1. Spirit Fanfics >
  2. Palavras gregas para o amor >
  3. Amor azul

História Palavras gregas para o amor - Capítulo 22


Escrita por:


Capítulo 22 - Amor azul


Fanfic / Fanfiction Palavras gregas para o amor - Capítulo 22 - Amor azul

 

 

 

A chuva daquela sexta-feira parecia afugentar aqueles que gostariam de tomar um bom café pela manhã. Mesmo que o movimento estivesse parco, e nenhum daquele três jovens encostados no balcão estivessem fazendo alguma coisa para os entreter, todos pareciam de bom humor. Jaehyun em especial sorria a toa, parecia eventualmente recordar-se de algo muito bom, e sorria bobo para o nada.

Irene ria todas as vezes que chefe fazia isso, um tanto irônica, e cutucava Yuta para olhar também. Este, que fazia pouca ideia do que havia acontecido, sabia que o motivo era Taeyong. Depois que os dois realmente oficializaram o namoro, parecia que dias ruins não existiam mais na vida daquele barista quieto. E estar perto dele, significava ser contagiado por um sentimento bom. Até mesmo a garota, que quando havia iniciado sua experiência ali, achava os dois muito esquisitos, agora os achava bons amigos, e quase sempre ria do que tinham para contar.

Yuta podia dizer que aquela seria uma manhã sem movimento algum, mas a chuva forte lá fora, não havia sido o suficiente para impedir o cliente mais corriqueiro do estabelecimento.

O belo sorriso do japonês parecia se abrir com mais graça quando era direcionado a Sicheng.

— Bom dia — Yuta foi de encontro a ele — está bonito.

Aquela frase foi dita em voz alta e absolutamente todos os presentes escutaram. Era inegável a elegância daquele homem, mas naquela manhã, Sicheng estava um tanto diferente, e Yuta apreciava. A jaqueta de couro que ele vestia por baixo do grande sobretudo, foi revelada no momento em que o programador o tirou, para deixar sobre umas das cadeiras, já que ali, o ambiente era quentinho e confortável, e também, uma vez que iria beber um café, não precisaria daquela grossa peça.

— Bom dia — respondeu baixo se sentando.

Yuta imediatamente foi preparar um café para dele, o mesmo que sempre bebia todas a manhãs, e voltou rapidamente trazendo também um pratinho com macarons coloridos.

— Obrigado — agradeceu e assistiu o rapaz se sentar em sua frente — pouco movimento? — Yuta concordou com a cabeça — Parece que essa chuva está arruinando os dias de todo mundo.

Yuta riu, e concordou.

— Eu gosto — admitiu — Mas a transmissão da rádio está péssima — pontuou — caiu vez ou outra noite passada.

Sicheng sabia disso, havia escutado o programa passado assim como todos os outros dias. De fato a chuva estava sendo um empecilho na vida de muitos, e se Sicheng não tivesse bons motivos para ir até aquela cafeteria, jamais passaria pelo sufoco de tentar achar uma vaga para seu carro naquelas redondezas.

— Quer jantar comigo? — foi direto ao assunto.

Yuta ainda custava se acostumar com o fato de Sicheng sempre o querer por perto. Não que fosse imprevisível, uma vez que o chinês sempre ia ao café e eventualmente escutava a programação.

— Veio aqui apenas para me convidar para jantar? — se gabou.

— Sim. E te ver.

Outra coisa que Yuta ainda estava se acostumando, era que quando pensava que estava prestes a vencer alguma provocação, ou deixá-lo um tantinho só sem graça, Sicheng vinha e provava que nada era capaz de o abalar. Nem mesmo, dizer que estava bonito na frente de outras pessoas. Yuta tinha que admitir, era charmoso de mais, e se tivesse que perder aquela batalha todas as vezes, perderia com gosto.

— Já lhe adianto que tenho duas opções para este sábado — mudou de assunto antes que aquele encontro se resumisse em assisti-lo bebendo café e comendo macarons, ainda por cima usando um sorriso idiota na cara.

— E quais são? — quis saber.

— Um, ir ao ballet — Sicheng franziu o cenho na mesma hora. Não esperava por aquilo — meu chefe está namorando um bailarino agora, ele tem entradas sobrando — explicou — são bons lugares.

— E qual a outra opção? — o olhou desconfiado assim que um sorriso cheio de expectativa apareceu no rosto do mais novo.

— Um festival de bandas. Meu amigo vai tocar 

— E em qual deles você quer ir? — perguntou mesmo já sabendo a resposta. Novamente teve o sorriso.

— Não sei… talvez toque um pouco de Aerosmith — o tom era cheio de intenções.

— Você realmente quer ressuscitar meus vinte anos, não é? — soprou um riso

— Talvez…

— Ok — se encostou — vamos ao festival, então.

 

~♥~

 

Taeyong chegou cedo em casa naquela manhã. Tinha dormido na casa dos pais de Jaehyun por insistência deles. Afinal, uma tempestade havia começado e os mais velhos acharam que seria bom que eles ficassem até o amanhecer, quando a chuva parasse um tanto. Se sentia leve, como jamais na vida havia se sentido. Aquele jantar havia sido revigorante além de que tudo era uma grande novidade. Além de ser muito bem recebido pela família de Jaehyun, deu boas risadas, comeu uma ótima refeição e no fim da noite, quando a louça estava lavada e guardada, todos se sentaram na sala de TV, e viram um filme bobo que passava em qualquer canal.

Jaehyun não desgrudava nem por um segundo. Se soubesse no início daquele dia, veria um filme junto da família dele, enquanto o namorado se abraçava em sua cintura como um filhote, entraria em pânico e teria fugido na primeira oportunidade. Mas depois de se sentir tão bem vindo, só podia se sentir confortável naquele ambiente. Onde Jaehyun dormiu com a cabeça em seu colo e os pés por cima de Krystal. Os pais de Jaehyun em certo ponto também dormiram, e quando o filme terminou e a sala ficou mais escura por conta da tela preta de créditos subindo, sentiu sua mão ser segurada.

Krystal o olhava e mesmo com a luz parca podia ver o sorrisinho que ela carregava.

“— Obrigada — ela sussurrou — por amá-lo

Só isso foi capaz de deixar Taeyong se sentir flutuar, depois da tempestuosa noite, finalmente, calmaria, e nada poderia o abalar.

Exceto por, quando colocou os pés em seu quarto, se deparou com Ten dormindo em sua cama, ainda era cedo e naturalmente ele ainda estaria dormindo, porém, Ten só dormia em sua cama em momentos de tristeza e insegurança, o que lhe fez imediatamente lembrar que a mãe do amigo havia ligado na noite anterior, avisando que ela não viria o ver no sábado. Aquilo seria capaz de abalá-lo a ponto de o fazer pegar no sono assim que o ruivo tivesse saído para jantar.

— Hey — chamou num sopro tocando o ombro coberto de Ten — está bem?

Ten se mexeu um tanto, e os olhos foram lentamente se abrindo tentando assimilar a realidade, quando finalmente focou em Taeyong que o encarava de volta com um semblante preocupado, a expressão do tailandês se moldou completamente para total desespero e no mesmo segundo ele se ergueu num sopetão assustado.

— Não foi um sonho — Ten disse primeiro, e olhou Taeyong desolado — eu realmente beijei ele!

Taeyong tentou processar toda aquela agitação, mas foi incapaz.

— Beijou quem? — questionou

Ten fez uma careta e se jogou na cama novamente num gemido dolorido de frustração, fazendo até mesmo Ruby, que dormia quietinho num canto, se assustar.

— Eu beijei John Seo.

 

~♥~

 

— Hey! Não é para você beber isso! — Renjun ralhou quando viu Lucas levar a garrafa de vinho aos lábios. Arrancou-lhe a bebida das mãos e colocou em cima da bancada novamente — Deixe-me cozinhar.

— Que saco — o maior revirou os olhos mas sem deixar o riso de lado — se soubesse que estava de mau humor, não iria me oferecer para vir almoçar em sua casa.

Renjun fingiu que não escutou, e continuou concentrado na comida que preparava. Certo que aquele almoço de última hora havia lhe deixado nervoso. Isso porque Lucas resolveu apenas aparecer. Não tinha sequer planejado um prato decente. Mas era um cheff, um profissional, se ele estava ali para almoçar faria algo agradável. Ou pelo menos, tentava.

Lucas era um péssimo cozinheiro, mas era muito metido, então por onde Renjun caminhava na cozinha, o outro estava atrás olhando e querendo meter as mãos, colocar os temperos, acender o fogo, beber o vinho que usaria para preparar a massa.

— Você apareceu na minha casa, sem avisar, na minha folga e me obriga a cozinhar para você, e quer que eu esteja de bom humor? — perguntou retórico — meu trabalho é cozinhar, está me fazendo trabalhar quando eu deveria estar dormindo.

Lucas sorriu sínico e foi para o lado do fogão se encostando da bancada olhando o amigo com dúvida e ironia. Renjun fingiu que ele não estava ali mais uma vez. Fazia um bom tempo que não se viam quando não estavam no trabalho, visto que trabalhavam no mesmo lugar e Renjun evitava o maior a qualquer custo.

Porém, as últimas conversas e devaneios com Harvey havia o ajudado a entender um pouco melhor aqueles sentimentos confusos a respeito de Lucas. Tinha chegado a inevitável conclusão de que sim, estava apaixonado, e não, não faria nada a respeito. Ele estava apaixonado por outro e era seu melhor amigo, dizer a verdade seria por um ponto final naquela história comprida que viviam. Seria por um ponto final em momentos como aquele. Em que Lucas aparecia de surpresa em sua casa e o assistia cozinhar enquanto fingia estar irritado.

Só fingia. No fundo, o queria por perto, queria ver aquele sorriso de canto, queria ouvir as reclamações sobre seu humor, queria ter a presença daquele homem em sua cozinha. E além disso, Renjun sabia que Lucas precisava daqueles momentos. Conseguia ver nos olhos dele que nada estava bem, e apesar dele não dizer uma palavra do que lhe incomodava não precisava pensar muito para saber que ele estava triste.

Só iria conversar a respeito caso ele comentasse. Do contrário, faria um prato italiano para ele comer.

— Pare de fingir — disse pretensioso pegando novamente a garrafa de vinho recém posta da madeira — você ama cozinhar para mim — se gabou levando a garrafa de vinho branco aos lábios, mais uma vez sem sucesso.

Renjun tomou a garrafa das mãos de Lucas novamente e olhou aquele sorriso bonito que tentava cobrir um rosto cansado.

Não me teste — Renjun proferiu aquelas palavras em chinês, em seguida, bebeu um grande gole do vinho direto do bico, para depois derramar na panela ao fogo.

O sorriso presunçoso foi substituído por um largo e sincero ao ouvir aquelas palavras serem ditas na língua materna dos dois. Era comum, desde que criaram a grande amizade, que os assuntos que envolviam apenas os dois eram ditos em chines, e o hábito perdurava. Quando estavam sozinhos conversavam naquela língua, e Renjun ter sido o primeiro a puxar o assunto daquela forma deixou Lucas aliviado. Ainda tinha alguém para contar, afinal.

 

~♥~

 

Mais uma vez Jeno colocou o pote de ração em frente Dianka e ela nem se mexeu. Bucky dormia ao lado da irmã de barriga cheia, mas a cachorra não dava sinal de que iria experimentar a comida.

Jaemin estava no sofá assistindo a cena, com os pés frios enfiados num cobertor, tentando ficar confortável ao menos fisicamente. Vendo ela recusar a comida e Jeno sentar no chão frustrado.

Eles ainda não tinha conversado sobre o acontecimento da noite passada, e Jeno sentia que algo tinha mudado em Jaemin depois daquilo. Ele aparecer com os cachorros ainda lhe intrigava e por mais que Bucky estivesse voltando ao normal, não saia de perto de Dianka, que parecia tão atônita quanto o baterista.

— Será que ela não come esse tipo de ração? — tentou adivinhar olhando o garoto no sofá.

Jaemin não respondeu. Analisou o animal deitado no chão com um olhar vago. Talvez, conseguia compreender um pouco o sentimento dela. O vazio nos olhos de Dianka aos poucos se repetiam nos de Jaemin, e não queria admitir que logo estaria como ela.

Se levantou e caminhou até os três, e apenas o motoqueiro se mexeu.

— Cuidado — avisou — ela é muito temperamental.

De fato era. Dinaka costumava ser um retrato de Joy. Quanto mais calada, mas deveria ficar em alerta. Um animal traiçoeiro, pronto para atacar. Era o que pensava. Mas Jaemin discordava sem nem mesmo verbalizar.

Estendeu a mão até tocar a testa dela e a ver fechar os olhos com pesar. Eles dois tinham visto a mesma coisa.

Joy havia ido embora.

— Ela está triste — constatou — foi abandonada — afagou os pelos cheirosos recém lavados.

Jaemin naquele momento pensou mais uma vez em olhar nos olhos do outro e dizer toda a verdade, na esperança de que fosse perdoado, e depois de uma longa conversa recebesse um abraço que o acolheria, e que Jeno pudesse secar suas lágrimas que previa que não iriam cessar tão cedo.

Imaginou que, para um ser como Dianka, tão forte e duro, o peso de ser deixada podia ser dolorido a ponto de não fazê-la comer, tentou prever o que ocorreria com Jeno caso o deixasse naquele instante. Queria contar. Mas seria impossível. Por isso, das opções que Joy lhe deu quando entregou os cachorros, escolheria a do abandono.

Se lembrava das palavras nitidamente em sua memória. Se fechasse os olhos, poderia até mesmo assistir novamente os lábios pintados em vermelho as proferindo. Era um conselho. O German Shepherd havia sido incendiado de propósito por ela própria e no começo, não conseguiu entender o que ela queria lhe contando aquilo.

Mas logo em seguida compreendeu. Ela queira um bom motivo para o convencer. O German estava acabado assim como todas as provas de que lá algum dia haviam ocorrido diversas corridas de motos, drogas e festas em noites perigosas. Afinal, a Senhora do German estava foragida. E havia sumido do mapa assim que lhe entregou os cachorros ao garoto, e lhe deixou claro.

Com o único parente mais próximo, uma vez envolvido, talvez Jeno fosse um suspeito, sem a intenção de se esconder e nem mesmo tendo motivos, talvez alguma investigação fosse submetida a ele. Antes de ir, deixou claro. Não havia nada que pendurava Jeno com a lei.

Exceto por Jaemin.

E superando todas as expectativas que havia criado sobre aquela mulher, ela o deu duas condições. Contar a ele toda a verdade e o deixar ciente sobre a realidade de que ainda era um colegial, um irresponsável que não ligava para as pessoas ao seu redor caso viesse se meter em problemas maiores, ou o deixar. O livrando completamente do fardo.

Jaemin implorava por um milagre. Sabia que teria de fazer ao menos uma vez a coisa certa. E se aquilo era por Jeno, faria.

Na noite anterior, quando entraram no chuveiro juntos, havia implorado para não ser abandonado, mesmo que quem fosse ir embora, não fosse Jeno. Era Jaemin que iria o deixar. Mesmo assim, o peso que carregava com aquela responsabilidade, era comparado a ser ele o rejeitado. A cada minuto que passava se lembrava da condição que havia dado a ela.

Assim que o festival acontecesse, e o domingo viesse a raiar. Jaemin deixaria a vida de Jeno para sempre, e nunca mais o veria.

 

~♥~

 

Louise chegou na N. Seo com cara de quem gostaria de não ter se levantado. A noite anterior havia passado em claro, ainda resolvendo os problemas do jogo que estava atrasado. O setor parecia mais calmo porém, ninguém falava uma só palavra.

Sentou-se em sua cadeira grande e passou os olhos sem realmente ver nada por toda a sala, nem todos haviam chegado naquela hora. Era muito cedo, e apenas alguns, dispostos a terem uma folga naquela sexta-feira estavam ali. O que não era o caso da mulher, uma vez que não conseguia sequer comer uma rosquinha sem pensar no atraso do jogo.

Apenas foi desperta quando Sicheng entrou na sala, ligando todos os seus sentidos quando viu a cena inusitada de seu amigo, sempre vestido em chiquérrimos ternos formais, entrando no setor vestindo uma jaqueta de couro e jeans preto.

Ainda parecia muito formal, devido aos sapatos e a blusa de gola alta que vestia. Tudo num preto muito discreto que duvidava que alguém além dela estava vendo o mesmo. Sua cara de espanto não passou despercebida por ele, que apenas lhe ofereceu um bom dia com um sorriso e logo foi para sua mesa ligar sua máquina e seus grandes monitores.

Algo estava virando de cabeça para baixo, pensou ela.

— A nova programação está ali — ele avisou apontando para uma pasta em cima da mesa da loira.

Se levantou na hora, pegando a planilha de previsão do lançamento recalculada e correu até o andar de Johnny.

Assim que entrou na sala dele, sem bater ou anunciar sua chegada, soube que algo errado acontecia, não só com Sicheng, mas também, com o restante do universo.

Johnny estava com a cabeça deitada sobre a mesa, e os olhos fechados com força como se quisesse sumir dentro de si mesmo.

— O que houve? — perguntou imediatamente.

Um suspiro longo foi ouvido e quando o olhou parecia que ele havia sido atropelado. Olheiras em seu rosto estavam presentes, uma cara amassada de quem não havia dormido um segundo e um copo grande de café ao lado repousava, denunciando que a noite havia sido em claro.

— Nada — respondeu num sopro.

— Aqui está a previsão do lançamento — entendeu a pasta e assistiu o irmão dar uma breve olhada nos papéis, acenando lentamente com a cabeça — hoje todo mundo acordou estranho — pontuou — você com essa cara de sono. Winwin apareceu usando uma jaqueta de couro — quis puxar assunto, não era comum ver o irmão daquela forma, estava ficando um tanto preocupada.

— Sicheng sempre usou jaquetas de couro — Johnny respondeu despreocupado ainda olhando os números — Você só era muito nova para lembrar.

A mulher loira franziu a testa e se sentou no estofado em frente a mesa do homem. Cruzou os braços e pensou.

— Não lembro mesmo — concluiu.

— Quando estávamos em Londres — começou — ele costumava usar roupas assim. 

Louise teve de rir ao pensar que Sicheng algum dia tinha sido esse tipo de pessoa, mesmo que já tinha ouvido falar sobre o histórico de shows de rock e bares duvidosos.

— E o que o fez parar de usar?

Johnny balançou os ombros respondendo que não tinha ideia, ainda sem tirar os olhos na planilha com as informações e datas. A testa do empresário se franzia a cada linha, e um vinco profundo se formava no rosto sério do homem. Louise entendeu que o assunto tinha se encerrado e que o irmão agora só iria falar sobre trabalho, porém, as caretas sisudas dele ainda faziam-a questionar se tudo estava realmente certo.

Johnny era tipicamente apático. Era uma habilidade muito útil para alguém que trabalhava com constantes negociações e tinha que se manter inabalável a qualquer questão ou decisão. Ela, já estava acostumada em vê-lo não parecer demonstrar reações nenhuma sobre qualquer coisa que fosse, porém, aquela testa franzida denunciava um desvio daquele comportamento padrão.

— Está difícil de entender? — se preocupou com a organização das tabelas.

Johnny demorou a desviar os olhos das folhas para olhar a irmã o encarando um tanto preocupada.

— Perfeitamente legível — respondeu — obrigado.

Louise concordou com aquilo e lentamente saiu da sala, apesar das caretas de Johnny, tinha mais coisas a resolver, tinha um setor inteiro para gerenciar naquele dia.

Por outro lado, ela estava correta, Johnny rolava os olhos por todos aqueles números, datas, previsões e simplesmente não absorvia nada. Isso porque, toda vez que tentava se concentrar em algo seus pensamentos traiçoeiros o levavam apenas a um lugar.

Para a noite passada, quando beijou Chittaphon embaixo de seu guarda-chuva.

Aquele momento já se repetia em sua mente tantas vezes que não sabia mais dizer o que era realidade. Não havia dormido nada quando chegou em casa naquela madrugada, não conseguia olhar nada sem lembrar dele. Quando fechava os olhos, pelo cansaço, a sensação dos lábios dele vinham a mente como um tiro. E se os abria e tentava focar em algo, era abalado pela lembrança do calor e dos dedos dele agarrando seu casaco. Queria por um momento tirá-las da cabeça para fazer algo de útil naquele dia, mas o medo de perder algum detalhe não o permitia, o que o fez passar para um estágio avançado de paranoia e análise.

O beijo se repetiu tantas vezes que começou a julgar o próprio ato e a se culpar. Tinha errado em fazer aquilo? Ele havia o beijado de volta no fim das contas, mas, e se não tivesse sido bom. Ah, isso assombrava a cabeça de John Seo, afinal, podia contar anos desde a última vez que havia beijado alguém e depois de pensar que nunca mais beijaria, ou sequer teria interesse em fazê-lo, soube que estava errado quando colocou os olhos naquele bailarino. Porém a ideia de ser correspondido era tão distante e improvável, que não havia pensado a respeito do que faria caso fosse recíproco.

E era por isso que aquele dia estava sendo um doloroso martírio, porque nada daquilo tinha sido planejado. Tudo a respeito de Chittaphon saia de seu controle com muita facilidade e aquele beijo, era a prova de que não queria tê-lo, e sim, queria colocar tudo nas mãos do destino, para que ele desse continuidade a aquela situação. Mas parte de Johnny era metódica, e colocar algo tão importante nas mãos de algo tão incerto, era agoniante, e já havia perdido a conta de quantas vezes tinha olhado para o celular em busca de algum sinal de vida daquele homem para lhe acalmar, dizendo que estava tudo bem, e que não havia o que temer.

Johnny era temeroso com a ideia de que Chittaphon não quisesse mais o ver. Tentava lembrar-se dos detalhes do que se seguiu a aquele beijo, quando olharam-se nos olhos e um “boa noite” baixinho saiu daquela boca. Tentava captar naquele rosto alguma desaprovação. Era Impossível. Já que para Johnny toda vez que se recordava, algo dentro de si parecia revirar-se. Um frio lhe subia até a garganta e o fazia ter que respirar fundo, tentando puxar o ar que Chittaphon, mesmo nem estando em sua frente, conseguia tirar, fazendo a mente nublar, e ser incapaz de chegar a qualquer conclusão.

A frustração de pensar que havia errado, ou de não ser bom o suficiente lhe consumia, e o fazia lamentar. Queria pedir desculpas, ao mesmo tempo que queria perguntar o porque ele havia o beijado de volta. Não podia fazer menos ideia do que se passava na cabeça dele a respeito daquilo.

Mergulhado em dúvidas, John Seo deixou os papéis de lado, sabendo que seria inútil tentar os entender. Se perguntava, se depois daquilo poderiam se ver novamente, e se, sim, poderia o beijar de novo também?

 

~♥~

 

“— A imaginação é a maior inimiga do romântico. Começo meu monólogo de hoje com esse pensamento porque como sabem, eu venho pensando muito sobre amar. Isso de maneira alguma me faz um especialista em romance ou até uma autoridade para ditar o que é amor ou não. Eu assim como muitos, sou uma vítima desse sentimento.

Já confessei aqui que estou apaixonado e sabem que alguém apaixonado é capaz de imaginar muito.

Posso estar falando de mim, como também posso não estar. A habilidade mais cruel do ser humano apaixonado é imaginar porque é dali que saem as incertezas, a esperança e diante disso, uma decepção. E não me refiro a decepção de cativar no outro algo que somente você espera, me refiro a decepção própria. O apaixonado muitas vezes é o responsável pela própria rasteira. Isso porque a especulação o leva a esperar sempre o pior.

Isso é certo? Isso é o suficiente? Eu sou o suficiente?

Quando na verdade, deveríamos só amar. Parece perigoso e imprudente dizer algo assim de um sentimento que a qualquer momento pode dilacerar um peito caso este esteja tão aberto. Mas é para isso que serve o amor, para sentir.

É bobo pensar que a dor é um resultado dele quando a verdade não é. A dor de amor só é sentida porque uma das partes não é sincera, não ama, não está de peito aberto. E é este tipo de pessoa que causa a incerteza da pessoa apaixonada. E se pudesse dar um conselho a todas que querem amar mas temem pela dor, diria para não ter medo de nada. Não tenha medo de se machucar, de abrir seu peito a ponto de ficar vulnerável. Eventualmente alguma faca vai se afundar ali, mas peço que não desista.

O amor verdadeiro chega. Não é novidade a ninguém que eu sou um romântico incorrigível, mas a realidade é que eu acredito no amor verdadeiro apenas por causa de mim mesmo. Eu amo verdadeiramente e é só isso que preciso saber.

 

— Meu nome é Nakamoto Yuta, eu vou estar com você a partir de agora até as 2AM, aqui, 164 FM, contando histórias de amor.”

 

~♥~

 

Haviam coisas bem pontuais a respeito de um teatro que Ten, simplesmente amava. Quando a luz azul baixava no palco, e todo o ambiente era tomado pela cor fria, Ten se sentia abraçado num sonho. O palco forrado de preto, era pintado com a cor anil e se sentia dentro de um nada infinito, onde poderia ser capaz de qualquer coisa, se sentia flutuando ao imaginar estar no céu, ou mergulhado num oceano profundo.

Além disso, gostava de se sentar no proscênio, com as pernas cruzadas e admirar todos os bancos da plateia vazios, tentando imaginar como estariam cheios no grande dia. Gostava de ver as bailarinas dançarem sem música para escutar as pontas de gesso baterem no chão. Gostava de deitar na madeira encerada e permanecer olhando para cima, admirando aquele teto absurdamente alto, e contemplar a perspectiva de todas as cortinas, luzes e cabos ali em cima pendurados.

Porém, devido a agitação de seu coração, todos os preparativos para o espetáculo pareciam confusos e turbulentos. Nada parecia o fazer relaxar como se lembrava, não estava sentindo o frio na barriga em função daqueles dias importantes, nada parecia o fazer parar e olhar todo aquele ambiente com paixão, parecia não mais se sentir abraçado no azul.

Ten sabia de tudo isso, e já tinha desistido de tentar encontrar seu eu dentro de sua própria casa, mas, naquele dia, já passava da hora de ir para casa e Ten ainda estava sentado no proscênio. Agora, além dos bancos, o palco estava vazio também, contendo apenas ele ali, sentando na madeira em frente ao linóleo de costas para a plateia.

Não achou estranho, que aquele silêncio o fez viajar até a boca de John Seo. Qual tinha tocado no dia anterior, em frente sua casa. Não foi uma surpresa pensar porque aquele beijo estava morando em sua mente o dia todo. E agora, no fim da noite, mesmo que já tivessem se passado horas, os lábios de Ten ainda ardiam. Se recordava do toque gentil daquele homem.

Ardiam como se fosse impossível esquecer, ou talvez, ardiam em ânsia de querer de novo. Realizou isso e um suspiro longo saiu de Ten, que cansado do ensaio, ainda queria dançar mais. Foi no momento em que se ergueu que sentiu alguma coisa soar diferente.

Não havia música, ou conversas, afinal, todos já estavam se arrumando para ir embora nos camarins, não havia platéia, nem mesmo Madame Cho, mas a luz azul ainda estava lá, tomando conta do palco todo, como se o convidasse a tentar mergulhar mais uma vez. Assim que Ten pôs seus dois pés no x central para iniciar seu solo, tentando entender o que era aquilo que soava dentro dele, se concentrou e contou baixinho, 5, 6, 7, 8… 

E como uma faísca se acende em gás, provocando uma explosão azul. Ten explodiu.

Pensou que como uma fagulha, tomou todo o lugar com sua dança, usando um sentimento que não poderia adivinhar qual era. Diferente de tudo o que já vivera, teve vontade de rir, chorar e às vezes, entre um salto ou outro, sentiu vontade de deitar no chão e olhar as coisas penduradas no teto, sendo embalado e engolido pela cor azul.

Sentiu-se verdadeiramente feliz, quando tudo parecia estar dando errado. Era surpreendente que pudesse se sentir tão leve depois de tanto tempo sentindo o peso nas costas de se achar incompleto. O que estaria acontecendo? Aquela felicidade, aquele sentimento, de onde vinham? Havia música tocando nos ouvidos de Ten, e sabia, que só ele estaria escutando aquela melodia peculiar.

Era uma bela melodia, e Ten pensou assim que pousou no chão finalizando a coreografia;

“Johnny amaria escutá-la”

 

♥♥♥

 


Notas Finais


olá pessoal, tudo bom? Comigo ótimo.

Eu não sei se alguém vai ler isso, mas se alguém aqui tiver a paciência, peço que entenda que isso é uma reflexão e quase também, um apelo.
Minha irmã mais velha atualmente esta morando na Colômbia, ela esta participando de um projeto social onde ela ajuda meninas sem família dentro de uma fundação, como se fosse num abrigo. Essas meninas ou realmente não tem família, ou foram tiradas delas por n motivos horríveis, que podemos bem imaginar. Acontece que uma dessas meninas acabou se tornando mais próxima de minha irmã e eu fico sabendo com constância sobre ela, já que são amigas. Minha irmã não contou em detalhes o que aconteceu com ela para ela acabar lá, mas não foram boas coisas, já que ela sofre muito com problemas psicológicos que a levam a algumas crises bem pensadas. Bom, minha irmã não está na melhor parte da Colômbia, logo o amparo para ela, mesmo que no abrigo é bem precário e muitas vezes ela esta de lado das atividades, é obvio que não vou detalhar nada, afinal não quero chocar ou causar sensacionalismo. Mas por que eu estou contando isso? Porque esses dias, minha irmã me mandou uma foto dela, e ela estava numa dessas salas cheias de computadores de colégio, para minha surpresa, com uma pagina do watpad aberta, escrevendo uma fanfic. Aquela menina é uma autora de fanfics. É provável que nunca vou ler o que ela escreve, já que não leio em espanhol e minha irmã contou que ela faz apenas fanfics de animes, mas eu fiquei pensando sobre isso. Sejam legais com suas(seus) autoras(autores), se por ventura você ler algo que não gostou, que não foi o que você esperou, ou sua(seu) atora(autor) deixou de escrever, pense mil vezes antes de dizer qualquer coisa. Não diga nada caso não tenha nada legal a dizer. Eu pensei tanto sobre isso, sobre como eu gostaria que ela nunca recebesse nada de ruim sobre uma das poucas coisas que ela faz e gosta.
Então, sejam gentis, com qualquer pessoa, e se não há o que dizer, simplesmente não diga. As pessoas podem estar passando por coisas muito ruins de verdade fora daqui, então, não seja mais um peso nas costas de alguém.
Era isso :) se leu até aqui, obrigadoo ♥


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...