História Partida de Xadrez. - Capítulo 11


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Capítulo 11 - Invasão.


Cruzei a enorme extensão daquela sala, ouvindo o barulho de meus passos sobre o assoalho desgastado daquele galpão abandonado.Olhei pela janela de vidro,suja por falta de cuidado,o movimento quase nulo de pessoas ao lado de fora,o horário já não era propício para ter tantas pessoas na rua.Fitei meu relógio pela quarta vez em menos de vinte minutos, os ponteiros pareciam se mover mais lento que o normal,ou talvez apenas fosse à ansiedade do momento.Já passava das duas da madrugada, quando a luz de um farol chamou minha atenção.O carro mais do que conhecido por mim estacionou bem a frente da porta lateral do galpão.Os faróis se apagaram,fazendo o carro escuro quase se perder em meio à escuridão da noite.Afastei-me da janela, e caminhei em direção a uma das mesas que havia ali,servindo-me de uma boa quantidade de whisky depositada em uma bela e refinada garrafa.Despejei algumas pedras de gelo no copo,juntamente do álcool que lá já estava. Movi o líquido de um lado para o outro,antes de erguer até meus lábios,tomando um gole significativo da bebida,o que fez minha garganta aquecer. 

- Desculpe a demora,eu tive que passar para buscar alguém.– Falou ao abrir a porta e entrar na sala.

Abaixei o copo sobre a mesa,e encarei com uma expressão confusa e assustada.

- Alguém?Do que está falando?

- Calma,eu vou explicar.

- Acho bom que explique. – me virei em direção a procura de um lugar para sentar.

Ouvi um suspiro pesado e passos lentos, informando que se aproximava.Sentei na poltrona estofada,para relaxar meu corpo e manter a calma.

- Bom...Você sabe que da última vez que tentamos não deu muito certo,lembra?

Ergui o copo de whisky novamente até os lábios,que logo foram molhados pelo álcool de aroma tão forte.Um gole,apenas.

- Sim.

- Devido a isso,eu pensei que precisaríamos de mais alguém para nos ajudar.E tratei de procurar alguém de confiança que se unisse a nós.E bom,eu encontrei.

- Eu não acredito que você fez isso. – bufei em irritação.

- Era a melhor escolha.

- Você deveria ter me perguntado!Como toma uma decisão sem mim?

- Era a melhor saída.

- Que seja,poderia ter falado antes de fazer.

- Você não aceitaria. – exclamou um pouco mais alto.

- Óbvio que não,é perigoso!

- E quer ficar na mesma?Você viu que a última vez foi um fracasso.Entramos no sistema,mas o setor financeiro estava bloqueado.

- Poderíamos resolver isso.Com um tempo e um bom trabalho. – soltei impaciente.

Levantei da poltrona,caminhando em direção a janela de vidro novamente.Eu respirei fundo, tentando manter a calma para não explodir naquele momento.Invadir o sistema da Vicuña e ter aquele dinheiro era uma questão de honra,e eu não poderia deixar que nada, absolutamente nada desse errado.Mas,colocar mais uma pessoa dentro do esquema não estava em meus planos,nunca esteve.

- Eu resolvi isso por nós.A solução é perfeita,e totalmente confiável.Não sairá nada daqui.

- Como posso ter certeza? – exclamei ao me virar,e fitar aqueles olhos receosos.

Eu vi seu peito subir e descer em uma respiração forte,como se estivesse tomando forças para manter sua decisão firme.

- Dou a minha palavra. – seu tom de voz saiu confiante como de um rei.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, como se estivéssemos selando um novo acordo.Suspirei pesado,mas aceitei em um breve aceno com a cabeça.

- Mande entrar.

Vi um sorriso vitorioso nascer ali.Neguei com a cabeça,enquanto seus passos foram em direção a porta, na qual abriu devagar.

- Bom,apresento a você,o nosso bispo.

Meus olhos se estreitaram na direção daquela pessoa que me analisou minuciosamente.Por uma fração de segundos eu senti aquela insegurança tomar conta,ter uma nova peça naquele jogo não era tão simples quanto parecia ser.A atenção agora seria redobrada.

- Bispo?

- Creio que é uma peça importante.E o que nos faltava.Não dizem que o bispo é uma peça um tanto rápida?Que se tiver o caminho livre pode ter um bom proveito?– perguntou ao se servir de um pouco de whisky.

- Sim,claro. – disse sem tirar os olhos de nossa nova peça.

- E pode manter a calma.O bispo não pula por cima de outra peça,e só segue na sequência de casas da mesma cor.Ou seja,a nossa cor. – completou ao tomar um gole do álcool. – Eu sou a torre, e consegui um bispo para você.

- Você confirma isso? – perguntei ao “bispo”.

- Com toda certeza.Sei que não tenho sua confiança ainda,mas terei logo.Vou ajudar na derrubada do rei.

- Eu não confio mesmo.Mas acho que está bem clara a nossa situação.Eu costumo ter uma generosidade imensa com quem realmente está do meu lado,muito diferente do Vicuña.Mas tenho algo em comum com ele.– falei calmamente,enquanto me aproximava do bispo.

- O que?

- Sei como resolver problemas que me pareçam perigosos.E garanto que não é de uma maneira gentil.– soltei cada palavra com a precisão exata.

- Eu sei muito bem,tive uma ótima instrução antes de aceitar tudo isso. – disse antes de engolir em seco.– Não vou decepcionar.

- Perfeito!Estou lhe dando as boas vindas.

- Isso poderia ter sido mais gentil.– A “Torre” falou enquanto sentava na cadeira a frente da mesa. – Sabe disso, não é?

- Em minha posição,ser gentil não é algo bom. Já fui demais..

Eu seus olhos se reviraram em puro tédio,antes de convidar o bispo para se sentar ao seu lado.

- Vamos agora falar sobre o trabalho.Acho que vai mudar essa ideia quando souber tudo que podemos fazer em união.

- Eu já sei muito bem.

- Sabe?

- Sim,e tenho que te dar os parabéns por isso.

- Me agradeça quando tirarmos todo o dinheiro que aquele miserável carrega.

- Vamos ao trabalho,teremos uma longa madrugada. – disse ao abrir o notebook.


[...]

Caminhei de um lado para o outro sem parar, aquela maldita sensação de ansiedade estava me consumindo.Estávamos a mais de uma hora e meia de frente para aqueles computadores, o processo para entrar no sistema estava bem mais complicado do que dá ultima vez. As sequências de números e letras pareciam infinitas,corriam sobre a tela do notebook utilizado pelo bispo.Respirei fundo,e procurei me concentrar.A sala era mal iluminada por uma lâmpada amarelada ao fundo,o brilho da tela dos computadores mantinha nossa atenção presa,enquanto nos rendia uma boa dose de tensão e ansiedade se algo ali desse errado.

- Pronto!Temos que agir rápido.Vamos! - ouvi o bispo falar com a atenção concentrada na tela do notebook de última geração.

- Conseguiu?– perguntei com certo nervosismo.

- Acho que sim.Mas vamos precisar da chave, para que o sistema não identifique o corpo estranho.Depressa!O sistema congelou.

- Deixe nas minhas mãos,agora é minha vez.

Estávamos em uma conexão tripla,cada máquina tinha um trabalho para fazer.O bispo abriu o caminho,para que eu entrasse livremente no sistema e retirasse o que me interessava.A torre apenas esperava pela quantia, que seria enviada para uma conta fora do país.Comecei a digitar a sequência numérica em uma rapidez fora do comum,enquanto meus olhos corriam pelos números que apareciam na tela luminosa.

- Não temos muito tempo.O sistema está paralisado.

Ouvi aquela voz ao fundo,como se eu estivesse a muitos metros longe.

- Estou quase lá... – disse, sem parar de digitar os números que dariam livre acesso.

Eu poderia ouvir as batidas de meu coração, forte e frenético.Naquele momento,toda minha concentração estava ali.Digitei o último número, e cliquei no pequeno botão à esquerda.Quando uma nova janela se abriu na tela, informando a seguinte frase “Sistema financeiro liberado”.Um sorriso escapou de meus lábios,atraindo a atenção da torre que se aproximou com rapidez.

- Espero que esse sorriso seja de coisa boa.

- Mantenha a atenção,vou transferir a quantia. – disse.

A adrenalina que corria em minhas veias naquele momento me proporciona um prazer quase indescritível.O frenesi de fazer aquele momento acontecer tomava conta de mim.Os números da conta da Vicuña Enterprise estavam ali,bem à minha frente reluzindo.

- Ah,Alberto,você não sabe com quem se meteu.– sussurrei ao digitar a quantia desejada.

- Um pouco mais rápido,o tempo vai estourar.

- Vai pagar pelo que fez.

Confirmei a transferência,vendo a pequena tarja ser preenchida rapidamente, e consequentemente a caixa de mensagem com a frase “Transferência concluída”

- Pronto,avançamos algumas casas.Logo chegarei a você,rei.


SÉRGIO MARQUINA 

Um maldito barulho perturba meu sono,me remexi sobre a cama em meio aos lençóis macios.Coloquei os dois travesseiros sobre a cabeça,na tentativa de fazer o ruído parar,mas não tive sucesso.Abri os olhos com certa dificuldade,sentindo minhas pálpebras mais pesadas que o normal.As poucas horas dormidas na casa de Raquel estavam sendo descontada agora,ou ao menos eu estava tentando fazer isso.O barulho voltou novamente, quando só agora me dei conta que se tratava de meu celular,que tocava insistentemente sobre o criado mudo.Estiquei o braço,tateando sobre a madeira fina a encontro de meu aparelho celular.Capturei o objeto,levando até o ouvido.

- Alô? – soltei de forma sonolento e irritado

- Sérgio... – Ouvi a voz de Ángel soar baixo e temeroso.

- Eu espero que você tenha um ótimo motivo pra me ligar a essa hora.– resmunguei.

- Eu preciso que venha a delegacia agora.

- Por quê?Meu horário é às sete.

- Sérgio,por favor.Venha aqui,eu preciso.

A forma como Ángel estava falando começou a me assustar.Sentei-me sobre a cama,e dei toda a minha atenção para meu melhor amigo.

- O que aconteceu? – perguntei com receio.

- A Vicuña,foi roubada novamente.

Aquelas palavras me pegaram em cheio,como se eu tivesse recebido um soco forte no estômago.Acho que demorei cerca de alguns minutos para processar aquela informação tão desastrosa.Roubada,outra vez.

- Ángel Rubio,você tem certeza disso?

- Tenho, vem pra cá agora.

[...]

Não demorei sequer meia hora,e meu carro já estava entrando no estacionamento da delegacia de Madrid.Talvez eu tivesse passado absolutamente todos os sinais de trânsito possíveis,mas só talvez.Saí do veículo, caminhando em passos rápidos para dentro do prédio.Já estava quase amanhecendo,mas a delegacia ainda se encontrava em pequena quantidade de funcionários pelo turno da noite. Corri pelo corredor de extenso,entrando no primeiro elevador disponível.Aquela droga parecia seguir em uma lentidão fodida.Assim que as portas de metal se abriram,caminhei em passadas largas até a minha sala.Dando de cara com a expressão preocupada de Rubio,ele estava pálido e tenso.

- Que horas isso aconteceu? – perguntei ainda ofegante pela correria.

- Eu não sei. – murmurou.

- Como assim você não sabe?

Ele gesticulou com as mãos,sem deixar que qualquer palavra deixasse seus lábios.O nervosismo e ansiedade era notado a quilômetros de distância.

- Sérgio,o sistema do FBI congelou,não tive sinal sonoro de alarme.

Eu franzi o cenho,e fitei o nada.

- Ángel,você estava de olho no sistema?

- Não...

Aquela simples palavra fez um peso cair sobre as minhas costas.

- O que você estava fazendo aqui?

- Eu estava aqui na sala,mas me distraí.A oficial do setor de baixo veio conversar e acabamos...

- Oh meu Deus,eu não acredito nisso! – exclamei furioso

- Me desculpe!

- Desculpar?Você fodeu tudo!– gritei.

Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.Caminhei até o computador no qual o sistema do FBI estava instalado,vendo a janela do programa paralisado,com as letras em caixa alta escrito“ALERTA”.Há duas horas atrás. Malditas duas horas atrás.

- Merda,merda!Chama a Alicia e a Nancy!!Onde elas estão?

- Estão de folga,o turno essa noite era meu. – disse com a voz trêmula.

- Liga pra elas agora!

Rubio saiu da sala rapidamente,fazendo a porta de vidro bater.Sentei-me na cadeira,encarando a tela do computador totalmente congelada.O sinal de alerta estava ali,mas Ángel não foi atento o bastante para identificar isso na hora. Eu não fazia ideia do quanto havia sido roubado,mas com toda certeza não teria sido pouco.Seja lá quem estivesse roubando,estava a um passo à frente.Coloquei os braços sobre a mesa,abaixando minha cabeça.Eu sentia aquela pressão tomar conta do meu corpo e mente.

- Elas estão a caminho. – ouvi Ángel falar, fitando-me receosa.

- Isso vai ser um inferno.Como você pode ser tão irresponsável??

- Foi um deslize!

- Um maldito deslize que vai custar a nossa carreira nessa merda!Você estava transando com alguém aqui né?

Ele respondeu.

- Meu Deus,conheço você tão bem! – exclamei ao me levantar. – Você tem ideia do que vai acontecer?

- Vamos dar um jeito!O que mais eu poderia fazer?O sistema congelou!

- Se você tivesse visto logo,tudo poderia ser diferente!Caralho.

Eu sentia meu sangue ferver,de raiva e ódio. Eu não poderia acreditar naquilo,todo o plano foi por água abaixo.

- Não adianta mais ficar assim,temos que resolver.– Ángel falou exaltado.

Eu nada falei,apenas me afastei dele.Minha cabeça borbulhava com uma imensidão de ideias e problemas que logo viriam à tona.Eu estava perdido.Minutos depois ouvi o barulho da porta se abrindo,logo Nancy e Alicia entraram com expressões assustadas.

- Viemos o mais rápido possível. – Ouvi a voz de Nancy

Eu nem sequer me virei para encará-las,estava ainda atordoado demais para tudo aquilo.Nancy sentou na cadeira que eu estava há poucos minutos atrás,Alicia puxou outra para sentar-se ao lado.

- O sistema está impossibilitado.–Alicia exclamou.

- Podemos ligar para a central,pedir a chave de acesso universal.Já que essa foi pelo ralo.

- Faça isso,Ángel. – meu tom de voz saiu cortante,e ele apenas assentiu antes de se retirar.

- Eu ainda queria ficar aqui hoje,mas Ángel disse que não era necessário. – Nancy falou nervosa.

- Deveria ter ficado!Eu não sabia que as duas estariam de folga hoje.Desde quando você tem liberação nesses turnos Alicia?

A ruiva me encarou rapidamente e respirou calmamente.

- Eu tive que sair,precisava resolver algumas coisas.

- E você,Nancy?

- Eu tive folga,fiquei nos últimos quatro turnos desse horário.

- Seja lá quem mexeu nisso,está bem agora.

- Eu quero que entre e veja toda a movimentação feita,quero saber a quantia e para onde foi transferida.

Caminhei de um lado para o outro na sala, enquanto as duas mulheres pareciam concentradas na máquina a sua frente.Eu estava a mil por hora.Ángel entrou na sala com a papelada nas mãos,os códigos de acesso do FBI estavam ali,acreditava eu.Em poucos minutos,Nancy e Alicia conseguiram obter um sinal positivo do sistema,a imagem congelada havia se desfeito,e só agora poderíamos tentar ter alguma informação.

- Finalmente! – Nancy falou esperançosa.- O sinal de alerta foi feito,há duas horas e meia. Mas pelo que parece,o setor que identifica para onde a quantia foi transferida foi totalmente bloqueado.

- Não podemos ver para onde o maldito dinheiro foi? – exclamei alterado.

Alicia me encarou,e negou com a cabeça lentamente.

- De quanto se trata isso?

- Cinco milhões de dólares. – a ruiva continuou.

- Meu Deus!Isso não pode esta acontecendo.

- Espera,eu estou conseguindo ver de onde foi feito o roubo,e de qual tipo de máquina.O mapa vai me dar o endereço correto!– Nancy falou enquanto digitava algo no teclado.

- Como alguém consegue congelar o sistema do FBI?Isso não deveria ser impossível?!

- Sérgio,às vezes pequenas frestas podem ser identificada nesses sistemas.Quem tem conhecimento,consegue!Apesar de dar um extremo e delicado trabalho.

- Vão querer a nossa cabeça.

- Sérgio,se quiser eu assumo a culpa pela irresponsabilidade.– Ángel,falou em um tom sério.

- Não vai adiantar,Ángel!Nada vai mudar isso. Eu estou à frente desse caso,a culpa vai cair nas minhas costas!

- Juntos vamos resolver isso. – Alicia soltou calma.

Eu neguei com a cabeça,desviando o olhar de Ángel.Eu estava decepcionado,com raiva e triste.

- Prontinho,meninos.O lugar parece afastado da cidade,não é nada público.Pelas imagens mais me parece um galpão,vejam!

A mulher virou a tela do computador para que todas nós pudéssemos ver a imagem feita pelo satélite.Se tratava de um grupo de galpões. Talvez fosse um lugar de fábricas,ou algo do gênero.Analisei a imagem minuciosamente.

- Eu vou para lá.Enquanto isso,tentem desvendar tudo que for possível.Eu vou mandar informações a todo instante.

- Quer que eu vá com você? –Ángel perguntou, enquanto eu me arrumava.

- Não,fique.

- É melhor ir acompanhado. – Alicia falou.


Eu engoli em seco,trocando um rápido olhar com a ruiva que me encarava.Eu apenas assenti,e me retirei daquela sala.Eunão queria ficar perto de Ángel agora,eu ainda o culpava por aquilo estar acontecendo.Não como se ele tivesse roubado,mas como se tivesse sido irresponsável o suficiente para deixar aquilo acontecer.Saí da delegacia,caminhando em direção a meu carro.Eu só queria poder mudar toda aquela situação,poder ter uma maldita pista de quem estava fazendo todo aquele estrago.Entrei no veículo,me acomodando no banco do motorista,enquanto colocava minha pistola no coldre axilar.

- Pronto. – Ángel falou ao abrir a porta do carro e se juntar a mim.

Eu não respondi,apenas virei a chave na ignição do carro,fazendo motor roncar.O caminho inteiro foi em puro silêncio,a não ser pelas seguidas vezes em que eu trocava algumas palavras com Alicia e Nancy pelo rádio.

- Nancy está me informando que há sinal de conexão nesse galpão.O sistema está vendo um ponto de acesso disponível,mas pelo que pesquisei o lugar é totalmente abandonado. – Ouvi Alicia informar pelo rádio.

Soltei uma das mãos do volante,para apertar no pequeno botão do rádio.

- Quem sabe o invasor ainda esteja lá.

- Foi o que pensamos.Então se apresse.

- Certo,qualquer coisa,chame.

Pisei no acelerador do carro,correndo em quase 160k/h.Ángel ficou calado até chegarmos ao local de destino.Entramos em uma área mais deserta da cidade,eu nunca havia andado por aquelas bandas.Me guiei pelo GPS do veículo, que indicava o caminho preciso até o local dado por Nancy.Desacelerei o automóvel,para conseguir analisar minuciosamente o lugar onde eu estava entrando.O conjunto de galpões ficava um pouco mais distante da periferia,o lugar era totalmente abandonado.

- Acho que é aquele ali,Sérgio.

Ángel apontou para o penúltimo galpão,bem parecido com a imagem que vimos na delegacia.

- Com certeza é esse. – troquei a primeira frase com ele depois de todo o caminho.

Parei o carro bem à frente do prédio,o mais próximo possível.

- Vamos entrar.

O barbudo assentiu,enquanto se preparava. Retirei minha pistola do coldre,verificando se a mesma estava carregada e em perfeito estado, caso fosse preciso.Ángel fez o mesmo,para somente depois sair do carro.Capturei o rádio e saí,me juntando a ele.

- Vamos pela lateral,eu vi uma porta menor. –o homem falou.

Caminhei atrás de Ángel que se aproximou da porta de ferro enferrujada,por sorte estava aberta.O ruído da porta me fez praguejar baixinho,mas suspirei aliviado assim que entramos.Saquei minha arma,e vi Ángel fazer o mesmo.O galpão era uma espécie de fábrica abandonada,o maquinário todo ainda estava ali, coberto por poeira e teias de aranha.O cenário poderia ser macabro se não fosse pela claridade que invadia o lugar pelas janelas de vidro quebradas.Não havia absolutamente ninguém ali,a não ser pela presença dos pombos que lá estavam.

- Isso aqui está fedido. – Ángel sussurrou logo atrás de mim. – Culpa dos pombos.

- Eu sei,mas fique atento,e esqueça os malditos pombos.

Caminhamos lentamente entre as máquinas,a procura de algo.Tudo ali parecia velho e acabado.Cheguei a pensar que estávamos no lugar errado,mas continuei a olhar tudo.Segurei a pistola com mais precisão enquanto atravessava o galpão,indo em direção a uma escadaria de ferro corroído.Haviam duas portas no andar superior,o que eu julgava ser o antigo escritório.Ao subir a escada,ouvi um barulho vindo da sala superior,troquei um rápido olhar com Ángel,gesticulando para que ela ficasse esperta.O homem assentiu e ergueu sua pistola preta para cobrir a retaguarda.uE respirei fundo, e em passos lentos caminhei até a porta, aproximando o ouvido na tentativa de ouvir algo. Escutei um pequeno ruído,quando me assustei com o grito de Ángel.

- Filho da puta! – o homem exclamou. – O pombo cagou em mim.

- Porra.

Empurrei a porta com ombro rapidamente,e apontei a arma para dentro da sala.Vazia. Fechei os olhos,e tentei acalmar minha respiração.

- Você só pode está brincando comigo hoje. – falei quando Ángel entrou na sala.

- Me desculpe,foi um reflexo.Não tive culpa.

- Já pensou se tivesse alguém aqui?Estávamos mortos agora,porque você gritou com um pombo.– as palavras saíram irônicas e irritadas de minha boca.

- Eu me assustei,sinto muito.Mas não tem ninguém.– o homem falou ao tirar sua jaqueta suja.– Eca.

Me afastei do homem,e adentrei melhor na sala extensa.Diferente do restante da fábrica,aquela sala parecia bem mais cuidada e limpa.Era nítido que havia sido utilizada.Nancy estava certa,na verdade o sistema.Peguei o rádio em meu bolso e levei até próximo da boca.

- Agente Santos,na escuta?

- Santos na escuta! – o som do rádio saiu baixo.

- Veja no localizador se estamos no endereço que foi dado pelo sistema.

- É esse mesmo!Encontraram alguém?

Na sala havia um pequeno sofá de couro,uma cômoda e apenas uma mesa de escritório com uma cadeira.

- Não,está tudo vazio...mas estamos em uma sala de escritório agora.Pelo que parece foi utilizada recentemente.

- Ainda vejo o ponto de acesso presente neste lugar. – a voz deixou o rádio.

Ángel começou a abrir os armários à procura de alguma prova.Eu me aproximei da mesa,e sentei na cadeira.E pensar que há horas atrás a pessoa que roubou estava aqui,fez meu sangue ferver.Olhei para a lateral da mesa,vendo duas pequenas gavetas.Puxei rapidamente,mas as mesmas se encontravam trancadas.

- Eu posso abrir,tem um clips ou grampo? – Perguntou Ángel ao se aproximar.

Eu levantei da cadeira,e peguei minha pistola. Mirei na fechadura da gaveta e disparei.

- Ou você pode arrebentar ela toda...- Ángel falou ao se afastar.

Abri a gaveta de madeira grossa,e retirei os objetos que estavam lá dentro.Chaves, um extrator de grampo,papéis e canetas,nada realmente proveitoso.Coloquei a mão novamente sobre gaveta,sentindo o fundo instável.Franzi o cenho,abaixando-me na altura da mesma para olhar.Tateei com a mão pelo fundo de compensado,notando que havia algo de errado.

- Droga! – exclamei irritado.

Coloquei o extrator de grampo pela pequena fresta que a gaveta oferecia,forçando com o pequeno objeto de ferro até retirar o maldito fundo.

- Rubio!

- Oh meu Deus! – meu amigo exclamou alegre.

- Agente Santos,acabamos de encontrar um notebook.– informei pelo rádio.

- Isso é maravilhoso!Tragam ele,por favor. Vamos analisar tudo.

- Vou levar,câmbio desligo.

Coloquei o rádio no bolso da jaqueta,e peguei o notebook prateado da gaveta.Ergui a tela fina, mas não liguei o aparelho.

- Vamos embora.

- Vamos,eu preciso de um banho.

Abaixei a tela,e carreguei o notebook para fora daquela sala.Saímos bem mais rápido agora já que conhecíamos o caminho para fora do galpão abandonado.Entrei em meu carro,e Ángel fez o mesmo.Entreguei o aparelho para a mesma que repousou sobre sua perna.Liguei o carro,dando uma última olhada pelo lugar antes de sair dali.Em meio aquele caos um fio de alívio se fez presente com aquele notebook, apesar de não saber se o mesmo possuía alguma informação realmente aproveitável.O caminho estava silencioso,deixando que meus pensamentos vagaram por tudo que eu teria que fazer pra arrumar essa bagunça, e provavelmente por todas as coisas que eu ouviria de Tamayo e Alberto hoje.Não seria um dia fácil,talvez ele já tivesse acabado assim que ouvi a informação vinda de Rubio,mas eu teria que virar aquele jogo.


RAQUEL MURILLO

Acordei com os gritos raivosos de Alberto ao telefone,o homem parecia nervoso e extremamente irritado.Capturei o travesseiro macio,colocando sobre minha cabeça para abafar o barulho que o mesmo fazia.Enquanto ele apenas andava de um lado para o outro, grudado em seu telefone celular.

- Eu não acredito que isso aconteceu de novo! Merda!Resolva as coisas,John.

Eu não ousei me intrometer,esperaria ele dar fim a ligação para somente aí perguntar o que havia lhe deixado tão irritado.

- Eu não vou deixar isso barato.Vou agora mesmo a delegacia falar com Tamayo,aquele maldito agente não está fazendo nada!Filho da puta!

Ouvi algo que se refere o Sérgio fez-me abrir os olhos rapidamente.Sentei sobre a cama macia, esfregando os olhos com os dedos em uma tentativa de despertar mais rápido.Meu marido meneava com a cabeça em um sinal negativo, seu semblante preocupado me fazia pensar no que havia acontecido.

- Eu sei!Cuide de tudo,vou me arrumar para ir à delegacia.– foram suas últimas palavras com John,antes de desligar a ligação.

- O que aconteceu?

O homem me fitou com um olhar frio,fazendo meu corpo arrepiar.

- Fomos roubados outra vez.

- Oh,céus!Quando?E quanto?

- Hoje,nos levaram cinco milhões de dólares! Merda.–Alberto exclamou ao bater com a mão na parede de concreto.

Levantei-me da cama rapidamente, aproximando-me dele.Sua respiração estava ofegante,em puro ódio.

- Tiveram alguma informação de quem foi?

- Provavelmente não.Culpa daquele maldito iniciante de quinta.Não está resolvendo a merda do problema.

Ele praticamente cuspiu as palavras, fazendo-me sentir incrivelmente incomodada por se referir ao Sérgio de uma maneira tão grosseira.

- Ele não poderia fazer nada.

- Poderia ter resolvido isso antes?!Poderia ter encontrado o maldito que fez isso e o matado!

- Não é tão fácil quanto parece,Alberto.

Ele franziu o cenho em minha direção e se afastou.

- Vai ficar defendendo aquele incompetente,agora?

- Só acho que está sendo precipitado em falar tantas coisas.Você sabe que o processo de investigação não é fácil.

Ouvi uma sonora e sarcástica risada.

- Você está virando amiguinha de seu segurança particular e pensa dessa maneira,Raquel.Pare de ser idiota.Ele não serve para resolver o caso.É um incompetente e burro.

- Então por que não resolve sozinho? – exclamei mais alto.

Nos encaramos por alguns segundos,que me fizeram notar o quão cheio de ódio ele estava. Seus olhos se fixaram em mim, enquanto sua mandíbula estava trincada.

- Eu bem que teria um melhor resultado.Mas infelizmente tenho que deixar aquele infeliz resolver.

- Você..

Ele não me deixou completar,apenas seguiu em direção ao banheiro de nosso quarto.Alguns bons minutos depois estávamos devidamente prontos.Informei ao mesmo que não abriria mão de ir até a delegacia para estar presente na conversa que ele queria ter com Tamayo e Sérgio.O caminho até o centro policial foi em repleto silêncio,não trocamos sequer uma palavra,eu ainda estava com raiva pela grosseira de mais cedo,e não mudaria de ideia tão cedo.O carro de luxo parou em frente ao prédio,e logo Antoñanzas abriu a porta para que saíssemos.

- Sejam bem vindos. – um oficial falou ao entrarmos na delegacia.

Alberto nem sequer respondeu,apenas caminhou em direção a sala de Tamayo. Entramos na sala dando de cara com o senhor com uma expressão receosa e preocupada,o oficial temia meu marido como ninguém.

- Sr.Vicuña.

O oficial que nos encaminhou até a sala rapidamente se retirou,deixando-nos a sós.

- Eu espero que você realmente resolva isso,Tamayo,porque mais uma vez fui roubado! – gritou.

- Não temos como controlar isso.Só estamos correndo atrás de quem está fazendo e tentando fazê-lo parar.

- Quando?Quando esse maldito levar todo meu dinheiro?

- Isso não vai acontecer,Alberto.

- Pelo ritmo das coisas,não creio que vai demorar muito!Colocou o mais incompetente dos agentes para o meu caso.

- Coloquei o melhor,não seja injusto.

- Injusto?Me levaram cinco milhões de dólares! Você tem idéia do quanto isso é?Aposto que não,vai trabalhar sua vidinha imunda toda nessa delegacia e não vai ganhar isso.

- Albert...- falei.

- Não altere seu tom de voz na minha delegacia. –Tamayo assumiu uma postura firme.

Alberto suspirou pesado,e negou com a cabeça, afastando-se da mesa onde Tamayo estava. Não demorou muito,e meus olhos paralisaram sobre a pessoa que entrou na sala.Sérgio.Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundos,que logo foram quebrados.

- Olha só quem chegou...- meu marido falou.

Sérgio engoliu em seco,e se manteve com a mesma postura.Sua expressão era frustrado e até irritado.Eu sabia que se Alberto estava daquela maneira,Sérgio poderia estar bem pior, já que o caso estava em suas mãos.

- Me diga que conseguiu alguma informação, agente.– Tamayo falou ao se levantar da cadeira.

- Até o momento não, senhor.Mas estamos apurando algumas coisas que conseguimos...

A risada sarcástica de Alberto inundou o ambiente.

- Está vendo o que estou falando? – perguntou, ao apontar para Sérgio– Ele não vai resolver nada!

- Estou em processo de investigação,Sr.Vicuña. –Sérgio se pronunciou.

- Não pode ser mais rápido?Minha fortuna está sendo levada por inteiro!Inferno!

- Creio que esse processo seja demorado. – Meus olhos se encontraram com os de Sérgio outra vez.

- Não vou ser compressível quando o dinheiro que ganhei com tanto esforço está sendo roubado,por culpa de incompetência de um agente.

- Vicuña.

- Não,Raquel.Agora não.Eu estou falando a verdade!

O homem aproximou-se de Sérgio,parando bem a sua frente.Os dois encaravam-se fixamente, sem baixar a guarda.Sérgio não ousou falar nada,mas também não abaixou a cabeça e muito menos desfez sua postura firme diante de meu marido.

- Você está fazendo um péssimo trabalho,e está me causando um fodido prejuízo.Se quer ser um dos melhores agentes,é melhor treinar mais um pouco.

Sérgio estava com os punhos fechados,forçando os dedos que pareciam esbranquiçados.Talvez em uma tentativa de controlar a raiva que sentia.

- Sim,senhor. – apenas disse.

- Volte para sua sala,Sérgio.Continue com o processo,eu converso com o senhor Vicuña–Tamayo por fim falou.


 SÉRGIO MARQUINA

Eu sentia todo meu corpo tremer,mas não era de nervoso e muito menos de medo.Tudo poderia se resumir em raiva.Raiva pelo deslize de Ángel,raiva pela falta de provas,raiva de Alberto Vicuña.Em toda minha carreira policial, nada igual havia acontecido.O empresário que se achava dono do mundo,jogou suas palavras de desdém contra mim de uma forma grosseira e humilhante.Mas como bem treinado,não ousei demonstrar o que estava sentindo,ao invés disso apenas agiria.Fechei a porta da sala do coronel,parando em frente a mesma.

- Eu irei viajar por dois dias,quando eu voltar quero que vocês tenham resolvido algo. Entendido,Tamayo? – ouvi a voz grave de Vicuña soar irritada dentro da sala.

Caminhei em passadas lentas pelo corredor, pensando nas mil hipóteses que eu poderia devolver todas as grosserias de Alberto há minutos atrás.Mas nada era o suficiente,não para devolver de maneira gloriosa o que ele havia me causado agora.Peguei um pequeno copo plástico no suporte,enchendo o mesmo de água no bebedouro no final do corredor,quando por fim,tive a visão de Tamayo saindo de sua sala,ao lado de Alberto.Os dois entraram na sala da frente,provavelmente a procura de algum documento.Meus pensamentos seguiram para Raquel,que surpreendentemente ainda tentou amenizar as coisas a meu favor.Sorri fracamente,quando um estalo de ideias se fez presente.Voltei em passadas rápidas, verificando através do vidro se os dois homens já estavam voltando.Quando pensei em entrar na sala de Tamayo,Alberto apareceu no corredor e,consequentemente,Raquel saiu da sala do coronel.Recebi um olhar superior do empresário,que me fez querer sacar uma arma e matá-lo ali mesmo.Ao invés disso,apenas o fitei.O homem caminhou em direção a saída,e Raquel o seguiu.Avancei alguns passos,e segurei no braço da mulher,deixando que seu marido seguisse mais a frente ao lado de Tamayo.

- Raquel – sussurrei.

A loira de olhos castanhos me fitou confusa, mas não impediu meu contato.Olhou rapidamente para onde Alberto estava e depois voltou seus olhos para mim.

- Eu quero vê-la hoje.

- O que?-A mulher franziu o cenho,e aproximou-se mais.

- Precisamos conversar.

Ela suspirou e assentiu.

- Tudo bem,vai a minha casa hoje,Alberto vai viajar.

- Eu vou,pode me esperar.

Raquel sorriu fraco e assentiu.Soltei seu braço devagar,vendo a mulher de corpo tão belo, coberto por um vestido de tonalidade verde caminhar em direção a saída.

- Eu vou devolver da melhor maneira essa humilhação,Alberto.

•••

Fiquei ao lado de Nancy,enquanto a mesma tentava desbloquear o maldito notebook que mais parecia morto.Alicia estava focada em analisar o sistema do FBI,e os dados informados pelo sistema da Vicuña Enterprise. A invasão silenciosa só reafirmava que não estávamos lidando com armadores, muito pelo contrário.O preparo tecnológico e intelectual era tão alto como os que tínhamos em nossa base, o que me deixava ainda mais frustrado.As palavras de Alberto ecoavam em minha cabeça, repetidas vezes,atormentando meus pensamentos com a verdade.Eu estava fazendo um péssimo trabalho,ele tinha razão.

- Acho que a placa queimou.Eu vou ter que abrir a máquina.– A oficial falou enquanto retirava os cabos conectados ao aparelho.

- Isso vai demorar.– sussurrei, enquanto massageava as têmporas.

- Um pouco,agente Marquina.Eu praticamente vou ter que montar a máquina outra vez.

Olhei para o relógio,vendo os pequenos ponteiros marcarem dez e treze da noite.Eu me encontrava simplesmente exausto.Tanto de maneira física quanto psicológica.Fechei os olhos e ergui um pouco a coluna,tentando relaxar a musculatura tensa de meu corpo rígido.Aquele havia sido o pior dia desde que coloquei meus pés em Madrid

- Sérgio,é melhor você ir pra casa.Tente relaxar.  – Alicia falou ao se levantar da cadeira giratória.

- Não posso.

- Claro que pode.Não vai ter proveito algum nervoso desse jeito.E muito menos cansado.

- Eu preciso resolver isso,Sierra.– murmurei de mal humor.

- Vai demorar algumas horas para montar tudo, mas não me importo em ficar.– Nancy falou calmamente.

- Não quero abusar,Nancy.

- E nem vai.

- Mas eu preciso.– retruquei.

- Amanhã vamos continuar.Você disse que iria sair,desistiu?

A mulher perguntou,despejando uma boa quantidade de café quente em sua xícara azul. No mesmo instante lembrei o combinado com Raquel,e só agora senti a real vontade de sair daquela sala.

- Eu estava quase esquecendo.Eu preciso mesmo ir.Amanhã vou estar cedo aqui.

- Certo,vou esperar você pra continuar. – Nancy falou.

- Tudo bem,eu vou saindo.Tranquem tudo. – falei ao me retirar.

Depois de passar em meu apartamento,para tomar um bom banho e trocar de roupa.Segui caminho para a mansão Vicuña,onde Raquel estava a minha espera.O trajeto era longo,já que meu apartamento ficava para o lado oposto de onde o casal tinha sua residência.Mas eu não me importaria de demorar alguns minutos, na verdade,nada me impediria de fazer o que eu planejei a tarde inteira.O ar imponente e arrogante do empresário ainda me causava ânsia,suas palavras sarcásticas se repetiam em minha cabeça como um cd furado.Apertei os dedos no volante de meu carro,vendo as juntas esbranquiçadas pela força que eu empregava ali.

“Você está fazendo um péssimo trabalho,e está me causando um fodido prejuízo.Se quer ser um dos melhores agentes,é melhor treinar mais um pouco.”

 - Eu sou o melhor,Vicuña.Muito melhor do que você...e será Raquel quem dirá isso.

Um sorriso escapou de meus lábios ao pensar no que eu tanto queria.Meus pensamentos ainda corriam frenéticos desde a hora que acordei,como se um milhão de idéias passassem em segundos por minha cabeça. Tudo muito rápido e turbulento.Uma pessoa normal voltaria para casa e,depois de uma boa ducha,deitaria na cama para descansar.Mas eu não,eu faria diferente.O dia péssimo que tive apenas serviu de combustível para que eu abrisse os olhos e acordasse para a real situação.O desafio era bem maior do que eu estava imaginando,e eu não me daria por vencida tão fácil.Eu não deixaria que ninguém passasse por cima de mim e,muito menos me humilhasse.Eu devolveria tudo,e começaria por Alberto.Por mais que eu soubesse o quanto aquilo era errado,nada me faria sentir melhor. Eu jamais poderia devolver da mesma maneira, eu tinha um caso importante nas mãos,e não me daria o luxo de perder a maior oportunidade de minha vida discutindo com a “vítima”.

- Boa noite. – falei ao abaixar o vidro do carro na portaria da mansão Vicuña.

Um segurança aproximou-se do carro lentamente,e soltou um sorriso assim que me viu.

- Boa noite,Sérgio.O turno é seu essa noite? – o homem perguntou com a testa franzida.

- Sim,Charlie.Fiquei sabendo que o Sr.Vicuña foi viajar,e o mesmo pediu que eu ficasse de turno por conta de sua esposa.

- Oh,sim! Ele viajou tem duas horas.Carlos o levou para o aeroporto.

Bom,eu adoraria que ele estivesse em casa. Mas já que não estava,faria do mesmo jeito.

- Sim,eu estou sabendo.Falei com ele essa tarde.Mas enfim,quer anotar minha entrada? Vou pegar os documentos.

- Não precisa,agente.Pode entrar.

Soltei um sorriso largo para Charlie que me encarou um tanto abobalhado.O homem sempre fazia questão de ser gentil comigo em minhas visitas a mansão,e até mesmo quando nos encontrávamos pelo corredores da delegacia,já que Charlie fazia parte da equipe de segurança organizada pelo coronel Tamayo.Dei um breve aceno para o mesmo que abriu os portões, dando-me livre acesso.Parei meu carro na vaga disponível no pátio da frente,onde geralmente o carro de Alberto ficava.Olhei-me pela última vez no espelho,verificando se estava tudo certinho, antes de sair do veículo e caminhar até a porta da frente.Dei atenção ao relógio do celular,e os números no visor marcava onze da noite.Toquei a campainha uma vez,e aguardei um pequeno tempo antes de tocar novamente.Toquei mais uma vez.Há essa hora os empregados da mansão já haviam terminado seus turnos de trabalho,ou seja,quem me atenderia seria ninguém menos que....

- Pensei que não viria.

A loira falou ao se escorar no arco da porta. Raquel parecia ter saído do banho há pouco tempo,seus cabelos estavam amarrados em um coque mal feito,deixando alguns fios levemente umedecidos soltos.Ela vestia uma camisola pequena de seda branca,e por cima um robe do mesmo tecido.Sua pele ainda possuía algumas gotas de água,e o cheiro delicioso de amêndoas que emanava do corpo da mulher me fizeram respirar bem fundo.

- Eu disse que viria,Murillo.Não vai me convidar para entrar?

A mulher sorriu de canto e,me encarou ainda confusa.Talvez Raquel não estivesse acostumada com minhas decisões.Ela sempre foi à dona do jogo,sempre ditou as regras e saiu vencedora no final.Mas hoje seria diferente, hoje eu seria O dominador.

- Claro,entre. – disse ao virar o corpo de lado, dando um pequeno espaço para que eu passasse por ela.

- Confesso que estou surpresa com sua decisão de vir aqui.– Raquel falou ao fechar a porta. -  Pensei que...

- Pensou que eu não viria em sua casa tão cedo,Murillo? – perguntei ao curvar o canto dos lábios em um sorriso cínico.

A casa estava em repleto silêncio,reafirmando que estávamos completamente sozinhos ali.Dei um alguns passos à frente,aproximando-me mais da loira que me encarava com uma expressão indecifrável.

- O que está acontecendo com você? – perguntou ela assim que parei a poucos centímetros de seu corpo.

Pela primeira vez eu sentia o poder correr em minhas veias,juntamente da adrenalina e o desejo que aquela mulher me provocava.Fixei o olhar sobre o dela,que não ousaram desviar. Raquel entreabriu os lábios,deixando uma pequena lufada de ar escapar e tocar meu rosto.

- Quer mesmo saber? – dei mais alguns passos, agora parando atrás de Raquel.

Minhas palavras saíram como um sussurro arrastado,provocando um arrepio no corpo da mulher a minha frente.Meus olhos captaram rapidamente o momento que ela estremeceu.

- Quero.

A ponta de meu nariz arrastou sobre a pele macia da nuca de Raquel,fazendo-me sentir perfeitamente o aroma que emanava dali.Eu aspirei seu cheiro doce,enquanto minhas mãos repousavam suavemente sobre sua cintura delicada,coberta pela seda cara.

- Eu sinto raiva.– sussurrei com os lábios próximos a sua pele,deixando que toda aquela sensação ficasse viva em mim. – Ódio.

Pressionei mais os dedos em seu corpo, puxando-a para mim.Raquel suspirou,mas não evitou.Meus lábios deslizaram para a lateral de seu pescoço,em um roçar suave e ao mesmo tempo intenso.

- Rancor e...

Ela se soltou de minhas mãos,virando seu corpo de frente para mim.Seus olhos castanhos intensos me fitavam fixamente,carregando em si toda a tensão sexual que rondava aquele momento.Eles eram hipnotizantes, tentadores.

- E o que mais,Sérgio?

Meu nome deixou os lábios da loira de forma tão arrastada e excitante,fazendo-me estremecer por segundos.Meu corpo clamava por aquela mulher,em cada maldita célula.Meus olhos que até poucos segundos fitavam os lábios carnudos da mulher a minha frente, subiram novamente para seus olhos flamejantes.

- Tesão,desejo...Eu quero você essa noite,Murillo.

Levei uma de minhas mãos até a lateral de seu rosto,puxando-a para um beijo.Ao tocar nossos lábios Raquel recuou lentamente,fazendo-me soltar um olhar confuso em sua direção.

- Eu sei do que você precisa essa noite,Sérgio.E eu vou dar a você.


RAQUEL MURILLO 

Sérgio tinha um quê de interrogação estampado em seu rosto,mas não ousou me questionar. Estendi a mão para o mesmo,que logo se aprontou a segurar.Conduzir o belo agente pelos corredores de minha casa,seguindo até a sala de jantar.Vi um sorriso sarcástico,e ao mesmo tempo surpreso nascer em seus lábios assim que o mais velho notou a mesa devidamente pronta e arrumada para um jantar.

- Vou te dar uma noite para relaxar,para não achar que só sei sugar...– dei uma breve pausa a procura das palavras.– suas energias.

- Não vai me dizer que cozinhou para mim?!

Repousei minhas mãos sobre o encosto da cadeira,deixando que um sorriso escapasse de meus lábios.Sérgio iria provocar-me pelo resto da vida com o simples agrado que me coloquei a fazer.

- É o que parece,não? – disse ao indicar a mesa pronta.

Sérgio se aproximou,sentando no lugar onde ordenei.Ele parecia bem surpreso,talvez esperasse chegar e me encontrar à disposição de um bom sexo,que não tardaria a chegar,é claro.Peguei uma das melhores e mais caras garrafas de vinho da adega particular de Alberto para nos servir.

- Pode colocar em nossas taças,enquanto vou pegar o nosso jantar?

- Claro. – ele se adiantou a pegar a garrafa e servir nossas taças.

Caminhei até a cozinha,pegando os dois pratos que havia finalizado minutos antes de Sérgio tocar a campainha.Já havia um bom tempo que deixei o hábito de cozinhar de lado,eu nunca me dispus a cozinhar para Alberto,mesmo eu tendo certo amor e habilidade para aquele trabalho. Levei os dois pratos perfeitamente arrumados até a mesa,sendo recebida pelo olhar avaliativo de Sérgio.

- Você pediu isso de um restaurante? – perguntou com o cenho franzido em minha direção.

- Por que?Está bonito como um de restaurante?

Soltei de forma convencida ao me sentar à sua frente.Sérgio sorriu e assentiu ao pegar o lenço que estava repousado sobre a mesa,bem ao seu lado.Eu havia preparado filé de peixe,com um molho cítrico delicioso,acompanhado de uma salada bem colorida e um purê de batata.

- Está muito sofisticado,parece comida de restaurante caro.Me custa acreditar que você tem dom para cozinha,Raquel.

- Me sinto ofendida assim.Preparo um jantar para você,e ganho essa desconfiança.

Sérgio soltou um risada divertida,e por impulso esticou a mão para tocar a minha que estava repousada sobre a mesa.

- Me desculpe,não queria.

Olhei para sua mão que agora estava junto da minha,e logo depois para seus olhos. Sustentamos aquela troca de olhares por alguns instantes,até que ele voltou a sua posição na cadeira.

- Prove,eu quero saber se ainda cozinho bem.

O homem pegou os talheres prateados,e com calma cortou o filé de peixe tão macio.Eu me permiti apenas a observá-lo,estava estranhamente esperançosa para que ele gostasse do que havia preparado.

- Tenho uma pergunta antes de provar.

Um sorriso escapou de meus lábios por tanto falatório para somente comer um pedaço do peixe.

- Faça.

- Não tem nenhuma espécie de calmante na comida,certo?

- Não,deixei os meus remédios guardados essa noite.Você ainda não me deu motivos para precisar deles.

Meu tom sarcástico manteve aquele sorriso cínico naqueles lábios tão beijáveis.Sérgio levou um pedaço do peixe com molho até sua boca, mastigando lentamente.Eu estava ansiosa por saber seu parecer,mas sua expressão revelou o resultado e para minha total satisfação,ele havia adorado.

- Isso está divino. – disse agora ao pegar com o garfo um pouco de cada acompanhamento restante.

- Está admitindo que cozinho bem?

Sérgio.terminou de mastigar,para limpar o canto de seus lábios com o lenço.

- Se realmente foi você que cozinhou isso,o que acho impossível,com certeza você tem mãos maravilhosas para cozinha também.

- Também?Para o que mais tenho mãos maravilhosas,Marquina?

- Para o que vamos fazer após esse jantar. – respondeu direto,fazendo-me suspirar nervosa.

Eu perdi todas as respostas que poderiam ser dadas diante de sua investida tão firme.Ao invés de responder,apenas deixei que meu sorriso revelasse o quão afetada fiquei com sua afirmação.Capturei os talheres para acompanhá-lo na refeição que eu havia preparado para nós dois.Os empregados haviam sido dispensados,eu só estava com a escolta de seguranças noturnos do lado de fora. Eu queria ter aquele momento sozinha com Sérgio,já que depois do ocorrido de hoje mais cedo,algo em mim achou necessário trazer algo para amenizar aquele dia.

- Você também é envolvida com arte,ou apenas tem o prazer de administrar a galeria?

Sérgio perguntou do nada,fazendo-me fita-lo.

- Eu sempre gostei de arte,acho que é uma bela maneira de se expressar.E bom,eu aprecio sim, e me arrisco a pintar e desenhar algumas vezes.Mas já faz muito tempo que não paro para fazer algo.

- Por que?

Eu me sentia um tanto confusa com toda pergunta vinda do homem à minha frente,eu não esquecia que ele estava investigando um caso de meu marido.Queria poder identificar claramente se as perguntas eram apenas para satisfazer sua vontade em me conhecer,ou apenas mais um tipo de material para seu trabalho.

- Não sinto mais vontade.Desenho apenas quando me interesso realmente por algo,quando admiro.

- E não tem isso hoje? – perguntou ao levar a taça de vinho tinto até seus lábios.

- Não,por enquanto nada me inspirou tanto a ponto de voltar a desenhar.

- É um tanto diferente para mim conhecer você.. Acho que até hoje,essa esteja sendo a primeira oportunidade que estamos tendo de nos conhecer realmente.

- Eu penso da mesma maneira,Sérgio.Não sei se é certo,mas não sou a pessoa mais indicada para dizer o que é certo ou não.

Ele sorriu,tomando outro gole.

- Muito menos eu.

- Mas me diz você,sempre quis ser policial?

- Sim,é uma profissão predominante em minha família.Meu pai foi delegado em nossa cidade,e minha mãe trabalhou no setor que estou hoje.

- E agora são aposentados?

- Meu pai sim,minha mãe morreu em uma operação.Digamos que diferente de mim,ela não tinha paciência para desvendar casos,e sim para assumir uma linha de frente de operação.

Sérgio falou tranquilamente,como se aquilo já tivesse cicatrizado em sua vida.

- Eu sinto muito.

- Já faz muito tempo,Raquel.Não fique desconfortável.

- Certo.

Continuamos a jantar,entre uma conversa tranquila,porém carregada de flertes e olhares.

- O que estava fazendo em Canillas aquele dia? Creio que aquela Raquel,era bem diferente dessa que conheci em Madrid.

- Diferente em que?Posso saber? – Perguntei ao tomar o último gole de minha taça de vinho.

Sérgio sorriu descontraído,retirando sua jaqueta de couro preta,para colocar na cadeira ao lado. Ele estava mais relaxado,e aproveitando o jantar tanto quanto eu.De forma delicado,pegou a garrafa de vinho para encher nossas taças novamente.

- Diferente,Raquel... Ali você era mais comum, não em beleza,que isso você jamais vai ser comum.Mas na forma de ser,era mais despojada,quase um aventureiro como eu.

- Eu tenho muitos lados,acho que deu para perceber.

- Estava com Alberto lá?

Remexi o líquido roxo em minha taça,sentindo o aroma saboroso que emanava dali;levando até meus lábios para degustar lentamente de mais um gole;tudo sobre a supervisão daqueles olhos pretos levemente embriagados.

- Não,eu estava sozinha.Alberto e eu tínhamos brigado,estávamos separados por umas duas semanas.

- E daí para descontar sua raiva em seu marido, fez amor selvagem?

Soltei uma risada relaxada ao lembrar daqueles momentos.

- Por que não?Você estava louco para que aquilo acontecesse.

- Estava? – perguntou em uma postura desconfiada.

- Claro que estava.Sérgio,você me quis assim que colocou esse par de olhos esfumaçante sobre mim.

- Como pode ter tanta confiança nisso,Murillo?

- Eu tenho uma enorme facilidade de desvendar as pessoas apenas pelo olhar e pela maneira como elas se comportam.Fui muito bem instruída.– disse com os olhos fixos nos dela.

Sérgio não desviou o olhar,pelo contrário, sustentou com veracidade.O clima agora havia ficado mais denso,talvez pelas inúmeras taças de vinho,ou pelo desejo que sempre nos rondava.Eu poderia ver o peito de Sérgio subir e descer lentamente,à medida que seus ombros subiam e desciam sutilmente.

- Tem razão,eu te desejei desde o primeiro minuto que te vi naquele bar.

- Vai melhorar se eu disser que sentei naquele banco por ter achado você fodidamente lindo,e quis que puxasse assunto comigo?

O homem mordeu o lábio inferior,e logo me mostrou um sorriso convencido,quase prepotente.

- Então você me queria também!

- Poderia ser qualquer outro,ok?Só o primeiro que vi. – menti descaradamente ao levantar da mesa,com minha taça de vinho nas mãos.



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