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História Pêndulos - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Tudo bem


Sasuke tomou um pequeno susto ao encontrar um gato branco e amarelo dentro do elevador. Ouviu a voz de Naruto e Sakura ao longe, e decidiu segurar a porta com o braço, pois uma mão estava ocupada com o felino, a outra machucada. Pretendia colocar o bicho pra fora, mas quando ele recostou a cabeça na altura de seu ombro, soube que ficaria com ele. Era sempre assim. Tinha um fraco por gatos.

Chegaram juntos no condomínio – ele, Sakura e Naruto, por conta do momento que sairam do salão. Sasuke pediu um tempo para esperar o ambiente gigantesco do restaurante esvaziar, mas na verdade, ele que precisava de uma pausa mental. Como é que pode deixar escapar uma pessoa com uma informação tão crucial?

Os dois se surpreenderam ao encontrar o moreno com um gato no colo, ali, esperando-os pacientemente. O bichano roçava no peito do homem, fechando os olhos com a massagem que o terno dele fazia.
Sakura achou adorável a cena, e por algum motivo inexplicável, imaginou-se fazendo o mesmo nos ternos impecáveis do Uchiha. Entrou no elevador e ficou perto do falso namorado, fazendo Naruto suspirar profundamente.

– Vocês, hein? Daqui a pouco estão achando que podem transar na frente dos amigos. Apesar de desconfiar, ver isso é muito mais chocante. – O Uzumaki comentou rindo, percebendo os olhares entre os dois e passando a mão nos pelos tão macios do bicho grudado nos braços do amigo. O bichinho reagia bem, até ronronava. – Ei, de onde você tirou isso?! – Perguntou mais alto, sem entender. Sakura continuou no meio dos dois, calada.

– Tava aqui dentro. Gostei dele. – Falou simplesmente. O moreno parecia um pouco distante para o loiro.

– De novo isso?! Da última vez eu podia jurar que vi suas lágrimas quando o pequeno Mina morreu.

O elevador chegou no andar de Naruto, e o loiro continuou a falar, sem notar a cara brava do Uchiha.

– Vamos entrar. Ainda não tá tarde, e... – Ele nos olhou, abrindo a porta do elevador. – Por que diabos você vai ficar na minha casa e não na do seu namorado?

A pergunta foi inteiramente voltada para a Haruno, e as bochechas vermelhas habituais piscaram na direção do moreno, que bufou.

– Eu não estava atendendo o celular por causa da mão, e ela está com medo da coisa do apartamento e...

– Ah! E O QUE É ISSO NA SUA MÃO?!

– Tá, beleza. Eles se gostaram. – Naruto falou, encarando os dois gatos se lambendo. O Uzumaki tinha um jeito estranhamente elétrico, mas olhando melhor para suas feições maduras, parecia um adulto responsável. E não deixava de ser.

Naruto tinha um gato preto e gordo chamado Daisuke, mas era tão calmo - o completo oposto do dono, que geralmente não saía do tapete do banheiro.

Sakura ficou olhando os dois brincando, até que os dois olharam para ela. Manhosos, surpreendentemente ao mesmo tempo pularam no sofá um de cada lado dela, encostando a cabeça em seu braço esquerdo e direito. Naruto sorriu.

– Eles gostaram de você também, Sá. – Falou. – Gatinha. – Piscou, fazendo a rosa rir e revirar os olhos.

– E o carro? – Ela perguntou com um sorriso. Sasuke ergueu a sobrancelha, olhando de esguelha para os dois animadinhos.

– Me livrei daquela droga, como você pode ver. Agora tô potente.

O amarelinho subiu no colo dela primeiro, e em seguida levantou a cabeça para a moça. Devagar, com uma elegância digna de um gato, levantou a patinha direita e a colocou acima da barriga dela, apertando-a como se massageasse.

Sakura soltou um gracioso miado doído, fazendo Sasuke encarar aquela cena com um pouco mais de tensão do que deveria. Naruto gargalhou enquanto o gato puxava cada vez mais seu vestido, revelando um pouco de seu sutiã também rosa.

– Solta, gatinho! – Dizia.

O moreno não conseguiu fazer nada mais do que olhar. Para o vão que revelava o corpo dela.

Depois de algumas conversas, finalmente Sasuke parecia menos emburrado. Naruto veio com alguns drinks com vodka e morangos, e quanto mais tempo ficavam ali, mais estavam propensos a aceitar as bebidas.

Em algum momento, já de madrugada, Sakura acordou. Estava deitada no ombro de Naruto, que roncava alto. Sasuke, por sua vez, estava esparramado no sofá, de uma forma desleixada que ela nunca presenciou. Os dois gatos estavam comendo numa tigela simples de plástico transparente incolor, num dos cantos da sala. Sentia-se um pouco tonta, mas nada demais.

Pé por pé, pois não queria acordar nenhum dos rapazes, dirigiu-se ao banheiro. Trancou a porta e olhou-se no espelho, vendo que a maquiagem continuava correta, mas a roupa estava amassada e com fios puxados na altura do decote e da barriga.

O banheiro de Naruto era claro, contando com uma lâmpada quase azul, de tão branca que parecia. O espelho enorme em frente ao lavatório era magnífico, e ela descobriu que adoraria que aquele banheiro fosse seu. Dava para fazer maquiagens ali com perfeição.

Levantou o vestido devagar, abaixando a calcinha com o mesmo cuidado. Foi quando ouviu um barulho familiar e estridente. Mesmo dali conseguia ouvi-lo. Seu celular.

Com pressa, terminou de fazer xixi e limpou-se rapidamente, dando descarga sem o mesmo cuidado de antes. Nem apagou as luzes.

– Alô. – Resmungou, vendo que os dois homens já estavam despertos. Naruto quase, não estava tão desperto assim.

Sakura gelou. Seus olhos voaram em Sasuke no mesmo segundo, mas ela não mexeu mais do que isso. Estava quase petrificada.

– Você chamou a polícia? – Perguntou tensa, mexendo-se quando Sasuke levantou e Naruto pareceu acordar de vez com a frase. – O que aconteceu? – Ela fechou os olhos por um momento, e quando o abriu novamente, Sasuke estava em sua frente. – Tudo? – Choramingou. – Oh, meu Deus! – Levantou os olhos molhados para o Uchiha, vendo que a feição dele tornava-se cada vez mais sombria. – Tudo bem. – Falou baixinho, percebendo a movimentação de Naruto. – Obrigada. Não, não. Obrigada.

E desligou. Foi o tempo do Uzumaki estender-lhe um copo d’água. Os olhos azuis dele estavam muito mais abertos que os dela, e mostravam tanto conforto quanto já encontrou em toda a vida. Quase se equiparava ao abraço de Sasuke no dia do evento.

– Você está tremendo um pouco. – Ele falou, tocando em seus braços e virando-a para ele. Segurou suas mãos. – Sá, o que aconteceu?

– De novo. Invadiram de novo. Mas dessa vez destruiram tudo. E já chamaram a polícia. Acho que eu... – Ela pausou, segurando o soluço. Não entendia porque tinha que passar por isso. A única razão que lhe vinha a cabeça e era absolutamente incompreensível, era Sasori. Pelo que o porteiro lhe disse, seu apartamento fora mesmo destruído. Tinha tantas coisas importantes ali... – Vou precisar ir pra lá. Você me empresta seu carro, Naru?

– Eu te levo. – Falou. Sasuke acabou os seguindo quieto, segurando o impulso raivoso de ler a mente dela.

Quando se deu conta, chegaram no condomínio. Havia uma viatura policial ali, boa parte das luzes dos apartamentos acesa e uma pequena movimentação na portaria.

A Haruno foi no banco de trás, Naruto dirigindo e Sasuke tão quieto quanto qualquer dia, no passageiro.

Sakura não quis ouvir muita conversa, e os dois acompanhantes a seguiram, percebendo sua pequena silhueta ainda menor. Para Sasuke, muito menor que aquela briga. Se antes queria ficar com ela e mantê-la segura, agora queria afastá-la.

– Deixa que eu vou primeiro, ok? – Naruto disse a ela ainda dentro do elevador. Apesar de não se manifestar, quem saiu primeiro foi Sasuke. O moreno ainda estava vestido numa roupa social, mas parecia bagunçado. Seu corpanzil largo abandonou o elevador, deixando um cheiro fraco de desodorante masculino que quase dopou Sakura. Sentia-se despreparada. Ainda tinha a possibilidade daquilo ser um sonho, não? Talvez nunca tivesse levantado para fazer xixi na casa de Naruto.

Sasuke parou na porta, sentindo o coração ser esmagado por uma mão impiedosa. Havia uma faixa amarela, sem os famosos escritos de “cena do crime”, fechando a área da porta da menina. Ouviu atrás de si a exclamação surpresa de Naruto, mas dela, só podia sentir sua presença diminuir aos poucos.

Três policiais estavam ali dentro. As luzes estavam acesas, mas não havia nada sendo marcado como local de pistas.

– Olá. Quem é você? – O policial que estava mais perto deles perguntou indiferente, soprando o bafo de café no nariz do Uchiha. Estavam separados pela faixa amarela cruzada.

– Sou o namorado da dona do apartamento. – Falou claramente, tentando ficar calmo. – O que aconteceu aqui? – Perguntou, sentindo o cheiro de Sakura em seu nariz. Ela estava se aproximando. Segurou em seu braço, impendindo de ir mais para frente.

– Sinto muito. – O segundo falou, e parecia sincero. – Trouxe outros companheiros dessa vez porque não é a primeira que somos chamados. Sem falar que não se trata mais apenas de uma invasão de domicílio.

Sasuke se lembrava daquele rapaz. Foi o que apareceu quando chamaram a polícia na segunda invasão.

– Escute, menina... – Falou, e Sakura nem espichava o pescoço. Naruto enlaçou seus ombros, apertando-a num abraço desajeitado. – Muitas coisas foram destruídas por aqui. Quero avisá-los que quem entrou tinha a senha do aparelho, como da outra vez. Não há sinal algum de arrombo. Fomos acionados por causa do barulho alto e insistente. Um dos vizinhos comunicou ao porteiro, dizendo que eram sons incomuns. Você quer entrar? Nós já passamos pela fase das perguntas, né? – Falou, sorrindo pequeno para ela. Sakura não esboçava reação alguma. – Você nos disse da outra vez que não tinha noção de quem poderia ter feito aquilo, mas e isso?

Sasuke virou o rosto para a Haruno pela primeira vez. Ela ainda parecia em choque, e o Uchiha quis enterrar Sasori Akasuna vivo.

– Eu quero entrar.

Sasuke ficou com um dos investigadores na sala. Aquele parecia mais introspectivo, mergulhado no que via. Sequer olhou para Sakura.

– Só para você saber, havia uma câmera aqui na janela. E eu acredito que possam ter outras.

Estavam na sala. A cada minuto, Sasuke se sentia mais pisoteado pelo sentimento de culpa.

O moreno não mencionou a câmera no banheiro – que viu na mente de Sakura quando a leu. Não queria que eles soubessem de quem desconfiavam. Sasori era um caso pessoal.

– Ela não voltará para cá.

O moreno podia jurar que um pequeno sorriso apareceu na expressão do policial.

– Não deveria, mesmo. Invasão de domicílio é só um dos crimes que ele conseguiu cometer. Essa câmera não é um bom sinal, garoto. Você sabe o que poderia ter acontecido aqui dentro. E parece muito pessoal. Essa destruição toda não foi “em busca de alguma coisa”, como dizia a outra ocorrência. Os objetos foram jogados no chão, na parede... O ânimo de dolo* é um traço bem compreensível por aqui, na verdade.

– Fica calma, Sá. – Naruto passou a mão pelas costas dela, oferecendo o refrigerante pela terceira vez. Foi só então que ela aceitou.

– Eu não quero mais ir pra lá. – Choramingou. – Os meus computadores, meu trabalho...

Os três estavam num Mc Donald’s. Segundo Takumi, o policial mais atencioso e aparentemente o “capitão” dos outros dois, Sakura poderia voltar quando terminassem de fazer a varredura na casa. Ela poderia, acompanhada de um policial, recolher as coisas que pudessem ser removidas.

No momento estavam sentados numa mesa. Sasuke estava na frente da mocinha, enquanto o amigo Naruto estava do lado, tentando fazer com que ela comesse batatas.

Sasuke não sentia fome alguma, mas depois de um tempo imerso nos pensamentos homicidas, as coisas começavam a se acalmar em sua cabeça, exceto por uma inquietação estranha em seu estômago.

– O importante é que você não estava lá. – Falou finalmente, fazendo Sakura levantar os olhos marejados. Ela não chorava mais, mas é claro que ele entendia. Era uma adulta. Conquistou tudo aquilo sozinha.

– Sente aqui com ela um pouco. – O Uzumaki falou. Olhou o relógio por um momento. – Eu vou pedir um lanche. – Deu de ombros.

Sasuke não fez o que Naruto falou, mas se inclinou um pouco na mesa para chegar perto dela.

– Olhe para mim. – Mandou baixo e claro. Quando ela o fez, tão perto quanto ele, ouviu seu sussurro falho e sensual. – Você consegue me ver. Concentre-se em Sasori. Me mostre todas as vezes que vocês já conversaram.

As memórias vieram como uma enxurrada, tanto na cabeça dele quanto na dela. Sasuke não teve dificuldades para invadir a cabeça de Sakura, mas não quis se esgueirar e ver coisas que não tinha a permissão dela. Focou-se nas vezes em que ela e Sasori interagiram.

Os diálogos eram parecidos, com o tom de voz dela um pouco assustado e o dele tão risonho quanto seus olhos. Nada que Sasuke já não soubesse. Quando fez menção de desligar-se da mocinha, uma lembrança em especial o atingiu sem que pudesse freá-la.

Duas crianças brincavam juntas numa praça. A menina, uma adorável princesinha de cabelos rosas, brincava de fazer manobras num circuito montado de carrinhos. Aquele circuito era dele! Sem que pudesse deixar aquela memória, viu a segunda criança estragar a brincadeira com uma risada inocente, batendo os carrinhos e interrompendo a rota de Sakura.

Os cabelos vermelhos eram de Sasori, por certeza. E antes que pudesse formar os próprios pensamentos sobre aquilo, uma voz melodiosa cortou suas impressões sobre aquela cena, causando-lhe um leve pânico. A voz de sua mãe.

– Saso, não faça isso com a Sá-chan!

E suas mentes se desconectaram, causando em Sasuke um vazio e um estremecimento estranho. Sua respiração ficou um pouco dificultosa, e seus olhos se fecharam na frente dos de Sakura.

A Haruno percebeu a vulnerabilidade inabitual do falso namorado, que encostou o corpo novamente na cadeira.

Ele ouviu a movimentação de Sakura, e quando percebeu, ela que se sentava ao lado dele, com o copo de refrigerante na mão.

– Eu lembrei de uma coisa tão estranha... – Falou, colocando o copo perto do rosto dele. O moreno sugou o refrigerante e respirou fundo, relembrando as imagens de Sasori e Sakura brincando no parque, enquanto Mikoto Uchiha os assistia. – Tão velha... Acho que...

– Esquece isso. – Sasuke percebeu que foi rude, mas ela pareceu não se importar.

– Você está bem? – Ela perguntou, tirando o copo do alcance dele.

– Você está?

– Fiquem no outro quarto, tá? Como eu tô de férias, acho melhor a Sá ficar aqui em casa. – Naruto suspirou. – Você tem que trabalhar, e tal. Ela pode subir pra sua casa de noite, sei lá. E a Hina vem aqui quase todo dia. Qualquer coisa...

Sakura ficou calada, observando os dois rapazes negociarem sua estadia. Ela não queria se meter, sequer estava se importando com isso. Não podia nem trocar as roupas, e era absolutamente humilhante e revoltante ter que se submeter àquela condição.

Quando voltou para a realidade, Naruto ainda tagarelava.

– Beleza, já são quatro e meia da manhã. Acho bom vocês descansarem no quartinho da bagunça.

– Eu vou subir. Preciso tomar banho, me preparar pro trabalho...

Sasuke queria, na verdade, rever o contrato de Sakura e falar novamente com os instaladores. Bastava tomar um café e...

– E vai deixar a sua namorada sozinha, seu imbecil?! – Naruto deu um soquinho em seu ombro, fazendo uma cara brava. – Eu sei que você é pontual e responsável, mas eu tenho certeza que tenho um ponto relevante aqui. Fica com ela, cara.

O Uchiha quis rugir. Por que Naruto estava se intrometendo, mesmo?

Era mais difícil fingir na frente do melhor amigo babaca do que de qualquer outra pessoa.

– Ok. – Deu-se por vencido, mas tentou não soar assim. Ainda se importava com Sakura naquela altura, embora tenha percebido a menina amuada, um pouco mais distante que eles. Sakura não ofereceu resistência, mas quando entrou no quarto, finalmente pareceu cair em si.

Era um cômodo cheio de bugigangas em caixas, mas não era tão bagunçado quanto Sakura imaginou que seria. O verdadeiro problema era a única cama. Ela já devia saber. Por que Naruto teria duas, afinal?

Esgueirou-se pelo quarto quase como se estivesse sendo arrastada, deitando ao lado direito da cama, sendo que na visão – e do ângulo de Sasuke, ela estava do esquerdo. E o esquerdo sempre foi seu lado da cama.

Quando respirou fundo, tentando segurar o rosnado, Naruto chegou com um pijama rosa e jogou na cama.

– Da Hinata. – Falou, visivelmente com as bochechas ruborizadas. – Bom resto de madrugada.

– Empresta seu carregador também. – Sasuke pediu ao loiro. A voz rude fez Sakura levantar os olhos, mas o deixou sozinho no quarto para vestir o pijama no banheiro perto da sala. Não tinha o que falar com o homem, mesmo que quisesse ouvi-lo.

Trocou-se rapidamente, usando um sabonete líquido masculino para lavar as axilas. Depois, cansada e sem vontade alguma de tomar banho, lavou o rosto, esfregando-o. Não soube quando começou a esfregá-lo com violência, mas parou assim que sua unha roçou em seu olho.

Estava acabada e sabia disso. Não quis olhar-se no espelho. Secou o rosto com papel higiênico para não sujar a toalha de Naruto de maquiagem e voltou para o quarto. A luz já estava apagada, e a respiração de Sasuke estava um pouco barulhenta. Podia significar que ele já estava dormindo. Fez o mínimo de barulho possível, até perceber a silhueta dele no seu lado da cama.

Enfezada, jogou-se do lado vazio, sequer preocupada com a proximidade.

Era dez e meia quando chegou no trabalho. Não tinha hora exata para aparecer, portanto, não estava preocupado com qualquer coisa. Percebeu-se cansado naquela manhã. Acordou com o braço direito de Sakura acima de sua cabeça, mergulhado em seus cabelos. Não que o incomodasse, na verdade só o leve cheiro de Naruto que a rodeava que o fez virar de costas. Acordou atrasado, oito horas. Sakura fazia um barulho baixo, não chegava a ser um ronco. Estava com o rosto um pouco manchado de provavelmente maquiagem. O batom ainda estava ali, só enfraquecido. Naruto ainda dormia, óbvio, então só pegou seu celular já carregado, roubou um pouco da comida de gato do loiro numa sacola de mercado e subiu para seu próprio apartamento.

O ritual habitual aconteceu. Tomou banho, escovou os dentes, secou o cabelo e o arrumou com um pente e uma quantidade pequena de mousse. Vestiu a roupa social de sempre e o óculos de grau. Pegou na geladeira uma lata de refrigerante e um lanche natural que comprou no dia anterior numa lanchonete de boca de rua. Precisava ir no mercado ainda naquele dia se fosse trazer Sakura para ali.

Ignorou o comichão que o arrepiou com aquela possibilidade.

Pegou a chave do carro e agora estava ali, esperando Kisame e Deidara novamente.

Assim que chegaram, o moreno levantou os olhos do computador. Logo de primeira abriu a mente.

“Segunda vez que ele me chama.”

Foi o pensamento de Deidara, que apesar de sempre sorridente, naquela manhã estava mal humorado. Até o pensamento soava rude. O de Kisame veio em seguida.

“Será que instalamos aquela droga errada?”

O Uchiha suspirou, dando as goladas finais na coca-cola que abrira há aproximadamente uma hora. Ainda estava gelada, porque sua sala era gelada.

– Eu sei que já te chamei, Deidara.

O loiro sorriu. Sasuke ergueu o cenho. Ele parecia irritado há um minuto atrás.

“Ele é seu chefe, Deidara. Seja educado.” Pensou consigo.

– Mas eu preciso saber se vocês instalaram tudo corretamente, se não viram nada de estranho, nenhuma movimentação no hall da senhorita Haruno...

“Eu nem me lembro quando fui lá.” Kisame resmungou mentalmente, cruzando os braços na frente do corpo.

– Tem algo acontecendo e...

“Nós já sabemos.” Deidara interveio em pensamento, fazendo o moreno novamente estranhar.

– Eu não sei se o senhor sabe, mas sua namorada saiu no jornal da cidade. Nós já sabemos da invasão. Sinto muito. – Deidara Iwasaki disse, fazendo Sasuke compreender.

“Do quê eles estão falando?” Kisame pensou, parecendo perdido no assunto.

– Sério? – Sasuke murmurou.

– Qualquer acontecimento nessa cidade é motivo para isso. – Deidara era mais falante, por isso, Sasuke logo deixou de tentar ler a mente daqueles dois. Era óbvio que não sabiam de nada. – E o pior é que eles são rápidos em descobrir os podres. Até os moleques que morreram de overdose já tem a fichinha completa no jornal.

– Bom saber que não podemos sair da linha. – Sasuke comentou, levantando a mão em sinal de “podem ir”. – Fiquem a vontade. Só queria saber se vocês viram algo estranho.

– Eu não vi nada. Só instalamos o aparelho, mexemos na fechadura da porta e pronto. – Kisame esclareceu, levantando-se devagar. O chefe assentiu, parecendo indiferente.

– Tudo bem.

– Oi, Gaara. – Resmungou. – Estou indo pro Naruto. Ah, é! Eu esqueci. Mas por que você quer instalar lá mesmo? – Sasuke entrou no carro, girando a chave na ignição e dando partida distraído. – É tão isolado... – Pausou, ouvindo as explicações do amigo. Gaara sempre foi paranoico. – Ok, estou mandando amanhã de manhã um instalador. Terá alguém na fazenda? Ta. Vem de noite em casa. Vou pedir umas pizzas. Falou.

Já livre do celular, Sasuke ponderou sobre convidar todo o pessoal. Revirou os olhos, lembrando-se do grupo inútil que Naruto criou pra todos eles. Pegou o celular novamente, desbloqueando-o. No primeiro farol, digitou “Pizza em casa hoje”, e despreocupado com aquele evento, dirigiu para casa. Pensava em outras coisas.

As memórias que viu, tanto pessoalmente quanto na cabeça dos outros, se embaralhavam em sua cabeça. O pensamento do homem no salão do restaurante ainda reverberava, confundindo-o. O tom de voz não parecia desconhecido, mas... Ele não conseguia saber de quem era.

“Sasori está fazendo um trabalho melhor do que o que eu esperava.”

O barulho do whatsapp soou quase no mesmo momento em que Sasuke ia ligar o rádio. Como tinha que parar em mais um farol, deixou de lado a curiosidade e freou. Estava calor, o ar condicionado estava ligado – embora fosse sensível àquela queda de temperatura repentina, sempre tinha enxaquecas por conta disso – e não esperou um minuto sequer para prender o maldito cabelo que caía na testa. Com cuidado, apanhou um saquinho de laços de cabelo no porta luvas e prendeu os fios, deixando os de trás soltos mesmo. Arrumou a franja para que não ficasse bagunçada e pegou o celular, mas o sinal abriu. Bufou. Mesmo dirigindo, abriu a primeira conversa. As cinco mensagens vinham do grupo Migos, e sempre que lia aquele nome estúpido, revirava os olhos. A primeira era de Gaara.

“Vou.”

A segunda de Ino. “Também vou.”

Terceira de Naruto. “Se der tempo de chegar...” Revirou os olhos novamente. O número de vezes que achava o loiro patético era incontável.

Uma era do Shikamaru dizendo que estava com Temari no México, e outra era de Neji, que disse que ia com Tenten. Sasuke deu um sorriso genuíno, talvez o primeiro naquela semana conturbada. Ficava feliz pelos dois, apesar de tudo. Lembrava-se remotamente do inferno que era ter sua mãe passando por aquela transição que Tenten também estava enfrentando.

O fato de lembrar de sua mãe o fez lembrar da recordação confusa de Sakura brincando com Sasori.

Dirigiu mais rápido, atento ao que acontecia ao seu redor. Mesmo tendo percebido uma lentidão anormal em seus reflexos, ainda era um homem cuidadoso.

Desceu do carro depois de estacioná-lo em sua vaga, pensando se deveria ir com Sakura ao mercado. Provavelmente seria bom para que ela não ficasse pensando demais nos acontecimentos recentes. Apanhou o terno que tirou por causa do calor e subiu em seu apartamento primeiro. Abriu os armários, vendo alguns dos produtos que estavam acabando e os que já não tinha mais. Não que fosse um homem neurótico, mas algumas coisas não podiam faltar em sua casa, como o tomate, os chocolates e os sucos.

Checou a carteira e o celular no bolso, apanhando-o para ver se havia mais alguma coisa. Mensagens sobre trabalho Sasuke não lia em casa, mas quando viu o nome de Deidara ali e uma câmerinha ao lado, o que indicava que o loiro mandara uma foto, abriu a conversa. Era uma foto do jornal. Entre o ocorrido com Sakura, e algumas notícias inúteis, pois o jornal da cidade era totalmente voltado para inutilidades, havia um outro destaque. O de quatro garotos que morreram de overdose dentro de uma semana.

Como tinha de ser, lembrou-se de Itachi. A lembrança o remetia diretamente à infância que ele, seu irmão e Sasori tiveram. O Akasuna era o câncer de sua família, e acabou por vencer um deles. Enquanto vivesse, Sasuke não deixaria que ele vencesse novamente.

No caminho para a porta, viu de relance uma movimentação na sala. O amarelinho estava ali, ainda. Andou até a sacolinha que colocou a comida roubada de Naruto, mas quando percebeu que não era aquilo que o gato queria, levou-o até a pia do banheiro. Queria água. Amaciou-o na cabeça, fazendo movimentos harmoniosos e suaves. Sorriu.

Colocou o celular no bolso, fechou a torneira e se dirigiu ao apartamento de Naruto. Não demorou mais que dois minutos para chegar, e foi recebido com cerca de um minuto de atraso. Quase ficou mais tempo na porta do que se encaminhando para ali. Bufou. Naruto estava todo sorridente, com a boca suja de chocolate e os cabelos ridiculamente arrumados num topete.

– O que tá acontecendo? – Sasuke se viu perguntando com o cenho franzido, espichando o pescoço na direção do interior do ap. Ninguém ali.

– O que tá acontecendo com você? – Naruto perguntou, olhando o amigo de cima a baixo. – Você veio de óculos e cabelo preso aqui? – O loiro começou a rir.

Sasuke se odiou.

Como pode esquecer de tirar aquela porcaria da cara e arrumar o cabelo direito?

– A Sá fez um bolo para nós. – O Uzumaki parou de rir aos poucos, mas algo em suas feições dizia ao Uchiha que aquilo não era tão bom assim. – Ela está toda feliz se ocupando com as coisas. Limpou todo o quartinho da bagunça. Será que é algum tipo de negação?

– Deixa eu entrar.

Os risos vinham da cozinha, e Sasuke ficou surpreso com a expressão da Haruno. Ela e Hinata comiam o bolo que parecia de cenoura com chocolate, e conversavam em meio a risadas e a sujeira nos lábios. A cozinha era no estilo americana, portanto, a covinha que enfeitava o sorriso bonito da moça sumiu pouco a pouco, e foi como se a felicidade a abandonasse. Mas um pequeno sorriso surgiu, e Sasuke ficou tranquilo ao notar aquilo.

– Oi. – Hinata disse. Como sempre, estava com as bochechas rosadas.

– Oi, Hinata. – Sasuke se aproximou. Percebeu que Sakura o olhava fixamente, e logo imaginou que fosse por causa da aparência. Estava certo, mas na verdade, a mocinha tinha adorado aquele visual nerd. – Sakura, vamos sair um pouco?

Algo se iluminou na expressão dela, talvez por causa dos olhos que aumentaram repentinamente. Ela assentiu.

O moreno percebeu que Sakura já estava trocada, mas que as roupas eram apenas um pouco maiores que ela. De Hinata, claro. Um jeans e uma regata branca lisa, com o decote fechado. Usava um chinelo simples e verde limão, e o moreno gostou do que viu. As unhas do pé, tão bonitas e arredondadas, estavam pintadas de branco.

Ela se aproximou e deu as mãos com o moreno, fazendo Hinata sorrir.

– Começou. – O loiro resmungou, se aproximando da bancada para cortar mais um pedaço de bolo. – Volta rápido ou não vai ter bolo pra você.

– Vamos sair pra onde? – Ela perguntou. Já estavam no carro, mas Sasuke não queria ir ao mercado mais perto de casa. Queria ir no hiper mercado.

– No mercado. – Respondeu assim que a luz os alcançou. Estavam saíndo do estacionamento fechado para a rua.

– Vai ficar com o Boruto? – Ela perguntou. O moreno ergueu a sobrancelha, virando o rosto rapidamente para vê-la.

– Boruto?

– O amarelinho.

– Boruto? – Sasuke repetiu, sorrindo ladino. – Vou.

Sakura soltou um gracioso miado, e Sasuke sorriu, desta vez um sorriso mais aberto.

– Sério?!

Ele ligou o rádio e assentiu. Um homem estava falando algo sobre a música que tocaria a seguir, e embora Sasuke fosse apreciador de músicas mais agitadas, aquela foi impossível não gostar. Tão... Sem explicação. Leve, alegre e emotiva. Algo que ele precisava e Sakura também.

Acelerou, vendo o pequeno sorriso dela enquanto o olhava. Percebeu que ela não parou de olhá-lo vez alguma.

Crosses, de Jose Gonzalez (N/A: Ouçam. É uma música muuuuito calminha. Vai deixar um clima legal pra fic. – https://www.youtube.com/watch?v=qwieXvxkbsM&index=1&list=RDqwieXvxkbsM), preenchia os espaços de tensão no carro com uma música envolvente. Sasuke duvidava que fosse ter um momento tão leve quanto aquele nos dias que viriam, por isso, aumentou o som e tentou não se importar com o sorriso bobo na cara da Haruno. Só precisava que ela continuasse assim, esquecida do mundo real e da merda que estava envolvida por causa dele.

Chegaram no mercado em dez minutos, e ele estacionou o carro perto da entrada do mercado. Nunca ia ali, exceto quando iam passar alguns dias na fazenda de Gaara. Naquele tipo de estabelecimento, tinha praticamente tudo que poderiam querer comprar.

– Vim aqui só uma vez. Faz tanto tempo...

– É um mercado diferenciado. – Sasuke comentou por cima, pegando um carrinho logo na entrada, antes das portas de vidro abrirem sozinhas. – Mas eu também não venho.

Sakura estava com o cabelo preso num rabo de cavalo simples, e sua estrutura baixa e magra se moviam com facilidade perto dele, quase elétricamente, ele achava. Enquanto empurrava o carrinho, ela ia segurando nas grades do objeto ao seu lado.

– Por que estamos aqui?

– Minha casa precisa de comida.

– Hum... E você não vai me convidar para comer pizzas?

Ele a olhou por um momento. Seus olhos negros estavam um pouco mais abertos que o normal, e ela pareceu se encolher um pouco, apenas talvez surpresa por ele encará-la tão fixamente. Sasuke pensou em argumentar, dizer que ela estava convidada desde o início. Parou o carrinho, quase revirando os olhos por aquela atitude que ia tomar.

– Você quer ir comer pizza em casa, Sakura?

– Quero.

Ela respondeu, e depois deu as costas. Ele a seguiu.

Ficaram cerca de uma hora circulando. O carrinho estava cheio, e como o moreno percebeu que algumas coisas ela parava para olhar, dizia:

– Escolhe.

Por fim, Sakura escolheu algumas coisas, e ele comprou desde comida e besteiras, até absorventes e todas as coisas que a Boruto poderia precisar.

Não queria nem saber quanto ia dar tudo aquilo.

– Eu pago você. Tenho dinheiro no banco. – Ela disse. Estava ao seu lado, quase como sua sombra. – Você pode me emprestar um computador? Eu tenho uma loja online, e...

– Tudo bem.

Depois de encher o carrinho do condomínio com as compras, os dois se dirigiram ao apartamento do Uchiha. Era final de tarde, e o dia estava claro, mas o sol estava quase se pondo.

Assim como na casa de Naruto, sua cozinha era estilo americana. Sakura estava entretida com uma coisa ou outra do apartamento, mas estava o ajudando a descarregar tudo.

– Você...? – Ele ia perguntar, disfarçando a tensão do conteúdo da pergunta enquanto estava colocando as compras em seus lugares.

– É sobre hoje de madrugada? – Ela deu as costas para ele, voltando para a porta de entrada para buscar as outras sacolas.

– Sim.

– Hoje não. Falamos outra hora. – Ela parecia chateada, e ele não quis mais ouvir o tom de voz de Sakura afetado. Odiava ter que deixá-la para baixo, mas tinham que falar sobre aquilo. Ele queria ouvir que ela não o culpava, porque ele se sentia muito culpado.

– Quer buscar o bolo no Naruto pra mim?

– Quero.

Gostava de como ela o respondia. Gostava dela.



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