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História Parece que o jogo virou - Capítulo 2


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Notas do Autor


hello, hello, hellooo.
vim trazer o segundo capítulo desse denguinho de história e agradecer a todos os favoritos e comentários.
tá sendo uma delicia trabalhar nesse plot e espero que todos apreciam tanto quanto eu. :(

aproveitem a leitura! ♥♥

Capítulo 2 - ... You are afraid of it.


Morar sozinho era um negócio complicado de se discutir. Para alguns, era a melhor coisa do mundo; ter liberdade e privacidade para fazer o que bem entender, almoçar quando bem entender e jantar o que bem entender. Viver de delivery talvez fosse a melhor opção e estava tudo perfeito se fosse assim. Poder sair e voltar quando quisesse sem dar explicações a ninguém, deixar a casa uma bagunça sem alguém enchendo o saco sobre arrumar ou limpar isso e aquilo. Pular um dos banhos diários porque ninguém ficaria sabendo mesmo. No entanto, para outros, era difícil à beça; as responsabilidades vinham aos montes sobre as costas, fossem elas relacionadas ao financeiro — pagar conta, fazer o mercado, lidar com os gastos de um reparo e uma pintura nova, ou comprar utensílios que nunca imaginou — ou ao cotidiano no geral. Esse negócio de ter que cozinhar, lavar, passar, limpar a casa, tirar a poeira, cozinhar mais um pouco.

Sehun estava no meio termo entre os dois pontos quando pensou que precisava de alguém para dividir o aluguel. Não é que faltasse dinheiro, não era exatamente isso. Na verdade, estava muito bem financeiramente falando, embora salvasse a maior parte do que ganhava para o futuro. Vivia nessa insegurança de não saber até quando iria seu sucesso, até quando teria patrocínios e até quando seus inscritos acompanhariam suas coisas na internet. Portanto, guardar dinheiro era sua prioridade. E quanto mais pudesse guardar, melhor.

Além do mais, não era muito fã desse negócio de viver sozinho. Parecia estar cercado de amigos quando estava ao vivo em uma stream ou quando resolvia fazer uma postagem e recebia centenas de comentários, mas não tinha muitos amigos ali perto, em quem pudesse confiar além de Chanyeol. E Chanyeol não era exatamente a figura mais presente do mundo, já que vivia tão preso no mundo dos jogos quanto o próprio Sehun.

“Muita preguiça de sair de casa hoje... E preciso subir meus PDLs. Quer jogar?”

Foi graças aos pontos negativos de manter um apartamento sozinho que pediu por um colega de quarto através do Instagram pessoal. Até poderia ter divulgado na conta onde tinha milhares de seguidores, mas tinha um receio gigantesco de acabar morando com alguém que só queria estar ali por ser uma pessoa conhecida. 

No entanto, não esperava que justo Byun Baekhyun tivesse interesse em morar junto.

Jurava que tinha guardado a paixão pelo garoto bem no fundo do coração assim que ele saiu do colégio para fazer faculdade e que não sentiria nada quando o visse novamente, mas foi só ouvir sua voz no telefone para que o mundo inteiro desabasse sobre sua cabeça o coração acelerasse feito um louco, exatamente como acontecia quando andavam juntos anos atrás.

Se lembrava bem daquele dia, embora parecesse algo que tinha vivido em sonho. Tinha lido em algum lugar que era normal ter um aspecto escurecido em lembranças que mexiam muito com o emocional e, porra, como aquela ligação tinha mexido com ele.

Estava jogando, live ligada, chat enlouquecido com uma partida em que estava indo bem pra caramba — o que era raro, considerando sua posição de bronze I no League of Legends — e, do nada, um número desconhecido ligando. Inicialmente, pensou em ignorar e continuar conversando com Chanyeol, que vinha de duo e estava ouvindo-o através do compartilhamento de voz do jogo, ambos xingando o time inimigo e rindo bastante cada vez que conseguiam eliminar um dos adversários. No entanto, tinha aprendido que números desconhecidos vinham sempre acompanhados de ótimas ofertas acerca de publicidade e patrocínio, então só esperou que pudesse jogar apenas com uma mão para que atendesse a chamada.

— Alô? — disse, assim que deslizou o polegar sobre o botão verde no ecrã.

Oi, é Oh Sehun falando? — distraído com seu personagem caminhando pelo mapa do jogo, nem se atentou ao tom de voz muito conhecido. Baekhyun estava passando pela puberdade quando se conheceram, mas mesmo com os sinais de amadurecimento naquele timbre, reconheceria em qualquer lugar. 

— O próprio, em carne, osso e espírito. Quem gostaria? — àquela altura, já se perguntava se não era somente alguma cobrança ou promoção de linha telefônica.

Sehun, é o Baek. Baekhyun. Err... — Sehun estagnou. — Byun Baekhyun, a gente estudou na mesma escol-

— Só um minuto, por favor — olhou para o celular só para ter certeza de que tinha mutado o próprio microfone e fez o mesmo com o microfone da live, certificando-se de que ninguém além de Chanyeol pudesse ouvi-lo. — Chanyeol, porra — bradou, os olhos arregalados enquanto tentava continuar a partida, mas não tinha cabeça nem para se lembrar de que item precisava comprar naquela hora. — É o Baekhyun no telefone!

Que Baekhyun, cara? — o amigo devolveu, provavelmente distraído no que fazia no jogo tanto quanto Sehun estava.

— Baekhyun, Byun Baekhyun. Aquele Baekhyun. Da escola.

Seu primeiro amor? — riu.

— O próprio.

Como é que ele tem seu número? — quis saber e, de repente, a questão veio a mente de Sehun também. Como diabos Baekhyun tinha seu número?

Então, recuperando-se do surto, voltou a acionar o microfone do celular. Provavelmente parecia muito nervoso com uma simples ligação, mas não tinha força nem pra disfarçar o baque que ouvir aquela voz, aquele nome, tinha causado.

— Oi, Baek — respirou fundo. — Tudo certo? Como você conseguiu meu número?

É que o Jongin me contou que você tá procurando alguém pra morar contigo e — ouviu sua risada — e, porra, que saudade tinha sentido de ouvi-la — eu preciso me mudar, assim, meio urgente. Você já encontrou alguém?

— Ah! Espera só mais um pouquinho, ok? — mutou o microfone novamente, voltando-se ao amigo do outro lado da chamada pelo computador. — Ele soube que eu tô precisando de alguém pra morar junto.

Sehun ouviu a gargalhada de Chanyeol e quis matá-lo, mas acabou sendo ele a morrer na partida, visto que não conseguia focar em mais nada naquela hora. Sua cabeça estava a um milhão por hora.

Ser roommate do teu ex crush parece incrível.

— Mano — Sehun disse, simplesmente. — Mano?

Vai, cara, combina as paradas com ele. Você tá louco pra morar junto com alguém e não teve nenhum retorno até agora.

— É o Baekhyun!

É o Baekhyun — Chanyeol confirmou. — Pelo menos um dos seus sonhos tem que se tornar realidade.

— Que seria qual?

Viver uma vida de marido e marido com o cara que você gosta.

— Gostava — objetou. — No passado.

É, dá pra ver — riu, fazendo Sehun bufar alto e voltar a conversar com o Byun.

Enquanto os dedos tremulavam de leve e o chat enlouquecido subia frases como “por que o Sehun tá mutado?” “a cara dele, puta que pariu, tiltou total”, sentia o coração bater mais rápido e a respiração ainda mais difícil de controlar, mas terminou a noite acertando tudo a respeito da mudança de Baekhyun para sua casa.

Byun Baekhyun, a porra do Byun Baekhyun morando junto. Tinha certeza que não devia se passar de um sonho — e era o melhor sonho que já teve, isso não poderia negar em nenhuma circunstância.

Jurou para si mesmo que agiria naturalmente e não pareceria o mesmo bobo apaixonado que deixava transparecer a paixonite treze anos atrás. Afinal, Sehun tinha amadurecido, não era mais virgem, sabia como relações funcionavam — mais ou menos — e não queria assustar Baekhyun de forma alguma. Em sinceridade, se bem se lembrava, sempre achou o mais velho uma pessoa incrível. Engraçado, inteligente, bom de conversar. Seria uma amizade maravilhosa de se ter por perto, mesmo que seu coração voltasse a bater forte cada vez que Baekhyun sorrisse em sua direção.

A cada nova receita que reproduzia na sua cozinha, cada vez que deixava seu cheiro por todo o seu colchão ou cada vez que elogiava o gosto do seu café.

Sehun havia mudado muito desde a escola, conseguia se comunicar sem ter as bochechas ardendo em tons de vermelho, conseguia se expressar e puxar assunto. Achou que aquilo de sentir-se trêmulo cada vez que via os olhos de Baekhyun tinha acabado naquela época também e era quase horrível constatar que não.

E lá estava ele, num sábado à noite, uma porção de garotas e garotos enlouquecidos para trocar alguns beijos com ele e nenhum interesse brotando por nenhum deles.

Chanyeol tinha conseguido arrastá-lo de casa para que se divertissem numa balada do centro da cidade e, sendo sincero, Sehun não era muito fã daquele tipo de ambiente, mas tinha se convencido de que a situação com Baekhyun era puro tesão acumulado e só precisava trocar beijos com alguém para que tudo passasse. Mas era complicado demais se nem ao menos tinha o interesse despertado por qualquer pessoa naquela pista de dança.

Seus pensamentos iam em como tinha passado os últimos dias bem na companhia do Byun, como se davam bem àquela altura e como tinham feito uma intimidade crescer. Talvez fosse um lance de colega de apartamento, talvez fizesse parte da etiqueta de morar junto com alguém, sei lá, agir como família, mas havia tantos sentimentos dentro de uma só relação que sentia que poderia explodir.

O rosto bonito vinha lembrando-o de que, na verdade, não queria mesmo beijar outros lábios naquela noite, não queria nenhum outro toque que não fosse o dele, embora tivesse certeza de que nem o dele poderia ter porque, qual é, era Byun Baekhyun.

Era uma merda — e ao mesmo tempo incrível — saber que ele tinha tanto poder sobre seu coração ainda, triste saber que seria improvável algo acontecer, frustrante não conseguir sentir vontade de mais ninguém, enquanto Chanyeol passeava por entre as pessoas e “passava o rodo” como ele gostava de dizer.

Sehun tinha dedicado sua atenção ao barista que o atendia com muito carinho e não fazia questão de flertar a cada cinco segundos, como qualquer outra pessoa que se aproximava para conversar. Ia se perdendo em pensamentos a cada nova dose que mandava para dentro e, quando deu por si, já estava com vontade de ir embora, porque, cambaleante, mal conseguiu alcançar o banheiro quando precisou.

O amigo, que raramente bebia quando saíam juntos, o deixou em casa perto das três da manhã, depois de ter aproveitando tudo o que podia daquele lugar.

E Sehun pensou em passar pelo quarto do roommate assim que entrou em casa, só pra se certificar de que estava tudo bem. Poxa, sabia que ele tinha recebido visitas e não havia nem sinal, além de uma sala toda bagunçada com copos descartáveis para todo lado, um jogo que nunca tinha jogado sobre o tapete felpudo e garrafas vazias. Mas não queria parecer invasivo; àquela altura, a bebida não o deixaria nem bater na porta antes de entrar, por isso o pouco de razão que havia restado permitiu que fosse direto para a própria cama.

E, boom, surpresa!, um presente do destino bem em cima dos lençóis escuros, que tinha se lembrado de trocar no dia anterior.

Baekhyun, deitado de bruços e agarrado ao seu travesseiro como se fosse o ursinho de pelúcia mais macio e cheiroso do mundo. Parecia estar viajando num sonho gostoso. Sehun pensou que fosse essa a situação porque, imensuravelmente adorável, Baekhyun exibia um sorriso pequenininho nos lábios, mesmo com os olhos fechados e a respiração alta indicando que já tinha caído no sono há algum tempo.

O ímpeto de beijá-lo era provavelmente uma reação do álcool em seu organismo, mas, mais uma vez, Sehun preferiu ouvir a razão, berrando bem no fundo da sua mente que beijar alguém em seu sono era errado e errado pra caramba. Por isso, encontrou espaço ao lado do mais velho no colchão e adormeceu contente por ter mais do que apenas o cheiro de Baekhyun espalhado em seu colchão; tinha também o seu calor.

Naquela noite, sonhou com os olhos brilhantes e o sorriso fácil do colega de quarto.

 

 

Baekhyun despertou com o mesmo cheiro de café de todos os dias. Piscou lento, o escuro do quarto tentando induzi-lo a mais algumas horas de sono, embora algo dissesse que já havia dormido demais para o seu tamanho. Só se deu conta de que estava na cama de Sehun quando abriu os olhos e passeou pelo quarto com o olhar, encontrando aquela bagunça charmosa desejando-lhe um bom dia.

A cabeça latejava, deixava-o com vontade de gritar ou atingi-la na parede até que a dor cessasse. No entanto, se lembrou que café costumava curar o incômodo de uma ressaca, por isso caminhou devagarinho até a cozinha e, como esperava, encontrou Sehun passando a água quente pelo filtro. Um sorriso gentil despontou no canto da sua boca assim que viu o menor passando pela porta, com uma das mãos sobre a testa, porque o calor da palma fazia parecer que a dor era bem menor.

— Acho que nunca mais vou beber na vida — resmungou, se sentando na banqueta que ficava ao lado da ilha de mármore. As duas mãos foram na direção das têmporas e um gemido de dor escapou.

— Comprei isso aqui — Sehun empurrou uma cartela de algum remédio que Baekhyun não conhecia — ou não soube identificar naquele surto de uma possível enxaqueca. — Imaginei que você ia acordar com dor — então, riu baixo.

— Você foi até a farmácia hoje? — Baekhyun soltou, surpreso, enquanto buscava uma garrafa d’água para tomar um dos comprimidos.

— Uhum — Sehun confirmou, encarando o que fazia com o filtro de café sobre a garrafa térmica. — Trouxe uma bolsa de gel, daquelas que ficam geladinhas e ajudam na dor de cabeça também. Se você quiser usar… Tá no congelador.

Com um sorriso bobo e a constatação de que estava sendo cuidado pelo maior, sentiu vontade de abraçá-lo. No entanto, sentia que ainda não tinham intimidade o suficiente para esse tipo de coisa, portanto somente agradeceu de um jeitinho bobo e viu um sorriso maior formar-se nos seus lábios.

Sehun ficava tão bonito sorrindo que era quase criminoso.

Havia bastante coisa disposta sobre o balcão naquele café da manhã; o que tinha sobrado do bolo que Baekhyun confeitou no sábado, ovos mexidos, panqueca, café, suco. Era gostoso quando paravam para comer juntos, sempre tinham um assunto aleatório para conversar. Naquele dia, embora tivesse uma dor latente parecendo estourar seus miolos, Byun estava interessado em conversar.

— Sua noite foi legal? — perguntou, referindo-se a saída de Sehun que deixou seu estômago pedindo por salvação. Ou era o coração?

— Não muito — Sehun devolveu. — Fiquei assistindo Chanyeol dar em cima da balada inteira. Quase que o barman não se salva.

O tom divertido com que ia contando fez Baekhyun sorrir, perguntando-se se não havia sido muito injusto ao julgar que Chanyeol e Sehun tinham algo.

— E você? — indagou, como quem não quer nada.

— Eu o quê?

— Não deu em cima de ninguém? — escondeu o rosto atrás de xícara de café enquanto bebericava o líquido quente, só para ter certeza de que o roommate não perceberia suas bochechas ficando quentes, caso ficassem. Não gostava de soar invasivo com a privacidade de Sehun, mas tinha a curiosidade batucando um festival em sua mente.

— Não — respondeu, simplista. O sorriso de canto de boca que exibiu no segundo seguinte fez Baekhyun perder o fôlego sem nem perceber. — E a sua noite?

— Bebi demais — confessou, finalmente deixando a respiração sair pesada na direção da bebida que voltou a soprar. — Foi divertido, mas eu não me lembro nem de metade.

— Eu percebi, foi dormir lá no meu quarto.

— Desculpa, eu não percebi mesmo — pediu, tentando parecer sincero. Se lembrava exatamente do motivo de ter ido parar dentro do quarto de Sehun e dormir agarrado ao seu travesseiro, mas a mentirinha não pareceu a pior do mundo quando soltou. — Deve ser costume... Aliás, por que você não usa seu quarto pra trabalhar?

— Você tá querendo passar mais tempo no seu quarto? — Sehun perguntou, preocupado.

— Não, não é isso — adiantou, quase se deixando ficar afobado pelo rumo da conversa. Não era exatamente o que queria dizer ao maior, só estava um pouco curioso a respeito daquilo. — Eu só tava me perguntando isso, porque seu quarto é bem grande e o computador ficaria ótimo naquele canto da TV.

Sehun riu baixinho.

— Eu já mostro muito da minha vida na internet, sabe? — desabafou, servindo um pouco mais de café dentro da própria xícara. — E o meu quarto é o único lugar da casa que ninguém nunca viu. Além de você, claro — corrigiu, sorridente. — Nem nas streams e nem nas postagens do Instagram eu mostro, porque gosto da sensação de privacidade que tenho lá dentro.

— Eu entendo — acenou positivamente com a cabeça, admirado pela forma como a mente de Sehun funcionava. Se trabalhasse com algo parecido, provavelmente não notaria aquele tipo de problema. Ou só não se importava muito com isso de privacidade, não sabia dizer. — Sério. E pode usar o quarto a vontade, não fica pensando que eu quero te expulsar de lá.

Só se tranquilizou após ver o mais novo concordando com a cabeça ao que dizia e garantindo que entendia a curiosidade; não era mesmo muito convencional.

Depois, viram-se perdidos em mais assuntos bobos enquanto os alimentos sobre a mesa iam sendo ingeridos aos poucos. Conversas indo e vindo ao vento enquanto Baekhyun sorria para Sehun, Sehun sorria para ele e o mundo parecia completamente pintado em tons coloridos, cores vivas que despertavam a esperança de algo muito, muito bom que estava por vir.

— Você realmente não tira isso — Sehun comentou, referindo-se ao anel que tinha encarado durante todo o café da manhã. O sorriso contente deixava sua expressão irresistivelmente charmosa e fazia Baekhyun sentir um calorzinho engraçado no coração.  

 — Eu disse que não — fez um beicinho ao responder.

— Achei que tinha colocado só pra me impressionar — o mais novo riu após a brincadeira. — Sabe que ganhar pontos com a pessoa que vai morar junto é fundamental. Eu, por exemplo, limpei a casa naquele dia.

— Eu imaginei, tava com cheiro de produto de limpeza — Baekhyun fez careta antes que acabassem rindo juntos novamente. — O pior é que eu realmente não tiro ele desde aquela época — encarou o anel, acariciando a lateral dele bem de leve com a ponta do polegar.

Sehun se aproximou, arrastando a cadeira até o seu lado na mesa e puxou a mão do roommate para perto do próprio rosto, analisando a pecinha metálica com cuidado.

— E, pelo visto, você cuida direitinho dele. Parece até que tá novo.

— Eu até mando lustrar, às vezes.

— É sério? — os olhos arregalados na direção do Byun arrancaram-lhe um sorriso terno.

— Sério mesmo.

E, perdidos num momento bonitinho que era apenas deles, os colegas de quarto se renderam a mais conversas sobre tudo e sobre nada enquanto terminavam de comer e arrumavam a cozinha juntos.

Ambos se lembravam de todos os pensamentos que foram instigados pelo álcool na noite anterior, mas nenhum deles estava disposto a arriscar o que vinham construindo numa conversa acerca daquilo. Afinal, não havia necessidade nenhuma de expressar. Não ainda.

 

 

O relógio apontava um horário que Baekhyun indicaria como “tarde pra chuchu”, mas “não tarde o suficiente pra dormir”. Ouvia Sehun jogando dentro do quarto e conversando com seus espectadores enquanto morria no mesmo mapa de sempre, com o mesmo personagem de sempre. Não teve vontade de assistí-lo naquele dia, talvez porque passaram a tarde grudados assistindo realities na televisão e Baekhyun não queria se ver como um maníaco louco pela atenção do roommate.

Sentia vontade de jogar, na verdade, por isso pegou o controle do console que tinha na sala e escolheu o que lhe pareceu mais agradável aos olhos. Se tivesse ido pelo que parecia mais fácil, talvez não tivesse terminado a noite daquela forma; deixando gritos de frustração escaparem, palavrões que não costumava soltar e a agitação no corpo que há muito não sentia durante um game. Tinha até se levantado do sofá e ficava se inclinando de um lado ao outro, como se o personagem fosse influenciado pelos próprios movimentos e não pelos botões no controle.

— Tá tudo bem aí? — ouviu a voz de Sehun vir da porta do corredor e desviou o olhar na direção dele no mesmo instante, assustado.

— Tá sim, por quê? — mal percebeu que tinha começado a falar mais alto do que o recomendado, porque aquele jogo tinha mesmo deixado-o frustrado ao ponto de se ver imerso naquele mundo e esquecer-se de que, porra!, Sehun estava ao vivo no quarto ao lado.

— Você tava literalmente berrando aqui — viu a risada escapar dos lábios do mais novo. — O pessoal da stream ouviu e quis saber quem que tava passando mal dentro da minha casa. Saiu teoria até sobre fantasmas.

— Meu Deus, desculpa — Baekhyun tapou a boca com uma das mãos, embora a vontade de gargalhar pela situação fosse maior que qualquer coisa.

— Desculpo nada — risonho, Sehun continuou: — Eu contei que provavelmente era o meu colega de quarto e agora querem te conhecer.

— Como assim? — assustou-se com a ideia, se imaginando ao lado de Sehun na câmera.

— Pois é, apostei com eles que você não ia querer aparecer — cruzou os braços, fitando o menor todo sem jeito no meio da sala.

— Você apostou que eu ia ou que não?

— Assim a aposta não tem graça. Quer vir?

Baekhyun lambeu os lábios, pensando se deveria ir ou não. Sendo sincero, nunca tinha se imaginando em nenhum tipo de mídia social. Se postava algo no Instagram ou no Facebook já era um milagre divino e, no geral, raramente era o seu rosto nas postagens. Preferia fotografar os bolos e os pratos de comida que fazia, a série que estava assistindo ou um cenário urbano que parecia bonito na câmera do celular. No entanto, aparecer em vídeo? Parecia a coisa mais absurda do mundo.

Meio incerto, deixou o controle do videogame no sofá e caminhou até Sehun.

— Eu vou — numa convicção quase forçada, aceitou o convite. — Mas não me faz passar vergonha, tenho uma reputação a manter.

— Claro — Sehun riu baixo, levando-o até o quarto para que pudesse apresentá-lo para seus seguidores. 

Tinha uma cadeira parecida com a que Sehun usava bem ao lado, foi onde Baekhyun se acomodou para ser enquadrado na webcam junto dele. Viu seu rosto num espaço retangular pequenininho na tela e ajeitou os fios de cabelo; estavam uma bagunça só depois de tanto pular pela sala enquanto jogava. Bem ao lado, havia um amontoado de letras subindo num ritmo frenético e foi depois de apertar os olhos para analisar do que se tratava que o Byun percebeu que eram os comentários de quem estava assistindo.

— Como você consegue ler isso aqui? — perguntou a Sehun, sorrindo de um jeitinho acanhado ao interrompê-lo em um “então, esse é o Baekhyun, meu companheiro de quarto e melhor cozinheiro que já conheci” direcionado aos espectadores da stream.

— Eu já me acostumei — respondeu, gargalhando ao aproximar o rosto da tela e ler alguns deles. Decidiu, então, contar a Baekhyun o que ele estava perdendo entre aquelas palavras. — “Baekhyun, o que você tava jogando? Baekhyun, manda oi pra mim! Baekhyun, você é lindo.”

Um riso escapou dele nessa hora.

— Disseram isso mesmo? — perguntou, curioso.

— Várias vezes — analisou o chat um pouco mais e sorriu, parecendo mais alegre que o normal. — E ninguém mentiu.

Baekhyun sentiu um misto de timidez e aquela sensação gostosa que agitava seu estômago quando tinha momentos mais próximos com Sehun e sorriu, observando as letrinhas que subiam de forma incessante e conseguiu ler algumas delas.

Hmmmmmmmmmmmm.

Gadou. kkk

Gado demais.

— O que “gado” quer dizer? — soltou a pergunta ao mais novo, rindo baixinho pela forma como as bochechas de Sehun pareciam ser coloridas por uma vermelhidão adorável.

— É melhor você ficar sem saber, vai por mim — embora não parecesse algo ruim ou ofensivo, Baekhyun só deixou para lá. Podia se lembrar de perguntar isso outra hora, quando não estivessem ao vivo, talvez. — Olha, tão dizendo que você é muito fofo e que devia jogar algo para eles verem.

— Querem me ver xingando? — riu fraco, ainda mais tímido do que já estava.

— Provavelmente — concordou, divertido. — Você quer?

— O que você geralmente joga? — Baekhyun perguntou, embora já soubesse a resposta. Sehun não precisava saber que ele estava sempre acompanhando suas streams e que sabia muito bem a opção favorita dele.

— LOL, sempre.

— Eu não sei jogar muito bem — sem jeito, foi contando. — Só sei jogar de suporte e ainda fico todo atrapalhado, vou acabar com seus PDLs.

— Eu não sou nenhum pro player, Baek — Sehun garantiu. — Esse povo todo me acompanha porque eu jogo mal mesmo. Não se preocupa.

Baekhyun espiou o chat por um instante, vendo todos entregarem a mentira de Sehun — que sabia bem não ser tão mentira assim.

Aí mentiu.

Humilde demais. kkk

— Tá bom, eu jogo uma — concordou com a proposta, pensando que seria divertido. — Isso porque eu te disse pra não me fazer passar vergonha.

— Não vai passar vergonha, tenho certeza.

Então, o maior entre os dois abriu a própria conta no jogo, deixando que Baekhyun se ajeitasse na frente do computador para se preparar para o início da partida. A escolha do personagem foi óbvia para quem o conhecia — e jogava junto dele constantemente — mas o chat ficou ainda mais agitado com ela. Um sorriso sincero e enorme apareceu em seus lábios quando percebeu que boa parte dos usuários estavam apoiando a decisão e desejando um ótimo jogo ou, até, dizendo que já tinha vencido antes mesmo de começar.

No começo do jogo, estava meio perdido entre dar atenção ao que acontecia no monitor da partida e o que diziam no monitor onde o chat era exibido, por isso decidiu parar de tentar ler as coisas e focar a atenção somente no personagem brilhante que insistia em curar o parceiro de minuto em minuto enquanto tentavam abater os adversários. E, mesmo enferrujado, Baekhyun conseguiu se dar bem na partida, ajudar seus companheiros e até fazer uma kill, num golpe de sorte. Ou, talvez, fosse a habilidade de quem adorava o jogo desde o lançamento, embora não tivesse muito tempo para ser um viciado.

— Estão te elogiando — Sehun disse, parecendo feliz pela reação de quem o assistia.

— De verdade? — o mais velho pareceu meio incrédulo, não imaginou que fosse ser elogiado realmente. Costumava assistir as streams de Sehun e elogios não faziam parte dos comentários. Risadas eram a maioria.

— “Joga melhor que o Sehun” — ele leu. — “Quê isso? Um Deus. Baekhyun tem que fazer um tutorial de como ser um suporte foda.” E por aí vai. Acho que querem até que você roube o meu lugar — Sehun fez beicinho, mas não sustentou a expressão dramática por muito tempo; teve que rir pela reação dos espectadores, implorando que Sehun jamais os abandonasse ali. — Nós dois, então?

O festival de “sim”s que subiram na tela fez o dono do canal rir ainda mais antes que voltasse a focar a atenção na partida que Baekhyun jogava. Já estava perto do final quando ele comemorou a vitória, mesmo que ainda não tivesse acabado; seus minions estavam invadindo a base do inimigo, o que significava que em breve o Nexus estaria destruído e, boom!: Vitória.

A trajetória até ali tinha sido regada de palavrões censurados pelo mais velho, uma série de “carambolas”, “cacilda” e “baralho” que fez o chat inteiro cair na gargalhada, e suspiros fofos das fãs de Sehun que também tinham caído de amores pelo jeitinho adorável que o Byun demonstrava na frente da câmera.

— Depois dessa, acho que você vai ter que abrir um canal também — Sehun incentivou, julgando impossível conter um sorriso quando viu a reação do roommate. Quem assistia à live, por sua vez, digitava apoios infindáveis para aquela ideia. Tinham adorado a presença de Baekhyun e Sehun conseguia perceber isso de longe.

— Não sei não — soltou, envergonhado, mas sorridente. Imaginar quantas pessoas estavam ali, do outro lado da tela, era intimidador, ao mesmo tempo que despertava uma adrenalina gostosa que nunca tinha sentido. Nem sabia como conseguiu jogar tão bem diante de tanta gente assistindo. — Não acho que levo jeito com isso.

— Pensa com carinho, tem uma galera aqui já prontinha pra te seguir — o maior tocou-lhe na coxa, confortando. — Vem, fica aqui do meu lado até o final da live. O chat tá pedindo.

O olhar que recebeu do mais novo fez o coração parecer quentinho novamente e não se importou em se acomodar na cadeira ao lado outra vez para ficar assistindo Sehun jogar. E, dessa vez, nem precisava ser através do celular. Estava dentro daquele universo que compartilhavam há dias sem que o roommate soubesse e parecia a coisa mais surreal de todas, mas sentia-se feliz. Meio bobo também.

Dali, Baekhyun tinha uma visão privilegiada da tela do jogo, mas não era exatamente apenas nisso que prestava atenção. Seu olhar ia e vinha pelos braços do mais novo, apoiados na escrivaninha enquanto ele iniciava uma partida, e sem querer — querendo — reparou na forma como suas veias saltadas deixavam o formato de suas mãos e antebraços charmoso. Também havia aquele cheiro gostoso, o cheiro de Sehun, invadindo seus sentidos e tornando-o um viciado; quanto mais perto estava, mais perto queria ficar, mais daquele cheiro queria roubar.

Embora fosse uma tortura ficar tão perto, tentou ignorar esse tipo de pensamento conforme conversavam sobre a partida, Baekhyun dava dicas ao mais novo sobre o posicionamento no mapa e itens que conhecia, e passaram o resto da noite naquela diversão compartilhada enquanto o chat parecia gostar cada vez mais do colega de quarto do jogador.

Foi no início da madrugada que anunciou o final da live, agradeceu a todos que permaneceram junto deles durante aquele tempo e acenou um tchau bonitinho para a câmera. Até Baekhyun sorriu com a despedida.

— Porra, doaram mais que o normal hoje — Sehun disse, enquanto terminava de fechar as coisas e parecia ter encontrado ouro em uma das janelas do computador. — O mérito é todo seu, senhor Byun.

— Como assim doaram? — quis saber, curioso.

— Tá vendo isso aqui? — apontou na tela. — Quem me assiste, me ajuda a pagar as contas de vez em quando. Geralmente eu recebo várias doações de cinco dólares, um pouco mais, mas hoje foi absurdo.

— Por minha causa?! — devolveu, meio surpreso.

— Recebi uma doação de trinta dólares dizendo: “Baekhyun, apareça mais vezes, queremos te ver sempre.” — Sehun leu na tela, rindo fraco pela quantidade de emojis de coração no final da frase. — Não fico surpreso, sinceramente. Você tem… Esse jeitinho aí.

— Que jeitinho? — quis saber, sorrindo de canto ao ouvir aquilo.

— Todo carismático e tal — o maior acabou pigarreando, voltando a encarar a tela, que nem devia ter parado de olhar, pra começo de conversa.

— Você também é — Baekhyun rebateu. — Não imaginava que era tão comunicativo — e era verdade. Embora já tivesse visto aquele lado nas outras noites, antes de reencontrá-lo não teria imaginado em nenhuma circunstância que Sehun tinha aquele tipo de personalidade.

— É porque eu não sou — sorriu pequeno, terminando de desligar o computador para, enfim, encarar o mais velho. — Só é confortável conversar com gente parecida comigo. Me sinto no meio de um monte de amigos, sabe?

— Isso é tão bonitinho — disse, naturalmente, mas o sorriso sem jeito que surgiu nos lábios do colega de quarto fez com que o Byun ficasse tão tímido quanto ao perceber como tinha soado. Por isso, pigarreou também e voltou a falar, mudando o foco da conversa para que não acabasse se mostrando um pimentão outra vez. — Quer cappuccino? Gelado. Com bastante chantilly e... Calda de sorvete! Vou fazer.

E realmente foi, deixando um Sehun risonho para trás, talvez tão sem jeito quanto o próprio Baekhyun.

Enquanto se dedicava a preparar as taças do jeito mais bonito que conseguia, tentava disfarçar que o fato de ter sido seguido até ali, pouco tempo depois, tinha deixado um desconforto confortável em seu interior. A presença do mais novo tinha esse efeito de vez em quando e era estranho. De um jeito gostoso.

— Você tá com sono? — Sehun perguntou, pouco depois de entrar na cozinha.

— Não muito — respondeu, sincero.

— Vamos assistir alguma coisa, então — sugeriu. — Um filme ou um daqueles realities que você gosta.

— Que eu gosto? — Baekhyun riu. — Tá jogando a culpa nas minhas costas agora, Oh Sehun?

— Eu não disse que não gosto — rebateu, divertido. — Mas você me chamou pra ver primeiro.

— Você tem um ponto — admitiu, quase se deixando fazer um beicinho pela derrota na discussão.

E, enquanto decidiam o que iam assistir naquela noite, Baekhyun terminava de decorar as taças e preparar o cappuccino gelado com carinho, dedicando o mesmo amor que dava a todas as receitas que se propunha a fazer.

Acabaram jogados no sofá, discutindo sobre quem gostava mais do reality que começaram a acompanhar juntos e debatendo sobre quem merecia ganhar o prêmio no final. Não concordavam na torcida um do outro, mas seguiam assistindo aos episódios e tentando convencer um ao outro de vir para o outro lado do time, entender que fulano era mais legal que ciclano e merecia mais.

Sehun nem percebeu quando foi que o sono começou a dominar seus sentidos e o obrigou a encostar no ombro do colega de quarto, nem se lembrava de qual foi o momento exato do episódio que o fizera fechar os olhos de um jeito demorado e piscar lento demais para que voltasse a abri-los antes do raiar do sol.

Há muito tempo não adormecia no sofá, por isso acordou com o incômodo nas costas e os braços dormentes após perceber que não estava em sua cama e, para piorar, estava quase deitado em cima de Baekhyun. Quis rir pela situação ao mesmo tempo em que sentiu uma ansiedade gostosa por tê-lo tão perto.

Por costume, buscou o celular até encontrá-lo sobre o braço do sofá e checou o horário. Não tinha motivo para acordar cedo, mas ficou satisfeito ao perceber que tinha acordado antes das oito, embora soubesse que voltaria a dormir em breve, principalmente por sentir que não havia descansado nada naquela noite. Devia ir para a cama e terminar suas oito horas de sono lá.

Antes que pudesse bloquear a tela do smartphone e tentar acordar Baekhyun para que também se ajeitasse, espiou as notificações de mensagem, estranhando o fato de que havia o nome do roommate ali.

“Lembrete pra amanhã: Você babou no meu ombro enquanto dormia. Eca. :P”

Riu baixinho ao ver, abaixo da mensagem, o próprio rosto adormecido com a bochecha toda amassada contra o ombro do mais velho. Ele também estava na foto, os olhos divertidos com a pontinha da língua no canto dos lábios, o que ilustrava a melhor expressão travessa que já tinha visto o colega de quarto exibir.

Ficou tímido por como estava parecendo ridículo na fotografia, mas acabou sorrindo com carinho por saber que Baekhyun tinha achado, naquela situação, um bom motivo para registrá-lo. Deixaria aquela foto guardada por bastante tempo no celular. Talvez estivesse bobo o suficiente para defini-la como papel de parede, mas, antes que pudesse, sentiu dois braços apertarem sua cintura com força.

Baekhyun estava despertando do sono também e provavelmente estava confundindo Sehun com um ursinho de pelúcia. Ao menos era o que Sehun pensava, já que duvidava que o menor o apertaria daquela forma se tivesse consciência de que era ele quem estava apertando.

— Meu corpo dói — choramingou, o tom de voz sonolento saindo mais rouco do que de costume, fazendo o mais novo rir soprado, de um jeito quase terno.

— É pra gente aprender a não cair no sono todo amontoado desse jeito — a voz quase falhou também. Pigarreou baixinho.

— Não acredito que a gente não viu o final do episódio.

— Eu não sei se vi nem metade do episódio — assumiu, rindo fraco.

— Você é um traidor — Baekhyun disse. — Vi dois episódios sozinho, sabia?

— Que mentira, eu nem dormi tão cedo — Sehun se defendeu, falsamente indignado pela acusação.

— Dormiu sim — ainda o apertava entre os braços quando retrucou, os olhos voltando a se fechar vagarosamente.

Sehun ainda se questionava se realmente era a intenção do Byun mantê-lo tão grudado daquele jeito, se realmente estava ciente de que estava agarrado ao seu corpo e se sentia seu coração bater acelerado, porque… Até os vizinhos deviam estar ouvindo.

Antes que pudesse se deixar levar pelo momento, viu o colega de quarto resmungar e suspirar bem fundo, num sinal óbvio de que queria dormir um pouco mais, pouco importava se estava todo torto sob seu corpo no sofá.

Então, o mais novo se desprendeu do abraço de forma delicada e seguiu na direção da cozinha, pronto para passar um café quentinho e esperar que Baekhyun acordasse. Aí percebeu que foi um bobo ao se desprender dele, porque ele não dormiria mais. Ouviu o som da movimentação no cômodo ao lado e não demorou muito para que o menor aparecesse na porta, resmungando algo que não conseguiu entender direito até que o Byun surgisse ali, mostrando o celular.

— Eu ganhei cinco mil seguidores no Instagram. Do nada!

Demorou meio segundo para que Sehun conseguisse assimilar o que estava acontecendo ali e, depois de morder o canto do lábio inferior ao pensar num modo de explicar sem parecer esquisito, soltou:

— Meus seguidores são meio malucos. Stalkers, às vezes. Provavelmente queriam te seguir também e saíram procurando seu nome.

— Mas você nem me segue!

— Pra você ver — riu. — Doidos.

Baekhyun, por sua vez, se divertia ao ler a chuva de comentários que ia recebendo nas poucas fotos que continham seu rosto no próprio perfil.

“Fofo”, “lindinho” e “gostoso” — a parte mais surpreendente para Baek — compunham a maioria deles. Um montão de emojis para todos os lados também e, sinceramente, não estava entendendo nada, mas seguia rindo e animado, porque nunca teve tantos seguidores na vida.

— Estão me chamando de fofo, lindo e gostoso — se gabou, se aproximando do balcão para sentar na cadeira alta ao lado, como costumava fazer.

Sehun não mordeu a língua dessa vez.

— É sinal de que não são cegos.

Baekhyun riu.

— Te chamam dessas coisas também?

— O tempo todo — respondeu.

— Então não são mesmo.

Ficou satisfeito ao ver as bochechas do mais novo assumindo um tom bonitinho de quem estava um pouco envergonhado enquanto ele servia café para os dois. E, como num ritual matinal, embarcaram num mundo que era apenas dos dois, em conversas que se tornavam infindáveis de um jeito confortável.

Baekhyun estava pronto para continuar na sua jornada de divulgar seu currículo por aí quando uma mensagem de Jongin fez acender a tela do celular.

“Urgência de melhor amigo. Vamos sair?”

E, para receber aquele tipo de pedido, sabia que não era qualquer bobeira que podia deixar para lá. Portanto, contou ao colega de quarto que ia passar a tarde fora antes de se vestir como a ocasião pedia, embora não soubesse qual era exatamente a ocasião.

Jongin gostava de ir ao shopping, encher a barriga de qualquer coisa que não fosse saudável, e jogar algo no fliperama. Quando estava incomodado com alguma coisa, triste ou estressado, se rendia até ao cinema. E foi exatamente o que fizeram naquele dia, como Baekhyun esperava.

Embora tivesse perguntado desde o começo o que é que estava acontecendo, o Kim fugiu do assunto em todas as vezes, procurando outro tópico para conversar e deixando o Byun perdido entre morrer de frustração e curiosidade ou morrer de preocupação. No entanto, se o amigo precisava tanto assim se distrair do que quer que estivesse acontecendo, não o forçaria a falar sobre. Baekhyun, àquela altura, já considerava um milhão de possibilidades e a maioria delas envolvia Soojung; depois que começaram a namorar, era raro vê-lo saindo de casa sem a namorada, principalmente exigindo a presença do melhor amigo para “esfriar a cabeça”. Estranho.  

— Agora desembucha — Baekhyun intimou, bem quando Jongin estava distraído com a casquinha de sorvete enquanto caminhavam sob um pôr-do-sol bonito depois que tinham deixado o shopping. — O que você tem?

— Eu não tenho nada — devolveu, recebendo do mais velho um olhar julgador de quem não acreditava nem um pouquinho naquelas palavras. — Tem um pensamento enchendo minha cabeça, só. Tá me deixando louco.

— O que foi?

— É que… — encheu os pulmões de ar por um instante. — Baekhyun, não tem nada de errado com a Soo.

Baekhyun uniu as sobrancelhas, fazendo as ruguinhas na testa tornarem-se evidentes em sua expressão.

— Ok, eu não entendi.

— Eu tô completamente apaixonado — confessou. — Três anos de namoro! Nada pra reclamar, nada desse sentimento diminuir, nem um motivo pra sair correndo, nem um sinal de que nascemos para sermos só amigos. Nada!

— Tá... E daí? — indagou, impaciente por não conseguir entender aquela linha de raciocínio confusa que Jongin seguia.

 — Eu tô pensando em… — hesitou. Lambeu outra vez o sorvete dentro da casquinha e finalmente disse: — Casamento.

— O quê? — Riu.

— É.

Jongin nem percebeu os movimentos do melhor amigo quando ele pulou em seu pescoço e o amassou num abraço apertado, quase fazendo-o derrubar a casquinha no chão. Mas acabaram os dois rindo, rindo de felicidade. Baekhyun negaria até a morte que tinha deixado um choro emocionado se formar no cantinho dos olhos, mas o mais novo conseguiu ver quando ele se afastou para fitá-lo.

— Sério mesmo? — meio incrédulo, viu o maior acenar positivamente à pergunta e voltou a rir feito um bobo.

Sinceramente, torcia pela felicidade de Jongin desde sempre. Desde que se conheceram, desde que se viram apaixonados um pelo outro, desde que viram a paixão morrer, desde que perceberam que se amavam o suficiente para esquecer a ideia de namoro e continuar naquele amor puro que compartilhavam e que era muito parecido com… Família. Isso, Baekhyun considerava o melhor amigo como família. Talvez por isso tivesse ficado tão emotivo com a notícia.

Saber que Jongin estava feliz com a parceira que tinha escolhido e que tinha certeza de que era ela para o resto da vida era a melhor coisa do mundo. Só queria vê-lo feliz, em sinceridade, e sabia que Soojung fazia o amigo tão feliz quanto ele merecia.

— Eu quero ser o padrinho! — exclamou, por fim, após muito apertá-lo naquele abraço. — Sério, se for qualquer outra pessoa eu nunca mais quero olhar pra sua cara.

Jongin gargalhou.

— E quem mais seria, seu ridículo?

Sorrindo satisfeito, Baekhyun se prolongou no último abraço, desejando do fundo do coração que Jongin fosse o homem mais satisfeito e feliz do mundo ao lado da namorada — e futura esposa. Era verdade quando dizia que o Kim não merecia nem um pouco menos do que todo o amor do mundo e sabia que a amiga era capaz de presenteá-lo assim.

 Foi por isso que encheu Jongin com dicas sobre como e quando fazer o pedido, tranquilizando-o em relação a resposta — porque era impossível que Soojung negasse. E, quando chegou em casa depois daquele passeio, encontrou Sehun jogado no sofá, o rosto escondido atrás de uma barra de chocolate enquanto um programa engraçado passava na televisão. Ainda tinha o sorriso bobo nos lábios quando se acomodou ao seu lado, derretendo sobre o estofado feito um sorvete debaixo do sol.

— Parece que teve um dia bom — Sehun constatou ao notar a expressão abobalhada que o companheiro de quarto mantinha no rostinho.

Um suspiro pesado escapou pelos lábios do Byun e, com a cabeça deitada no encosto do sofá, se virou na direção do mais novo. Ainda sorria quando inflou o peito de coragem para perguntar:

— Por que você gostava de mim na época da escola? — soltou a pergunta, fazendo Sehun engolir em seco, o pomo de Adão nitidamente subindo e descendo na garganta, ao mesmo tempo em que seu rosto assumia aquele tom avermelhado de pura timidez.

— Por que isso do nada?

— Me conta — pediu, sem desprender o olhar do rosto bonito — e envergonhado —  do roommate.

Sehun suspirou também, virando meio de lado no sofá, de modo que ficasse quase frente a frente com o mais velho. O cotovelo encontrou apoio no mesmo lugar onde Baekhyun estava com a cabeça deitada e, naquela hora, devolvia o olhar intenso que recebia do menor.

— Seus olhos eram meio caídos — disse, vendo Baekhyun rir. — Assim… Parecendo o olhar de um filhotinho perdido. Ainda são desse jeito.

— Sehun? — gargalhou, deixando um tapa brincalhão numa das suas coxas.

— Calma, eu ainda não terminei — estava rindo também. — Hm… Seu sorriso era bonito pra caramba. E o seu penteado era um charme também. Aqueles mullets… Porra.

— Foi a pior época do meu cabelo — resmungou, indignado.

— Não foi não — retrucou, sorrindo. — Mas, sério. Tinha um estilo único e legal demais, igual a você inteiro. Suas mãos, suas piadas. Principalmente suas piadas.

Baekhyun, que tinha se perdido na forma adorável como o colega de quarto falava sobre si, exibiu um sorriso pequeno e abaixou o olhar, vendo-se sem jeito demais para continuar aquela conversa. No entanto, ainda estava eufórico o suficiente para deixar a adrenalina falar por ele.

— Será que você veria tudo isso em mim se me conhecesse só agora? — perguntou num sussurro. — Eu não sou mais tão legal quanto era naquela época.

Sehun torceu os lábios, fingindo pensar.

— Acho que não — brincou, vendo Baekhyun exibir uma expressão falsamente chocada e, de repente, tinha sido atingido por uma almofada. Acabaram rindo juntos outra vez e Sehun percebeu que gostava muito de como se divertir com o mais velho soava… Certo. — Por que essas perguntas?

— Não sei bem — ergueu os ombros. — Só tava sentindo que era um elefante que a gente precisava tirar da sala. E… O Jongin quer se casar. Fiquei romântico de repente.

Um sorriso maior que o que já exibia moldou os lábios do mais novo, que não hesitou em perguntar:

— Você fica romântico e vem falar comigo?

E Baekhyun sentiu aquela coisinha gelada cutucar a boca do seu estômago ao perceber o tom que a voz do mais novo tinha assumido naquela pergunta. De repente, podia sentir as próprias bochechas tornando-se um tanto quentes também.

— É o mais perto que eu tenho de um namorado atualmente — riu fraco, sabendo que se arrependeria um bom tanto de ter dito aquilo mais pra frente, mas não importava muito naquela hora.

— Eu sou? — tão sem graça quanto o mais velho, Sehun perguntou, vendo Baekhyun sorrir de um jeitinho travesso e concordar com a cabeça uma vez. — E você ainda nem me beijou. Tsc.

— Não foi por falta de vontade — deixou escapar em voz alta. O coração acelerado dentro do peito devia indicar algum sinal de “pare agora”, mas ao mesmo tempo, o tremor leve que tinha tomado conta de suas mãos se parecia muito com um impulso para que se aproximasse um tantinho mais de Sehun. Deixasse seus lábios tocarem os dele por meio segundo só pra checar se o que estava sentindo era realmente vontade de beijá-lo ou qualquer outra coisa muito semelhante a isso.

Quando viu um sorriso ladino surgir nos lábios do mais novo, Baekhyun quase teve certeza de que, sim, tudo o que sentia era vontade de beijá-lo na boca até perder o ar. Ser encarado daquele jeito também não estava ajudando muito.

— Vem cá, então — o ouviu dizer. O coração saltava feito louco dentro do peito, socando as costelas num sentimento que não experimentava há muito tempo. Foi a vez de Baekhyun engolir em seco.

— Sério? — soltou, meio bobo.

Sehun não precisou de muito para confirmar, só balançou a cabeça em sinal positivo, alargando o sorriso ao perceber que Baekhyun realmente chegou mais perto. A mão direita do mais velho deslizou de um jeito suave e sutil pela bochecha do Oh, acariciando-o com cautela antes que o rosto se aproximasse um pouco mais.

Baekhyun começou com um roçar leve dos lábios. Depois, ousou sugar o inferior do mais novo com todo o carinho que o momento pedia, mas a vontade de sentir seu beijo não permitiu que demorasse mais. Logo as bocas estavam se encaixando uma na outra, as línguas se tocando no mesmo instante em que entreabriram os lábios para tornar o beijo mais intenso, tão esperado e ansioso, mas macio, gostoso. Sehun tinha levado uma das mãos a cintura do Byun para trazê-lo para mais perto e Baekhyun tinha escorregado os dedos devagarinho até poder enroscá-los nos fios da sua nuca, puxando de leve para descontar a sensação de ter todas aquelas borboletas que faziam uma festa sem fim dentro do estômago.

Só separaram os lábios, com muito custo, depois de aproveitarem bastante tempo dos lábios um do outro, sem se preocupar se estavam respirando pesado contra a bochecha alheia, ou se os inferiores já estavam dormentes pelas mordidas e chupões que trocaram.

Os rostos tomaram distância, Sehun prendeu o olhar no do colega de quarto e voltou a sorrir pequeno, roubando outro selar demorado.

— Quis fazer isso por muito tempo — assumiu, ouvindo Baekhyun arfar após a confissão.

— Me desculpa por te deixar esperando — sussurrou ao mesmo tempo em que acariciava seu cabelo.

— Antes tarde do que nunca...

A risada suave que ambos deixaram escapar se encontrou no ar e tornou-se um som único, feliz para quem o ouvisse. Afinal, ambos estavam felizes. Demais. Só não satisfeitos; seriam necessários muitos, muitos beijos, carinho, mordidas e cheirinhos compartilhados naquela noite para que julgassem o momento certo de se separar.

Baekhyun não saberia dizer quando foi o exato momento em que foi parar no colo de Sehun e como foi que a mão do roommate tinha ido parar dentro da sua camiseta, mas estava adorando senti-lo.

Estava adorando assumir para si mesmo que talvez, só talvez, estivesse gostando mesmo de Sehun.

Mas não muito.

Só um pouquinho de nada. 


Notas Finais


valeuzãoooooo a quem chegou até aqui.

nos vemos no próximo capítulo ou pelo twitter: @jongfuckin. ♥♥


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