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História Pécheurs - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Amis


Maria

- Eu mal sabia onde ficava o hospital dessa cidade, quanto mais me lembrar onde fica a costureira. Ainda só há uma? – respondo, descendo do carro.

- O prefeito garante que seja assim. – Guilherme fecha a porta por mim – A costureira é sua sobrinha.

Assinto em entendimento e olho em volta, um tanto ansiosa.

- É impossível que não chamemos atenção, não é? – pergunto baixinho, mas Guilherme escuta.

Ele agarra minha mão gentilmente, colocando-a sobre seu braço.

- Uma rainha mantém a cabeça erguida, mesmo quando deve atender aos pedidos de seus súditos. – ele ergue meu queixo com a mão livre, aproximando-me de seu corpo ainda mais – Ainda mais para receber queixas. Você é minha rainha, é seu dever manter-se sempre de pé ao meu lado. – ele pisca para mim, fazendo meu coração disparar contra minha vontade – E em troca eu garantirei o mundo aos seus pés. Não é esse nosso acordo?

Desvio o olhar, mas ajeito a postura. Eu era forte, sempre fora. Só as vezes teimava em esquecer.

- Bem, que tal... Porque não me conta de que estilo de vestido você gosta? – tenta ele, para fazer aliviar a atmosfera.

Felizmente, funciona. Eu tinha um espírito de garota tradicional, afinal.

- Algo livre, para que eu possa mover-me. Saia fluida, se possível sem mangas.

- Era o previsível, sendo você. E a cor?

Penso um pouco, olhando em volta como se buscasse a resposta em algum lugar.

- Hum... Prefiro que você escolha esse quesito. Sei que esse lugar deve ter suas... peculiaridades. – decido.

Ele me olha da cabeça aos pés.

- Será um prazer. – comenta de forma profunda, fazendo minhas bochechas queimarem no processo – O correto aqui é que as moças solteiras usem cores claras, como rosa claro, branco... Mas acho que você ficaria muito bem em dourado. Talvez creme... – ele olha para minha mão, como se imaginasse o tecido contra minha pele – Se bem que adoraria vê-la em um verdadeiro vermelho flamejante.

Algo em seu tom de voz faz literalmente meu rosto flamejar.

- Guilherme...

Ele me interrompe, gesticulando para o estabelecimento a nossa frente.

- Chegamos. – sorri para mim, como se nada tivesse acontecido – Pode ficar à vontade nas poltronas, sim? Eu cuido de tudo.

Eu suspiro, assentindo, e observo-o avançar sem mim. Quando estava prestes a passar pela soleira, porém, um vulto em meio canto de visão me chama atenção. Curiosamente, acompanho-o, assistindo uma figura familiar cruzar a praça apressadamente.

Era o doutor de antes, que cuidara de Guilherme. Estava exatamente igual da última vez que nos vimos, a única diferença sendo que hoje um paletó creme que substituía o jaleco. O mesmo cabelo loiro inadvertidamente desfeito, os mesmos olhos frios e silenciosos, olhando para lugar nenhum não importa o quão concentrados estivessem em algo. Seus passos apressados e arrogantes prenderam meu olhar, cruzando a praça sem nem mesmo sem desviar os olhos do chão, como se o tivesse feito por toda a sua vida.

- É bonito, mas sério demais. Nenhuma garota com mais vida que uma das macas do hospital conseguiria suportá-lo, acredite em mim. – disse uma voz de repente, ao meu lado.

Para minha surpresa, me deparo com uma garota de olhos gentis, sorrindo para mim enquanto trazia uma caixa nos braços.

- Quem é você? Nunca a vi por essas bandas. – ela me oferece a mão, mesmo com dificuldade – Eu sou Olívia.

Aceito seu cumprimento.

- Prazer. Eu sou Maria.

Vejo suas sobrancelhas se arquearem, mas ela não se hostiliza ao ouvir meu nome.

- A tão falada filha do coronel Fernandes?

Assinto e ela sorrir.

- Bem, saiba que não sou muito de fofocas de comadre. – ela suspira e juntas observamos o médico entrar no hospital, do outro lado da praça – Você o conhece?

Nego com cabeça. – Apenas o via passar. Parece ser tão...

- Introvertido?

Concordo.

- É exatamente o que parece. Ele é estranho, nem parece ter a idade que tem. Mas é muito atraente, para a desilusão das pobres moças dessa cidade, como eu. – ela faz uma expressão apenada, o que me faz rir.

- Vive aqui desde muito tempo? – pergunto, feliz por ter com conversar.

- Nasci nesse maldito lugar. Sou a filha do meio do coronel Guerra. – explica ela – E aquela ali vindo toda zangada... – ela aponta com o queixo para uma mulher vindo em nossa direção – é minha irmã mais velha, Daniele.

A mulher parecia ter pouco mais de vinte anos, mas vestia-se feito uma matrona da década passada. Era óbvio que sua personalidade refletia seus gostos de moda somente pelos trejeitos de seus passos, austeros.

- Olívia, o que está fazendo aí parada de conversa? Está quase na hora do almoço e sabe que papai não gosta que nos atrasemos... – ela vocifera para Olívia por um tempo, até que parece reconhecer-me – Oh...

- Olá. – dou um pequeno cumprimento ao mesmo tempo que uma mão agarra meu ombro.

- Maria. – era Guilherme – Você sumiu de repente. Fiquei preocupado.

Sorrio de canto de boca, voltando-me para ele com um pedido de desculpas nos olhos. Ele entende, voltando-se para as mulheres, que percebo terem ambas olhares admirados. Esse era o poder de meu irmão. Com ele ali, pelo menos, me sinto mais confiante para continuar.

- Eu sou Maria. Prazer. – estendo a mão para Daniele, que parece um tanto atônita.

Depois de uma cotovelada da irmã, porém, ela cumpre com a etiqueta e me retribui o cumprimento.

- Eu sou Daniele Guerra. O prazer é meu, senhorita Fernandes. – suas bochechas coram quando se refere a pessoa atrás de mim – Bom vê-lo de novo, senhor Fernandes.

Meu irmão sorri, e esse cumprimento é o bastante. É quando passa os olhos para Olívia que, apesar de momentaneamente aturdida, acena para ele.

- Olá, senhor Guilherme. – ela sorri, confiante – Bem que disse que sua irmã era uma garota interessante. Tive o prazer de comprovar isso sozinha hoje.

- Fico feliz em ouvir essas palavras, senhorita Olívia. – posso ver o olhar de aprovação dele e não posso evitar um pouco de descontentamento, mesmo que não admitisse – É um prazer rever as senhoritas, definitivamente, mas devo pedir licença. Temos assuntos a tratar com a costureira, então...

Ele agarra minha mão e me puxa para dentro, dando um de seus sorrisos desnorteantes para permitir que me tirasse de lá.

- Nos vemos essa noite, de qualquer jeito. Senhoritas... – ele se despede com um aceno, e logo estamos longe das duas.

Apesar da distância, porém, percebi um tanto mais descontentemente do que gostaria que dois suspiros encantados soaram atrás de mim, antes de uma acalorada conversa entre irmãs. Maldita beleza cigana que esse garoto tinha...

                                                     ******************************

- Isso... acho que talvez seja um pouco revelador demais para os padrões daqui, não acha? – pergunto saindo do provador, usando um dos quase vestidos que Guilherme pré selecionara.

Meu irmão me olha dos pés a cabeça, analítico. Estava sentado em uma poltrona ali perto, tomando um copo de água que a costureira lhe oferecera. Felizmente, mesmo que fosse difícil, a mulher tinha alguns modelos prontos que poderiam ser ajustados naquele dia mesmo, ou eu estaria perdida. Ainda, não era fácil conseguir que o trabalho fosse feito em tão pouco tempo, mas como era Guilherme...

- Acredite em mim quando digo que não. – ele se levanta, sorrindo para mim, e me gira pela mão – É assim como deve ser... Livre como você. Não gosta?

- É claro que gosto, mas...

Ele parece divertir-se em ver a saia girar ao meu redor, coberta de brilhantes.

- Então... não seria melhor usar um xale ou algo assim? – eu tinha de admitir que me sentia um pouco incômoda apesar das minhas palavras antes sobre o que gostava de usar, principalmente quando comparava com as roupas habituais das mulheres da cidade.

- Se é o que acha... – sinto sua mão deslizar de meu ombro para meus braços, como se suas palavras não condissessem com o que pensava.

Faço um gesto com a cabeça para a costureira, chamando-a da sala ao lado. A outra cliente não parece gostar nada da interrupção, mas acaba tendo de ceder à despedida educada da mulher.

- A senhora teria um xale para combinar com esse vestido? – pergunto assim que ela se aproxima.

Ela parece pensar um pouco. Era uma mulher já na terceira idade, de cabelos brancos presos para trás e roupas escuras, mas ainda conservava gritantemente uma elegância típica da boa educação.

- Acho que pronto só terei de renda. Serve?

Assinto repetidamente, agradecida. – Seria ótimo.

Ela confirma e vai buscar o acessório, deixando-me diante do espelho que estava ali perto. Um vestido vivaz, sem mangas, feito de cetim e chiffon bordado de pedras brilhantes. Era definitivamente... ousado, mais até do que imaginara. Ainda, admito sentir um pouco de desconforto ao ver a cor da minha pele ainda mais realçada.

- Ela é linda com qualquer cor, Maria. – diz de repente Guilherme, o rosto ao lado do meu no espelho.

Minha reação automática é voltar-me para ele, surpresa, mas suas mãos me seguram de frente ao espelho.

Parece admirar-me por um longo momento. Não preciso perguntar como sabe o que penso, sei que meus olhos gritam por mim. E ele me conhece bem demais, de qualquer forma.

- Essas pessoas têm inveja, não desgosto. Não os confunda. – ele sussurra e nossos olhos se encontram no espelho.

Um pigarreio nos interrompe.

- Senhorita Fernandes? – nos voltamos para costureira com sorrisos impecáveis espelhados – Isto é o que tenho.

Ela me entrega um pano de renda dourada.

- É isso mesmo. – diz Guilherme antes de mim, sentindo o tecido – Será o vestido e isso aqui. Perfeitos para hoje à noite.

Meu olhar a ele dizia “Tem certeza?”. Em resposta, basta um sorriso, e confio nele. Não sei nada sobre esse lugar, de qualquer forma.

- Vou trocar de roupa, então. – aviso a ele, gesticulando com a cabeça para a costureira. Os olhos dela eram frios, beirando ao desprezo, então apresso meus passos para desaparecer de sua vista.

Quando volto, para minha surpresa, ela havia sumido e sido substituída por Félix.

- Senhor Félix? – pergunto, aproximando-me dos dois.

O homem sorri para mim.

- Olá de novo, senhorita Maria. Estava aqui buscando uma gravata para essa noite e olha que coincidência...

- Realmente. – concordo com um sorriso – Achou o que procurava, já?

Ele assente e levanta uma sacola de papel. Percebo, também, que as nossas coisas já esperavam em caixas nos braços de Guilherme.

- Estava convidando-o para almoçar conosco. Mas parece que ele quer recusar... – explica Guilherme, dando-lhe um olhar penetrante.

Fico alegre quando ouço a ideia; havia tomado Félix definitivamente como uma boa companhia para uma refeição.

- Oh, por favor, senhor Félix, eu insisto. O senhor conhece algum bom restaurante? É a primeira vez que venho à cidade, precisamos de boa companhia enquanto não nos identificamos com as pessoas daqui. – replico, olhando em seus olhos com minha melhor expressão suplicante.

Ele respira fundo, desviando o olhar como se quisesse fugir de um feitiço.

- Ah... Se é assim, eu... tenho que aceitar. – posso jurar que vejo suas bochechas corarem, ao mesmo tempo que Guilherme dá um sorriso vitorioso.

Saímos comigo no meio dos dois, segurando os braços de ambos depois de não conseguirem decidir quem me acompanharia. Ao fim, nos tornamos um trio impossível de não notar, e eu esperava que essa proteção me ajudasse a não ter nenhuma surpresa desagradável pelo menos até o fim daquela tarde.

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Ao fim, fomos comer em uma espécie de restaurante ali perto. Os donos, mais até do que o esperado, foram bastante receptivos conosco, sendo que fora uma bonita jovem que nos atendeu de forma cortês. Dizia chamar-se Celina, rapidamente acomodando-nos na melhor mesa dali, de frente para a fonte da praça.

- O que gostaria de beber, senhorita Maria? – pergunta senhor Félix, sentando-se ao mesmo tempo que Guilherme puxava a cadeira para mim. – Acho que seu irmão concordará em acompanhar-me em um vinho, de qualquer forma.

- O mesmo, certamente. – responde Guilherme antes de mim, dando-me um olhar cúmplice antes que eu tivesse a chance de dar uma resposta digna.

Senhor Félix ri, assentindo a garçonete, que anota o pedido. Fuzilo Guilherme com os olhos, mas tinha de admitir que vinho era o que eu realmente queria naquele momento. A comida, pelo que percebi, era decidida pela própria casa, e cada um receberia o seu prato. Não era uma prática fina, mas aquele era o único restaurante da cidade e pelo menos taças de vidro e louça de verdade foram servidas para nós.

- Meu pai disse que o senhor parte amanhã para Santiago, o que é uma pena, senhor Félix. Esperava que tivéssemos mais chances de conversar. – começo, encarando o homem.

Ele parece também decepcionado, ao mesmo tempo que Celina acabava de servir nosso vinho.

- Eu também, senhorita. É raro encontrar uma garota com algo na cabeça esses dias. Ainda mais uma tão... única. – seus olhos sorriem – Mas não será por muito tempo, sei que logo me mandarão de volta. Se não para cá, para São Paulo, e sempre poderei visita-la no internato, se quiser.

A resposta me satisfaz, mas o sorriso de Guilherme fica ainda mais brilhante.

- Só se eu estiver junto, por favor. Minha irmã é uma dama, senhor Félix, e acho que isso pode afetar sua reputação, não acha?

O olhar que os dois trocam é de desafio, o que faz minhas sobrancelhas se arquearem.

- A senhorita é que decide, senhor Guilherme. Não é isso que disse quando perguntamos sobre a liberdade feminina? – foi a primeira vez que senti malícia sob o bigode do senhor Félix.

Meu irmão não parece nada feliz com a resposta, mas o olhar de canto de olho que me lança mostra que a resposta o desarmou. De qualquer forma, o senhor Félix tinha razão, e Guilherme sabia que fora daquela cidade, minha reputação era a última coisa que me importava. Estava prestes a dizer isso, mas sou interrompida antes mesmo de terminar de abrir a boca.

- Aqui, senhores. – diz Celina, servindo três pratos de macarrão italiano.

A comida definitivamente alivia um tanto da tensão. Era tarde, nós três estávamos com fome, e felizmente a comida era agradável.

- Bem, de qualquer forma, espero que traga boas notícias quando voltar. – digo em voz tenra, a garganta molhada por um gole de vinho.

- Digo o mesmo, senhorita. Principalmente de Guilherme e seu misterioso casamento. – o assunto faz meu irmão reagir como um gato molhado, além de volta minha atenção para ele.

- É mesmo, Guilherme, eu não o perguntei. Você falou com o pai sobre isso outro dia, não é? – pergunto e ele parece um tanto incerto.

Logo, porém, se recupera, suspirando.

- Ainda não há nada decidido, mas nosso pai parece estar sendo pressionado pelo tio Tobias. Querem... que o casamento seja realmente marcado para antes do meio do ano, no máximo.  – ele confessa e termina sua taça em um gole só.

Eu sabia, mesmo que não quisesse admitir isso para mim mesmo, que o casamento de Guilherme não teria como único objetivo dele agradar nosso pai. Na verdade, tinha mais consciência ainda de que a relação dele com o “coronel” não era de afeto, muito menos de consideração, desde o dia do episódio da igreja. Ele mesmo confessara-me um dia, bêbado em altas horas da noite, que o odiava mais do que tudo no mundo. E eu sabia mais ainda que, acima de qualquer razão, o principal motivo de todo aquele jogo era eu. O medo que ele passara de perder-me naquele dia, quando tinha prometido a Deus que se nos salvasse cuidaria de mim pelo resto da vida apropriadamente... A criança que ele era nunca o esqueceu.

- Guilherme... – seguro sua mão debaixo da mesa.

- Só, se for casar, me convide, por favor. Quero ver o quão animada essa cidade fica em dia de festa. – diz de forma irônica senhor Félix, em um tom que, ao invés de malícia, continha amargura.

- Pode deixar. – meu irmão sorri apropriadamente, deslizando os dedos para longe dos meus – Mas quero um presente digno em troca, por favor.

As sobrancelhas do senhor Félix se arqueiam e o olhar que trocam tem mais do que o que eu sabia permitia entender.

- Isso eu posso prometer. – ele imita Guilherme, terminando o vinho em um gole só, e era como se assinasse um contrato.

Eu apenas posso encará-los, curiosa, até que percebo que talvez não quisesse saber realmente o que aquilo tudo significava. Tinha quase certeza de que, no mínimo, me decepcionaria com essas pessoas.

                                                   **********************************

Rafael

- Bartô! – disse de repente uma voz feminina, entrando no hospital quando estávamos prestes a deixa-lo.

Já era noite quando meu expediente acabou e eu tinha admitir que estava louco por um banho. Estava acabando de passar as instruções do dia para o enfermeiro que cuidaria do lugar a noite quando a irmã de Bartolomeu, Celina, irrompeu pela porta. Era comum que ela fosse busca-lo no trabalho, mas naquele dia estava ainda mais animada, aproximando-se da recepção de forma quase ofegante.

Ela me cumprimenta com um aceno, assim como o enfermeiro ao meu lado, e logo volta-se o irmão com o melhor exemplo de semblante de fofoca.

- Bartô, você não vai acreditar quem eu vi hoje! – ela se apoia no balcão – A filha do coronel Fernandes foi almoçar lá no restaurante hoje, junto com o senhor Guilherme e o senhor Félix. Dá para imaginar, as três pessoas mais faladas da cidade, juntas?

As sobrancelhas de Bartolomeu se arqueiam ao mesmo tempo que me esforço para apressar o que tinha que ser feito com o enfermeiro. Mesmo que não quisesse, porém, meus ouvidos curiosos acabam ouvindo mais do que deveriam.

- De verdade? E como foi?

A menina sorri de forma travessa, apoiando a cabeça nas mãos.

- Ela é linda mesmo, Bartô. Do tipo de mulher que atrai olhos onde esteja, assim como você falou. Mamãe quase brigou com papai por causa dela, acredita? – ela dá uma risadinha – Deve ser por isso que a chamam de demoníaca, mas é uma idiotice. Ela nem mesmo ficou me olhando com desprezo por causa da nossa cor, como esses senhores de café aqui das redondezas fazem quando vem a cidade. Educada. Dá para ver que é inteligente.

Percebo de canto de olho que os olhos da garota brilhavam, e pude ver que a filha do coronel havia deixado uma boa impressão com a geração mais jovem da cidade, pelo menos.

- E ela era amiga do senhor Félix também? – pergunta Bartolomeu, colocando o chapéu na cabeça. Era o fim do expediente dele também.

O sorriso da garota ganha malícia.

- Mais do que isso, irmão... Está na cara que logo o coronel anunciará uma aliança. Mas, também, quem resistiria a uma garota como aquela... Só os idiotas dessa cidade mesmo.

- Eu disse! Só esse poderia ter sido o motivo do coronel ter mandado trazer a filha odiada tão de repente... – comenta o irmão.

- Bartolomeu. – interrompo-o, terminando o que tinha que fazer, finalmente – Tudo está arrumado? Calixto tem que achar tudo caso algo aconteça durante a noite...

Ele desperta, ficando sério.

- Sim, doutor. Tudo como pediu.

Assinto, satisfeito. – Se é assim, está liberado por hoje.

Ele parece suspirar de alívio, agarrando a irmã e fugindo dali como se tivesse medo que eu pedisse para que ficasse mais um pouco. Eu apenas posso negar com a cabeça, um tanto desiludido, até lembrar que, apesar do trabalho oficial ter terminado, outras emergências poderiam acontecer durante a noite.

- Calixto, caso precisar de mim, já sabe, não é?

O homem de meia idade assente para mim. Era uma espécie de auxiliar e vigia durante as noites, sendo o irmão mais velho de dona Cláudia. Havia trabalhado em outro hospital na cidade grande, enquanto ele e a irmã estudavam, como uma espécie de “aprendiz” e hoje me ajudava informalmente aqui durante as noites. Não era tão bom quanto um médico, mas até mesmo eu tinha de admitir que aquele homem sabia muita coisa.

- Estarei na festa do coronel Fernandes, pode ligar-me ali caso eu não atenda da casa paroquial. Virei o mais rápido que puder. – aviso, ajeitando meu paletó e o chapéu.

- Pode deixar, doutor. – seu rosto era todo responsabilidade, sorrindo tão raramente quanto eu. Na verdade, nós dois tínhamos meio que um entendimento mútuo que, se não fosse por ele preferir trabalhar à noite, me faria mantê-lo ao meu lado pela maior parte do tempo possível.

Assim, com um suspiro, saio pela porta do hospital no ar noturno. Sabia que mais coisas me esperavam em casa.

- Padrinho. – anuncio, entrando na casa paroquial pouco tempo depois.

Meu padrinho me esperava no quarto, arrumando-se para a festa. Estava de batina, como sempre, mas essa era claramente mais nova e bem passada. O cabelo ralo nos lados da cabeça estavam penteados para trás, a careca deixando-o ainda mais como um velho simpático.

- Filho! Que bom que chegou! Estava com medo de que fôssemos nos atrasar.

Quase reviro os olhos, tirando os assessórios e pendurando-os atrás da porta de entrada.

- Desculpa a demora. Mas pelo menos cheguei... – vou até meu quarto, deparando-me com um jogo completo formal de roupa sobre a cama – Isso é para mim?

Meu padrinho me segue, parando na porta.

- É, sim. Foi dona Judith quem me deu e me ajudou a reformar. Era do marido falecido dela. – explica com orgulho.

Assinto, talvez até um tanto impressionado. Era uma roupa de alta qualidade, até boa demais para mim.

- Isso... Não é formal demais? – pergunto, já desatando os botões da camisa para ir para o banho o mais rápido possível.

Meu padrinho nega. – De jeito nenhum. É uma festa com a nata de Calmaria, todos vão estar em suas melhores roupas. Além disso, eu e dona Judith colocamos muito esforço para deixa-lo à altura desse evento. É a sua chance de sair um pouco de casa, ser um pouco mais livre... Você só sabe ler e trabalhar. Quando vai viver um pouco?

- Padrinho... Eu sou um padre como o senhor, não se esqueça disso. Minha vida é servir a Deus e consequentemente a Igreja, e se ela demande que eu trabalhe e estude... É minha missão cumprir com isso, o senhor sabe.

Ele suspira. – Eu sei, meu filho, eu sei, mas... Acho que você deveria pelo menos se socializar mal. Parte do trabalho de evangelizar é lidar com pessoas, não é? Você age feito um monge austero... As pessoas têm de sentir-se confortáveis ao seu redor se o que quer é seguir meus passos, como prometeu.

É minha vez de suspirar, entrando no banheiro somente de calças.

- Tudo bem, padrinho, você está certo. Mas... eu nunca fui bom com pessoas. Quero ajuda-las, mas... tenho a impressão de que muitas vezes não querem ser ajudadas. – termino a conversa fechando a porta, mas sei que ele fica pensativo com o que ouviu.

Sob o chuveiro quente, reflito comigo mesmo que, realmente, meu trabalho como evangelizador era frágil, definitivamente débil. Eu não sabia conversar com as pessoas, muito menos ligar-me a elas de forma mais empática do que simplesmente querer ajuda-las para “cumprir minha missão”. Eu não sentia pena, somente agia pelas leis de Deus, e sentia que precisava mudar isso. Essa insensibilidade não era algo que um homem de Deus, como eu, pudesse portar. Ainda mais porque, no fundo, eu sentia que era ele próprio quem me dava essa ausência de piedade, a fim de que eu pudesse ser plenamente justo em minhas ações, o que nenhum amor humano, por mais puro que seja, permite.



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