História Pensão Solitarius - Capítulo 50


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Bts, Drama, Kookv, Namjin, Romance, Suspense, Taekook, Vkook, Yaoi, Yoonseok
Visualizações 9.923
Palavras 10.124
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Fluffy, Lemon, Mistério, Romance e Novela, Shonen-Ai, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá! Eu não queria dizer adeus, mas depois de uma eternidade, voltei com o último capítulo.
Leiam as notas finais depois, tem uma surpresinha lá <3
Boa leitura!
Vocês estão livres da Pensão Solitarius.

Capítulo 50 - Human


Fanfic / Fanfiction Pensão Solitarius - Capítulo 50 - Human

 

Acordo com as longas pernas de Taehyung pesando sobre o meu corpo. A cama estava uma bagunça e nossos corpos grudentos. Sinto nojo até de me mover, mas me obrigo a o fazer. Sentei na cama, ajeitando os fios bagunçados, e olhei para o corpo nu do ômega esparramado entre os lençóis, decorando aquela cama gigantesca.

“É o corpo mais lindo que já vi.” — penso, arrepiando-me apenas com as lembranças desta madrugada. Estendi a mão, alcançando o celular ali próximo. Um áudio havia sido enviado do número de Jimin.

“ — Bom dia, papais, eu ‘tô indo pra escola. Não esquece de me levar na sorveteria hoje. Amo vocês.”

Não contive o sorriso bobo esboçado em meu rosto. Aposto que Yerin pediu o celular de Jimin apenas para mandar isso. A pequena ainda não sabia escrever muito bem, mas não impedia que volte e meia recebêssemos áudios com sua doce voz.

— Amor, acorde. — Balanço o corpo de Taehyung na cama. Ele resmunga com o cenho franzido, coloca o travesseiro sobre o rosto e ignora meu chamado.

— Acorda, preguiçoso! — Falei mais alto, plantando um belo tapa em sua bunda. Quase me arrependo quando noto a marca vermelha de meus dedos surgirem em sua pele.

— Ai! — Geme, rolando seu corpo em minha direção. — Já acordei!

Deixo um beijo carinhoso em sua testa e percebo que isso se tornaria uma mania minha.

— Vamos tomar banho? — Pergunto. Ele aceita com um pequeno sorriso.

Mexo em meus dedos, nervoso.

— Após o café, vamos nos arrumar. Buscarei Yerin na escola mais cedo, levaremos ela tomar o bendito sorvete, e então visitaremos meus pais. — Suspirei na última frase. Noto Taehyung me olhar com os olhos assustados. Talvez não estivesse pronto para conhecer seus sogros, porém, quanto mais cedo melhor.

— É, está bem. — Sorriu, no entanto, percebo sua expressão nervosa. Levanto da cama e pego Taehyung no colo. Ele agarra meu pescoço, surpreso. Ouço suas gargalhadas divertidas iluminarem meu dia.

— Vamos tomar banho... — Balanço ele em meu colo, mantendo meus braços firmes entre a parte de trás de seus joelhos e costas.

Suas gargalhadas continuavam.

— Você não vai me tratar como um bebê o tempo todo, né? Eu sei ir sozinho! — Resmunga.

Corro até o banheiro com ele nos braços e largo seu corpo em pé dentro da banheira.

— Vou pedir para Eun Chan preparar o café, já venho. — Digo, indo vestir o roupão.

Após o banho juntos, me visto da maneira mais simples possível. É assim que sou. Minha família sempre foi simples e comum, e eu continuaria sendo desta forma, com dinheiro ou não. Tae vestia um jeans escuro e camiseta azul. Ele ficava lindo de qualquer maneira.

— Não queria conhecer seus pais com o cabelo desta cor. O que eles vão pensar de mim? — Taehyung murmura ajeitando os fios vermelho vivo com a escova.

— Eu adoro essa cor. Eles vão te amar, eu garanto. — Abraço-o por trás observando nosso reflexo no espelho. Ele sorri e em seguida faz uma careta engraçada.

— Bobo! — Deixo um beijo em seu pescoço e avanço em direção a garagem, a fim de escolher um carro.

O café foi rápido e divertido. Sentar na mesa e comer com o ômega, sem estar rodeado de pessoas, sem regras, ou simplesmente sem levar um soco do nada, era algo do qual precisava ser eternamente grato. Paz. Nós a tínhamos agora.

Trinta minutos depois e nos encontrávamos em frente à escola de Yerin. Ela vinha acompanhada pela orientadora com os olhinhos perdidos, agarrando as alças da mochila com firmeza, provavelmente sem entender porque estava sendo tirada da escola. 

— Papai Tae! — Extasiada, correu para abraçar Taehyung.

— Dormiu bem, princesa? — Perguntou, sendo respondido positivamente pela menininha.

— Você comeu bastante sorvete ontem, papai? — Yerin questionou inocentemente. Taehyung franziu o cenho confuso. Ele dirige seu olhar a mim e apenas sorrio ruborizando. Acho que ele entende o que quero dizer.

— Ah, sim. Estava muito bom. — Respondeu tímido pela ambiguidade de tudo. — Mas agora vamos buscar a Mi-cha e levar vocês onde o pai Jeongguk prometeu, certo?

— SIMM!

Ela comemora com os olhos brilhantes.

 

- P -

 

Algumas horas — e gritos — depois, finalmente estávamos dentro do carro novamente, indo em direção à casa dos meus pais. Yerin e Mi-cha juntas valem por trinta crianças. Taehyung limpava a boca lambuzada das duas espoletas enquanto eu dirigia. Deixei Mi-cha na casa de Hoseok e nós três seguimos caminho.

Travo e destravo a porta do carro seguidas vezes, indeciso. Aperto os volantes entre meus dedos, vendo os nós ficarem brancos. Finalmente veria o rosto de minha amada mãe.

 Eu sinto muita falta dela.

Arrasto os pés pelo curto jardim da casa, subindo os poucos degraus da varanda. A madeira branca da porta me traz lembranças boas das diversas vezes que olhava para ela ansioso em ver o papai chegar, deixando a mala no chão e abrindo os braços para o seu garotão. Meus olhos ficam úmidos, e a vontade de chorar é difícil de conter.

O “dim-dom” da campainha faz meu coração disparar. Sinto as mãos de Taehyung em meu ombro.

— Vai ficar tudo bem. — Sussurrou piscando os olhos.

Suspiro fundo algumas vezes em expectativa e ouço a fechadura destravando.

— Olá? — A mulher diz. Vejo seu pequeno corpo travar ao levantar os olhos e dar de cara comigo.

Ela treme dos pés à cabeça, provavelmente incrédula.

— Ma-mamãe? — Digo com a voz embargada.

Ela, com os olhos esbugalhados, move suas mãos vagarosamente até meu rosto.

— Suhooo! — Grita para o marido. — Os remédios estão me fazendo mal para a cabeça! — Sua voz treme. — Estou vendo o Jeongguk na nossa porta!

Em poucos segundos vejo o rosto já marcado pelo tempo de meu trabalhador e dedicado pai.

— Oh, meu Deus, Jeongguk! — Ele vem correndo em direção a porta. — Você não está ficando louca mulher, é nosso filho!

Dou um sorriso. O jeitão despojado de meu pai continua o mesmo.

— Pai! — Abraço o homem recebendo tapas nas costas e um selar na bochecha.

— Eu sabia que ele estava vivo, Hye! Nunca foi fácil sequer dar papinha para o Jeongguk, quem dirá morrer em uma tentativa milagrosa de “cura”. Eu sabia que não! O meu Jeongguk não. Nunca, nunca perdi as esperanças. — Meu pai gabava-se de sua crença em mim.

Minha mãe me abraçou ainda em choque e senti suas lágrimas escorrerem em meu pescoço. Aperto os braços ao redor do seu corpo e a ergo alguns centímetros do chão, abraçando-a mais forte e carinhosamente.

— Te amo, mãezinha. — Beijei seu rosto.

— Eu também meu filho. — Ela respondia ainda incrédula que falava com o filho em carne e osso. — Mas como? Nós te procuramos por toda a parte! Disseram que você estava morto! Como? — Pergunta ansiosa.

 Conto toda a história meio por cima, comendo palavras e mal parando para respirar. Meu pai com seu habitual jeito atrapalhado e tropeçando em suas pantufas convidou-me para entrar, e só então ambos notaram a presença de Taehyung e Yerin.

— Oh, desculpe a grosseria, não tinha os visto. Sou Jeon Suho. — Meu pai cumprimentou o ômega. 

— Seu amigo bebê? — Minha mãe pergunta me chamando de “bebê.” Oh céus! Ela e seus apelidos. Também continuava a mesma de sempre. Optei por entrar na casa primeiro, para então, responder sua pergunta.

Meu pai fecha a porta. Yerin olha para os lados com os ombros encolhidos estranhando o lugar. Não sabia quem estava mais assustado, ela ou Taehyung.

— Mamãe, papai... — Chamo ambos e puxo o ômega pela cintura. — Este é Kim Taehyung, meu ômega.

Houve alguns segundos de silêncio.

Meus pais, como imaginei, não souberam disfarçar a expressão espantada. Depois de Yugyeom eles temiam — e com razão — minha aproximação a ômegas. Não desejavam que eu sofresse mais do que já havia sofrido.

— Calma, não se preocupem. Está tudo bem. — Tento acalmá-los, imaginando a quantidade de pensamentos assustadores que os cercavam. — Eu não tenho mais nada, não notou a cor dos meus olhos, mamãe. Voltaram a ser como os seus! — Sorrio e a boca da mulher se abre espantada. Sento-me no sofá e conto-lhes toda a história, tendo Yerin e Taehyung em um silêncio absoluto. Eles apenas me observam, tímidos.

Após toda a conversa, na qual meus pais choraram ao ouvir, puxo Taehyung para perto e lhe dou um selinho, fazendo o ômega ruborizar pelo ato repentino.

— Como disse antes, esse é meu ômega, Kim Taehyung. — Afirmo, olhando orgulhosamente para Tae, esperando sua reação.

Ele alterna o olhar entre meus pais e eu, abre e fecha a boca algumas vezes, sem saber o que dizer.

— É, é... Mu- muito prazer. — Taehyung se curva e Yerin assusta-se.

— Pai! – Choraminga, estendendo os braços em minha direção. Pego a pequena no colo e noto os olhos de meus pais dobrarem de tamanho pelo espanto.

Gargalho debochando da cara dos dois.

— É, nós meio que temos uma filha adotiva juntos. — Revelo.

Minha mãe coloca a mão na boca, contendo um grito, enquanto o corpo de Taehyung é quase esmagado pelos braços de meu pai.

— Obrigado, garoto! Obrigado por curar meu filho e ajudá-lo, obrigado. Serei eternamente grato. Tudo que estiver ao nosso alcance faremos por você. — Meu pai selava as bochechas de Taehyung, que me olhava por cima dos ombros com a expressão surpresa.

— Não me agradeça, senhor Jeon. — Ele segura as mãos de meu pai com ternura. — Eu amo seu filho demais, e sou a pessoa mais feliz do mundo por saber que pude ajudá-lo em algo.

Meu pai secava as lágrimas por trás dos óculos de lentes grossas.

— Seja bem-vindo à Família Jeon, querido. — Minha mãe abraçou o ruivo quase esmagando suas costelas. A cara dele estava impagável. Taehyung não era acostumado com tanto afeto e meus pais eram as pessoas mais carinhosas e beijoqueiras daquela civilização. Ele sorria radiante, maravilhado com a situação.

— Obrigado! Muito obrigada mesmo! — Seus olhos marejaram ao ouvir minha mãe dizer “família Jeon”.

Sim, ele era minha família a partir de hoje.

— E essa garotinha linda aqui, qual o nome? — Meu velho pai perguntou, mexendo nos cabelos de Yerin. Ela esconde o rosto em meu ombro, tímida.

— Princesa, esse é seu avô Suho. Igual ao vovô Kim, mas esse é o papai do papai Jeongguk. — Digo, tentando fazê-la entender a situação confusa. 

Ela olha para meus pais cautelosamente.

— Nós temos um cachorrinho, você quer vê-lo?

 E pronto, essa pequena pergunta foi o bastante para que toda a timidez da menina desaparecesse. A fraqueza de Yerin era cachorrinhos e minha mãe acertou em cheio ao convidá-la para conhecer o filhote.

Algumas horas depois e Yerin já havia brincado com o cachorro e se sujado inteira ao ser convidada por meu pai para acompanhá-lo até o mercado, e voltado lambuzada de chocolate e pirulitos. Taehyung também se sentia confortável conversando com minha mãe sobre produtos de cabelo. Todo mundo invejava a maciez daquelas mechas avermelhadas.

— Avisei que minha mãe adoraria seu cabelo. — Cutuquei-o dando uma risadinha. — A mulher é a doida dos produtos. Tem um creme para cada centímetro do corpo. — Gargalhei ao contar para Taehyung a fraqueza de minha mãe. A senhora Jeon Hye não era fácil!

A tarde já se ia, dando lugar a um pôr do sol digno de ser apreciado. Taehyung e eu fomos até a lavanderia: ela era aberta e ficava na parte de trás da casa. O assoalho de madeira e as cordas dos varais desgastadas me tiraram um sorriso por possuir lembranças de infância naquele local.

— DONA YOORA, LINDONA, CHEIROSA, MARAVILHOSA!! — Fui até o muro da lavanderia gritando. Nossa lavanderia também se situava em frente a uma das janelas de dona Yoora.  Eu e Yugyeom costumávamos perturbar ela só para vê-la brava. Era engraçado vê-la assim por causa da sua pequena estatura.

Taehyung gargalhava atrás de mim, esperando a reação da mulher que jurei ser engraçada, mas ironicamente, quem acabou surpreendido foi o ruivo, ao ver seu pai colocar a cabeça para fora da janela junto da velha senhora.

— Pai?! — O ômega exclamou com a boca aberta. Merda! Esqueci de contar a ele que seu pai e dona Yoora estavam de caso.

— Oh... o-oi me-meu filho. Não sabia que você estava aqui. — Seu pai gagueja ajeitando a lapela da blusa.

— Digo o mesmo, senhor Kim. — Taehyung gargalha.

— DONA YOORA PEGADORA. — Grito, provocando-a.

— Mas essa criança insolente! — Esbraveja, atirando seu chinelo pela janela.

— Sabe que eu te amo, né? — Gargalho, desviando do chinelo.

— Já está te incomodando, Yoora? — Minha mãe aparece com Yerin no colo.

— Já estou acostumada, minha amiga. — Ela riu e minha mãe correspondeu com os olhos brilhantes. Fico feliz que minha mãe e ela estejam juntas novamente. Após a morte de Yugyeom, dona Yoora apenas se trancou, ignorando tudo e todos com sua tristeza. Até entrar na pensão, ela ainda não havia falado com minha mãe novamente.

— Vovô Kim! — Yerin chamou e o homem acenou em resposta.

Conversamos por alguns minutos e minha mãe convidou ambos para jantar lá em casa. Lembrei-a de chamar também Gil Da Ran, mas a doutora havia saído, deixando a casa a sós para o senhor Kim e a mãe.

Enquanto minha mãe e dona Yoora preparavam o jantar, o senhor Kim e meu pai tinham uma conversa qualquer sobre charutos importados. Yerin estava apertando o pobre do cachorro, dizendo incansavelmente o quanto ele era fofo. O ômega havia se oferecido para picar alguns temperos, porém, minha mãe disse que, só por hoje, o jantar ficaria por conta das mulheres.

— Ainda bem que minha mãe não deixou. Imagine você cortando os dedos. — Falei baixo quando Taehyung sentou ao meu lado.

— Não exagera, Jeongguk. — Responde me acertando um tapa discreto no braço. O ômega olhou ao redor, até pousar seu olhar sobre as escadas que davam no segundo andar. — Amor, posso ver seu quarto?

Congelei por alguns minutos. Nem eu havia entrado em meu quarto ainda. O reencontro foi tão emocionante que nem sequer lembrei de visitar este cômodo tão importante para mim. Senti saudades dele.

— Pode sim. — Respondi puxando-o pelas mãos.

Algumas lágrimas caíram ao entrar no local novamente. Tudo permanecia como antes. Notei meus jogos antigos e livros, intactos.

— Fofo! Fofo! — Ele acariciava com o dedo indicador uma foto minha quando criança. Taehyung deu mais alguns passos com os olhos curiosos em cada detalhe, esboçando um sorriso terno nos lábios. Seus olhos se fixaram em uma outra fotografia colada no meu mural.

“ Primeiro ano juntos dos próximos 100 que virão. Te amo para sempre.”

Eu a havia colado ali e escrito essa breve frase na época que Yug e eu completamos um ano de namoro.

— Ele realmente era muito bonito. — Taehyung passou os dedos lentamente na foto.

— Sim, ele era. — Dei um sorriso largo para a fotografia, não dando tanta importância. Era como uma lembrança boa. Apenas. Agarrei o ômega pela cintura, o fazendo cócegas, e ele se debateu, gargalhando. Joguei-o em minha velha cama de solteiro, vendo seu corpo se impactar contra o edredom quadriculado com azul e branco. Tae ainda respirava com dificuldade pelas risadas altas.

— Eu nem acredito que estou no seu quarto. Me sinto um adolescente bobo, entrando escondido no quarto do seu namorado rebelde que seus pais proibiram de vê-lo. — Ele disse olhando em volta. Parecia maravilhado com aquela simples situação.

— E o que você quer fazer com esse seu namorado rebelde? – Ergui uma das sobrancelhas. Era completamente perceptível a conotação sexual da minha pergunta.

Taehyung ruborizou. Não sei se por vergonha ou por desejo.

— Não vai responder? — Questionei mais uma vez acariciando sua cintura. Meus dedos gelados adentraram o tecido de sua blusa, ameaçando tirá-la. Arranhei de leve sua barriga, provocando.

Taehyung suspirou fundo, contorcendo as pernas sutilmente.

— Jungkook, aqui não! — Ele sussurrou como se meus pais pudessem nos ouvir no andar de baixo.

Taehyung quase deixou os olhos saltarem das órbitas quando um barulho repentino surgiu na porta. Não consegui me conter, as gargalhadas já soavam altas. A cara de medo dele estava impagável!

— Não ri seu idiota! — Senti um tapa fazer meu ombro arder. Ele tentava soar bravo entre uma pequena risada e outra. Nem o próprio ômega conseguia negar o quanto aquilo foi engraçado.

— Calma, meu bem, é só o gato. Minha mãe adora animais.

— Ai, que susto! Ia ser muita falta de respeito com seus pais. — O ruivo colocou a mão no peito, aliviado. Sua expressão ainda assustada e os lábios franzidos ao tentar respirar fundo me arrancaram um enorme sorriso, sem nem eu mesmo perceber. Amar Taehyung já havia se tornado algo tão espontâneo.

— Ai, ai! Te amo tanto. — Suspirei ao me inclinar para beijar seus lábios. Sinto cócegas ao sentir que aquele maravilhoso beijo se mesclava a um sorriso largo dele.

— Eu também te amo. — Ele respondeu entrelaçando nossos dedos. — Kookie, vamos descer. Yerin deve ter deixando seus pais loucos já.

 

                                                                     - P -

 

Dois anos depois

 

O suor mais uma vez escorria sobre minha testa. O par de sapatos lustrosos que calçam meus pés batiam inquietos contra o chão. A mão trêmula, a garganta seca. Seriam muitas pessoas me olhando entrar. Não sei se consigo!

— Acalme-se, Jeongguk! — Olho no espelho e ajeito a gravata. Miro meu corpo por alguns segundos, admitindo, finalmente, que fico muito bem vestindo terno.

— Está na hora! — Uma das organizadoras avisa. Ouço a música começar a tocar e junto dela meu coração bate rápido.

Decido ir em frente.

“Sim, Jeongguk, você pode fazer isso! ” — Penso.

Finalmente estou diante de dezenas de pessoas. O imenso jardim daquele lugar havia virado palco para esse tão esperado evento. Os flashes das câmeras vez ou outra me cegavam.

— Senhoras e senhores, primeiramente gostaria de agradecer a presença de cada um de vocês.  — Seguro firme aquele maldito microfone. Minha voz estava trêmula. — Levamos dois longos anos para realizar tudo isso, e demoraria muito mais se não fosse pelo trabalho incessante das pessoas aqui presentes. Essa conquista também é sua! — Gesticulo lentamente, estendendo a mão para os convidados. Recebo palmas e assobios em troca. Todos comemoram radiantes.

— Obrigado, obrigado. — Faço sinal para que o barulho cesse. — Como muitos de vocês sabem, nós, os sobreviventes da Pensão Solitarius, nos deparamos com muitas coisas terríveis lá dentro... Outras terrivelmente lindas e hiperativas. — Aponto para Yerin que estava pulando sem permissão próximo ao palco tentando pegar uma borboleta. O público todo gargalha. — Infelizmente, toda a proposta da Pensão Solitarius era uma farsa. Não havia uma cura sadia, amor, nem cuidados específicos para pessoas como nós. Fomos tratados como animais, e vocês, aqui de fora, achavam que estavam fazendo bem ao seu familiar ou amigo ao mandá-lo para lá. Foram tempos difíceis. Muitas pessoas morreram, para que nós, os sobreviventes, pudéssemos lhes contar essa história. — Engulo em seco. — Nós também matamos. Temos as mãos sujas de sangue, para que pudéssemos salvar o nosso, mas isso não significa que não nos sentimos culpados. Sei que essas pessoas, apesar de terem seus corações corrompidos pela maldade, ainda sim, possuem famílias. Que mãe quer ver seu filho sendo morto? Mas também que mãe quer ver seu filho matar?

Faço uma breve pausa antes de continuar o discurso.

— Tudo na vida é uma via de mão dupla. Não podemos afirmar que todos somos completamente maus, assim como ninguém é completamente bom. Só que, o que todos os dias podemos tentar fazer, é... Já que não podemos ser 100% bons, tentaremos ao menos ser 99,99%. Mesmo que seja difícil, morreremos tentando ser pessoas melhores do que fomos ontem. A bondade poderia mudar o mundo, mas ela, muita das vezes, não é recíproca. Mesmo assim, o melhor jeito de conquistar a bondade é oferecendo ela primeiro. Então, é com muito prazer que declaro oficialmente inaugurado a Pensão Soteria. — Puxo o pano vermelho que cobria a placa na nova Pensão.

“ Pensão Soteria

Em memória de Kim Seokjin, Kim Namjoon e Yoon Nayo. “

 

Soteria significava cura, redenção, remédio, resgate. Não para o corpo, para a alma.

Os olhos de meus fiéis amigos se encherem de lágrimas ao lerem a placa. Ainda era difícil para todos nós.

— Antes de entramos para conhecer o novo local, gostaria que fizéssemos um minuto de silêncio por todas as pessoas que perderam suas vidas aqui. Por favor.

Um minuto de silêncio foi feito. Meu peito queimava pelas lembranças de meus amigos que partiram. O cabelo curto e meigo de Nayo, o sorriso e simpatia de Seokjin ao me receber anos atrás na pensão...

“Levo a mão até a maçaneta, mas fui surpreendido pela figura que abriu a porta antes, me encarando sorridente.

— Ooooi! — Exclamava um rapaz desconhecido, parado na porta.

Olho confuso.

Será que estou no quarto certo?

— Sou Kim Seokjin, 000103, muito prazer!

— Prazer. — Respondi seco.

— Seu nome pequeno?

— Desculpe... — tento ser educado com a criatura em minha frente — Acho que estou no quarto errado, porque aqui está dizen... 

— Dizendo que você dividirá quarto com outro Alfa? — O de cabelos cor de rosa interrompeu, soltando um risada.

— Exato. — Afirmo.

— Sou eu mesmo. Kim Seokjin, 000103. ”

 

Lágrimas pingam no chão. Outra lembrança chega, por saber, que meu primeiro abraço depois de anos, foi em Namjoon....

“Nam ficou parado no meio do quarto enquanto todos nós olhávamos para ele.  Namjoon parecia mais magro, ainda estava meio pálido e alguns dos cortes nos braços e pernas, assustavam um pouco, confesso.

Hobi estava com os olhos cheios de água, Jin já ia começar a chorar de novo.

— Aaaaah! Que sentimentalismo é esse? Parem de me olhar assim seus tranqueiras. Venham logo aqui, venham... — Abriu os braços indicando que queria um abraço.

Todos foram em direção ao Namjoon, exceto eu. Eles se deram um lindo abraço em grupo. Abaixei a cabeça esperando o momento deles acabar.

— Vem... — O ruivo estendeu a mão para mim. Notei que a ferida que fiz no seu braço já estava bem melhor, quase cicatrizada.

Demorei a aceitar, então ele pegou minha mão sem permissão mesmo. Me assustei um pouco, travando o passo.

— Jeongguk...— Taehyung apertou minha mão com mais força — Nenhum de nós vai te machucar.

Todos me olharam ainda abraçados um ao outro. Respirei fundo apertando a mão magra e delicada do ruivo com mais força:

Eles fizeram coisas boas por você, mesmo te vendo daquele jeito. Você consegue Jeongguk! Você consegue!

Fechei os olhos e entrei naquele abraço. Todas aquelas pessoas me abraçando com sinceridade, com carinho, era uma experiência que eu não esperava mais sentir. Aliás, nunca tive tanta gente gostando de mim assim.”

Não havia como conter as lágrimas. O amor dos dois inspirava a mim e a Taehyung. Juramos um ao outro que nos amaríamos até o fim, assim como Seokjin e Namjoon se amaram.

 

Ao término do um minuto, os convidados entraram no hall da nova pensão, onde havia comes e bebes e alguns guias para apresentar nossos novos projetos sociais e nosso novo método de tratamento para as pessoas cuja a injeção não funcionasse. Não banimos a injeção de Heo Jon, ela não era de todo mal. Salvou muitas vidas adoecidas, mas, para muitos, como eu e meus amigos, não tinha muito eficácia. Nosso tratamento médico era gratuito. Crianças e adolescentes que foram abandonados pelos pais por serem “diferentes”, seriam resgatados e morariam aqui. Idosos, alfas, ômegas, crianças. Todos que precisassem de nossa ajuda a receberiam. O acompanhamento psicológico seria essencial, e o maior requisito de todos: O amor.

Foi graças ao amor de meus amigos, e o amor do homem da minha vida, que encontrei saída para mim. Esperava que os próximos pacientes encontrassem o mesmo que eu ali dentro: Amizade.

Amizades salvam corações solitários.

— Parabéns, senhor Jeon, o lugar está incrível! — Um dos colaboradores me cumprimentava.

— Obrigado! Isso tudo foi graças ao apoio de todos vocês.

— Incrível, senhor Jeon! — Uma das esposas dos investidores gritou. A mulher era um tanto quanto peculiar.

— Obrigado, senhora Iseul. – Respondo, tentando fugir dos apertos e dos beijos molhados dela. Que senhora pegajosa! Limpei a bochecha molhada de saliva.

— Eu acho que poderia ter mais verde. — Ouvi uma voz conhecida.

— Suga! Hobi! — Exclamo entusiasmado — Onde vocês estavam? — Pergunto.  Me assustei anteriormente quando não enxerguei meus amigos no meio do povo.

— Estávamos averiguando como estava o andamento da apresentação dos nossos setores. — Yoongi disse, passando a mão em seu terno largo.

— Ai, isso é tão chique! Sermos responsáveis por algo. — Hoseok sorria de orelha a orelha. A simplicidade de Hoseok sempre foi cativante.

Eu havia escolhido cada um deles para ser chefe de um setor. Basicamente, ficariam responsáveis dos mesmos setores nos quais “estudavam” na antiga pensão. Graças a Yoongi, a segurança e os equipamentos eram impecáveis, e com toda a atenção e cuidado de Hoseok, a equipe de organização e decoração do lugar deixava tudo aconchegante e limpo, como o ômega instruía.

— Essa pensão é de vocês também. É nossa! — Sorri. Graças aos deuses todos estávamos bem de vida. Não faltava nada nem a mim, nem aos meus queridos amigos.

— Sim, é nossa. — Hoseok sorria orgulhoso.

— Ah, eu ainda acho que deveria ter mais verde. — Yoongi provocava. — Saudades da cor do meu cabelo. — O branquelo passava as mãos nas suas madeixas agora escuras.

— Eu já disse que você fica perdidamente lindo de qualquer forma, Min Yoongi. — Hoseok elogiou o marido, quem, em resposta, ruborizou. Ver Yoongi ficando vermelho de vergonha era algo raro. Hobi deu um beijo na bochecha de Yoongi, gargalhando da maneira fofa do alfa reagir a um elogio inesperado.

Meu casal de amigos, que tanto sofreram para ficar juntos, agora estavam casados. Yoongi e Hoseok se casaram no final do ano passado. Foi uma cerimônia simples, como ambos sempre sonharam. Suga continuava tendo algumas crises de hipoglicemia, mas, ele é a prova viva de que se insistirmos, mesmo com nossas debilidades físicas, podemos amar e ser amado.

— Obrigado, Hoseok. — Yoongi respondeu com um pequeno sorriso.

— Já deram entrada na papelada? — Pergunto curioso.

— Sim. Jimin vai começar a fazer isso semana que vem. É um processo difícil, Jeongguk, você mesmo sabe disso. Mas, talvez em um ano, consigamos adotar um pequeno rapazinho. — Suga respondeu esperançoso.

E de fato eu sabia como era difícil. Levaram quase dois anos para que conseguíssemos a guarda de Yerin. Taehyung e eu vivíamos dia e noite com medo de perdê-la. A burocracia cada dia é maior.

— Vai dar tudo certo! — Digo, tentando animar o casal.

— Vai dar sim! Já deu! — Responde Hobi, sempre cheio de fé e otimismo.

— Amor... — Ouço a voz de Taehyung vir de algum lugar. Meus olhos procuram ele entre a multidão. Enxergo o ômega sorrindo para mim e vou contente em sua direção.

— Senhor Jeon! — Um dos convidados me puxa para um abraço. Era um dos investidores e colaboradores da obra.

Doutor Kim! Um dos doutores quer te conhecer. Você é uma lenda entre nós. — Outro dos convidados puxa Taehyung, nos afastando. 

Olho por cima do ombro tentando enxergá-lo, mas ele já estava longe em um roda de pessoas cumprimentando todas. Simpático como sempre fora. Taehyung foi quem fez todas as negociações para construção da nova pensão.

Suga estava com um grupo de pessoas, apresentando a tecnologia dos novos dispositivos que ela havia criado. Hoseok observava o marido com um sorriso ardente escondido atrás da taça de champanhe que bebericava.

— Olá! Olá! — Por educação, cumprimentei o resto dos investidores.

— Menino Jeongguk! — Dona Yoora veio de braços abertos em minha direção.

Abracei a doce senhora com força, quase ouvindo o estalar de suas costas.

— Eu estava morrendo de saudades! – Afirmo, logo pegando em sua mão e obrigando-a dar uma voltinha em minha frente.

Fiu, fiu! Olha só que mulher mais linda! — Digo, vendo dona Yoora corar. — Cuide bem dessa beleza toda, senhor Kim, senão vai perder rapidinho. — Digo para o pai de Taehyung, que balançava a cabeça sorrindo, concordando com o fato.

— Como foi a viagem? — Pergunto, entusiasmado para ouvir belas histórias.

— Foi... como posso resumir em uma palavra... Indescritível. Yoora sem dúvida é a mulher da minha vida. — O velho senhor Kim diz, me fazendo sorrir como um bobo.

— Vocês dois são as pessoas que mais desejo nesse mundo que sejam felizes. Devo a minha alegria aos dois. — Me aproximei do casal. — Você dona Yoora, por dar à luz ao meu primeiro amor. — Levei seu par de mãos até minha boca, beijando sua pele já enrugada pelo tempo. — Obrigado. — Agradeci olhando no fundo dos olhos dela, expressando minha completa gratidão.

Dou um passo para o lado, parando em frente ao velho homem.

— E você, senhor Kim, por permitir que o amor da minha vida nascesse. — Repeti o ato, beijando as mãos calejadas do homem. — Obrigado! — Apertei de leve suas mãos, encarando o fundo dos seus olhos.

O senhor Kim tinha os olhos úmidos, tentando segurar as lágrimas. De fato, foi por ele que o amor da minha vida nasceu. Sua mulher por tantas vezes tentou abortar Taehyung, mas, mesmo com uma situação financeira difícil, o senhor Kim persistiu. Ele trabalhou dia e noite para dar o melhor para Taehyung. O velho Kim não é apenas um pai, é um herói.

— Oh, meu menino. —  Ambos me abraçaram.

— Passem lá em casa amanhã. — Convidei. O casal morava no bairro ao lado. O senhor Kim havia comprado uma bela casa para os dois. Taehyung e eu os presenteamos com toda a mobília. Lembro de ter dado a mulher um jogo com dez porta-retratos para que ela pendurasse em sua nova parede. Seriam suas novas lembranças.

— Vamos passar sim, querido.

— Vou esperar. Hum, e Gil Da Ran? — Olhei em volta tentando achá-la. Corri os olhos para além das portas e enxerguei um vulto de cabelos longos andando para lá e para cá, com uma planilha nas mãos.

— Filha! — Dona Yoora gritou. Era o único jeito de parar Gil Da Ran.

— Mãezinha, agora eu não posso. Eu preciso resolver as assinaturas de um dos colaboradores que faltou. Também preciso ver o que aconteceu com um dos equipamentos do hospital que parou de funcionar, e poxa! Eu esqueci! Eu precisava apresentar o doutor Shik para você Jeon, ele é o nosso novo contratado. — Gil Da Ran falava rapidamente. — Meu celular! Está tocando! Qual dos três será que é? — A mulher revirava a bolsa, enquanto olhava os outros dois aparelhos preso em sua cintura.

Fui obrigado a rir.

— GIL! — Segurei em seus ombros, balançando com força. — Me. Dá. O. Celular. — Quase soletrei a frase.

— Mas, m-a... mas, mas, Jeongguk... Eu preciso...

— Você precisa parar, sua louca. — Digo carinhosamente a ela. — Você é viciada em trabalho mulher!

Dona Yoora gargalhou.

— Ah, mas desde de pequena Gil Da Ran era assim. Sua brincadeira favorita era comandar todas as suas bonecas, para salvar os pacientes do seu hospital imaginário. Gil Da Ran escolheu a profissão por minha causa, mas sempre tive certeza que, ao invés de cirurgiã, ela se daria muito bem como uma diretora de hospital. E estava certa! — A velha senhora sorria.

— Eu entendo. Mas, Gil, minha amiga, você precisa sair mais, se divertir, conhecer algu...

— Senhorita Gil Da Ran! Senhorita Gil Da Ran! — Alguém gritava acenando — Eu trouxe a papelada que você me pediu. De-desculpa a demora. — Ofegava.

Myung-Dae, o assistente de Gil havia chegado. Onde ela ia, seu assistente estava. Não sabíamos mais ver Gil da Ran sem ele, nem ele sem a doutora.

— Obrigada Myung. — Ela agradecia pegando os papéis sem sequer notar o brilho nos olhos do jovem alfa ao contemplar Gil Da Ran naquele vestido azul royal.

— Eu também te trouxe um café porque sei que você ama o café da Yuki-Coffee. E, pensei em comprar... É, não sei, eu... — Balbuciava coçando a nuca.

O rapaz parecia nervoso. Myung-Dae era dez anos mais novo que Gil Da Ran. Ela com seus trinta e três anos, e ele desfrutando dos seus recém vinte e três.

 — Eu te comprei isso também, porque...  PORQUE VOCÊ ESTÁ MUITO LINDA DOUTURA. — Ele gritou sem perceber, falando rápido demais tamanho seu nervosismo. Estendeu um buquê de hortênsias azuis para ela.

— Para mim? — A doutora perguntava com a voz baixa. Parecia envergonhada.

— Sim. As hortênsias florescem juntas, e são mais bonitas quanto estão juntas. Como eu e você doutora. Somos uma dupla inseparáveis!

Gil Da Ran arregalou os olhos tamanha a sua vergonha. Ela olhou rapidamente para nós, que segurávamos a risada.

— Rm,rm... — Pigarreou — Obrigada.  — Pegou o buquê sem esboçar muita emoção. A doutora tinha esse seu jeito durão de ser, sempre ocupada e tensa, mas, no fundo, seu coração era cheio de amor e carência. Só precisava de alguém com paciência para cavar até o fundinho do seu coração e oferecer a ela todo o amor merecido. — Vamos, Myung-Dae, temos muito trabalho a fazer e muitas vidas para salvar.

— Sim, sim, doutora. — O jovem ia correndo atrás dela, tentando equilibrar os cafés e tropeçando em seus próprios pés.

— Até mais, Jeongguk. Mamãe, senhor Kim, vou ir ver vocês amanhã. Amo vocês! — Ela gritou, já se retirando do local.

Gil Da Ran era uma pessoa incrível. Em breve aquele jovem rapaz conquistaria seu coração. Talvez ele seja a leveza e diversão que falta na vida dela, e ela o equilíbrio e maturidade que parece faltar na dele.

— Meu menino, nós vamos dar mais um olhadinha pelo local. Depois nos encontramos. — Dona Yoora disse afastando-se de mim.

— Belo trabalho, rapaz. Estou orgulhoso!  — O senhor Kim deu-me um tapa nas costas afastando-se também.

Olhei orgulhoso todas aquelas pessoas sorrindo.

É, nós fizemos um belo trabalho...

— Onde é que o Taeh... — Sussurro para mim mesmo, contudo, não consigo terminar a frase antes de ser interrompido por uma criaturinha de cabelos vermelhos.

— Papaaaaai! — Yerin pula em meu colo, quase me fazendo engolir parte da sua cabeleira agora vermelha. Por insistência dela e permissão minha e de Taehyung, seus cabelinhos foram tingidos com uma tinta própria para crianças. Ela insistia em ficar igual ao pai ômega.

— Filha, você não pode mais pular assim em cima do seu pai. Você está crescendo e eu não dou mais conta de te erguer com tanta facilidade, mocinha. — Resmunguei com dor nas costas.

— Mas é que a a Mi-cha ficou falando que meu cabelo estava feio, mas, ela que é uma feia. A Mi-cha é chata, e ela pegou duas bonecas minha pai. DUAS! — Yerin falava sem parar, bufando. — A Mi-cha é uma feiosa! — A garotinha esticou os lábios fazendo beicinho e escondeu a cabeça em meus ombros.

— Feiosa é você! — Mi-cha respondeu me assustando. Com as milhares de reclamações de Yerin nem percebi quando a outra pequena se aproximou.

— Chega vocês duas! E você Mi-cha, nós vamos nos acertar em casa! — Jimin vinha atrás, repreendendo Mi-cha pela falta de educação.

— Desculpa Jimin, e me desculpe Seulgi. Eu não sei mais o que faço para Yerin parar com essa implicância. — Suspirei.

— Tudo bem Jeon, são apenas crianças. — Seulgi caminhava com o apoio de Jimin. Sua barriguinha estava grande e seus pés inchados pelo novo bebê que estava a caminho. 

— Você fica brigando comigo, mas nem viu que a KoNa-hee disse que não queria mais brincar comigo e me empurrou na terra. Ela falou que eu sou feiosa também. — Mi-cha começou a chorar, magoada pelas palavras de KoNa-hee, a filha de um dos doutores convidados.

Yerin pulou do meu colo e saiu correndo. Fiquei assustado com o ato, mas antes que pudesse me mexer, a espoleta apareceu com um punhado de cabelos no punho.

— Pronto, agora quem está feiosa é a KoNa-hee. Eu arranquei só um pouco, mas se ela te incomodar mais uma vez Mi-cha, eu arranco todos os cabelos dela.

— O QUÊ? — Olhei para os lados assustado. Yerin é um perigo para a sociedade meu Deus. — Filha, não pode fazer isso! Cadê a KoNa-hee? — Pergunto preocupado com a menina.

— Foi correndo contar ‘pro pai dela. ‘Tô nem aí, ninguém manda ela incomodar a Mi-cha. Só eu posso chamar a Mi-cha de feiosa! Mas a Mi-cha não é feiosa, a Mi-cha é a pessoa mais bonita do mundo. — Yerin dizia enquanto puxava Mi-cha para perto, como se pudesse protegê-la de todo mal.

— Hum, mas vocês não estavam brigando agorinha mesmo? — Jimin provocou as duas.

Ambas se olharam com o cenho franzido.

— Mas, eu ainda te acho uma chata. Eu falei para você brincar só comigo. Não precisa brincar com a KoNa-hee se você tem eu! Você só pode brincar comigo. Só eu já basta! — Yerin disse olhando para Mi-cha com a expressão furiosa.

— Chata é você! Eu não gosto de você! — Mi-cha respondeu enfurecida indo em direção a porta do jardim.

— Eu não gosto de você dez vezes mais. — Yerin rebateu gritando indo atrás de Mi-cha.

— Eu não gosto de você cem vezes mais.

— Eu não gosto de você um milhão de vezes mais. — Ouvia-se a discussão infinita das duas ficarem distante conforme corriam pelo jardim.

— Eu não gosto de você um zilhão, mil, dez bilhões e trilhões de vezes mais....

— Eu não gosto de você infinito de milhões de ve...

A gargalhada de Jimin chamou minha atenção.

— O que foi? — Perguntei quando notei seu olhar acusador me encarando debochado.

— Quem é que essas duas lembram? — Jimin não continha as risadas. Reviro os olhos. Sabia que Jimin se referia a Taehyung e eu quando nos conhecemos na Pensão Solitarius.

— Eu não suportava ele Jimin! Sério, ele realmente era um chato, metido e se achava com aquele cabelo, e...

— E você morria de ciúmes e o ama até hoje loucamente. — Jimin interrompeu.

Suspirei.

— Amo mesmo. E você está errado, eu não morria de ciúmes dele.... Eu ainda morro! — Gargalhei.

— É, fiquei sabendo do seu showzinho quando o pai da KoNa-hee convidou Taehyung para ir à casa dele jantar. Coitado do homem Jeongguk, ele não sabia que Taehyung era comprometido com você e nem que era um dos pais de Yerin. Mas, era claro as segundas intenções dele com o TaeTae...

— Sim. Óbvio que ele tinha segundas intenções! Quando vi a cena dele claramente dando em cima do Tae, fui obrigado a dar as caras. Coloquei a mão na cintura do meu ômega e deixei claro quem Jeon é.

 

“Muito prazer doutor, sou Jeon Jeongguk, o dono deste hospital e alfa de Kim Taehyung. E muito obrigado pelo seu convite, mas eu mesmo cozinho para o meu ômega e ele tem uma casa onde pode jantar. E se ele não quiser jantar em casa, sabe que seu alfa, que sou eu, o levaria para qualquer lugar que ele quisesse com o maior prazer. ” — Foi o que me lembro de ter dito naquela noite encarando o homem.

 

— Vocês competem quem tem mais ciúmes um do outro. Taehyung odeia a sócia minoritária de um dos hospitais. — Seulgi disse rindo.

— Qual? — Perguntei para ela, que discretamente entrou na conversa.

— Ora, qual Jeongguk... Aquela ômega que vive mexendo no cabelo e achando desculpas para se esfregar em você. Taehyung tem vontade de dar na cara daquela mulher, mas ele é um homem educado, cavalheiro e elegante demais, jamais agrediria uma mulher, mesmo que ela dê claramente em cima do seu alfa.

— Ah, mas olhar para aquela mulher e olhar para um pedra dá no mesmo para mim, Seulgi. E mesmo que fosse um homem, eu tenho Taehyung. Ninguém que tem Taehyung como parceiro precisa olhar para outro ômega, convenhamos!

— É, meu amigo é bonitão demais. — Jimin dizia com o peito estufado de orgulho.

— Só não é mais bonito que eu! — Ouvi a voz de Kwon Ji-Yong entrando na conversa inesperadamente. — Olá, senhor Jeongguk, meu amado chefe! — O alfa se curvava debochadamente. Nós havíamos nos tornado bons amigos desde aquele tempo.

— Larga mão de ser besta, G-Dragon! — Puxei o alfa para um abraço mesmo sabendo que não gostava muito de afeto.

— Sempre estiloso. — Jimin elogiava o alfa que mais uma vez não abria mão de usar um, dos vários óculos escuros de sua coleção, mesmo que a ocasião não pedisse. — Aliás, ambos estão. — Disse Jimin, dessa vez olhando para Choi Seung-hyun, que descobrimos ser carinhosamente chamado de T.O.P pelo seu parceiro.

— Obrigada Jimin! Prazer te ver novamente Jeon. – Choi me abraçava calorosamente nos felicitando pelo feito.

— O prazer é meu! Sei que as pesquisas tomam muito tempo da vida de vocês, mas por favor, quando tiverem tempo venham até a minha casa. Taehyung ficaria muito feliz! — Convidei notando ambos sorrirem abertamente.

— Obrigado Jeon. Na verdade, gostaríamos de demonstrar nossa gratidão pela equipe de médicos e pesquisadores que você mandou ao laboratório para nos ajudar. Sendo assim, nós quem o convidamos para um jantar, por nossa conta.

Agora foi minha vez de sorrir largamente ao casal.

— Imagina. Estou muito feliz em poder ajudar! E, claro que aceito o convite, vocês são da família também. Todos da pensão somos uma família!

— Ah, esqueci de avisar... Heechul, Jackson e todo o resto do pessoal também estão indo viajar para expandir o conhecimento e quem sabe resolvermos este problema o mais breve possível. — G-Dragon externava pela primeira vez a ansiedade em nossas pesquisas funcionarem. Desde o final do ano passado, decidimos reiniciar os estudos que foram feitos com os pais de Seokjin. Afinal, G-dragon e Choi são alfas, e até hoje seu amor apenas é dito em palavras e ações um pelo outro. Jamais foi concretizado em uma cama, não que fosse necessário isso para que o amor dos dois fosse grande, na verdade, o amor de ambos é admirável. Contudo, eles querem poder sentir um ao outro, sem medo de afetar a saúde do parceiro. Algumas regras ainda eram válidas, como, ser inquestionável e extremamente proibido um alfa ter relações com outro alfa, pois afetaria fortemente a saúde do alfa de nível mais baixo. Nós estávamos tentando fazer com que, nem a biologia, nem regras sociais nos impedissem de amar. Os pais de Kim Seokjin lutaram até o fim, então, tenho certeza que Choi e Kwon também lutarão.

— Que bom que todos estão bem! Vai dar tudo certo meus amigos! — Tentei agracia-los com palavras de esperança.

— E mesmo que não dê certo, mesmo que não consigamos achar uma solução, eu não preciso de mais nada além dele. — Kwon disse nos surpreendendo. Ele costumava ser apático para muitas coisas, exceto com Choi. O alfa arquiteto era de fato seu sublime amor e o Kwon nunca fez questão de esconder isso, a ponto de fingir loucura e se ver preso dentro daquele inferno, apenas para resgatar aquele que sempre amara. Não posso negar, que entendo seu desespero, faria o mesmo por Taehyung.

Falando em Taehyung...

— Vocês me dão licença, por favor. Ah, mande lembranças para Heechul e todo o pessoal. Apareçam assim que for possível! — Me despedi com um aceno.

A festa estava mais calma, os convidados se retiravam um a um. Perdi a noção do tempo conversando, já era tarde, e o céu anunciava a noite com um luar de tirar o fôlego. Corri os olhos por todo o salão a procura do meu ômega, ele havia sumido da festa.

— Senhor Jeon, muito obr...

— Desculpe, estou ocupado. — Interrompi um dos convidados. Não pude ficar com Taehyung nem por um minuto, estou cansado e neste instante tudo que quero é deitar no peito dele e sentir suas mãos quentes acariciarem meu cabelo.

Continuei olhando e caminhando pelo salão quase vazio. Chutava vez ou outra os guardanapos sujos do chão que insistiam em grudar na sola de meus sapatos. Yerin estava com Jimin e Seulgi em um dos corredores.

Nenhum sinal de Taehyung.

Ele deve ter dado uma carona para algum dos convidados. — Pensei alto, suspirando frustrado.

Decido sair pela porta dos fundos, que dava em direção a parte sul do jardim. Inesperadamente avisto uma porção de mechas vermelhas refletidas sobre a luz do luar. Taehyung olhava para o céu estrelado, com as mãos no bolso da calça social preta, a gravata com o nó desfeito no pescoço e o paletó jogado sobre o ombro. Parecia perdido em um maremoto de pensamentos.

— Continua sendo fã das estrelas? — Pergunto me aproximando do ômega. Taehyung vira sua cabeça devagar em minha direção, com um sorriso singelo nos lábios.

— É, elas que não deixam a noite ser tão escura. E você sabe que...

— Que você não gosta do escuro. — Completo.

— É.. — O ômega volta a encarar o céu com o olhar perdido naquela imensidão.

Desfruto do silêncio ao seu lado. Eu amava ouvir a respiração calma do ômega... Pode parecer estranho, mas enquanto eu ouvia sua respiração, sabia que ele estava vivo! E isso para mim era valioso.

— Foi nesse lugar que eu te disse isso pela primeira vez, lembra? — Ele me olhou rapidamente, tornando a encarar o céu.

Vasculhei minhas memórias, e ao prestar atenção ao redor, lembrei.

“Fechei os olhos, aproveitando dos meus prováveis últimos suspiros de vida, eu estava disposto a ser punido. Eu iria me punir. Um riso fraco, acompanhado de uma voz banhada de tristeza me trouxe de volta:

— Se eu aparecer cada vez que você precisar, vai ficar mal-acostumado.

Abri os olhos, meu peito doía, eu afundava com força a cabeça entre as pernas. Eu tinha vergonha de mim, vergonha de ser esse monstro doentio que ninguém nunca vai querer por perto.

— Jeongguk... — aquela voz doce fez meu coração desacelerar um pouco — Olha para mim, por favor.

Lentamente elevei minha cabeça dirigindo meu olhar até o ruivo. Minhas pálpebras pesavam, não conseguia suster o pescoço para encara-lo. Era como se eu não pudesse aguentar o peso da minha própria cabeça. Voltei a abaixa-la e mirei a grama já úmida pela noite.

— Não é sua culpa — Falou enquanto fitava o horizonte.

As lágrimas continuavam a rolar em silêncio pelo meu rosto.

— Se você fizer do seu passado o motivo da sua dor presente, vai entrar em um abismo sem fim. — Fez uma pausa fechando os olhos — Não queira entrar nesse abismo Jeon, é escuro demais aqui — O ruivo deu um riso irônico cheio de dor — O mais engraçado, é que eu tenho medo de escuro.”

 

Ele estava certo! Tudo estava aqui... O gramado que me ajoelhei como um cão humilhado, lamentando ser um monstro; a árvore que golpeei frustrado por não poder ser normal. Foi aqui, neste lugar, que Taehyung me tocou pela primeira vez!

– Nossa, está tão diferente. — Olho ao redor nostálgico.

Meu peito aperta com apenas um pensamento: O que seria de mim hoje, se Taehyung não tivesse me seguido até aqui?

— Foi aqui que eu soube que você era a pessoa que eu iria amar para o resto da vida. — O ruivo diz. Sinto meu coração disparar.

Foi aqui? Ele me amou aqui? No momento que mais me senti humilhado?

— Tae... Taehyu... — Decido abandonar as palavras e apenas o abraço por trás. Suspiro pesadamente rente aos seus ombros. Deus, como eu o amo!

— Você trouxe a minha, amor? Acho que aqui seria o lugar perfeito. Não acha?  — Pergunta acariciando uma de minhas mãos que enlaçavam sua cintura.

— Trouxe! — Respondo ansioso tirando a caixinha do bolso do paletó.

Nós não queríamos nos casar, fazer festas e cerimônias, ambos achamos que o amor é mais bonito e duradouro quando apenas você e a pessoa amada aproveitam isso. Não precisávamos mostrar isso nem diante de Deus, nem de homens. Desde quando o amor precisa da aprovação alheia? A única pessoa para quem eu precisava mostrar algo era ele, a pessoa diante de mim.

Nem de deuses, nem de homens, nosso amor era diante um do outro.

— Eu trouxe a minha também. Estava ansioso! – Ele sorri nervosamente, passando a língua nos lábios. Taehyung é lindo quando fica nervoso.

Nós havíamos combinado de comprar cada um uma aliança dourada, de casamento, eu compraria a do Tae e ele, a minha. Cada um escreveria algo na aliança que simbolizava o outro. Combinamos de fazer isso amanhã à noite, em um jantar num restaurante lindo aqui próximo. Mas, parando para pensar, aqui é o lugar.

— Eu devo arrumar minha gravata? — Pergunta nervoso, parando diante de mim, como se estivéssemos em um altar, ou algo do tipo.

— Não. Está perfeito assim. — Respondo sorrindo, ficando diante dele também.

Minhas mãos tremiam um pouco, e sutilmente notei que as de Taehyung também. Ele estava muito nervoso.

— Eu começo, tudo bem? — Peço, deixando um selar gentil na ponta do seu nariz. Queria acalmá-lo de alguma forma.

Taehyung assente.

— Eu não tinha outra palavra para definir o que você é para mim. — Entrego a aliança dentro da caixinha aveludada.

Taehyung ainda tremendo abre a caixa vagarosamente. Com cuidado o acessório é tirado do encaixe. Seus dedos acariciam a circunferência da aliança carinhosamente, e então percebo um sorriso gigante e radiante tomar conta do seu rosto. Ele solta uma risadinha juntamente com uma sutil lágrima. Nesta hora, tive a certeza de que ele havia lido o que escolhi para ser escrito dentro da aliança:

My Salvation

 Era isso que eu havia escrito. Taehyung foi e sempre será a minha salvação.

— Eu te amo! — Sinto meu corpo pesar ao ter Taehyung jogando seu corpo em mim para um abraço apertado. — Eu te amo muito, Jeongguk!

— Eu também, meu amor. Eu também. — Beijo sua cabeça, ainda sentindo ele me apertar ferozmente naquele abraço.

— Kookie, eu esperei ardentemente a vida inteira para encontrar alguém que me amasse como eu nunca fui amado, mas nunca imaginei que encontraria alguém para amar, como eu nunca amei. Eu sempre me senti inútil, Jeongguk, um peso para o mundo, para minha mãe. Tentei tirar minha própria vida, porque acreditava que ela não tinha valor desde o início, não era para eu ter nascido.

Engoli em seco. No dia que Taehyung contou que tentara tirar a própria vida, eu senti meu coração ser despedaçado.

— Hoje, eu dou graças por estar vivo, porque pude conhecer você. Agora eu entendo porque eu sobrevivi a todas as vezes que minha mãe tentou me abortar, a todas as dores que passei nessa vida. Eu não podia morrer, Jeongguk, eu precisava conhecer você.

Pela primeira vez, Taehyung chorava sem tentar esconder suas lágrimas de mim.

 — Eu sei que é bobagem acreditar em destino, mas eu sinto aqui… — O ômega batia a mão contra seu peito, enquanto olhava firmemente para o fundo dos meus olhos. — Eu sinto aqui dentro de mim que, mesmo sem te conhecer, você era a razão pela qual meus pulmões voltavam a respirar. Você foi quem me salvou, Jeon. Você também é minha salvação.

— Oh, meu bem... — Secava as lágrimas dele com minhas mãos. Não importa que sejam de alegria, odeio ver Taehyung chorar. — Sua vida é preciosa para mim, e vou me esforçar ao máximo para fazer dela uma vida feliz.

Taehyung sorria, fungando, suspirando e contendo o choro.

— Está bem, está bem. — O ômega secava as lágrimas se recompondo. — Agora é minha vez de entregar a sua.

— Certo. — Mantive a pose. Alfas não choram, mas, pelo meu histórico, eu havia me tornado um alfa extremamente chorão. Precisava me manter firme, pois, quero ser forte e equilibrado para sempre proteger e cuidar do meu ômega.

— Espero que goste. — Ele me estendeu a caixinha, sorrindo, ainda com os olhos e a pontinha do nariz vermelhos.

Pigarreio, pegando a caixinha com segurança. Abro o objeto, sem expressar grandes reações. Em seguida, girei a aliança, lendo vagarosamente, e o dourado sombreava as palavras ao ser atingido pela luz da lua.

Enquanto isso, eu pensava algo como: “O novo Jeongguk é um homem e equilibrado para o seu ômega, ele é um homem centrado e firme. Jeongguk não é mais um alfa chorã...

As lágrimas rolaram sem permissão. Meus canais lacrimais nem eram mais de um alfa!

—  Tae... — Balbuciei seu nome, segurando o anel diante dos meus olhos.

“My flashlight” 

Era o que o Kim havia escrito.

— Desde que eu tenha você ao meu lado, não tenho motivos para temer o escuro, Jeongguk, porque você é a minha lanterna.

Gargalhei, deixando as lágrimas caírem. Kim Taehyung é a pessoa mais preciosa que existe e nada no mundo pode contrariar essa afirmação. Em meios as lágrimas e sorrisos, proferi:

É fácil perdoar uma criança que tem medo do escuro, a maior tragédia da vida, é ser um homem com medo da luz.   

Taehyung franziu o cenho, parecia esperar que eu continuasse. 

— Você nunca teve medo da luz. Você passou por tudo isso, mas continuou sorrindo, dando amor, salvando vidas. Não se tornou uma pessoa amarga. Seu coração não tem escuridão, mesmo que você tenha passado a metade da infância preso em um armário escuro. Você é a própria luz, Kim Taehyung... — Suspirei sorrindo — Eu tinha medo da luz, tinha medo de ser feliz. Eu nunca estive preso no escuro, mas eu preferi prender o escuro dentro de mim. Me tornei alguém melancólico, amargo, ferido, e nunca tentei ser melhor que isso. Nunca quis sorrir, dar amor. E olha que eu tive tudo isso. Meus pais me deram amor, meu primeiro amor fez isso com maestria, e mesmo assim, eu não sabia dar esse sentimento a ninguém. Você nunca foi amado da maneira que eu fui, e mesmo assim, você consegue amar as pessoas da forma mais pura que existe. A criança dentro de você tem medo de escuro, mas você encara a luz com força. A luz é pior, porque ela mostra seus defeitos, seus demônios, você não consegue esconder nada da luz. Eu tenho mais medo dela... — Abaixei a cabeça por um momento. — Mas eu aprendi a amá-la, desde que conheci você. Você é tipo aquele farol de luz, que mostrou a direção certa para o barco naufragado que era minha vida. Você também é a lanterna que me guia dentro de minha própria escuridão, meu amor.

Notei Taehyung ficar em silêncio. Suas lágrimas eram sutis e vagarosamente deslizavam sobre suas bochechas cheinhas.

— Jeongguk, eu sei que é eu quem sou o médico, mas me responda por favor, é possível um coração explodir por amar tanto alguém? — Ele pergunta, tirando gargalhadas de mim.

— Não, meu amor, não é possível. — Ainda dando risadas, respondi afastando uma mecha do seu cabelo.

— Eu acho que o meu vai explodir, Jeon. Eu juro! — Taehyung colocava a mão no peito com o cenho franzido.

Foi impossível conter o sorriso. Sua pureza realmente me encantava cada dia mais.

— Se o meu não explodiu ainda desde que te conheci, então o seu também não vai. — Afirmo, acariciando a aliança agora posta no dedo do ômega.

— Ficaram lindas, né? — Ele estende a mão em frente ao rosto, deixando a aliança exposta.

— Sim, são maravilhosas. — Copio o gesto dele, colocando nossas mãos uma ao lado da outra. Ficamos alguns segundos olhando para as alianças em nossas mãos. Retiro o celular do bolso enquanto tenho o olhar observador do ômega sobre mim. Seleciono uma música, coloco o aparelho sobre o gramado e dou play na canção, deixando seu breve início instrumental tocar.

— Senhor Kim Taehyung, meu agora marido, você me concederia a honra de nossa primeira dança? — Questiono, colocando-me em pé diante dele, me curvando com uma mão estendida em sua direção.

Taehyung abre um sorriso espontâneo e doce.

— Claro, senhor Jeon, meu marido, eu adoraria. — O ômega levanta-se.

Sinto sua mão delicada repousar sobre meu ombro, enquanto o embalo vagarosamente, apoiando minha mão em sua cintura.

— Eu amo essa música, amor! — Exclama ao ouvir a melodia.

— Sim. E hoje eu vou cantar ela enquanto danço com você.

Taehyung abre a boca e vejo seus olhos brilharem. Ele já havia cantado inúmeras vezes para mim. Todos nós ainda sofríamos com pesadelos da pensão solitarius, quando ele tinha pesadelos, eu o abraçava bem forte e acariciava seu cabelo até ele pegar no sono. Quando eu tinha pesadelos, Taehyung cantava. Desde nossos tempos na pensão, sua voz sempre me acalmou. Contudo, dessa vez, era eu quem cantaria... Talvez este fosse o único segredo que escondo de Taehyung: minha bela voz.

Continuei embalando seu corpo vagarosamente, sentindo seus olhos me encararem profundamente. Tomei fôlego, deixando a voz sair livremente...

Eu já estava morto por dentro

Eu não podia sair

Apaguei as luzes

As vozes aqui dentro são tão altas...

 

Dei ênfase na última frase, lembrando da confusão que minha mente costuma ser. Aquela maldita voz gritando: ASSASSINO!

Sinto Tae acariciar meu rosto, enquanto continuávamos embalando nossos corpos como as ondas do mar em uma tarde de calmaria. Sorrio com o toque, lembrando novamente da primeira vez que ele me tocou. Foi em meu rosto, no mesmo lugar que tocava neste instante.

Precisava de um inicio

De um choque de realidade

Eu não sentia mais nada

E queria desaparecer

As vozes aqui dentro eram tão reais!

Taehyung balança a cabeça, afirmando acreditar no quão horrível deveria ser minha mente. Seu olhar ficou triste por alguns segundos, talvez por lembrar de minha deplorável situação naqueles tempos. Decido parar de balançar nossos corpos e apenas seguro seu queixo, esperando o momento da próxima estrofe chegar. Encarei seus olhos, novamente tomando fôlego:

Mas você ficou ao meu lado

Noite após noite...

 

Algumas lágrimas involuntárias rolaram em meu rosto neste momento. Taehyung sempre me dizia: Eu vou ficar... E ele cumpriu isso. Taehyung nunca me abandonou.

Agora era o refrão, no auge da batida da música, ergui seu braço direito e afastei seu corpo...

Você me amou até eu voltar a vida...

Cantei, girando Taehyung e trazendo seu corpo para se colar ao meu.

— Voltar do coma, a espera acabou... Você me amou até eu voltar à vida. — Girei Taehyung novamente, desta vez jogando seu corpo para baixo, apoiando-o em minha coxa, o que o fez gargalhar de alegria.

— Voltar do coma... — Peguei ele no colo, girando seu corpo, olhando firmemente em seus olhos. Trouxe o ruivo de volta ao chão e Taehyung lentamente colocava suas mãos em meus ombros enquanto mergulhava seu olhar no fundo dos meus olhos.

— Somos só duas pessoas, que se amam, essa noite. — Cantei no instante que o ômega deitou sua cabeça em meu ombro, deixando uma lágrima molhar meu pescoço. Envolvi meus braços ao redor de sua cintura, abraçando-o. 

Era exatamente isso. Neste instante, não éramos ninguém. Eu não era o menino violentado, o alfa problemático, um assassino, nem o herdeiro de uma grande fortuna. Taehyung, serenamente deitado sobre meu ombro, não era um ômega que não sente cheiros, nem o homem que nunca foi amado, nem o filho de uma mãe cruel. Naquele instante, naquele incomparável instante, nós apenas éramos duas pessoas que se amam. Nus de todos os bens materiais, de todos os traumas e dores. Éramos apenas essência.

Procurei a mão de Taehyung trazendo-a até meu lábios. Deixei um beijo terno e coloquei sua mão em meu rosto. No mesmo lugar onde ele me tocara na primeira vez e a instantes atrás.

— Me acordou... Um toque seu e me sinto vivo...

Ao cantar essa frase Taehyung sorriu e tocou meu rosto com mais ternura ainda.

— Você me amou, me amou o suficiente para eu querer viver

As vozes aqui dentro ficaram em silêncio...

Deste vez fui eu quem sorriu. Taehyung sorriu de volta, suspirando em graças. Eu também era grato pelas vozes se irem. A voz de meu ômega, o amor do meu ômega, falou mais alto que todas elas.

— E você ficou ao meu lado

Noite após noite

Noite após noite

Porque você me amou

Você me amou até que eu voltasse a viver...

 

— Hey, a próxima parte, deixa que eu canto para você, Jeongguk... — Foi o que o ômega disse.

Assenti. Taehyung então cantou a última estrofe:

 

Mãos fortes, pele espessa e um coração aberto

Você me viu através da dor

Me enxergou além da máscara

Você nunca desistiu de mim...

 

Novamente a batida da música explodiu, levando meu coração a acelerar. À medida que a música aumentava, não resisti. Joguei-me por cima de Taehyung, obrigando o ômega a deitar suas costas sobre o gramado, tendo meu corpo suspenso sobre si. Um beijo lento e apaixonado fez com que eu sentisse um frio na barriga. Parecia a primeira vez que estávamos nos beijando. Senti algumas gotas de chuva pingarem.

— Beijo na chuva? — Taehyung gargalha.

— Tudo que nós passamos é muito louco, alguma coisa tinha que ser clichê na nossa história. — Respondo sorrindo, notando a chuva engrossar. Ficamos em silêncio por alguns segundos, na mesma posição, encarando um ao outro.

Seria esse o nosso felizes para sempre? Não. Com certeza não. A felicidade é um busca diária e ardorosa. Nossa vida não seria perfeita. Iriamos brigar, discutir, nos amar, nos perdoar, passar por situações boas e ruins. A alegria não existe todo o santo dia, isso é utopia. Ao invés de querer ser feliz todo o dia, Taehyung e eu lutaríamos para aproveitar ao máximo os momentos bons no decorrer de nossa vida. E assim, seriamos felizes. Felizes apenas.

Deixa o para sempre para os contos de fadas.

 

— Eu disse que ia ficar. — Foi o que Taehyung falou enquanto eu notava as gotas de água brilharem sobre sua pele. — Eu amo você, Jeon.

— E eu amo você, Taehyung.

Ao encarar seu rosto, pude ver minha face refletindo em sua íris. Não era a face de um monstro, como vi refletir nos olhos de Yugyeom um dia. Uma lágrima quente escorreu em meio à chuva gelada. Graças ao poder do amor de Taehyung pude finalmente enxergar:

Eu não sou um monstro. Eu não sou um número. 

Eu sou

Humano.

 

 

Fim


Notas Finais


Estou emocionada em finalizar mais uma história. Não quero me despedir, pois, vou levar cada leitor no meu coração!
Obrigada por me proporcionarem uma experiência incrível! Espero que tenham se divertido em ler essa história que escrevi com muito carinho. Eu amadureci muito com as situações que passei ao escrever aqui no spirit.
Nossa jornada juntos em Solitarius no modo digital, termina aqui. MAS, se você quiser adquirir o livro fisico... AH!! AGORA VOCÊ PODE!
Minha demora em postar, foi porque estavámos planejando essa surpresa pra vocês. Não vou me alongar muito. Vou deixar o link aqui para saberem mais sobre isso. Ali no link vocês poderão tirar suas dúvidas e comprar sua cópia. <3 SOLITARIUS É UM LIVRO FISICO AGORA!
Espero que essa notícia os faça felizes, porque vocês já me fizeram muito feliz aqui.
Obrigada por tudo, eu amo vocês.
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Qualquer dúvida ou erro no link, entre em contato no twitter: @Taehyungmonamu
All the love,
my vkook.


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