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História Outsider - Capítulo 9


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Capítulo 9 - Capítulo Nove


A limpeza dos estábulos acabou comigo no banheiro para tomar um banho e tirar a sujeira da minha roupa. Segui para a aula de esgrima, William entregando as espadas para os campistas treinarem.

 Quando chegou a minha vez, eu fingi uma careta.

— Não tem algo mais bonito? — brinquei, porque não importava isso na hora de uma batalha.

— Não adianta ser bonito e não te proteger — replicou William, seco. Eu sabia disso. Não queria algo só pelas aparências. Tinha sido uma piada e ele não conseguiu entender! O que tinha de errado com ele? — Só pegue e veja se consegue manuseá-la.

 Assenti, fazendo como ele disse. Fui obrigada a usar um peitoral como proteção. Observei as instruções de Bart, um menino de Ares pouco mais velho que eu.

 Ele parecia Mark, e a raiva acumulada por causa do meu colega de classe começava a contaminar meus pensamentos quanto àquele garoto.

 Começava, só que não continuou quando ele apontou a espada para mim, sorrindo.

— Vamos ver como se sai.

 Sorri de volta, indo até ele. Alguns campistas treinavam entre si, outros apenas olhavam para nós.

 Bart fez um sinal com o dedo para chamar uma menina de cabelos coloridos — havia uma mecha de cada cor do arco-íris. Ela não hesitou, parando a alguns passos à minha frente.

— A menina da boca suja — disse a campista.

— Eu não xinguei ninguém.

 A menina deveria ser um pouco mais velha que eu também, uns dezesseis anos. Era maior do que, com a pele morena, sobrancelha marcada e acessórios escuros, desviando nossa atenção da cor da blusa do acampamento.

— Mas vai.

 Bart não disse nada, porém a campista veio em minha direção com a espada de bronze.

 Arregalei os olhos, erguendo a minha no mesmo instante em uma tentativa de bloqueio. Girei o calcanhar, desviando-me da lâmina dela.

— Não é justo.

— A luta nunca é justa, princesinha — a campista desferiu outro ataque.

 Consegui bloquear por reflexo. Ela empurrou a espada contra meu pescoço. Fiz força para afastar a lâmina.

 Tentei um contra-ataque, mas parecia que ela via todos os meus movimentos. A cada bloqueio, o som das lâminas ecoava pela área de treinamento.

 Suor pingava da minha testa. Meus braços doíam com os movimentos e o peso da arma.

 A luta nunca é justa.

 Cerrei meus dentes, aproveitando a sombra da árvore. Fora de nosso alcance, elas ergueram-se na silhueta de uma menina, de acordo com a minha vontade. A campista olhou para ela por um segundo.

 Ataquei com minha espada, fazendo a arma dela voar para longe de nós.

 A menina xingou.

 Parei a minha lâmina próxima ao pescoço da campista.

 Permiti-me abrir um sorriso vitorioso.

— Quem é a boca suja agora?

 A menina ergueu o rosto, parecendo que fumaça sairia de suas narinas. Ela recuperou a espada, ajeitando a postura.

 Bart esfregou as mãos.

— Muito bem, Meira.

 

A aula de Mitologia Grega passou rapidamente, diferente de estudar sobre os mitos na escola.

 Após o almoço, estava pronta para explorar o acampamento antes da próxima aula.

 William surgiu em minha frente, ajeitando a touca, apesar do calor que fazia naquele dia. Ele ergueu o rosto, pressionando os lábios.

 Cruzei meus braços.

— O que tem a me dizer?

— Eu não deveria tê-la culpado pela minha morte da minha mãe. Me perdoa.

 Eu não estava com raiva dele, apesar de estar irritada com tanta coisa nos últimos dias. Tentei jogar como se eu estivesse com um ódio imperdoável, só que desisti assim que vi os olhos cheios de lágrimas dele.

 Soltei todo meu ar.

— Tudo bem, Will. Você é meu amigo e passou por algo terrível.

 Ele sorriu, uma das lágrimas caindo pela bochecha.

 Abracei-o e ele não me empurrou para longe.

 

As horas que passaram foram melhores do que toda a minha manhã, agora que William não estava irritado comigo. Podíamos fazer tudo juntos — a aula de rastreamento, andar pelo acampamento, comentar sobre os outros campistas. No jantar, apesar de estarmos em mesas diferentes, era mais divertido, já que ele me olhava e eu começava a rir sozinha.

— Eu te encontro na fogueira — prometeu Will, pronto para correr até um de seus irmãos.

 Assenti, vendo-o sumir com um garoto quase da mesma altura que ele.

 Não tinha me permitido pensar sobre meus pais — ou o que quer que eles fossem agora, ainda que eu me recusasse a aceitar o jeito que tudo acabou —, só que, vendo William e a dor que ele sentia por perder a mãe, um buraco crescia cada vez mais dentro de mim.

 Umedeci meus lábios, passando os dedos pelos fios vermelhos do meu cabelo.

 Eles não eram meus pais biológicos, então quem realmente era? Por que tinha escondido isso de mim por tanto tempo? Sam tinha morrido por minha culpa?

 Esfreguei meus olhos. Se eu continuasse pensando nisso, não conseguiria nada. Afinal, o que eu precisava fazer?

 Zeus queria me matar. Um ciclope tentou me atacar em casa. Não tinha mais família, e só tinha a William no acampamento. Por onde eu deveria começar? Talvez por Hades, que me abençoara — se é que poderia ser chamado de bênção —, ou pela minha família biológica?

 Concluí que eu não conseguiria pensar em nada de estômago vazio. Virei-me, arregalando os olhos com Nico à minha frente.

 Quase soltei um palavreado, colocando a mão sobre o esterno. Precisei recuperar o fôlego depois que meu coração voltou a bater.

— Assim eu irei encontrar seu pai rapidinho.

 Ele estava com roupas diferentes, agora sem a jaqueta. Parecia muito cansado, com olheira sob os olhos.

 Eu ainda podia tocar a sombra ao redor de nós.

— Está se acostumando ao acampamento?

 Fiz uma cara de azeda à pergunta. Quis responder que sim, até porque, durante alguns momentos daquele dia, senti-me bem. Só que havia muita coisa em jogo. Não podia me dar ao luxo de ficar brincando de casinha naquele lugar.

 Dei de ombros, com um sorriso.

— Eu não fico muito aqui — confessou Nico, olhando na direção da fogueira. — Tem um lugar muito melhor.

— A casa de seu pai?

 Ele assentiu ao olhar para mim.

 Risos vieram da direção da fogueira. William dissera-me que haveria música ao redor dela, seria minha primeira vez participando, só que eu preferia algum lugar mais tranquilo. Talvez até a casa de Hades fosse uma ótima opção.

 Sorri com a ideia e estava prestes a dizê-la, mas parei ao ouvir a voz de Nico:

— Eu posso…

— Mei!

 Olhei na direção de Nathaniel. Ele sorria deslumbrantemente. A cor laranja caía bem nele, tanto quanto o colar de contas, a pulseira preta que usava. Era isso que um filho de Apolo representava?

— Você precisa de um babador — disse Nico, quase perto do meu ouvido.

 Dei um pulo, batendo no braço dele.

— A-ah, oi.

 Nathaniel parou a poucos metros de mim. Eu não costumava ficar assim com um garoto, mas era inevitável.

— Não vai fugir da fogueira, ou vai?

— Deve ser meu sangue de bruxa — disse dramaticamente. — Odeio fogueiras.

 Ele ergueu uma das sobrancelhas, abrindo um sorriso que eu classifiquei como “doce”. Desviei o olhar dos dentes dele, tentando não parecer uma garotinha estúpida.

— Sabe que isso não adianta, não é?

 Desfiz meu sorriso, as bochechas doendo.

 Massageei um dos lados do meu rosto.

— Eu irei considerar.

— Estarei honrado pela sua presença, se aceitar — brincou Nathaniel, ou não. Eu não sei. Não me importa. Não vou levar aquilo tão a sério. Os belos olhos brilhantes dele, mesmo na noite, viraram-se para a criatura das sombras do meu lado. Apesar do olhar não amigável de Nico, o filho de Apolo não hesitou, ainda sorrindo: — Irá participar também?

— Um dia.

 Nathaniel pressionou os lábios.

— É um progresso. Eu te vejo lá, então — acenou Nathaniel, afastando-se.

 Quase que eu pedi para ele ficar, mas Nico entrou em minha frente, arruinando a fanfic que eu criava em minha mente. Na verdade, eu tinha que agradecer ao filho de Hades. Eu não podia me esquecer da coisa mais importante para mim.

— Não vai seguir seu namorado?

— Tsc. Eu não vim ao acampamento para namorar. Estou tentando sobreviver de um ataque iminente de Zeus — convenci-me, respirando fundo. — Droga de filhos de Apolo. Bom, eu também… Preciso descobrir algo.

 Ele me olhou como se esperasse que eu continuasse.

 Suspirei.

— Meus pais. Eles disseram que não são realmente… meus pais. Não seria um problema, se eles não me odiassem — despejei. — Eles me culpam pela morte do filho deles, Sam. O bebê nasceu morto.

— Assassina de bebês — disse Nico, seguindo o meu ar dramático.

 Pressionei meus olhos.

— Eu vou te jogar no Tártaro.

— Já estive lá.

 Revirei meus olhos.

— Eu não queria meu irmão morto, ok? Se ele morreu, é culpa do seu pai! É a única criatura que eu sei que… me cerca. Não é por causa dele que eu posso controlar as sombras? Ela disse que alguém ameaçou-os se fizessem algo contra mim. Algo aconteceu, ela brigou comigo e… deu no que deu.

 Nico permaneceu em silêncio.

 O calor cresceu dentro de mim, querendo enforcar a todos que eram culpados por aquilo. Até poucos dias antes, tudo estava indo bem.

— Meu pai é o deus do submundo, ele não controla a morte — comentou o garoto, por fim, antes que eu perdesse a paciência. — Não foi ele quem matou seu irmão. Ele também não se envolve na vida dos semideuses.

 Meus olhos arderam.

 Ajeitei minha postura.

— Tanto faz.

 Afastei-me antes que eu começasse a chorar na frente dele. Provavelmente uma fogueira faria bem para mim, mas preferi ir dormir no chalé de Hermes.

 O que não foi uma escolha muito sábia.



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