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História Perfect Lie - Capítulo 14


Escrita por: yilingdadepre

Capítulo 14 - Capítulo 14


Capítulo 14

 

FanXing 

 

Quando deixei tia Berenice sob os cuidados de Magda, na manhã seguinte, ainda estava escuro. Mesmo assim, dona Marlucy já estava na rua, varrendo a calçada. Apressei o passo, evitando contato visual. Não adiantou muito. 


— Fanxing Saindo mais cedo, é? Aconteceu alguma coisa? 


— Não, nada. 


Não é que eu não gostasse dela... Tá, eu não gostava, e não era por conta da noite passada. A mulher magra de cabelo claro e rosto comprido — que sempre me fazia pensar numa raposa — era a maior fofoqueira do bairro, e fazia comentários maldosos sobre todo mundo, especialmente sobre Dênis. 


Como se quem ele amasse fosse de suma importância para a vida dela... 


— Vi você ontem com aquele rapaz. Parecia bem feliz, hein? — Ela piscou um dos olhos de raposa. 


— Dona Marlucy, eu realmente tenho... 


— É sempre bom ver alguém feliz — ela me interrompeu. — Sobretudo quando se está no fundo do poço. Minha vida está tão difícil. — Os olhos dela marejaram. Ah, Senhor, de novo não! — Você sabe que pessoas como nós, as mentes evoluídas, são as que mais sofrem, não sabe? 


Toda vez que ela vinha com aquele papo de “mentes evoluídas”, eu desejava ter algo para acertar minha cabeça. 


Avistei Dênis saindo de casa, do outro lado da calçada. 

Me salva, sibilei para ele. 


Ele apertou os lábios para não rir, sem se deter um segundo sequer. 

Filho da mãe! 


— Fiz até um poema sobre isso — disse dona Marlucy. — “A rosa azul, que sorri ao alvorecer, murcha e chora ao cair do crepúsculo. Chega a dar pena ver tão bela flor se tornar um molusco.” Tão profundo, não acha? — Ela soluçou alto e enxugou uma lágrima. 


— Nossa. Profundo. Estou atrasado. Preciso ir agora. 


— Mas você nem me contou quem era o homem no carro ontem à noite!

 

Mas eu já corria. Alcancei Dênis pouco antes de chegar ao ponto de ônibus. 


— Seu traidor! — acusei. 


— Tenho reunião com uns representantes logo cedo. — Meu amigo trabalhava em uma das 

joalherias mais chiques da cidade. — 


Estava espiando na janela já fazia dez minutos, esperando que aquela cobra encontrasse uma vítima. Uma pena que foi você, solzinho. E você, por que está saindo tão cedo? 

— Porque eu arranjei um noivo. 


— Elabore. — Ele estendeu o braço e deslizou o polegar na linha do meu lábio inferior, limpando o café que eu provavelmente havia borrado na pressa de sair de casa. 


Nosso ônibus chegou, e milagrosamente conseguimos nos sentar. 

Aproveitei e contei a ele o que havia acontecido, sobre o contrato com a agência, a proposta de Jingyi , o jantar e as perguntas de tia Berenice a respeito dele. Dênis lutava para não rir e por duas vezes não foi capaz de segurar a gargalhada. Eu quis bater nele. 


— Então, estou indo para a academia agora — ajeitei a mochila no colo —, porque, se eu não mostrar uma foto do Jingyi  ainda hoje para a tia Berenice, ela vai sacar que tem alguma coisa errada. 


— E se ele não estiver lá? — ele perguntou, com a testa encrespada. 


— Ele disse que sempre malha com o irmão. 


— Sempre não significa todos os dias.

 

— Quer parar com isso? Era para você estar me animando. “Vai dar tudo certo, Fanxing. Claro que vão devolver o dinheiro da sua tia, Fanxing. Não, você não vai matá-la quando contar que mentiu para ela, Fanxing.” 


— Desculpa, solzinho. Eu só estava pensando no que pode dar errado e no que fazer no caso de ele não estar lá. Conheço um cara que é advogado. Vou falar com ele a respeito desse contrato. Se puder me dar uma cópia, vai ser melhor ainda.



— Ah, Dênis, não sei se vai adiantar muito não. Foi a tia Berê quem contratou. A menos que eu a interdite, não vejo como conseguir o cancelamento sem que ela saiba. 


— Não custa tentar. 


Meu ponto chegou. Eu me despedi de Dênis e desci apressado, procurando o prédio da academia. Não foi difícil encontrar. A fachada era toda de vidro, exibindo a fileira de esteiras. 

Uma garota vestida de lycra da cabeça aos pés me dirigiu um sorriso amistoso assim que passei pela porta. Apesar de pequena, ela tinha mais músculos nas pernas do que eu no corpo todo. 


— Posso te ajudar, lindo? — perguntou, toda amável. 


— Oi, eu estou procurando uma pessoa. 


O sorriso sumiu. 

— Ah, eu pensei que fosse aluna nova da aula de zumba. 


— Não. Eu estou procurando meu... amigo. Jingyi . Lan Jingyi . 

— Ah, sim. O Jingyi ! — O sorriso dela retornou, assim como um pouco de cor nas bochechas. Então ela me avaliou dos pés à cabeça e seus olhos se estreitaram. — Mas eu não sabia que o Jingyi  tinha namorado. Ele nunca mencionou. 


Minha paciência estava se esgotando, mas ser mal-educado não me ajudaria a encontrar meu “namorado”. 


— Pode me mostrar onde ele está, por favor? 


— Mas é claro. — Ela girou sobre os calcanhares e seu cabelo escuro e longo se balançou nas costas, chegando quase à altura dos quadris, de onde uma montanha de músculos saltava. Aquilo não podia ser de verdade. Quer dizer, era anatômica e fisicamente impossível. A gravidade não suportaria tudo aquilo. Eu podia apostar que Jingyi  vivia arrumando desculpas para seguir aquela moça para lá e para cá. 


Cretino. 

Não que eu ligasse para o tipo de pessoa que o atraía. 


Acompanhei a garota até entrar no complexo das piscinas. 


— Ele e o irmão estão na olímpica. — Ela segurou a porta de vidro para que eu passasse. 


— Obrigado. 

Poucos se arriscavam a encarar a água àquela hora da manhã, então não foi difícil encontrar os dois pares de braços. Eu me aproximei da piscina, mas parei. 


— Uau. — Era muito braço, muito ombro, muita pele para assimilar. Os dois irmãos pareciam perdidos em uma disputa quase coreografada, vigorosa e... hum... muito molhada. 


Meu olhar foi atraído para Jingyi , para os desenhos que os movimentos dos seus braços produziam na água, para o cabelo negro que reluzia como veludo agora, para o bailar dos músculos em suas costas. Eu nem sabia que se podia movimentar tantos músculos em uma única área, de uma só vez. Era lindo. Realmente lindo. 

Ele e o irmão tocaram a borda quase ao mesmo tempo. 


— Acho que estou ficando velho — Lan Zhan  riu, se segurando na beirada da piscina. — Já não consigo ganhar de você. 


— Você não estava dando tudo, que eu sei. — Jingyi  usou um braço para se segurar na beirada e afastou o cabelo da testa com a mão livre. 


— Eu estava sim, Jingyi  — Lan Zhan  falou firme, os lábios apertados num meio-sorriso, algo parecido com orgulho reluzindo nos olhos claros. 


Jingyi  hesitou por um instante, por fim deu um soco no braço do irmão. 

Então ele se debruçou na beira da piscina e me viu. Dizer que ele ficou surpreso seria um eufemismo. 


— Oi — comecei sem graça, enquanto ele me analisava boquiaberto.


 — Eu preciso falar com você. Oi, Lan Zhan . 


— Fanxing. — Lan Zhan  pretendia dizer mais alguma coisa, mas mudou de ideia. Encarou o irmão e algo se passou entre eles. 


Jingyi  inclinou a cabeça para o lado, ao me olhar de cima a baixo. 


— Algo importante? 


— É. Bem importante. 


Ele se virou para o irmão. 

— Vou precisar de um minuto. 


— Tranquilo — respondeu Lan Zhan . — Eu já ia sair mesmo. Vou tomar uma chuveirada. Te encontro mais tarde. Até depois, Fanxing. — Ele empurrou a borda e saiu nadando em direção ao outro lado da piscina. 


Jingyi  tomou impulso e se ergueu sobre os braços, girando o tronco para se sentar na beirada. Gotas minúsculas escorriam por todo o corpo dele, e eu não consegui desviar os olhos daquela dança úmida. 

Especialmente o trajeto daquelas que pingavam de seu cabelo e percorriam toda a extensão das costas, os ombros de musculatura firme e maciça. 


Algo dentro de mim se sacudiu, um calor repentino surgiu em minhas bochechas e eu achei que alguém devia abrir uma janela. Só eu percebia como aquele lugar estava abafado, caramba? 


— Não sei se fico preocupado com seu talento investigativo — Jingyi  comentou — ou lisonjeado. 


— Você mencionou que vinha aqui com o seu irmão e eu resolvi tentar a sorte. Eu... hã... é... — Eu já havia deduzido que ele tinha braços fortes, mas não esperava por aquilo. Os bíceps de Jingyi  eram generosos, quase da grossura de minhas coxas. 


Tudo bem, eu tinha pernas finas, mas mesmo assim. Ele tinha aquele tipo de braço em que uma pessoa desejaria se pendurar e ficar ali por um dia inteiro.



Não que eu estivesse pensando em fazer aquilo. 

Não que eu desejasse aquilo. 


— É o quê? — Jingyi  perguntou. 


— É o que, o quê? — Pisquei uma vez e me obriguei a encará-lo. 


Um sorriso esplêndido curvou seus lábios e chegou a seus olhos. 


Minha nossa. Havia algo errado comigo. Muito, muito errado mesmo, porque o meu estômago parecia um elevador. Não, um bungee jump! 

Subindo e descendo, subindo e descendo... 


— Você é sempre tão avoado pela manhã, ou devo supor que esse efeito é causado pela minha falta de roupa? — ironizou. 


Meu rosto esquentou ainda mais, assim como todo o resto de mim. 

— Eu nem notei que você estava sem roupa! — Fiquei feliz por minha voz ter soado tão normal. Peguei uma toalha na pilha sobre uma mesinha ali perto e joguei nele. 


Jingyi  pegou a toalha no ar e a passou pelo peito nu, em uma cena muito semelhante àquela que meu cérebro criara. Deve ter sido por isso que eu não pude desgrudar os olhos daquela mão. Apenas para me certificar de que o tinha imaginado de um jeito muito melhor do que na realidade era. 


O problema é que eu nunca fui muito bom em imaginar coisas. O Jingyi  da minha imaginação era medíocre comparado ao que eu admirava agora. 


O barulho da cadeira sendo puxada para perto me despertou e eu vi Jingyi  abaixar uma alavanca na roda, se posicionar, plantar as mãos nas ferragens e começar a se erguer. 


— Espera, eu te ajudo. — Segurei o encosto baixo da cadeira. 


— Já travei os freios. 


— Não custa garantir. Tem poças de água aqui, vai que a roda escorrega. 

Jingyi  deu risada e sacudiu a cabeça, se acomodando. 


— Que foi? — perguntei. 


— É ridículo você ter ficado preocupado se vai conseguir enganar meus pais. Você é um cuidador nato, Fanxing. 


Eu não soube o que responder, em parte porque não sabia como, em parte porque seu ombro direito entrou no meu campo de visão. A pele agora seca deixou evidente uma coleção de marcas que iam do ombro ao cotovelo. Havia mais algumas na lateral das costelas, coxas e panturrilhas. E mais uma ainda, no pulso, mas essa não parecia ser fruto do acidente. 


Sem perceber o que estava fazendo, ergui a mão e toquei uma das cicatrizes no ombro. Jingyi  estremeceu de leve. 

Recuei imediatamente. 


— Ainda dói? 


— Não. — Seu queixo se apertou, os lábios espremidos em uma linha firme e dura, os olhos encobertos por uma sombra. Ele não gostava de ser tocado ali. 


— Desculpa. 


Ele jogou a toalha por cima dos ombros, assumindo uma postura grave. 


— Por que você precisava falar comigo, Fanxing? 


Ah, sim. 

— Uma vizinha nos viu ontem. E contou pra minha tia que a gente estava... se pegando. 


— A gente não estava se pegando. 


Eu me recostei no carrinho de toalhas. 

— Tenta explicar isso pra dona Marlucy.



Aquela aspereza em seu semblante se suavizou um pouco. 


— Então — prossegui —, a história de o meu namorado estar viajando foi por água abaixo. A gente vai ter que apressar as coisas. 


Ele assentiu uma vez. 


— Como você pretende fazer isso? 


— Ela quer oferecer um jantar. Está na esperança de que eu seja pedido em casamento... — Revirei os olhos. 


— E é certo que ela vai te encher de perguntas, então, no fim das contas, a sua ideia de a gente se conhecer melhor veio a calhar. 


— Ok. Podemos começar hoje à noite no cinema, como estava combinado. 


— Tudo bem. Se importa se eu tirar uma foto sua? Ela me pediu para ver ontem e eu dei uma enrolada, mas se ela perguntar de novo vai acabar percebendo que tem coisa errada. 


— Tranquilo, Fanxing. Não me importo. 


— Obrigado. 


Imaginei que ele fosse para o vestiário colocar umas roupas, mas tudo o que fez foi ficar me encarando e perguntar, como se não estivesse nu:

— Não vai fazer a foto? 


— Você... não prefere se vestir antes? 


— Não. 


— Humm... Tá. — Saquei o celular e abri a câmera. Enquadrei o rosto de Jingyi  e esperei que ele sorrisse. Ele não sorriu. Em vez disso, cruzou os braços sobre o peito, as sobrancelhas abaixadas. Apertei o botão e capturei a imagem. — Essa deve servir. 


— Não, não serve. O cara do wi-fi devia ser um asno, se esse é o tipo de foto que você acha que namorados fazem. 


— Eu não fazia fotos do idiota do wi-fi. 


— Não me surpreende. Vem cá, Fanxing. — Retirando a toalha dos ombros, ele a colocou sobre o calção e estendeu a mão para puxar minha blusa. Sem esperar por aquilo, acabei sentado em seu colo. 


— O que você está fazendo? — Tentei me levantar. 


— Você precisa parar de me perguntar isso. — Pegou o celular da minha mão, mudou a abertura da câmera e esticou o braço para cima. — Vamos lá. Sorria, FanXing — ordenou. Eu ainda lutava para sair dali quando ouvi o clique da câmera. — Essa não ficou muito boa. Mais uma. E dessa vez tenta fazer uma cara mais feliz. 


Vencido, consciente de que teria de fazer as malditas fotos de todo jeito, decidi acabar logo com aquilo e, um pouco hesitante, aproximei a cabeça da dele. Tentei sorrir. 


— Ficou melhor. — Examinou o resultado. — Mas muito formal. Coloca o braço nos meus ombros. 


— Tá. — Com cuidado, fiz o que ele sugeriu, evitando tocar as cicatrizes. 

Jingyi  clicou mais uma. E outra ainda. Continuei olhando para a câmera e me concentrei em respirar, porque, francamente, a temperatura devia ter subido uns dez graus nos últimos minutos. E que raios era aquele formigamento no meu corpo todo? 


— Fanxing? 


— Hã? — Virei a cabeça. O rosto dele estava perigosamente perto do meu. Tão perto que minha respiração se misturou à dele. Perto o suficiente para que meu coração se assustasse, se sentisse ameaçado e começasse a bater feito louco. E isso foi antes de ele abrir aquele sorriso inteiro que lhe chegava aos olhos e o deixava tão lindo. 

Clique.



— Acabamos. — Sua voz estava levemente rouca. Aqueles incríveis olhos ainda estavam nos meus, e eu senti como se eles me sugassem, me absorvessem. Enrosquei os dedos em seu cabelo, tentando me manter no lugar, porque eu tinha a sensação de que estava flutuando naquelas águas cristalinas. Seu olhar desceu para minha boca, e o meu coração já acelerado começou a martelar minhas costelas. Eu queria que ele... Um estrondo ressoou pelo recinto, me fazendo despertar daquele transe. Alguém tinha esbarrado no carrinho de toalhas. A moça bonita da recepção. Foi então que me dei conta de que estava no colo de Jingyi  — seminu! —, agarrado a ele como se eu fosse... como se nós fôssemos... 


Pulei sobre meus próprios pés. Por culpa daquele formigamento, minhas pernas não se firmaram e eu cambaleei um pouco. Jingyi  desviou o olhar para o chão, remexendo a toalha até ela se tornar um amontoado sobre seu quadril. 


Respirei fundo. — Preciso ir. Estou atrasado. — Dei uma ajeitada nas roupas. Estavam úmidas. — Ah, droga, você me deixou toda molhado, Jingyi . — Pelo amor de Deus, 


FanXing — Jingyi  gemeu, soltando o ar com força. Meus olhos se arregalaram enquanto eu me dava conta do que havia dito. Meu rosto pegou fogo. Envergonhado até a medula, girei sobre os calcanhares, querendo sair dali o mais depressa possível, e dei um encontrão numa pilastra. Uma pilastra que também atendia pelo nome de Lan Zhan . Ele me segurou pelos ombros para que eu não caísse. — Desculpa — falei, atordoado. — Tudo bem. — Ele me ajudou a recuperar o equilíbrio, me observando com evidente curiosidade. Havia quanto tempo ele estava ali?, eu me perguntei. Será que tinha me visto sentado no colo do irmão dele? Será que tinha me visto agarrando Jingyi  pelos cabelos? Será que tinha me ouvido dizer que... Argh!



Sem olhar para nenhum dos dois, praticamente corri em direção à saída, implorando para que um raio caísse e me acertasse na cabeça. 

 



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