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História Paulicia: You Changed My Life - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Festa


Demoro um tempo pra entender que é a Marce na porta da casa.

“O que?” Minha voz sai fina 

“Você vai arrastada”, a Marce repete e entra na casa da minha tia 

“O que?” Pergunto novamente fechando a porta 

“Para de fingir de boba, você já entendeu o que eu falei”, Marce responde e senta no braço do sofá 

“Marce, eu já falei que não vou pra essa festa”, cruzo os braços e olho pra ela

“E eu já falei que você vai arrastada”, ela bufa. “Vai para o quarto e se arruma, o Mário vai passar aqui pra nos buscar às oito”

“Marce...”

“Chega disso Ally, você tem dezoito anos, vai se divertir, se você não gostar da festa então você volta pra casa e nunca mais vai em uma, mas você não pode dizer que não gosta se nunca foi”, minha tia sugere 

“Concordo com a Rosie”

“Tá bom”, bufo. “Ja que eu não tenho escolha”

“Eba! A gente vai se divertir muito!” Ela grita, e uma enorme parte de mim fica torcendo pra que ela esteja certa. 

Eu subo para o quarto e a Marce vem atrás de mim, preciso de detalhes sobre a festa pra acalmar meus nervos e não criar situações antes que aconteçam 

“Onde é a festa?” Pergunto, tentando parecer tranquila enquanto pego minha toalha e roupas íntimas 

“É em uma das maiores fraternidades daqui!” Ela senta na minha cama. “Fica um pouco longe, por isso o Mário vai vir buscar a gente”

Fico feliz por não ser Paulo, apesar de saber que ele vai estar lá. A ideia de andar no carro dele mais uma vez me parece irritante. Por que ele é tão grosso? No mínimo deveria ser um pouco mais educado, nem fiz nada pra ele e ele me trata mal, nem sei o que ele tem contra mim, mas parece que é tudo. 

“Você me ouviu?” Pergunta Marce, interrompendo meus pensamentos

“Desculpe... o que você disse?” Nem percebi que estava distraída pensando no grosseirão. 

“Eu disse pra você se arrumar... eu posso te ajudar a escolher as roupas.” Me recuso a usar um vestido minúsculo como esse que ela está usando, sei que não tenho nenhum deles mas me recuso a usar qualquer roupa que seja curta. 

“Vou tomar banho.” Digo pegando meu roupão em cima da cama e saindo do quarto 

Enquanto entro no chuveiro fico repensando se devo ou não ir a festa, na verdade, eu nem estou indo por vontade própria porque eu deixei o não claro, mais claro que água cristalina. Mas talvez, eu só esteja julgando demais e festas, não sejam tão ruins assim. 

Quando saio do banheiro e volto para o quarto a Marce está mexendo no meu guarda-roupa e nas minhas gavetas. Tenho vontade de xinga-la porque não gosto que mexam nas minhas coisas, mas decido ficar calada

“Ah!” Ela exclama ao perceber que entrei no quarto. “Tava dando uma olhada nas suas roupas, elas são muito bonitas, não acredito que você nunca usou isso pra ir em uma festa”. Ela levanta um vestido justo preto que a minha tia me deu no meu aniversário no ano passado, numa tentativa de me deixar mais “adolescente”, eu jamais vestiria algo como aquilo. 

“Eu não vou usar isso”, digo claramente, com tom de que esse assunto está encerrado 

“O que vai usar então?” Ela coloca o vestido pendurado de volta no cabide 

“Sei lá, provavelmente uma calça jeans”, dou de ombros e passo na frente dela no guarda-roupa 

“Um vestido lindo desses e você...”

“Ele não faz o meu estilo”, a interrompo 

Pego uma calça jeans preta com alguns rasgos nas coxas e no joelho e um body vermelho liso e jogo em cima da cama. 

“Gostei mas acho que você deveria usar um short ao em vez de uma calça”, Marce sugere

“Sem chances”, respondo 

Tiro meu roupão e visto o body primeiro e depois a calça. 

“Cara, como você é boba”. Ela ri e eu a encaro. “Se eu tivesse esse corpo que você tem, usaria muitas roupas com decote pra mostrar minhas curvas”. Eu não usaria roupas com decotes nem se me pagassem. Marce e eu temos uma diferença gritante em questão de corpo, nós duas somos praticamente do mesmo tamanho, mas eu tenho muito mais peito, coxa e bunda, não tenho muito, mas tenho mais do que ela. 

Vou em direção a sapateira e pego um tênis branco, um all star preto e um vermelho 

“Qual?” Pergunto a Marce que sorri, por finalmente eu ter perguntado ela algo sobre a roupa 

“O branco, senao você vai ficar de uma cor só”, ela diz e eu sorrio, eu queria mesmo usar o branco. Pego uma meia nas gavetas e calço o tênis. 

“Passa maquiagem”, ela sugere

Não gosto de maquiagem, nunca gostei mas acho que posso passar pelo menos um delineador. Presto atenção na Marce, o vestido que ela está usando mal cobre as coxas e os saltos parece que tem dez centímetros. Seus cabelos estão soltos em pequenas ondas que ela deve ter feito no babyliss, ela está usando rímel e um delineador preto e azul, deixando-os mais ainda produzido, pelo menos ela está usando um batom nude, ficaria igual palhaço se ela usasse um batom vermelho. 

“Vou passar só um pouco de delineador!” Digo

“Colorido?” Ela pergunta esperançosa e eu nego com a cabeça. 

Pego um delineador preto e traço uma linha não muito grossa na pálpebra, rente aos cílios, e puxo para fazer o delineado gatinho, recebendo em troca um sorriso de Marce. Em seguida paro na frente do espelho e tiro o elástico que usei pra prender meu cabelo para tomar banho, ligo o babyliss na tomada e faço algumas ondas mais grossas nele, e quando termino sorrio me sentindo arrumada o suficiente. 

“Você é linda garota!” A Marce exclama.

“Você que é”, respondo, e ela é mesmo. 

“Se eu fosse ruiva eu seria um nojo”, ela brinca e eu dou risada. 

O celular dela vibra e ela o tira da bolsa. “Mário chegou”, ela avisa. Pego minha bolsa e coloco meu celular e minha chave de casa e dou uma conferida na roupa novamente. 

Passamos pela sala e minha tia está deitada no sofá enrolada em um lençol 

“Divirtam-se”, ela diz quando nos vê passar pela sala 

“Com certeza”, Marce garante 

“Eu não teria tanta”, digo 

“Cala a boca”, Marce diz 

Nos despedimos da minha tia e saímos da casa. Mário está estacionado em frente a casa ouvindo uma música que eu não conheço, e com as janelas abertas. Mantenho a cabeça baixa e quando levanto os olhos, vejo Paulo no banco da frente. Era só o que me faltava. 

“Senhoritas”, cumprimenta Mário. 

Paulo me olha feio quando entro no carro atrás de Marce, e me ajeito no assento atrás do seu. “Olha só, a Miss certinha resolveu ir”, ele diz. Olho para o espelho retrovisor e vejo seu sorriso de deboche 

“Não enche garoto”, respondo irritada. É impressionante como ele consegue me irritar em menos de dois segundos. 

“O que foi Miss certinha? Só estava fazendo um comentário”, ele ironiza

“Guarde-os pra você então, não me interessa saber o que você pensa”, respondo seca e fico assustada com minha grosseria. Eu nunca respondi ninguém assim, eu não sou grossa, muito pelo contrário, sou educada até demais, minha tia até diz que as pessoas se aproveitam disso. Paulo tem mesmo o poder de despertar o que existe de pior em mim. 

“Vish”. Mário ri. “Já gostei dela”

“Cala a boca.” Paulo está visivelmente irritado, mas eu não me importo. Ele acha que vai ficar me tratando mal e eu vou ficar calada? Está muito enganado, eu sei me dar valor. 

Eu me recosto no assento e tento fingir que ele não está aqui. Olho pela janela e tento absorver a música desconhecida enquanto nos dirigimos para a festa. Nem acredito que estou indo para uma festa em plena segunda-feira. Mário estaciona em uma rua movimentada, com casas grandes. O nome da fraternidade está pintado em letras pretas, mas não da pra ler porque Mário estacionou ao lado de uma árvore que tampa o nome. Tem pedaços enormes de papel higiênico pendurados na fachada da casa branca — com certeza festas universitárias são exatamente como em filmes. 

“Olha o tamanho disso... quanta gente será que tem lá dentro?” Pergunto, engolindo seco. O jardim da frente está lotada de gente com copos na mão, alguns dançando, bem no meio do gramado. Definitivamente, isso não é diversão pra mim. 

“Está lotada. Vamos logo”, Paulo responde e sai do carro, batendo a porta atrás de si. Do banco de trás, vejo as pessoas cumprimentarem Mário e Paulo. Com certeza, são bem conhecidos aqui. 

“Você vem?” Marce abre um sorriso e desce. 

Balanço a cabeça afirmativamente, mas penso em sair e pegar o próximo ônibus de volta para casa, acabo indo atrás da Marce, já estou aqui mesmo.

Paulo já sumiu dentro da casa, o que é ótimo, porque não quero vê-lo pelo resto da noite. Considerando a quantidade de pessoas que tem aqui, acho que é isso mesmo que vai acontecer. Sigo Marce e Mário até a sala lotada, alguém me entrega um copo vermelho mas antes que eu possa recusar, o copo já está na minha mão e nem sei quem me entregou. Ponho o copo sobre o balcão e continuo andando atrás dos dois. Eles param quando chegamos em um grupinho reunido em torno do sofá, e chuto que devem ser os amigos da Marce. Infelizmente, Paulo está sentado no canto direito, mas consigo evitar olhar para ele enquanto Marce me apresenta ao restante do pessoal. 

“Essa é Ally, minha nova vizinha. Ela chegou há dois dias, então a trouxe pra que se divirta”, ela explica. 

Eles me cumprimentam com um aceno de cabeça ou um sorriso. Todos eles são simpáticos, menos Paulo, é claro. Um menino bonito de pele clara, estende a mão para me cumprimentar, sua mão está fria porque estava segurando um copo, mas seu sorriso é caloroso. 

“Sou o Pedro. Você estuda o quê?” Ele me pergunta. Percebo que ele está analisando meu corpo e abre um sorriso em seguida.

“Veterinária”, respondo com orgulho. Paulo solta um risinho de deboche, que eu ignoro. 

“Legal”, ele comenta. “Quer uma bebida?”

“Ah, não, eu não bebo”, respondo e ele tenta esconder o riso. 

“Só a Marce para trazer uma garota que não bebe a uma festa”, resmunga uma menina baixinha de cabelos pretos. 

Finjo que não ouço para não arranjar confusão. Tenho um certo orgulho de mim por não beber, sei das confusões que uma bebida pode causar por isso não bebo. 

“Vou tomar um ar”, digo. Preciso evitar esse tipo de confusão. Não quero arrumar inimigos já que nem amigos eu tenho direito. 

“Quer que eu vá com você?”, Marce grita atrás de mim 

Faço que não com a cabeça e saio pela porta. Sabia que não devia ter vindo. Eu devia estar deitada assistindo algum filme na Netflix, ou revisando a matéria de hoje. Até dormir seria uma opção melhor do que ficar sozinha em uma festa lotada de desconhecidos bêbados. Decido mandar uma mensagem para Josh. Vou até o canto do jardim que parece ser o local menos lotado da festa. 

Fiz um negócio que eu não devia ter feito. Envio e sento em uma mureta de pedra à espera da resposta. 

A resposta vem rápido: O que você fez Alicia Gusman? Sorrio lembrando que sempre que eu digo coisas desse tipo ele me chama de Alicia Gusman. 

“Desculpa aí”, diz uma voz masculina e em seguida sinto um líquido gelado ensopar a frente do meu body vermelho. 

Não poderia ser pior, primeiro uma menina ri de mim por eu não beber, depois levo um banho de bebida, que aliás tem um cheiro horrível. Soltando um suspiro, guardo o celular no bolso da calça jeans e saio em busca de um banheiro. Subo as escadas e tento abrir todas as portas, mas estão todas trancadas e tento não pensar no que as pessoas estão fazendo ali dentro. Não consigo entender como uma festa assim pode ser considerada diversão. Em vez de procurar um banheiro, decido ir até a cozinha e me lavar na pia mesmo. A última coisa que quero é acabar abrindo uma porta e encontrar estudantes cheios de hormônios montados um sobre os outros. 

Não é muito difícil encontrar a cozinha, mas está lotada, já que os baldes de bebidas e gelo estão lá dentro com várias caixas de pizza. Consigo encontrar um papel toalha, mas quando passo no body, fragmentos do papel vagabundo fica grudado nele. Irritada, solto um grunhido e encosto no balcão. 

“Está se divertindo?” Mário pergunta, chegando mais perto. Fico aliviada por finalmente ver um rosto familiar por ali. Ele abre um sorriso simpático e da um gole em sua bebida. 

“Não exatamente... quanto tempo costumam durar essas festas?”

“A noite toda e as vezes.... metade do outro dia”. Ele da risada e eu fico de queixo caído. Como essas pessoas aguentam? Quando será que Marce pretende ir embora? “Querendo ir embora já?” Ele pergunta ao ver minha reação 

“Vou negar não... quero sim”, sorrio fracamente

“Você pode ir com o meu carro se quiser”, ele responde. 

“É muita gentileza sua, mas não posso dirigir seu carro! Você vai precisar dele depois”. 

“Você pode ir com o meu carro. Nem bebeu. Caso contrário vai ter que ficar aqui, ou eu posso ver se arrumo alguém para...”

“Não, tudo bem. Eu dou um jeito”, consigo dizer antes que aumentem a música e não se possa ouvir mais nada. Minha decisão de vir a essa festa está se revelando a mais errada a cada minuto que passa.

Finalmente, depois de ficar gritando “Marce” umas dez vezes para o Pedro, ele finalmente entende e balança a cabeça rindo. Ele ergue a mão e aponta para a sala ao lado. Não entendo como os amigos do Paulo são tão legais e ele... bom, um idiota. 

Quando chego no local que Pedro disse, tudo que ouço é meu próprio suspiro de surpresa. Marce está dançando com o Mário, de uma maneira que eu nunca imaginei que veria fora dos filmes. 

“Eles estão só dançando Ally!” Pedro diz e da um sorrisinho ao notar minha expressão de desconforto. Mas eles não estão só dançando. Estão se pegando e se esfregando. 

“É... eu sei.” Dou de ombros, apesar de não considerar aquilo nem um pouco normal. Jamais dançaria desse jeito. Será que as festas em que o Josh disse que ia, eram desse jeito? Josh! Pego o celular no bolso da calça para ler as mensagens. 

Você está aí, Ally?

O que você fez e não devia ter feito?

Ally, está tudo bem?

Eu deveria estar preocupado? Porque eu estou ficando 

Digito seu número rapidamente, não tenho nada para fazer nessa merda de festa, não seria má ideia conversar com ele e falar sobre como isso foi uma péssima ideia. Ele não atende, e eu mando uma mensagem dizendo que está tudo bem e que vou explicar tudo para ele assim que atender o telefone. 

“Oiiii... Ally!” Marce grita e apoia a cabeça no meu ombro. “Está se divertindo amiga?” Ela da risada, completamente bêbada. “Acho que... preciso... a sala ta começando a girar Ally”, ela diz aos risos e seu corpo tomba para frente. 

“Ela está passando mal!” Digo ao Mário, que balança a cabeça e a pega nos braços, jogando seu corpo por cima dos ombros. 

“Vem comigo”, ele diz, subindo as escadas. Ele abre uma porta na metade do corredor, encontrando um banheiro com facilidade. Assim que Mário a coloca no chão perto do vaso, Marce começa a vomitar. Afasto seus cabelos do rosto e viro para o outro lado, para não acabar fazendo o mesmo. 

Finalmente, depois de vomitar mais do que imaginei que fosse, Mário me passa uma toalha. “Vamos levá-la para um quarto. Ela precisa deitar para dormir”, ele sugere. Faço que sim com a cabeça mas só consigo pensar que não posso deixá-la sozinha desmaiada em um quarto. “Você pode vir também”, Mário completa como se tivesse lido meus pensamentos. 

Juntos, nós a erguemos do chão e a ajudamos a chegar em um quarto escuro. Com movimentos cuidadosos, deitamos Marce na cama e ela resmunga. Mário sai logo em seguida, dizendo que volta mais tarde para ver como estamos. Eu me deito ao lado dela, e ajeito sua cabeça para que fique mais confortável. 

Sóbria, com uma menina bêbada do meu lado em uma festa barulhenta. Como eu fui me meter nessa? Acendo o abajur para enxergar o quarto melhor, e o meu olhar é imediatamente atraído para o livro Orgulho e Preconceito em cima da escrivaninha ao lado do abajur. Está em bom estado, mas as dobras nas pontas das folhas indica que já foi aberto várias vezes. 

Fico tão perdida nas palavras de Jane Austen que nem percebo uma mudança na luminosidade, ou a presença de uma terceira pessoa no quarto. 

“O que você está fazendo no meu quarto?”, uma voz furiosa diz atrás de mim. A essa altura eu já conhecia aquela voz: Paulo. Me levanto em um pulo. 

“Perguntei, o que você está fazendo no meu quarto”, ele repete, com o mesmo tom seco da primeira vez e arranca o livro bruscamente da minha mão, colocando-o de volta na escrivaninha. 

“Mário disse para trazer Marce aqui...” Minha voz sai baixa, quase inaudível. Ele chega mais perto soltando um suspiro e aponto com o indicador para a cama e ele segue minha mão com o olhar. “Ela bebeu demais, e Mário disse que...”

“Eu já entendi.” Ele passa a mão pelos cabelos despenteados, claramente irritado. Qual é o problema de estarmos no quarto dele? Aliás...

“Você faz parte dessa fraternidade?” Não consigo esconder minha curiosidade. Paulo não parece um cara de fraternidade. 

“Se eu tenho um quarto aqui, qual você acha que é a resposta?” Ele responde e da mais um passo à frente.

Saio de sua frente e dou a volta parando do outro lado do quarto. Não tenho ideia do que fazer, mas preciso sair de perto do Paulo antes que dê um tapa em sua cara. Ou caia no choro. Da forma cansada em que encontro, é mais provável que eu caia no choro. Seria um vexame, e por isso o ignoro e vou em direção a porta. 

“Ela não pode ficar aqui”, Paulo diz e me viro para encara-lo. 

“Por que não? Pensei que fossem amigos.”

“Somos”, ele responde. “Mas não gosto de ninguém no meu quarto”

Sentindo-me irritada digo: “Você é ridículo Paulo. Qual é o seu problema? Você é sempre tão idiota assim ou o quê?”

Ele caminha na minha direção e para a menos de um metro de mim, visivelmente irritado. “Quem você pensa que é pra me chamar de idiota? Você nem me conhece”

“E preciso conhecer pra saber disso?” Dou risada 

“Como pode julgar sem conhecer?” Ele grita

“Eu não estou julgando, eu estou falando do que eu vi, você é um idiota mesmo, só resta você admitir isso.” Grito de volta 

“Cala a boca!” Ele diz, aos berros. “Só tira logo ela daqui”

Estou cansada daquela festa e discutir com ele não vale a pena. “Arranje você um quarto para ela enquanto eu arrumo um jeito de voltar pra casa”, digo e me viro para a porta. 

Quando fecho a porta, mesmo com o som da música alta da festa, ouço o comentário irônico de Paulo. “Boa noite Alicia”

O que? Como ele sabe que o meu nome é Alicia? Não me apresentei para ninguém assim. Decido que isso não importa e eu não quero saber disso. 

Desço as escadas quase correndo e abro caminho com os braços pela multidão, até encontrar a saída daquela casa quente e amontoada de gente suada e fedendo a bebida. Parada no gramado do jardim fico pensando em como vou fazer para voltar pra casa, olho meu celular e vejo que são meia noite já. Preciso estar de pé daqui há sete horas e não faço ideia de como voltar para casa. 

“Perdida?” Ouço uma voz masculina atrás de mim e me assusto, me viro e vejo Pedro sorrindo para mim. 

“Preciso voltar para casa, mas não faço ideia de como fazer isso”, respondo

“Pra que ir embora agora? Sabia que as festas ficam melhores de madrugada?” Ele sorri

“Imagino que sim!” Minto, tenho certeza que é impossível uma coisa dessas ser divertida. “Mas eu preciso e quero voltar pra casa”

“Com quem você veio?” Ele pergunta 

“Com o Mário e a Marce”, respondo e ele da risada. 

“Ou você pede um táxi, ou se contenta em ficar aqui a noite toda, esses dois sempre vão embora no outro dia”, Pedro diz e eu reviro os olhos bufando. 

“Já imaginava!” Reclamo. “Tem táxis rodando a essa hora?”

“Tenta sorte”, ele diz tirando o celular do bolso. “Tenho o número da garagem dos taxistas, nesse horário eles só rodam quando são chamados, quer dizer... as vezes, mas quem sabe você tenha a sorte”

Ele me entrega o telefone que já está ligando para a tal garagem de taxistas, eu agradeço levando o telefone na orelha e pedindo mentalmente para que alguém atenda. Depois de chamar por longos segundos começo a pensar que não tem mais ninguém na tal garagem, até que escuto um alô vindo da outra linha. Pergunto se tem táxi disponível e ela responde que sim, me pedindo o endereço em seguida, pergunto ao Pedro qual o nome da rua e repasso para a moça do outro lado o que me foi dito, e ela diz que dentro de aproximadamente dez ou quinze minutos o taxista chegaria aqui. 

“Obrigada mais uma vez.” Sorrio para o Pedro entregando o telefone para ele. 

“Por nada!” Ele sorri de volta. “Quer que eu te faça companhia?”

Dou de ombros. “Se quiser”

Pedro conta que estuda biologia e que quer muito especializar em biologia marinha, fico feliz por compartilharmos um sentimento de paixão pelos animais. 

Como foi dito, o táxi chegou dez minutos depois e me viro para o Pedro. 

“Obrigada mais uma vez Pedro!” Sorrio 

“Não precisa agradecer, você é legal, devia aparecer mais vezes”, ele diz

“Claro”, minto. Não pretendo voltar aqui nunca mais na minha vida. 

Abro a porta traseira do carro e aceno para o Pedro antes de entrar no mesmo. Digo para o motorista o endereço e dez minutos depois já estamos estacionados em frente a casa da minha tia, pego o dinheiro na bolsa e entrego a ele, agradeço e saio do carro. 

Quando entro em casa minha tia está apagada no sofá, e então subo as escadas cuidadosamente para não acorda-la. Chego no meu quarto e decido tomar um banho pra tirar o cheiro de bebida que parece estar impregnado em mim desde que aquele cara a derrubou em mim. Pego meu pijama e minha toalha e corro para o banheiro. 

Quando abro o chuveiro deixo a água quente me relaxar. Onde eu estava com a cabeça quando deixei me arrastarem para aquela festa? Eu já sabia desde sempre que festas não são a minha praia, mas precisei fazer isso só para provar o óbvio para mim. Não entendo como as pessoas pensam que é divertido beber até cair, dançar com desconhecidos e passar mal no outro dia. De repente, começo a pensar no grosseirão. Por que ele não gosta que ninguém vá ao quarto dele? Ele parecia extremamente irritado quando me viu lá dentro, só não entendo o por quê. Poderia até pergunta-lo mas sei que ele não responderia e ainda seria grosseiro. 

Quando me deito na cama me sinto mais cansada que nunca, e quando olho para o relógio já são uma e vinte da manhã. Decido me virar e dormir, não teria tanto tempo para isso, mas preciso dormir pelo menos um pouco para ir à faculdade amanhã e, graças ao meu cansaço, consigo dormir em menos de dois minutos. 



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