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História Paraíso Central - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Ao cinza


Estavam arrumados para sair. - Não que precisassem de muito mais do que vestes gastas. A mala familiar preenchida de coisas que poderiam ser úteis estava preparada. A manhã ensolarada e incomum intimidava Sasuke, mas ele não estava disposto a deixar pra lá e continuar trancafiado. Especialmente agora, que ele e Sakura estavam sem água e com pouca comida.

Apesar de toda a situação, a Haruno parecia certa de que algo bom os esperava. Confiante. O que o desagradou. Por muitos dias aquela esperança refletida nos olhos dela enganou os mais puros sentimentos dele, então, agora, ele tinha uma decisão para tomar. Quem seria rude o suficiente para quebrar os sonhos inocentes dela? Ele?

– Atrás de mim. – Mandou, abrindo a porta da casa. Prestou atenção, receoso, à quietude de Centralia, esperando pelo momento em que seria surpreendido. Todo o cuidado que pudesse tomar seria feito.

Começaram a andar vagarosamente, vez ou outra desviando das cavidades profundas que eram as rachaduras no solo. De forma oportuna, nenhuma lufada de ar quente saía dos vãos da terra. Permaneceram no caminho.

Foi cerca de vinte minutos depois que encontraram a bica onde a água benta ficava. Completamente seca. E o sol forte deixando as pedras opacas era apenas uma das visões que Sakura não gostou. Definitivamente sem água.

O Uchiha estava rígido e sério. Suas feições elegantes travadas numa careta raivosa. Seus olhos não refletiam nada. Sugavam tudo. E ela conseguiu notar cada detalhe nele porque, desobediente, andava ao seu lado.

– Não sei mais o que estamos a procurar.

– Uma saída! – A rosa andou para a frente dele, ignorando o assopro assombrosamente quente em suas pernas. Eram as fumaças novamente ganhando força no asfalto. – É isso que procuramos.

– Não quero que...

As mãos dela pararam na frente do peito dele, pedindo um silêncio que veio absolutamente rápido. Os olhos dela foram aumentando gradativamente. Sasuke começava a imaginar que espécie de monstro estaria atrás dele, até que ela, com a voz baixa, lhe segredou:

– Conheço este lugar.

– Conhece? Mas...

– Veja atrás de você.

A mania de ser interrompido aborrecia o moreno, mas naquele momento não era algo que o preocupava. Antes de virar, observou bem a feição esquisita da menina. Não acreditou quando esteve de frente para... Aquilo.

– É a construção de San Zhi!¹ – Sussurrou o nome, admirada e amedrontada com o que via.

– Mas nós...

– Acontece. Eu estive em Lisse antes de chegar em Centralia, e foi exatamente assim. Do nada!

– Por que estamos aqui? – Explosivo, o moreno virou-se para ela. – Por que nunca aconteceu comigo antes? O problema é você!

– Ei!

– Coisas que nunca aconteceram antes estão acontecendo agora, com a sua chegada. – Irritado, pegou nos braços da moça e a aproximou perigosamente de seus olhos mortíferos. – O que você é?

O instante não suavizou os olhares do moreno, mas os dela ficaram levemente tomados pela carícia feroz do ônix. Gaguejou antes de falar baixo, em sinal de que também não sabia o que de errado tinha ela mesma.

– Eu não sei, Sasuke.

– E eu não sei como prosseguir daqui. – Soltou-a, encarando com um pouco mais de suavidade. A continuidade do assunto serviu para deixar no ar a confiança que ele teve nela. Acreditou quando ela disse que não sabia. – Não ande longe de mim.

– Talvez, se o problema sou eu, eu possa fazer novamente. Levar-nos pra outro lugar...

– Quieta.

Ainda parados na grama poluída do Resort de San Zhi, frente a frente, absorviam a tensão um do outro sem freio. O cenário não poderia ser mais bizarro, e a mudança dele não poderia ser mais assustadora.

– Escutei algo. – Ela despejou num murmúrio alerta, sendo puxada para o peito dele imediatamente. A colisão era sempre muito bem vinda, mas Sakura não estava pensando na satisfação de senti-lo com seu corpo.

– Mexa-se devagar. Junto comigo.

Quando foram dar o primeiro passo ruidoso, a figura de um gato negro apareceu de trás de uma construção redonda e vermelha. O bichano de olhos amarelos e enormes se aproximou pomposo.

– Isso é...?

Fascinada, a rosa não resistiu. Chegou perto, esquecendo momentaneamente de que estavam num local desconhecido.

– Tá perdido, gatinho? – Passou a mão no corpo molenga do bicho, que ronronou com dengo.

– Sakura! – O moreno puxou-a pelos braços, fazendo com que levantasse. Olhou-a nos olhos profundamente. – Se os cenários mudam, quem sabe o que pode acontecer com criaturas aparentemente inofensivas? Eu te disse pra ficar perto!

– Não me culpe por querer esquecer que estou perdida. – Emburrada. E ele certamente ficou furioso com as palavras dela, porque sabia que esquecer seria muito difícil.

– Te culpo por isso. Quero voltar para lá. Para os monstros, para a vida difícil e provavelmente pra morte. É meu lugar.

– Não seja estúpido! Eu sequer sei por que isso está acontecendo. – Gradativamente, a voz da Haruno diminuía, até atingir um som-padrão baixo. – Quero te levar pra vida. Não me culpe por nada.

– Acredito em você. Mas agora não adianta mais. Já estamos perdidos. - Duro e sério, apenas a olhou. Inexpressivo.

Andaram devagar. Preparados. Inocentes. Presas vulneráveis num ambiente inadequado, caçadores em desvantagem.

A única coisa na cabeça de Sasuke era o eco.

“Quero te levar pra vida. Não me culpe por nada.”

Diabos! Se ele mal conseguia ficar bravo por muito tempo com ela, a culparia de quê?

Atribuir culpa... Ele viveu no inferno e mal sabia como tinha chego lá. Culpar a quem? Bem que gostaria de conhecer o culpado.

Depois de horas, o sol começou a se fortalecer como o Uchiha nunca sentiu. A visão do caminho começou a ficar turva e suada. O corpo de Sakura pendurado nas costas dele estava completamente mole e entregue, e a mala de bugigangas em sua mão não desentrelaçou de seus dedos. Antes que pudesse cair e derrubá-la de cabeça no chão, ajoelhou e, sem forças para pousá-la direito, deixou-a cair, caindo em seguida ao lado.

Sua boca estava numa secura ardente. Olhando para o céu azul, seu último pensamento foi no quão frágeis estavam. O corpo dele já aguentou coisas piores. Muito piores.

A brisa fria estapeava seu rosto. A carícia era gostosa, mas havia um alerta em seu cérebro que insistia para que ele abrisse os olhos. Protelou o quanto pode, até sentir o corpo chacoalhar violentamente.

– Sasuke. Acorda! – Uma nota de alegria o assustou. Abriu os olhos imediatamente, lembrando-se que aquela vozinha pertencia à rosa. – Estamos na Austrália!

Primeiro, o sol quentinho e a brisa leve. Depois, os olhos enormes e brilhantes de Sakura. Não quis levantar. Entusiasmada, a menina colocou as mãos no rosto dele e falou:

– Lago Hillier². Austrália.

– Você já disse isso. – Sem forças, o moreno apenas fechou os olhos novamente.

– Tem água. – Ela falou, deitando ao lado dele e largando seu rosto com delicadeza. – Água rosa. E é lindo!

– Eu não consigo sair daqui. – Segredou em voz baixa, ainda de olhos fechados. A gravidade estava realmente o puxando, pois suas pernas sequer tentavam se mover. Seu espírito experimentava a sensação de paz e se acostumava com ela sem querer. A guarda baixa não o assustava. Nem sabia onde estava, e ainda assim não estava preocupado com o que poderia encontrar.

Por quê?

– Eu vou pegar na sua mala um copinho. Você os trouxe?

– Um.

Silêncio, exceto pelos ruídos que Sakura fazia ao levantar e andar. Pensou que finalmente havia se livrado de todas as dores, do sofrimento de ser só, da agonia de dormir com o medo... E dormiu. Sem medo.

– Você estava tão relaxado... – A Haruno o viu sentar. – Não quis te acordar.

Sasuke a olhou esquisito. Sem perceber que ele estava ligeiramente mudado, ofereceu o copo de água. Mas ele só via através do plástico. Um lago rosa os cercava. Nunca esteve mais impressionado.

– Estou no céu?

– Algo assim.

Não se importaram com a fome. Ao invés, descansaram deitados enquanto bebiam da água rosa excessivamente salgada, esquecendo que a noite podia não ser tão amigável assim. Quando a tarde escurecia impiedosa, levantaram do chão juntos, frente a frente. O pio dos pássaros selvagens teciam uma bonita trilha sonora para o contato dos dois olhos a brilhar. Que tempo poderia existir se não o presente momento em que, em transe, encaravam-se sem enxergar qualquer mudança ao redor?

Quando o mundo em volta desembaçou, Sasuke respirou fundo e prendeu a respiração em seguida. Não sabia que brincadeira estavam fazendo com eles, mas esperava sinceramente que a noite demorasse muito a predominar.

– Centralia. No pior horário.



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