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História Perseguido - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Perseguido


 Minha turma, sexto ano, costumava ser muito bagunceira algo que me incomodava profundamente, mas naquela ocasião específica todos estavam em silêncio. Os slides sobre o Egito antigo com imagens de deuses, construções antigas e artefatos milenares escolhidos pelo meu professor tinham um efeito bastante positivo sobre a turma. Entretanto, essa paz foi desfeita por um aluno, que no caso era eu. A troca rápida de um slide das Pirâmides de Gizé para o de uma múmia me assustou, foi algo rápido, um grito baixo que durou segundos diferente das gargalhadas e piadas dos meu colegas que duraram um bom tempo. A sensação de ser zombado por todos ao meu redor, enquanto me encolhia na cadeira, era angustiante, era vergonhosa.

Após alguns minutos meu professor conseguiu silenciar a turma o que era o bastante para ele que pensava só em continuar a explicação, mas não para mim. Sabia que ao acabar a aula eles iriam voltar a implicar comigo, já faziam isso mesmo sem motivo, e foi o que aconteceu. Tocado o sinal fui encurralado por um quarteto que me chamava de covarde retruquei dizendo que era corajoso, o grupo então propôs um desafio: atravessar a Mata do Neinei de noite. Essa era uma mata muito frequentada por quem gostava de fazer trilha até que alguns assassinatos que aconteceram lá no meio do ano afugentaram a todos. Mesmo com medo eu aceitei, era a chance de ganhar o respeito dos meus colegas e parar de uma vez por todas com as piadas e implicâncias. Um deles então apertou o meu ombro e ameaçou me bater caso eu não fosse, meu pai apareceu na hora para me buscar e o grupo foi embora. Durante o trajeto de volta ele perguntou se os garotos estavam mexendo comigo, respondi que não e ainda disse que estavam me convidando para tomar sorvete com eles de noite. Mentir é errado, mas nesse tipo de situação contar a verdade para o meu pai apenas abriria margem para que continuassem me chamando de covarde, para sair dessa eu teria que me proteger sozinho.

Quando anoiteceu despedi do meu pai dizendo que iria para sorveteria e me direcionei ao início da trilha, iríamos pela mais curta delas, não queríamos demorar muito. O quarteto todo já tinha chegado e como combinado iria na frente, bastava eu tremer de medo ou dar para trás que perderia o desafio. No pescoço a correntinha dada por minha falecida mãe servia como proteção tornando a caminhada menos amedrontadora. Eduardo, Rafael, João e Luís andavam atrás de mim fazendo barulhos com a boca e lançando pedrinhas ao mato para me dar susto. Sabia que eles iriam fazer esse tipo de coisa, por isso não tinham efeito sobre minha coragem. Entretanto, as imagens dos assassinatos e os boatos que ecoaram pela cidade na época rondavam minha mente e afetaram o meu corpo, o coração batia mais rápido, a respiração pesava e eu ficava mais tensionado. No alto das árvores, o canto dos neineis parecia aumentar a medida em que entrávamos na mata era como a trilha de um filme de terror nos preparando para o pior e eu estava certo em pensar assim.

Chegando a parte do trajeto cortado por o que antes era um rio, mas agora se encontrava seco, Eduardo, o maior deles, me empurrou forte para dentro daquela área em declive. No chão, com leves feridas no braço, na perna e com um joelho ralado saindo um pouco de sangue avistei eles rindo de mim, o mesmo que me empurrou disse "boa sorte fingindo ser corajoso agora" e foram embora. Com esforço, por conta dos ferimentos, subi de volta para trilha. Eles, que já estavam um pouco na frente corriam até que João o que estava mais longe foi atingido. Uma pedra amarrada a um pedaço de corda acertou sua cabeça fazendo jorrar sangue. Seu corpo atingiu forte ao chão, ele estava morto. Na hora não foi simplesmente medo o que senti. Já tinha visto pessoalmente conhecidos mortos, mas todos eram idosos ou doentes a associação entre eles e a aquela condição fúnebre, mesmo que não fosse almejada, era esperada. Ver uma criança, como eu, morta, foi uma sensação desconcertante em que minha vida se tornava frágil e a ligação entre nós fazia da morte uma amiga em comum.

Todos permaneciam paralisados, quando saindo em meio às árvores ele apareceu. Seu chapéu era preto. O seu rosto não tinha pele, era apenas carne em volta de terríveis olhos escuros. Vestindo roupas velhas e desgastadas sobre elas havia uma espécie de rede com algumas pedras amarradas. Deu alguns passos em nossa direção enquanto girava uma pedra presa a uma corda tal qual a que atingiu João, corremos. Desci cambaleando, percebi que não adiantava subir para a margem do falecido rio, onde se encontrava o resto da trilha, o monstro me alcançaria antes de chegar até lá. Segui o caminho que um dia a água percorria mesmo não sabendo onde iria chegar. Ouvi gritos que pareciam ser de Luís, pensei em olhar para trás, mas ele se calou, provavelmente estava morto, não tinha mais o que se fazer. Tentei correr mais rápido só que os ferimentos tornavam essa tarefa simples em algo difícil. Decidi olhar para trás, ver se o monstro ainda nos perseguia. Nesse momento, Rafael foi atingido por uma pedra na orelha, saiu um pouco se sangue, deu mais alguns passos, outra atingiu sua perna, ele caiu.

Cansado, minha respiração estava ofegante e o suor que escorria pelo meu corpo fazia os ferimentos arderem, ainda assim corria. Eduardo quando estava perto de me ultrapassar foi atingido segurou então em mim para não cair. Acabou que caimos juntos, eu, porém, que me desvencilhei dele cai um pouco mais a frente depois de alguns passos bambos. Caído no chão vi que lá estava ele, o monstro, ao lado de Eduardo, acertou uma pedra em sua perna já machucada fazendo-o gritar. Pegou outra, girou a corda que prendia-a e acertou nas suas costas, ele gritou de novo, mais alto que da última vez. Nesse momento, eu despertei, venci o medo que me paralisava, deixei de lado aquela cena horrível e fugi. Corri, mais veloz do que antes, não olhei pra trás. Depois de um certo tempo, extremamente cansado, saí daquela mata. Respirei fundo, tentei manter a calma e liguei para o meu pai e para a polícia que acionou o samu. Durante o telefonema não mencionei sobre o monstro, menti dizendo ser uma pessoa normal, caso contrário não acreditariam em mim.

Depois, quando vieram me interrogar, contei a verdade que, é claro, não foi bem recebida pelos adultos. Rafael era o único dos atacados encontrado com vida, se não fosse por eu ter chamado as autoridades ele teria morrido devido aos ferimentos. Isso aliado ao fato de não ter contado para ninguém sobre o desafio nos tornou grandes amigos. Os meus colegas ficaram sabendo do ocorrido e passaram a me respeitar, diziam que fui corajoso, já não ficava mais sozinho no recreio, pelo contrário brincava com todo mundo. Mas por mais que minha vida na escola tivesse melhorado eu não conseguia superar aquela noite fatídica, ainda tinha medo, ficava pensando quando ele iria voltar, quando aquele monstro terminaria o seu serviço. Então, ele voltou. Era véspera de Natal e eu tinha acabado de me arrumar, iria celebrar a data na casa da minha avó. Fui até a sala para esperar o meu pai terminar de se aprontar quando ele apareceu. O monstro estava na minha frente, mas eu não fugi, fiquei parado, já tinha aceitado a ideia de que era impossível escapar dele. Sua mão foi em direção ao seu rosto feito de carne, puxou-o fazendo revelar aquela face que para minha surpresa eu sempre conheci. Tentava entender o que estava acontecendo, mas nada fazia sentido. Ele, então, tirou o chapéu preto e abriu os braços. Comecei a compreender, era realmente impossível fugir. "Está tudo bem agora", ele disse, a partir daí já entendia tudo, corri em sua direção e abracei-o em lágrimas. Não tinha mesmo como fugir, meu pai sempre iria me proteger.   


Notas Finais


Essa mesma história está disponibilizada em minha conta do wattpad.


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