História Paraíso - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Arte, Automatismo, Conto, Mitologia, Oneshot, Original, Paraiso, Surrealismo, Vida Após A Morte
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Palavras 846
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drabble, Drabs, Droubble, Ficção, Universo Alternativo
Avisos: Linguagem Imprópria, Nudez, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - E ele concordou


Como um buraco na cratera do pensamento, porque todos nós merecemos a catatonia, o início do dia para Carlos era ensolarado e preguiçoso. Faria o que sempre fazia: a higiene, o café da manhã, lençois brancos para lavar. "É maçante ser adulto" ele pensou. Então seu corpo voltou-se ao espelho e mudou. Agora era jovem, não passava de dezessete, a idade do limbo entre a vida e a utopia. Suas roupas eram de tecidos caros, no estilo Era Vitoriana, mas de gente simples do campo, pois seus olhos tinham fascínio pela moda da época. Trajava uma camisa branca de mangas bufantes, um colete preto básico, calça engraçada de cor cinza e podia ver-se num livro romântico. Faltava colher flores no campo para ela.

Há quanto tempo estava morto? Será que em terra o procuravam?

Lançou um dedo meio torto para furar o bolo de sua amada no piquenique da tarde. Eles riam, rolavam na grama clara, dois jovens antiquados e felizes demais após a morte.

Todos os dias eram iguais e ainda assim eram novidade, Joana colhia frutas num pomar, sua pele era perfeita e mais deliciosa que qualquer fruto. Se Carlos podia, tentava provar. Oh, cigana quente de cabelos de cachos de uva. Mas o melhor, ah, são os olhos dela, com eles Joana fazia o garoto tremer, parava o tempo quando queria e brincava correndo por aí com as borboletas em sua saia rodada, dançando para o Carnaval baiano. Ele ia atrás, agarrava-lhe a cintura, tentava beijá-la a força e ela o estapeava aos risos, forçava-o a ficar aos seus pés e prosseguia como uma deusa impiedosa por entre as árvores, chutando-o, fazendo-o persegui-la até os confins do universo.

À noite, após chás da tarde e poesia gritante ao vento, eles se vestiam para ir ao bar, divertiram-se ao som de jazz e bop nos jukebox e as histórias dos negros que viveram tudo e sabiam de tudo. Os caras eram incríveis, falavam mais alto que a música, riam mais do que qualquer coisa, sua língua era própria, cheia de gírias, tinham algo de especial. Talvez por serem filhos de jacarés do Mississipi ou por usarem de roupa a fabulosa cerveja de um centavo, a qual nunca paravam de tomar, talvez porque suas sombras possuíam asas e eram os anjos daquele lugar, eternos alegres e mundanos, assim como deve ser a paz.

Carlos caminhou podre de bêbado pela cidade chuvosa depois das histórias do bar, tomado por tesão e calor, sabendo que Joana ficara dançando até o sol raiar na arquitetura rústica daquele lugar de beira de estrada. Ele prosseguiu pela rua até encontrar uma pessoa que lhe desagradasse. Sabia os passos de cor. Primeiro dava-lhe um presente: uma flor, um relógio de bolso, um buquê de óculos ou uma cobra listrada e ilustrada por Lewis Carroll. O passo seguinte era atrair o sujeito para um beco do desespero. E lhes dizia: "Cara, você vai para o País das Maravilhas. É aqui, bem aqui, sinta a música! Ta ouvindo?"

Às vezes achavam que ele era louco, por isso mesmo queriam ajudar, coisas do Paraíso. Quando fosse o timing certo, Carlos sacava alguma arma que surgia por milagre, claro, devia ser Deus o ajudando, desejava ardentemente que fosse alguma faca, algo com lâmina. Deu sorte. Atacou a pessoa de surpresa, ela perguntava o que ele tinha de errado, perfurou suas entranhas e empurrou o sujeito ao chão, sobre ele para tirar sangue da veia do pescoço com mais algum manejo. Precisamente sete facadas até seu pau ficar duro, na vulgaridade de seu ser que apenas contente ficaria se visse sangue a jorrar. Abriu a pessoa no meio do beco, era assim sempre, a melhor parte era a luta pela sobrevivência que até após a morte um ser exprime. Um monte de onomatopéias soltavam-se no ar: argh, bang, crash, shh. Gemidos. Ele perdia o controle, uma sensação inexplicável de catarse tirando-o do corpo por alguns minutos enquanto rasgava a pele do que talvez fosse a alma de alguém (por isso era tão saborosa?).

Ok, já abrira o corpo, chegou a parte chata. Devia ter cuidado, ainda que tremesse de euforia. Observou as vísceras, jogou fora alguns ossos que atrapalhavam, às vezes exagerava na dose e causava tanto estrago que pouco poderia ser aproveitado do falecido. No entanto, abriu seus sacos e retirou alguns órgãos mais bonitos que restaram. Precisava jantar, sua barriga roncava.

À mesa, Joana lhe sorriu, saboreando o prato de gosto entre o medo e a selvageria. E tem gosto melhor?

Uma mulher nua era usada de toalha de mesa, amarrada minuciosamente para sentir a dor mais prazerosa da submissão, também não podia se mexer e deixar os pratos caírem, a menos que quisesse se queimar e sofrer as consequências mais tarde. Carlos precisava se controlar e comer o prato principal primeiro ao invés de se esfregar nela. Ele já estava morto, tinha de ser paciente. A moça amarrada e amordaçada gemia, tremia, chorava. Joana comentou, quebrando a ausência de diálogo:

"Não é o paraíso, querido?"

E ele concordou. Que bom que havia morrido.


Notas Finais


Opiniões são bem-vindas e fazem autores felizes. Eu sei, que barbárie é esta?

Também postei no wattpad. Man, o automatismo é a melhor vertente literária.


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