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História Paulicia: You Changed My Life - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Nova vida


O despertador tocou exatamente às oito horas da manhã, mas eu já estava acordada há muito tempo, não dormi quase nada essa noite, se é que eu dormi, não me lembro de ter sonhado. Hoje — o dia mais importante em todos os meus dezoito anos de vida — não consigo deixar de estar nervosa. 

“Ally!” Ouço minha mãe me chamar do andar de baixo. Saio da cama confortável e arrumo a cama sem pressa, sempre acreditei na frase que diz que a pressa é inimiga da perfeição. 

“Ally”. Ela grita outra vez

“Já levantei”, grito em resposta. Ouço o som das portas dos armários sendo batidas com força lá em baixo e sorrio pra mim mesma, sabendo que minha mãe está tão nervosa quanto eu. Quando entro no chuveiro sinto um frio na barriga e torço para que o nervosismo passe ao longo do dia. Minha vida inteira foi uma preparação para hoje, meu primeiro dia de faculdade. 

Passei os últimos anos da minha vida aguardando ansiosamente para esse momento. Usava todos os meus fins de semana para estudar enquanto meus amigos passeavam, bebiam e faziam tudo que adolescentes fazem pra se divertir. Mas eu não. Eu passava as noites sentada no chão do meu quarto estudando. 

Quando chegou uma carta da UNLV foi o dia mais feliz da minha vida, e me senti super orgulhosa de mim mesma por ter sido aceita na primeira universidade que me inscrevi, não me importava se as outras respondessem, era na UNLV que eu queria entrar. Minha mãe ficou chorando por horas e eu chorei junto imaginando o quanto meu pai ficaria feliz e orgulhoso de mim. No ano passado descobrimos que meu pai tinha leucemia, o tratamento parecia estar fazendo efeito mas na metade do ano, ele morreu. A minha determinação para entrar na faculdade só aumentou depois disso, meu pai sempre quis que eu entrasse em uma e me tornasse o que eu sempre sonhei: uma grande médica veterinária. Ele sempre acreditou muito em mim que desde os meus oito anos dizia que iria cuidar de todos os bichinhos doentes e machucados do mundo, o que eu mais queria era que ele estivesse aqui comigo para dividir a felicidade desse momento tão esperado. Meu pai... meu coração doía ao lembrar dele. Lembrar dele me fazia bem e mal ao mesmo tempo. Nunca fui muito emotiva, aprendi que se deixar levar pelas emoções prejudica a saúde mental. Quando meu pai se foi, eu sofri muito, mas não mostrava, não podia mostrar, eu precisava dar apoio a minha mãe, que ficou sem chão depois da morte dele, e agora me sinto feliz por ela estar finalmente melhor e me sinto mal por deixa-la sozinha, fiz de tudo para convencê-la a morar comigo e a minha tia mas ela diz que não gosta da movimentação da metrópole. 

Assim que entro no chuveiro a tensão se alivia. Parada sob o jato de água quente, tento me acalmar, mas meus pensamentos não se acalmam. 

Quando saio do chuveiro minha mãe me grita outra vez. Como sei que ela só está nervosa decido não responder e ligo o secador na tomada para secar meus cabelos sem pressa. Cada passo meu foi exatamente planejado para o dia de hoje e preciso me concentrar para não fazer nada errado. 

Minhas mãos estão trêmulas quando termino de fechar o zíper da minha blusa preta. Há dois dias já tinha planejado a roupa que usaria hoje, por isso estou com essa blusa preta lisa de zíper dourado na frente, calça jeans e um tênis branco, me sinto arrumada o suficiente. 

Josh, meu melhor amigo vai chegar daqui a pouco para ir comigo até lá. Ele está no último ano do ensino médio, no ano passado ele pirou quando descobriu que teria que repetir o ano porque suas notas em geografia não foram o suficiente para que ele se formasse. Ele era péssimo em matérias de humanas e por mais que eu o ajudasse, nada parecia entrar em sua cabeça. No ano que vem ele vai para a UNLV comigo. Queria que estivesse indo comigo agora porque assim não me sentiria desolada lá, mas fiquei feliz por ele dizer que vai me visitar sempre que possível. Pelo menos, não terei que me preocupar com colegas de quarto ou com banheiros coletivos, eu moraria com a minha tia Rosie que se mudou para Las Vegas no ano passado, um mês depois da morte do meu pai. 

“ALICIAAAAA!”

“Já estou descendo mãe. Da pra parar de me gritar?”, respondo do meio da escada. Josh está sentado à mesa diante dela olhando para o relógio em seu pulso. A camiseta cinza que ele está usando destaca bastante seus olhos azuis. Seus cabelos loiros estão penteados de forma impecável. Ele sempre anda muito bem arrumado. 

“Oi, universitária”. Ele abre um sorriso brilhante ao se levantar e me da um abraço apertado. 

“Oi”. Abro um sorriso igualmente brilhante enquanto passo os dedos pelos meus cabelos ruivos 

“Você esta linda minha filha, não precisa se cobrar tanto, só estamos indo até a casa da sua tia”, diz a minha mãe quando me vê olhando pela quinta vez no espelho concertando meu cabelo 

“Sua mãe tem razão, relaxa um pouco Ally”, Josh me oferece mais um de seus sorrisos confortantes. “Vou colocar as malas no carro”, ele  se oferece. Abrindo a mão para que a minha mãe lhe entregasse a chave. 

“Estou orgulhosa da você Ally” ela completa e eu sorrio. “Seu pai também estaria”. Josh sai da sala, com as malas na mão, e minha mãe vai atrás. 

Me viro novamente no espelho e começo a encontrar defeitos na minha roupa... simples demais. Sei que só estou indo para a casa da minha tia, mas e se alguma coisa acontecer no meio do caminho e precisarmos parar? Não quero parecer desarrumada como se estivesse indo na padaria da esquina. 

“Relaxa Ally”, digo pra mim mesma tentando controlar minha respiração. 

Quando saio de casa e vejo minhas coisas dentro do carro, sinto um frio na barriga maior do que nunca, e me sinto aliviada quando lembro que teremos duas horas de viagem até a casa da minha tia, assim eu posso me acalmar. 

Não tenho a menor ideia de como vai ser a faculdade, e de repente, a pergunta que mais ronda meus pensamentos é: Será que vou conseguir fazer amigos?

 

Eu queria dizer que a paisagem familiar me acalmava ou que a sensação de aventura foi tomando conta de mim a cada vez que as placas indicavam que estávamos perto de Las Vegas, mas não foi isso que aconteceu; estou extremamente nervosa, sempre tive medo do novo porque sempre planejei tudo na minha vida e o novo, pode arruinar meus planos. 

“Chegamos!” Avisa a minha mãe quando estacionamos em frente a casa da minha tia. A casa dela é simples mas muito bonita. É meio cinza ou meio branca, não da pra entender direito, a porta da entrada é de madeira clara e minha mãe sorri ao parar do meu lado. 

Tocamos a campainha e logo depois minha sorridente tia Rosie abre a porta. 

“Ally minha querida, como é bom te ver, entra”. Ela sai da porta para que minha mãe, Josh e eu entremos na casa. “Oi Carol!” Ela cumprimenta minha mãe. “Josh, uau, como você está diferente desde a última vez que nos vimos”, a tia Rosie olha para o Josh e ele sorri. 

Quando desvio os olhos da minha tia vejo uma garota de cabelos médios e castanhos parada no meio da sala sorrindo para nós. 

“Oi, eu sou a Marce”, ela se apresenta quando vê que eu finalmente olhei para ela. “Moro na casa aqui do lado”

“Sou a Ally”, me apresento

“É bom finalmente te conhecer, sua tia falou muito de você”, ela continua sorrindo gentilmente e eu retribuo seu sorriso

A campainha da minha tia toca novamente mas dessa vez ela só grita um entra. O que? Como ela tem coragem de mandar entrar sem nem sequer saber quem está do lado de fora? A porta se abre e dois garotos entram.

Por que a casa da minha tia está se enchendo de jovens que aparentam ter dezoito ou dezenove anos? Por acaso minha tia entrou em uma espécie de máquina rejuvenescedora e voltou aos seus dezoito anos? Esse pensamento me faz soltar uma risada, mas seguro e torço para que ninguém tenha escutado 

“Oi, você deve ser a Ally não é? A Rosie não para de falar de você há um mês”, um dos garotos diz. Seus cabelos castanhos estão penteados para cima. Ele sorri para mim e me convenço de que sua fileira de dentes brancos não devem ser reais, é impossível uma coisa dessas. 

“É, sou eu!” 

“Eu sou o Mário”, ele diz com um sorriso, estendendo a mão e tocando meu ombro. “Sua tia tem razão, você é muito bonita”. Sua expressão é afetuosa e amigável, e instantaneamente olho para o chão por causa de seu comentário, peço a mim mesma para não ficar vermelha e me sinto aliviada quando isso  acontece. 

“Eu já estou pronta meninos”. Anuncia Marce, pegando uma bolsa preta do sofá. Meus olhos se voltam para o outro garoto, apoiado na porta. Seus cabelos pretos estão jogados para trás de uma forma bagunçada, mas ainda assim é bonito. Meus olhos vai descendo por sua camiseta preta. Ele é alto e magro, e sei que estou o encarando de uma forma nem um pouco educada, mas não consigo desviar os olhos. Fico esperando que se apresente assim como seus amigos fizeram, mas ele permanece em silêncio mexendo em seu celular. Ele com certeza não é educado e simpático como Marce e Mário. Mas, por outro lado, é mais interessante: alguma coisa nele, torna difícil desviar meu olhar de seu rosto. Percebo que minha tia está me encarando e desvio o olhar depressa torcendo para que ninguém mais tenha percebido o modo que eu o encarava. 

“A gente se vê Ally”, diz Mario, e Marce acena para mim, antes de sair os três da casa da minha tia. Que cena bizarra foi essa?

“Por que sua casa está lotada de jovens, Rosie?”, minha mãe pergunta exatamente o que eu ia perguntar 

“Lotada Carol? Eram só três jovens”, minha tia ri

“Mas por que estavam aqui?”, minha mãe insiste em saber 

“Conheci a Marce quando me mudei pra cá e conversamos bastante desde então, até que eu conheci seus amigos”, ela de de ombros e se joga sentada no sofá 

“Você continua a mesma de sempre né Rosie”, Josh ri e minha tia pisca rindo também 

A tia Rosie sempre teve uma personalidade jovem, inclusive parece ser mais jovem do que eu, ela tem trinta e dois anos, mas parece que tem dezoito. Sempre foi assim, divertida, alegre e espontânea, por isso, sempre teve mais facilidade em fazer amigos da minha idade do que eu. Por isso, ela é a minha tia preferida, posso conversar com ela sobre qualquer assunto e ela reage como uma jovem, eu amo o jeito dela. 

Uma hora depois, após ouvir todos os avisos da minha mãe sobre perigos da vida universitária — da qual ela só viu em filmes —, ela enfim resolveu ir embora. Se despediu de mim com um abraço apertado e um beijo na testa, me desejando sorte para meu primeiro dia de aula amanhã, depois saiu da casa da minha tia e disse que esperaria Josh no carro. 

“Vou sentir falta de ver você todos os dias”, ele diz me encarando com seu ilustre sorriso. Josh e eu somos amigos desde a infância quando ele se mudou para o meu bairro, há duas casas da minha. Somos inseparáveis, e todos os dias conversamos no chão do meu quarto. 

“Eu também vou sentir sua falta, mas podemos continuar conversando todos os dias”. 

Josh me abraça com força e assim que me solta escuto a buzina da minha mãe. 

Ele da risada. “Sua mãe... ela é desesperada”, ele bagunça meus cabelos, como sempre faz. “Te ligo hoje à noite e amanhã de manhã pra acalmar seus nervos antes de começar sua vida universitária”

“Vou precisar disso”, respondo 

“Eu sei disso”, ele diz sorrindo e sai fechando a porta atrás de si mas acena para mim antes. 

Fico olhando para a porta e desejando que pelo menos o Josh ficasse aqui comigo, nunca fiquei longe dele desde que éramos crianças e eu não queria que isso acontecesse. Já estava sentindo saudade dele antes mesmo da despedida e agora, só queria que ele voltasse dizendo que estava brincando e que se formou sim e vai fazer faculdade comigo esse ano... mas não foi isso que aconteceu. 



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