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História Para Antares - Capítulo 6


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Notas do Autor


Boa noite, meus amores. E chegamos ao nosso desfecho. Ouçam, se preferirem, The Scientist - Coldplay, ou qualquer música nessa vibe para o capítulo.
Boa leitura a todos e obrigada por chegarem até aqui. Vocês foram a minha felicidade nesse tempo.

Capítulo 6 - Final: Para Antares


Hanako… por que você é assim…?

 

 As lágrimas seguiram descendo quentes por sua bochecha e embaçando sua visão. Seu coração, sua mente, tudo pulsava e estava agitado. Os sentimentos de rejeição por ser proibida de ver os mistérios e de seguir como assistente acertaram-na cruelmente. Em um instante, ela acabou se atrapalhando e tropeçando. Logo, estava caída no chão e com os joelhos ralados. Os soluços vieram e ela não conseguiu levantar. 

 Aquilo tudo abalava-a. Ela sempre fugia, correndo, após uma discussão. Mas agora era diferente: quando ela poderia vê-lo de novo? Aquela foi a última vez?

 A garota ergueu o olhar e se deparou com um braço saindo do chão. Ela sabia que era do Inferno dos Espelhos. Amigavelmente, aquela mão fazia menção de ajudá-la a levantar.

 

 — Obrigad…

 

 Assim que ela se apoia na mão para levantar-se, a mão a agarra e a empurra para uma das paredes. Havia um espelho médio pendurado naquele corredor. Mãos saem dessa superfície e a puxam para dentro sem que ela pudesse fazer algo. 

 

[...]

 

  Mortos não tem futuro.

Mistérios não tem futuro.

Amane Yugi não tem futuro. 

 

 Ainda sem reação, o Sétimo Mistério observava a porta da biblioteca. Algo úmido e salgado desce por sua bochecha. 

 Ele cerra os dentes e agarra os fios negros de seu cabelo violentamente derrubando no chão seu chapéu. Imbecil, imbecil, incompetente! Olha o que você fez! Ele puxa alguns fios enquanto olhava para o chão tentando controlar sua revolta. Mais lágrimas descem. 

 Seu peito doía muito. Sua mente o bombardeava com diversos pensamentos. 

 

— Esta… é minha punição por querer me igualar a um humano…? 

 

 Seus desejos e deveres conflitavam incansavelmente. Como Hanako-san, o Mistério, sabia que aprofundar laços com humanos só trariam um caminho de dor e sem futuro e sentia que deveria se afastar definitivamente de Yashiro. Afinal, como um Mistério escolar, ele estava apenas pagando a dívidas por seus pecados. E dívidas são finitas. Sabe Deus quanto tempo ele permaneceria como o Sétimo Mistério. 

 

 Mas como Hanako-kun, o de Yashiro, queria dizer em voz alta as palavras de sua carta, queria tentar encarar a expressão daquela menina prateada enquanto falava que a amava. Queria ser correspondido. Queria dizer que ela era a sua maior felicidade em 50 anos. Queria gastar suas tardes com sua assistente em seu colo na última cabine do banheiro ao invés de apenas vê-la limpar. 

  Ele aperta os olhos. Não deixaria aqueles sentimentos errados vazarem de novo, trancaria tudo o que sente dentro do coração e jamais abriria novamente. 

 

— Então cheguei a tempo de presencia-lo perdendo o controle. 

 

A voz de um certo professor ecoa pela biblioteca, fazendo Hanako abrir os olhos e olhar em direção a voz. Ele encara Tsuchigomori entrando na sala e colocando a ampulheta dentro do bolso. 

 

— Esta é a pior hora pra me provocar, sensei. 

 

Ao afirmar isso, o fantasma possuía um tom sombrio e olhos irritados. Ele estava perdendo o controle. 

 Mas o professor não se intimidou. Se aproximou do ex-aluno e o encarou de frente. 

 

— É por isso que eu disse que deveria colocar seus sentimentos todos para fora. Uma hora ou outra, eles transbordam. 

 

— Você disse que escrever a carta impediria isso… mas ela só intensificou tudo! Sensei, você planejou isso?

 

— … Quem sabe.

 

 O professor vai até o chapéu caído no chão e o pega. Ele pensa alguns segundos antes de se voltar ao garoto fantasma e se pronunciar novamente. 

 

 — Sabe, Honroso Número Sete, há algo que eu nunca te contei. E antes que tente me punir pelo que eu fiz, gostaria que me ouvisse.

 

  Assim que o professor retornou o olhar para Hanako, encontrou o ambiente vazio. Aquilo não o surpreendeu, já estava acostumado com o comportamento irregular do garoto.

 

 — Tsuchigomori. Você escondeu várias coisas de mim. Me manipulou para escrever a carta e me enfiou nessa situação desgraçada. Tenha consciência que nada que diga agora vai aliviar sua punição. 

 

— Como desejar, Honroso Sétimo Mistério. 

 

 Respondeu com tranquilidade e se espreguiçou. Hanako voltou a aparecer e tomou das mãos do professor o chapéu e o colocou. Ele olhou o professor e fez menção para que ele começasse a falar. O bibliotecário respira fundo e adquire uma expressão séria.

 

— ...Além do Primeiro Mistério, apenas eu tenho contato com coisas como passado, presente e futuro. Minha biblioteca tem registrado as predestinações sobre todos os alunos dessa instituição por séculos. Meu boato é absoluto, nem mesmo eu ousaria alterar quaisquer fatos registrados ali.

 

 — ...Claro. E daí?

 

— E daí... que há algumas décadas algo aconteceu. E a biblioteca errou em sua previsão do futuro. Ela contrariou o boato.

 

 Tsuchigomori apenas administrava os livros, mas não os escrevia. Eles eram escritos pelo próprio Destino ou, se preferir, pelo próprio Deus. Por isso, todo registro era Absoluto. Imparcial. O que significa que uma contradição em um livro era inédito e potencialmente perigoso. 

 

— O livro que falhou era de um, agora, ex-aluno. Um garoto sonhador e muito inteligente. Em seu livro, estava escrito que ele tornaria-se um professor aqui dessa escola e seria meu colega de trabalho. O nome dele… era Amane. Amane Yugi.

 

— Hã? O...quê? O meu futuro… foi escrito errado?

 

—  Acho que errado não é a palavra certa… afinal, de fato, a Biblioteca jamais erra. Você, Honroso Número Sete, contrariou o Destino e mudou o seu futuro. 

 

  Aquilo o deixou em choque momentaneamente. Não era… pra eu ser um mistério? Não era.. pra eu estar nessa de punição?! Saber daquilo o fazia questionar sobre sua existência, seu propósito, suas vontades e sonhos não realizados. 

 

 — Eu entendo como pode estar se sentindo agora. Por todas essas décadas, eu me perguntei o porquê. E hoje, eu vejo que às vezes, o Destino...Deus… ou seja lá quem cuida dessas coisas, quebram as suas próprias regras. Ou não, eu ainda não tenho certeza. Mas… provavelmente pode ser que isso tudo esteja relacionado a aquela garota irritante de olhos vermelhos. 

  

 Hanako levanta o rosto confuso para o professor. Aquelas informações todas estavam o sufocante e ele não conseguia fazer conexão dos fatos.

 

— Yashiro? O que ela pode ter haver com isso se quando eu morri… ela não tinha… ah. Ah Deus, não.. eu conheci Yashiro antes. Ela visitou meu passado e eu a conheci…! Agora eu me lembro! 

 

— Olha… eu realmente não acho que uma viagem no tempo seja o suficiente para alterar futuro. Pois eu já vi esse tipo de evento registrado nos livros da biblioteca. Acredito que possa ser algo mais… profundo que isso. Algo talvez como… se vocês precisavam se conhecer. 

 

 Hanako sente suas mãos tremendo e as leva para a cabeça. Será possível que estou aqui hoje para conhecer a Yashiro e… e… ficar com ela?

 

— Eu… eu não posso ter tanta esperança em algo assim. Podemos estar interpretando tudo errado… não existe futuro para sobrenaturais. Não existe futuro para mortos… não...não há futuro para mim...

 

— Talvez você realmente não possa e nem deva ter esperança. Eu… não vou me meter mais nesse assunto. Essa será minha última interferência e ajuda aos meus queridos alunos: pense sobre isso tudo e tome a melhor decisão. E se tiver medo de realmente não existir futuro para alguém como você… saiba que se há alguém que pode alterar novamente o futuro, são vocês dois.


 

 O professor se retira deixando o fantasma sozinho novamente na biblioteca. 

 

[...]

 

 — Acorda, Daikon-senpai, está começando a me irritar.

 

Ao sentir alguns cutucões contínuos em sua bochecha, Nene abre seus olhos e encontra o rosto de Mitsuba, o Terceiro Mistério. Aos poucos, as lembranças de ser puxada pelo espelho voltava. Sempre extravagante… isso dói, sabia? Pensava bufando por já conhecer o jeito do amigo. Ela então se senta e massageia a sua cabeça. 

 

— Por que você fez isso? É tão rude.

 

— Para de reclamar e levanta. Nós vamos conversar. 

 

 Yashiro não queria conversar. Sentia vontade de ficar sozinha naquele momento. Ela fica de pé e sente algumas lágrimas teimosas descerem por suas bochechas. Ela as limpa e se pronuncia.

 

— Desculpa… poderia chamar o Kou-kun? Eu não estou muito bem para conversar agora… 

 

— É, eu imagino. Você e o Faca Doida são muito complicados mesmo. Por isso te chamei aqui.

 

 Yashiro levanta  o olhar. Você...sabe que estou mal com Hanako? E me trouxe aqui pra perguntar? Ahh que bom amigo! Com o nariz escorrendo e olhos lacrimejando, a garota vai até o garoto e agarra suas mãos.

 

— Ah, Mitsuba-kun, você veio me ouvir desabafar?! Você é muito gentil, que ótimo amigo você é!!!

 

— M...me solta! N...não é nada disso. Não me importo nem nada do tipo… eu só… só

 Completamente vermelho, ele tentava negar veementemente. Yashiro sorria ao ver a reação do Mistério. Mas não durou muito e a tristeza voltou ao seu olhar. 

 

— Acho que o Hanako-kun me odeia agora.

 

 Mais lágrimas começam a descer pelo seu rosto. Ela volta a colocar as mãos no rosto para tampa-lo. Mitsuba olha tudo aquilo e suspira. Ele se afasta alguns passos, indo até seu trono e se senta. 

 

— Senpai. Acho que… você não entende muito bem a situação do Sétimo.

 

Aquela frase chama atenção de Yashiro, e volta a atenção completamente para amigo. Ele não a encarava, tinha um olhar distante.

  Logo Terceiro Mistério balançou a cabeça e sorriu, acenando para que ela se aproximasse e sentasse numa cadeira próxima. Assim que ela se sentou, o garoto começou a falar.

 

— Então… como descobriu que o Faca Doida te enviou aquela carta brega?

 

— Ah, sim… eu fiz algumas investigações  e… espera. Você sabia que era ele quem mandou a carta! Por que não me contou?!

 

— Ai que drama, Daikon-senpai. Já passou e o importante é que você, lerda como é, finalmente descobriu.  

 

Afiado e cruel como sempre, Mitsuba. Ela suspirou e deu de ombros.   

 

— Eu sei que… como um mistério e estando morto… não tem como ocorrer romances entre vivos e sobrenaturais. Mas estou tão confusa… ele me deu a carta mas não queria que eu soubesse…? E ficou todo estranho… agora faz muito sentido várias situações que ocorreram... E depois ele queimou a carta… Ele ficou decepcionado por eu não ter comentado sobre? Ou irritado? 

 

— É, uma novela muito enrolada mesmo. Eu passei muita raiva assistindo vocês dois se desencontrando.

 

— Além de tudo, você fica bisbilhotando a vida alheia!?

 

— Foco, Daikon-senpai, isso não importa agora. O que pretende fazer agora? Já sabe que resposta dar pra ele?

 

Garota ficou em silêncio por um instante. 

 

— Eu… admito que tenho sentimentos por ele. Mas… agora que ele me suspendeu como assistente… acho que ele não quer ouvir minha resposta...nem me ver mais.

 

— Daikon-feiosa-senpai. Eu garanto que tudo o que ele mais quer agora é receber uma resposta.

 

— M...mas…

 

— Mas nada, Daikon-idiota. Você não tem ideia de nada né? Argh, irritante…

 

 O garoto bate as duas mãos na bochecha em sinal de irritação. Em seguida, ele apenas suspira e fica em silêncio uns instantes. Seus olhar volta a ser distantes como anteriormente.

 

— … Ele já está morto. E tem algo que aprendemos quando chegamos na Margem Distante. Depois da morte, não há futuro. Por mais que desejamos isso… não tem como construir nada. Nem amigos, nem objetivos, nem amores… estamos completamente sozinhos aturando uns aos outros até o dia da destruição dessa existência. 

 

— ...Mitsuba-kun?

 

— Eu sei disso porque eu tentei construir algo, Senpai. Até fiz um desejo para Tsukasa… bem, na verdade, minha alma original fez, porque eu mesmo sou apenas uma criação do fragmento dessa alma. E falhou. Não há futuro para nós, Yashiro-senpai. 

 

 A garota podia ver que o mistério desviava o olhar para não demonstrar o quanto o assunto mexia com ele. Ela conseguia sentir a tristeza em sua voz. Eu...eu já sabia disso. Hanako está morto e eu viva… somos de mundos completamente diferentes. Eu também sinto medo do que pode acontecer… mas...mas

 

— Mas Mitsuba-kun, você é meu amigo hoje. E...e nós nos conhecemos após sua morte. Nós estamos aqui conversando. Você veio conversar comigo e… e… isso é real… tem o Kou-kun também…

 

— Ah Senpai… mas você e o Kou terão futuro. Vocês vão se formar e sair daqui. Eu… o Sétimo… continuaremos aqui. Nós nunca roubaremos o futuro de vocês porque… sabendo como não é ter um. 

 

— ...Não. Eu… eu me recuso aceitar isso, Mitsuba-kun! Eu… vocês… não roubam nosso futuro por estarem conosco. Nós podemos pensar em uma alternativa pra isso…  

 

— O Hanako não vai te julgar por não querer correspondê-lo. Ele carrega um fardo muito pesado. Se você acha que é demais pra você, devia rejeitá-lo o mais rápido possível.  

 

 Chocada com o que acabará de ouvir, Nene abaixa a cabeça e tenta pensar na situação. Ela sabia que seria difícil. Sabia que o fardo era pesado. Sabia que poderia não dar certo. Mas também sabia que seu coração tinha sua própria resposta. 

 

— Eu quero continuar sendo próxima aos Mistérios da Margem Distante. Se… se existe algo que eu possa fazer, eu farei! Eu...eu quero fazer isso. 

 

— o Senhor Brincos de Trânsito… me disse a mesma coisa. Haha, E sabe, quando vocês dizem que vão dar um jeito… me fazem pensar que existe mesmo um jeito. Isso me dá esperanças.

 

 As palavras surpreenderam-na. E de uma alguma forma, aqueceram o seu coração que outrora estava magoado e triste. Agora, ela sentia mais clareza no que estava fazendo. Aquelas Mistérios, aquelas pessoas, eram importantes pra ela. E ela não fugiria disso.

 

 — Se é verdade apenas pessoas vivas possuem futuro… quero compartilhar o meu com vocês. Acho que não há empecilhos contra isso né? Eu posso até não existir no futuro de vocês… mas vocês vão estar no meu. Obrigada, Mitsuba. Eu precisava entender essas coisas.


 

[...]

 

— Hanako-kun! Você ainda está aqui?!

 

Ofegante e descabelada, Yashiro retornava a biblioteca. O ambiente estava vazio, mas mesmo assim, ela decide entrar e continuar chamando. Vamos, Hanako! Faça como sempre, venha quando eu preciso de você! 

 

— Hanako-kun! Apareça! 

 

 Ela chamava por entre as prateleiras, embaixo das mesinhas e continuava gritando. Alguns Mokkes passavam e paravam para observá-la. 

 

— Hanako-kun! Hanako-kun! Hanako-kun!

 

— ...Estou aqui, Yashiro.

 

 Ela ouve a voz familiar ressoar pelo cômodo. Mas não vê ninguém. Ela continua procurando, quando finalmente encontra o tão desejado fantasma sentado na janela da biblioteca olhando para longe. Já estava no fim da tarde. O corpo ora transparente, ora tangível, o chapéu e uniforme preto, o cabelo bagunçado, o papel de selo no rosto. 

 

— Você voltou pra dizer algo, Yashiro?

 

 Ela hesitou graças ao nervosismo. Todos os seus sentimentos estavam aflorados e ela sentia a garganta travar. A angústia daqueles dias iriam acabar e ela mal conseguia pronunciar uma palavra.

 

— Sim… Hanako-kun. Eu vim… pra te dar a minha resposta. Por favor, me ouça.

 

 Hanako deu um meio sorriso e desapareceu. Tão logo, ele reapareceu flutuando na frente da garota e lentamente tocando os pés no chãos. O seu olhar era um pouco cansado, mas ainda gentil e atencioso. 

 

— Eu vou ouvi-la, Yashiro. Mas antes, gostaria que me ouvisse primeiro.

 

 O coração dela acelerou. Ela engoliu a seco e unindo o resto de determinação que tinha, umedeceu os lábios secos e assentiu.

 

 —... Fui eu quem escreveu a carta. Eu sei que já sabe disso, mas… pretendo verbalizar todas as coisas. 

 

 Ela concordou com as maçãs do rosto vermelhas. Ela vergonhoso ouvir aquilo, mesmo já sabendo.

 

 — ... Eu precisava escrever para conter… minhas emoções. E voltar a te tratar como minha amiga. Como apenas uma amiga. Fazer tudo voltar ao normal.

 

 Hanako sorriu timidamente enquanto terminava de dizer. Ele dá um passo à frente encurtando as distâncias.

 

Ela junta toda coragem para permanecer de olhos abertos e atenta. Estava ardendo em constrangimento. Ela sente os dedos dele se envolverem gentilmente em suas mechas prateadas, colocado atrás da orelha. Os pelos de sua nuca arrepiar quando ela sente a respiração de Hanako tão próxima.

 

— Desde que te conheci, manter o equilíbrio dessa escola deixou de ser minha única prioridade. Você se tornou uma também.

 

 Ela aperta o vestido e sente as mãos tremendo. Seus fios soltos balançam com mais uma respiração do garoto. 

 

— Eu sinto como se meu coração estivesse disparado e minhas mãos suando. Isso é tão irônico para alguém que já cruzou a Margem Distante. 

 

 Hanako ri brevemente da própria piada. E então cuidadosamente, encosta suas testa e começa a acariciar a bochecha da garota meio peixe.

 

— Eu sempre observei a lua, os astros, as estrelas. Eu sempre quis ir até elas e dizer como me sinto. Tentar fazer com que meus sentimentos as alcancem. 

 

 Ele engole a seco e faz um instante de silêncio. Nene sente o rosto completamente vermelho e tenta resistir a vontade de desviar o olhar. O fantasma se afasta minimamente e completa sua fala.

 

— Eu… eu diria…eu te amo. Pra cada uma delas: para lua, para as estrelas...e Para Antares.

 

 Yashiro leva os braços até os ombros de Hanako completamente envolvida pelas palavras e encara o rosto que esteve em sua mente e coração o tempo todo.

 

 — Eu amo você, Antares. Mesmo a 600 anos de distância, mesmo comigo aqui na Margem Distante e você na Margem Próxima… eu te amo...Yashiro. Eu amo você, Yashiro.

 

 Era como se o tempo tivesse parado. Não havia som, nem estantes, nem livros, nem medo. Yashiro via em sua frente um garoto que tomou conta de seus pensamentos e de seu coração nos últimos dias. Não, nos últimos meses. E Hanako encontrava naquele olhar vermelho e naquela respiração quente o que ele mais desejou encontrar desde o começo de tudo. 

 Nenhum dos dois poderiam lutar mais e foi quanto os rostos se aproximaram e os lábios encostaram. 

 O toque simples teve evento arrebatador nos dois corpos. As borboletas pareciam querer escapar das gaiolas da estômagos. A boca fria e gentil contrastava com a pele quente e tímida. Enquanto a mão do garoto passou por trás de sua nuca e aprofundou ainda mais o beijo, ela deslizou os braços até agarrar os cabelos do garoto. Era calmo. Úmido. Quente e frio. O som dos lábios se separando e voltando a se tocar entre pequenos suspiros e sorrisos, os toques das mãos que iniciaram acariciando a bochecha agora desciam por toda extensão do corpo quente e vivo de Nene. 

 Ele a desejava há muito tempo, não interromperia aquele beijo tão cedo se pudesse. Era muito boa a sensação úmida e quente que Yashiro deixava em seu lábio recém sugado. Queria sentir mais daquele gosto, queria aproveitar mais da euforia que os envolvia, mas não seria tão ganancioso logo no começo. E enfim, afastou brevemente a boca e deixou-se deleitar pela respiração ofegante da amada. Depois, depositou mais alguns selinhos, um beijo em sua bochecha e a puxou para um abraço. 

 

— Desculpa por te causar todos esses sentimentos. Por favor, se possível, não me odeie. 

 

 O garoto sussurrou enquanto acariciava cabelo de Nene. Ele se sentia um pouco mais leve por dito, mas estava um tanto ansioso por ouvir o que ela tinha a dizer. O beijo de agora já era mais do que ele merecia, estava pronto para receber a resposta que fosse e respeitá-la. 

 

— Eu não odeio você, Hanako-kun.

 

  Ela encostava a cabeça no ombro do garoto enquanto respirava fundo para se recompor. Mesmo já tendo beijado antes, era primeira vez que sentia tamanha intensidade. Ela estava feliz. Se sentia constrangida pelas palavras lindas que ouviu e decidiu que as guardaria para sempre em sua memória. Após uns instantes, ela se afasta e se sente preparada pra dizer.

 

— Eu fiquei muito feliz com a carta. E com suas palavras de agora. E a estrela Antares é muito linda… obrigada. Hanako-kun. Desculpa demorar pra perceber os seus sentimentos...e os meus.

 

 O garoto engole um pouco de saliva, sentia suas mãos trêmulas. Ele ia receber sua resposta, finalmente. Sua ansiedade cessou no momento que sua garota abriu um grande sorriso gentil. 

 

— Os seus sentimentos me alcançaram. Desde o começo. Você… ouviu, Hanako-kun? Eu também... amo você. Então não diga mais coisas tão tristes como nunca alcançar aquilo que ama. Porque eu te amo. 

 

  Um sorriso tomou conta do rosto de Hanako e seus olhos lacrimejaram. Então essa é a sensação da qual eu sempre fugi? Será que… então dessa vez, eu posso mesmo aproveitar essa felicidade? Com esses pensamentos ele apenas a abraçou novamente e se aproveitou de todo aquele calor carinhoso que os envolvia agora. Permitiu-se aproveitar o cheiro do cabelo, a pele macia e quente, o sentimento de ser correspondido. 

 

[...]

 

— Ei, Cara de Aranha, tem certeza que isso vai dar certo? A Daikon-senpai e o Faca Doida juntos… 

 

— ...Eu não faço ideia. E tenha mais respeito com seu ex-professor, pirralho. 

 

— Hunf, essa Aranha Emo realmente sabe ser incompetente quando quer.

 

— Calada, sua Raposa Nojenta. Eu sei que está feliz pelas crianças. 

 

 No Limite das Escadas Misaki, estavam sentados a beira de uma mesa Mitsuba, Tsuchigomori e Yako. Por algum motivo que a mulher não entendia, tanto o professor aranha quando o pirralho rosado decidiram aparecer para tomar um chá. 

 

— Quando terminarem, desapareçam da minha frente. 

 

— Você sabe que precisará encontrar o Sétimo comigo mais tarde, não sabe? Aquele moleque obstinado não vai deixar de nos punir por ter arranjado uma namoradinha. 

 

— Argh, por isso odeio humanos. Sempre arrumando problemas para nós sobrenaturais. 

 

Em uma última rodada de chá, ambos ficaram em silêncio. Até que Mistuba se pronuncia. 

 

— Pelo bem deles e o nosso, espero que esse fragmento de esperança seja verdadeiro. Porque senão for, o final disso será realmente trágico e doloroso. O que faremos?

 

— Se isso acontecer, vamos apoiá-los da melhor forma possível. Exatamente com agora. Seja pela vontade do Destino ou não.

 

— Hunf, acho que não tenho escolha. 

 

 Ao afirmar isso, a mulher raposa possuía um sorriso pequeno nos lábios.

 No fundo, aqueles sobrenaturais viam aquilo como algo mais do que ajudar duas crianças que se amam, mas sim como uma pequena flor de esperança que rompia o asfalto. Humanos e sobrenaturais, a barreira que os três já tentaram a todo custo romper. 

 Mesmo que tudo acabasse em tragédia cedo ou tarde. Mesmo que tudo desse errado. Eles sabiam, que era melhor usufruir de todos os sentimentos e lidar com as consequências do que nunca sentir nada. 

 

[...]

 

— Yashiro… eu ainda sou um dos Mistérios dessa Escola. Até a sua formatura, eu não sei se seremos capazes de resolver esse empecilho. E também, eu não sei quanto tempo eu permanecerei aqui. Nós teremos muitos problemas até lá. Você entende isso?

 

— Sim... entendo. Eu conversei sobre isso com Mitsuba mais cedo. Mas eu quero dar o meu melhor nisso. E escolher quem eu quero que esteja no meu futuro.

 

 Eles estavam na sacada do prédio escolar. Já estava no início da noite . O Mistério sorri e acaricia a bochecha da garota. Aquela garota energética e estabanada que conheceu quase o fazia ficar contente por ter ficado 50 anos na escola. 

 Em um movimento rápido, o garoto fantasma segura uma das mãos da garota e a puxa para si e segura o seu queixo aproximando seus rostos. 

 

— Acabei de me lembrar que agora… posso sempre provar um pedacinho da minha Daikon-san sem ser censurado.

 

 Após dizer essas palavras, ele levanta o queixo dela levemente revelando a pele macia e branca de seu pescoço e depositou um beijo demorado ali. 

 

— ..Ah..Hanako...não faça isso!

 

— Shhh, quer que o zelador nos encontre aqui? 

 

  Após sussurrar isso, ele dá um meio sorriso e morde a pele alva. Yashiro solta um semi gemino mas se controla rapidamente. Aos pouco ele vai apertando a mordida e notando o corpo de Nene reagir ao toque. Logo depois, diminui a pressão e suga o local. Em seguida, distribui vários beijos pela extensão do pescoço, ombro, braço, antebraço e por fim as mãos. Após o último beijo, ao olhar sua amada, percebe que ela estava mais vermelha do que nunca esteve. Ela mal conseguia olhá-lo de tanta vergonha. 

 Ele apenas consegue rir e se aproximar encostando suas testas. 

 

— … Pervertido.

 

— Exclusivo seu, agora. 

 

  Ela vira o rosto um tanto emburrada e o garoto volta a rir da reação. 

 

— Obrigado, Yashiro. Conto com ainda mais com você agora.

 

 Dito aquilo, de uma forma um pouco mais gentil que anteriormente, ele segura o rosto da garota e dá um sorriso amável antes de unir novamente seus lábios.

 

 Eles estavam felizes. Yashiro finalmente tinha encontrado alguém que valorizaria seus sentimentos e Hanako alguém que alcançou.

 O futuro é apenas algo que nós nunca estaremos preparados para lidar. Pode ser angustiante, sombrio ou doloroso. Pode até mesmo não fazer sentido. Mas fugir disso é o mesmo que se impedir de viver as sinceras felicidades que se tem a honra de receber. 

 Hanako e Nene viverão e sentirão todas os sentimentos e acontecimentos, bons ou ruins, cada um deles. 

Porque cada um desses momentos pertencem a eles. 

Independente do desfecho, feliz ou trágico, neste dia, o amor de um garoto da Margem Distante alcançou a estrela Antares da Margem Próxima.

 E apenas isso importa. 


Notas Finais


Ehhh, gostaram? Atendeu a expectativa de vocês?
Primeiro, desculpas sumir todo esse tempo. Eu queria dar o meu melhor no desfecho.
Eu sou muito grata por cada um de vocês aqui. Mesmo. Muito grata. Vocês foram ótimos leitores e espero que tenham um ótimo mês e um ótimo ano(mesmo que esteja dificil).
Sejam felizes. Um grande abraço, beijinhos, bebam água e fiquem em casa.
Obrigada por existirem, meus amores. Espero encontrá-los de novo em breve.


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