História Perdido na Patagônia - Lucas Inutilismo - Capítulo 2


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Categorias Cauê Moura, Felipe Castanhari, Lucas Vinícius (Canal Inutilismo), Rafael "CellBit" Lange
Personagens Lucas Vinícius, Personagens Originais
Tags Inutilismo, Lucas Inutilismo, Lucas Vinicius, Oculto!au, Patagônia, Romance
Visualizações 13
Palavras 4.671
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Literatura Feminina, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olha nóis aqui outra vez
Boa leitura <3

Capítulo 2 - Um hotel de sutilezas


Amanda, cariño. Venga a la biblioteca tan pronto cuanto termine, ¿sí?

Por supuesto, abuelita. 

Somei mais algumas diárias e pus o livro-caixa de lado com um suspiro. A taxa de 60% de ocupação me preocupava um pouco; se continuássemos a operar com tão poucos hóspedes, eu teria que adiar a viagem por mais um mês. Não que meus avós se importassem em gerenciar o hotel sozinhos ― haviam feito isso por décadas antes de eu aparecer ―, mas eu detestava deixá-los sem ter as coisas em perfeita ordem.

Guardei o livro na gaveta da grande escrivaninha e passei a chave, prendendo-a junto ao grande molho unido por uma argola que eu sempre levava no bolso do casaco. O inverno daquele ano fora rigoroso, com uma média de -20°C, ventos fortes e nevascas. A primavera estava em seu auge, mas guardava algumas quedas de temperatura ocasionais. Mesmo dentro do hotel aquecido, ainda era necessário usar roupas quentes de lã.

Saí do escritório principal e segui o corredor acarpetado em direção à biblioteca. Meus cabelos negros e lisos, presos em uma elaborada trança, caíam pelas costas balançando conforme eu caminhava, as botas grossas forradas por lã de lhama fazendo um som abafado contra o chão. Passei por Moses no corredor.

― Moses, peça à señora Díaz que me passe a lista dos ingredientes daquela nova sobremesa, ¿sí? Preciso elaborar um inventário o mais rápido possível.

Sí, señorita.

O homem corpulento prosseguiu seu caminho, equilibrando a pilha de caixas que oscilava em seus braços, e eu virei-lhe as costas. Meus olhos passearam distraídos pelos quadros que adornavam as paredes do corredor limpíssimo, pinturas a óleo vindas de todas as partes do mundo e que retratavam, em sua maioria, paisagens belas e tranquilas, bosques, florestas, montanhas. Reparei que o canto do papel de parede no fim do corredor estava começando a se soltar; anotei mais aquele reparo à minha lista mental de tarefas a fazer e entrei na biblioteca à direita.

Permiso.

― Amanda ― Abuela fez um gesto para que eu entrasse, sem desviar os olhos do papel que tinha em mãos. Abuelo estava sentado em uma poltrona no canto da biblioteca, seus cabelos brancos flutuando ao redor da cabeça como teias de aranha. Passei por ele e não resisti ao impulso de beijar o topo de sua cabeleira de algodão. ― Cariño, como estão as taxas?

― Temos uma previsão de três grupos de hóspedes para as próximas duas semanas, o que mantém a ocupação em 75% quando os noruegueses forem embora.

Bueno. É maravilhosamente providencial que as proporções estejam baixas agora, já que receberemos em breve aqueles brasileños da marca de calçados, lembra-se? Com o acréscimo desse grupo, teremos um crescimento de 10% nas ocupações. 

Soltei um pequeno suspiro de alívio. Eu estivera conversando com a Adidas, uma empresa norte-americana de artigos esportivos que pretendia formar uma parceria conosco. Eles disseram que mandariam uma resposta em breve; abuelita aparentemente se adiantara e já firmara contrato.

― Isso é ótimo! Quem são e para quando os esperamos?

― Alguns jovens… como é que eles disseram, Galvarino?

Iutchúberez ― meu avô atalhou, prestativo.

― Isso, iu… iutchu… essa coisa. Disseram que são como cinegrafistas amadores, que fazem todo o processo de criação e filmagem sozinhos. Eles querem visitar Torres del Paine, dentro do roteiro cinco. A estimativa de estadia é de duas semanas, como sempre, considerando o período de permanência no hotel.

― Quantos são os youtubers?

Ora, niña ― abuelito me lançou um olhar cheio de repreensão ― ¿Su abuela no te dice que eran diez por ciento? Entonces, ¡te pueña a hacer las contas!

― Três deles, suponho.

Exactamente. E, Galvarino, deixe Amanda em paz ¡hombre de Dios! ― Abuelita rabiscou algo na folha de papel e continuou como se não a houvéssemos interrompido ― Querida, eles chegam daqui a três dias. Espero que você os recepcione e cuide de tudo como sempre.

Sí, abuelita.

― E também gostaria que os acompanhasse nesse trajeto. Sabe que confio em Leonardo como em meu braço direito, mas o representante da marca foi bem claro quando disse que deveríamos fornecer um guia que saiba todas as informações da região. Não consigo pensar em ninguém melhor para esta tarefa que você, mí querida.

― Tudo bem. Há mais de dois meses que não saio para caminhar e vou adorar acompanhar Leo. ― Abuelita assentiu, já prestando mais atenção em sua papelada que em mim. Era minha deixa para sair. Deixei a biblioteca por uma porta lateral, saindo diretamente no andar superior à recepção. Desci as escadas pensando na lista de artigos a serem pedidos no mês seguinte e nos youtubers que viriam. O hotel Chewelche fica no centro mais isolado do deserto da Patagônia, onde é impossível conseguir sinal de qualquer coisa que não seja rádio ― e mesmo esse usado apenas para comunicação. Dessa maneira, eu pouco sabia sobre youtubers estrangeiros, e toda informação disponível acerca dessa gente eu havia descoberto em minha última viagem a Buenos Aires, há mais de nove meses.

Viver em quase completo isolamento não era de todo ruim ― para ser sincera, eu preferia assim. Chewelche era minha casa há quase vinte anos, e eu amava aquele lugar com todas as minhas forças. Minha alma mapuche, gente da terra, fixara raízes no chão patagônico; eu pertencia às montanhas, aos rios efêmeros, ao céu desnudo que prometia liberdade. Eu havia crescido e me desenvolvido no seio do deserto da Patagônia, e nada poderia ser mais perfeito para mim.

Além disso, viver em um hotel turístico era extremamente confortável. Tínhamos previsões estocadas que poderiam durar oito meses em caso de isolamento, e mensalmente os rapazes iam até a cidade mais próximo ― duas horas de trenó híbrido em caso de tempo bom ― para reabastecer as reservas. Por ser um local muito procurado por aventureiros, celebridades e ricaços do mundo todo, o hotel Chewelche era repleto de ornamentos, obras de arte e mobília de bom gosto. Tínhamos livros o suficiente para entreter alguém por três vidas inteiras, milhares de filmes baixados em pen drives, comida da melhor qualidade e muita música, tanto ao vivo quanto em mp3.

Mas é claro que o maior tesouro que tínhamos estava fora do hotel. Uma imensidão gelada de natureza virgem; montanhas e pradarias que cobrem milhares de quilômetros argentinos e chilenos. Uma noite estrelada que não pode ser vista em nenhum outro lugar do mundo. Fauna e flora únicas.

Peguei o corredor que levava ao refeitório e desviei para a cozinha. A señora Díaz provavelmente já havia acrescentado os novos ingredientes à lista ― não eram muitos, ela me assegurou. Quando entrei no lugar, encontrei os quatro cozinheiros correndo de um lado para o outro, como era de praxe. A señora Díaz distribuía ordens alegremente, afastando os subordinados de seu caminho com os enormes seios que sempre antecediam a sua chegada.

― Olá ― eu disse em voz alta para anunciar minha chegada ― Rocío, a señora por acaso teria aí aquela lista que lhe pedi?

― Oh, Amanda ― Rocío Díaz virou-se de súbito, os peitos fartos ricocheteando contra seu avental. ― Um momento, querida. Devo ter deixado aqui em algum lugar… ― ela apalpou os bolsos do avental em busca do papel ― Aqui. Não se esqueça de mandar trazer casca de canela, viu? Da última vez, Moses me trouxe canela em pó. Que diablos eu faria com canela em pó?

― Fique tranquila, Rocío. Prometo que vou anotar direitinho dessa vez.

Gracias, querida.

Guardei o papel em um dos bolsos do casaco e tomei a direção do escritório principal. Aquele costumava ser o local onde abuelita gerenciava o Chewelche, até o cargo de gerente recair sobre mim há dois anos. Agora, abuelita e abuelo deixavam a grande maioria das questões administrativas sob minha supervisão, pois nenhum dos dois tinha idade para continuar a lidar com todas as exigências do hotel. Desde que abuelo ficara doente, alguns meses antes, abuelita abdicara de quase tudo o que dizia respeito à administração para tomar conta do marido.

Eu estava no meio da escadaria quando alguém gritou meu nome do lado de fora. Desci as escadas em um impulso, escorregando pelo corrimão, e aproveitei que a recepção estava vazia para correr pelo salão sem me incomodar com os hóspedes. Irrompi pela porta de entrada e encontrei Leo a descarregar sua mochila pesada do trenó de neve.

― Cat! ― Ele abriu os braços para que eu me encaixasse ali. Ouvi um ‘uf’ abafado com o impacto. Ele esfregou minhas costas sobre as inúmeras camadas de roupa, me apertou de leve e se afastou com um enorme sorriso no rosto.

― Oi, Leo. Como foi a viagem?

― Ah, o de sempre. Gente, tumulto, algumas belas chicas... 

― Você não presta.

― Eu sei ― ele comentou alegremente, jogando a mochila nas costas ― Deixarei que você e Jose se divirtam com essa tralha toda enquanto eu tento matar Rocío do coração. 

― Ela fritou bolinhos ― gritei para ele antes que a porta se fechasse. A última coisa que ouvi foram seus passos apressados e Marcos, o recepcionista, gritando “no te atrevas a correr en mí recepción, ¡sangre y muerte!”.

Jose já descarregava alguns fardos do trenó, estendendo os braços para que eu os segurasse. Carreguei três pacotes das publicações periódicas que assinávamos; National Geographic, Nature, Planet, History, BBC, revistas nacionais e internacionais, jornais dos maiores veículos de imprensa chilenos e argentinos. Eu fazia questão de estar o mais atualizada possível com o mundo exterior, então havia convencido meus avós a dobrar o número de assinaturas e procurar opiniões mais diversas. O resultado era aqueles enormes fardos de revistas e jornais que chegavam mensalmente.

Com as costas levemente arqueadas pelo peso, subi algumas escadarias e deixei os pacotes na mesa principal da biblioteca. Abuelita sequer levantou os olhos com minha interrupção e de Jose.

― Jose, por favor, pode distribuir os jornais da semana em seus respectivos lugares?

― Claro. E quanto a essas revistas?

― Pode deixar que eu me encarrego delas, obrigada.

Deixei o homem a cuidar dos periódicos e carreguei as revistas mais interessantes até meu quarto, que ficava no último andar, reservado. Era um lugar pequeno e isolado, mas eu preferia daquela maneira. Sentei-me sobre a cama para folhear o Planet. Fui interrompida por três batidinhas discretas na porta.

― Entre.

― Cat ― A cabeça loura de Leo apareceu detrás da porta, seus cachos compridos balançando na altura dos ombros. Leo era a única pessoa do mundo que me chamava pelo segundo nome, “Catalina”. ― Lendo como sempre, é claro.

― É claro ― Respondi com um sorriso, mas colocando a revista de lado. ― Estou sempre atenta ao mundo externo. Ser gerente do hotel exige isso de mim, você sabe.

― E exige tanto que nunca tem um tempo para os amigos. Deixe-me roubá-la um pouco do hotel, Cat. Tenho certeza de que ele não vai se importar.

― Acho que posso ceder alguns minutos.

― Ótimo ― Leo agarrou meu braço e me puxou escada abaixo, certamente com medo que eu acabasse mudando de ideia. Nos esgueiramos pelos corredores evitando as áreas de lazer comum. Acabamos caminhando pelo depósito, que havia acabado de ser carregado.

― Não sei se abuelita comentou, Leo, mas em três dias há uma turma para sair com você até o Torres del Paine. Brasileiros. 

― Os youtubers? Sim, sua avó disse algo a respeito. Mas confesso que não estou muito animado para lidar com rapazes inexperientes com suas câmeras e perguntas sem sentido. Da última vez que um youtuber veio para cá, el hijo del gran puta caiu com todo o equipamento dentro do rio e quase morreu de hipotermia, isso sem mencionar os comentários idiotas que ele fez por todo o percurso. 

― Vou com vocês dessa vez.

― Agora a coisa muda de figura ― Leo abriu um sorriso no rosto antes carrancudo. Ele era um rapaz muito bonito, com um queixo largo e sorriso fácil. Leo tinha olhos de um azul-escuro peculiar, herança dos avós espanhóis, além de cabelos de um tom louro claríssimo. Seu corpo era uma profusão de músculos e força, moldado por uma década e meia de treinos, escaladas e percursos intermináveis de bicicleta.

Leo havia chegado ao Chewelche há quatro anos, com recém-completos vinte anos de idade, uma mochila de aventureiro nos ombros e nem um peso furado nos bolsos. Ele viera para subsitituir um dos guias, Gomez, que havia se casado e ia se tornar pai em breve. Mesmo tão novo, Leo tinha uma invejável coleção de aventuras e escaladas, além de um físico impecável e muita responsabilidade.

Nos últimos tempos, eu vinha percebendo uma mudança sutil na maneira como ele se comportava comigo. Mais atencioso e gentil, sempre se mantendo por perto. Não queria encorajá-lo a nada enquanto eu não descobrisse o que havia entre nós, então tentava manter uma relação amigável e descontraída.

― Faz tempo que não saio do hotel. Preciso esticar as pernas. Além disso, os youtubers precisam de alguém para descrever a geografia da Patagônia.

― Então não estamos lidando com completos imbéciles dessa vez, hein?

― Um deles pretende gravar um documentário sobre a Patagônia em breve. Os outros três vêm pelo turismo, sendo que o último quer gravar todo o percurso e criar um vídeo de comédia ― Recitei, lembrando das instruções que recebera dos patrocinadores do documentário. ― Serei uma espécie de assessora e guia.

Hombres de sorte.

― Ou de azar. Sabe que não sou tão paciente quanto você.

― É impressionante como você pode ser duas pessoas diferentes, dentro e fora do hotel. Enquanto a Amanda gerente é calma e tranquila, a Amanda das estepes tem o temperamento mais duro que já vi. O que muda?

― O ambiente. As montanhas e o vento trazem à tona meu sangue mapuche, Leo. Não se esqueça que sou índia.

― Como poderia, Cat, se a cor escura de seus olhos sempre a denunciam? Negros como a noite, misteriosos. Ninguém mais poderia ter olhos como os seus, a não ser uma mapuche.

― E ninguém mais teria esses olhos azuis, Leo, se não fosse um maldito caçador de chicas. Quantas seduziu nessa viagem? Dez?

― Uma garota para cada dia em que estive fora, hum? Tem meus atributos em alta conta, Cat. Eu custaria a convencê-la de que fui casto como uma freira com gripe.

― Ha, ha. Está bem.

― E lá vem você com esse cinismo. Poxa vida, mí ángel, não sou o garanhão que posso parecer.

― Eu te conheço de outros carnavais. Terá que fazer mais que isso para me convencer. 

― Por você eu viveria em celibato. Por mais difícil que seja essa tarefa.

Senti uma onda de irritação percorrer meu corpo, imediatamente fazendo-me enrijecer. Minha resposta-padrão a situações desconfortáveis era o distanciamento e a frieza. As coisas ficavam mais fáceis daquela maneira.

― Tenho que subir. Nos falamos mais tarde.

Leo deixou as mãos caírem ao lado do corpo, o semblante resignado, e assentiu. Obriguei-me a manter ao menos um pouco da boa-educação e abri um meio sorriso que ele retribuiu.

 

° ° °

 

Três dias mais tarde, era chegada a hora de buscar os quatro hóspedes brasileiros e dois franceses. Depois de duas horas balançando no trenó, chegamos ao ponto de encontro, onde os turistas nos esperavam. 

O casal francês era composto por duas mulheres de trinta e poucos anos, uma ruiva e outra morena. Elas estavam em sua Lua de Mel, casadas há menos de um mês. Chamavam-se Chloé e Damires.

Já os brasileiros chamavam-se Felipe, Cauê, PC e Lucas. O mais alto deles, Cauê, chegava facilmente a dois metros de altura, um gigante barbado e cheio de tatuagens que tinha uma aparência bastante intimidadora. PC tinha um jeito particularmente  fofinho para a idade que aparentava ― trinta e poucos anos ―, e mesmo sua tatuagem preta cobrindo um dos braços de cima a baixo de alguma maneira contribuía para essa impressão. Felipe era um rapaz narigudo de sorriso tranquilo, que falava com calma num ritmo cadenciado. Gostei dele imediatamente. O último deles era Lucas, já com a câmera em mãos. Lucas tinha cabelos e olhos escuros, do mesmo tom negro profundo que os meus. Ele também tinha barba, embora cultivasse um cavanhaque bem-aparado e bigode farto no lugar de uma barba cheia. Com sua tendência a fazer gracinhas com tudo e levar as coisas na brincadeira, não pude ter certeza se gostara dele ou não, então resolvi descobrir mais tarde.

― Olá. Eu sou Amanda, gerente do hotel Chewelche, e serei a guia de vocês nessa viagem. ― Fiz o discurso inicial em alto e bom tom, usando o português ― Peço que os senhores dirijam-se ao trenó de trás.

Os youtubers começaram a carregar suas bagagens até o trenó enquanto eu repetia as instruções para as mulheres, dessa vez em francês. A garota ruiva, Damires, abriu um sorriso radiante. 

Merci. Desculpe-me, mademoseille, mas… quantas línguas a senhorita domina?

― Algumas ― Respondi de modo evasivo. ― Sabe, tantos anos vivendo no hotel acabaram exigindo que eu me tornasse poliglota. Agora vamos, oui? Não devemos nos demorar.

Leo dirigia o segundo trenó, enquanto eu seguia adiante com Jose e as francesas. As garotas gostavam de conversar, em especial Damires, que queria saber tudo sobre a cultura e geografia locais. A volta foi muito mais agradável que a vinda, conosco trocando informações e notícias sobre a Argentina e a França. As garotas eram cativantes e mantiveram minha atenção dispersa, coisa que apenas raramente acontecia.

Mais ou menos na metade do caminho, fiz um sinal apressado para Leo pedindo que parasse o trenó. Sob os olhares confusos dos hóspedes, desembarquei na neve suja e caminhei pisando duro com as botas de solado grosso até o trenó de trás.

― Com licença ― dirigi-me ao mais jovem youtuber, Lucas, recitando o discurso-padrão que há muitos anos já tinha decorado ― O senhor deve parar de colocar seu corpo para fora do trenó. É perigoso. Por favor, mantenham-se o tempo todo com os membros para dentro do veículo.

― Desculpe ― Ele baixou os olhos ― Estava tentando conseguir uma boa imagem das montanhas.

― Tudo bem. Apenas não volte a se arriscar assim. ― Com um aceno afirmativo para Leo, continuamos nosso caminho. Damires e Chloé não pareceram impressionadas com o sermão que tive que aplicar; os franceses de modo geral são bastante diretos, assim como a maior parte dos latino-americanos. Nesse ponto os brasileiros são parecidos com os ingleses; tudo o que se faz exige uma quantidade incrível de baboseiras como “desculpe”, “por favor”, “não se incomode”. Cheios de fricotes. Nossos modos mais diretos são vistos como uma tremenda falta de educação por esses povos, mas ― a bem da verdade ― somos apenas menos afetados.

― Chegamos, garotas ― Anunciei depois de cerca de outra hora transcorrida. O sol se punha detrás das montanhas, colorindo o céu com tons variados de vermelho, laranja e rosa ― Bem vindas ao hotel Chewelche.

― Oh, Chloé! ― Damires beijou a esposa em um impulso apaixonado e a abraçou com força. ― Mon fleur, que lugar maravilhoso. Você tem uma ótima percepção para escolher viagens.

― Sei bem como você gosta de conforto, Damires. Vamos descendo, vamos, Amanda já deve estar cansada de nos esperar.

Eu havia descido do trenó a fim de lhes dar um pouco de privacidade, e as esperava junto com o restante do grupo. Leo ajudava Jose com as bagagens, e Moses já havia contornado o hotel com o carrinho de carregamento.

― Muito bem, gente. Hoje todos terão o dia livre para descansar, o que sugiro que façam. Amanhã pela manhã estaremos saindo em dois grupos para as caminhadas e escaladas, então certifiquem-se de estar bem dispostos para enfrentar o gelo. Por enquanto, é só.

Deixei os visitantes na entrada a fazer o check-in. Eu estava com fome, então tratei de escapulir até a cozinha para roubar algumas frutas. Conversei um pouco com Rocío a respeito dos carregamentos ― feitos com perfeição dessa vez, ela me assegurou. Circulei pela recepção mais uma vez, apenas para garantir que tudo estava em ordem, antes de subir em direção ao meu quarto. Fora um longo dia; eu merecia algum descanso.

Estava no segundo lance de escadas quando ouvi passos apressados pelo corredor. Franzi as sobrancelhas conforme outros sons chegavam a meus ouvidos. Mais passos, um barulho agudo como meias se arrastando contra o carpete, um baque surdo e assustadoramente alto. Eu já tivera que lidar com situações parecidas, é claro, mas ― geralmente ― os envolvidos eram crianças de sete anos. Até onde eu me lembrava, não tínhamos hóspedes daquela faixa etária no hotel.

Com um suspiro resignado, dei meia-volta e entrei na porta lateral que levava aos quartos. A cena que se desenrolou não foi nada agradável.

― Senhor ― Chamei, anunciando minha presença. Um Lucas estatelado no chão, coberto apenas por calções pretos e meias brancas nos pés, olhou para mim com surpresa e uma leve pontada de vergonha no rosto afogueado. Tentei ignorar sua clara falta de roupas, embora fosse difícil evitar apreciar o peito desnudo ― O que está fazendo, se me permite perguntar?

Ele se levantou em meio segundo, revelando ser uns bons trinta e cinco centímetros mais alto que eu, arrumando os cabelos com uma mão enquanto a outra segurava uma câmera torta. Três ou quatro tatuagens cobriam seus braços, bastante discretas porém evidentes o suficiente para prender minha atenção. Seus músculos não eram excepcionalmente desenvolvidos, mas tampouco diria que lhe faltava força nos braços firmes. Os ombros largos e belos contrastavam com a cintura baixa e estreita, um corpo em formato de triângulo invertido que era estranhamente hipnótico, do peito levemente moreno à barriga chapada. Era realmente um belo exemplar masculino da espécie, tenho que admitir.

Cala a boca, Amanda!

Apenas por medida de segurança, dei um passo hesitante para trás, colocando um pouco mais de distância entre nós. Agradeci mentalmente quando ele juntou os óculos quadrados no chão e os encaixou no rosto, disfarçando um pouco a profundidade de seus olhos escuros.

― Desculpe ― Ele disse finalmente, parecendo ainda mais envergonhado que na primeira vez ― Eu estava apenas...

― Tentando conseguir boas imagens do hotel, suponho ― completei, um pouco mais ríspida do que gostaria ― Como sempre.

― Desculpe ― Ele repetiu. Sua expressão era tão encantadoramente arrependida que, por um segundo, senti um impulso esquisito de confortá-lo de alguma maneira.

Fechei os olhos com força e chacoalhei a cabeça, mandando aquele pensamento para longe.

― Procure se conter da próxima vez, senhor Silva. Não quero ter que trocar os carpetes.

― Bem, eles são ótimos para patinar. Odiaria saber que foram trocados ― ele retrucou com sinceridade. Cerrei os olhos.

― Espero que não esteja falando sério. Corredores não são feitos para brincadeiras inconsequentes.

― Só uma pessoa completamente desprovida de humor não conseguiria ver o potencial desse carpete, senhora...

― Sánchez ― completei automaticamente ― E o que o senhor está sugerindo?

― Não estou sugerindo, senhora Sánchez. Estou afirmando.

Cruzei os braços num gesto involuntário, mordendo o lábio inferior para conter uma risada. Ao que parecia, eu tinha me enganado quanto à natureza educada dos brasileiros. Jamais teria imaginado que Lucas seria capaz de usar o sarcasmo tão abertamente.

― Fico feliz que tenha compreendido minha absoluta falta de humor. Espero que isso signifique seu bom comportamento durante as próximas duas semanas, certo?

Lucas riu baixinho.

― Costuma ser grosseira assim com todos os seus hóspedes?

― Apenas com aqueles que tentam destruir meu hotel ― repliquei. Com um último olhar de aviso, virei-me e saí dali.

 

° ° °

 

Aquela prometia ser uma noite bem fria; decidi, portanto, tomar um banho um pouquinho mais demorado do que o bom-senso recomendava. Como o hotel fica isolado, nosso encanamento não se liga ao sistema de esgoto, o que significa que temos que armazenar a água usada e outros resíduos para serem descarregados uma vez por mês. Nosso abastecimento de água também é mensal, o suficiente para um hotel de quatro estrelas como o Chewelche se manter confortavelmente.

Não tinha acontecido nada de incomum naquela noite, mas eu vinha me sentindo esquisita desde que havíamos trazido os novos hóspedes, e sentia que ― no fundo ― aquela sensação ruim tinha a ver com Lucas.

Por quê?

Não faço ideia.

Descartei da mente esse pensamento incômodo, ensaboando minha pele com um pouco mais de força que o necessário. Não havia motivo algum para eu sentir calafrios, como se algo ruim pudesse acontecer, por mais forte que fosse esse pressentimento. Abuelita costumava dizer para acreditar nas mensagens enviadas por Pachamama, nunca dar as costas às sensações femininas. Ela estava certa, é claro, mas Lucas...

Não, não, não. Era só uma confusão da minha cabeça. Não havia nada de errado.

Saí do banho renovada e mais tranquila. Gastei uns bons quarenta minutos secando meu cabelo ― não porque ele exigisse muita atenção, mas por ser quase comprido demais. Outra das superstições de abuelita era em relação ao cabelo; de acordo com ela, uma moça jamais deveria cortar seu cabelo sem motivo.

Quais os motivos válidos? Nascimento de um parente, morte de um parente, a primeira menstruação, casamento. O que significava que nenhuma tesoura se aproximava dos meus lisos e negros fios há, aproximadamente, sete anos (quando minha menarca veio), e tudo o que fora cortado na época fora muito bem enterrado em algum lugar entre as montanhas. Agora, aquela cabeleira densa chegava facilmente na altura de meus joelhos, o que me obrigava a mantê-los presos em penteados ou tranças o tempo todo.

Faltavam quinze minutos para a meia-noite quando desci à recepção uma última vez a fim de verificar se tudo estava em ordem. Meus avós dormiam a sono solto ― ao menos era o que eu esperava ― e todos os hóspedes já haviam se recolhido. Alguns funcionários ainda estavam acordados, mas o toque de recolher seria tocado em breve e apenas os seguranças assumiriam o turno. Fiz uma varredura minuciosa, conversei com Moses, verifiquei os ambientes de socialização e a sauna. Não havia nada fora de seu devido lugar. Assenti para mim mesma e me obriguei a conter outro calafrio.

Nas escadas, enquanto retornava a meu quarto, encontrei um Leo com calças de pijama, pantufas e um pesado casaco de lã. Ele tinha um copo de leite na mão.

― Cat ― chamou com visível prazer ― Tão tarde distribuindo ordens por aí?

― Eu não estava... ― Comecei, mas me calei e sorri. Ele retribuiu ― Tá bem, fui falar com Moses. E você, por que não está em seu quarto, sonhando com as mil e uma maneiras diferentes de aterrorizar os hóspedes?

Leo pendeu a cabeça para a esquerda, fazendo com que os brilhantes cachos louros balançassem sobre seu ombro.

― Minha pequena fruta cítrica, hoje você está particularmente azeda. Vamos, confesse. Tem algo te incomodando.

― Por que diz isso?

― Você passou a tarde toda de mau humor, resmungando baixinho. Logo você, a gerente que sempre tem tudo sob controle e nunca aparece de cara amarrada perto de hóspedes! Além disso, ― ele trocou o copo quente para a outra mão e tocou minha testa com um dedo aquecido, afagando o vinco que eu nem notara ter se formado ― dá pra ver nos seus olhos.

― Foi só... um longo dia. Não é nada.

Leo segurou delicadamente uma mecha de cabelo que caiu em meu rosto, desviando-a e prendendo atrás de minha orelha. Como estava pronta para dormir, eu deixara meus cabelos soltos. Ele recolheu a mão devagar.

― Entendo. Espero que uma boa noite de sono possa te restabelecer.

―Tenho certeza que sim ― respondi, embora não fosse verdade.

Demorei algumas horas para pegar no sono. Quando adormeci, tive pesadelos durante toda a noite.


Notas Finais


Alô! Aqui estamos novamente.
Quero deixar registrado desde o início que não tenho qualquer intenção de conseguir números grandes de favoritos ou comentários ― afinal, sei muito bem que o fandom inutilismo é pequeno nas fanfics.
Mesmo assim, eu amo demais receber comentários e feedbacks! Se você chegou até aqui e quiser me agradar um pouquinho, por favor, deixe seu comentário <3

Obrigada pela leitura e vejo vocês no próximo capítulo ^3^~


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