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História Percy Jackson e o mar de monstros - Capítulo 7


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Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 7 - 7. Eu aceito presentes de um estranho


Na visão de Tântalo, os pássaros de Estinfália estavam simplesmente na deles, nos bosques, e não teriam atacado se Annabeth, Tyson e eu não os tivéssemos perturbado ao conduzirmos mal nossas bigas. Aquilo foi tão completamente injusto que mandei Tântalo ir perseguir um donut, o que não contribuiu para melhorar seu estado de espírito. Ele nos condenou a prestar serviço na cozinha – lavar panelas e pratos a tarde inteira na cozinha subterrânea com as harpias da limpeza. As harpias lavavam com lava, em vez de água, para obter aquele brilho extralimpo e matar noventa e nove vírgula nove por cento de todos os germes; portanto, Annabeth e eu tivemos de usar luvas e aventais de asbesto.

Tyson não se importou. Mergulhou as mãos sem proteção e começou a esfregar, mas Annabeth e eu tivemos de sofrer durante horas de trabalho quente e perigoso, especialmente porque havia toneladas de pratos extras. Tântalo ordenara um banquete especial para celebrar a vitória da carruagem de Clarisse – uma refeição completa, incluindo pássaros-da-morte de Estinfália fritos à moda caipira. A única coisa boa no nosso castigo foi ter proporcionado a Annabeth e a mim um inimigo comum e muito tempo para conversar. Depois de ouvir novamente meu sonho com Grover, ela pareceu começar a acreditar. – Se ele encontrou mesmo aquilo – murmurou ela – e se nós pudermos resgatar...

– Espere aí – disse eu. – Você age como se aquilo... o que quer que Grover tenha encontrado, fosse a única coisa do mundo capaz de salvar o acampamento. O que é aquilo?

– Vou lhe dar uma dica. O que você consegue quando arrancando pele de um carneiro?

– Ficar todo sujo?

Ela suspirou.

– Um velocino. A pele do carneiro se chama velocino. E se por acaso o carneiro tem lã de ouro...

– O Velocino de Ouro. Você está falando sério? – Annabeth jogou um prato cheio de ossos de pássaro-da-morte na lava. – Percy, está lembrado das Irmãs Cinzentas? Elas disseram que sabiam onde estava aquilo que você procura. E mencionaram Jasão. Três mil anos atrás, elas disseram a ele como encontrar o Velocino de Ouro. Conhece a história de Jasão e dos argonautas?

– Sim – falei. – Aquele filme antigo com os esqueletos de barro.

Annabeth revirou os olhos.

– Ah, meus deuses, Percy! Você não tem jeito mesmo.

– O quê? – perguntei.

– Apenas ouça. A verdadeira história do Velocino: havia aqueles dois filhos de Zeus, Cadmo e Europa, certo? Eles estavam para ser oferecidos como sacrifício humano quando imploraram a Zeus que os salvasse. Então Zeus enviou aquele carneiro voador mágico com sua lã de ouro, que os recolheu na Grécia e os transportou até Cólquida, na Ásia Menor. Bem, na verdade ele transportou Cadmo. Europa caiu e morreu no caminho, mas isso não é importante.

– Provavelmente foi importante para ela.

– A questão é que, quando Cadmo chegou a Cólquida, sacrificou o carneiro de ouro aos deuses e pendurou o Velocino em um árvore no meio do reino. O Velocino levou prosperidade à terra. Os animais pararam de adoecer. As plantas cresceram melhor. Os lavradores tiveram colheitas fartas. Nunca havia o castigo das pragas. É por isso que Jasão queria o Velocino. Ele é capaz de revitalizar qualquer terra onde for colocado. Cura doenças, fortalece a natureza, limpa a poluição...

– Poderia curar a árvore de Thalia.

Annabeth assentiu.

– E deixar as fronteiras do Acampamento Meio-Sangue muito mais fortes. Mas, Percy, o Velocino está desaparecido há séculos. Toneladas de heróis já buscaram por ele e não tiveram sorte.

– Mas Grover o encontrou – falei. – Ele saiu à procura de Pan e encontrou o Velocino em vez disso, porque ambos irradiam uma natureza mágica. Faz sentido, Annabeth. Podemos salvá-lo e salvar o acampamento ao mesmo tempo. É perfeito!

Annabeth hesitou.

– Um pouco perfeito demais, não acha? E se for uma armadilha?

Lembrei-me do último verão, quando Cronos manobrou nossa missão. Ele quase nos enrolou, e íamos ajudá-lo a começar uma guerra que teria destruído a civilização ocidental.

– Que escolha temos? – perguntei. – Você vai me ajudar a salvar Grover ou não?

Ela deu uma olhada para Tyson, que perdera o interesse na conversa e estava alegremente fazendo barcos de brinquedo com copos e colheres na lava.

– Percy – disse ela em voz baixa – vamos ter de lutar contra um ciclope. Polifemo, o pior deles. E só existe um lugar onde pode estar a ilha dele. O Mar de Monstros.

– Onde fica isso?

Ela me olhou como se pensasse que eu estava me fazendo de bobo.

– O Mar de Monstros. O mesmo mar onde Ulisses navegou, e também Jasão, Eneias e todos os outros.

– Você quer dizer o Mediterrâneo?

– Não. Bem, sim... mas não.

– Mais uma resposta direta. Obrigado.

– Veja, Percy, o Mar de Monstros é o mar que todos os heróis atravessam em suas aventuras. Costumava ficar no Mediterrâneo, sim. Mas, como tudo mais, muda de lugar quando muda o centro de poder do Ocidente.

– Como o Monte Olimpo no alto do edifício Empire State – disse eu. – E o Hades embaixo de Los Angeles.

– Certo.

– Mas um mar inteiro de monstros... como você poderia esconder algo assim? Os mortais não teriam notado coisas estranhas acontecendo... tipo, navios sendo devorados e coisas do gênero?

– É claro que eles notam. Não entendem, mas sabem que algo é estranho naquela parte do oceano. O Mar de Monstros agora fica na Costa Leste dos Estados Unidos, logo a noroeste da Flórida. Os mortais até têm um nome para ele.

– O Triângulo das Bermudas?

– Exatamente.

Deixei aquilo amadurecer na minha cabeça. Acho que não era mais estranho do que as outras coisas que tinha aprendido desde que fora para o Acampamento Meio-Sangue.

– Certo... então pelo menos sabemos onde procurar.

– Ainda assim, é uma área enorme, Percy. Procurar uma ilha minúscula em águas infestadas por monstros...

– Ei, sou filho do deus do mar. É o meu território. Não pode ser tão difícil.

Annabeth juntou as sobrancelhas.

Vamos precisar falar com Tântalo, conseguir aprovação para uma missão. Ele vai dizer não.

– Não se contarmos hoje à noite junto à fogueira, na frente de todo mundo. O acampamento inteiro irá ouvir. Vão pressioná-lo. Ele não vai poder recusar.

– Talvez. – Um pouquinho de esperança surgiu na voz de Annabeth. – É melhor terminarmos com esses pratos. Passe o pulverizador de lava, por favor.

Naquela noite, junto à fogueira, o chalé de Apolo liderou a cantoria. Eles tentaram melhorar o humor de todos, mas não foi fácil depois do ataque dos pássaros naquela tarde. Sentamo-nos em um semicírculo de degraus de pedra, cantando sem entusiasmo e observando a fogueira arder, enquanto os caras de Apolo tocavam seus violões e tangiam suas liras. Cantamos todas as canções tradicionais do acampamento: As margens do Egeu, Eu sou meu próprio ta-ta-ta-ta-taravô, Esta terra é a terra de Minos. A fogueira era encantada – assim, quanto mais alto se cantava, mais alto ela queimava, a cor e o calor variando de acordo com o humor do pessoal. Num dia bom, eu a vira subir a seis metros, tão quente que todos os marshmallows que estavam mais perto explodiram em chamas. Naquela noite, o fogo chegou a apenas um metro e meio de altura, quase morno, e as chamas tinham a cor de uma compressa de algodão. Dioniso foi embora cedo. Depois de aguentar algumas canções, resmungou que até mesmo jogar pinoche com Quíron era mais empolgante que aquilo.

Então deu uma olhada desagradável para Tântalo e dirigiu-se de volta à Casa Grande. Quando a última canção acabou, Tântalo disse:

– Bem, isso foi adorável! Ele avançou com um marshmallow assado na ponta de um galho fino e tentou arrancá-lo, com muita naturalidade. Mas, antes que pudesse tocá-lo, o marshmallow saiu voando do galho. Tântalo tentou apanhá-lo no ar, mas o marshmallow cometeu suicídio, mergulhando nas chamas. Tântalo voltou-se para nós sorrindo friamente.

– Agora, então, alguns avisos sobre a programação de amanhã.

– Senhor – disse eu.

O olho de Tântalo contraiu-se num espasmo.

– Nosso menino da cozinha tem algo a dizer?

Alguns dos campistas de Ares soltaram risadinhas, mas eu não pretendia deixar que ninguém, me deixasse sem graça a ponto de me calar. Fiquei de pé e olhei para Annabeth. Graças aos deuses, ela se levantou comigo. Eu disse:

– Temos uma ideia para salvar o acampamento.

Silêncio mortal. Mas pude perceber que ganhara a atenção de todos, porque a fogueira chamejou em amarelo vivo.

– É mesmo? – disse Tântalo, agradavelmente. – Bem, se tiver algo a ver com bigas...

– O Velocino de Ouro – disse eu. – Sabemos onde ele está.

As chamas arderam em cor laranja. Antes que Tântalo pudesse me impedir, despejei meu sonho com Grover e a ilha de Polifemo. Annabeth interveio e lembrou a todos o que o Velocino podem fazer. Pareceu mais convincente vindo dela.

– O Velocino pode salvar o acampamento – concluiu. – Tenho certeza disso.

– Bobagem, bobagem – disse Tântalo. – Não precisamos ser salvos.

Todos o olharam fixamente, até que ele começou a parecer constrangido.

– Além disso – acrescentou depressa – e o Mar de Monstros? Dificilmente se poderia dizer que esse é um local exato. Vocês não saberiam nem onde procurar.

– Sim, eu saberia – falei. Annabeth se inclinou para mim e sussurrou:

– Jura?

Assenti, porque Annabeth refrescara algo na minha memória quando me lembrou da viagem de táxi com as Irmãs Cinzentas. Naquela ocasião, a informação que elas me deram não fez sentido. Mas agora...

– 30, 31, 75, 12 – disse eu.

– Ah, legal! – disse Tântalo. – Obrigado por compartilhar esses números sem sentido.

– São coordenadas de navegação. Latitude e longitude. Eu, ahn, aprendi isso em estudos sociais. – Até Annabeth pareceu impressionada. – 30 graus, 31 minutos Norte, 75 graus, 12 minutos Oeste.

– Ele está certo! As Irmãs Cinzentas nos deram essas coordenadas. Deve ser algum lugar do Atlântico, além da costa da Flórida. O Mar de Monstros. Precisamos de uma missão!

– Esperem só um minuto – disse Tântalo.

Mas os campistas embarcaram no coro.

– Precisamos de uma missão! Precisamos de uma missão! As chamas se ergueram mais alto.

– Isso não é necessário! – insistiu Tântalo.

– PRECISAMOS DE UMA MISSÃO! PRECISAMOS DE UMA MISSÃO!

– Ótimo! – gritou Tântalo, os olhos inflamados de raiva. – Vocês, moleques, querem que eu lhes atribua uma missão?

– SIM!

– Muito bem – concordou. – Vou autorizar um campeão a empreender essa perigosa jornada, resgatar o Velocino de Ouro e trazê-lo para o acampamento. Ou morrer tentando.

Meu coração se encheu de empolgação. Eu não ia deixar que aquilo me assustasse. Aquilo era o que eu precisava fazer. Iria salvar Grover e o acampamento. Nada iria me deter.

– Vou permitir que nosso campeão consulte o Oráculo! – anunciou Tântalo. – E escolha dois companheiros para a jornada. E acho que a escolha do campeão é óbvia.

Tântalo olhou para mim e Annabeth como se quisesse nos esfolar vivos.

– O campeão deverá ser alguém que conquistou o respeito do acampamento, alguém que provou ser capaz nas corridas de bigas, e corajoso na defesa do acampamento. Você deverá liderar a missão... Clarisse!

O fogo tremeluziu em mil cores diferentes. O chalé de Ares começou a bater os pés e a aplaudir:

– CLARISSE! CLARISSE!

Clarisse levantou-se, parecendo atordoada. Então engoliu em seco, e seu peito se inflou de orgulho.

– Eu aceito a missão!

– Espere! – gritei. – Grover é meu amigo. O sonho veio para mim!

– Sente-se! – gritou um dos campistas de Ares. – Você teve sua chance no último verão!

– Sim, ele só quer ser o centro das atenções outra vez! – disse outro. Clarisse olhou furiosamente para mim.

– Aceito a missão! – repetiu ela. – Eu, Clarisse, filha de Ares, vou salvar o acampamento!

Os campistas de Ares aplaudiram ainda mais. Annabeth protestou, e os outros campistas de Atenas se juntaram a ela. Todos começaram a tomar partido – gritando e discutindo, e atirando marshmallows. Pensei que aquilo fosse se transformar em uma completa guerra de guloseimas, até que Tântalo gritou:

– Silêncio, moleques! – Seu tom impressionou até a mim. – Sentem-se! – ordenou. – E vou lhes contar uma história de fantasma.

Eu não sabia o que ele estava pretendendo, mas, todos voltamos, indecisos, aos nossos lugares. A aura malévola que se irradiava de Tântalo era tão forte quanto a de qualquer monstro que eu já enfrentara.

– Era uma vez um rei mortal amado pelos deuses! – Tântalo pôs a mão no peito, e eu tive a sensação de que falava de si mesmo. – Esse rei – disse – tinha permissão até para se banquetear no Monte Olimpo. Mas, quando tentou levar um pouco de néctar e ambrosia para a Terra, para descobrir a receita... apenas uma pequena quentinha, vejam só... os deuses o puniram. Eles o baniram de seus salões para sempre! Sua própria gente zombou dele! Seus filhos o repreenderam! E, ah sim, campistas, ele tinha filhos horríveis. Filhos... iguaizinhos... a vocês! – Ele apontou um dedo torto para diversas pessoas da plateia, inclusive eu. – Sabem o que ele fez com os filhos ingratos? – perguntou Tântalo suavemente. – Sabem como ele retribuiu aos deuses sua punição cruel? Convidou os olimpianos para um banquete em seu palácio, só para mostrar que não havia rancor. Ninguém reparou que seus filhos não estavam presentes. E quando ele serviu o jantar aos deuses, meus caros campistas, vocês podem adivinhar o que havia no cozido?

Ninguém ousou responder. A luz do fogo brilhou em azul profundo, refletindo-se de modo maligno no rosto deformado de Tântalo.

– Ah! Os deuses o castigaram na vida após a morte – coaxou Tântalo. – Eles fizeram isso, ah!, se fizeram. Mas ele teve seu momento de satisfação, não teve? Os filhos nunca mais lhe responderam nem questionaram sua autoridade. E vocês sabem o que mais? Diz-se que o espírito do rei agora reside exatamente neste acampamento, aguardando uma oportunidade de se vingar das crianças ingratas e rebeldes. E agora... mais alguma reclamação antes que mandemos Clarisse em sua missão?

Silêncio. Tântalo acenou com a cabeça para Clarisse.

– O Oráculo, querida. Vá em frente.

Ela mudou de posição, constrangida, como se mesmo ela não quisesse a glória ao preço de ser a queridinha de Tântalo.

– Senhor...

– Vá! – rosnou ele. Ela fez uma reverência desajeitada e correu para a Casa Grande. – E quanto a você, Percy Jackson? – perguntou Tântalo. – Mais algum comentário do nosso lavador de pratos?

Não falei nada. Não ia lhe dar o prazer de me castigar de novo.

– Bom – disse Tântalo. – E deixem-me lembrar a todos: ninguém parte deste acampamento sem minha permissão. Qualquer um que tentar... bem, se sobreviver à tentativa, será expulso para sempre. Mas as coisas não chegarão a esse ponto. As harpias irão reforçar o toque de recolher de agora em diante, e elas estão sempre com fome! Boa noite, queridos campistas. Durmam bem.

Com um aceno de Tântalo, o fogo se extinguiu, e os campistas seguiram devagar para seus chalés, no escuro.

Eu não conseguia explicar a situação a Tyson. Ele sabia que eu estava triste. Sabia que eu queria sair numa viagem e que Tântalo não me deixava.

– Você vai de qualquer jeito? – perguntou ele.

– Não sei – admiti. – Seria difícil. Muito difícil.

– Eu vou ajudar.

– Não. Eu... ahn, não poderia lhe pedir isso, grandão. É perigoso demais.

Tyson baixou os olhos para os pedaços de metal que estava montando no colo – molas e engrenagens, e pequenos arames. Beckendorf lhe dera algumas ferramentas e peças sobressalentes, e agora Tyson passava todas as noites trabalhando, embora eu não soubesse muito bem como suas mãos enormes conseguiam manejar pecinhas tão delicadas.

– O que está construindo? – perguntei.

Tyson não respondeu. Em vez disso, fez um som lamuriento no fundo da garganta.

– Annabeth não gosta dos ciclopes. Você... você não me quer por perto?

– Ah! Não é isso – falei sem muito entusiasmo. – Annabeth gosta de você. De verdade.

Ele tinha lágrimas no canto dos olhos. Lembrei que Grover, como todos os sátiros, podia ler as emoções humanas. Fiquei pensando se os ciclopes não teriam o mesmo dom. Tyson enrolou seu projeto em um oleado. Deitou-se na cama e abraçou sua trouxa como se fosse um ursinho de pelúcia. Quando se virou para a parede, pude ver as, estranhas cicatrizes em suas costas, como se alguém tivesse passado um arado por cima dele, com um trator. Me perguntei pela milionésima vez como teria se machucado.

– Papai sempre se preocupou comigo – fungou ele. – Agora... acho que ele foi malvado em ter um menino ciclope. Eu não devia ter nascido.

– Não fale assim! Poseidon o reclamou, não foi? Então... ele deve se preocupar com você... muito...

Minha voz sumiu quando pensei em todos aqueles anos em que Tyson vivera nas ruas de Nova York, em uma caixa de geladeira de papelão. Como Tyson podia pensar que Poseidon se preocupava com ele? Que tipo de pai é esse que deixa aquilo acontecer com um filho, mesmo que ele seja um monstro?

– Tyson... o acampamento será um bom lar para você. Os outros vão se acostumar com você. Eu prometo.

Tyson suspirou. Esperei que dissesse alguma coisa. Então me dei conta de que ele já estava dormindo. Deitei-me em minha cama e tentei fechar os olhos, mas não consegui. Estava com medo de ter outro sonho com Grover. Se a conexão empática fosse real... se algo acontecesse com Grover... será que eu ia acordar? A lua cheia brilhava pela janela. O som das ondas rugia na distância. Eu podia sentir o cheiro morno dos campos de morangos, e ouvir os risos das dríades perseguindo corujas pela floresta. Mas algo parecia errado naquela noite – a doença da árvore de Thalia, se espalhando pelo vale. Será que Clarisse poderia salvar a Colina Meio-Sangue? Pensei que seria mais fácil eu ganhar de Tântalo um prêmio de "Melhor Campista".

Levantei-me e me vesti. Peguei uma toalha de praia e uma embalagem de seis Coca-Colas embaixo da cama. As Cocas eram contra as regras. Não eram permitidos lanches ou bebidas de fora do acampamento, mas se a gente falasse com o cara certo no chalé de Hermes e lhe pagasse alguns dracmas de ouro, ele podia contrabandear quase tudo da loja de conveniência mais próxima. Dar uma fugida depois do toque de recolher também era contra as regras. Se fosse pego, estaria numa encrenca enorme, ou seria comido pelas harpias. Mas eu queria ver o oceano. Sempre me sentia melhor ali. Meus pensamentos ficavam mais claros. Saí do chalé e fui em direção à praia. Estendi a toalha perto do mar e abri uma Coca.

Por alguma razão, o açúcar e a cafeína sempre acalmavam meu cérebro hiperativo. Tentei decidir o que fazer para salvar o acampamento, mas não me ocorreu nada. Desejei que Poseidon falasse comigo, que me desse um conselho ou o que fosse. O céu estava claro e estrelado. Eu estava conferindo as constelações que Annabeth me ensinara – Sagitário, Hércules, Coroa Boreal – quando alguém disse:

– Lindas, não são?

Quase cuspi o refrigerante. Em pé, bem ao meu lado, havia um cara de short de corrida de náilon e camiseta da Maratona de Nova York. Era magro, estava em boa forma, com cabelo grisalho e um sorriso zombeteiro. Parecia meio familiar, mas não consegui imaginar por quê. Meu primeiro pensamento foi que ele devia estar dando sua corrida da meia-noite na praia e fora parar dentro dos limites do acampamento. Isso não era para acontecer. Mortais comuns não podiam entrar no vale. Mas, talvez, com o enfraquecimento da magia da árvore, ele tivesse conseguido se infiltrar. Mas no meio da noite? E ali não havia nada a não ser terras de fazendas e reservas estaduais. De onde aquele cara poderia ter saído?

– Posso acompanhá-lo? – perguntou ele. – Há eras que eu me sento.

Bem, eu sei – um cara estranho no meio da noite. Pelo bom senso, eu deveria ter saído correndo e gritando por socorro etc. O cara agiu de modo tão calmo em relação a tudo que achei difícil ficar com medo. Eu disse:

– Ahn, claro.

Ele sorriu.

– Sua hospitalidade é louvável. Ah, é Coca-Cola! Posso?

Ele se sentou na outra ponta da toalha, abriu um refrigerante e deu um gole.

– Ah!... é exatamente o de que eu precisava. Paz e sossego e...

Um telefone celular tocou no bolso dele. O corredor suspirou. Puxou o telefone e meus olhos se arregalaram porque aquilo brilhava com uma luz azulada. Quando ele, puxou a antena, duas criaturas começaram a se contorcer em volta dela – cobras verdes, não maiores do que minhocas.

O corredor pareceu nem notar. Conferiu o visor e praguejou.

– Vou ter de atender. Só um segundo...

E, então, ao telefone: "Alô?" Ele escutou. As minicobras se contorciam para cima e para baixo na antena bem ao lado do ouvido dele. "Sim", disse o corredor. "Escute... eu sei, mas... Não me imporia se ele está acorrentado a uma rocha com abutres bicando seu fígado, se ele não tem um número de protocolo, não podemos localizar seu pacote... Um presente para a humanidade, grande... Tem ideia de quantos desses nós entregamos... Ah, deixe para lá! Escute, mande-o falar com Éris, no atendimento ao cliente. Preciso desligar."

Ele desligou.

– Desculpe-me. O negócio de expresso noturno está em alta. Mas como eu ia dizendo...

– Você tem cobras no seu telefone.

– O quê? Ah! elas não mordem. Digam olá, George e Martha.

Olá, George e Martha, disse uma voz masculina estridente dentro da minha cabeça.

Não seja sarcástico, disse uma voz feminina.

Por que não?, perguntou George. Sou eu que faço todo o trabalho de verdade.

– Ora, não vamos começar com isso outra vez! – O corredor enfiou o telefone de volta no bolso. – Agora, onde estávamos... Ah, sim! Paz e sossego.

Ele cruzou os pés e olhou para as estrelas.

– Faz tanto tempo desde que consegui relaxar pela última vez! Desde o telégrafo é só... correr, correr, correr. Você tem uma constelação favorita, Percy?

Eu ainda estava meio intrigado com as cobrinhas verdes que ele enfiara no bolso do short, mas disse:

– Ahn, eu gosto de Hércules.

– Por quê?

– Bem... porque ele tinha um azar desgraçado. Pior ainda que o meu. Faz eu me sentir melhor.

O corredor riu.

– Não é porque ele era forte, famoso e tudo isso?

– Não.

– Você é um jovem interessante. Então, e agora?

Entendi imediatamente o que ele estava perguntando. O que eu pretendia fazer a respeito do Velocino? Antes que pudesse responder, a voz abafada de Martha, a cobra, veio do bolso dele:

Estou com Démeter na linha dois.

– Agora não – disse o corredor. – Diga a ela para deixar uma mensagem.

Ela não vai gostar disso. Na última vez em que você a dispensou, todas as flores da divisão de entregas florais murcharam.

– Diga-lhe apenas que estou em uma reunião! – O corredor revirou os olhos. – Desculpe de novo, Percy. Você estava dizendo...

– Ahn... quem é você, exatamente?

– Ainda não adivinhou, um menino esperto como você?

Mostre a ele!, implorou Martha.

Não fico do tamanho normal há meses.

Não dê ouvidos a ela!, disse George. Ela só quer se mostrar!

O homem pegou o telefone de novo.

– Forma original, por favor.

O telefone luziu em azul brilhante. Alongou-se até virar um bastão um metro de comprimento e asas de pombos brotando no topo. George e Martha, agora cobras verdes de tamanho real, estavam enrolados no meio. Era um caduceu, o símbolo do Chalé 11. Senti um aperto na garganta. Percebi quem o corredor me lembrava, com suas feições de elfo, o brilho travesso nos olhos...

– Você é o pai de Luke – falei. – Hermes.

O deus fez um muxoxo. Fincou o caduceu na areia como se fosse um cabo de guarda-sol.

– "Pai de Luke." Normalmente não é esse o modo como as pessoas costumam me apresentar. Deus dos ladrões, sim. Deus dos mensageiros e dos viajantes, se quiserem ser gentis.

Deus dos ladrões funciona, disse George.

Ah! não ligue para George, Martha vibrou a língua para mim. Ele só está azedo porque Hermes gosta mais de mim.

Não gosta!

Gosta sim!

– Comportem-se, vocês dois – advertiu Hermes – ou vou transformá-los de novo em um telefone e pôr no vibra-call! Agora, Percy, você ainda não respondeu à minha pergunta. O que pretende fazer com respeito à missão?

– Eu... eu não tenho permissão para ir.

– Não, de fato não. Isso vai detê-lo?

– Eu quero ir. Preciso salvar Grover.

Hermes sorriu.

– Certa vez conheci um menino... Ah, de longe mais jovem que você! Apenas um bebê, na verdade.

Lá vamos nós de novo, disse George. Sempre falando de si, mesmo.

Quieto!, disparou Martha. Quer ser posto no vibra-call?

Hermes os ignorou.

– Uma noite, quando a mãe do menino não estava olhando, ele se esgueirou para fora da caverna e roubou algumas cabeças de gado que pertenciam a Apolo.

– Ele foi explodido em pedacinhos? – perguntei.

– Humm... não. Na verdade, tudo acabou muito bem. Para compensar o roubo, o menino deu a Apolo um instrumento que inventara... uma lira. Apolo ficou tão encantado com a música que se esqueceu da raiva.

– Então, qual é a moral?

– A moral? – perguntou Hermes. – Céus, você age como se fosse uma fábula. É uma história verdadeira. A verdade tem moral?

– Ahn...

– Que tal: "Roubar nem sempre é ruim?"

– Não acho que minha mãe fosse gostar disso.

Ratos são deliciosos, comentou George.

O que isso tem a ver com a história?, perguntou Martha.

Nada, disse George. Mas eu estou com fome.

– Já sei – disse Hermes. – Os jovens nem sempre fazem o que lhes mandam, mas se conseguem se dar bem e fazer algo maravilhoso, às vezes escapam do castigo. Que tal?

– Você está dizendo que eu deveria ir de qualquer jeito – falei – mesmo sem permissão.

Os olhos de Hermes brilharam.

– Martha, quer me passar o primeiro pacote, por favor?

Martha abriu a boca... e continuou a abri-la até o vão ficar do tamanho do meu braço. Expeliu um recipiente de inox – uma garrafa térmica de lancheira à moda antiga, com tampa de plástico preto. Era decorada com cenas da Grécia Antiga em vermelho e amarelo – um herói matando um leão; um herói levantando Cérbero, o cão de três cabeças.

– Hércules – disse eu. – Mas como...

– Nunca questione um presente – repreendeu Hermes. – Isso é um item de colecionador de Hércules arrebenta cabeças. Primeira temporada.

– Hércules arrebenta cabeças?

– Uma grande série – suspirou Hermes. – Da época em que a tevê Hefesto não era só reality shows. É claro que valeria muito mais se eu tivesse a lancheira completa...

Ou se ela não tivesse estado na boca de Martha, acrescentou George.

Vou pegá-lo por isso. Martha começou a persegui-lo em volta do caduceu.

– Espere um minuto – falei. – Isso é um presente?

– O primeiro de dois presentes – disse Hermes. – Vá e frente, pegue.

Quase deixei a garrafa cair, porque estava fria de congelar do um lado e queimando de tão quente do outro. O mais esquisito era que, quando eu virava a garrafa, o lado que ficava de frente para o oceano - o norte - era sempre o lado frio...

– É uma bússola! – falei.

Hermes pareceu surpreso.

– Muito engenhoso. Eu nunca tinha pensado nisso. Mas sua utilidade é muito mais radical. Destampe-a e vai libertar os ventos dos quatro cantos da Terra para despachá-lo mais depressa em seu caminho. Agora não! E, por favor, quando chegar o momento, desenrosque a tampa só um pouquinho. Os ventos são um pouco como eu – sempre inquietos. Se todos os quatro escaparem de uma vez... ah! mas tenho certeza de que você vai tomar cuidado, E agora, meu segundo presente. George?

Ela está encostando em mim, reclamou George enquanto ele e Martha deslizavam em volta do bastão.

– Ela está sempre encostando em você – disse Hermes. – Vocês estão entrelaçados. E se não pararem com isso vão acabar se dando um nó outra vez!

As cobras pararam de brigar. George desconjuntou a mandíbula e tossiu um pequeno frasco de plástico cheio de pastilhas de vitaminas.

– Você está brincando – disse eu. – Têm formato de Minotauro?

Hermes pegou o frasco e o chacoalhou.

– As de limão, sim. As de uva são Fúrias, eu acho, Ou seriam índias? De um jeito ou de outro, essas são poderosas. Não tome uma delas a não ser que precise muito, muito mesmo.

– Como vou saber se preciso muito, muito mesmo?

– Você saberá, acredite. Nove vitaminas essenciais, minerais, aminoácidos... ah! tudo o de que você precisa para se sentir você mesmo outra vez. Ele me jogou o frasco.

– Ahn, obrigado – disse eu. – Mas Senhor Hermes, porque está me ajudando?

Ele me deu um sorriso melancólico.

– Talvez porque eu espere que você possa salvar muitas pessoas nessa missão, Percy. Não apenas, seu amigo Grover. Olhei para ele.

– Você não quer dizer... Luke?

Hermes não respondeu.

– Olhe – falei. – Senhor Hermes, quer dizer, obrigado e tudo mais, mas você pode pegar de volta seus presentes. Luke não pode ser salvo. Mesmo que eu conseguisse encontrá-lo... Ele me disse que queria destruir o Olimpo pedra por pedra. Traiu todos os que conhecia. Ele... ele odeia você, especialmente.

Hermes olhou de modo contemplativo para as estrelas.

– Meu caro jovem primo, se há algo que aprendi ao longo das eras, é que você não pode desistir da sua família, não importa quanto se sinta tentado a isso. Não importa que eles o odeiem, o envergonhem ou simplesmente não apreciem seu gênio por ter inventado a Internet...

– Você inventou a Internet?

Foi idéia minha, disse Martha.

Ratos são deliciosos, disse George.

– Foi minha ideia! – falou Hermes. – Quer dizer, a Internet, não os ratos. Mas isso não vem ao caso. Percy, você entende o que estou dizendo sobre a família?

– Eu... eu não tenho certeza.

– Um dia entenderá. – Hermes levantou-se e sacudiu a areia das pernas. – Enquanto isso, preciso ir andando.

Você tem sessenta chamadas para retornar, disse Martha.

E mil e trinta e oito e-mails, acrescentou George. Sem contar as ofertas para comprar ambrosia on-line com desconto.

– E você, Percy – disse Hermes – tem um prazo mais curto do que imagina para completar sua missão. Seus amigos devem estar chegando mais ou menos... agora.

Ouvi a voz de Annabeth chamando meu nome das dunas. Tyson, também, estava gritando um pouco mais longe.

– Espero ter feito as malas para vocês direito – disse Hermes. – Tenho certa experiência com viagens. – Ele estalou os dedos e três sacos de viagem amarelos apareceram aos meus pés. – A prova d'água, é claro. Se você pedir educadamente, seu pai é capaz de ajudá-los a chegar até o navio.

– Navio?

Hermes apontou. É claro: um grande navio de cruzeiro estava atravessando o estreito de Long Island, as luzes brancas e douradas brilhando na água escura.

– Espere – disse eu. – Não estou entendendo nada disso. Eu nem mesmo concordei em ir!

– Eu me decidiria nos próximos cinco minutos, se fosse você – aconselhou Hermes. – É quando as harpias chegarão para comê-lo. Agora, boa noite, primo, e... será que ouso dizer? Que os deuses o acompanhem.

Ele abriu a mão e o caduceu voou para ela.

Boa sorte, disse Martha.

Traga para mim um rato, disse George.

O caduceu se transformou no telefone celular e Hermes o enfiou no bolso. Ele saiu correndo pela praia. Vinte passos depois, tremeluziu e desapareceu, deixando-me sozinho com uma garrafa térmica, um frasco de vitaminas e cinco minutos para tomar uma decisão muito, difícil.


Notas Finais


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