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História Perfect - Capítulo 13


Escrita por: vanelope-stars

Notas do Autor


Olá, minhas borboletas!
O capítulo de hoje é bem menor que o anterior (metade, praticamente), mas isso não significa menos emoções. Não mesmo. Gente, como o nome diz, é um apocalipse isso aqui KKKJ
Deixei alguns avisos nas notas finais.
Aproveitem 💕💙

Capítulo 13 - Apocalipses


Quando abri os olhos já havia sol, brisa, cantar de pássaros e música. Eu estava sozinho na enorme cama de casal de Jimin. Não temi estar atrasado nem nada do tipo, porque sabia que Jimin, trabalhando na mesma escola em que eu estudava e sabendo de cor meus horários, não me deixaria chegar tarde.

Sentei no colchão e bocejei. Me espreguicei. Me sentia uma nova pessoa e sabia que era bem mais que uma sensação.

Era real. Eu não era o mesmo Jeon Jungkook da noite passada.

Olhei ao redor e percebi que a janela estava aberta, como na noite anterior tive vontade de tocar a videira, me levantei e andei até o sofá embaixo da janela. Toquei a videira, os botões bem pequenos, admirei o jardim iluminado pelo sol da manhã e molhado pela forte chuva da noite. Era melhor que o Éden, sem dúvidas. Suspirei, passando os olhos por todas as grandes e pequenas flores que enchiam o quintal.

A Cosmos estava mesmo bonita. Já havia insetos próximos dela. Uma bela borboleta a paparicava. Sorri, sentindo uma estranha sensação de… encaixe.

ㅡ Devo ter sido um ótimo homem na vida passada ㅡ me virei assustado; Jimin havia adentrado o quarto ㅡ, pois a sorte de ter um rapaz tão bonito nu no meu sofá não é pra todos. ㅡ Sorriu. Segurava uma xícara e estava bem vestido, como de costume. Engoli em seco. ㅡ Não se acanhe, não é como se eu não tivesse guardado cada parte sua na memória. Fiz um café. Venha comer se quiser, ainda temos tempo até a hora de sair. Pode tomar banho no banheiro do quarto e usar minhas toalhas. Se não quiser usar as mesmas roupas de ontem, pode pegar uma das minhas, ou… andar sem roupas. As duas opções me agradam.

Apenas prossegui encarando seus olhos, sem saber como responder. Não estava com medo, só estava surpreso e sem graça. Não era todo dia que alguém me via pelado olhando pela janela. Eu nem mesmo andava sem roupas. Aquela foi a primeira vez e se não fosse com Jimin teria sido um verdadeiro martírio. Mas era com ele e isso tornou meu corpo exposto e amigo da brisa somente um detalhe vergonhoso, nada de pânico ou fortes inseguranças. Foi tão chocante pra mim quanto seria para Yoongi quando eu o contasse mais tarde.

Jimin caminhou até mim, se abaixou, segurou meu rosto e me beijou. Eu, nada empenhado em disfarçar meu amor, segurei seu pescoço e provei do seu gosto como se fosse morrer se não o fizesse. 

ㅡ Venha comer, é ruim ficar sem café da manhã. E, Jeon… ㅡ Desviou o olhar para o restante do meu corpo. Mordi o lábio.

ㅡ Hm?

ㅡ Você está divino. O sexo te fez bem.

ㅡ Nesse caso… não seria correto praticar continuamente?

Ele gargalhou, me levando a fazer o mesmo. Bati em seu ombro, enrubescendo. Jimin me encarou outra vez, lambeu os lábios e tocou meu tórax. Desceu a mão até a minha cintura… Arrepiei e suspirei. Seu toque alcançou meu quadril e seguiu para o interior da minha coxa esquerda. Eu estava em chamas e com medo de ficar duro tão fácil diante dos olhos dele. Jimin olhou atentamente para a minha coxa e estalou a língua no céu da boca.

ㅡ Pode colocar isso no sofá? ㅡ pediu, me entregando sua xícara. Assenti, deixando o objeto (cheio até a metade com café) ao meu lado. ㅡ Obrigado, Jeon.

Ele se ajoelhou. Fiquei confuso com o rumo da situação, porém logo entendi onde iríamos chegar quando ele separou minhas pernas. Fiquei vermelho, fiquei sem ar, fiquei animado… demais. Cobri o rosto com ambas as mãos ao notar meu pênis ereto em frente ao rosto de Jimin.

ㅡ Amo o jeito como nos entendemos tão bem, Jeon.

Sua palma direita me envolveu e me masturbou bem devagar, como disse noite passada que gostava. Não pude me manter neutro ㅡ não que eu estivesse sequer tentando. Soltei o ar com força e toquei o sofá, tentando segurar alguma coisa para me acalmar. Minha respiração estava tão fora de ordem que meu peito subia e descia em um ritmo quase violento. E Jimin nem tinha me colocado na boca ainda.

ㅡ J-Jimin…

ㅡ Está ansioso em um bom sentido? ㅡ Olhou-me. Concordei com a cabeça.

ㅡ Não… não sei o que fazer. Não estava esperando.

ㅡ O tesão não tem hora para vir, Jeon. Ninguém nunca te chupou antes? 

ㅡ Não. ㅡ Neguei com a cabeça. ㅡ Antes de ontem, eu… eu só tinha feito sexo oral uma vez, mas foi numa menina. Eu nunca… estive do outro lado.

ㅡ Agora está. ㅡ Sorriu e moveu a cabeça para o lado. ㅡ Não esqueça de me dizer como gosta e o que achou depois, tá bom? Vou te agradecer devidamente por ontem. Você gosta devagar primeiro, não é? ㅡ perguntou, me masturbando e prestando toda a atenção em seus movimentos. Focado em ver só a cabeça do meu pau aparecendo entre sua mão.

ㅡ S-sim, hyung…

ㅡ Vou te engolir bem devagarinho. Te lamber de mansinho… Mas não tema, tá bom? ㅡ Fixou seu olhar no meu. ㅡ Não se contenha. Se quiser puxar meu cabelo, se quiser empurrar minha cabeça ou foder minha boca, faça. Irei gostar até mais que você.

ㅡ Com força, não é, hyung? É como você gosta?

ㅡ Sim. Eu vou devagar… e você vai com força. Combinamos assim? ㅡ Assenti novamente. Ele sorriu mais uma vez. ㅡ Ótimo. Não vamos mais esperar.

Jimin prosseguiu com os movimentos manuais e, bem lentamente, começou a beijar minha glande. Era molhado, quente, gostoso… Eu gemi e me acomodei no sofá, deixando que Jimin me levasse onde quisesse levar.


{...}


O banheiro de Jimin era enorme. Tão cheiroso, reluzente e bonito que senti culpa por pisar no chão. 

ㅡ Me chame se precisar de algo. Estarei lá na cozinha ㅡ ele disse, me deu um último selinho e saiu do banheiro, me deixando sozinho no imenso cinza com branco de suas paredes e móveis.

Respirei fundo e adentrei o box. Havia uma banheira, mas eu queria um banho rápido que não esfriasse com o tempo, então preferi o chuveiro. Quando a água quente caiu em mim, foi como acordar.

Eu não só tinha transado com Park Jimin à noite como também havia recebido um boquete no sofá perto da janela. Arregalei os olhos e xinguei.

Meu Deus. Tinha mesmo acontecido. Subitamente, minha cortina de ebriedade desapareceu e a realidade foi tingida novamente. Meu Deus.

Como eu contaria tudo aquilo a Yoongi sem parecer um maluco? Como falar de serpentes, criaturas místicas, magia… Merda, como eu falaria de Park Jimin sem parecer alterado? Não havia forma.

Jimin estava certo sobre todas aquelas metáforas e palavras incríveis e sobre sermos iguais. Ninguém além de nós poderia compreender o que havíamos feito juntos. Era muito mais que sexo, muito mais que amor. Eu não sabia definir.

Pela primeira vez, eu tinha em minha vida uma pessoa cuja imagem e tamanho não era claro nem me intimidava. Jimin era… semelhante a mim. Nunca antes algo do tipo aconteceu.

Eu estava apaixonado, perdidamente apaixonado e viciado nele e em tudo o que ele me fazia sentir. Ele me tornava poderoso, me tornava selvagem. Me despertava, me tirava do corpo. Jimin me via e me fazia real. 

Minha vida estava tomando um rumo que jamais passou pela minha mente e eu sabia que não existia maneira de evitar. O que eu e ele tínhamos não sumiria e eu teria que…

Eu teria que assistir, passivo ou não, ele me livrando de todas as minhas mentiras e trevas. Meus medos voariam como borboletas fugindo da chuva, meu âmago desabrocharia como um botão e seria abraçado pela brisa. Eu respiraria sem medo, andaria sem receio, viveria sem a culpa de sempre. 

Eu estava sendo envolvido pelo inexplicável Park Jimin desde que nos vimos pela primeira vez e não tinha mais fuga. Eu estava destinado a me libertar e voar junto dele.

Eu, após tanto tempo, seria uma borboleta livre. A vida no casulo tinha dias contados.


{...}


ㅡ Você cozinha muito bem, Jimin. Nossa! ㅡ elogiei, comendo mais um pedaço de bolo.

ㅡ Agradeço. A culinária sempre foi uma paixão minha. Sairemos daqui a pouco. São nossos últimos momentos sozinhos.

ㅡ Isso é uma provocação?

ㅡ É um aviso.

ㅡ Hm. Certo. ㅡ O olhei com certo deboche e ele devolveu com um olhar surpreso.

ㅡ O quê?

ㅡ Nada. Enfim, ah… eu realmente gostei de ontem. Gostei de tudo e repetiria sem impedimentos. Eu sou muito grato, hyung, por tudo.

ㅡ Não fiz nada por você.

ㅡ Fez sim. Sabe que fez. Você… me tirou do casulo, hyung.

ㅡ Borboletas estão destinadas a voar, Jeon. Tudo o que eu fiz foi não esconder minha admiração. Eu vi você.

ㅡ E eu acho que esperei por isso desde sempre.

ㅡ Acho que esperou por sua liberdade desde sempre. Jeon… ㅡ segurou minha mão e a observou com carinho enquanto acariciava meus dedos ㅡ você sempre esteve aí dentro. Você sempre foi ousado, brilhante, chamativo, sedutor e tudo mais. Isso é você. Você é incrível, não tem porém. Você estava e está esperando pelo momento em que vai poder ser tudo isso. Sei que tem suas razões para não ser ainda, o lado de fora é hostil com você. Mas um dia você irá poder… se mostrar. É questão de tempo. Eu só entrei na fila, pois quero observar de perto todo o processo.

Tivemos uma troca de olhar que quase incendiou meu peito. Parecia que tudo estava sendo quebrado com violência. Tudo estava colidindo. Era o apocalipse.

Eu amei o apocalipse.

ㅡ Eu te amo, Jeon Jungkook. Profundamente. Você é exatamente o tipo de pessoa com quem sonhei dia e noite. Fogo, gelo. Magia. Estou viciado.

ㅡ Eu também estou. Estou enlouquecendo.

ㅡ Perdendo a razão, o mundo não faz mais sentido.

ㅡ Queima, hyung. Parece que você está me matando e... ㅡ ri, meu coração batia desesperado ㅡ é tão bom. Por que eu gosto quando você me destrói assim? Por que eu te amo, hyung? É estranho! É diferente! Nos conhecemos há pouquíssimo tempo…

Jimin se levantou e se agachou diante de mim, segurou meu rosto. Ele também estava queimando, seu toque era faminto, delirante. Tanto quanto o meu.

ㅡ Não importa o tempo, o local, não importa nada, Jeon, nada! Nós simplesmente somos assustadoramente atraídos um pelo outro. Chame de alma gêmea, chame de par perfeito, chame de ligação de outras vidas, diga que fomos feitos um pro outro! Não faz porra nenhuma de diferença! Eu te amo, eu te quero, eu te vejo, te reconheço e te admiro. E não há nada que eu possa fazer. Desde que trocamos a primeira palavra e se intensificou a cada dia mais. Explodiu ontem! Meu Deus, você estava tão lindo e foi tão claro comigo! Você se mostrou e eu tive certeza de que não estava me iludindo! Você é você. Você é Jeon Jungkook e Jeon Jungkook é, por coincidência, destino ou vontade divina, o meu calcanhar de Aquiles, a minha fruta proibida. O meu deus. Eu estou louco por Jeon Jungkook.

Mandei tudo para o inferno. Tudo, absolutamente tudo. Nada era relevante perto do que eu e Jimin éramos juntos.

O beijei com toda a minha fome, com toda a minha alma e coração. Ele me pegou no colo, fez a cadeira que me sustentava cair. Meu coração descontrolado bateu colado ao dele. 

Com o que de fato eu estava gastando meu tempo? Minha vida inteira era uma repetição infinita das mesmas inseguranças. Eu jamais vi a mim mesmo. Eu sabia o que tornava cada pessoa especial, mas não sabia o que também me tornava especial. Não entendia, porque não me via. Não me via e não via o que as pessoas viam quando olhavam pra mim.

Eu me vi pela primeira vez naquela cozinha, naquele beijo, pelo reflexo da porta de vidro. Eu me vi e fiquei hipnotizado com o que vi.

Eu me vi quando vi Park Jimin, pois Park Jimin era eu. E por isso eu não o entendia, porque eu também não me entendia. Por isso eu não nos entendia! Era um mistério, porém eu estava animado em resolvê-lo.

Park Jimin era tão Jeon Jungkook quanto eu. Eu era tão Park Jimin quanto ele. Eu era ele e ele era eu.

A epifania foi como um tsunami.


{...}


A viagem de carro até a minha casa foi tranquila. Jimin deixou uma música um pouco "jovem" demais tocando. Eu automaticamente pensava nele junto de músicas dos anos sessenta ou setenta. Ele ouvia muitas dessas. A que estava tocando, porém, era bastante atual e eu não a conhecia. Meu inglês ruim não me permitiu entendê-la. Encarei Jimin como se ele fosse meu avô e estivesse escutando Justin Bieber.

ㅡ O que foi? ㅡ questionou, rindo.

ㅡ Que música é essa? Tipo, você escuta algo que não seja de mais de vinte anos atrás?

ㅡ Nossa! Acho que nunca fui tão descaradamente chamado de velho antes!

ㅡ Mas, hyung, qual é… ㅡ Rimos, cheguei a até mesmo chorar de tanto gargalhar. ㅡ Sério, que música é essa?

God in jeans. Combina perfeitamente, já que você está usando uma calça jeans minha.

ㅡ Ah… ㅡ Fiquei sem jeito.

ㅡ A letra combina ainda mais. Quer que eu traduza? ㅡ Concordei. Ele cantou: ㅡ Freedom can die so hard, When you have a broken heart, Tears of joy, I pray to the open sky. A liberdade pode morrer tão fácil quando você tem um coração partido. Lágrimas de alegria, eu rezo para o céu aberto.

ㅡ E isso te faz pensar em mim? ㅡ indaguei, em tom de revolta.

ㅡ Calma, calma, espera o refrão. ㅡ Cruzei os braços. Ele riu. ㅡ É sério! Está vindo. Vou cantar. ㅡ Pigarreou. O refrão veio. ㅡ God is real, he was sleeping in my bed last night, We were naked with the radio on, Played him favorite song. Deus é real, ele estava dormindo na minha cama ontem à noite. Estávamos nus com o rádio ligado. Toquei a música favorita dele. ㅡ E prosseguiu, me olhando nos olhos: ㅡ My love is my religion, Preaching the choir, Fueling the fire. Meu amor é minha religião, pregando o coro. Alimentando o fogo.

Senti arrepios e encarei a rua pela janela. Porém, Jimin continuou falando e me vi obrigado a prestar atenção para poder entendê-lo. Se ele dizia que a música combinava, eu queria ouvi-la e senti-la também. Desta vez, ele apenas recitou em nossa língua junto do cantor, sem de fato cantar.

ㅡ Oh meu Deus, você sabe que eu preciso de você. Se eu for para o inferno, eu vou te levar comigo. Vou te levar comigo.

Ele me deixava perplexo e atento todo o tempo. Não era humanamente possível que eu amasse tanto alguém.

ㅡ Me dê mais, eu serei todo o seu amor. Eu acredito no paraíso acima. Venha e me dê vida. Mostre-me como é cair em seus braços. ㅡ Jimin sorriu e voltou a olhar a rua. ㅡ E o refrão repete. É assim que me sinto. As músicas que ouço ao seu lado são sempre… ㅡ Ele ficou rubro de repente e riu, sem jeito.

ㅡ Você as toca como um recado pra mim? Hyung, meu Deus, me perdoe! Eu sou péssimo em inglês e nunca entendo! Minha nossa, você já deve ter se declarado tantas vezes… Eu sou tão burro, Jesus.

ㅡ Não, você não é. Eu devia ter sido mais claro também. ㅡ Estalou a língua no céu da boca de novo. Viramos a rua. ㅡ  E se você quiser ajuda com o inglês, lembre que dou aulas particulares.

ㅡ Eu ainda ganho de graça? ㅡ Abri mais as pernas no assento e sorri ladino. Jimin riu soprado.

ㅡ Você? Jamais. Na verdade, o preço pra você é mais alto.

ㅡ Jura? Qual? Ah, hyung, não seja tão mau! Lembre que talvez eu não possa pagar… 

Jimin me olhou de canto e riu ao proferir um "Filho da puta" baixinho. Fiquei de boca aberta.

ㅡ Que péssimo exemplo, Jimin! Onde está sua classe e porte impecável?

ㅡ Ambas vão para o inferno quando você chega, Jeon. Nunca ouviu falar que onde tem Deus não há lugar para o Demônio?

ㅡ Pare de me chamar de deus o tempo todo. Fico sem graça. 

ㅡ Não. E sobre o preço... ㅡ me olhou de cima a baixo ㅡ acho que você pode pagar.

ㅡ Mesmo? E o que eu devo dar a você em troca de algumas aulas, Jimin hyung? Eu juro que te darei se puder!

ㅡ Vai me dar?

ㅡ Sem dúvidas! Eu vou dar pra você.

ㅡ Vai me dar quantas vezes?

ㅡ Quantas forem necessárias!

ㅡ Estão está certo! Você me dá e ganha aulas! Perfeito!

ㅡ Perfeito!

Gargalhamos novamente. Jimin pediu para que eu parasse de rir, pois minha risada o deixava feliz e ele não enxergava quando sorria e assim não poderia dirigir. Seus olhos ficavam fechados demais e ele não via nada. Achei tão adorável!

ㅡ Mas, falando sério, posso te ajudar com inglês. Fiquei de falar com você sobre as aulas de biologia, porém aconteceu tanta coisa que acabei esquecendo. Qualquer matéria em que eu puder ajudar, diga. Eu apareço a qualquer hora. Agora você pode ir à minha casa e eu posso ir à sua também. Tipo, não vai mais ter aquele clima. Poderemos estudar com mais facilidade.

ㅡ Perdão, mas que clima?

Jimin me olhou com uma expressão de tédio. Tive que rir, contudo logo parei, pois não queria que ele batesse o carro.

ㅡ Clima: a vontade absurda que eu tinha de te beijar e todos aqueles suspiros e arrepios seguidos que você tem quando estou perto de você ㅡ ele explicou. Fiquei com vergonha. ㅡ Sim, eu notava. Todo mundo notava, Jeon, você não é bom dissimulando.

ㅡ Você também não. Yoongi dizia todos os dias que você estava dando em cima de mim e eu não acreditava. 

ㅡ Não culpe o Min por notar o óbvio!

Rimos novamente. Nunca tínhamos estado tão próximos. Foi tão bom que me senti sonhando. Jamais imaginei que Jimin fosse tão… legal. Eu havia me revelado e ele também. Eu agora via seu lado tímido, provocador, divertido e amável. E estava me apaixonando ainda mais a cada nova faceta sua.

O carro parou. Minhas roupas estavam no cesto de roupa suja da casa de Jimin, então tudo o que eu tinha para levar de volta era meu celular, que estava no bolso. Abri a porta, dei um beijo na bochecha de Jimin e fui puxado pelo braço, pois ele alegou que eu não poderia ir embora sem beijá-lo direito. Olhei ao redor. Uma vizinha estava na janela. Voltei para o carro, fechei a porta e segui o conselho de meu pai: beijei Jimin dentro do carro, protegido pelos vidros escuros. Foi de língua, durou segundos e acabou em mordida. Minha mordida.

ㅡ Porra de beijo bom… ㅡ ele sussurrou. ㅡ Eu te amo. Vá logo, antes que eu transe com você no banco de trás.

ㅡ Nos vemos na escola e falamos das aulas mais tarde. Até mais, Jimin.

Mais um selinho e eu saí, acenei para o carro se afastando e respirei fundo. Dei vários pulinhos e gritei de felicidade. Que se fodesse tudo, nada iria estragar meu dia!

Entrei em casa emanando alegria e encontrei Yoongi tomando café com meu pai. Ambos me encararam. Meu rosto dizia tudo.

ㅡ Vou contar. Mas você vai ganhar a versão com cortes do diretor, pai, pois tenho certeza que tem coisas que você não quer saber.

Papai deitou a cabeça na mesa e grunhiu. Yoongi sorriu de modo diabólico, um aviso claro: Ou me conta em detalhes, ou eu te mato.

E, para a sorte dele, eu queria contar em detalhes.


{...}


A cada palavra que eu acrescentava às frases, Yoongi se chocava mais e mais. O caminho até a escola foi essa sequência de gritos finos de surpresa e olhos arregalados. Eu queimei de vergonha, no entanto não omiti nada. Minha alegria era maior que a vergonha.

ㅡ Puta merda… Jungkook, para de sorrir, assim o mundo todo vai saber que você fodeu! E se Jimin aparecer assim também, vocês estão ferrados, viu? 

ㅡ Não consigo parar, hyung! Não consigo parar! ㅡ Pulei de alegria e depois pulei e pulei de novo. Ele riu.

ㅡ Meu Deus! O que ele fez com você? Está parecendo tão… à vontade.

ㅡ Ele me deixa bêbado, hyung. O efeito vai passar daqui um tempo, mas enquanto eu estiver morrendo de amor vou ficar assim! Não sei te explicar também, mas Jimin me deixa… bem. Um bem diferente, sabe? Tipo quando nós fazemos algo só nós. Ele… me liberta.

ㅡ Que saco! Você está apaixonado por um cara incrível e conseguiu transar antes de sequer conhecer ele direito! Que tipo de feromônio você espalha? É sério! Você sai por aí fazendo as pessoas se apaixonarem por você! E eu aqui lutando pra dar uma bitoca no meu amor! Aish, eu te odeio, Jungkook!


{...}


As aulas passavam e eu sabia que não conseguia me conter. Estava me incriminando também, pois a todo momento olhava pela janela para saber se Jimin já havia chegado. Fiquei elétrico quando vi seu carro e quando o vi saindo do carro. Merda, ele estava tão lindo. 

Será que nossos cheiros estavam parecidos? Eu não tinha usado nenhum perfume na casa dele depois do banho e esperei para usar o meu. Talvez seu… sabonete? Cheirei meu pulso. Era o cheiro dele.

Arregalei os olhos. Porém, em seguida, notei que ficar nervoso apenas pioraria tudo e respirei fundo. Tinha que relaxar. Além do mais, quem além de mim conheceria tão bem o cheiro de Jimin a ponto de lembrar dele e associá-lo a mim? Teria que ser uma pessoa próxima dele. Decidi passar longe da sala dos professores. Yoongi não havia dito nada, então eu estava salvo? Questionaria mais tarde. Tudo bem. Tudo bem. Estava tudo bem.

Estava tudo bem até a professora abrir a porta e Park Jimin aparecer, dizendo que precisava me levar à diretoria. Haha. Hahaha. Nossa, como eu estava tranquilo! Hahaha!

Todos os olhares se voltaram para mim, que pigarreei e me levantei, saindo da sala e seguindo Jimin. Quando já estávamos longe o bastante da sala e sozinhos no corredor, indaguei:

ㅡ O que houve? Eu fiz algo?

ㅡ Preciso que confirme para a direção que Jisung assediou você. Eu fiz o que pude, alegando que você queria sigilo e nem mesmo tinha intenção de se pronunciar, mas era óbvio que isso não colaria por muito tempo. Só diga a verdade, ok? Vai ficar tudo bem.

Assenti, engolindo em seco. Eu não esperava aquele assunto retornando em um dia tão bom como aquele, mas decidi não pensar demais nisso. Uma hora iria mesmo acontecer.

ㅡ O que mais me preocupa é o Yoongi, hyung… ele está muito mais nervoso que eu com esse assunto. Tenho receio do que ele pode fazer ㅡ falei. Dobramos o corredor.

ㅡ Eu limpo a barra dele se puder. Diga a ele para não se exaltar. Jeon, eu vou cuidar de você enquanto puder. Não fique tenso, tá? A felicidade te deixa mais bonito.

Paramos na porta da diretoria. Jimin acariciou meu rosto e bateu no meu ombro. Era aquilo. Era essa merda de contato que podíamos ter na escola e ainda era demais.

ㅡ Não faça essa cara. Mantenha a imagem. ㅡ Fez uma expressão engraçada e estufou o peito. Ri. Ele apontou para a porta.

Agora era minha responsabilidade. Iriam me interrogar ㅡ o que me assustava; eu tinha sido assediado e era eu que tinha que ser interrogado? ㅡ e Jimin não poderia estar presente. Nada de novo. Ele era o professor "rejeitado" por fazer exatamente o que havia feito por mim: denunciar uma má conduta de um aluno muito… prezado? Essa não era a palavra, mas era fato que entre defender Jisung e me defender, a maioria não me escolheria. 

Eu tinha uma "má fama" desde que Hoseok me beijou anos atrás. "O gayzinho". Como me irritava. Tudo aquilo me irritava. Jisung me irritava. Eu queria enterrar aquele assunto pra sempre e fingir que não aconteceu, pra ver se assim viria alívio.

Eu só queria ir embora e deixar tudo aquilo pra trás, porém parecia que eu estava sendo perseguido e eu me sentia fraco demais para me rebelar. Suspirei e adentrei a sala. Mais surpresas! Jisung também estava lá. Instantaneamente tive vontade de desistir, de chorar. Não era possível que eu tivesse que passar por aquilo.

Me sentei na cadeira livre ao lado do Park. O diretor Choi pediu para que eu descrevesse o que havia ocorrido. Contei sobre nosso breve encontro. Falei que estava indo embora e parei para ver meu celular, que senti ele me tocando e o vi passando por mim depois. A pergunta seguinte foi o que levou embora minha confiança.

ㅡ Como tem certeza de que foi ele?

ㅡ O quê? Só tinha nós dois no corredor.

ㅡ Você viu ele tocando você?

Fiquei sem reação. Entendi o que a escola pretendia e me encostei na cadeira, sentindo meus olhos arderem. Neguei com a cabeça.

ㅡ Não vi.

ㅡ Então por que tem tanta certeza de que foi Park Jisung? ㅡ o diretor insistiu. Seu tom seco e aparência exausta não me passavam sensações boas.

ㅡ Já disse: só havia nós dois lá. Ele passou por mim logo depois. Era impossível que fosse outra pessoa.

ㅡ Mas você não o viu. Poderia ter sido outro aluno que você não notou. Ou… quem sabe um acidente?

ㅡ Aci… acidente? Como ele iria me apalpar por acidente? ㅡ Minha voz tremeu. Me senti ridículo e Jimin não podia me ajudar. Nem Yoongi, nem Jihyo, nem papai… Será que sempre que eu estivesse solitário fracassaria? Eu era mesmo tão covarde?

ㅡ Ele pode ter apenas feito um gesto ou se movido de súbito e te acertou sem intenção. Essas coisas acontecem. 

Ele estava tão… confiante, tão seguro do que dizia. Era fácil demais me culpar.

ㅡ Mas não foi isso que aconteceu…

ㅡ Como pode garantir que não?

Comecei a chorar e não consegui mais parar. O diretor Choi apontou para uma jarra com água no canto. Me senti tão humilhado, tão ínfimo. Apoiei os cotovelos nas pernas e cobri o rosto com as mãos. Pedi para ir embora, falei que podia deixar daquele jeito, que o assunto morreria ali e eu não voltaria a falar disso. 

ㅡ Não… não prejudique o professor Park ㅡ pedi, soluçando. ㅡ Ele só quis ajudar e n-não tem nada a ver com isso. É mi-minha culpa.

ㅡ Cala a boca ㅡ Jisung, que até então estava calado, imóvel, disse. O encarei, desacreditado. ㅡ Pare, Jungkook.

A expressão dele tremia, estava com o maxilar trincado. Mais uma vez, eu não sabia onde tudo iria acabar. Ele me culparia também? Se voltaria contra mim? O que passava em sua mente? Ele se voltou para o Sr. Choi.

ㅡ Deixe que ele vá. Ele não pode ficar nervoso, é muito ansioso, pode passar mal e ter que ser medicado. O deixe ir. Eu retiro tudo que disse. Ele está certo. Eu o toquei sem permissão, apalpei ele. Me responsabilizo, pode me punir, faça o que quiser comigo, mas deixe que ele vá.

Não pude prestar atenção na reação do homem velho na cadeira de diretor. Estava preso em Jisung, confuso, com raiva dele, que estava sempre oscilando entre me maltratar e depois cuidar de mim. Que merda era aquela? Ele me deixava chorar até morrer e depois me entregava um lencinho? Entendi por que Yoongi sentiu tanta raiva dele, porque também senti.

ㅡ Jisung, isso vai contra tudo o que você disse e não tem volta. Sabe que já falamos com sua família ㅡ o senhor Choi disse, parecendo insatisfeito.

Ah… já havia um acordo? Jisung estava quebrando o combinado? Afinal de contas, pra que me chamaram se já tinham resolvido sem mim que a culpa era minha?

ㅡ Eu sei, não importa. Jungkook já pode ir? 

A troca de olhar entre eles me alienou por segundos, me tornou um elemento qualquer daquela sala, a conversa já não era sobre mim, se foi em algum momento.

Eu ainda soluçava, embora com menos frequência e intensidade. Levaria alguns minutos até que eu parasse de tremer e voltasse ao normal, porém eu estava melhorando. Jisung grunhiu e levantou, encheu um copo com água e me entregou. Aceitei, pois já não via sentido em discutir. Minha mão tremia e ele segurou-a, me ajudando a manter o copo firme.

ㅡ Beba ㅡ pediu.

Sua palma estava gelada e a minha estava molhada, devido às lágrimas incessantes que sequei. Bebi a água. O Sr. Choi estava sem palavras.

ㅡ Já pode ir, Jeon. Lamento o transtorno e o acontecido. Garanto que não irá se repetir.

Concordei, agradeci e saí da sala. Jimin não estava pelo corredor, então não fiz paradas até o banheiro. Entrei na primeira cabine livre que vi e botei pra fora o gostoso café da manhã que Jimin tinha feito pra mim. Tudo estava tão confuso e estranho e eu percebi que estava cansado de tentar entender. Saí sem ânimo do banheiro, exausto para sequer pensar numa desculpa para dar a Yoongi. 

Eu sabia que aquilo aconteceria se eu um dia me rebelasse contra Jisung. Falei e falei a Yoongi que não viria nenhum resultado. Sabia que seria só mais dor pra mim. Aquilo não me chocava. A novidade era que eu, diferente das outras vezes, não sentia culpa. Só estava muito triste, mas sabia que não merecia aquilo.

Meu mundo tinha acabado mais uma vez, devastado por um terremoto, porém eu sabia que não era eu o causador. Finalmente entendi.

Entendi que não era eu que me fazia infeliz.


{...}


Aquele dia foi uma sequência bastante violenta de apocalipses. Os primeiros foram ótimos: 

O apocalipse de euforia no café da manhã que me arrancou do corpo, incrível e inesquecível. Não havia fenômeno natural que pudesse categorizá-lo. Após esse, meu mundo todo foi engolido pelo amor de Jimin, seu gosto, seu beijo e seu toque certeiro. O tsunami da epifania. 

Os seguintes foram negativos: estresse, humilhação, dor, confusão, apatia, o tremor do solo que derrubou minhas estruturas. Um real terremoto. O pior de todos, tive certeza, foi o do fim do dia. Foi o momento em que meu mundo não foi invadido por sentimentos inexplicáveis, água ou tremores violentos, e sim por fogo. Pela erupção que devastou tudo que viu pela frente.

A lava fervente de Yoongi queimando e consumindo Jisung por inteiro, até que só sobraram cinzas. 

O desastre natural ocorreu duas esquinas longe da escola, atrás de um posto de gasolina. Park Jisung foi puxado pela camisa, lançado ao chão e recebeu inúmeros golpes e ofensas. Foi tão rápido que quando cheguei o Park já estava sangrando.

Quando Suhyun surgiu, em pânico, dizendo que viu Yoongi seguindo Jisung, eu só perguntei para qual direção deveria correr. 

Hyung tinha sido esperto: falou que iria ao banheiro e pediu para que eu dissesse para Taehyung esperá-lo, já que queria conversar com ele. Achei que ele iria passar na casa do Kim ao invés de me acompanhar e me animei, corri até Taehyung e Hoseok e dei o recado. Passei minutos conversando com ambos até Suhyun surgir.

Eu devia ter estranhado quando Yoongi começou a demorar, contudo fiquei tão distraído com Hoseok e suas falas esquisitas! Achei que minha cota de momentos ruins havia terminado por aquele dia. Achei que contar a Yoongi sobre meu fraudulento interrogatório e ter que vê-lo ficar tão furioso tinha sido o último ponto baixo. Estava enganado. Fomos ainda mais fundo.

Taehyung e Hoseok me seguiram, prontos para ajudar a apartar uma briga que nem sabiam por que estava ocorrendo. Não houve tempo para explicações, apenas corremos juntos e o mais rápido possível até fora da escola. Nem Suhyun sabia para onde eles estavam indo, então tivemos que chutar o caminho. Demos sorte, ou azar, depende muito do ponto de vista. Ela acabou nos acompanhando para ajudar. 

As pessoas ao redor do conflito olhavam, mas eram pouquíssimas e todas ocupadas, com pressa, ninguém de fato interferiu. Hyung tinha feito uma boa escolha. Quase ninguém passava naquela rua e quem passava sempre estava correndo, tentando cumprir horários. Ele e Jisung poderiam passar o dia lá sem que alguém ligasse.

Eu puxei Yoongi, tinha que ser eu porque eu sabia que ele não faria esforço para se soltar com medo de me ferir. Taehyung e Hoseok levaram Jisung para o outro lado da rua com a ajuda de Suhyun. Inspecionei o rosto do hyung enquanto ele gritava pedindo para ser solto e se debatia sem empenho. Ele não tinha nem um arranhão, o que me aliviou e me deixou desconfiado também.

ㅡ Ele não bateu em você, hyung?

ㅡ Aquele merdinha?! ㅡ Riu soprado. Estava suando. ㅡ Não. Acho que sabia que merecia apanhar. Nem mesmo tentou se defender. Sorte dele que você é um bom samaritano. Eu não ia parar tão cedo. ㅡ Olhou para o outro lado da rua, onde Taehyung e Hoseok, já longe, podiam ser vistos carregando Jisung junto de Suhyun, que gritava com ele. ㅡ Essa menina… eu sabia que ela ia fazer fofoca. Não devia ter deixado ela me ver.

ㅡ Você acha que isso é tudo uma brincadeira? ㅡ O segurei pelo ombro, irradiando fúria, enquanto ele me encarava com sua feição ofegante e cansada. ㅡ Como pôde fazer isso? Tem ideia de quantos problemas terá se ele quiser te denunciar ou algo assim?

ㅡ Eu não podia esperar. Ele que denuncie, que chame a polícia, contrate um matador de aluguel! ㅡ gritou. Chamamos a atenção de pessoas na rua. ㅡ Eu não ligo, Jungkook. Ele mereceu. E eu avisei, fui muito claro ao dizer a ele que se chegar perto de você de novo, eu não vou ser tão bonzinho. Eu mato por você, será que ainda não entendeu?

ㅡ Claro que entendi! Sabe que morreria por você! Mas acha que isso me deixa feliz? Acha que isso me faz bem? Ver você arranjando briga?

ㅡ Acha que eu fico feliz quando você apanha dele pelos cantos? Em pátio da escola, porque ele sabe que ninguém vai fazer nada? Acha que fico bem? Quando ele te difama na primeira chance que pode e espalha boatos? Acha que posso ficar em paz quando você aparece no refeitório com os olhos vermelhos de tanto chorar e não come porque tem medo de vomitar de novo? Porque ele e a família podre dele lambem o saco do diretor e de todo mundo que pode lhes dar vantagens? Como acha que eu fico?! Como acha que me sinto?!

Espremi os lábios, sentindo que não tinha argumento. Juntei a mochila dele do chão e fiz um gesto com a cabeça em direção à rua. Passamos a andar juntos até em casa.

ㅡ Qual era o seu plano? Deixar ele sangrando no chão e voltar à escola como se nada tivesse acontecido? ㅡ perguntei, tentando mudar o clima. Meu tom foi baixo.

ㅡ Por aí. Ou eu seria tão altruísta quanto ele foi com você e esperaria ele ter uma hemorragia para então chamar uma ambulância. Filho da puta. Merda! ㅡ ralhou e me encarou. ㅡ Por que você tinha que interferir? Toda vez que me lembro do que ele fez com você mais vontade tenho de quebrar cada ossinho daquele corpo imundo!

ㅡ Pare! Pare já! Eu juro que se você fizer algo assim de novo, eu não respondo por mim.

ㅡ Vai me bater por bater nele?

ㅡ Talvez eu vá. ㅡ Parei de andar. Ele me copiou. ㅡ Se isso te manter longe de perigo.

ㅡ E quem vai te manter longe de perigo, Jungkook?

ㅡ Eu devia manter. Eu devia saber me defender e não sei. Me desculpe. Mas não faça essas coisas! Vocês estão sempre, sempre fazendo isso! ㅡ Meus olhos ficaram cheios de lágrimas e Yoongi tentou se aproximar, porém eu me afastei. ㅡ Tá vendo? Por que vocês fazem isso? Por que vocês me amam? Eu sei que o amor é natural, sei que se encantam com alguns atos meus, mas por que fazem isso? Não veem que estarão sempre se arriscando por mim? Reconheço que não tenho culpa de tudo e que muitas vezes, de fato, parece que uma maré de azar está caindo sobre mim, mas será que vocês não veem que se eu sou fraco o problema é meu? Eu que tenho que lidar com isso! Eu tenho que achar um jeito! Eu não suporto ver as pessoas que eu amo sofrendo só porque eu sou covarde.

Yoongi levantou a mão e tive certeza de que ele iria me dar um tapa. Fechei os olhos, todavia nada veio. Quando abri os olhos ele estava chorando, pegou sua mochila de minhas mãos e saiu andando na minha frente. Achei que o tinha magoado, que ele me daria um gelo e coisas do tipo. Entretanto, após alguns passos, ele retornou e me puxou pela mão, me forçando a andar ao lado dele.

Não dissemos nada. Andamos chorando até o quintal da minha casa, onde ele me abraçou e saiu.

O vi indo para longe. As roupas sujas por rolar no chão com Jisung. Sequei o rosto e entrei em casa. Meu pai não estava, por sorte. Fui direto para o banheiro e tomei um longo banho. Ao sair, vi meu reflexo no espelho.

A merda da expressão de derrota no corpo pálido, anos sem sol, magro e inútil. Tentei resistir à tristeza, fazer uma reviravolta, mudar tudo. Não era realista. Me ver nu era como encarar por inteiro todo o fracasso que já fui, era ou seria. Apenas um amontoado de carne que não guardava nada de especial. Apenas um monte de pele que nem era assim tão atraente. 

Aproximei meu rosto do espelho, fiquei cara a cara comigo. Aquele garoto deplorável que eu via no espelho era o mesmo que parecia tão vivo no reflexo da porta de Jimin? Eu era um híbrido de anjo com lixo? 

Saí do banheiro, me vesti, tomei um remédio para dormir e mandei mensagem ao hyung me desculpando por tudo. Mandei mensagem a Jimin me desculpando por tudo e explicando os últimos acontecimentos. Mandei mensagem ao papai dizendo que não devia falar comigo nem se preocupar, pois eu sairia do quarto quando estivesse melhor. Falei com Jihyo também. Não tive coragem de pedir conselhos mais uma vez e só perguntei se poderia ir ver mamãe em breve.

Eu queria ficar longe de Yoongi, papai… Jimin. Queria livrá-los de mim por um tempo. Muita coisa tinha acontecido. Decidi manter distância, os impedir de se machucar por mim. Acreditei que esse tempo sem mim pudesse abrir suas mentes para a verdade. Claro que com Jimin não era assim, com ele era apenas uma decepção que quebraria a imagem divina que ele tinha de mim.

Isso doeu. Eu não seria mais o deus dele. Por que doía se era o certo? Não era certo protegê-los de mim? Estavam todos se ferindo! Estavam todos mal porque eu não sabia enfrentar meus problemas! E eu devia agir como a grande pessoa que diziam que eu era pelo menos uma vez e poupá-los disso. Eu devia ser forte!

Dormi antes de me arrepender, dormi antes de chorar.

Por um momento, desejei morrer. Sem perceber, chamei Seokjin. Desejei que ele fizesse o que fazia de melhor: me tratar como só mais uma pessoa no mundo. Ele fazia eu me sentir normal. Só normal. Não era bom nem ruim. Era neutro e eu sabia que era fraqueza, mas queria viver nessa zona.

Nessa zona onde ninguém me amaria ou odiaria, onde ninguém ficaria feliz ou triste por mim. Assim eu jamais magoaria ninguém. Claro que havia momentos bons… mas eu não era valente o bastante para merecê-los. Imaginei uma outra época em que eu, mais maduro, encontrava Yoongi e Jimin e retomava nossas histórias.

Melhor! Mais bonito! Sem toda essa dor. Fiquei fixado nisso: na ideia de uma época em que eu também acrescentasse algo a eles. Seríamos felizes! Felizes como eu não podia fazê-los ser ainda.

Foi tão doloroso, foi tão ruim. Desejei morrer mais uma vez. Não somente morrer, desejei jamais ter nascido. Depois desejei e desejei novamente.

Torci para só desaparecer, como um erro de programação. Torci por isso até dormir.


{...}


Acordei na madrugada. Estava com fome e sede. Bebi um copo grande d'água e comi uma fruta. Voltei para a cama, com medo que meu pai acordasse e quisesse falar comigo. Não tive coragem de ligar o celular e ver as respostas às minhas mensagens. Permaneci imóvel, imitando o cadáver que queria ser. 

O mundo me provocou. Uma tempestade simplesmente desabou. Água jorrando do céu. Cobri a cabeça, me recusando a acreditar. Não. Aquele não era o momento para o cupido. Eu não podia pensar em Jimin. Não! Isso me faria fraquejar e correr até seus braços! Eu tinha que ser forte pelo menos uma vez! Apertei a coberta contra o meu rosto. Eu não podia…

Me senti vivendo um filme nos minutos seguintes. Quando pensei que eu e Jimin éramos a mesma pessoa, não imaginei que também pudéssemos pensar igual.

Sim. Foi exatamente isso. Ele obedeceu ao chamado do cupido como eu fiquei tentado a fazer. Não podia ser real. Mas era.

Era e eu tive raiva dele por quebrar tão fácil minha promessa de renúncia. Eu só queria ir embora! Eu só queria libertá-lo de mim! Libertar ele e todo mundo!

Eu havia esquecido que não podia libertá-lo de mim porque ele tinha me libertado um dia antes. Esqueci que estávamos ligados. Esqueci da verdade quando olhei no espelho, pois mais uma vez não vi ninguém no reflexo. Mas ele não aceitava, ele sabia que o destino estava traçado.

Park Jimin obedeceu a seu Jeon Jungkook interior para, novamente, me fazer ver meu Park Jimin oculto. Sua luz adentrou minha escuridão e me envolveu no dilúvio de amor com lágrimas de arrependimento.

O último apocalipse. O dilúvio sem arca.

Jimin bateu em minha janela e molhou meu tapete com suas roupas encharcadas de água da chuva. Gelado demais. Nos abraçamos debaixo do chuveiro enquanto a água quente caía.

Juntos, colados. Iguais. Sem escolha.

ㅡ Você sou eu ㅡ eu disse baixinho enquanto segurava seu peito nu e molhado.

ㅡ Eu sou você. E eu ainda não quero me perder.

Respirei fundo, como ele me ensinou e como Yoongi e minha família sempre me disseram para fazer. Respirei fundo. Observei, de olhos fechados, tudo tomar forma outra vez.

Reverti os desastres: reconstruí os edifícios inundados pelo tsunami, quebrados pelo terremoto, queimados pela lava. Os mergulhei no dilúvio e encarei-os limpos e inteiros. 

Aquilo era eu e meu mundo, e longe das trevas e da dor era lindo. Podia sobreviver, ainda havia chance. Os apocalipses faziam parte de um ciclo e não me mataram. Soltei o ar, apertei Jimin. Eu estava segurando parte de meu Gênesis.

ㅡ Eu ainda não quero morrer, Jimin…  Não posso. Não depois de sobreviver ao apocalipse.

Ele não entenderia, claro que não. Eram palavras vagas sem a explicação detalhada. No entanto, ele segurou meu rosto e olhou fundo nos meus olhos. Ele não precisava entender. Ele sentia.

ㅡ Claro que sobreviveu. Deus causa apocalipses, não sucumbe a eles.

Voei. Voei com minhas asas azuis celeste. Sorri e o beijei com afinco, sentindo o gosto da água. O sabor do dilúvio que havia provocado. Rimos e nos abraçamos debaixo d'água.

Eu não podia morrer nem renunciar, pois um bom deus não abandona sua criação.


Notas Finais


Dou um prêmio pra quem adivinhar qual vai ser o papel do Jisung nessa história.

A música que os jikook ouviram, God in jeans (que é linda, a propósito), tem uma tradução que me deixou incerta. No trecho "Played him favorite song", que fica "toquei a música favorita dele", esse "him" sozinho parece ser só na letra escrita, porque, gente, eu juro que quando você escuta a música parece um: played him my favorite song. Eu entendi? Não. Eu até chequei a letra em sites diferentes e no spotify. Enfim, acabei usando a letra que achei nos sites, então se você ouvir a música e escutar um "my favorite song" o erro NÃO foi meu.

Link dela pra quem quer sofrer: https://youtu.be/uv0cEfCGX6M

Aliás, no link a tradução vem com o "my favorite song" 🤡 eu sou uma piada pro inglês, é isso. QUE SACOOOO POR QUE OS SITES NÃO COLOCAM ESSE "MY" QUE É ÓBVIO NA LETRA AAAA   tudo bem. É isso. 🤡

E aí, o que acharam? NSNWNWJ até 💌💕


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