaria se gabando com esse elogio, ele ama ter atenção.

— Ao contrário do pai, como posso perceber. – comentou divertida. E, esticando a mão para cumprimenta-lo, prosseguiu. – Emma Nolan.

— É um prazer. – o moreno replicou, tocando em sua mão delicada e balançando-a suavemente. – Sou Killian Jones.

— Igualmente, Killian. – retornou de maneira simpática. – Hm, não é querendo me meter, mas vocês dois parecem exaustos, falta muito tempo de viagem? Isso pode ser perigoso...

Em outras situações, a alma quase nova iorquina de Jones estranharia aquela preocupação da desconhecida, por outro lado, sabia como as pessoas do interior eram acolhedoras. E Emma, definitivamente, era uma delas.

Não havia perigo algum, ele sabia disso.

— É, estamos na estrada desde Nova York. – comentou, levando uma das mãos atrás da orelha e coçando de maneira nervosa.

— Woah! – exclamou, arrancando um sorriso raro do homem.

— Pode me dizer, exatamente, onde nós estamos? Meu GPS já era.

— No momento, no meio do nada. – retornou com uma breve risada. – Mais para frente fica Storybrooke, que é para onde estou indo.

— Meu destino final é perto de Sunburst, acha que chego lá ainda hoje?

— Acredito que não. Você está visivelmente cansado, não aguentaria tantas horas dirigindo. – Emma retornou com sinceridade. – E não é querendo fazer propaganda, mas meus pais tem um hotel fazenda e vocês podem passar a noite lá, seguindo viagem logo pela manhã. É mais seguro.

— Ah! – ele estalou a língua no céu da boca, oferecendo-a um largo sorriso e, pela primeira vez, prestes a entrar responde-la de forma brincalhona. – Agora eu entendi sua estratégia de marketing! Você fica na beira da estrada esperando por um forasteiro e assim que o vê, oferece os serviços do negócio de seus pais. Boa jogada, Emma.

E tudo o que Nolan podia fazer era gargalhar.

— Que droga! Não era pra você ter descoberto! – fingiu estar irritada.

— Mas não se preocupe, não vou contar seu segredo para os próximos turistas. Estava pensando em pendurar uma placa, mas vou deixar para lá.

— Ha. Ha. Ha. Muito engraçado!

— De qualquer forma, vou aceitar sua proposta. – comentou, levando as mãos aos bolsos. – Mas é melhor que tenha bastante comida na fazenda de seus pais, estou faminto.

— Me siga e veremos o que podemos fazer a respeito disso. – Emma disse de maneira travessa, afastando-se novamente em direção ao seu carro.

E só então ele notou o fusca amarelo da mulher.

Oh, definitivamente, ela era uma jovem repleta de surpresas. Singular em todos os sentidos.

— Te vejo em Storybrooke, então?!

Ela assentiu, mas, antes de entrar no carro, completou:

— Rancho Troll Bridge.

Respire fundo.

Isso pode passar.


Notas Finais


E então, o que acharam? Vejo vocês no próximo?

Novo capítulo sai na segunda feira. E ah, por favor, qualquer erro de digitação e etc vocês podem me avisar, às vezes alguma coisinha passa em branco na revisão! <3


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