História Pétalas. - Capítulo 1


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Categorias Red Velvet
Personagens Irene, Seulgi
Tags Idesign, Irene, Seulgi, Seulrene
Visualizações 63
Palavras 8.227
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishoujo, Drama (Tragédia), FemmeSlash, LGBT, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Universo Alternativo
Avisos: Homossexualidade, Nudez, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Terei de deixar aqui um pequeno vocabulário, porque usei alguns termos em japonês para compor a trama (E evitar repetições), seria melhor caso vocês entrassem sem conhecer muito, mas é melhor ler sabendo o que significam, embora existam partes auto-explicativas:

Geiko: Mulher das “artes”

Okiya: casa onde as Geikos permaneciam.

Maiko: aprendiz das artes, Geiko ainda não ‘’formada.’’

Mizuage: Cerimônia onde a Maiko se torna, oficialmente, uma Geiko.

Koto: um instrumento de cordas japonês.

Danna: Aquele que pagava a estadia e a formação das Maikos.

Recomendo que escutem Time For The Moon Night, do GFriend, e Quit, do Cashmere Cat, enquanto lêem. Enfim, desculpem pela bíblia, e boa leitura <3

Capítulo 1 - Único; Excêntricas.


    A brisa era leve e inalava poesia. Assim como no dia em que Joohyun fora obrigada a sair de casa, por ter uma beleza celestial e voz doce, apenas por dinheiro. Embora se forçasse a não ser alguém rancoroso, ela sempre soube que carregaria no peito por muito tempo uma dor intransitiva por ter sido vendida, pelos seus próprios pais.

 

        Bae tinha oito anos, apenas oito vezes de trezentos e sessenta e cinco dias vividos em uma pacata cidadezinha oriental. Gostava de ir ao poço perto de sua casa, numa procura por água, embora fosse uma grande medrosa e hesitasse em se aproximar do local envolto de pedra.

 

       Sentia-se ignorante a vida toda em si, uma grande quantidade de irmãos não lhe permitia luxos que os caçulas ganhavam, como ficar com as melhores partes dos jantares e almoços, ou até ter direito a ficar vendo as estrelas antes de dormir, enquanto Joohyun e Shi Hyun, os nascidos primeiro, ajudavam a mãe a limpar aquela maldita grande casa.

Ela deitava-se na grama, em frente a árvore de cerejeiras que costumava demorar a florescer, comparada com as dos vizinhos.

 

          Sujava seu quimono rosa, o favorito, mas nunca se importava demasiadamente. Era difícil irritar Joohyun, algo que o mais fiel dos irmãos lhe dizia, enquanto se esforçavam para terminar de deixar o local num todo agradável, sem sobrecarregar a matriarca da família.

 

         Foi num dia de primavera, as primeiras flores começavam a abrir, de dentro para fora. Shi Hyun e a garota brincavam com um fio perdido, na soleira da casa. O objeto encontrado a sala onde a mãe costurava as roupas de todos. A cama de gato ia se formando, de dentro para fora, era um retalho vermelho. E as mãos do garoto de nove anos tremeram, quando ouviram passos alheios aos de seu pai chegarem perto da casa.

 

          Uma senhorinha, pouco rechonchuda. Vestia um traje diferente ao quimono com o qual Joohyun sempre usava. Tinha retalhos belos e brilhantes, os olhos da garota alternavam entre o detalhe e o rosto tão branco quanto o de um fantasma, que a mulher exibia.

 

          O rosto do mais velho se contorceu, ele sabia do que se tratava. Desmanchou a brincadeira, e se levantou:

 

      — O que a senhora deseja? — Disse, temendo pela resposta. Joohyun apenas o encarava, esperando pelo que viria a seguir.


 

       — Preciso falar com Bae Jiae. — A resposta veio plena, solta pelo ar, como numa arfada. Joohyun abaixou o olhar para o leque que a outra carregava.

 

        — Ela está na cozinha. — Tomou voz como num murmúrio solitário. Shi Hyun sempre fora um chorão, e a irmã achou que fosse mais uma crise de sentimentalismo por animais, plantas e elementos. Infelizmente não era.

 

        Ao longo do tempo que a senhora levou para chegar até Jiae, passaram-se pela cabeça do garoto centenas de formas de levar Joohyun para longe do destino que a cercava, como uma presa é envolta por seu predador, até não ter para onde fugir, e ser engolida pela melancolia de uma vida toda perdida.

 

        O abraço da Bae mais nova era confortável, tanto quanto a fala da mãe ao confirmar aquilo. Entregando uma pequena trouxa cheia de moedas, a mulher foi embora. Levando a pequena Joohyun, enlaçada e confusa, presa ao braço direito da mulher, num nó forte.

 

O garoto chorou como se fosse o mais novo, não acreditava. Se recusava a acreditar. Era impossível imaginar que um homem nojento havia visto em Joohyun a melhor pretendente para seu filho, e mais ainda, era difícil acreditar que fora necessário levá-la para uma casa de artes para que se tornasse apta a casar com um nobre.





 

         E os dias foram assim, ao menos no começo. Joohyun todo dia trajando um quimono novo, tentando acompanhar as garotas mais velhas. E ainda não se recordava do que havia a trazido até ali. Isto até completar seus dez anos, cada momento mais atenta a tudo a sua volta.

 

         Perguntou para uma de suas colegas, como quem espia algo, o que era o objetivo de todas aquelas garotas ali. Recebeu uma resposta tão auto-explicativa quanto a mulher que a trouxera até ali, aliás, para todos, com exceção de Joohyun:

 

        — Realmente, você é maluca, Bae. Todas estamos aqui para aprender algum tipo de arte, e noventa por cento para ser uma boa esposa, eu por exemplo, vim para cá graças ao meu querido danna, vou me casar com ele assim que fizer dezesseis anos! —  Explicou, dando pulinhos de alegria, gabando-se pela última frase.

 

        — Danna? —  Perguntou, ainda, sincera.

 

        — Uma alienada… Você acha mesmo que ficamos aqui, comendo e estudando, de graça? Tudo tem um preço, Joohyun, incluindo se tornar uma esposa habilidosa. São os homens que pagam tudo que fazemos aqui, mas por um pagamento muito maior.

 

           A pequena garota viu sombras nas paredes neste dia, o local num todo parecia assustador. O chão era frio demais, o carpete enrugado tinha uma textura áspera demais, tudo era demais. Queria clamar pela casa inteira por sua mãe, por Shi Hyun, por toda e qualquer pessoa que conhecia.

 

           Acabou por sair sonolenta e dormir no templo, que havia dentro do Okiya. As figuras trouxeram a Joohyun uma proteção, então começou a passar noites rezando por algo melhor, ali mesmo. Dormia no carpete vinho, encostada à parede, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo.

 

           Bae foi pega fugindo meses após a descoberta sobre o que era aquilo num todo. Visitou a biblioteca e descobriu tudo o que pode sobre o que era e o que fazia naquela casa grotesca onde garotas se orgulhavam de terem sido compradas. Era treinada para atividades como maiko, entre tantos aprendizados, destacava-se na dança e na caligrafia.

 

          Apesar de ser constantemente elogiada por isto tudo, e pela sensualidade na entrega do chá, mostrando sempre o canto do pulso esbranquiçado, Joohyun ainda tinha grande apreço conquistado por sua beleza.

 

        Muitas das garotas tinham uma inveja entendida do rosto simétrico e esplêndido que carregava. Enquanto as meninas discutiam sobre o pó de arroz e o tempo, Joohyun comia sozinha e afastada, com graciosidade tamanha, arrancando olhares das colegas. Não entendiam como, Bae nunca utilizava métodos esquisitos como corpetes e fazia dietas, mas mantinha o peso perfeito no fim do mês. Não precisava de quilos de maquiagem para melhorar a face, muito menos de horas de treino para executar movimentos leves com uma roupa pesada como a que estavam habituadas a usar.

 

         Era óbvio, que quando percebessem os planos dela, haveriam de denunciar. Joohyun anotava os caminhos alternativos para sua amada fuga em pedaços de pergaminho, que ganhava para praticar a caligrafia. Enrolava-os com fitas vermelhas, assemelhando-se a aquela com a qual brincava no dia em que foi levada. Apressada, deixou um dos papéis de arroz, cair pelo caminho, entre o templo e a casa, num dia de sol escondido.

 

         Uma das garotas mais velhas foi mais rápida que Bae, correu divertindo-se da situação, segurando o quimono com as duas mãos evitando fazer barulho. Os dedos ágeis encontraram o chão e a camada fina, abriu o pergaminho, e arregalou os olhos com o que encontrou:

 

      — Então é isso que vem fazendo, Bae? — Um sorriso maléfico abriu-se sem menor vergonha, tamanho era o prazer de ter o destino da perfeitinha Joohyun em suas mãos.

 

      A dramática expressão de Shi Hyun no dia em que a irmã mais nova foi embora nunca se compararia a de horror que estampava a bela face de Joohyun, naquele momento, tentou arrancar o papel da mão de Kyungri, sua sênior na casa, mas falhou. Ouviu a dona do local chegar, com seus sapatinhos de salto baixo. Teria de ser alguém muito amargurada para prender garotas que foram vendidas sem menor noção do que acontecia com seu futuro.    

 

      Joohyun ouvia comentários sobre a senhora ser uma fracassada, por não ter sido capaz de seduzir homem algum no tempo em que fora jovem.

 

      Era uma casa de artes, mas o grande foco sempre foi conquistar, casar e assim, falecer com a missão completa. Joohyun odiava ter sido premeditada e ter visto sua opinião esmagada como uma sujeira ínfima abaixo de uma bota pesada, se recusava a passar seus dias ali, até o homem que a devastara decidir a buscar.

 

     Por isso ela tinha um plano, iria usar a trilha e fugir pelo lago de diâmetro considerável. Abriria um largo sorriso, como não fazia a tempos. Voltaria para Shi Hyun, e poderiam viajar juntos, pois sabia que aquelas ideologias de postura masculina não combinavam com o que ele aspirava. Poderiam ser felizes viajando pelo país, conseguindo hospedagens baratas com os quadros que ele pintava. Ela poderia até ficar com a parte difícil, mas tudo era melhor do que ser trocada por um saco minúsculo de moedas e ainda aceitar tal fato com alegria.

 

  Ao ver Kyungri estender o papel para uma das causas de tudo aquilo, cúmplice de seus pais, os olhos de Joohyun encheram-se de pranto. O olhar reprovador e arrogante da aluna mais velha a acertava em cheio, enquanto via suas esperanças serem despedaçadas. A senhora tornou seu rosto melancólico, arrancou os outros pergaminhos de Joohyun, lendo o plano todo com uma expressão um tanto esquisita. Puxou o braço da mais nova entre elas com uma força superior ao dia de sua chegada, desferiu-lhe tapas nas costas quando chegaram à sala de jantar.

 

   Um. Dois. Três baques. A derme ardia.

 

  O silêncio assustador instalou-se no local, as garotinhas recém-chegadas escondiam-se nas barras das roupas das mais velhas, tremendo com medo de serem as próximas. Joohyun não chorou, mordeu os lábios, permanecendo com a expressão mais neutra que pode, apertou os olhos quando sentiu a última pancada, que era notável, seria a mais forte. A senhora apontou para o local onde ficavam os utensílios de limpeza, e não disse uma palavra. Com a cabeça baixa, Bae foi em passos uniformes para fora do recinto.

 

    Aquilo serviu de aviso para todas as garotas que estavam ali, inclusive para Joohyun, por mais que fosse cheia de esperança e beatitude. Fora suspensa de sua aulas, e teve de limpar o local todo durante o período de duas semanas. Recebia risadas e olhares de misericórdia toda vez que apossava-se de uma voz ou passos pelo corredor da casa. Tornou a ser tratada como uma das meninas ali, quando conquistou novamente o direito de ir às classes. E levando o reconhecimento como a mais perfeita anfitriã de chá, o respeito que antes tinha, foi conquistado de volta.

 

  Aos poucos, Joohyun se tornou realmente uma calada com talentos inumerados entre tantos dotes, pouco falava, apenas abria os lábios para pronunciar notas e mesmo assim, arrancava espanto. A voz inebriante causou mais encanto ainda quando a casa apresentou suas alunas pela primeira vez, a fora. Mal sabia ela, mas o grande homem por trás de todo seu sofrimento estava na plateia, com o filho mais velho.

 

    A cidade era um pouco longe, mas nada que algumas horas de viagem e o dinheiro não lhes trouxesse. A filha mais nova da família Kwon permanecia agitada como nunca em seu assento. O senhor fez uma nota mental de começar a procurar pela dama de honra perfeita para Saerom, afagou os cabelos da menina, que estava radiante em sua roupa, comum a realeza.

 

  Jinyoung ficou surpreso com a beleza da suposta noiva, seu nome não lhe fora revelado, mas podia sentir que ao menos seu apelido artístico, que usaria até ser dispensada e casar-se consigo, seria tão atraente quanto sua aparência.

 

  As garotas se apresentaram de forma passageira, logo as adultas dando lugar e posicionando-se no palco com suas fitas brancas, como os rostos cheios de pó de chumbo. Joohyun saiu do local tão leve quanto uma pluma, nem ao menos sabia da existência da família Kwon nos assentos do meio. Mas sabia que nutria um ódio quase que desumano por todos que a fizeram passar por aquele sufoco. O coração de Bae era todo melancolia, tendo apenas lugar para a lembrança do amado irmão.

 

  As pétalas de cerejeira não eram mais agradáveis, lembravam-na de tristezas e rancores demais. Não haviam mais flores favoritas, era apenas Joohyun. A dura e fria, Joohyun.





 

   Jinyoung começou a visitar Joohyun frequentemente, quando esta completou dezesseis anos. Suas palavras idiotas e expressões vazias causavam ânsia na garota, apesar de haver muito tempo desde que vira o irmão mais velho, imaginou-se agindo com certa infantilidade rindo de como o tal Kwon conseguia se superar em ser ridiculamente sem-graça.

 

    Se pegou devaneando se algum dia Shi Hyun conseguiria vir a buscar, tirá-la daquele lugar horrível. Sabia que desde pequeno o talento com tintas não o caracterizava como um chefe de família, não que o mesmo o quisesse. Joohyun apenas esperava que o seu herói viesse levá-la, para que os Bae pudessem sorrir novamente, juntos.

 

    Joohyun só conhecia aquela casa estúpida e sem graça, não haviam muitas cores pelas paredes, nem animação entre as colegas. Os poucos sons escutados eram apenas frutos da aula de música e dança, que mesmo assim rondava o silêncio de sentimentos e paixão. Poucas lembranças da residência dos Bae restaram em sua mente, apenas lembrava-se das lanternas de papel em seu quarto, e das árvores de cerejeira.

 

    Haviam algumas garotas que estavam ali apenas pela arte, mas com os anos, elas foram todas compactadas numa caixa de ensinamentos sobre encantar. Era como enfeitiçar uma serpente, ela aprenderia o truque para usar com o ser abaixo dela na cadeia alimentar.

 

Joohyun forçava sorrisos, risadas e até algumas falas isoladas e baixas demais para serem ouvidas. Mas nunca demonstrou seu total interesse, não levantava a manga ao servir o chá de erva doce, tradição da casa, muito menos lhe mostrava a parte contrária ao pescoço. Poderia fingir não ter uma opinião formada sobre o garoto, mas fazer um ato de oferecimento já era demais.

 

     Nas noites em que era possível observar o céu em sua total plenitude, Bae ia com um quimono mais antigo até o gramado. Lembrava-se do momento em que tinha controle sobre seu destino, e ninguém o havia traçado de forma irresponsável, muito menos estava prometida a um anteprojeto de homem tão absorto em pensamentos imbecis.

 

      Acordava suja e com fiozinhos esverdeados entre as juntas. Sentava-se, calculando as horas pela posição do sol e temperatura da cama onde se deitou. Num desses dias, a visita que recebeu fora da família Kwon, mas Jinyoung não estava entre as pessoas as quais Joohyun recebeu, depois de correr como uma desvairada para arrumar-se e saiu bufando do quarto.

 

       Kwon Saerom era uma garotinha de quatorze anos, enrolada num vestido, diferente das vestimentas que Bae via dentro da casa. O tecido verde destacava os olhos negros que a garota possuía, entretanto, a escuridão não dominava sua aparência por muito tempo. A caçula dos Kwon tinha uma personalidade açucarada, falava como se tivesse tomado centenas de doses do grão doce. Não deixou de falar por um segundo desde que colocou os pés dentro daquele enorme Okiya, comentava sobre tudo, a começar dos carpetes estendidos, até quando passou pela saleta onde as adultas já formadas se maquiavam:

 

      — Olhe, Seul! Tenho certeza de que o meu pai poderia me dar algo do tipo, não aguento mais sair de casa com o rosto tão mal pintado, me sinto quase que nua, quem se casaria comigo? Entre milhares de mulheres bem maquiadas? — Repetia, indignada, para o grupo de pessoas que a seguia pelo local todo.

 

      Depois de milhares de voltas, encontraram Joohyun sentada diante de seu koto, alçava as notas do instrumento, que se parecia com uma harpa. Arrancou um gritinho surpreso de Saerom, que se sentou, sendo acompanhada pelas mulheres:

 

    — Olá, unnie, que dizer posso lhe chamar de unnie, certo? — Perguntou, ajeitando a postura desleixada, tentando causar uma boa impressão para a elegante mulher sentada a sua frente. Bae anuiu, e instantâneo a resposta, a menina disparou — Wow, papai realmente teve um ótimo gosto ao escolher a noiva do Jinyoung oppa.

 

    Joohyun sorriu doce, tentando ser alheia a aqueles honoríficos tolos que eram jogados contra si. Saerom poderia não lhe causar mal algum, mas concordava que sua personalidade era um tanto mimada e arrogante, chegando a torná-la infantil perto de outras garotas de sua idade:

 

     — Obrigada, querida. —  Bae disse num sopro, levantou-se, servindo o chá para a mais nova. Balançou a cabeça, querendo oferecer a bebida para as mulheres que acompanhavam Kwon, mesmo sabendo que não poderia.

 

    — Joohyun unnie, poderia pegar uma xícara de chá para minha dama de companhia? Ela é uma garota adorável, Seulgi merece algo para acalentar sua garganta.

 

     A mais velha achou esquisito o fato desta oferecer a bebida apenas a uma dentre tantas que a levaram até lá. Uma garota, que deixava sua franja leve cair pela testa, saltou de sua cadeira, enérgica. Saerom pegou o pequeno copo que Bae havia recém enchido, ofereceu-o a menina com um quimono azul céu:

 

  — Ah, Seul, poderia comunicar às outras para que vão esperar-me na saída? Gostaria de conversar um pouco com Joohyun, e você é a única na qual devo confiar, volte aqui depois, sim?

 

   — Claro, Saerom. —  Viu a garota curvar-se, e sair com um sorriso travesso ilustrando-lhe os lábios. Bae questionou-se com o porque dela realizar as tarefas ignorantes de Kwon com um contentamento que parecia sincero.

 

   — Tudo bem caso Seul permaneça conosco? Não sei se você já teve uma dama de companhia, ou algo do tipo, mas realmente aprecio Seulgi, ela é de total confiança, como uma amiga próxima, costumo até me esquecer de que ela é uma empregada. —  Disse, com naturalidade, como se fosse algo comum demais. Joohyun deveria ter algo errado, nunca se acostumaria com aquela realidade, no mínimo, mesquinha.

 

     Bae nem ao menos pronunciou uma resposta, quando a falada adentrou o recinto, sentando-se na cadeira indicada por Saerom. Ajeitou suas roupas, e desferiu um olhar divertido a Joohyun, que desistiu de tratá-la com indiferença, no instante:

 

    — Todas já estão lá fora, senhorita Kwon. Se quiser que me retire, não hesite em avisar. —  Seulgi se manifestou, a voz potente comparada com todas as femininas que Joohyun já ouvira. Ao mesmo tempo, mansa e simpática.

 

      — Você nunca incomoda, Seul! Apenas precisava de privacidade. —  Deu uma risada, intercalada ao tempo em que bebericou o chá. — Meu pai disse que se tornará uma adulta oficialmente, aqui, na próxima semana…

 

      — Sim, Saerom, vou fazer a transição na próxima lua cheia, quer dizer, no eclipse milenar, achei uma data certa para mudar.

 

      — Uh, já escolheu seu nome artístico, querida? — O líquido na garganta de Joohyun se tornou amargo e terrível. — Jinyoung não sabe seu nome real até hoje, aquele idiota…

 

     — O decidi há um tempo, usarei Irene.

 

     — Por quê? É um nome um tanto estranho. —  Observou o olhar indignado de Seulgi, até então quieta, pousar na mais nova.

 

       — Irene significa paz, é algo que quero cultivar. —  Disse serena, não querendo afetar-se com os comentários redundantes da outra.

 

      — Entendo. Vim aqui para avisar-lhe de que meu pai quer que Jinyoung se case tempos depois de você evoluir, oh, seria o termo certo? Vou te fazer algumas visitas, apenas eu e Seulgi, por este motivo. Acho que seria propenso conhecer minha cunhada, além disso, casamentos, na família que virá a ser sua, são trabalhosos, precisamos começar desde já!

 

    — O Mizuage da senhorita Bae é na quarta semana do mês? —  Seulgi disse, quebrando o caos que instalava-se dentro de Joohyun. Mordeu o lábio, sabia bem do que esta dizia.

 

    — Não sei se a dona da casa vai adiar, mas está tudo previsto para o final do mês, acredito eu. Passarei poucas semanas servindo, caso tudo dê certo, como Saerom disse. —  Deu um sorriso acalentador, mas não conteve o que saiu da boca de Kang.

 

    — Perdoe-me pela intromissão, mas eu apenas gostaria de saber algo, minha prima vai ser mandada para uma casa como esta e... eu queria saber se você realmente precisa... —  A garota encarou o chão, Kwon mal se preocupava, Seulgi sabia medir as palavras.

 

  — Precisa?

 

  — Ouvi minha tia e minha mãe conversarem sobre leiloar algo muito importante neste ritual, e eu temo por minha pequena Myemim — Disse num sussuro, Joohyun entendeu perfeitamente do que se tratava.

 

  — Oh, Seulgi, caso ela tenha um homem bom como Jinyoung a esperando, não será necessário. Tenho certeza de que o homem que possuir o hum... bem precioso de sua parente será alguém valoroso. —  É, depois daquilo iria estragar o batom, vomitando graças a constante ânsia que invadia sua garganta pela nojo das palavras que proferira.

 

   — Veja, Seul! Joohyun unnie sabe de tudo, meu irmão teve tanta sorte por papai a ter conseguido, a esposa perfeita. Oh, infelizmente, precisamos ir —  Talvez Bae merecesse um prêmio em Atenas pela atuação avançada até demais. Agiu doce, quando na realidade, gostaria de jogar o chá quente na garota irritante e sair correndo dali.

 

   Saerom levantou-se, segurando a cintura do vestido, numa tentativa de equilibrar-se. Posicionou os braços sobre os ombros fortes de Seulgi, e foi saindo. Nem esperou pela dama, que viu em Joohyun uma forma de aliviar sua preocupação:

 

   — Você não se sente mal, digo, por ter sido arrancada de casa assim? —  Intrigou-se, evitando conectar o olhar com a fria, que se fazia de amável, do outro lado da sala.

 

   — Não devo sentir muita coisa. —  Deu de ombros, carregando a bandeja com a louça suja, com as duas mãos e sua postura perfeita. Ia saindo, quando Kang colocou as mãos em seu ombro:

 

    — Você deve sentir o que desejar, na realidade, deveria sentir tudo. Sentimentos são algo ruim em muitos casos, mas eu me orgulho de todos eles, e você parece merecedora de algo feliz. — Seulgi recitou as orações como uma poesia de amor, a destra segurando, leve como uma pluma, o ombro esquerdo de Joohyun. O contato visual entre as duas dizia coisas que não devem ser ditas em voz alta, nem ambas sabiam o que as íris comunicavam uma a outra, era indecifrável.

 

    Mas Seul conseguiu ver Bae responder um obrigada sincero, com o canto do olho. Sabia que se houvesse o entendido de forma verbal, a mais velha teria desatado em lágrimas pútridas, jogando todas as suas frustrações colecionadas e cada segredo, plano e mágoa para fora.

 

     Saerom gritou para que Seulgi a ajudasse a entrar no veículo precário que as trouxera até ali. Kang largou o ombro de Joohyun rápida, só pode vê-la abrir a boca num ''O'' e a bandeja que carregava sofrer um pequeno abalo sísmico.

 

     A viagem de volta fora fria, e recheada de comentários pleonásticos pela parte de Saerom e suas damas mais jovens. Seul encostou a cabeça no que seria uma janela, e pensou no quanto a expressão de Bae parecia grata, em como se comparava a Yerim quando esta disse que apenas precisava que alguém se importasse com os seus desejos.

 

    Não que Seulgi estivesse acostumada com uma realidade fácil, lutou por muito tempo para garantir sua segurança e posição de direito. Conseguiu ser forte e feminina na posição hierárquica para conseguir um trabalho que não a desvalorizasse entre tantas damas mais habilidosas. Ela apenas não conseguia aceitar o fato de que pessoas como Joohyun e Yerim não podiam ter a rédeas de suas vidas, de que seriam submetidas a atos inescrupulosos apenas para saciar vontades de outras pessoas.

 

    Se famílias nobres e ricas queriam que garotas como elas se tornassem objetos, tudo bem, não poderia fazer nada, por mais que ansiasse, mas Kang Seulgi não conseguia engolir o fato de que elas precisavam sentir. A própria pequena Yeri, que mal tinha sido levada, temia pelas suas emoções. Joohyun sorria doce, mas Kang via coisas que Kwon não vira.

 

      A expressão triste, como se houvesse comido um alimento insosso. Bae carregava um rosto frio, quando não se forçava a interpretar alguém amável. Seulgi o notara, porque ao contrário de Saerom, ocupou-se em estudar as feições da mais velha, que era bela como uma princesa da neve. Joohyun podia fingir muito bem para os com qual precisava, mas Kang não se enganava facilmente.

 

     Pode ver a serena Bae transparente, e ponderou sobre isso no trajeto até a casa luxuosa dos Kwon. Se viu perdida em pensamentos quando outras duas servas, mais abaixo de si, a questionaram sobre o porquê de estar perdida entre pensamentos, Seulgi era sempre tão centrada. Yeji e Eul riram como hienas ao verem a sênior confusa ao responder, já deitadas:

 

      — Certeza de que está aprontando alguma... — Disse Kim Yeji, tampando a fala com a mão, como se compensasse o fato estar mal dizendo a mais velha.

 

    — Isso eu já sabia há tempos, tonta, nem entendo porque a idiota da Saerom ainda a tem como alguém em alto cargo. — Deu em resposta, com os bracinhos magros cruzados.

 

Seulgi não tinha tempo para infantilidades, das meninas que tinham quase que a mesma idade da chefe, com diferenças de alguns meses, ótimas comparações.

 

    — Que tal vocês duas irem dormir? Amanhã terão um dia cheio de trabalhos, vamos. — Ordenou, estendendo o travesseiro a uma das duas. Escutou elas se encostando no chão, lamuriando entre os cobertores mais um pouco.

 

    Quando todas as garotas estavam deitadas, e viu as respirações com períodos de calmaria. Kang levantou, passo a passo com suas pernas finas, indo de encontro a soleira da casa. Todos dormiam, e a única companhia que possuía era a lua, e suas amigas estrelas. Encostou a cabeça no estribo da porta.

 

    Mal sabia ela que Joohyun fazia o mesmo, na entrada do antigo templo. Questionando o motivo de alguém como Seulgi ter perguntado algo que não ouvia a tempos.

 

    Bae apenas queria saber porque ela se importava.




 

    Joohyun não iria ser divertida tão facilmente a presença estranha de Kang Seulgi em seu dia a dia. Embora Saerom tentasse, mesmo que indiretamente, tomar os holofotes, a atenção de Bae sempre pousava na do meio.

 

     Seulgi conseguia estar presente em todo tipo de situação desastrosamente adorável. No dia em que a mais velha as levara até a cozinha, onde eram preparados os chás e bolos servidos, Kang conseguiu se sujar com três tipos de farinha diferentes.

 

     E no final apenas ria, tampando a boca, para conter-se. Saerom a olhava indignada, desferiu a mão na própria testa, causando um estalo, que apenas fez Seulgi libertar-se da calma e do controle. Sobraram uma Kang e uma Kwon risonhas, de bochechas vermelhas e apertando suas barrigas doloridas pelos movimentos musculares, a testa da mais nova também ficou marcada pela palma.

 

      Houveram momentos em que nem Joohyun conseguiu manter-se neutra perante as ações de Seul. Na quinta-feira, enquanto iam a sala de música, para que Bae pudesse tocar devidamente seu koto, alguns dannas estavam no corredor.

 

Um deles perguntou à serva seu nome, a expressão divertida tornou-se desespero:

 

  — Meu nome é Kang D-ddeulgi. —  Disse, forte e impostando a voz. Saerom soltou uma risada esbaforida e nada discreta. Joohyun pegou o braço de Seulgi, num ato de selvageria, e correu, como era estritamente proibida, não era exatamente um modelo comportamental.

 

   Ouviu os gritos abafados daqueles homens, quando já estavam extremamente afastadas. Seulgi posicionou as mãos nos joelhos, respirando com certa dificuldade. A mão no peito anunciou o ofego:

 

    — Por que fez isso? —  Questionou, nervosa. As mãos balançavam-se no ar, como se quisessem mapear as ações inconsequentes de Joohyun.

 

    — Porque eu não quero que nunca passe pelo que eu passo. —  Respondeu, dura, como granito maciço.

 

    — Como?

 

    — Eu quero que você sinta tudo o que puder e quiser, Seulgi.

 

    Saerom as alcançou, quebrando o gelo que se instaurou depois da fala de Joohyun. Ambas ignoraram o acontecimento, até chegarem a maldita salinha onde estavam os instrumentos.

 

     Bae tocou uma melodia ociosa nos fios, contida e envolta de nervosismo. Os dedos judiados hesitavam em tocar cada nota, Seulgi se concentrava no ir e vir da palma. Não ousou olhar em momento algum para os olhos de Joohyun diretamente.

 

     Novamente, a viagem fora quieta. Kwon ocupada demais com um documento sobre maquiagem para notar o olhar de Seulgi vagando pelo jardim. E todas as pessoas na residência não ouviram, nem viram, quando o hábito noturno da garota voltou a atacar.

 

      Deitou-se sobre a cama verde do quintal, tendo seus amigos corpos celestes acima de si, lançando-lhe um olhar de reprovação.

 

      As companheiras de Kang não sorriram para ela, nem acalentaram a dor e a palpitação em seu coração. Como ela poderia entender? Era algo muito denso, intenso. Como uma fumaça incompreensível na época. Aquilo que rondava o mais interno de Seulgi não era nem conhecido por esta. Não era crível, ou tinha uma definição.

 

    Ela apenas desejava, no mais profundo, onde se localizava a montanha russa de sensações que a nova garota a proporcionara, que não estivesse sentindo aquilo sozinha. Seulgi desejava estar compartilhando de algo, mesmo que terrível, com Joohyun.

 

     Pois assim, saberia que algo entre as duas era mútuo, recíproco. Saberia que compartilhava com Bae algo que apreciava tanto, e que a sabotava, e infelizmente fora arrancado dela quando era apenas uma garotinha.

 

     Seulgi saberia que compartilhava desejo, com Joohyun, mas não sabia que esta era a palavra certa para definir a tempestade dentro de si.




 

    Saerom era realmente uma pedra no sapato de Seulgi, mesmo que fosse alguém que a beneficiava e a garantia moradia, dinheiro e um estado de calmaria social.

 

Kwon marcara um passeio no lago do Okiya, seriam as três, num pequeno barquinho. A situação, com Saerom falante inclusa, já era desesperadora, mas isto conseguiu se tornar mais agonizante.

 

   Porque Saerom era uma grande desastrada, e machucou seu precioso pé no dia que antecedia o compromisso. O medo de decepcionar a cunhada, modelo de mulher, veio a tona. Então jogou o compromisso para a dona do cargo de confiança:

 

  — Seulgi, seria uma grande desfeita eu não ir sem dar satisfações a Joohyun unnie, sei que vocês duas se dão bem, você deve ir mandar o recado para mim, talvez até consigam fazer o passeio... —  Anunciou, com um bico chorão. Como era difícil ter uma chefe sem um pingo de maturidade.

 

   Assim como a Kwon ordenou, deveria fazer. Os cavalos levaram apenas e somente Seulgi, que chegou a casa com um rosto emburrado, deixando Joohyun aturdida:

 

  — Onde está Saerom? Digo, ela virá depois? — Perguntou Bae, procurando outro cavalo com a curvatura do corpo e os olhos semicerrados. Como se pudesse enxergar atras das montanhas com essa postura.

 

 — Saerom... não vem. —  Disse, simplista, não querendo estender-se no assunto que era a ausência da garota. Joohyun deu de ombros, chamou Seulgi com a mão, sem abrir nenhum mísero centímetro dos lábios.

 

   Chegaram, na costa, ao lago. Depois de passar por alguns arbustos espinhentos. A casa era cercada com roseiras baixas, e árvores de cerejeiras que padeciam esperando a primavera. O brilho do sol fez reflexo no rosto de Joohyun, fazendo-na piscar atônita.

 

O barco tinha um tom leve de vermelho, e as flores que vinham ao vento serviam de adorno as águas. Milhares de pétalas de rosa foram distribuídas pela brisa ali, o perfume que tudo exauria, era etéreo:

 

     — Por que Saerom não veio?  — Perguntou, assim que estavam a uma distância razoável da margem. Joohyun não podia evitar de encarar o jardim com a grade fácil de escancarar, aquilo que um dia fora sua esperança de liberdade.

 

     — Ela machucou o tornozelo, algo do gênero. O curandeiro disse que ficaria bom, em algum tempo.  — Balançou a cabeça, num gesto de falta de opinião sobre o assunto. — O que há de tão especial no jardim?

 

     — Ah, ali…

 

  — Pode me dizer, Joohyun.

 

  — Existem coisas que não foram feitas para serem ditas e sentidas.

 

  — Mas mesmo assim, nós o fazemos.  — Rebateu Kang, porém não arrancando o foco de Joohyun da roseira.

 

   — Houve um dia, em que eu acreditei que poderia sair daqui, atravessando este jardim, indo de encontro a aquele portão enferrujado.

 

   — Por que no passado?

 

   — Porque com o tempo, é simples perder a esperança. Estou fadada a casar com Jinyoung, ter um ou mais filhos, e caso tenha uma menina, ela deverá crescer protegida como Saerom, ou passar por tudo novamente. Não há algo que possa fazer sobre isso.

 

  — Você pode fazer tanto, é capaz de coisas imensuráveis, Joohyun.

 

   — Esse tanto, é correspondente a nada. Não pude interferir em muito em minha vida desde meus oito anos, não é como se eu fosse a mesma.

 

   — Você não disse que queria ser paz?

 

   — Irene significa paz.

 

   — Seulgi significa sabedoria, e paz com sabedoria traz?

 

   — Analogias sem noção?

 

   — Traz plenitude, e um plano para fugir daqui.

 

    Joohyun arregalou os olhos, o sorriso que atravessava de canto a canto o rosto de Kang não era dos mais certinhos. Tinha um toque de malícia, um toque de quem faria algo errado.

 

   Seulgi não encostou-se à soleira da porta, muito menos dormiu abaixo das estrelas. Passou a noite toda deitada de forma pensativa e desregulada, assim como Joohyun, por mais que as cabeças ansiassem por respostas. Precisavam aproveitar o tempo em que a caçula dos Kwon estaria ausente. Precisavam daquele tempo para que Bae e Kang pudessem escapar.





 

     Talvez Joohyun não devesse ter aceitado o convite de Seulgi, que na realidade fora uma proposta. A garota veio no dia seguinte, sem Saerom, apenas a doce e animada Kang Seulgi.

 

      Assim que chegou, confundiu a mente da mais velha, zanzando de um lado para o outro. Procurando a sala de caligrafia, ou de música. Com a chegada de novas meninas na casa, o espaço fora ampliado, e Joohyun, que agora não tinha mais aulas, apenas utilizava da antiga parte da casa para receber a família do futuro marido.

 

     Seul estendeu um grande pedaço de papel de arroz acima da mesa de madeira. Sorriu orgulhosa, como quem busca ganância em uma só lançada. A pena que Bae lhe deu foi de grande uso:

 

     — Bem, você tem direito de andar por aqui, com liberdade, agora que vai virar uma mulher das artes oficialmente? —  Perguntou, apoiada a tábua onde o pergaminho repousava. As duas mãos num ato para se alongar.

 

     — Por eu ser mais velha, acreditam que eu estou dentro de meu juízo perfeito. Mas suspeitariam caso eu saísse pelo portão, existem muitos que conhecem o Okiya, obviamente me denunciariam. — Bae respondeu, coçando o queixo de leve, com suas unhas belas e pálidas.

 

    — Uh, devemos ir de noite, quando ninguém poderá nos ver. —  Concordou com a cabeça. — Aquela bruxa fica acordada até que horas?

 

    — Bruxa? Você tem cinco aninhos, Seul.

 

    — No dia em que vim com Saerom, ela me recebeu. O olhar dela me causa arrepios, só de pensar naquela mulher meus pelos já se tornam eriçados, veja. —  Disse, apontando para a sua nuca. Joohyun desviou a atenção do plano que começara a ser desenhado.

 

    Os cabelos de Kang estavam atentos, e retilíneos a postura de Joohyun, mas não era por causa da dona da casa. A respiração ofegante de Bae dava de encontro com a pele quente de Seul, que recebia o ar gelado com certa apreensão:

 

   — Bae Joo, você se torna uma oficial... na próxima semana, não é? —  Esperou a garota finalmente decidir parar de encarar suas costas.

 

   — Baechu?

 

   — Tanto faz. — revirou os olhos, envergonhada.

 

   — Foi fofo, Seul.

 

   — Mas enfim, qual é o nosso limite? — Repetiu, dando ênfase a última palavra. Tentando esconder o rubor das bochechas por ter errado o nome.

 

   — O eclipse é no próximo dia de Urano. Meu mizuage será realizado então.

 

   — Ele não será realizado. Confie em mim.

 

  — Eu devo começar a preparar-me no fim de semana, não temos tanto tempo, Seul.

 

  — Confie em mim, Joohyun, vai ficar tudo bem. —  Finalmente virou-se para a mais velha, dando quase que de encontro com sua boca. Pararam, com as respirações fortes e pesadas.

 

  — Eu.. Acho que seria bom você dar uma volta, antes de ir, para saber os melhores caminhos para nossa fuga... é. — Indicou o caminho, e Seulgi foi levando o pergaminho.

 

   Passeou pelo jardim, viu as salas e os anexos construídos. Abriu a folha, verificando antes se havia alguém que pudesse ler o que haviam escrito. Apoiada ao chão, tracejou as linhas que definiriam os caminhos, principais ou alternativos.

 

   Quando ia se posicionando no cavalo, para voltar de sua viagem, trazendo notícias para Saerom (o que fora a melhor desculpa que Seulgi conseguiu criar), viu Joohyun vindo correndo. Com dois papéis de arroz, embaixo do braço esquerdo:

 

   — Caso queira que eu confie em você, tudo precisa ser perfeito. — Disse, com uma piscadinha.

 

   Kang não abriu nenhum dos dois presentes até chegar na residência dos Kwon. Deixou-os no seu baú até a lua cobrir o céu com sua plenitude. Assim, saiu, tomando cuidado ao andar nas pontas dos pés, para não fazer barulho ou pisar nas colegas.

 

   Sentou-se na grama, como já era hábito, abrindo todas aquelas folhas. Para sua surpresa, Joohyun era talentosa com mais alguma coisa.

 

   Nos dois pergaminhos que entregara, haviam informações importantíssimas. O primeiro continha uma tabela com todos os horários do Okiya, inclusive a agenda da dona. No segundo, um mapa com as saídas em potencial reluzia.

 

    Seulgi anotou tudo o que pode. Foi de volta ao quarto, pegando outro pedaço de seu precioso caderno. Atacou sua cabeça com a pena diversas vezes, tentando fazer com que o cérebro funcionasse melhor.

 

    O trajeto, que ia da acomodação de Joohyun até uma parte do lago, exigia de força para remar. Levaria as duas até um campo afastado, onde a massa de água baixava, a partir dali, provavelmente teriam de andar e passar dias fora da cidade.

 

    Bae escreveu alguns recados nos cantos das folhas, avisando-na da cidade onde morara quando criança, e resumindo o fato de que deveria encontrar o irmão mais velho. Por apenas palavras, Seulgi conseguiu ver a insistência de Baechu pela confiança no mais velho de sua família.

 

    O sol raiou como sempre, e Kang apenas cochilou encostada na porta dura. O caminho traçado e as recomendações anotadas, se aprontou, como se houvesse dormido a noite toda. Mas teve de cobrir os ouvidos, Saerom estava de volta.

 

  Insistia para que fosse ver a futura cunhada:

 

    — Seulgi, preciso ir até Joohyun unnie, para compensá-la de minha ausência. —  O pé enfaixado e a face ansiosa fizeram a mais velha ter certeza de que Kwon deveria permanecer longe do Okiya, o máximo possível.

 

    — Acho melhor que você permaneça em casa, Saerom, oh, que tal escrever uma carta? —  Ofereceu a ideia, brilhante!

 

  — Sempre muito prestativa, Seul, vou pedir os papéis para Jinyoung. —  E foi indo embora, entre as paredes que se assemelhavam a lanternas da casa.

 

   Kang foi até a cozinha, auxiliar na preparação do prato favorito dos Kwon. Queria evitar suspeitas, e que ninguém descobrisse o que se passava nas noites em que não permanecia no quarto. Saerom apareceu meia hora depois, pedindo para que a mais velha levasse a mensagem até um dos homens de seu pai.

 

   Seulgi foi caminhando, em passos delicados, como os que dava na calada da noite, entrou de fininho no quarto, e colocou as duas cartas onde descrevera o plano dentro da de Kwon. Prendeu-as com uma fita roxa, temendo que alguém abrisse e visse tudo.

 

  Apreensiva, levou-a para o mensageiro. Pediu, clemente para que ele não abrisse a carta de forma alguma, dando a entender que na carta haviam... Segredos de mulher da caçula. Quando, na verdade, Seulgi tinha medo pelo seu plano, porque tanto lhe fazia se Saerom estava dizendo o quanto tinha melhorado na maquiagem, ou o quanto se inspirava em Joohyun.

 

  Os sintomas que Kang tinham não demonstravam apenas admiração, como os da sua chefe precoce, era algo indescritível.

 

  Mas ela saberia, um dia.




 

    A carta de Saerom demorou um tempo comum para chegar, mas a resposta de Joohyun fora surpreendente.

 

    Assim que fora pegar a mensagem, na porta da casa. Seulgi notou o mesmo barbante belo amarrado, a cor púrpura fora reconhecida imediatamente. Notou que era endereçada a si, separou-a da que Kwon deveria receber.

 

    Deixou a carta de Joohyun no meio de seu caderno, indo de encontro ao quarto da mais nova. Assim que adentrou-o, viu a garota dar um pulo agitado:

 

     — Mas já? Joohyun além de bela é cordial, certo... —  Disse, como se para si mesma.

 

Nem pegou a carta em mãos da forma correta, já a abrindo afobada. Arregalou os olhos como se houvesse felicidade e surpresa estampadas em suas íris.

 

     — Está tudo bem com Irene? —  Seulgi arriscou-se a perguntar, querendo correr e ler sua carta o mais rápido possível.

 

      — Não a chame de Irene! O nome é esquisito, e além de tudo, apenas Jinyoung terá o prazer de chamá-la por. — Suspirou, desacreditando nas palavras ditas por Kang. —  Avise as outras garotas de que devemos partir hoje, Joohyun disse que a sua superior ordenou que a família do noivo viesse, é uma espécie de tradição, para se preparar para o mizuage.

 

     Seul engoliu seco, a garganta ressecada, onde apenas residia uma enzima. Desesperada, saiu para comunicar as outras servas, disse a todas as outras garotas para que arrumassem suas malas. Muitas comemoraram sobre a viagem. Kang só queria gritar.

 

    Abriu a carta de Joohyun antes de sair do quarto com suas pequenas trouxas. Leu por cima, mas lembrava-se de um série de orações mais atormentadoras possíveis:

 

''Precisarei começar minha preparação no dia em que chegarão. Temos de ir neste, Seul, a maquiagem é a parte mais complicada, não me deixarão ao menos respirar sozinha depois desta. Fugiremos à meia noite.''

 

    A assinatura da garota permaneceu na cabeça de Kang durante todo o caminho até a casa. Bae as esperava, o crepúsculo começava a aparecer nos cantos do horizontes, sua pele pálida reluzia. E Joohyun não parecia ter se alimentado bem naquele dia, talvez fosse o corpete do quimono lhe apertando a cintura, que já era tão fina:

 

   — Joohyun unnie! —  Gritou Saerom, assim que saiu da pequena carruagem. —  Chegamos o mais ligeiro que pudemos. Jinyoung e papai virão apenas no dia especial, no entanto, estamos aqui para te ajudar a se arrumar.

 

    Os pulinhos ávidos que Saerom, Yeji e Eul davam foram encerrados quando a matriarca do local veio de encontro a cena:

 

    — Vocês são a família do danna de nossa maiko Joohyun? — Disse a senhora, Bae quis rir com a expressão de Seulgi para com a bruxa. Kwon assentiu, vendo que a mais velha iria tomar novamente a palavra. — Temos de levá-la para um banho de rosas, caso queiram passear pelo jardim, enquanto a esperam, fiquem à vontade.

 

     Bae revirou os olhos, vendo Seul segurar o sorriso com as mãos e os músculos do rosto. Tornou a expressão neutra, quando o olhar da senhora pousou sobre a primeira, indicando com a cabeça para que fosse:

 

    — Saerom, não acha que seria educado oferecer alguma ajuda de suas damas? —  Disse Seulgi, querendo induzir a garota de fácil de manipular.

 

   — Oh, Seul, o que seria de mim sem você? Acho que Joohyun ficaria aliviada caso você mesma fosse. —  A expressão de Kang tornou-se pura felicidade, conteve-se, e saiu andando. — Está dispensada, vá ajudar nossa nova integrante da família!

 

   Seulgi apressou-se em seguir a comitiva que levava Joohyun, contente por ter conseguido mais um tempo antes da fuga, para acertar detalhes com a mesma.

 

    As mulheres adornaram a água do ofurô, uma pequena banheira recheada de líquido fervente, feita toda e praticamente com madeira. Bae despia-se, enrolada na toalha de tecido leve. Seulgi adentrou o quarto, com entalhes de flores na madeira, quando Joohyun já descansava na temperatura quente:

 

    — Senhoras, poderiam me dar licença? Vou acertar alguns detalhes do casamento com a serva dos Kwon. —  Joohyun indicou a saída, e as outras maikos foram uma a uma. — Entre, Seul, está tão quentinha.

 

    — Não sabia que você era mandona assim, Baechu. — Seulgi se viu sozinha no cômodo, Bae rindo sozinha do calor da água. O corpo de Joohyun repousava abaixo das pétalas de rosa. Só haviam as duas ali, ela poderia entrar.

 

    Kang deu de costas para a outra, deixando seu quimono simples cair, chegando até os pés. A faixa que o segurava foi deixada num banquinho, junto com os milhares de tecidos que o compunham, num amarelo vivo, como o sol.

 

     Apoiou-se na borda da banheira, inspirou, colocando o corpo para dentro. Sentiu os dedos esquentarem, e então as pernas. Tudo acalentou Seulgi de uma forma paradisíaca. E Joohyun, do outro lado, encontrava-se hipnotizada:

 

    — Depois daqui, irei vestir o meu traje mais comum, porque amanhã, as seis bem cedo, começo a maquiagem. Me espere na porta do meu quarto. —  Finalmente tocando naquele assunto, Bae sentiu sua pele formigar.

 

   — Eu trouxe os suprimentos, e os mapas. Tudo está na mala que consegui usurpar, no quarto que separaram para os Kwon, vou pegá-los, e então podemos ir. — Disse, querendo, ávida, se levantar e fazer tudo o que dissera.

 

   — Sabe, Seul, você me trouxe coisas tão inacreditáveis, que eu tentei recobrar em anos, em poucos dias. — Joohyun arqueou os olhos, a risada fraca saindo de seu lábios por pouco.

 

   — Bae é um sobrenome tão raro, nunca poderia deixar-te com algo comum como Kwon. —  ''Não quando alguém é tão inusitada quanto você.’' A mente de Seulgi gritava, internamente.

 

    — O único sobrenome que eu gostaria de ter, além do meu, é Kang.

 

    — Por quê? — Perguntou Seul, surpresa.

 

    — Porque a única pessoa que conheci com ele, me trouxe inumeradas formas de coragem e... —  Joohyun inspirou, para terminar sua fala, recobrando-se de sua razão, mas não iria segurar mais. —  Amor.

 

    O ar de Seulgi faltou, escondeu-se no fundo de seu peito, longe de onde pulmão pudesse lhe alcançar. A respiração de ambas era pesada, como quilos de pó de chumbo, o mesmo que Joohyun poderia usar, se não estivesse preparada para fugir.

 

    Kang olhou para seus pés, enrugados graças ao tempo que permaneceram afundados na banheira. Cutucou seus dedos, brincando com os nós deles. Bae ainda a encarava fixamente.

 

     Passou por sua cabeça, nos segundos, que pareceram horas, algo incompreensível para si. Não leve Seulgi a mal, era uma realidade absurda e desoladora na época. Mas eu não te disse que ela ponderou sobre seus atos depois.

 

     Engatinhando como um filhote de gato, ela chegou até a ponta onde Joohyun permanecia, gélida. Os olhos negros mostraram-na curiosidade, e assim Seulgi o fez.

 

     Uniu os lábios castos das duas, machucados pelo tempo e pelas frustrações. A pele de Kang era quente, a de Bae também, no entanto, as bocas frias e conectadas, permaneciam num encontro romântico e calmo, como se sempre soubessem que o final as destinaria àquilo, quando na verdade, a confusão interna entre as duas era caótica como um dilúvio colossal.

 

    Joohyun tornou a ver, com Seulgi um pouco acima de si. Deu seu melhor sorriso, as bolhas em alta temperatura não lhe incomodavam nem um pouco. Permaneceram na troca de olhares e risos, até um barulho desviar-lhes a atenção.

 

     Uma respiração, um grito abafado.

 

     Kang virou-se, e Yeji estava estática, parada em frente a porta, que antes estava trancada. A expressão de horror em seu rosto quase que a desfigurara. Antes que Seulgi pudesse dizer algo, nem que fosse um grito de desolamento, a menina saiu correndo por entre os corredores.

 

     O cheiro das rosas, e as pétalas das mesmas, distribuídas por todo o ser de Joohyun, foram a última e mais bela visão e aroma que Kang Seulgi pode ter.





 

  Bae Shi Hyun recebeu a mensagem em seu ateliê. Mesmo que separados por anos, não pode conter as lágrimas e o ódio dentro de seu peito, parou de pintar a sua encomenda. Jogou tudo o que pode para o ar.

 

  Socou a parede, não podia. Não podia ser sua pequena Joohyun.

 

   O criado avisou-lhe que havia preparado o transporte, um cavalo de pelo castanho o aguardava lá fora. O homem partiu naquela noite mesmo, na calada e intensa escuridão, o trajeto estava totalmente nublado e turvo, talvez graças ao pranto que derramou em grande parte do percurso, grato por ter ido sozinho.

 

    As pequenas torres de terra, antes criptas, estavam empilhadas com perfeição, não havia ninguém lá. A brisa cantava em seus ouvidos, lembrava-lhe da voz dela. E foi se culpando, que Shi Hyun pegou ramalhetes de flores de cerejeiras, pois era primavera, assim como no dia em que lhe tiraram sua preciosa pétala, como num jogo de bem me quer, mal me quer, desenfreado e sem escrúpulos. Obviamente, o péssimo me quer ganhara na vida dos irmãos Bae.

 

    Recorreu a sepultura de granito, era branca, entre tantas outras tão comuns, até o mausoléu de Joohyun exalava brilho. Deixou o pequeno buquê mal feito sobre, quando ajoelhou-se para pensar.

 

   Assim que fora embora, os ventos levaram as flores até a moradora do lado. Kang Seulgi. Exibia-se retalhado em pedra.

 

   Se ao menos Shi Hyun tivesse conseguido ajudá-la, saberia que na realidade, as flores favoritas de Joohyun, em seus últimos suspiros, se tornaram rosas.

 

   As rosas que afloraram seu corpo nos últimos minutos de vida, as rosas que representavam bravura. As rosas que eram tudo e um pouco mais, as rosas que eram Seulgi. Pois cerejeiras significavam esperança, que ela teve e apenas foi recobrada, com o amor da flores vermelhas.

 

  Kang quis ter podido ver as estrelas com Joohyun, quis poder espalhar mais flores por toda sua extensão, quis poder tomar chá, apenas as duas, e ver o pulso da mais velha, num ato de luxúria e fascínio. Seulgi quis poder dizer todas as frases românticas mais clichês, e quis que Bae sentisse tudo no mais infinito de seu ser.

 

   E agora, elas padeciam ali, com o vento levando as flores. As pétalas vermelhas sobre o granito branco.

 

   Porque a última felicidade sentida por Joohyun, em toda sua existência, era deslumbrada de rosas e toda sobre, Seulgi. E as constelações sabiam de cada detalhe.


Notas Finais


Essa história é muito importante para mim, e eu soube que deveria publicá-la antes de tomar qualquer ação precipitada. Normalmente, não gosto de atribuir nomes a personagens originais, mas foi necessário, para o entendimento geral.

Obrigada a equipe do idesign pela capa linda e pela calma <3 Espero que tenham gostado, de verdade.


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