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História Personificação do amor - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo 3


Fanfic / Fanfiction Personificação do amor - Capítulo 3 - Capítulo 3

Minhas unhas batucavam em cima da mesa de madeira de maneira repetitiva criando um ritmo contagiante que se espalhava pelo meu corpo até chegar aos meus pés. Eu podia sentir minhas mãos suando no mesmo compasso que meu coração parecia querer ultrapassar os 100 km por hora.  A sala parecia menor e cada vez mais sufocante enquanto o ponteiro insistia em permanecer no mesmo lugar.

Eu sabia que não importava o quanto eu encarasse o relógio, o ponteiro insistiria em ser teimoso contrariando a minha vontade de correr para fora daquela escola.

-Ju, vai me contar o que está acontecendo ou prefere manter o suspense?

A verdade é que eu adoraria contar para o Daniel o motivo de tamanha apreensão, entretanto, eu mesma desconhecia o porquê.

 - Meu avô me mandou uma mensagem- comecei evitando deixar transparecer o quanto aquilo estava me incomodando- ele quer conversar com a gente sobre alguma coisa

 - Certo- seu olhar divagou e alternou entre a lousa e minha feição que, provavelmente, não estava uma das melhores- espera um segundo, você disse a gente?

  -Exatamente

Me segurei para não rir quando observei seu rosto se transformando em algo parecido com perplexidade. Era incrível como o Daniel tinha o poder de me fazer rir até mesmo nos momentos em que eu desconhecia a palavra “felicidade”

- E ele não disse uma palavra depois disso- suspirei- estou tentando manter minha calma, mas é impossível.

-Falou com a sua irmã?

Assenti observando a Bruna de canto de olho. Do outro lado da sala, ela digitava freneticamente em seu aparelho celular e nossos olhares se encontravam vez e outra como se precisássemos da confirmação de que as mensagens que trocávamos chegavam até nós apesar dos dois pontinhos azuis que indicavam que a mensagem havia sido lida.

-Ela também foi convocada para esta conversa

Meu avô nunca foi um cara tecnológico. Era extremante raro vê-lo com o celular em mãos e, até recentemente, eu desconfiava que ele não sabia a utilidade do aplicativo de mensagens. Dessa maneira, não é difícil imaginar que o fato dele ter entrado em contato com a gente em horário de aula causava um frio na barriga que se transformava lentamente em uma adrenalina capaz de energizar todo o meu corpo.

-Senhorita Júlia, quer fazer algum comentário para agregar algo a esta aula ou vou ser obrigado a confiscar seu celular?

Levantei meus olhos de supetão como uma criança que havia acabado de ser pega no flagra.

-Desculpe

Sussurrei tentando me esconder na minha carteira ao perceber eu agora eu era o alvo da atenção de todos naquela sala. O Daniel soltava uma risada nasal e minha irmã guardava seu celular dentro do fichário temendo ser a próxima da família a ter seu nome marcado na lista do professor.

Voltei a prestar atenção nas diversas formas de "Bhaskara" na lousa branca e só percebi que a aula havia acabado quando um garoto loiro parou na minha frente insistindo em tampar a minha visão.

-Você vai ficar aí parada ou vai descobrir o que seu vô tem a nos dizer? Por que não sei você, mas eu não vejo a hora de tirar isso a limpo- o Daniel sorriu ao lado da minha irmã estendendo a mão em minha direção

A tensão aumentou ainda mais quando encontramos meu avô sentado em sua poltrona batucando os dedos em um dos encostos do mesmo modo que eu fazia mais cedo. Sua expressão não esboçava desespero nem ansiedade. Ele parecia calmo e eu não saberia dizer até que ponto isso era motivo de alivio.

Eu andava de modo automático até estar frente a frente com ele.

- Estão preparados para a novidade?

-Vovô, nunca te falaram que é estritamente proibido mandar mensagem dizendo “preciso conversar com você “e ficar off-line minutos depois?

-Bru, querida, não faço ideia do que quer dizer “ficar off-line” na linguagem de vocês jovens, mas, eu queria conversar com vocês pessoalmente sobre uma ideia que me surgiu meses atrás. Eu queria ter contado antes, mas achei melhor esperar a hora certa.

- Que ideia é essa? - minha impaciência estava evidente na minha voz

-como vocês entram de férias amanhã, pensei em fazermos uma pequena viagem a Argentina- arregalei os olhos e troquei olhares com duas pessoas que pereciam ter entrado em choque da mesma maneira que eu- eu sei que parece loucura, mas eu conversei com o médico e ele autorizou desde que a gente fique atento a qualquer alteração.

Pensei na minha vó e entrei em pânico ao imaginar o porquê de tudo aquilo. Será que ela havia piorado e meu avô não queria nos contar?

-Jú, está tudo bem, meu amor- ele me olhou com compaixão e eu assenti tentando me agarrar a qualquer coisa que não me afundasse ainda mais- eu e sua avó nascemos lá, vocês sabem disso, e antes de...- ele abaixou a cabeça como se tentasse procurar as palavras certas. Mas ambos sabíamos que não havia eufemismo que amenizasse o impacto que aquela doença causou na gente.

Eu sabia que ele queria dizer Alzheimer e não havia como negar que todos naquela sala soubessem. Não era como se estivéssemos negando o que minha vó tinha, mas cada vez que tocávamos no assunto é como se estivéssemos acordando de um sono profundo e a verdade fosse ficando cada vez mais evidente. Ela estava logo ali, só evitávamos nos machucar ainda mais.

-Eu prometi para a Paula que retornaríamos a argentina e, com as coisas fincando cada vez mais complicadas, o médico concordou que a melhor hora para irmos seria agora já que, se esperarmos muito tempo, a doença pode avançar ainda mais e sua vó pode se sentir muito agitada e angustiada devido a desorientação.

Cada palavra que saia de sua boca era uma emoção diferente. Ora tristeza, ora felicidade. Ora esperança, ora descrença. E no fundo, eu sabia exatamente o que era esse conflito. Quase como se nos culpássemos por não aproveitar esses momentos ao lado da minha vó sem deixar a tristeza invadir cada olhar, cada palavra que trocávamos. Não dava para evitar, porque, como eu disse, a verdade estava bem ali para quem quisesse encarar.

-Quando vamos? -perguntei encarando qualquer coisa que não fosse os olhos do meu avô. Não queria deixar transparecer a confusão dentro de mim.

-Amanhã a tarde

Simples assim.

-Vamos ficar quanto tempo?

-Apenas uma semana. O Dr. Marcelo falou que mais tempo poderia ser ruim para sua vó já que ela precisa de uma rotina.

Ele suspirou e balançou a cabeça como se estivesse espantando algum pensamento

- Ah! Antes que eu me esqueça- agora seu olhar se dirigia ao Daniel que fazia pequenos círculos com o dedo no rasgado da calça jeans- falei com seus pais e já compramos sua passagem. Eles me disseram que você ama a Argentina e tenho certeza que a Juju vai amar sua companhia

Sua mão tocou na minha e um sorriso tímido abriu em seu rosto. Meus dedos se entreabriram e o Daniel entrelaçou nossas mãos fazendo movimentos circulares em minha palma.

-Agora que eu já contei a novidade, façam a mala de vocês e se preparem para a Argentina!

Parte de mim pulava de animação e empolgação enquanto eu jogava diversas peças de roupa dentro da mala. Eu amava aquele lugar com todas as minhas forças e eu sabia o quanto aquele país era importante para a minha vó. Não só porque é seu país de origem, mas porque a Argentina era um álbum de memórias. Desde a infância até seu casamento aquele lugar marcou o inicio de sua história e foi, pouco a pouco, transformando- a em quem ela é hoje. Entretanto, a outra parte chorava em silencio por saber que apenas metade da minha vó estaria na Argentina.  A outra metade estaria perdida em algum lugar e ninguém poderia salva-la.



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