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História Perdition - Capítulo 5


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Notas do Autor


Hello everyone! Cês ainda lembram que essa fic é conteúdo adulto neh? Ah tá, só pra saber...

Vamos ver como a Valerie tá lidando com o fato de ter voltado a vida...

Boa leitura!

Capítulo 5 - O Segredo


Fanfic / Fanfiction Perdition - Capítulo 5 - O Segredo

— Valerie Lockheart Winchester —

Ninguém diz que aquilo que os humanos conhecem como “silêncio” não é silêncio de fato, é apenas um conjunto de ruídos brancos que se sobrepõem. Tudo no mundo faz um som, o vento ao redor, nossa própria respiração, nosso coração batendo, o sangue correndo em nossas veias. O que conhecemos como silêncio é apenas o momento confortável em que os ruídos brancos ao nosso redor estão todos em uma faixa vibracional que não incomoda nossa audição.

E eu sempre gostei de silêncio, isso até eu conhecer o silêncio de verdade, a ausência de todo e qualquer som, foi assim no Vazio por um longo tempo, nem sequer um mínimo ruído, nem mesmo as batidas do meu próprio coração...

O tempo lá dentro tinha sua própria forma de passar, de modo que, quando eu eventualmente encontrei Crowley, graças a pulseira de Rowena, eu já havia passado tantos dias no silêncio que sequer me lembrava mais como era ouvir algum som.

Depois de Crowley o silêncio acabou, mas despertar o demônio veio com um grande ônus, eu irritei o Vazio, e lá dentro as regras normais não se aplicam, apenas as regras dele... Eu e Crowley começamos a viver realidades mentais diferentes dentro do mesmo espaço físico. O silêncio se foi totalmente pra mim.

Havia apenas o choro ininterrupto e infinito que me enlouquecia dia a dia, algo que Crowley não ouvia, mas tinha o poder de dilacerar minha alma por dentro.

Então o Vazio finalmente me confrontou com a verdade: eu perdi mais que apenas minha vida quando Billie arrancou meu coração...

Fechei os olhos e me obriguei a não pensar nisso, eu não podia, respirei fundo e tentei usufruir do silêncio ruidoso que pairava entre mim e Dean. Estávamos caminhando em direção ao Impala que havia ficado na estrada, e eu honestamente queria dizer que a falta de palavras não me incomodava, mas os tons de azul de Dean se chocavam com minha aura e a confusão de emoções dele me deixava inquieta.

Parecia que tínhamos muito a conversar, mas não sabíamos por onde começar...

Era maravilhoso estar com ele outra vez, claro que era, me afogar nos tons de azul que preenchiam a aura dele quando nos reencontramos foi a melhor coisa que eu fiz em muito, muito, muito tempo. Era bom estar em casa, e Dean sempre seria a minha casa. Porém, quando os tons começaram a oscilar demais, conforme os eventos do dia foram se desenrolando, havia uma parte da minha própria aura rubra que o repelia, o que tornava ficar perto de Dean estranho como nunca tinha sido.

Eu já estava acostumada com o mar rubro dentro de mim, já podia reconhecer seus movimentos sinuosos e as ondas de raiva ou selvageria que emanavam por minhas veias vez ou outra. Com o tempo eu entendi que o comportamento daquele poder era apenas um reflexo mil vezes intensificado dos meus próprios sentimentos: se eu gostava, o mar carmesim amava; se eu sentia raiva, mesmo que mínima, isso se tornava um ódio quase visceral; se eu estava brava, então o poder rubro fluía furioso dentro de mim.

Entendi que a separação não era possível, não existia mais eu e o caos em mim, era apenas eu... Aquele poder estava intricado em minha aura, minha mente e meu corpo, não havia como fugir da transformação que ele causava em mim. Não era como ter uma segunda personalidade ou um alter ego, eram mudanças permanentes da minha essência. As emoções intensificadas eram meu novo padrão, eu teria que aprender a lidar com elas. Com as boas e as ruins.

Amar com tudo que tinha em mim e odiar na medida inversamente proporcional. Não havia um meio termo para nada, eu tive que me acostumar a lidar com os dois lados intensamente opostos e, acima disso, eu tive que aprender a entender o mar caótico na minha mente. Era uma força da natureza selvagem, não gostava de ser contrariado.

Eu não gostava de ser contrariada.

Então sim, naquele exato momento o carmesim caótico na minha aura e os azuis infinitos de Dean não estavam em sincronia em alguns pontos, mas honestamente isso não me preocupava, eu sabia que era passageiro, afinal quando se tratava de Dean Winchester um único sentimento sempre seria o predominante: Amor.

Amor intensificado mil vezes.

E isso me dava a certeza que ficaríamos bem, qualquer outro sentimento em relação a ele seria sempre passageiro se comparado ao amor. Precisávamos apenas de tempo para nos reconectarmos novamente...

Ainda estava com isso em mente, quando pude avistar a o Impala alguns metros à frente.

— O que aconteceu com a Baby? — Perguntei, observando o carro que estava bem longe de seu constante estado perfeito de conservação.

Não era apenas a sujeira ou o trinco enorme no para-brisas, o Impala parecia inteiro malcuidado.

— Foi só... — Dean moveu os ombros sem terminar a frase.

Sua aura oscilou em tons angustiantes e eu tive minha resposta, mesmo sem ter as palavras de fato.

Tinham sido tempos difíceis...

— É, eu entendo. — Falei apenas, afinal não precisava que ele explicasse, se fossemos falar tudo que tínhamos sofrido naqueles setecentos dias, isso afastaria toda e qualquer possibilidade de felicidade.

E Dean merecia ser feliz, mais do que qualquer outra pessoa no mundo.

Com esse propósito em mente eu decidi que algumas coisas seriam melhor ficarem não ditas, precisávamos seguir em frente...

Dean destravou as portas, mas ao invés de entrar direto no carro eu pousei minha mão no para-brisas, o dedo correndo sobre a trinca, enquanto eu me concentrava em direcionar o mar carmesim naquela direção. Lentamente os átomos foram se alinhando e um segundo depois não havia qualquer indício de que um dia aquele vidro estivesse quebrado.

— Uou... — Dean murmurou com a atenção no que eu fazia.

Apenas sorri pra ele e finalmente entrei no Impala. Logo estávamos sentados lado a lado e Dean gira a chave para ligar o motor.

Os olhos verdes que eu tanto amava encontraram os meus e ele segurou minha mão e levou aos lábios, toda a oscilação em seus tons de azul desaparecendo totalmente, como um céu limpo e sem nuvens. Toquei o rosto de Dean depois que ele beijou meus dedos e contornei sua barba não feita.

Estava claro por cada traço abatido que Dean precisava de cuidados, de amor e de carinho. E eu faria tudo isso, com certeza.

Sorrimos um paro o outro e nos arrumamos nos bancos para que o Impala começasse a ganhar a estrada. Iriamos direto para Hot Springs ver o resto da nossa família...

A palavra “família” fez o mar carmesim se sacudir na minha mente e eu me mexi desconfortável, me esforçando para afastar qualquer pensamento que ameaçava brotar, trazendo todos os sentimentos amargos que eu com certeza não queria que tomassem conta de mim naquele instante.

— Então, tem mais algum truque que você aprendeu que eu deva saber? — Dean perguntou e eu fiquei feliz de poder focar em outro assunto.

— O caos pode manipular os átomos. — Comecei a explicar, com base no que eu tinha aprendido naqueles setecentos dias, quando comecei a prestar mais atenção no meu próprio poder e a procurar as respostas que estavam dentro da minha própria mente. — Significa que eu posso consertar e mover coisas, posso destruir coisas, mas não posso criá-las, ou recriá-las depois de obliteradas. Eu manipulo átomos, mas não os crio e no fim, a forma exata como isso acontece tem muito muito a ver com o que eu sinto, então na verdade não sei explicar muito.

— E o lance de ler a mente dos outros? — Pude sentir a aura dele oscilar de novo, era perceptível que aquele ponto dos meus poderes o desagradava.

Tentei não me ofender com isso, afinal eu devia saber que invadir a privacidade dele como eu fiz não seria algo bem visto, mas sequer pensei nisso naqueles momentos...

— Não é exatamente isso. — Procurei as palavras certas e resolvi começar por uma parte do meu poder que Dean já conhecia. — Como você sabe, eu posso enxergar a aura de cada pessoa, isso significa que eu vejo o que você sente naquele instante em que olho para a oscilação das cores. Não é relacionado com a minha visão no entanto, vem com um outro tipo de sentido que não os cinco básicos...

— Mas você leu minha mente. — Fui interrompida e respirei fundo, contendo a irritação que tencionou todos os meus músculos.

— A aura é uma coisa complexa, o caos em mim faz com que eu a sinta de formas distintas, tem as cores, impregnadas com os sentimentos e também tem os átomos nela. — Tentei ser mais direta. — Eles são como dados dentro de um computador, quando eu toco alguma coisa, eu posso acessar o “histórico de navegação” dos átomos, ou posso também ver o exato momento em que os átomos se agrupam para formar um pensamento consciente.

Dean franziu as sobrancelhas e percebi que minha explicação não fazia muito sentido para ele. Decidi ser um pouco mais didática, olhei pelo Impala e peguei uma garrafa de cerveja vazia do chão.

— Por exemplo, se eu tocar nisso... — Mostrei o objeto e então me concentrei nele. — Eu posso ver onde foi feito, as distribuidoras pelas quais passou, o momento em que foi transportado para aquele mercado ao norte da praça de Lebanon, e depois quando você comprou e tomou sentado nesse mesmo banco.

Narrei todo que eu via ao me concentrar na garrafa. Dean alternou o olhar entre a estrada e eu, parecendo compreender um pouco mais.

— Foi o que eu fiz com o Castiel, eu vi senti sua aura oscilar angustiada demais quando falei dele. — Apenas o fato de relembrar a cena me fez fica angustiada também. — Então toquei você e puxei o histórico da última vez em que seus átomos tiveram contato com o dele.

— O dia que ele foi puxado para o céu... — Dean completou e sua aura escurecida e nublada não escondia o quanto aquele momento foi difícil pra ele.

— Isso, eu fiz algo assim quando obliterei Miguel, decifrei os átomos dele e as cores ao mesmo tempo. — Continuei explicando, e era interessante colocar em palavras as respostas para momentos que eu nunca tinha entendido totalmente. — Como eu disse é uma experiência extra-sensorial então é muito difícil de explicar, e eu não entendia a teoria por trás da prática naquele momento.

Dean assentiu devagar, parecia um pouco mais conformado com o que eu dizia.

— Eu sou basicamente um grande processador que decifra almas, posso ver/sentir as cores/sentimentos impregnados nelas e posso ler/decifrar os átomos/história quando toco na pessoa ou objeto. — Concluí com um mover de ombros, pensando que a conversa mudaria de foco.

— E o que isso tem a ver com “pensamentos conscientes”? — Dean citou um termo que eu mesma havia usado, provando que estava prestando total atenção no que eu dizia.

Decidi que podia ser didática outra vez. Ergui minha mão e a aproximei do rosto dele.

— Posso? — Perguntei antes de tocá-lo e recebi um movimento positivo totalmente incerto.

Eu já tinha lido a mente de Dean sem permissão mais vezes do que devia, não precisava fazer isso outra vez...

— Pense em uma cor. — Pedi e consegui visualizar a exata imagem que se formou instantaneamente. Sorri de canto, surpresa com o que via e desfiz a conexão mental. — Você pensou nos meus olhos. Isso não é exatamente uma cor.

Dean me encarou por alguns segundos, a surpresa nas orbes verdes era palpável, então ele sorriu também.

— Eu gosto de cor dos seus olhos. — Deu de ombros como se fosse nada demais e eu acariciei o rosto dele sentindo minha aura se encher com o mais puro amor. — Então é assim que funciona?

— Quando pensamos em algo, os átomos do nosso cérebro formam essa imagem na nossa mente naquele momento, como não é uma lembrança, é apenas um pensamento, ele vai desaparecer, a menos que você o traga de volta. Se eu estou tocando em você no momento em que essa imagem ainda está na sua mente, então eu posso vê-la também. — Expliquei da melhor forma que eu conseguia. — Por exemplo, quando te faço uma pergunta, mesmo que subjetiva, como “o que você faria se alguém roubasse a Baby?” Você faz uma imagem mental da resposta e se eu estou te tocando nesse momento eu...

— Sabe exatamente o que eu pensei. — Dean completou, provando que tinha entendido tudo.

— Exato. — Assenti, então abri um sorriso. — Mas nesse caso eu nem precisaria te tocar, porque sei que você diria “tortura e violência”.

Dean riu da forma como imitei a voz dele e eu acabei rindo também.

— Você me conhece bem — Ele admitiu pousando os olhos em mim por alguns segundos para então voltar a encarar a estrada. — Sam vai adorar essas nerdices todas.

Ri disso também e percebi que sentia muita falta de Sam, assim como sentia de Delilah e Jack, mesmo que em um primeiro momento eu tenha ficado um pouco irritada com todos eles terem deixado Dean sozinho do bunker...

Mas meu marido estava certo, eles mereciam ser felizes e viver tudo que a vida tinha de melhor, não era justo que tudo isso fosse arrancado deles assim como foi arrancado de mim e Dean.

Então não via a hora de encontrar todos eles.

— E é “só” isso? — Dean perguntou e eu foquei nele por alguns segundos.

Não era. Mas havia coisas que eu não estava disposta a contar, então preferi focar nos poderes e ser honesta sobre eles são serem tão inofensivos quando pareciam.

— Se eu soltar o caos em mim, eu posso fazer com que ele se infiltre na outra pessoa. É mais que apenas no corpo, como fiz com Ramiel... — Pensar no anjo revivido fez todo o mar carmesim se rebelar dentro de mim, mas eu busquei algum autocontrole. — O caos se aloja na mente e continua até tocar a alma, é muito doloroso eu imagino, nem acho que tenha como voltar atrás depois de chegar nesse ponto, mas no exato momento em que eu tenho a pessoa infectada eu posso mexer com o subconsciente dela; posso manipular os átomos dentro da cabeça dessa pessoa para que a mente dela crie as imagens que eu quero. Eu posso ler o medo de alguém e reproduzi-lo antes de obliterar completamente aquela alma.

— Foi o que você fez com a Billie. — Dean afirmou certeiramente e eu assenti.

Eu não me arrependia, na verdade o sofrimento dela me causou satisfação, pena que foi apenas momentâneo, a vingança tinha gosto de areia no céu da minha boca, porque na verdade, passado o instante de raiva, tudo que restava era a lembrança da dor que tinha me levado até aquele momento.

Raiva era, certamente, muito melhor, mas a dor sempre voltava, era inevitável...

— E como você sabia que podia fazer tudo isso? — Dean perguntou, impedindo meus pensamentos de sucumbirem as minhas piores lembranças.

Eu ainda podia ouvir o choro...

— Vazio mandava anjos e demônios atrás de nós... Ele os acordava e os convencia a seguirem suas ordens, certamente prometia algo em troca. — Contei, preferindo não entrar em detalhes sobre todas às vezes que fomos caçados, feridos e torturados até que eu aprendesse a revidar e Vazio percebesse, enfim, que não fazia sentindo mandar mais ninguém. — Como eu disse, tive tempo pra treinar.

Dean assentiu devagar, vi quando hesitou, seus tons azuis se debatendo em dúvida, antes que finalmente colocasse isso pra fora:

— Por que você soltou ele?  Por que deixou o Vazio ir? Você podia tê-lo vencido, eu vi.

Prendi a respiração incomodada com a pergunta e com a linha de raciocínio que ela trazia à tona. As imagens que Vazio havia me mostrado, quando eu estava prestes a acabar com ele, assombraram a minha mente com toda a riqueza de detalhes que minha memória fotográfica tornava possível.

O caos dentro de mim se agitou em fúria e dor, enquanto por fora eu tentava não esboçar nenhuma reação.

— Se eu obliterar o Vazio tudo que está lá dentro, todas as almas, são obliteradas também. — Respondi, usando a verdade para ocultar alguns fatos.

Eu não estava mentindo, mas preferi guardar certas coisas pra mim mesma, proteger Dean da verdade crua era o melhor a se fazer naquele momento.

— Então você estava disposta a obliterar o céu, mas não o Vazio? — Ele jogou e seu tom não me agradou em nada.

Toda minha aura repeliu a dele, com se as duas entrassem em choque.

— É diferente. — Respondi apenas, tentando focar minha atenção em qualquer coisa que não fosse o desconforto crescente em todo um corpo.

— Como? É exatamente a mesma coisa. — Dean acusou e o mar rubro agredia minha mente em ondas violentas, implorando para sair.

Tentei manter o controle, os impulsos furiosos eram apenas isso, impulsos. Se eu seguisse o instinto visceral de apenas derramar a verdade para que a dor em mim saísse e também atingisse Dean, eu sabia que me arrependeria imediatamente. Eu o amava demais para machucá-lo daquela forma.

— Gabriel está no Vazio. — Respondi, desejando que ele apenas aceitasse aquela resposta parcialmente verdadeira e mudasse de assunto.

Sim, eu tinha procurado por Gabriel no Vazio e nunca fui capaz de encontra-lo, porém ele não era de fato minha prioridade.

— Seu pai e sua mãe estão no céu. Junto com o meu pai também... — Dean não parou. Eu fechei os olhos tentando apenas bloquear minha audição e pensamentos. — Na verdade se pensarmos bem, existe bem mais gente que conhecemos e gostamos no céu do que no Vazio, não é?

O caos se agitou tão forte dentro de mim que tive que fazer meu melhor para contê-lo, meus punhos estavam fechados tão forte que eu podia sentir as unhas ferirem minhas palmas. Dizer que eu gritava dentro da minha própria mente seria um grande eufemismo, eu pude sentir que perderia o controle...

Tudo aconteceu depressa demais; o mar carmesim batendo violentamente contra todas as minhas barreiras mentais; a pontada aguda no meu coração; o estouro no motor do Impala e, por fim, os pneus cantando enquanto o carro rodava na pista.

Ergui o punho e simplesmente paramos no mesmo instante, a energia rubra envolvendo os quatro pneus para mantê-los no asfalto.

— Merda...  — Dean xingou ofegante, enquanto fumaça saia do motor. — Você está bem?

Seus olhos preocupados analisaram meu rosto e eu assenti devagar, sentindo todo o caos se acalmar em fim.

— Deve ter sido todo esse tempo que a Baby ficou parada. — Ele suspirou, abrindo a porta e descendo do carro.

Eu duvidava muito que de fato tivesse sido coincidência, mas Dean parecia inerte ao meu surto interno...

Era estranho constatar que eu costumava ter muitos problemas para mentir e esconder coisas, e depois do Vazio eu o fazia quase que instintivamente. Setecentos dias, que mais pareceram uma eternidade, com uma entidade cósmica torturando minha mente e um demônio para me ensinar a como me proteger e esconder meus planos, para que Vazio não estivesse sempre um passo a nossa frente, com certeza eram o fator chave naquela minha nova “habilidade”.

Eu podia mentir tão bem quanto apenas o Rei do Inferno seria capaz de ensinar.

Desci do carro também, e parei ao lado de Dean que tinha o capô aberto e encarava o motor esfumaçado.

— Eu posso... — Movi minha mão, no intuído de restaurar tudo que pudesse estar quebrado, mas ele me impediu com um gesto.

— Não precisa. — Segurou minha mão, mas foi de forma carinhosa. — Antes de... tudo, você disse que não queria ficar usando esses podres lembra? Lá no Vazio eu entendo que você precisasse, mas isso é só um problema mecânico, o que acha de voltarmos a normalidade?

Encarei os olhos dele por alguns momentos. O caos tinha se tornado tão natural pra mim que a resposta do mar carmesim àquela proposta não foi boa. No entanto, tinha lógica ali, eu ainda não sabia se o motor quebrado e minha raiva latente tinham correlação, mas parecia mais seguro manter tudo aquilo bem longe de Dean.

— Claro, você está certo. Foi só o costume. — Assenti finalmente e ganhei um sorriso em resposta.

— Tudo bem, eu entendo. — Dean me puxou para perto e beijou minha testa.

Eu apenas o envolvi por alguns segundos, sorvendo o cheiro dele como se fosse algo calmante e me sentindo terrível por ter me irritado com alguém que eu amava tanto.

Dean não tinha culpa de nada.

Ergui a cabeça e beijei-lhe os lábios de leve, antes de me afastar, para contornar o carro e pegar as ferramentas no porta-malas. Foi muito estranho não ver arma alguma ali, deu até uma sensação ruim, ao mesmo tempo em que eu não pude deixar de me perguntar se todo o restante do mundo não estava melhor sem o sobrenatural...

Entreguei as ferramentas para Dean e enquanto ele se ocupava do motor eu aproveitei para recolher o lixo do carro. Não era minha intenção, mas quando dei por mim eu já estava lendo a história de cada garrafa, latinha e papel amassado que pegava para jogar fora.

Cada pequena coisa trazia uma imagem dolorosa de Dean, ele estava cada vez mais deprimido e devastado a cada cerveja e eu nunca me arrependi tanto de ouvir Billie e Mary Winchester quanto naquele momento.

Se eu não tivesse morrido Dean não teria sofrido tudo aquilo. E nem eu.

Prometi a mim mesma que nunca deixaria que minha dor caísse sobre os ombros dele, e coloquei o saco com o lixo no porta-malas, para ser despachado na primeira lixeira. Eu podia ter obliterado tudo, mas ouviria Dean e tentaria evitar de ficar usando o caos em mim.

Voltei para perto dele e o abracei por trás, colando meu rosto em suas costas e escutando o coração dele bater contra o meu ouvido. Eu amava aquele homem demais.

Ele envolveu minhas mãos e eu senti todos os tons de azul me abraçarem, era daquele jeito que Dean devia ser sempre. Feliz.

— Não descobri qual é o problema, acho que perdi o jeito. — Ele riu, então se afastou de mim apenas para se virar e me abraçar de frente. — Vou chamar um guincho, tem uma cidadezinha logo ali na frente, então não deve demorar a chegar.

Concordei com qualquer coisa que ele decidisse e ficamos ali abraçados enquanto esperávamos. Cerca de uma hora depois, após deixarmos o Impala no mecânico, paramos em um hotelzinho na entrada da cidade.

O carro ficaria pronto em algumas horas e eu insisti que Dean descansasse pelo menos um pouco, porque ele estava realmente abatido.

Ele abriu a porta do quarto e encarou o lugar, os tons de azul oscilando desconexos, ora saudosos, ora felizes, ora apenas confusos e um tanto tristes.

— O que? — Perguntei, analisando a expressão dele sem conseguir descobrir nada de mais palpável.

— É estranho estar em um lugar assim de novo. Faz muito tempo... — Dean declarou e eu finalmente entendi.

Ele não tinha perdido apenas a mim e ao Cas naqueles setecentos dias, ele tinha perdido a única vida que conhecia...

O vi se jogar na cama enquanto tudo que eu sentia era uma enorme necessidade de proteger Dean de tudo e de todos.

— Eu vou buscar alguma coisa pra gente comer. — Declarei, decidindo começar a cuidar do meu marido exatamente como ele merecia.

— Eu vou com você. — Dean se colocou de pé outra vez e deu alguns passos na minha direção.

— Não. — Ergui o dedo em riste em um tom firme, mas carinhoso. — Você fica e descansa um pouco. Eu não demoro.

— Você que manda, esposa. — Ele retrucou, agindo como se eu fosse uma grande mandona, então me entregou o cartão de crédito.

— Já volto. — Avisei, dando-lhe um beijo rápido e saindo de seus braços antes de ficar presa neles.

Dei meia volta e meu sorriso se encontrou com o de Dean enquanto eu fechava a porta.

Não tive que andar muito até a lanchonete mais próxima, mas era estranho caminhar entre as pessoas de verdade e falar com elas. O simples ato de comprar comida parecia bizarro.

No Vazio não existia nada disso, nada de comer, dormir, ou qualquer outra necessidade básica inerente ao corpo humano, talvez por isso setecentos dias lá ainda parecessem muito mais tempo pra mim...

Comprei tudo que Dean gostava, incluindo torta e cerveja, é claro, e então deixei a lanchonete. Apenas dois passos depois senti uma presença repentina, antes mesmo da pessoa estar fisicamente ali.

— Olá, Crowley. — Saudei, reconhecendo o prateado que envolvia a aura do demônio.

Crowley era como mercúrio liquido, fluido e brilhante, era como uma armadilha viva, indomável e perigoso.

— Você pretende alimentar um time de basquete? — Ele apontou minha sacola de compras, passando a andar do meu lado casualmente.

— O que você está fazendo aqui? — Questionei, virando meu rosto para encará-lo.

— Sou apenas um amigo com saudades... — Ele moveu os ombros e ajeitou o terno enquanto atravessamos a rua.

Revirei os olhos para a mentira deslavada e parei na calçada.

— Você podia apenas poupar o nosso tempo e dizer de uma vez o que você quer. — Declarei neutra e então ergui minha mão em direção a ele. — A menos que prefira que eu mesma olhe, Homem de Lata.

Crowley se afastou dois passos.

— Dispenso esse tipo de facilidade. — Seu tom típico me fez revirar os olhos outra vez. — Mas falando em Homem de Lata... da última vez não era eu sem um coração...

Suspirei, neguei algumas vezes e voltei a andar.

— Essa é a sua preocupação? — Questionei, sem me importar realmente, enquanto Crowley tornava a caminhar do meu lado.

— Estabelecemos que você precisa do equilíbrio mente, alma e coração pra manter seus poderes sob controle, querida Dorothy. — Eu já tinha ouvido aquele tom meio irônico meio sarcástico tantas vezes que sequer me importava mais. — E pelo que eu sei, você morreu exatamente porque não seria capaz de manter esse mesmo controle e estava destinada a destruir o mundo. Então me desculpe se estou interessado em saber se devo me preparar para a aniquilação total, quero decidir se perdi meu tempo saindo do fogo apenas para entrar na frigideira.

— Devia fazer teatro, sua dramaticidade é comovente. — Retruquei, usando um tom parecido com o dele e então virei o rosto em sua direção. — Estou bem. Coração batendo dentro do peito exatamente onde tinha que estar.

— Mas você disse que ele não batia e a Morte arranc... — Não deixei que ele terminasse, apenas falei por cima:

— Eu sei o que te disse e sei o que aconteceu, mas de alguma forma meu corpo foi integrado com um coração dentro. Isso é tudo. — Declarei, querendo colocar fim ao assunto.

No Vazio eu não podia sentir ou ouvir meus próprios batimentos, imaginei que eu estava sem um coração por causa da maldita Morte, mas quando saí daquele inferninho eu pude senti-lo bater outra vez. E isso era um alivio, afinal eu sabia que ali, com um corpo humano e fora da inercia do Vazio eu realmente precisava do meu coração de ninfa pra manter o controle do caos em mim.

Não que ouvir meus próprios batimentos tivesse ajudado em qualquer coisa relativa a controle naquelas últimas horas...

Mas acima disso, ter meu coração de volta era um bônus duplo, porque era exatamente o coração de uma ninfa que garantiria que Dean não podia ser morto, não importava o que acontecesse. Era um bom seguro, mesmo que eu jamais fosse deixar chegar a esse ponto.

— Sério, Crowley, eu estou bem. Coração batendo e caos sob controle. — Reforcei, quando senti a preocupação no prateado que o envolvia. — Vai ficar tudo bem. Nos preocupamos à toa, um corpo humano precisa de um coração, é claro que o meu voltaria junto comigo.

Crowley assentiu devagar, parecendo desistir de contestar meu argumento. O que havia para contestar afinal?

— Certo, então coração no lugar, tudo em ordem... — Ele começou ainda seguindo meus passos. — Isso significa que você e o Dean tiveram uma conversa honesta e já tem um plano de ação sobre...

Ele sequer tinha terminado e eu me virei, sentindo o caos escapar de mim furioso. As lâmpadas nos postes de iluminação próximos, mesmo que apagadas, explodiram todas.

— Se você... — Minha voz saiu fria e ameaçadora, mas Crowley já tinha dado três passos para trás e tinha as mãos erguidas em rendição.

— Eu não contei pra ninguém, só estou fazendo uma pergunta. — Ele se defendeu, antes mesmo que eu pudesse terminar minha ameaça. — Você tem um plano?

O encarei por alguns segundos, apenas contendo o caos que fazia meu coração dar uma pontada desconfortável no meu peito. Aquela dor era nova, tinha acontecido no carro e antes, quando eu tive que me esforçar ao máximo para trazer o Castiel de volta, na verdade naquele momento doeu bem mais, quase como se eu simplesmente fosse sofrer um ataque cardíaco, ou como se meu coração fosse explodir. O que era obviamente ridículo, afinal o caos em mim não tinha poder para afetar meu coração. O coração de uma ninfa era o que continha o caos.

— Não ainda, mas vou pensar em um. — Respondi finalmente, afinal, por mais que eu quisesse evitar o assunto, eu podia falar com Crowley. Ele sabia de tudo... — Talvez eu fale com a Rowena, se existir um jeito ela é a pessoa que vai descobrir qual é.

Vi o demônio assentir devagar, algo ainda o preocupava.

— E se não tiver um jeito, e se tudo que o Vazio falou for verdade? Você vai suportar isso? Vai contar para o Dean? — As perguntas dele testaram a minha paciência.

— Se o que o Vazio falou for verdade, então não existe nada para contar ao Dean, não é mesmo? — Joguei de volta, muito mais rude do que era necessário. Eu não daria aquele tipo de péssima notícia ao Dean. — E não se preocupe comigo, eu sou capaz de suportar muita coisa.

Me virei irritada, mas continuei sendo seguida.

— Um típica Winchester, escondendo segredos... — O demônio cantarolou ao meu lado e eu senti que minha paciência estava sendo testada ao limite.

Respirei fundo, contando até dez mentalmente para manter minha calma, Crowley não estava errado, de fato eu vinha omitindo coisas importantes, mas ele não entendia...

— Você não entende Crowley, eu olhei na cabeça dele... Dean já sofreu demais nesses setecentos dias, e agora ele está feliz. — Retruquei, controlando meu tom de voz. — Se eu contar, ele vai ficar devastado, e o Dean não merece isso.

— Então é você quem merece ficar devastada sozinha? — O demônio devolveu, focando seus olhos em mim.

Desviei o olhar. Não era uma questão de merecer, não no meu caso, eu não tive escolha, mas no que dizia respeito ao Dean eu tinha uma, contar e vê-lo passar pelo mesmo tormento que eu, ou poupá-lo disso. E eu não queria aquela dor nos ombros dele, porque eu sabia muito bem o quanto pesava.

Dean não podia saber...

— Prometa que não vai contar nada, Crowley. — Pedi, voltando os olhos para ele.

— Eu não preciso prometer. O que eu ganharia contando? Você me acharia em um estralar de dedos e me obliteraria. Eu gosto de estar vivo, acabei de voltar, não pretendo morrer de novo. — Moveu os ombros como se fosse nada demais. — Além disso, do que te vale a palavra de um demônio?

O próprio Crowley tinha me dito que não devamos confiar em demônio algum, mas contra todas as probabilidades eu apenas confiei nele. Eu confiava no Rei do Inferno, se dissesse isso em voz alta certamente pensariam que era uma piada...

— Mas só pra constar, eu acho que você está cometendo um erro, Valerie. — Ele lançou, ainda andando ao meu lado. — Mas não seria o primeiro que você comete desde que voltou...

— Do que você está falando? — Parei, e virei na direção dele.

— A Morte. Sério? — Crowley usou um tom repreensivo. — Não podia tentar uma solução alternativa?

— Ela merecia. — Respondi firme e seca.

Billie apareceu bem na minha frente, o que Crowley esperava que eu fizesse? Deixasse a morte ir embora depois de toda aquela traição de arrancar meu coração? Depois de tudo que ela me fez perder?

Não. Ela não merecia viver. Ela merecia sofrer, mesmo que fosse apenas um décimo de tudo que eu tinha sofrido naqueles setecentos dias...

— Ao menos admitia que fez porque quis. — Crowley retrucou, mas não havia qualquer acusação em sua voz. — Você tem uma lista, eu respeito isso, mas cuidado ao obliterar cada um daqueles nomes, o mundo já vai estar à beira de um colapso, não tem necessidade de piorar isso.

— O mundo não vai estar à beira de colapso nenhum. — Revirei os olhos para os exageros do demônio.

— Sério? O véu rompido; o sobrenatural voltando todo de uma vez; o pós-vida sem uma Morte... se isso não é o cenário de um pré-colapso eu não sei o que é. Queria muito só aproveitar minha recém vida, mas não posso fazer isso se o mundo estiver um caos. — Ele apontou pra mim e deu um sorriso ladino. — Com o perdão do trocadilho.

Riu da própria piada, mas da minha parte só houve outro revirar de olhos e um suspiro entediado.

— De repente você passou de Homem de Lata para Grilo Falante? — Perguntei sarcástica, mas isso não ofendeu Crowley em nada.

— Não sei... Isso faz de você o Pinóquio? Acho apropriado, mentindo para o seu marido, andando por aí tentando ser um garoto de verdade, quando é só um fantoche nas mãos do Khaos ou de Deus, como você mesma teorizou, acho que se encaixa bem no papel. — Ele foi ainda mais sarcástico que eu. — Cuidado para o seu narizinho não começar a crescer na próxima mentira.

Minha expressão contrariada apenas serviu para que Crowley abrisse um sorriso irônico.

— Mande meus cumprimentos à Fada Azul. Soube que tirou ele do céu recentemente. — Ele pareceu dar nossa conversa por encerrada. — Parabéns por não colocar o lugar abaixo, a propósito.

E então não estava mais lá. Queria ficar irritada com a petulância do demônio, mas no fim eu já estava bem acostumada com o comportamento do Crowley... O que realmente me irritou naquele momento foi lembrar que eu não tinha colocado o céu abaixo. Seria mais uma coisa que eu teria que adicionar a minha lista.

Eu já estava farta de todo mundo pensar que podia machucar as pessoas que eu amava e ficaria por isso mesmo. Era hora de todos eles pagarem pelo que tinham feito. Além disso, seria um bom aviso para futuras ocasiões...

Se os inimigos tivessem que me temer para deixar minha família em paz, então que assim fosse.

Eu não me importava de bancar a vilã...

Quando cheguei ao hotel, deixei toda aquela preocupação, raiva e dor para trás, eu tinha que focar no homem que eu amava, que claramente precisava de atenção e carinho, e eu não podia fazer isso direito se estivesse mergulhada em sentimentos ruins. Eu queria que as coisas fossem como sempre foram entre nós, isso significava que eu tinha, definitivamente, que parar de permitir que os efeitos colaterais da minha raiva atingissem Dean. Ele não tinha culpa de nada.

Quando abri a porta não encontrei o teimoso na cama, descansando como eu tinha ordenado, mas honestamente isso não me surpreendeu.

— Já voltei. — Avisei, colocando as coisas que eu tinha comprado em cima da pequena mesa de dois lugares abaixo da janela.

— Demorou... — A voz de Dean veio do banheiro, de onde eu também podia ouvir o som da água corrente.

— Sentiu minha falta? — Perguntei, segundo naquela direção e parando no batente, já que a porta estava aberta.

Dean estava parado em frente ao espelho, concentrado em se barbear.

— Sempre... — Ele respondeu quando nossos olhos se encontraram no reflexo e eu sorri como uma resposta natural aos sentimentos bons que ele me causava.

— Eu tinha gostado da barba... — Comentei, dando alguns passos para dentro do cômodo.

Era um banheiro pequeno, ainda assim era maior que os que encontrávamos normalmente durante as caçadas, os azulejos eram feios, confesso, mas a banheira compensava esse ponto.

— E o Crowley também tinha gostado. — Dean retrucou com horror no olhar, como se isso fosse motivo suficiente para tirar a barba imediatamente.

Eu acabei rindo, enquanto ele se curvava um pouco para enxaguar o rosto já barbeado. Vi algo dourado pender do pescoço dele quando se abaixou. Minha aliança estava pendurada em um cordão, que Dean carregava junto ao peito. Tentei não me emocionar com aquele gesto, mas foi impossível, meus olhos se encheram de lágrimas que eu lutei para conter.

Dean se ergueu e puxou a toalha do suporte, alheio ao meu olhar, enquanto ele secava o rosto, então me aproximei mais alguns passos e pousei a mão em seu peito.

— Vai me devolver isso? — Perguntei, fazendo com que as orbes verdes encontrassem as minhas.

Eu podia ter puxado todo o histórico da aliança naqueles últimos tempos, mas preferi não fazer isso, o significado que ela tinha era mais importante que a história que ela carregava.

Dean jogou a toalha sobre a pia e levou as mãos ao cordão, tirando a aliança dele e então pegando minha mão, para encaixá-la no meu dedo.

Encarei o anel dourado e o ar sair aos trancos dos meus pulmões, em um gesto que refletia meu alívio, usar aquilo novamente era como a prova definitiva de que eu enfim estava em casa.

Dean beijou meus dedos com carinho e me puxou para perto, fechei os olhos quando a mão direita dele tocou meu rosto com cuidado.

— Eu te amo. — Murmurou, me envolvendo em um abraço tão apertado que era como se estivesse segurando a coisa mais importante do mundo ali.

O mar carmesim na minha mente se tornou calmaria e eu mergulhei nos tons de azul, como alguém que se joga no oceano para lavar todos os pecados.

— Eu te amo, Dean. — Respondi, o apertando conta o meu corpo também. — Você não faz ideia do quanto...

Ergui a cabeça e apoiei o queixo no peito dele, ao mesmo tempo que Dean abaixava o rosto na minha direção, nossos lábios nem bem tinham se tocado e o toque do celular veio do quarto. Ele murmurou um palavrão leve e eu ri ao mesmo tempo em que nos afastávamos.

Enquanto Dean saía para atender o telefone, eu resolvi encher a banheira. Eu podia ouvi-lo falando sobre o carro, então presumi que era o mecânico. Joguei todos os produtos para fazer espuma dentro da água e testei a temperatura, até que ficasse do meu agrado.

Dean terminou a chamada e imediatamente entrou em outra, eu ouvi o nome de Sam e parei de prestar atenção na conversa, embora o tom alegre de Dean tenha colocado um sorriso no meu rosto.

Tirei minhas roupas e entrei na água, sentindo a temperatura morna relaxar meus músculos lentamente. Suspirei, apreciando aquela coisa tão simples, enquanto brincava com a espuma que aumentava cada vez mais, provando que talvez eu tivesse exagerado na quantidade de produto.

Tentei não deixar nenhum sentimento amargo tomar conta de mim, foquei apenas na esperança de que ainda podia haver um jeito daquela história ter um final feliz...

— Pelo visto o carro só vai ficar pronto... Amanhã. — A última palavra de Dean morreu em sua garganta assim que ele deu um passo para dentro do banheiro e seus olhos focaram em mim. — Eu já avisei o Sam...

Ele parou de respirar, sua atenção totalmente na espuma que cobria meu corpo. Tinha uma das cervejas que eu havia comprado na mão direita e eu pude ver a garrafa tremer. Ri da reação dele e neguei algumas vezes de forma divertida.

— Eu não estou com pressa, você está? — Perguntei apoiando meus braços na borda.

Dean sorriu de canto, entendendo perfeitamente minha clara insinuação. Nossos olhos ficaram presos naquela intensidade quase instantânea e eu mordi o canto inferior dos lábios, movendo meus dedos no ar, fazendo com o cinto de Dean se soltasse da calça, segundo minha vontade. Ele seguiu esse movimento, para que então seus olhos verdes voltassem para mim, ainda mais intensos.

— Acho que você me disse que queria me mostrar alguma coisa quando chegássemos em casa. — Lembrei, com um sorriso ladino. — Aqui não é nossa casa, mas tenho certeza que serve...

— Serve, sim... — Ele concordou, movendo a cabeça devagar, e sua voz um tom mais rouca fez um arrepio quente percorrer meu corpo e atingir o ponto exato entre minhas pernas.

Ele deu alguns passos na minha direção e eu movi os dedos de novo, fazendo com que a garrafa de cerveja na mão dele flutuasse até a minha. Dei um gole, notando que o líquido continuava amargo exatamente como eu me lembrava, meus olhos permaneceram em Dean o tempo todo.

— Tire as suas roupas, senhor Winchester... — Ordenei, me ajeitando na banheira, para ter melhor visão da cena.

Dean se livrou dos sapatos e meias apressadamente, como quem está prestes a salvar alguém que está se afogando.

— Devagar... — Mandei, segurando meu sorriso ladino com a ponta dos dentes.

Ele riu de canto e umedeceu os lábios, assentindo, enquanto lentamente tirava a camisa de flanela e depois a camiseta. Escorreguei os olhos pelo corpo dele sem pressa, guardando cada pequeno detalhe na memória, como se não os conhecesse de cor... Dean parou as duas mãos no cós da calça jeans e abriu o botão tão vagarosamente que eu quase me arrependi de ter pedido por isso.

A forma como ele me olhava fazia meu corpo tremer em expectativa. Dean desceu o zíper e eu suspirei, a calça escorregou por suas pernas revelando uma boxer cinza que escondia uma ereção parcial.

Ele se livrou da última peça e eu mordi os lábios quando o primeiro passo foi dado, era excitante ver a distância entre nós acabar, enquanto Dean ficava mais duro a cada segundo, bem diante dos meus olhos.

Quando ele entrou na banheira meu corpo já implorava por seu toque de uma forma quase insana. Dean se sentou na água, de frente pra mim e eu me movi na direção dele ao mesmo tempo em que suas mãos alcançavam minha cintura.

Nossos lábios se uniram de forma imperativa e apaixonada, antes mesmo que eu me arrumasse sobre o colo de Dean. Eu realmente tinha sentido falta da forma como ele fazia amor com a minha boca toda vez que me beijava...

Eu podia sentir a urgência em cada toque de Dean, a forma como ele apertava minha pele para então escorregar a mão pelo corpo, cada átomo dele implorava por mim e eu sabia disso mesmo que não tivesse qualquer intenção de saber, era apenas automático, instintivo, eu sentia o desejo dele na ponta dos meus dedos, a cada toque, o que de alguma forma era capaz de me deixar ainda mais excitada.

Meu corpo ardia, pulsava doloridamente por ele, de modo que prolongar as coisas com preliminares era uma tortura que eu não estava disposta a sofrer.

Sentei sobre Dean apressadamente e ele puxou minha cintura de encontro a seu corpo com uma ansiedade sôfrega. Senti cada centímetro me penetrar de uma vez só, rápido duro e viril, fazendo com que nossas vozes se misturassem e se confundissem entre palavrões e gemidos.

Não paramos, não precisávamos de tempo, a urgência dos nossos corpos clamando um pelo outro era a única coisa que existia naquele momento. Eu segurei os fios loiros de Dean com força, me movendo contra ele de forma rápida. Suas mãos desceram por meu corpo e apertaram minha bunda com força, fazendo com que meu gemino alto cortasse ar.

Dean assumiu o controle do ritmo frenético em que nos movíamos, as mãos dele me puxavam em sua direção de forma imperativa e rude, enquanto ele se impulsionava de encontro a mim com a mesmo fervor.

— Mais... — Pedi sem qualquer lógica, sentindo a língua e lábios de Dean dominaram meu pescoço.

Mais rápido. Mais forte. Mais intenso. Meu corpo se rendeu totalmente a ele, atingindo um clímax avassalador no mesmo momento em que eu podia sentir o orgasmo de Dean fluir por cada átomo do seu corpo.

Era insano e arrebatador, eu nunca havia sentido nada igual...

— Puta merda... — Dean soprou de encontro ao meu pescoço, com a respiração desconexa e acelerada. Eu podia sentir o peitoral dele subir e descer de encontro ao meu corpo.

Minha própria respiração também estava tão bagunçada que, mesmo que quisesse, eu não teria conseguido formar uma só palavra. Apenas escondi meu rosto no pescoço de Dean, deixando alguns beijos lentos ali enquanto as mãos dele acariciavam minha pele lentamente, subindo e descendo por toda a minhas costas.

Fomos nos acalmando aos poucos, o toque de Dean cada vez mais lento e uma moleza gostosa tomando conta de mim...

De repente os dedos dele correram por algo que o fez voltar, senti quando traçou uma cruz nas minhas costas, exatamente sobre o coração. Mas ele não estava fazendo aquele movimento ao acaso, eu podia sentir que traçava uma marca. Uma cicatriz.

Era o local por onde Billie tinha arrancado meu coração...

Mas por que eu tinha aquela marca, se meu coração havia sido restaurando junto com meu corpo?

Decidi que não importava, era apenas uma cicatriz afinal e na verdade eu estava muito sonolenta pra pensar em qualquer coisa.

Eu só queria ficar ali, abraçada com o homem que eu amava e talvez fechar os olhos por uns minutinhos...

Era bom estar de volta.


Notas Finais


Esse capitulo tem muito material pra teoria, e eu já li algumas muito boas de vocês, então acho que ele é o bastante pra maioria acertar pelo menos metade do que tá rolando.

Valerie tá diferente sim, não podemos negar isso, mas o mais importante ela ainda mentem, ela se importa de verdade com as pessoas que ela e o Dean é a prioridade, como sempre...

Acho que dá pra considerar que eles se reencontraram totalmente agora kkkkkkk (eu sei que não tinha ninguém esperando um hot agora, porque vocês sabem que eu protelo ao máximo esse momento kkkkk mas não tem slowburn mais é só burn-burn mesmo kkkkkk)

Por enquanto é só... No próximo vamos ver o pessoal todo reunido.

Não esqueçam de lavar as mãos e limpar os celulares/notebooks/PCs com álcool.
Fiquem em segurança ❤
Beijos e até mais!


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