História Peculiar history - Capítulo 17


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Categorias O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares
Personagens Enoch O'Connor, Personagens Originais
Tags Enoch O'connor, Peculiar, Romance
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Palavras 2.590
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Pansexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 17 - Capitulo 11


Em silêncio enquanto ela deixava cair água fria na banheira para depois esquentá-la com as mãos, mexendo até o vapor começar a subir.

— Isso é incrível! — disse eu, mas ela foi embora sem dizer uma palavra. Depois de deixar a água totalmente marrom, eu me sequei com uma toalha e encontrei uma muda de roupa pendurada atrás da porta, deduzi que eram de Emma, era um vestido muito bonito, azul escuro, iam até um pouco abaixo dos joelhos e tinha alguns botões na parte de cima. Ao me trocar penteei meus cabelos vermelhos com uma escova que encontrei lá, e passei apenas um pouco de delineador, que por sorte, nunca tiro de minha bolsa, estava me sentindo bonita novamente. Então, desci para o que seria provavelmente a refeição mais estranha da minha vida. Pelo menos Enoch e meu irmão estavam lá. Encontrei Jake no meu caminho à sala de jantar.

O jantar foi uma confusão de nomes e rostos, muitos deles semifamiliares das fotografias e das descrições feitas muito tempo antes por meu avô. Quando chegamos à sala de jantar, as crianças, que disputavam com muito barulho os assentos ao redor da mesa comprida, ficaram imóveis e nos encararam. Tive a sensação de que elas não recebiam muitos convidados para o jantar. A srta. Peregrine, já sentada à cabeceira da mesa, se levantou e aproveitou a oportunidade do silêncio repentino para nos apresentar.

— Para aqueles de vocês que ainda não tiveram o prazer de conhecê-los — anunciou ela —, estes são os netos de Abraham, Jacob e Luana. Eles são nossos convidados de honra e vieram de muito longe para estar aqui. Espero que vocês os tratem bem. — Ela apontou para cada pessoa na sala e recitou seu respectivo nome, a maioria dos quais esqueci imediatamente, como costuma acontecer quando estou nervosa. A isso se seguiu muitas de perguntas das crianças, da qual a srta. Peregrine conseguiu se desvencilhar com rapidez e eficiência.

— Eles vão ficar conosco?

— Não que eu saiba.

— Onde está Abe?

— Abe está ocupado nos Estados Unidos.

— Por que Jacob está usando as calças de Victor?

— Victor não precisa mais delas, e as do senhor Portman estão sendo lavadas.

— O que Abe ainda está fazendo nos Estados Unidos? -- Quando ouvi esta pergunta, vi Emma, que se mantivera sombria a um canto nos olhando com raiva, levantar-se de sua cadeira e ir embora da sala. Os outros, aparentemente acostumados a seu temperamento imprevisível, não deram atenção.

— Não importa o que Abe está fazendo — respondeu a srta. Peregrine.

— Quando ele vai voltar?

— Isso também não importa. Agora vamos comer! Todos correram para seus lugares.

Jake foi se sentar em uma cadeira que Millard estava e quase levou uma garfada.

--Luana, você pode sentar aqui domeu lado, tem uma cadeira vazia – disse umagarotinha com cabelos encaracolados.

-- Não seja boba Claire – Disse enoch com tom de deboche – ela vai se sentar do meu lado.

-- ah sim, me desculpe Luana – disse a garotinha em tom baixo.

-- Não se preocupe, na próxima eu sento ao seu lado – eu disse e vi um sorriso no rosto dela. Sentei ao lado de Enoch e disse. – estou mais arrumada agora, o vestido ficou bom? Não costumo muito usar azul.

-- Você está linda, azul realça a cor de seus cabelos – disse ele.

 As crianças que tinham tarefas na cozinha trouxeram travessas de comida. Estavam todas cobertas com tampas de prata reluzentes, de modo que não dava para ver o que havia dentro, levantando em mim todo o tipo de especulação bizarra sobre o que teríamos para o jantar.

— Lontra à Wellington! — gritou um garoto.

— Gato salgado com fígad! — disse outro, ao que as crianças responderam com risos. Mas, quando as tampas foram finalmente levantadas, revelou-se um banquete de proporções reais: havia um ganso assado, um salmão e um bacalhau inteiros abertos ao meio e enfeitados com rodelas de limão, cobertos de manteiga derretida, uma caçarola de mariscos fumegantes; travessas de legumes grelhados, pães recém-saídos do forno e todos os tipos de geleias e molhos que não reconheci, mas que pareciam deliciosos. Tudo reluzia convidativamente sob a luz tremeluzente das luminárias a gás, a um mundo de distância dos guisados gordurosos de origem indeterminada que eu vinha comendo no Buraco do Padre. Eu não comia desde o café da manhã, e comecei a devorar o jantar até me empanturrar. Não devia ter ficado surpresa pelo fato de crianças peculiares terem hábitos alimentares peculiares, mas entre garfadas de comida eu me vi olhando de esguelha ao redor da sala.

Por exemplo: antes de começar a comer, Olive, a menina que levitava, tinha de ser afivelada à sua cadeira aparafusada no chão de modo que não fosse parar no teto. Para que o resto de nós não fosse incomodado por insetos durante a refeição, Hugh, o menino que tinha abelhas morando na barriga, comia sob um grande mosquiteiro em uma mesa individual no canto. Claire, uma menina que parecia uma boneca com seus cachos, sentava-se ao lado da srta. Peregrine, mas não comia absolutamente nada.

— Você não está com fome? — perguntei a ela.

— Claire não come com a gente — interveio Hugh, deixando uma abelha escapar de sua boca. – Ela fica com vergonha.

— Não fico! — disse ela, encarando-o friamente.

— É? Então coma alguma coisa!

— Ninguém aqui tem vergonha de seus dons — disse a srta. Peregrine. — A senhorita Densmore simplesmente prefere jantar sozinha. Não é verdade, senhorita Densmore? --  A menina olhava fixamente para o lugar arrumado e vazio diante dela, claramente desejando que toda aquela atenção terminasse.

— Claire tem uma boca atrás — explicou Millard, que agora estava sentado ao meu lado usando um paletó de smoking (e mais nada).

— Vá em frente, mostre a ela! — disse alguém. Logo todos na mesa pressionavam Claire para comer algo e, finalmente, só para calá-los, ela o fez. Puseram uma coxa de ganso diante dela, que se virou, sentou-se ao contrário na cadeira e inclinou-se para trás e levou a nuca até o prato. Ouvi um estalo nítido quando ela tornou a erguer a cabeça. Um grande pedaço havia desaparecido da coxa de ganso. Por baixo de seus cabelos dourados havia um par de mandíbulas com dentes afiados. Claire virou-se para a frente e cruzou os braços, chateada por ter se deixado convencer a fazer uma demonstração tão humilhante.

-- Isso foi incrível – disse á ela, que vi dar um leve sorriso.

Ela ficou sentada em silêncio enquanto os outros nos cobriam de perguntas. Depois que a srta. Peregrine respondeu a algumas delas sobre meu avô, as crianças se voltaram para outros assuntos. Elas pareciam especialmente interessadas em como era a vida no século XXI.

— Que tipos de carro motorizado voador vocês têm? — perguntou um adolescente chamado Horace, em um terno escuro que lhe dava a aparência de um aprendiz de agente funerário.

— Nenhum — respondi. — Pelo menos, ainda não.

— Eles construíram cidades na Lua? — perguntou esperançoso outro garoto.

— Deixamos um monte de lixo e uma bandeira lá, mas foi só. – deixei que Jake respondesse o resto das perguntas.

— A Grã-Bretanha ainda domina o mundo?

— Hum... não exatamente. -- Eles pareceram desapontados. Ao sentir uma oportunidade, a srta. Peregrine disse:

— Estão vendo, crianças? O futuro não é tão grandioso, no fim das contas. Não há nada de errado com o velho aqui e agora! -- Senti que isso era algo que ela sempre tentava botar na cabeça deles, com pouco sucesso. Mas isso me fez pensar: há quanto tempo eles estavam no “velho aqui e agora”?

— Você se importa que eu pergunte sua idade? — Jake perguntou. — Tenho 83 — disse Horace. Olive ergueu a mão, empolgada.

— Vou fazer 75 e meio na semana que vem! — proclamou.

— Eu tenho 117 ou 118 — disse Enoch. Ele não parecia ter mais que dezesseis anos. — Vivi em outra fenda antes de vir para cá — explicou.

— Tenho quase 87 — disse Millard, a boca coberta de gordura de ganso, e, enquanto falava, um bolo disso girava em sua mandíbula invisível para que todos vissem. As pessoas soltaram gemidos e cobriram ou desviaram os olhos. Então chegou a minha vez. Eu tinha dezoito anos e Jake tinha dezesseis, contei a eles. Vi os olhos de alguns garotos se arregalarem. Olive riu com surpresa. Para eles, era estranho que fossemos tão jovens, mas, para mim, estranho era como eles pareciam jovens. Eu conhecia muitas pessoas com mais de oitenta anos na Flórida, e esses garotos não agiam em nada como elas. Era como se a constância da vida deles ali, os dias sem mudanças, aquele verão perpétuo e imortal, tivesse prendido suas emoções como fizera com seus corpos, selando-os em juventude como Peter Pan e seus Meninos Perdidos. Um estrondo repentino soou do lado de fora, o segundo naquela noite, mas mais alto e mais próximo que o primeiro, fazendo tremer os talheres e pratos sobre a mesa.

-- Terminem logo, apressem-se todos! — disse a srta. Peregrine, e, assim que ela disse isso, outro abalo sacudiu a casa e fez com que um quadro na parede caísse atrás de mim.

— O que é isso? — Jake perguntou, tentando não mostrar nervosismo.

— Os malditos alemães de novo! — rosnou Olive, batendo o pequeno punho na mesa, sem dúvida numa imitação de algum adulto enfurecido. Os outros riram, e a srta. Peregrine lançou um olhar de advertência para ela. Então ouvi o que soou como um zumbido em algum lugar ao longe, e de repente percebi o que estava acontecendo. Era o dia 3 de setembro de 1940, e em pouco tempo uma bomba cairia do céu e abriria um buraco gigante na casa. O zumbido era uma sirene que soava no alto da colina.

— Temos de sair daqui — disse ele. — Temos de ir antes que a bomba nos atinja! -- Ouvi mais risos, só que agora se dirigiam a Jake.

— Ele não sabe! — riu Olive. — Acha que nós vamos morrer.

— É apenas o processo de transição — disse Millard, com um dar de ombros de seu paletó de smoking. — Não precisa botar os sapatos de corrida.

— Isso acontece toda noite? -- A srta. Peregrine assentiu.

— Toda noite — disse ela.

— Podemos ir lá fora e mostrar a eles? — disse Hugh.

— É, podemos? — repetiu Claire, repentinamente entusiasmada após vinte minutos de silêncio emburrado.

— A transição é sempre tão bonita!

A srta. Peregrine ficou contrariada e observou que as crianças ainda não tinham terminado o jantar, mas elas imploraram até que ela cedesse.

— Está bem, desde que todos vocês usem suas máscaras — disse ela. As crianças se levantaram apressadas de seus lugares e saíram correndo da sala, Enoch me chamou para ir também correndo empolgado, o segui. Entramos no salão com paredes forradas de madeira, onde cada um pegou alguma coisa em um armário antes de sair pela porta. Enoch também me deu uma daquelas coisas, e eu fiquei girando aquilo na mão. Parecia um rosto murcho de borracha negra, com grandes escotilhas de vidro como olhos congelados em estado de choque, com uma trompa pendente que terminava em uma lata perfurada.

— Vá em frente — disse. — Coloque-a. — Então percebi o que era: uma máscara de gás. Eu a prendi sobre o rosto e depois o segui até o jardim, onde as crianças estavam de pé, espalhadas como peças de xadrez em um tabuleiro em branco, anônimas por trás de suas máscaras viradas para o alto, observando ondas de fumaça negra rolar pelo céu. Topo de árvores queimava ao longe. O ronco de aviões invisíveis parecia vir de todos os lados. Então houve um estrondo abafado que pude sentir no peito como a pulsação de um segundo coração, seguido por ondas de forte calor, como se alguém estivesse abrindo e fechando um forno na minha frente. Enoch percebendo que estava assustada segurou minha mão.

-- Ta tudo bem – disse ele ao meu ouvido.

As crianças cantavam uma letra que se encaixava perfeitamente ao ritmo das bombas.

“Pule, coelho, pule, coelho, pam, pam, PAM! Bum, bum, BUM, fazem o fazendeiro e seu pistolão. Por isso ele não vai comer esse coelho, Pule, coelho, pule, coelho, PAM!”

Balas iluminadas marcavam os céus enquanto a canção terminava. As crianças aplaudiam como a plateia de um espetáculo de fogos de artifícios, com faixas coloridas refletidas no vidro de suas máscaras. Esse ataque noturno tinha se tornado uma parte tão constante de suas vidas que eles pararam de pensar naquilo como algo aterrorizante. Começou a cair uma chuva fraca, como se todo aquele metal voador tivesse perfurado as nuvens. As explosões tornaram-se menos frequentes. O ataque parecia estar no fim.

As crianças começaram a ir embora. Apesar de eu achar que voltaríamos para a casa, elas passaram direto pela porta da frente a caminho de outra parte do jardim.

— Aonde estamos indo? — perguntei. Ele não disse nada, mas, parecendo sentir minha ansiedade, me conduziu junto com os outros. Contornamos a casa até os fundos, onde todos estavam reunidos em torno de um gigante arbusto esculpido. Esse, porém, não era uma criatura mítica, mas um homem descansando na grama, apoiado em um braço enquanto o outro apontava para o céu. Levei um tempo para me dar conta de que era uma réplica em folhas do afresco superfamoso de Michelangelo na Capela Sistina. Considerando que era feito apenas de arbustos, era bem impressionante, você quase podia perceber a expressão plácida no rosto de Adam, onde ele tinha duas gardênias azuis no lugar dos olhos. Vi a garota de cabelos selvagens parada ali perto, as mechas emaranhadas saindo da parte de trás de sua máscara. Ela usava um vestido com estampa floral. Jake foi pra perto e disse.

— Foi você quem fez isso? -- Ela assentiu. — Como? -- Ela se abaixou e levou a palma da mão a alguns centímetros da grama. Poucos segundos depois, uma área na forma de uma mão encheu-se de brotos que cresceram até tocarem a palma dela. — Isso é loucura.

Todas as crianças aguardavam quietas com o pescoço esticado, apontando para uma área do céu. Ergui os olhos, mas só consegui ver nuvens de fumaça e o tremeluzir alaranjado das chamas refletido nelas. Então ouvi o motor de um único avião destacar-se de todo o resto. Estava perto, e se aproximando mais. Algo cinza e pequeno afastou as nuvens e veio veloz em nossa direção. Uma pedra, pensei, mas rochas não assobiam ao cair. “Pule, coelho, pule, coelho, pam”. Eu teria saído dali num pulo, mas agora não havia tempo tudo o que podia fazer era gritar e me deitar no chão para me proteger, mas não havia lugar onde me esconder, então me agarrei nos braços de Enoch que, ao perceber meu pânico, me abraçou carinhosamente.

Cerrei os dentes, fechei os olhos e prendi a respiração, mas, em vez do estrondo ensurdecedor para o qual estava preparado, tudo caiu em um absoluto e completo silêncio. De repente, não havia mais o ronco de motores nem o silvo de bombas, nem o pipocar distante de armas. Era como se alguém tivesse emudecido o mundo. Será que eu estava morta? Virei-me devagar para olhar o que estava acontecendo. Os galhos das árvores envergados pelo vento tinham sido imobilizados. O céu era uma foto estática de chamas lambendo um grupo de nuvens imóveis. Gotas de chuva estavam suspensas no ar, em formas ovais perfeitas diante de meus olhos. E no meio do círculo de crianças, como o objeto de algum ritual arcano, uma bomba pairava no ar, seu bico parecendo equilibrar-se na ponta do dedo esticado de Adam. Como um filme que se queima dentro do projetor durante a exibição, uma florescência de calor e perfeita alvura espalhou-se à minha frente e engoliu tudo.



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