História Papai - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Abandono, Dia Dos Pais, Família, Filhos, História, Pai
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Palavras 827
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo único


Poxa, papai, olha o que você fez. Você transformou o dia dos pais em um dia vazio e então em um nada. Um simples nada.

Eu gostaria tanto de ter raiva de você. Gostaria de poder deitar na cama toda noite e pensar nas lágrimas que outras pessoas derrama(ra)m por sua causa, mas em vez disso, lembro de nós passeando quando tínhamos uns quatro anos, você me carregava nos ombros, me mostrava as casas de muros altos e portões escuros imensos e dizia que era o castelo das princesas. Você nos levando até a pracinha a três minutos de casa só para tomar sorvete, comer biscoito de "isopor" e comprar bala. Era tão simples, mas me deixava tão feliz. Mas nós crescemos e tudo mudou. Você se afastou, mas ainda estava aqui cinco ou seis dias da semana. Íamos ao mercado, você nos buscava na escola, você vinha trazer alguma comida ou enrolar sobre o dinheiro de alguma conta. Às vezes eu achava que era pouco tempo, mas pelo menos você ainda vinha...

Continuamos a crescer, que nuvem negra surgiu. Parecia que só a obrigação te unia a nós. Buscar na escola e uma compra qualquer na sexta-feira. Silêncio no carro. Você chegou até a nos esquecer.

Mas então quem diria que acabaríamos seguindo seus passos mesmo sem você saber e sem nem intencionar. Que uma paixão em comum nos reuniria. Passamos a sair de novo. Fizemos memórias que nem eu pensei que faríamos. Agora tínhamos assunto, que levava a outros e a outros. Saímos todos juntos de novo, uma data que eu finjo não lembrar perfeitamente, mas eu lembro. Lembro da roupa que usei, aos lugares que fomos e até a música que ouvimos. Só passamos um tempo junto, sem rumo, foi como nos velhos tempos. Não parecia que íamos consertar os erros antigos, mas parecia o melhor momento que já tivéramos em muitos anos.

E então o choque. De repente você precisava se mudar. Precisava de trabalho porque queria continuar cuidando da gente. Eu nem tive tempo de ficar chocada porque você sumiu antes de eu pensar no que aconteceria. Você foi sem se despedir. Ficou meses sem aparecer e quando ressurgiu já estava instalado e morrendo de saudades. Uau. Mas pelo menos você passou a ligar. Estava se importando, do seu jeito, mas se importando. Veio nos ver algumas vezes, nos fez surpresa. Eu comecei a pensar que isso iria funcionar se você continuasse vindo sempre que pudesse. Mas papai, você parece que sabe ou parece que faz de propósito. Foi só eu pensar que assim daria certo e você sumiu completamente. Meses sem nem uma ligação. Nenhuma notícia. Eu deveria ter me acostumado. Mas então, você reaparece. Uma ligação com choro, pedido de desculpa, dizia estar com saudade. Você tinha se machucado e perdido contato, mesmo com os outros dizendo por aí que não era bem assim. A gente decidiu acreditar em você. Eu acreditei que você iria mudar mais essa vez. Que cruel.

Já faz quase um ano que não te vemos. Esse ano acho que não foram nem cinco ligações. Às vezes penso se não teria sido melhor se você tivesse sumido logo, sem ligar e reaparecer e sumir e ligar e sumir novamente. Deu-nos falsas ilusões de que daria certo na próxima vez e não dava e você recomeçava. Por quê jogar desse jeito?

Não vou mentir. Não penso muito em você. Não lembro tanto. Não dói tanto. Eu consigo viver a maior parte da minha nova vida miserável bem porque na maioria das vezes você não estava aqui mesmo. Mas, infelizmente, sempre tem aquele momento que estou solitária e que acabo pensando em você. Mas não penso com raiva. Também não penso que você vai voltar. Eu só penso que quero que você não esteja sofrendo, sabe... Não quero que você esteja sentindo dor ou passando por dificuldades. Quero que você esteja bem. Seja do jeito que for. Você sempre será o meu pai, então... Você não merece nada de ruim porque, apesar da tristeza, você também me deu momentos felizes, e são destes que eu lembro mais. Dos passeios, dos apelidos e das piadas... Essas são minhas lembranças suas.

Sabe, papai, você nunca conheceu suas filhas de verdade. Eu nunca te falei uma única coisa com honestidade na minha vida. Nunca soltei uma frase inteira sem ter receio do que você iria pensar. Na verdade você não sabe quem eu sou e eu não sei quem é você. Talvez eu nunca mais te veja de novo e eu viva minha única vida sem ter te conhecido de verdade. Agora, nesse mês dos pais, eu talvez possa estar pela primeira vez expressando o que eu sinto por você neste texto que ninguém da família jamais lerá. Sabe papai, acho que a única coisa que você sabe sobre mim é que eu não consigo me expressar. Receio que a culpa disso também seja sua. Mas, aonde você estiver, queria que sentisse minhas palavras escondidas hoje. Fique bem.



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