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História Persona - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá, estou muito animada com essa história aqui pois é o meu plot favorito em anos e estou ansiosíssima para compartilhar com vocês a minha nova história que venho postar depois de muito tempo a escrevendo.
Quero agradecer imensamente a @trancyz por essa capa linda e maravilhosa. Muito obrigado mesmo meu anjo, você é tudo pra mim!

A história é totalmente fictícia e a personalidade dos personagens não condizem com a realidade, okay?!

Aviso de conteúdo sensível: Nesse capítulo contém cenas de morte e agressão física.

Tenha uma boa leitura!

Capítulo 1 - Blecaute


Os braços de Byun Baekhyun estavam prestes a adormecerem devido ao esforço absurdo em retirar o segundo bloco de concreto que pertencia ao muro da prisão. Sacudiu-os com força na tentativa de aliviar a tensão que se alastrava por seus músculos, fazia bastante tempo desde a última vez que conseguiu se exercitar. Se bem se lembrava, foi antes de ser enviado novamente para Averno — prisão dos bandidos mais sujos e ardilosos de Patreon —, em sua antiga e aconchegante cela na delegacia, onde convivia com os animais mais asquerosos, rastejantes ou de quatro patas que lhe serviam de companhia na mais branda solitude.   

Era um local agradável, se considerar que a sua atual cela de contenção mal o cabia e tinha certeza de que o local mal havia um metro em todas as medidas existentes.   

Um rato vivia melhor do que ele.  

E não era exagero algum de sua parte, devido a sua reincidência, a cada passagem por Averno, sua situação piorava cada vez mais a tal ponto que sequer recebia comida a maior parte do tempo e tinha de se contentar em apenas esperar a boa vontade de seus carcereiros em lhe ofertarem um prato, com algum resto de comida que sobrava da refeição de algum outro prisioneiro. Boa parte disso isso era apenas sua culpa — ou de seu lado perverso. A cada estadia na prisão, fazia mais inimizades com os carcereiros. Seu tom debochado ao falar com qualquer um deles, sempre lhe rendia um castigo como falta de alimentação ou uma bela surra.   

Sempre sentiu vontade de usar seus poderes mágicos contra eles, mas não poderia se expor tanto assim. No mundo humano, ser um bruxo era uma terrível tentação. Tinha sempre de fingir ser uma pessoa comum, sem poder utilizar sua magia para fazer o que quisesse, pois caso fosse pego, isso poderia lhe resultar em muitos mais problemas do que ir parar na cadeia. Já ouvira muitas histórias sobre pessoas que caçavam bruxos e bruxas até hoje, e por isso existia um código impedindo que a magia seja exposta aos humanos. Por isso o Byun até hoje manteve isso em segredo — bem, nem tanto assim pois seu melhor amigo, Oh Sehun acabou descobrindo sem querer. 

Baek alongou seus braços, pescoço e pernas, tentando convencer a si mesmo que estava na mais perfeita forma para continuar sua fuga e voltou à sua missão de retirar mais um dos blocos soltos. Ele bateu com o dorso da mão no bloco à sua esquerda e viu que o mesmo estava preso no conjunto. Seguiu então em direção ao bloco da direita que, para sua sorte estava frouxo e sua remoção acabou sendo mais fácil do que os dois anteriores. Assim que largou o pedaço de concreto no chão, percorreu o braço pelo buraco que fizera no paredão, já que não enxergava muito bem pela falta de luz e pelo tato tentava descobrir se à proporção que fora aberta, era o suficiente para que pudesse passar sem problemas e quase gemeu de emoção ao perceber que sairia por ali sem impedimento.  

Por pouco não correu para abraçar o bendito guarda Hanson, se o desgraçado não o tivesse levado até o lado norte da muralha de Averno para lhe dar uma bela surra por ter cuspido em sua cara enquanto era levado para o banho de sol semanal, jamais teria descoberto a falha que havia na defesa daquele lugar. Seus dias ali estavam acabados — por, pelo menos, alguns meses.  

Baekhyun virou-se para os portões de ferro e deu seu melhor sorriso de canto, levantou o dedo do meio e falou para ninguém em específico: 

—Adeus de novo, seus otários. 

O rapaz, que agora passava uma de suas pernas pelo buraco estreito, paralisou ao ouvir murmurinhos e passos pela grama alta. Seus músculos o impediram de se mover, mesmo estando com metade do corpo do outro lado do muro. Um grito de alerta vinda do lado de dentro — algo que ele não conseguiu compreender, mas sabia que se tratava sobre ele — e várias passadas apressadas fizeram com que ele bufasse de raiva, porém o som foi alto demais e no mesmo instante cabeças viraram em sua direção. Uma lanterna foi posta em seu rosto assustado e em seguida, berros começaram a ser proferidos. A sirene de emergência foi acionada e os refletores do pátio foram acesos, iluminando completamente o local, Baekhyun apenas sorriu e acenou para as sentinelas.  

— Ei, você. Não se mexa! — Gritou um dos guardas. 

Ah, em suas mentes já planejavam uma maneira de torturar o rapaz.  

Se não estivesse em uma situação complicada, Baek certamente teria rido daquela frase estupidamente clichê tão comum naqueles filmes de ação de caráter duvidoso, mas agora teria de ser mais rápido e dar o fora dali. Teve de se espremer pelo local e passar às pressas, machucando várias partes do corpo ao passar pelo buraco, principalmente alguns lugares extremamente sensíveis. Ao passar por completo, se deixou cair no chão pedregoso do outro lado por um milésimo de segundo e se pôs a correr o mais rápido que conseguia.   

Averno ficava em uma pequena ilha de mesmo nome há 30km da capital, Goutie. Segundo algum gênio que sabe Deus porquê, achava-se que ali, no meio do nada seria o local perfeito para abrigar aqueles que foram sentenciados pela lei por seus crimes, onde eles jamais sairiam se não soubessem no mínimo, nadar.  

Mas para a alegria de muitos (Bakehyun) e infelicidade de outros (a polícia em geral), em todo lugar havia falhas na segurança e era assim que Byun Baekhyun e sua facilidade em sair de uma cilada — com exceção das vezes em que conseguia ser pego — conseguia fugir a cada prisão.   

Sentado em sua cela, planejou mentalmente cada passo que seguiria assim que conseguisse sair dali. Seu plano era descer até a costa, encontrar o barco de emergências que sempre ficava a postos para qualquer eventualidade e seguiria com ele até metade do caminho, onde sumiria num passe de mágica, antes que a guarda costeira fosse acionada. Se tudo saísse como planejado, ele seria um homem livre em pouquíssimas horas.  

— Vai dar tudo certo, vai dar tudo certo... — ele começou a repetir em voz baixa, enquanto descia um caminho infirme pelas pedras do penhasco. Aquele era o caminho mais arriscado. Sabia dos perigos que corria ao tentar chegar à costa por ali, contudo, tal trajeto era o mais rápido e correria menos risco de ser pego do que pela estrada principal.   

O ruivo já estava completamente ofegante, suas mãos suavam tanto que mal conseguia segurar nas rochas enquanto descia e, pela falta de segurança escorregava várias vezes. Já estava sentindo a liberdade finalmente batendo à sua porta quando ouviu algumas vozes atrás de si. Se obrigou a parar rapidamente e ao olhar para trás por um instante, percebeu que alguns poucos guardas o seguiam por ali. Baekhyun bufou de raiva e continuou a descer o mais rápido que conseguia.   

Pela primeira vez na sua vida, não tinha um plano B caso tudo desse errado, e viu essa possibilidade acontecer quando percebeu que as sentinelas se aproximavam cada vez mais dele. Ele estava a ponto de entrar em pânico quando, por um descuido, escorregou em algumas pedras pequenas e felizmente conseguiu se segurar antes que caísse diretamente no mar abaixo de si.   

E foi olhando os pedregulhos caindo penhasco abaixo, que o rapaz teve uma ideia.   

Não era das mais brilhantes, mas era melhor do que voltar pra cadeia, não aguentaria nem mais um dia dormir naquela cela ridiculamente minúscula com o seu companheiro animal, um camundongo que frequentemente chamava de Mickey.  

Então fechou seus olhos, respirou fundo e sem pensar duas vezes, pulou em direção à água.   

  

◐ ◐ ◐ 

  

Baekhyun dava o máximo de braçadas que podia, quando seu corpo já estava exausto depois de tanto nadar em mar aberto. O frio estava praticamente congelando seus ossos e tornando o processo ainda mais doloroso, mal parando para recuperar o fôlego. Se bem havia calculado, já havia nadado mais ou menos dois quilômetros.  

Logo após a sua queda no penhasco, ele tentou nadar o máximo que conseguia debaixo d’água, evitando ao máximo que fosse visto pelos carcereiros de Averno. Quando seus pulmões reclamaram por falta de ar, o rapaz emergiu a fim de recuperar sua respiração. Apenas subiu o suficiente para que o nariz ficasse fora da água e olhava para todos os lados, temendo ser pego.   

Viu que ainda estava a certa distância da costa e que alguns guardas acompanhados com lanternas, vasculhavam a água em busca dele que encheu os pulmões de ar e submergiu novamente, voltando a nadar.  

Quando achou que já era longe o suficiente para que ninguém pudesse o achar em pleno mar aberto — o que era bem difícil, considerando a vasta quantidade de água e a falta de iluminação ali —, ele parou para encher seus pulmões de ar e conseguiu relaxar, mesmo que um pouco, até que seu corpo começasse a tremer por causa do frio. Ergueu as mãos em frente ao rosto e viu faíscas prateadas saltando de seus dedos enquanto eles formigavam devido a tamanha energia que emanava de si e sentiu brevemente um calor agradável atravessar por seu corpo gélido. O ruivo que agora exibia o mais largo dos sorrisos, mal podia se conter de felicidade.   

Nada o impediria de se teletransportar, se não fosse por um pequeno problema...  

—Droga, qual o nome do feitiço de teletransporte? — Resmungou batendo as mãos na água impacientemente. Se estivesse em terra firme, certamente andaria de um lado para o outro como era costumeiro. Assim ele conseguia pensar melhor. — Será que é Iluminare? Não seu imbecil, esse é o feitiço de iluminar. —  Respirou fundo. — Vamos Baekhyun, pensa... Já sei!  

Levantou seu dedo indicador na vertical, circulou-o duas vezes e expeliu o feitiço.  

—Ignis! — Exclamou com bastante intensidade. 

Entretanto foi em vão. Ao terminar de pronunciar a palavra, chamas foram lançadas para cima numa velocidade absurda e tão rápido quanto elas iam, ambas voltavam. O rapaz apenas teve tempo de mergulhar e afundar para evitar ser atingido por elas.  

Ele esperou até que o fogo enfim acabasse para voltar a sobrenadar.  

Ao retornar a superfície, bufou de frustração e se concentrou em lembrar-se do feitiço, ele tentou, a cada minuto expelia uma nova magia e nunca resultava na qual ele realmente queria. Na última vez em que esteve em uma situação parecida e que necessitava urgentemente de uma saída não foi muito diferente, entretanto não estava dentro de uma água gélida em plena noite tremendo de frio, faltando pouco para ser congelado — e não demoraria muito para que isso acontecesse.  

Sabia o que estava acontecendo dentro de sua cabeça e o porquê de não lembrar um feitiço tão simples como aquele, se aquele maldito queria matá-lo, deveria imaginar que ambos morreriam juntos, congelados, como o Jack em Titanic. Com exceção de que não havia uma porta de madeira em que pudesse ao menos se apoiar. 

 —Se eu não sair logo daqui, morrerei congelado ou comido por algum peixe mutante, uma lula gigante ou sabe-se lá o que. Vamos tentar mais uma vez e se você continuar dificultando as coisas, nós dois estamos ferrados. — Sibilou para si mesmo. 

Ele parou de nadar e se concentrou. 

—Se bem me recordo, o feitiço começa com a letra L...  

O frio já o estava afetando seriamente, tanto que seus lábios tremiam veementemente e respirar estava se tornando uma tarefa árdua. O ruivo estava praticamente admitindo sua derrota quando sentiu pequenas ondulações na água. Ele olhou para todos os lados e não viu nada. Estava escuro demais e o pouco que conseguia enxergar era graças à luz da lua que reluzia em todo aquele mar.   

Baekhyun ficou parado e tentou ouvir algo que indicasse a presença de alguma coisa ou alguém ali, entretanto nada conseguiu captar e por alguns instantes achou que fosse o frio que estivesse lhe deixando paranoico, mas foi no momento em que a água ondulou em sua direção como anteriormente, que percebeu que era real. Reparou que o que quer que se movimentasse, vinha de seu lado esquerdo. O rapaz apertou os olhos com força para que enxergasse melhor o que quer que fosse e assim que percebeu o que vinha em seu sentido, entrou em pânico.  

Se bem se lembrava, seu antigo professor de biologia, o Sr. Park Jungsu dizia que tubarões preferiam nadar em águas mais quentes e por isso, desde criança nunca teve medo de nadar nos mares de Patreon com suas águas mais geladas e sempre fizera isso despreocupadamente, bom, pelo menos até agora...  

Ele suspirou, tentando manter-se calmo, entretanto, ao ver que o tubarão se aproximava cada vez mais de si não pôde mais se conter e entrou em completo pânico dando braçadas desesperadas na direção contrária do animal.   

Se um dia imaginou sua morte, achou que ela ocorreria de maneira natural como uma parada cardíaca enquanto dormia ou enquanto dirigia bêbado por aí, mas em hipótese alguma pensou que viraria comida de tubarão.   

— Essa é sua chance, Baek, vamos, lembre-se de como sair dessa. — Disse mais uma vez, enquanto empenhava-se a nadar o mais rápido que seus músculos doloridos conseguiam. Uma remota recordação de algumas palavras veio de uma voz em sua cabeça, de um lugar bem lá no fundo que, por incrível que parecesse para ele naquele momento, estava tentando salvá-lo.  

Ele parou com as braçadas, olhou na direção em que o grande peixe se movia até si. Precisava ser rápido o bastante para não ser triturado por aquela criatura.   

Ergueu sua destra, fazendo círculos com o dedo indicador e proferiu o feitiço.  

Baekhyun viu as faíscas saltarem de seus dedos ao mesmo tempo em que o tubarão, com sua boca gigantesca já aberta, estava pronto para o ataque. 

— Lanue Magicae. 

O rapaz fechou os olhos e esperou.  

 

◐ ◐ ◐ 

  

Se não tivesse fechado os olhos poderia ter se preparado melhor para o que viria acontecer em seguida.  

Sem ter definido um local para o teletransporte, Baek acabou caindo diretamente no chão terroso de uma estrada qualquer. Se já se sentia dolorido antes, após a queda tudo havia piorado. O único movimento que conseguiu executar foi o de seus lábios enquanto resmungava ao tentar levantar seu pescoço, tal qual estava virado para a direita e doía excruciantemente ao mínimo movimento.   

Então ficou parado por um minuto, imóvel, a fim de aliviar um pouco a dor que sentia e notou que gotas de chuva começavam a cair de maneira frenética. Aquele dia estava se tornando cada vez mais interessante, mal podia esperar para o que poderia acontecer de pior consigo em seguida.  

O ruivo decidiu se movimentar lentamente, tentando levantar-se e fugir daquele repentino aguaceiro que caía sobre ele. Bem devagar, levantou seus braços, apoiando-os no chão de terra molhada, afundou as mãos nela e colocou toda força que conseguia em seu tronco e com muito esforço se sentou, uma etapa ao menos fora vencida.   

Novamente, colocou força nos braços e apoiando-se primeiramente no joelho direito e em seguida no esquerdo, ergueu seu tronco em retidão, e impulsionou o corpo para cima com lentidão, conseguindo assim pôr-se de pé.   

Agora, sentia sua liberdade fluir dentro de si — mesmo estando um pouco debilitado e com muito frio — e era a melhor sensação que sentira dentre as últimas horas em que estivera em liberdade. Mal podia esperar pra voltar pra casa, encontrar os amigos, se divertir, embora com moderação, afinal não poderia ser pego e ser obrigado a passar por isso mais uma vez. Ele estava pronto para ter sua vida de volta e pronto para se proteger daquele que o corrompia.    

Então fechou os olhos, ergueu os braços lentamente apreciando a chuva forte que caia em si.  

— Finalmente livre! — Gritou enquanto ria, gargalhando tão alto que o som se igualava aos pingos de chuva caindo nas folhas das árvores.   

Baekhyun sentia que nada mais poderia impedi-lo.   

Nada.   

Era o que achava.  

Sem perceber de onde vinha, algo duro se chocou contra seu corpo e como se estivesse em câmera lenta, abriu seus olhos devagar.   

Havia uma luz muito clara que praticamente o cegava, sentia como se tivessem mirado holofotes em sua direção e em meio aquele fulgor, viu um rosto através de um vidro. Era um homem, seus orbes castanho-escuros estavam arregalados, sua boca formava um perfeito “o” enquanto olhava diretamente para Baek que ainda não entendia o que estava acontecendo, até que sentiu seu tronco bater em algo rígido que não conseguiu identificar e na sequência foi a vez de sua cabeça esbarrar no mesmo local com muita força, impedindo-o de manter-se consciente, tornando tudo uma total penumbra.   

  

◐ ◐ ◐ 

  

Já passava da meia noite e Chanyeol quase dormia enquanto dirigia sua velha caminhonete pela estrada. Seus dedos estavam congelando e nem mesmo o aquecedor do carro conseguia amenizar o frio que fazia, seu corpo exausto pelo dia cansativo de trabalho apenas ansiava voltar para sua aconchegante cama, se enrolar debaixo dos cobertores e dormir até ter de levantar para ir ao trabalho. Ficar com os olhos abertos atentos a estrada estava se tornando uma tarefa bem difícil.   

Quando o seu empregador, o Confeiteiro Edwin Holland ligou para seu telefone ordenando que se encarregasse de uma entrega especial de um bolo de aniversário que passara às últimas horas trabalhando com afinco em sua cozinha industrial, mal pôde acreditar no que ouvia. Não entendia o porquê de uma entrega tão tarde da noite, fora do seu horário de expediente. Seu chefe nunca fora um homem que abrisse exceções para cliente algum, mas essa parecia ser a primeira vez que o via fazer algo desse tipo.  

— Rapaz, preciso que você realize uma entrega especial. — Disse o Sr. Holland pelo telefone e Chanyeol piscou freneticamente tentando compreender o que acabara de ouvir. 

“Será que esse velho enlouqueceu?” Pensou enquanto se sentava na beirada da cama e olhava as horas em seu relógio de cabeceira. O Park tinha o próprio cronograma para o sono que consistia em chegar em casa após o trabalho, tomar um banho, ligar a televisão e dormir ainda no começo de qualquer episódio de The Office que estivesse reprisando na TV. E só havia uma variação na sua rotina que acontecia no sábado, sendo o dia sagrado em que ligava seu Playstation 4 e fazia uma Party no Destiny com seus amigos jogadores que nunca havia visto o rosto uma vez sequer, portanto qualquer mudança repentina no seu horário, lhe causava uma bela dor de cabeça e o dia inteiro extremamente irritado. 

— Eu acho que não entendi bem... o senhor quer que eu vá fazer uma entrega a essa hora da madrugada? — Perguntou o rapaz ainda chocado. 

— Sim, Chanyeol. Preciso que me faça esse favor urgentemente e... — Pausou por meio segundo — Garoto, ainda são dez e meia. 

—Eu já estava dormindo. — Resmungou baixo — Essa entrega não pode esperar até amanhã de manhã? Eu posso levar bem cedo... — Coçou a cabeça.  

— Não. Eu preciso que você me faça esse favor urgentemente e não vai demorar tanto assim. — Insistiu o homem do outro lado da linha.  

— Mas… 

— Se for, vai receber um bônus por isso e pode chegar mais tarde amanhã na loja.  

  

Chanyeol pulou da cama em um instante e se pôs a procurar uma roupa não tão suja entre os montes de peças que estavam espalhadas pelo chão do quarto. 

— Tudo bem, já chego aí em um instante. — Desligou o telefone sem esperar uma resposta, vestiu suas roupas e dirigiu em disparada até a loja de bolos.  

O edifício onde ficava o estabelecimento era em umas das vias mais movimentadas de Goutie, capital de Patreon. Todos os dias, pela manhã, era comum chegar aquela avenida e ver diversos motoristas buscando um local para estacionarem seus veículos, transeuntes caminhando pela calçada observando as vitrines e conferindo as novidades que chegavam de toda parte do mundo, que era estranho para ele que as ruas estivessem tão vazias. Goutie era como Nova York, uma cidade que não dormia, mas todos pareciam ter estranhamente se recolhido mais cedo naquele dia.  

A confeitaria estava escura do lado de fora, com exceção de uma pequena fresta de luz que vinha de dentro da cozinha. Chanyeol encostou o rosto perto da porta de vidro buscando a presença de alguém ali dentro e nada conseguiu enxergar, graças a seu reflexo que lhe atrapalhava. Até que sem aviso prévio, a mesma fora aberta, fazendo com que o rapaz cambaleasse para dentro até ir de encontro com o balcão.   

O movimento repentino o assustou tanto que pôs as mãos acima do peito, em um gesto dramático. 

— O que estava fazendo? — Perguntou o Sr. Holland, cutucando as costelas de Chanyeol. — Era só entrar garoto, já estava à sua espera.  

O mais velho acendeu uma das luzes do recinto.  

Edwin Holland era um homem muito bom que sempre estendeu a mão à Chanyeol, fazendo o que pôde por ele e o rapaz sempre lhe seria grato por toda ajuda que lhe dera em momentos extremamente difíceis. O senhor que já estava na casa dos 65 anos, mal aparentava ter tal idade. Tinha vigor e disposição para o trabalho que chega a invejar os mais jovens — inclusive o próprio Park. 

Apesar disso, era a primeira vez que via pequenos indícios de cansaço no rosto daquele senhor. Os cabelos brancos estavam totalmente desgrenhados, suas roupas amassadas e até mesmo sua armação ocular estava torta.   

O mais velho foi para atrás da gigantesca bancada de madeira envolta em vidro, que servia como expositor de bolos, tortas, cupcakes, doces e salgados, abriu um compartimento da mesma e retirou dela uma caixa de papel branca comum para embalar bolos e tortas, e sobre a caixa havia um laço azul reluzente.  

Ficou observando todos os movimentos que o outro fazia com a caixa em mãos.  

— Preste bem atenção. — O Park assentiu com a cabeça — Esse é um pedido muito especial e precisa ser entregue imediatamente. Portanto, tenha muito cuidado com essa caixa, me entendeu? — Estendeu a mão para o rapaz e lhe entregou um recorte de papel na cor amarelo claro — Aqui está o endereço, fica em Lawistown, não é tão longe assim e...  

— Lawistown? — Interrompeu — fica há uns 30km daqui. Vou demorar no mínimo umas duas horas para ir e voltar.  

Edwin chegou perto de Chanyeol e deu dois tapinhas em seu ombro.  

— Eu te conheço, você consegue ser rápido, aliás — disse, entregando a encomenda para Chanyeol —, eu lhe disse que poderia chegar mais tarde amanhã, então não precisa se preocupar tanto com a hora.  

O mais novo bufou em resposta.  

— O que tem de tão especial nesse bolo? — Analisou a caixa com muito cuidado, procurando algo de diferente na embalagem. — O cliente está prestes a morrer ou o quê? Ah, deve ser ‘pra alguma namorada do senhor né?! — O mais alto cutucou o homem com o cotovelo e recebeu um bufar como resposta. 

— Não tem nada demais garoto e pare de dizer besteiras. Agora vá! — Enxotou-o empurrando até a porta e a fechando na cara de Chanyeol.  

Naquele momento, ele ficou sem entender nada enquanto caminhava em direção ao seu carro, encarando a porta de vidro com o cenho franzido.  

— Esse homem já está enlouquecendo... — Balançou a cabeça em negação.  

Já havia se passado meia hora em que estava na estrada e o marasmo da viagem estava cada vez mais exaustivo. O que ainda o mantinha acordado era o balançar do carro na estrada de terra em que dirigia, o GPS o havia mandado pela rota mais curta e certamente a pior possível. Tudo estava escuro e tinha uma atmosfera tenebrosa, como se ele estivesse em um filme de terror e que a qualquer momento alguma criatura horrenda saísse do meio das árvores e o atacasse.  

Não que ele estivesse com medo, jamais, entretanto não gostaria de receber uma surpresa desagradável como um monstro horrendo pulando no teto do carro para tentar matá-lo. Ele tinha que parar de assistir Olhos Famintos com tanta frequência, estava passando dos limites da paranoia.  

Como se as coisas não pudessem se tornar ainda mais estranhas, uma gota escorreu no para-brisa dianteiro e logo se seguiram várias delas que caiam com mais intensidade dificultando a visão da estrada. Por seguinte, ligou o limpador de vidro no modo mais vertiginoso que possuía e mesmo assim não conseguia obter uma boa visão do caminho que se tornara ainda mais instável. A caminhonete balançava com muito mais frequência, como se em cada lateral do veículo houvessem buracos, quais não conseguia enxergar para desviar.   

Chanyeol nervosamente passou as mãos pelos cabelos castanhos, suspirando de tensão. Não gostava nada de dirigir nessas condições, ainda mais por um local desconhecido onde não havia nada por perto, então se inclinou para frente na tentativa de visualizar melhor por entre a chuva, entretanto era inútil.   

— Acho melhor parar por...  

Não houve tempo para terminar o monólogo, uma figura apareceu repentinamente em seu campo de visão, que Chanyeol não foi capaz de assimilar bem o que estava prestes a acontecer.   

Era uma pessoa.   

Chanyeol tentou agir o mais rápido que conseguia e desajeitadamente pisou na embreagem e em seguida no freio com toda força, tentando evitar que o pior pudesse acontecer, entretanto não houve tempo suficiente para impedir uma tragédia.   

O carro colidiu diretamente com aquele rapaz, deixando Chanyeol totalmente estático observando aquela cena completamente abismado, mal acreditando no que acabara de ocorrer. Suas mãos tremiam enquanto segurava o volante, vendo o corpo daquele desconhecido indo com rapidez em direção a uma árvore que estava há uns 4 metros dele.   

O moreno abriu a porta do carro devagar, apoiou seus pés no chão lamacento e mesmo com as pernas trêmulas, avançou até o local onde o outro havia sido arremessado. Em pouquíssimo tempo, já estava ensopado pela chuvarada e seu corpo tremia tanto pelo frio como pela tensão que sentia, mas, foi ao chegar perto do homem que havia atropelado que Chanyeol sentiu um arrepio até em sua espinha. A cena era avassaladora.  

— Será que ele... — Não conseguiu terminar a frase, sem se arrepiar novamente. Era óbvio que nenhuma pessoa conseguiria sobreviver há uma pancada como aquela e pelo estado que o rapaz se encontrava, a morte havia sido instantânea.  

Chanyeol se abaixou chegando mais perto do ruivo e encostou dois dedos no lado direito do pescoço do rapaz a fim de checar sua pulsação e não sentiu absolutamente nada. O moreno então recolheu sua mão, e se levantou devagar, sem tirar os olhos daquela imagem.  

“O que eu faço?” pensou ele enquanto caminhava para trás lentamente. Sua mente dava várias voltas acerca de como proceder e tremia de medo só em pensar em ir para a cadeia por ter matado de alguém maneira não intencional. Não que ele tivesse intenção de matar alguém, mas é sempre bom deixar explícito que não foi por querer. Ele teria de ligar para a polícia, médicos, bombeiros, guarda costeira ou o que quer que pudesse ajudar naquela hora pois era o certo a se fazer.  

Voltando ao carro, pegou seu telefone com as mãos trêmulas, fechou a porta do veículo e tentou contatar o serviço de emergência, mas seu telefone estava sem área.   

— Não é possível — disse baixo enquanto andava de um lado para o outro à procura de uma barra de sinal.   

Chanyeol olhou para os lados em busca de algo que pudesse ajudá-lo, mas com a chuva forte e a densa escuridão, seria difícil encontrar qualquer ajuda, então sua única alternativa era ir até ela.   

Ele jogou o telefone sob o assento do carro, abriu a porta traseira do veículo e foi até o corpo daquele rapaz. Chanyeol se abaixou, esticando as mãos para segurar o corpo do ruivo no intuito de levantá-lo e o levar até a caminhonete, mas sentiu o gosto da bile com um simples toque que deu em sua pele gelada. Ele fechou os olhos por poucos instantes, respirou fundo e quando os abriu, não hesitou em pegar o homem no colo. O levantou de maneira completamente desajeitada, levando-o até seu carro e colocando o corpo deitado no banco traseiro e o ajustando para que não acabasse caindo durante o trajeto até o hospital.  

Ao terminar, viu seus braços e sua roupa sujos de sangue e o Park se segurou para não ter uma crise de vômito. Sem mais delongas, sentou-se em seu assento, ligou o carro, dando meia volta em busca de socorro. 

 

◐ ◐ ◐ 

 

Estava conseguindo despertar aos poucos, ainda estava se acostumando a vivenciar diretamente todos os sentidos expelidos do corpo de seu hospedeiro. Ansiou por aquele momento desde o dia em que entrou em contato pela primeira vez com a mente dele quando ainda era uma criança inocente e ainda nem imaginava o que estava acontecendo consigo. Ele tentou durante anos se apossar daquele corpo que considerava tão sem graça e sem grandes atrativos. Se tivesse escolha, teria optado por algum outro que não fosse aquele, porém não conseguia deixar de admirar a persistência do rapaz em evitar que se deixasse consumir por aquela voz maligna que o rondava todos os dias. Sua força de vontade em tentar enxotá-lo sempre que tentava se aproximar, divertia-lhe tanto.  

Conseguiu abrir seus olhos com dificuldade e aos poucos foi conseguindo enxergar com mais clareza tudo ao seu redor — ou ao menos o que conseguia. Estava deitado sobre algo que parecia ser uma peça de couro que estava completamente encharcada com algum líquido que não fazia ideia do que poderia ser. Quando sua visão finalmente se firmou, conseguiu perceber que estava no banco de trás de um carro, aliás, estava mais para jogado no banco de trás de um carro, com suas pernas pendendo para o chão do veículo da maneira mais largada possível. Na sua frente, pôde ver metade de uma silhueta sentada no bando do motorista, segurando o volante com muita força e era visível seu nervosismo.  

Aos poucos foi lembrando do que ocorrera desde a fuga da prisão, até o momento em que fora arremessado até uma árvore e simplesmente sorriu, dando-se conta de que sem se esforçar tanto, conseguira livrar-se daquele que considerava um estorvo. 

Lentamente, foi se levantando, sentindo algumas partes do seu corpo doerem com movimentos muitos simples. Ele se sentou sem que o homem a sua frente percebesse e movimentou pulsos, pés e por último mexeu seu pescoço bastante dolorido e que parecia ter quebrado com o impacto da batida, o que fez soltar um alto estalo, fazendo o moreno que dirigia o veículo sobressaltasse com o barulho repentino. 

O desconhecido olhou para trás pelo retrovisor, abriu a boca abismado com o que via, freando o carro com muita rapidez. Devagar, virou o pescoço em sua direção sem conseguir dizer nenhuma palavra sequer, por mais que tentasse e ficou ali, olhando diretamente para ele, abismado.  

—Mas o que... 

Fora o que conseguira dizer, antes que o mais baixo o atacasse com muita força, indo para cima dele com as mãos em seu pescoço. O motorista tentou a todo custo se defender e livrar-se do aperto que o rapaz forçava, chegando até mesmo a empurrar a cabeça de seu adversário para longe, mas ele parecia muito mais forte, mesmo tendo acabado de sofrer um acidente e estar visivelmente machucado.  

Ele já estava ficando ainda mais raivoso com a resistência daquele cara e acabou mudando de estratégia para livrar dele, então colocou toda a força no seu tronco e empurrou o homem ainda mais para baixo, batendo a cabeça dele com muita força na porta do carro. O moreno ficou um pouco desorientado, porém ainda acordado, então aproveitando a chance, abaixou-se até o ouvido dele e sussurrou: 

—Vim exermina! 

De imediato, o outro acabou apagando e foi deslizando pelo banco aos poucos. Agora que havia vencido, o rapaz bateu suas mãos uma na outra, limpando-as como se houvesse tocado em algo sujo e saiu de cima do moreno, voltando para o banco de trás e ajeitando as suas roupas, antes de sair do carro e ir até ao lado do motorista, puxar a maçaneta que veio rapidamente em sua direção e abriu a porta. Ele pausou por um breve instante, olhou para os lados e como não havia sinal de vida por perto, passou os braços por debaixo do homem desacordado, erguendo-o pelo tronco e puxando seu corpo para o lado de fora.  

Ele o arrastou até o que seria um “acostamento” improvisado na floresta, cercado por grama baixa e o largou no chão, sem nenhum cuidado e caminhou de volta a caminhonete. 

Então sentou-se no carro e observou tudo que havia dentro do veículo. Era uma caminhonete relativamente velha, sua cor azul marinho já estava um pouco gasta devido à chuva ácida e vários arranhões na carcaça mostravam que seu dono não era o motorista mais prudente. Do lado de dentro ela era bem organizada. Nada estava fora do lugar e encontrava-se parcialmente limpo, com exceção dos assentos traseiros que estavam manchados de vermelho, sendo assim, se acomodou de maneira desleixada no veículo, como se fosse seu. Retirou o blusão azul completamente molhado que vestia no banco ao lado, em cima de uma bela caixa de cor branca.  

Sem muita cerimônia, pegou-a em suas mãos e a abriu. Franziu o cenho ao visualizar o que havia dentro dela: um bolo confeitado com alguns dizeres sobre ela. Não se importava com esse tipo de comemoração mundana que só consistia em reunir pessoas num lugar apertado e fazer um idiota assoprar uma vela, como se aquilo fosse fazer alguma diferença na sua vida medíocre. Entretanto ainda era um bolo, e como agora ele tinha de cuidar de si mesmo, não ficaria com fome nem mais um dia.  

Colocou-o novamente sobre o banco do carona, agora em cima da jaqueta encharcada, ligou o carro, ajeitou o banco, o retrovisor e olhou diretamente para a imagem que refletia nele. Passou as mãos pelo rosto levemente machucado e subiu-as para o cabelo agora platinado e arrumou seus fios para que cobrissem sua testa machucada.  

— Nada mal Byeongho, nada mal.  

Sorrindo, deu partida no veículo, indo em direção a capital, Goutie. 


Notas Finais


O que o passado diz sobre eu e você (Kaisoo):
https://www.spiritfanfiction.com/historia/o-que-o-passado-diz-sobre-eu-e-voce-21956340

Muito obrigado por lerem e até o próximo capítulo!


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