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História Perfect - Capítulo 14


Escrita por: vanelope-stars

Notas do Autor


Olá, borboletas! 🦋
Então, quero só esclarecer um lance:
A escola do JK e o funcionamento dela não são iguais à realidade da Coréia do Sul, assim como o trabalho do JM. São horários e aulas e organização que eu tirei da minha cabeça e adaptei um pouquinho pra não ficar tão destoante da Coréia ㅡ mas ainda é.
Então não perguntem "ah, mas como o Jimin..." não sei KKKK NÃO SEI, CARA, NÃO SEI!! EU INVENTEI!! VAI NA VIBE!! UNIVERSO PARALELO!!!!!
Só isso mesmo, porque tava me incomodando. Fiquem com o capítulo. Eh nois!
E pra quem gosta de uma organização, as atts estão saindo a cada dois meses. A próxima, portanto, será dia 27/09, provavelmente.
Agora sim, eh nois! Até!
🦋💙

Capítulo 14 - Ataraxia


Eu abri os olhos e não soube o tempo exato que os deixei fechados. A água ainda caía, tanto do chuveiro quanto lá fora. A dos meus olhos abertos já não escorria como fazia num passado nem tão longe ou nem tão perto, não era seguro chutar o tempo exato. Eu abri os olhos e vi que a água caía, vi que a água tinha cessado a queda. Enxerguei Jimin sem camisa e calças, me abraçando no chão molhado. Fechei os olhos novamente e respirei fundo.

ㅡ Desligue o chuveiro. Vou pegar toalhas pra você.

Deixei o box, andei até o armário abaixo da pia, abri e peguei duas toalhas brancas. Uma eu dei a Jimin, que começou a se enxugar, com a outra sequei seu cabelo e depois meu corpo. Vesti minhas roupas jogadas no chão e o pedi que esperasse enquanto buscava algo para ele em meu quarto. Quando fechei a porta do banheiro para cruzar o corredor, a voz de meu pai surgiu e eu só suspirei.

ㅡ Temos uma porta da frente. Pode me dizer por que não usaram? Agora… você tem que trazer pessoas escondido? ㅡ perguntou, encostado na parede. Eu não sabia como explicar, como de costume.

ㅡ É complicado, pai. Não foi de propósito. Ele só apareceu porque ficou preocupado. Juro que não tentei esconder nada.

Papai me encarou por alguns segundos e se aproximou, me abraçou. Relaxei em seu abraço, respirando fundo.

ㅡ Me perdoe pelo silêncio, mais uma vez eu não pude encarar você ㅡ falei. Ele negou com a cabeça e me apertou mais.

ㅡ Não se desculpe pelo que não pode controlar. Só lembre de me chamar quando precisar.

ㅡ Eu irei. Tenho que pegar roupas pra Jimin agora, ele está gelado.

ㅡ Não busquem formas extremas de se aquecer, por favor.

Ri, me afastando do abraço. Revirei os olhos e papai voltou para o quarto após bater na porta do banheiro e dizer: Boa noite pra você, Jimin. Por favor, não faça nada libertino na minha casa. Eu ri, o mandando parar. Jimin respondeu: Tentarei, senhor Jeon.

Peguei um pijama meu, Jimin vestiu. Nos deitamos na minha cama. Eu o abracei forte e apreciei o frio na barriga que vinha ao sentir meu cheiro, impregnado nas minhas roupas, junto do dele. Um dia antes estivemos nus, amarrados em nós de amor e libido impossíveis de desfazer. Agora estávamos vestidos, calados, nos fundindo conforme derretíamos e virávamos a mesma massa.

ㅡ Me desculpe por tudo ㅡ pedi. ㅡ Eu quis fugir, sumir e morrer porque tudo deu errado e eu me senti um fracasso, uma bomba relógio. Ver Yoongi agindo daquele jeito… Você não tem ideia do quanto foi violento. Acho que não estou acostumado com tanto amor, com tanta intensidade e determinação. Assim como ainda não me acostumei totalmente à… insensibilidade das pessoas. O diretor me culpando, Jisung calado e depois quase gritando… Foi coisa demais num tempo curto demais. Eu sabia que o hyung ia explodir, mas achei que eu estaria junto na hora pra conter o estrago.

ㅡ Você não pode se responsabilizar por ele, assim como ele não pode por você. Estão ambos levantando facas para defender um ao outro, mas não se deixando atacar de fato. Há um equilíbrio, Jeon, mesmo que você não veja tão claramente. ㅡ Acariciou minha cabeça. Suspirei, afundando o rosto em seu peito. ㅡ Vocês se protegem e se impedem, se motivam. Vão manter essa gangorra parada. Não se preocupe com isso.

ㅡ Mas e todo o resto? Jimin, está tudo desabando. ㅡ Sentei na cama, acendi o abajur para poder conversar. Querer conversar sobre o que me acontecia era novo pra mim. Esse era um privilégio (ou fardo) que eu concedia a poucas pessoas. ㅡ Falei com Jihyo ontem. Preciso de um tempo. Preciso ficar longe daqui pra relaxar porque… porque eu sei que se vir Jisung de novo não vou me conter. Ele não tocou no Yoongi, agradeço por isso. Ele não tem ideia do que eu faria se tivesse revidado um só soco.

Encarei minhas mãos e mordi o lábio. Eu odiava magoar ou incomodar, contudo… tudo mudava rapidamente quando Yoongi ㅡ ou qualquer pessoa do meu pequeno e denso círculo ㅡ estava envolvida.

Jimin riu e se aproximou de mim, puxou-me para o seu colo e colocou meu cabelo para trás da orelha. Seu sorriso iluminado pelo abajur me fez amolecer e enrubescer. Beijei sua bochecha.

ㅡ É adorável como você oscila tão rapidamente por ele.

ㅡ Yoongi hyung é minha vida, Jimin. Uma das pessoas que mais amo nesse mundo. Sem ele, eu nem sei se continuaria vivendo. ㅡ Meu tom era sério, mas não fez Jimin deixar de sorrir. Segurei seu pescoço quentinho. ㅡ Não quero que sinta ciúmes, porém… Não, não há como. Se um dia Yoongi hyung se for… pode ter certeza, Jimin: eu vou também. Me amar significa amá-lo, me proteger significa protegê-lo. Sempre.

ㅡ Não me sinto ameaçado. Eu já disse: quero você, Jeon. Sua presença, seu cheiro, sua voz e seu olhar puro e incandescente. Não preciso ser o único para ter tudo isso, eu me contentaria em admirar de longe. Não preciso de sexo, beijo, promessas, não, não. Se você quiser transar com outras pessoas, saiba que em nada me incomodo. O que eu quero é… maior, Jeon.

ㅡ Você quer minha alma ㅡ brinquei, beijei seu nariz. 

ㅡ Talvez seja.

ㅡ Você quer minha energia, não é? Não é isso que as pessoas buscam em deuses? Uma energia além que transmuta as compreensões humanas?

Jimin me encarou profundamente. Senti seu pau endurecer abaixo de mim. Fiquei constrangido e de olhos arregalados, ofegante. Ele tocou minhas costas por baixo da camisa e fechou os olhos, respirando fundo.

ㅡ É por isso que você é o meu deus, Jeon. Você tira tudo do eixo… ㅡ Apoiou a testa na minha clavícula. Suspirou. Tocou minhas escápulas. ㅡ É exatamente isso. Eu quero sua energia, seu poder. Todo o resto será uma dádiva pela qual jamais deixarei de agradecer.

ㅡ Então… quando dei pra você, fiz… caridade?

Jimin olhou nos meus olhos e concordou com a cabeça, seríssimo. Eu gargalhei. Um riso sincero e incontrolável. Ele bufou e me abraçou mais forte. Ficou encabulado.

ㅡ Jimin hyung, Jesus, como você consegue agir assim sem brincar? Meu Deus, você… ㅡ As palavras travaram quando notei que estava prestes a dizê-las sem receio. Sem insegurança. Os olhos dele voltaram a se fixar em mim; suas bochechas estavam rosadas.

ㅡ Eu…?

ㅡ Você… me ama. ㅡ Nos encaramos em silêncio.

ㅡ Sim, amo. Você sabe disso.

ㅡ Não, Jimin, não. Você... realmente me ama. Tipo… é maior, maior que tudo isso.

ㅡ É maior que eu, mas ainda assim bem menor que você. Você é inalcançável pra mim, Jeon. Vou viver de joelhos pra você. Entenda isso no contexto que quiser.

Meu pai estava do outro lado do corredor, eu tinha muitas questões a resolver e devia estar falando com Jimin sobre a viagem que queria fazer para ver minha mãe, sobre como queria que ele ficasse de olho em Yoongi pra mim, sobre nós e… E eu perdi todas as palavras e toda a minha noção. Fui obrigado, sim, obrigado, a desafiar as ordens do meu pai, apenas torcendo para que ele entendesse rápido que precisava tapar os ouvidos, pois eu já não podia me conter.

Avancei sobre Jimin com gula, tirei de seu tronco a camisa que havia acabado de vestir, joguei longe a minha que impedia suas mãos de me tocarem. Calças, cueca. O abajur quebrou. Jeito rápido de apagar as luzes. Não nos movemos para tirar os cacos, era impossível.

As confissões de Jimin e toda a sua devoção me tornavam brasa, devoravam as minhas emoções e me transformavam em um receptáculo vazio que pouco a pouco se enchia de luxúria. Era novo pra mim, todavia também parecia antigo. Era meu lado mais natural dando as caras

O amor era natural, sem dúvidas. Mas o tesão também era. O medo também. A coragem, a gula, a sacies, a violência. Sentimentos eram naturais, todos eles, e fugir deles era inútil.

Foi no quarto escuro invadido por ruídos de trovões e feixes de luzes de raios e relâmpagos que eu finalmente entendi que não podia parar a chuva. As lágrimas e o chuveiro cessam, a chuva não. Ela vinha de cima, ela vinha de algo maior, fosse a força da natureza ou fosse deus. Não se podia confrontar deus nem tentar interferir em seus planos, pois sua maravilha e poder eram tamanhos, eram tão grandes, que tudo que causavam era admiração e desejo, necessidade de se ajoelhar e implorar para ter mais de todo aquele poder de destruição e salvação. Vida e morte.

Era o que Jimin sentia por mim. Era o que eu sentia pela chuva. Era o que o amor tinha em comum com todo o resto que eu sentia, era a resposta para um amontoado de dúvidas.

Eu não era errado, eu era natural, e a natureza é violenta, oscilante e majestosa, destrói e cria. A natureza é deus ㅡ e eu a possuía no peito.

ㅡ Não fala nada ㅡ ordenei, sem tempo para me surpreender com minha atitude. ㅡ Não fala nada, Jimin, só me fode de novo. Eu fico por cima. Vou sentar em você. Não fala nada, nada que não seja mais da sua poesia devota.

ㅡ Sim, sim… ㅡ Arfou, me beijou. Ele estava finalmente tendo o que queria: a real face de deus quando aceitava sua natureza. ㅡ Tudo que você pedir. Tudo de mim para ter um pouco mais de você.

Toquei sua nuca e puxei seus cabelos enquanto provava do afrodisíaco de seus lábios, do ferver do seu corpo, a transcendência do seu amor… Ele beijou meu pescoço enquanto eu acariciava suas costas e me esfregava em seu pau. A chuva parecia ficar ainda mais intensa e eu não queria acreditar, mas parecia que entre nós havia uma conexão. Gostei assim. Que chovesse para sempre, então.

ㅡ Te amo tanto, Jeon… tanto ㅡ sussurrou contra a minha garganta.

ㅡ Então me sacie. Faça esse amor domar a vontade que grita no meu peito… Me devore, Jimin. Me consuma.

Nosso último olhar antes que ele se abaixasse para abrigar meu pênis em sua boca foi um prelúdio. Ele encarou o deus nas minhas íris, reparou que suas pupilas estavam dilatadas por ele. Encarou o que tanto ansiava e me fez preso; submisso e necessitado de mais. Eu estava pronto para que ele me consumisse como fogo… como água. Como a pior das tempestades, como o azul escuro do céu e o azul mortal do mar. Morrer no azul, morrer na água, era o que eu queria.

Morrer na natureza, junto dela. Voltar ao início. Encontrar a paz no caos ㅡ tão natural quanto a harmonia.

Isso era Jimin. Um caos contido, um redemoinho mortal, água venenosa guardada em um frasco límpido, intocável, santo. Meu veneno. Fez tanto sentido. Ele era meu veneno, meu afrodisíaco, minha droga. Me tornava escravo dos instintos, amante da chuva, me reduzia a uma frágil borboleta que podia destruir o universo com seu bater de asas.

Ele me revelava, me adornava, me adorava. Eu o queria. O queria tanto que doía. Precisava daquele veneno, precisava ficar ensandecido de tanto júbilo e então morrer. Eu precisava morrer com ele, precisava… viver antes de morrer.

Eu me senti vivo e prestes a morrer enquanto sentava nele, enquanto ele puxava meu cabelo. Soube que estava chegando no limiar entre a sanidade e a afronésia quando gemi o nome dele com deleite, soube que a linha entre a apatia e a euforia era tênue demais quando senti enorme diligência por meu pai, que nos ouvia, ao mesmo tempo em que estava tão indiferente a ponto de sequer tentar fazer menos barulho.

Os antônimos se encontraram dentro de mim, o paradoxo me asfixiou e me fez regozijar. Eu e Jimin, Jimin e eu. A natureza cruel e delicada. As borboletas fatais.

Gozei sabendo que depois daquela noite estava mais perto da ataraxia.


{...}


ㅡ Eu queria te contar que vou passar uns dias com minha mãe ㅡ falei enquanto desenhava círculos com os dedos em seu peito. O céu escuro havia voltado a ser um calmo azul celeste e a tempestade eram gotas de chuva caindo das folhas. 

ㅡ Suponho que… acabou se distraindo? ㅡ Sorrimos um para o outro. ㅡ Será que seu pai ainda ouve? Já voltou a dormir?

ㅡ Sendo sincero? Acho que ele nem vai mais dormir hoje. Vai amanhecer se revirando na cama.

ㅡ Pobre homem…

ㅡ Jimin! ㅡ Ri, me sentando sobre ele, entrelaçando nossos dedos. Lhe dei um rápido beijinho. ㅡ Não fale assim. Não foi nada tão ruim.

ㅡ Você xingou à beça.

ㅡ Mas você disse palavras lindas. Ele não irá me censurar, me ama demais. Queria uma desculpa pra te censurar, mas você é tão… charmoso e altivo que ele sequer pode pensar numa ofensa pra você.

ㅡ Uau, parece que sou um príncipe amando um indecente.

ㅡ É isso mesmo, na verdade. ㅡ Rimos de novo. Ele me puxou pelo quadril, me deixando sentado sobre seu peito. Minhas pernas jogavam o peso no colchão, então ele não corria risco de ter falta de ar. Somente eu que fiquei ouriçado. ㅡ Vai me chupar de novo? Eu nem sei se tenho forças pra isso.

ㅡ Não. Eu só… queria beijar suas coxas. ㅡ Deixou um selinho na minha pele. Engoli em seco. ㅡ Elas são lindas. São macias, claras, pequenas… parecem puras.

ㅡ Você já as desvirtuou. E está usando de um estereótipo.

ㅡ Não, não estou. Sei que a pureza não segue esse padrão de corpo magro, pequeno, branco e virgem. Eu que te acho puro, e por coincidência você tem esse corpo.

ㅡ Acho que essa pureza tem outras motivações, né? Porque se você enxerga esse tipo de pureza em mim pelado com meu pau quase na sua cara, precisamos mesmo conversar.

Jimin riu alto, seu rosto ficou corado. Eu lambi os lábios, ficando aéreo com a paixão. Fui beijado no mesmo local novamente.

ㅡ Puro é um estado inicial, Jeon.

ㅡ Ah, você fala de como as divindades são cruas, não é?

Jimin me encarou em silêncio. Abriu a boca para falar, grunhiu e bateu a cabeça no travesseiro.

ㅡ Pare de dizer isso. A verdade já me deixa louco o bastante, agora a ouvir vindo de você… Deus! Você vai me matar de amor, Jeon. Pare de entender as metáforas, dói quando você as pronuncia. Além de que eu vou arder de tesão se você não parar.

A vergonha existia em mim, porém o amor e a ousadia também. Jimin me constrangia, contudo eu era tão apaixonado e ficava tão excitado que tinha que engolir a timidez caso quisesse engolir outras coisas. Me movi de seu peito para a cintura e abaixei o tronco, nos deixando cara a cara, as mãos ainda unidas. Admirei seus olhos antes de falar.

ㅡ Então está dizendo que… me comeria de novo? Quer que eu… dê pra você a noite toda? Porque eu posso. Posso dar pra você a noite toda, Jimin. Só preciso que você me coma direitinho, hyung.

Jimin fechou os olhos e nos girou na cama, ficou por cima, ficou ofegante. Eu fiquei rubro, toquei sua nuca, esperei por algo. Seu olhar desviou do meu rosto por um curto momento para capturar a imagem de meus genitais. Era vergonhoso. Era horrível. Era bom. Me dava tesão.

ㅡ Pare de ficar duro tão fácil pra mim. Eu sou só um humano, eu posso quebrar com tanto sentimento.

ㅡ Está dizendo que te faço broxar?

ㅡ Cala essa boca. Jamais. Jamais. Ver você já é o bastante pra que viagra seja injetado nas minhas veias.

ㅡ Então o que te impede?

Jimin teria respondido se outra voz gritando "Eu!" não tivesse soado. Bufei, desacreditado. Jimin riu.

ㅡ Vai dormir, pai! Meu Deus! Esse não é o seu momento!

ㅡ E você já teve o seu! ㅡ Ele gritava junto à minha porta. Tinha que ser brincadeira. ㅡ Todo mundo sabe que você teve o seu. Se Jimin não ir embora na madrugada, o bairro inteiro vai saber quem era a outra pessoa nesse quarto com você!

ㅡ Você estava escutando na porta?! Pai, pelo amor de Deus! Que coisa horrível! Horrível! Vá deitar.

ㅡ Não!

ㅡ Pai!

Jimin deitou ao meu lado e me abraçou, morrendo de rir. Eu não acreditava naquilo. Eu estava quase conseguindo que ele me fodesse de novo. Quase. Quase fizemos outra vez! O que meu pai tinha contra mim?!

ㅡ Espero que você não tenha estado aí desde o início ㅡ falei.

ㅡ Não. Fui tomar uma água e tive que parar no caminho.

ㅡ E quando foi isso?

ㅡ Quando você estava falando algo sobre estar cego.

Me lembrava daquilo. Foi um pouquinho depois que Jimin teve um orgasmo. Pelo menos, foi o fim.

ㅡ E desde então você está aí? Pai, sério, que vergonha. Sério. Você não tem ideia do quanto está me constrangendo.

ㅡ Desculpe, mas o que eu podia fazer? É a minha casa! Eu quase morri de agonia e não disse nada porque não queria te atrapalhar. Mas agora eu quero tentar dormir e quero paz, então durmam, eu imploro! Se eu tiver que te ouvir gemendo de novo, eu… Eu juro que me mato, Jungkook. Eu me mato! Foi uma das piores coisas que já passei na vida.

ㅡ Tá bom, pai! Já entendi! Vai logo dormir! Te amo, boa noite.

ㅡ Boa noite. Pra você também, Jimin.

ㅡ Boa noite, senhor Jeon. 

Papai se foi. Eu puxei o cobertor para o rosto, aterrorizado. Dizem que quando você escuta os pais transando é ruim, mas nunca me disseram que para os pais era semelhante e que quando seu pai manifesta que te ouviu é pior ainda. Eu preferia ter ouvido ele gemendo o nome do Sr. Jung do que passar por aquilo. Jimin puxou a coberta, beijou minha bochecha e se ajeitou para dormir. Ele também havia me abraçado de lado da outra vez em sua casa, então deduzi que era naquela posição que gostava de dormir. De lado, agarrado a mim.

ㅡ Seu pai é assim só com você? Tipo, ele é protetor porque você é o caçula? ㅡ indagou baixinho.

ㅡ Não. Era assim com Jihyo e Seokjin também. A gente meio que é a vida dele, eu acho. Ele sabe que a gente cresceu, mas é apegado à nossa imagem infantil ㅡ respondi também sussurrando. Assim teríamos certeza de que não éramos ouvidos. ㅡ Além de que…  sei lá, nem quando era casado papai falava muito de sexo ou se mostrava muito interessado. Acho que ele tem problemas pra aceitar que eu sou promíscuo.

ㅡ Poxa…

ㅡ Pois é. Mas eu também sou o mais novo e… você sabe como eu sou, Jimin. É claro que ele se preocupa. Ele tem medo que você suma amanhã e eu fique deprimido. Ele sabe do quanto sou inseguro e a ideia de você transar comigo e depois ir embora mexe com ele. Além de que eu sou o único que ainda mora com ele, então acho que ele não esperava por isso.

ㅡ Nem eu esperava. De repente você estava sentando em mim. Entendo seu pai.

ㅡ Cala a boca! ㅡ Ri, virei de frente para ele. Sua face feliz me fazia feliz. ㅡ Foi você que ficou excitado, pra início de conversa.

ㅡ Sim, perdão. Mas quem ficou animado foi você.

ㅡ Me perdoe, eu ainda não contei? Eu sou promíscuo, Jimin hyung. Sou assim desde que entrei na puberdade.

ㅡ Quer falar disso? Eu quero te conhecer.

ㅡ Não tem tanto a dizer. Eu era jovem, meu corpo estava ficando todo esquisito e um belo dia eu… ㅡ Tive que rir, fiquei sem jeito. Apoiei a cabeça na curva do pescoço dele. ㅡ Eu acordei excitado e passei longos minutos sem saber o que fazer com aquilo. Foi só dias depois que eu… Você sabe.

ㅡ Eu não acredito que você estava me falando pra te comer direitinho e agora está com vergonha de falar punheta.

ㅡ Jimin hyung! Eu fico estranho quanto tô excitado. Eu não penso no que eu falo.

ㅡ Eu sei. Eu sei mesmo. Mas enfim: conte seu histórico sexual.

Revoltado com o rumo do assunto e também rendido a quanto ele estava contente, falei brevemente sobre meus desejos, minhas longas e vergonhosas conversas com Yoongi sobre sexo, minha primeira vez e ele. Foi quando ia falar sobre nossa primeira vez que lembrei que tinha fugido do assunto de novo.

ㅡ Hyung! Eu devia só ter te contado sobre minha viagem e ido dormir! Transamos e estamos conversando! Já se passou mais de uma hora, meu Deus! Enfim: vou visitar minha mãe pra relaxar um pouco e ver essa loucura toda de longe. Quero que cuide do Yoongi pra mim, tá bom? Alguém precisa ficar de olho nele. E quero que me ajude com a escola quando eu voltar, já que talvez eu perca alguns dias de aula e também porque com tanta coisa acontecendo eu mal consegui estudar. Tudo anda um caos, Jimin hyung, um caos! Se eu tentar abrir um livro, vou acabar enlouquecendo.

ㅡ Ow, ow, nada disso, tá? ㅡ Tirou a franja da minha testa. Funguei; memórias do meu mundo antes do sexo voltaram e lembrei do porquê estava tão deprimido. ㅡ Muita coisa aconteceu muito rápido e sei que sou uma delas. Foram semanas e estávamos na minha cama, já transamos três vezes, falamos maluquices muito reais e agora agimos como apaixonados loucos por sexo. Você era inexperiente e eu estava sedento, sei como é quando sua vida muda tão rápido. Foi o que senti quando conheci você. Eu te observava há tempo demais, Jeon, pelo menos pra mim. Eu te via no corredor e no refeitório. Eu não sabia o seu nome, porém reconhecia seu sorriso de longe. Não sabe como fiquei feliz quando descobri que você era de maior. Não dizia muito, mas me fez pensar que algo podia acontecer. Então você veio de repente atrás daquela touca… ahh… ㅡ Beijou meu ombro. ㅡ Fiquei alucinando conosco.

ㅡ Eu jamais imaginaria que você é do tipo que se apaixona fácil assim.

ㅡ Meu coração é inflamável, Jeon, e você simplesmente acendeu uma faísca. Quando vi que você me correspondia fiquei maluco. Quanto mais te conhecia, mais maluco ficava. Estou ficando doidinho, Jeon, lelé da cuca, como o Pica-pau diria: Esse aí é meio louco. 

Gargalhei, olhei em seus olhos, o abracei com carinho, relaxei outra vez. Torci para um dia não haver picos de prazer ou dor, desejei ser estável para ter mais momentos como aquele ao lado dele.

ㅡ Falo sério. Foi insano quando você correspondeu e quando ficamos juntos enfim. Somos recentes, Jeon, nem mesmo nos conhecemos direito e sei que isso te deixará tenso no futuro, duvidoso sobre nós. É natural, aconteceu rápido demais e nos envolvemos demais. Então quando tiver medo: venha até mim. Me deixe te curar. Se você fugir, eu também vou sofrer.

ㅡ Não quero que minha viagem soe como fuga… Faz tempo que quero visitar mamãe.

Oscilei novamente. Fiquei com medo por uma coisa pequena. Notar o quão eu era instável e dificultava diálogos fez meu ar sumir. Tudo girava outra vez. A paz estava ali e de repente não estava mais. Era tão efêmero que machucava.

ㅡ Jeon, olhe pra mim. ㅡ Segurou meu rosto. Eu estava congelado. ㅡ Eu estou aqui com você. Estou aqui pra você. Relaxe. Não precisa ficar nervoso. O hyung tá aqui com você e não vai te entender errado, tá bom? Se você quer viajar e isso te ajudará, eu mesmo te levo até o trem, dirijo pra você. Só estou dizendo que quero ser a sua opção de descanso, não que quero ser a única. Fique perto de quem te ama. Isso não me exclui, só te dá mais opções.

Concordei com a cabeça, chorei um pouco, envergonhado das minhas fraquezas tão fortes e óbvias. Dormi agarrado a ele, sabendo que me afastar seria realmente o melhor por alguns dias.

Jimin trazia o melhor de mim à tona e isso fazia doer ainda mais quando meu pior lado voltava. Ele me levava tão alto que a queda era fatal. Eu tinha que relaxar, ficar neutro. Eu queria Seokjin, e ele não era mais uma opção. Jimin era uma nova opção para calma, porém ele sempre me traria o fervor do amor depois e assim eu jamais respiraria em paz: ficaria viciado na falta de ar benéfica que ele me proporcionava.

Meu pai era uma opção de calma, mas ficar com ele era o mesmo que ficar com Jimin, pois eu não resistiria a sair de casa para vê-lo. Além de que papai trabalhava, eu teria tempo demais sozinho para ter mais recaídas. Yoongi era e sempre seria minha serotonina, mas eu jamais pediria a ele que ficasse longe de suas responsabilidades por mim ㅡ mesmo sabendo que ele faria ㅡ porque não queria usar tanto de sua boa vontade e amor. Depois de ele ter agredido alguém em meu nome, eu não queria pedir mais proteção.

Jihyo morava com mamãe. Era longe da escola, de Jimin e não sugaria as últimas forças de Yoongi. Eu teria minha mãe me fazendo olhar para meus problemas como se fossem formigas prestes a serem esmagadas e Jihyo me deixando contar segredos e me levantando do chão.

Era perfeito. Alguns dias para respirar fundo. Eu precisava.

ㅡ Vou sentir sua falta, Jimin hyung. Me perdoe por precisar ir.

ㅡ Não peça desculpas por ir, prometa que vai voltar.

ㅡ Vou voltar.

ㅡ Me deixe… Esqueça.

ㅡ Hm? Como assim? Conte. Eu estou com sono, mas posso te ouvir.

ㅡ Não. Fiquei constrangido. Na minha cabeça era mais simples de dizer.

ㅡ Ser tímido é o meu papel, se você também for morreremos na areia.

ㅡ Aish…

ㅡ O que ia dizer? Era algo sexual? Ou algo tão… docinho que é vergonhoso?

ㅡ Docinho? ㅡ O escuro era inimigo, todavia meus olhos batalharam e viram a expressão risonha dele. ㅡ Tipo te chamar de momolado?

ㅡ É um bom exemplo. ㅡ Sorri, beijei seu queixo. ㅡ Conte.

ㅡ Me dê seu celular. Preciso dele pra contar.

Estranhei, mas cedi. Jimin deixou uma música tocando. A tela acesa iluminava nossos rostos. As músicas… eram sempre confissões, não? 

ㅡ Vai contar através de uma música de novo? ㅡ Assentiu com a cabeça. Notei que era em inglês. ㅡ Por favor, traduza.

Ele traduziu. Inicialmente, falava sobre amor adolescente, então eu não me surpreendi. Imaginei que o recado estivesse mais além e esperei. Quando chegou no "Ele é o único em minha mente, ele é o único que eu chamo quando me sinto imprudente. Me diga que você é meu, abra seu coração por um minuto, deixe-me ver as coisas que você esconde nele", eu soube que era uma das partes importantes. Era seu jeito de dizer o que já havia dito: que me amava, que eu era único e que queria me conhecer. Aguardei o recado ㅡ temendo ser ignorante ao ponto de não notar.

ㅡ Se eu não entender, por favor, me diga. Me mato se minha burrice estragar o momento.

Ele só riu, prosseguindo a tradução. Jimin e músicas adolescentes. Eu tinha que aprender a lidar com aquilo. Porém… como lidar bem quando a música começava a falar sobre uma namorada? Jimin se referia à Momo? Eu fiquei confuso ㅡ compreensível, eu tinha o dom de ser idiota ㅡ e devo ter deixado transparecer, entretanto Jimin não se preocupou em esclarecer nada, pois a parte seguinte da música era o recado e deixava claro, pra nós, que a parte da girlfriend não era o ponto chave.

Eu soube qual era o recado quando o rosto dele ficou vermelho e ele pronunciou a tradução baixinho, como se fosse um segredo. Fiquei de boca aberta, sem palavras. Eu tinha uma resposta, como tinha! Mas fiquei tão… chocado que não consegui dizer. Ele prosseguiu traduzindo, imaginei que ainda mais envergonhado por minha cara de espanto e tentando aliviar o clima. Meu Deus, como eu o amava!

ㅡ Pode parar, hyung, eu já entendi. Entendi, né? Me diga que sim.

ㅡ Bom, é… sim. ㅡ Desligou a música e deixou meu celular na mesinha de cabeceira. Pigarreou. ㅡ Eu vou te comprar um abajur novo, fui eu que quebrei. Me diga como quer e…

ㅡ Sim ㅡ interrompi. O foco de sua visão se prendeu onde antes ficava o abajur.

ㅡ Sim… para o abajur, ou sim…

ㅡ Sim. A resposta é sim. A sua resposta é sim.

Fizemos contato visual. Ele encabulado, um pouco desconfiado. Eu cheio de certeza, louco de amor.

ㅡ Mesmo? Porque se for um não, eu posso…

ㅡ Sim. É um sim. É um genuíno e seguro sim. Sim. Sim, Jimin hyung. Sim.

Jimin sorriu contido, concordou com a cabeça, me deu um selinho. Finalmente pudemos dormir. O sol já estava nascendo, mas fingimos que não. Fiquei contente por ele me esperar dormir para ir, pois eu não suportaria o vazio da cama naquele dia. Me aninhei e adormeci ao seu lado. Não me dei conta de que seria nossa última noite por um pequeno período de tempo. Isso foi bom, porque se eu notasse ficaria muito carente e com saudades sem nem ter ido.

Eu aproveitei bem nosso último momento à sós, dormi sem receios, gozei daquele momento de paz ㅡ até porque sabia o quão momentânea ela podia ser. Dormi sem medo de ter pesadelos, sabendo que ele me acolheria. Dormimos com o sim. Eu jamais me esqueceria.

"...With me you don't pretend like with you're with your girlfriend

She's nice but she's not me

She's nice but hates me

Date me, I'm just playing

Didn't mean to say that

Sometimes kids say the dumbest things

But if you're down, so am I

I can't lie…"

…"Comigo você não finge que está com sua namorada

Ela é legal, mas ela não sou eu

Ela é legal, mas me odeia

Namore comigo, estou apenas brincando

Não quis dizer isso

Às vezes as crianças dizem coisas idiotas

Mas se você está a fim, eu também estou

Não posso mentir..."


{...}


Acordei com o alarme, sem ele. Abri os olhos devagarinho. Desta vez: sem água alguma. A chuva também havia cessado. Sentei na cama, observei os lençóis e cobertas onde ele se deitou comigo. Passei as mãos pelo colchão, sorrindo. Me levantei e tive duas surpresas ao sair da cama:

Eu ainda estava pelado;

Minha cama estava suja.

Gemi, frustrado por ter me esquecido que aquilo aconteceria. Não queria enfrentar meu pai, mas estava sem escolha. Vesti o pijama jogado pelo quarto sem nada por baixo, peguei meu uniforme e toalhas e saí do quarto carregando ambos sobre a roupa de cama amassada e empilhada em meus braços. Até achei que sairia ileso, contudo meu pai estava sentado em uma cadeira na mesa que dava visão perfeita do corredor. Sorri, nervoso. Ele negou com a cabeça e voltou a comer seu pão.

Adentrei o banheiro e deixei os lençóis e cobertores sujos de esperma no cesto junto do meu pijama. Não encarei meu reflexo, fui direto para o chuveiro. Meu quadril estava doendo um pouco e eu gostei ㅡ sorri enquanto tocava minhas curvas.

Estava doendo por uma ótima razão. Meu corpo, nem tão amado assim, havia se divertido tanto que seus limites foram levemente excedidos. Eu não gostava de mim, mas Jimin gostava. Gostava muito. Gostava a ponto de sentir tanto tesão por ele, que não podia se conter. Isso me encheu de felicidade. Eu era desejado de verdade. Com ardência, com certeza, com necessidade. 

Me arrisquei a olhar para baixo um pouco. O peito magro, sem músculos. Os mamilos escuros (que ele gostava de beijar). A barriga sem saliência, porém com gordura o bastante para apertar. A virilha… Jimin gostava dos meus pelos também. É, eu não olhei tanto para o queridinho que ele tanto gostava de chupar. Não tinha tanto nele que eu gostasse. As coxas com as marcas dos dentes dele!!! Ah, eu as amei! Amei muito! Ele me fez amá-las naquele momento e demoraria um tempo até que eu voltasse a não ver nada demais nelas. Joelhos comuns, como é de se esperar. Pernas sem músculos e pés também comuns.

Qual era a pior parte? Talvez a que eu não pudesse ver ㅡ mas eu queria? Suspirei, me sentindo muito idiota por fazer aquilo. Virei de costas para o vidro do box e tentei encarar meu reflexo.

Tudo bem, eu realmente odiava meu pescoço. Por razões que nem entendia, eu odiava. Tudo bem. Não vou chorar, tudo bem. Hm… as costas são legais. Ok, uma ou duas espinhas perdidas ali, me lembrando que a adolescência ainda vivia em alguns cantos. Correção: costas nem tão legais, mas ainda… passáveis. Bunda. Ah… É, eu não gostava muito dela. Jimin parecia gostar bastante, já eu… Toquei a nádega esquerda. Fiquei tão desconfortável com a imagem que quase vomitei.

Ok. Ok. Ver sem tocar. Sem tocar.

Uma bunda relativamente… pequena. A de Jimin era bem maior. E Yoongi? Deus, ele tinha um bundão! Seu corpo todo era rechonchudo! Lindo! Por que ele era meu amigo?

Ah, claro. As pessoas costumam se importar com mais que tamanho de bunda quando gostam de alguém. Detalhes, detalhes, Jungkook, detalhes que você não devia esquecer.

Enfim… péssima bunda. Pernas sem nada demais vistas de costas e o mesmo com os pés. O que faltava? Me respondi antes de perguntar, pois vi meus olhos no reflexo.

Era aquela a parte que eu mais odiava. Poderia mostrar todas as outras em público se isso a escondesse. Não a encarei, tentei parar de pensar, voltei a tomar banho.

O rosto era a pior parte.


{...}


ㅡ Ele disse que trará um novo abajur ㅡ meu pai contou. Eu estava comendo uma fatia de bolo e concordei com a cabeça. ㅡ E me mandou te dizer que o cupido sumiu pela manhã, já que a presença dele não era mais necessária.

Quase cuspi o bolo. Bebi um longo gole d'água pra engolir a comida e poder falar sem problemas. Estava sorrindo. Meu pai parecia desolado.

ㅡ Hm, tá. Aliás, foi ele quem tirou o abajur quebrado do quarto? Ou…

ㅡ Ha. Hahaha ㅡ falou ironicamente. Comi mais bolo, encabulado. ㅡ Ele tirou. Saiu do quarto vestido com os cacos nas mãos, eu ajudei a colocar no lixo. Eu passei longe da porta do seu quarto. Tive pavor de acabar te vendo sem roupa com alguma marca pelo corpo.

ㅡ Pai, por favor, né…

ㅡ Eu que digo por favor. Por favor, levante a gola da camisa. Estou morrendo um pouco a cada vez que vejo chupões aí. ㅡ Deitou a cabeça na mesa. Pigarreei e puxei a gola. Como papai complicava as coisas… ㅡ Perdão, mas você é meu filho. Deus, quando foi que você cresceu tanto? Ontem mesmo você corria pela sala com Yoongi assistindo desenho.

ㅡ Faz anos, pai. Faz realmente muito tempo.

ㅡ Eu sei, eu sei… ㅡ Bebeu um gole de café de sua xícara. ㅡ Da próxima vez, me avise com antecedência. Eu saio de casa.

ㅡ Pai, meu Deus, você está deixando tudo muito esquisito. ㅡ Passei as mãos pelo rosto, sentindo o quão quente estava. ㅡ Não foi algo que a gente planejou, ele nem devia ter vindo. Só aconteceu. Não vai acontecer de novo. Saber que você estava ouvindo não foi a melhor experiência que eu tive.

ㅡ Ouvir também não foi a minha. Enfim, Yoongi daqui a pouco vem. Pode me dizer o que houve ontem antes de sair?

ㅡ Tanta coisa, pai. Tanta coisa. Se importa se eu contar outra hora? Não quero pensar nisso.

ㅡ Mas você não estava pensando em viajar? Quando será, então?

ㅡ Eu te conto antes de ir, prometo. Me desculpe por ontem, eu não quis incomodar você. Se eu pudesse ser menos promíscuo por você, eu seria.

ㅡ É, é, eu sei, tudo bem. Me perdoe por ter interferido também. Eu estava louco, acho que se Jimin passasse por mim eu o estrangulava.

ㅡ "Esse cara é meio louco".

ㅡ O quê?

ㅡ Nada. Jimin e Pica-pau, longa história. Yoongi chegou!

Yoongi hyung, como sempre, entrou sem bater, falou ao papai que algum cachorro tinha feito cocô nas rosas dele e ele saiu desesperado para o jardim. Hyung sentou ao meu lado e começou a comer o bolo, uma fatia de pão, uma banana, levantou, abriu a geladeira e pegou iogurte… Eu me senti a visita.

ㅡ Fome, hein? ㅡ brinquei. Ele deu de ombros, encostado na geladeira enquanto segurava a fatia de pão com o bolo em cima na mão direita e o copo de iogurte com a banana dentro na mão esquerda. ㅡ Ainda está bravo comigo? Porque não precisa castigar seu estômago por mim.

ㅡ Você sabe que eu como quando tô sob emoções fortes. Nem tomei café da manhã em casa, porque sabia que quando olhasse pra você meu corpo imploraria por alimento. ㅡ Bufou. Mordeu um enorme pedaço da fatia de pão com bolo. Foi adorável. Ele me encarou de bochechas cheias, olhou o chão e fez um sinal com a cabeça. ㅡ Por que a gola levantada?

Sorri com timidez e abaixei a gola. Ele engasgou com o bolo e bebeu todo o iogurte do copo, sentou na cadeira ao meu lado e analisou minha pele.

ㅡ A, filho da puta! Quando? Como? Por quê?

ㅡ Longa história. Me deixe pedir desculpa antes de contar. 

ㅡ Você já pediu todas as desculpas do mundo por mensagem ontem. Fez até eu me sentir mal.

ㅡ Me perdoe por isso também. Eu surtei e quis fugir. Já falei com Jihyo sobre a viagem. Acho que vou no fim de semana. Quero me afastar um pouco daqui. Se eu ficar perto de Jisung tanto tempo, vou ficar louco. Além de que com Jimin tão perto… eu nunca mais vou estudar. A escola não é mais a escola, a escola é o lugar onde Jimin trabalha. Ele mexe demais comigo e eu não quero ter mais emoções fortes num tempo tão curto. Eu vou, mas eu volto. Não estou fugindo de você. Juro.

ㅡ Tudo bem, sei que não. Eu mesmo ia sugerir que você saísse um pouco. Relaxa, tá? Eu prometo não causar confusão se isso te fizer viajar tranquilo.

ㅡ Seria um alívio, porque me preocupo muito com você. ㅡ O abracei e beijei sua bochecha. ㅡ Eu te amo, hyung. Obrigado por tudo.

ㅡ Te amo também. Agora me conte o que exatamente aconteceu com você ontem, enquanto eu como.

ㅡ Leve a comida com você ㅡ papai disse, entrando na cozinha. ㅡ Eu ouvi ele narrando da outra vez e sem os detalhes já foi péssimo. Ontem, eu tive que ouvir bem mais que os detalhes. Então, Yoongi, por favor: leve o bolo todo e a garrafa de iogurte, mas não me faça ouvir ele narrar a história que presenciei de camarote.

Yoongi me encarou. Eu levantei a gola e ri, movendo os ombros. Saímos de casa juntos. Eu explicando do que meu pai falava e de como a noite passada fora caótica e linda. Ele com duas fatias de bolo numa mão e a garrafa de iogurte na outra.

O céu estava limpo e prometia sol. Azul e amarelo. Eu e Yoongi andando até a escola. A natureza também gostava de unir elementos, juntar pessoas. Ela não existia sozinha: era um apanhado de coisas.


{...}


Não vi Jisung na escola, e não porque o evitei ㅡ embora tenha fervorosamente tentado evitá-lo ㅡ, mas porque ele não apareceu. Parte de mim se decepcionou, pois acho que havia em mim um desejo de confrontá-lo.

Ele havia brigado com Yoongi. Foda-se se ele só apanhou, ele já havia ofendido o hyung na minha frente e eu não duvidava que tivesse feito de novo antes de ser agredido. Talvez eu fosse parcial. Não podia me conter. Não sei o que teria feito se ele tivesse tocado no hyung.

Durante aquele dia andei somente atrás de Yoongi. Todo o tempo vigiando seus atos, o abraçando, dizendo que o amava. Muitas pessoas achavam que eu e ele tínhamos uma relação amorosa e naquele dia devem ter ganhado a certeza, pois eu não soltei a mão dele ou deixei de abraçá-lo enquanto pude.

Na quadra, antes da educação física começar, eu estava o abraçando por trás enquanto ele me falava sobre as recentes aventuras de seus irmãos. Estávamos rindo, meu queixo apoiado no ombro dele, minhas mãos ao redor de sua barriga quentinha, as mãos dele acariciando meus braços. Um dos amigos de Jisung passou por nós e disse: 

ㅡ Por que não se beijam logo? Assim serão expulsos e nós teremos paz.

Yoongi fechou a cara, mas não respondeu porque tinha prometido a mim não se meter em problemas. Portanto, me vi no dever de fazer algo.

ㅡ Eu não beijo o hyung aqui porque sei respeitar o ambiente escolar. Talvez você não saiba como é isso, já que suas noções de respeito são bem limitadas.

Ele me encarou. Eu não sabia se havia me entendido, pois os amigos de Jisung não costumavam ser muito inteligentes quando se tratava do mundo fora de sua bolha. Boas notas em biologia? Tinham. Noção de que homossexualidade não passa pelo toque? Nem tanto.

ㅡ Escuta aqui, gayzinho, já não basta o que fez com Jisung? Não está satisfeito ferrando um de nós?

ㅡ Eu não sou gay, não que seja da sua conta. E quem ferrou quem? Eu não fiz nada pra ele, você anda mal informado. Vem, hyung ㅡ chamei Yoongi, o puxando pela mão para longe do garoto, antes que um de nós ficasse nervoso.

ㅡ Então não sabe o que foi? ㅡ perguntou alto. Todos ficaram em silêncio. ㅡ Alguém bateu nele ontem, e tenho certeza que foi por culpa sua. Ele não quis contar, mas foram seus amigos e aquela puta da Suhyun que trouxeram ele, então é claro que era gente que anda com você.

ㅡ Não chame Suhyun assim ㅡ falei. Soltei a mão do hyung, que já estava aquecendo de raiva. ㅡ Ela já é caridosa por ser minimamente próxima de vocês. Não a difamem na minha frente.

ㅡ Vai defender ela agora também? Estão namorando, por acaso? Ela está disposta a te curar? ㅡ zombou, se aproximando de mim. Era um pouco mais alto, tinha cabelo castanho e olhos grandes.

ㅡ Não preciso ser próximo dela pra defendê-la. Mais uma vez: suas noções de respeito são limitadas… Taeyong? Perdão, eu não sou obcecado por você como seus amigos parecem ser por mim.

ㅡ Você se acha muito importante mesmo, né?

ㅡ Não. E eu não fiz nada a Jisung. Nem mesmo falei com ele sem ser por vontade dele.

ㅡ Claro, claro. Você não tentou seduzir. ㅡ Riu com deboche, ajeitando uma fita amarrada no pulso.

ㅡ Seduzir? Vocês acham que eu tentei seduzir ele? Vocês sabem que foi ele que me tocou, não sabem? Se ele não é assim tão hetero, reclamem com ele, não comigo.

Ele socou meu rosto. Foi de repente, foi bruto, doeu. Foi a gota d'água para Yoongi. O hyung avançou sobre ele e fui eu a segurá-lo, enquanto alguns amigos de Taeyong (era aquele o nome dele?) lhe faziam o mesmo. Desigual, pois Yoongi era mais forte que eu e conter seu corpo furioso era difícil. 

Taeyong gritava, xingava, estava com raiva de mim ㅡ os motivos eram, pra mim, um grande mistério.

ㅡ Você fodeu com ele! Sabe o que estão pensando de nós desde que acharam a maldita carta? Não aja como se não fosse sua culpa! ㅡ bradou, a todo custo tentando se soltar e vir até mim. Seus olhos estavam cheios de ódio. Yoongi gritava que o mataria assim que fosse solto.

ㅡ Carta? Você tá maluco? ㅡ perguntei, sem ar; segurar Yoongi estava me sugando.

O professor logo chegou e separou a briga. Fomos todos levados à diretoria e ganhamos advertências, ameaças de coisa pior. O restante da aula foi "normal" após Taeyong plantar a semente da dúvida em mim no corredor:

ㅡ Suhyun é um nojo por ajudar gente como você a fazer o que fez. Jisung não merece isso.

Yoongi teria surtado novamente se não estivéssemos na escola ainda, e recebido punições há pouco. Eu teria questionado aquilo, mas não tinha mais energia. Já estava exausto só de pensar em explicar ao meu pai por que recebi uma advertência.

Mas… Suhyun? O que Suhyun havia feito por mim que nem eu sabia?


{...}


ㅡ Não foi minha intenção, Jungkook op… Jungkook. Eu só acabei descobrindo e ele ficou muito…

As palavras de Suhyun faziam minha mente rodar e era a mão de Yoongi colada à minha que me mantinha de pé, estável até onde era possível estar. Ela estava receosa por contar, eu estava ainda pior após saber. Não por culpa, mas por ver o quão complicado tudo aquilo era.

ㅡ Lamento mesmo.

ㅡ Não, não é sua culpa. Tudo bem. Obrigado por contar, Suhyun. Tenho que ir. Até mais.

Hyung havia explicado a Taehyung e Hoseok tudo ㅡ tudo o que era possível sem nos comprometer ㅡ sobre a briga do dia anterior, então não tivemos impedimentos ao sair da escola. Não tínhamos nada a dizer e eles sabiam que não queríamos conversa. Encarei o corredor antes de sair; queria que Jimin viesse comigo. Os dias longe seriam bons para apagar o incêndio que ele causava em mim. 

Yoon hyung e eu andamos em silêncio quase o caminho todo e fui acompanhado até a floricultura. Ao lado dele e de Dahyun, busquei manter a cabeça vazia até o fim do dia. Contei ao meu pai os ocorridos que havia deixado de lado, tentei estudar um pouco ㅡ até consegui, o que me aliviou muito ㅡ e logo deitei. Troquei curtas mensagens com Jimin antes de adormecer.

Jimin:

Foi muito ruim? - 22:02

Eu: 

Eu meio que já sabia, só não sabia que era tão sério. - 22:02

Jimin: 

Hm. Lamento. - 22:02

Eu: 

Tudo bem. - 22:02

Eu: 

Sinto sua falta. Não me incomodaria de dormir sempre ao seu lado. - 22:02


Jimin: 

Você não dormiria, Jeon. Sabemos que não. - 22:03

Eu: 

Não dormir seria melhor ainda. Enfim, vou descansar. Tenha uma boa noite, Jimin hyung. - 22:04


Jimin: 

Tenha uma boa noite, Jeon dongsaeng. Descanse. Lembre que amo você. - 22:04


{...}


ㅡ Eunwoo está tristíssimo com a sua viagem, mesmo que ele nem te veja tanto assim ㅡ falou Yoongi, enchendo a boca de pipoca.

ㅡ Hmm, tadinho. Vou sentir saudades dele.

ㅡ Vai nada. Ele é um porre de chato. Quem me dera viajar e esquecer dele. Enfim, já sabe o que fazer? Sua mãe vai te sondar.

ㅡ Estou preparado pra isso. Jihyo vai estar lá, afinal.

ㅡ Tá bom. ㅡ Se ajeitou na cama, me abraçando, e comeu mais pipoca. ㅡ Não esqueça de mandar notícias. A não ser que esteja se divertindo demais.

ㅡ Tá bom. Ganho um beijinho de despedida?

Yoongi revirou os olhos e me deu um selinho. O abracei forte, acariciando sua barriga gordinha.

ㅡ Seu namorado sabe que você anda beijando outros homens?

ㅡ Meu namorado disse que não se importa nem se eu transar com outros homens. Jimin gosta de um lance mais… espiritual, não sei dizer, hyung. Mas ele me quer por perto da forma que for. Sexo e beijos são tipo presentes. Eu te falei, lembra?

ㅡ Sim, mas foi em outro contexto. Enfim, relação moderna.

ㅡ Não. Relação estranha, eu diria. Tudo que fazemos é muito estranho. Eu gosto.

ㅡ Ai, esses apaixonados. Enfim, não vou transar com você. Acho que gostamos de coisas diferentes na cama.

ㅡ Ah, isso eu também acho. ㅡ Ri, me deitei de lado, de frente para ele. Toquei suas bochechas. ㅡ Você engordou bastante nessas semanas, hyung. Está adorável. Fico feliz que tenha voltado a comer como quer.

ㅡ Pois é, depois de um longo tempo tão ocupado que mal comia, eu estou me dando ao luxo de mastigar o dia todo. Espero que Taehyung não me ache menos atraente. ㅡ Suspirou. Comeu mais pipoca.

ㅡ Só um idiota não te acharia atraente. Você está lindo. 

ㅡ Vou acreditar que sim. Voltando ao assunto: aproveite a viagem, tá? Só te chamei pra vir aqui porque queria garantir que não iria deprimido pra casa da sua mãe. Vai ficar tudo bem aqui. Se divirta muito.

ㅡ Eu vou, hyung. Prometo que vou.

O dia antes da viagem foi ao lado dele porque eu queria já sair de casa em paz. A semana havia sido estressante, eu viajava entre crises e uma indiferença sem igual. Vomitei meu almoço várias vezes, dormi mal e depois dormi demais.

Eu precisava toscanejar sem nada me tirar da dormência quando eu acordasse. Às vezes essas fases de altos e baixos duravam meses e às vezes ficavam ainda mais meses sem aparecer, porém sempre voltavam. Quando vinham, eu tinha que achar fuga, do contrário enlouqueceria ㅡ aconteceu uma vez; perdi o controle de forma tamanha que foi quando comecei a ter sempre alguns comprimidos em casa para manter a calma.

Eu não queria nem podia passar por aquilo de novo. Desejei que a viagem me tornasse preparado para mais alguns meses de loucura ou só… calmaria.

No fundo mesmo… eu só desejava desesperadamente alcançar a ataraxia ㅡ ainda que soubesse que não era no desespero que a ganharia.


{...}


Papai perguntou se estava tudo na mala, nos abraçamos, eu entrei no trem. A cidade se moveu rápido. Eu escutei uma playlist que Jimin criou pra mim. Não conversei com a mulher ao meu lado.

Jihyo me pegou de carro, me abraçou tanto que chegou a doer. Fomos rindo sem parar o caminho todo. Eu nem bem havia chegado e já sabia que havia sido a escolha certa. 

Ela estacionou o carro, descemos, entramos. Foi inevitável recordar de quando eu, criança, andava pela cozinha e pela sala, sempre atrás de Jihyo ou Seokjin. Mamãe costumava me mandar brincar na rua, porque eu passava tempo demais perseguindo outros membros da família.

Seokjin não estava lá. Há tempos não estava, entretanto seu quarto permanecia e seus retratos também. Jihyo estava lá, tirando do fogão a comida que havia feito pra mim. Mamãe logo veio, saindo do escritório.

Estava linda, como sempre, talvez até mais. O cabelo escuro estava no comprimento dos ombros, o rosto com uma ou duas linhas de expressão a mais que em nada a deixavam menos atraente. Ela sorriu contente, porém não havia efusão nenhuma. Mamãe era serena. Sua raiva era contida, sua mágoa era fatal. Diferente de mim e papai, ela sempre sabia como esconder o que sentia. Como um lago calmo que abriga um monstro no fundo.

Ela me abraçou, respirou fundo. Eu chorei e disse que senti saudade. Suas mãos deixaram meu cabelo pra trás, seu olhar me inspecionou. Sorriu de novo.

ㅡ Tão lindo quanto na última vez. Cresceu também. A cada dia mais longe da infância. Como se sente, meu amor?

Aquela casa foi um dia o lar de Seokjin, de Jihyo, meu e de meus pais casados. A casa toda tinha aquele cheiro de porto seguro, de uma época anterior à perda do paraíso. Um Éden conservado no tempo, intocado pela pressa do exterior. Até o que era velho era atual. A atemporalidade morava ali.

ㅡ Me sinto como aquela palavra que você me ensinou, mãe: ataraxia. Aqui… estou cheio de ataraxia.


Notas Finais


Quem amou?
A música que o JM usou é Cupid, do Ryan Beatty.
Link em caso de interesse: https://youtu.be/SNT413T8rvo

Até💙🦋


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