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História Petra: The Guardians - Capítulo 2


Escrita por: gossipqueen-

Notas do Autor


Chegamos com o capítulo um da história, e espero que vocês gostem de conhecer os Guardiões da história, e, consequentemente, os protagonistas. Aqui, apenas apresento eles, alguns sem muito tempo de tela, mas serviu apenas para conhecerem a existência dos doze escolhidos, e logo conhecerão mais profundamente a eles. Agradeço a leitura desde já e espero que gostem!

Capítulo 2 - Capítulo 1


“O clube dos velhinhos do tricô se une na melhor detenção do mundo (Ps.: vai dar merda).”

I

Residência Bassete, Heaven Hill, Califórnia
Cerca de 13 horas antes da Reclamação

Zachary Santoro Bassete sentou-se em sua cama ofegante como se tivesse acabado de ter a transa mais louca de sua vida. Seria bem melhor, se alguém o perguntasse. O suor escorria por seu peito, que subia e descia compassadamente pelos pesadelos dos quais tinha acabado de acordar. O garoto tossiu, sentindo sua garganta seca como se tivesse de verdade corrido uma maratona como em seu pesadelo. Sentado na cama com o lençol cobrindo a parte de baixo de seu corpo, Zachary levou as mãos ao rosto, coçando os seus olhos em uma tentativa de fazer-se acordar de verdade. Encarando o despertador ao lado da cama, ele viu a marcação de apenas cinco e quarenta e sete da manhã. Ótimo, mais de uma hora antes do que deveria acordar para o primeiro dia de aula de volta à antiga escola.

Zach deixou seu corpo cair em cima da cama outra vez, afastando o lençol de suas pernas. Aquela época do ano era sempre mais quente em Heaven Hill. Apenas com um shorts que usava para dormir, ele virou-se e tentou dormir outra vez. Obviamente, como a maioria das coisas na vida de Zachary, sua tentativa deu errado. As lembranças do sonho esquisito continuavam voltando em sua mente, impedindo-o de dormir outra vez, porque sempre que fechava os olhos, as imagens retornavam. Ele bufou, desistindo de dormir e sentou na cama outra vez. Seu primeiro dia de volta já estava prometendo ser o melhor de todos. Ou não.

Ele agarrou o celular na cabeceira da cama, vendo as mensagens de sua mãe ainda pendentes no aplicativo de troca de mensagens. Aquele já deveria ser o terceiro dia consecutivo em que ele não respondia, ou ao menos abria as mensagens. Não estava em seus melhores dias e nem com muita paciência para ficar ouvindo-a o chamando de traidor por escolher ir morar com o seu pai de novo ao invés de continuar com ela, mesmo que agora ela estivesse morando de favor na casa dos pais do novo namorado idiota. Zachary já não era tão paciente, por isso preferia evitar determinadas situações, embora sua mãe fosse bastante insistente.

Ele desbloqueou o celular, lendo as mensagens da mãe na barra de notificações. Coisas como “ele está com a outra” ou “você é um traidor”.

— Bom dia pra você também, mãe. — Zachary suspirou, jogando o celular na cama e criando coragem para se levantar. Mesmo sendo mais cedo do que deveria, não ia mais conseguir dormir de qualquer forma. — Também estou com saudades.

No banheiro de seu quarto, o Santoro encarou o próprio reflexo no pequeno espelho na parede. Seu aspecto parecia cansado, e ele realmente estava. A discussão entre seus pais já tinha perdurado por tempo demais, e ele sinceramente não estava mais com saco para aguentar as discussões de nenhum dos dois. Esperava que morar com seu pai fosse deixar, ao menos, o seu dia-a-dia mais calmo do que costumava ser com sua mãe, que estava sempre se lamentando, stalkeando seu pai com perfis falsos e denunciando os perfis de qualquer pessoa com mais de dezoito anos que estivesse com ele na foto. Zach revirou os olhos pelas lembranças, tirando o shorts de dormir e entrando no chuveiro para tomar banho, decidindo que não iria pensar nisso naquele dia. O sonho já tinha sido esquisito o suficiente.

Eram por volta das seis e meia quando ele deixou o quarto, já de banho tomado e com a roupa trocada. No andar de baixo da casa ainda não parecia ter ninguém acordado, mas a pasta cheia de documentos em cima do sofá lhe indicou que Sawyer Bassete, advogado renomado e dono do próprio escritório, famoso em toda Heaven Hill e no estado da Califórnia, ou como Zach costumava chamá-lo, seu pai, ainda não tinha saído para mais um dia de trabalho.

O jovem deu de ombros, passando direto pela sala até a cozinha e preparando o próprio café da manhã sem muita pressa, já que ainda faltavam quase duas horas para as aulas.

— Tomando café sem mim? — Ainda com a roupa de dormir e um sorriso sonolento no rosto, Sawyer entrou na cozinha e sorriu para o filho. Zachary tinha puxado muito de seu pai. A pele bronzeada, os cabelos castanhos e os olhos da mesma cor o faziam quase idêntico ao mais velho, se não fosse pela barba rala de Sawyer. Ele passou reto por Zach, não sem antes passar a mão e bagunçar todo o cabelo dele, como sabia que o filho odiava desde os quatorze anos. — Achei que tínhamos combinado que ao menos essa refeição íamos fazer juntos.

— Passei muitos anos tomando café sem você, não é uma novidade. — Zachary não encarou o pai, bufando por ter que arrumar os cabelos de novo e apenas continuou comendo a torrada que tinha em sua mão. — E você levanta muito tarde. Parece até um adolescente com pais divorciados e sem emprego.

— Há, há, há. — O homem fingiu risada pela provocação do filho, resolvendo ignorar a primeira parte. — Muito engraçado Zachary — chamou o pelo nome, o que sabia que ele também implicava. Eram pequenas coisas, mas as únicas que o faziam se sentir mais próximo dele. — Já pensou em ser humorista?

— Eu seria a vergonha da família. — Deu de ombros. — Meu pai quer que eu seja advogado.

— Erro dele. Seria um grande desperdício de talento.

— Eu também acho, mas você já tentou conversar com um advogado?

— Faço isso todos os dias, na verdade. — Sawyer sentou-se à mesa ao lado do filho, fazendo um sinal para que ele o passasse o café. — Advogados são um porre. Tenho pena do seu pai quando você for um estudante de direito.

— Tenho certeza que ele conhece a sensação. — Um sorriso sarcástico nasceu no rosto do mais novo.

O café da manhã seguiu igual como tinha sido nos últimos dias, desde que ele tinha chegado na casa do pai. Sawyer tentava, da forma que conseguia, manter uma relação mais íntima e divertida com o filho, mesmo que Zach não desse tanta abertura e confiança além das respostas sarcásticas que trocavam um com o outro. Desde que tinha voltado para Heaven Hill, há quatro dias atrás, Zachary ainda tentava se adaptar a morar na cidade e com seu pai de novo. Aquela já deveria ser a terceira vez que ele seria aluno da escola da cidade, mas as últimas duas tinham sido ainda no fundamental, e agora estava voltando para ser o aluno novo - mais uma vez - em seu penúltimo ano do ensino médio.

— Preciso ir. — Levantou-se da mesa, levando a xícara até a pia. — Até mais tarde.

— Já falei que posso te levar. — Sawyer insistiu pelo que Zach achava já ser a décima quinta vez. — Só espera uns dez minutos pra eu poder tomar banho, e levo você até a escola?

— Não precisa.

— Não é dos que têm vergonha quando os pais gritam que amam na frente da escola, é? — Ele indagou com a sobrancelha arqueada, seguindo o caminho do garoto até a sala, fazendo-o virar-se um pouco na cadeira e falar mais alto para que Zach o ouvisse. — Eu te levo.

— Porque a insistência? — indagou revirando os olhos, mesmo que seu pai não pudesse ver. — Você nunca me levou pra escola quando eu precisava, agora não faz diferença. — Zachary só percebeu o que tinha dito quando passou pelo corredor com a mochila nas costas e encarou os olhos de Sawyer, mas não era como se fosse realmente uma mentira. Apesar de terem uma relação melhor que a que o garoto tinha com a mãe, o problema era quando ele tentava forçar uma aproximação além do que Zach conseguia dar ao pai. Sem paciência para aquele assunto de novo, ele apenas deu de ombros. — Não precisa. Eu posso ir sozinho, mas obrigado.

Sawyer apenas balançou a cabeça positivamente, virando-se de volta à mesa. Ele sabia que conquistar a confiança de Zachary seria uma tarefa difícil, mas não imaginou que seria tanto assim. Desde mais novo, ainda na pré-adolescência, ele sempre fora uma pessoa complicada em relação à confiança. A princípio, Sawyer achava que era por causa de sua ex-esposa, que colocava coisas na cabeça do filho, mas na verdade, Zach tinha ficado sozinho quando mais precisava de alguém, e isso o fez se fechar. E ele sabia que era culpado por isso, e era esse o motivo pelo qual mesmo com as cortadas, Sawyer continuava tentando. Ele suspirou, voltando a tomar seu café.

Da porta de entrada da casa, Zachary encarava as costas do pai. Ele suspirou, sussurrando um até logo que Sawyer não escutaria e batendo a porta atrás de si, em um aviso de que já não estava mais em casa. Ainda na entrada, Zach encarou a rua, respirando fundo. O ar em Heaven Hill era diferente de Nova York, onde costumava morar com a mãe. Ele não ouvia tantas buzinas de carros e também não precisava inalar aquele ar poluído de cidade grande. Não que Heaven Hill fosse no meio do nada, mas ainda era uma cidade pequena e consequentemente mais calma do que a grande Nova York. O lado ruim, era que em uma cidade pequena, todo mundo acaba, querendo ou não, conhecendo todo mundo.

Um dia depois que chegou, sua presença de volta a Heaven Hill já tinha sido anunciada no Heaven Secrets, um perfil no twitter criado pelo clube jornal da Heaven Hill High School, que anunciava todos os novos "furos" de reportagem na escola e na cidade.

“Um bom filho à casa torna”, dizia a notícia com a sua foto e seu nome estampados na página de fofocas do jornal da escola, questionando se Zachary havia voltado apenas para passar alguns dias com o pai, ou se tinha realmente retornado para morar na cidade e fazer parte do corpo discente da escola de ensino médio. Seja qual fosse a resposta para isso, a especulação durante o fim de semana tinha sido maior do que ele achou que seria, já que não encarava sua volta como algo importante. Porém, mais uma vez, Heaven é uma cidade pequena demais para que as fofocas pequenas não acabem se tornando um emaranhado de fuxicos e especulações.

A buzina do carro na casa ao lado o fizera despertar de seus pensamentos. Tá, talvez não fosse tão parada assim. Ele tinha ido embora da cidade já fazia mais de três anos e, nesse meio tempo, ela provavelmente tinha mudado bastante coisa. Inclusive, as pessoas. O carro vermelho de última geração passou na frente de sua casa, e Zachary observou enquanto Austin West Harkness passou com seu mesmo sorriso cafajeste, soberbo e egocêntrico que Zach lembrava de ver não nele, mas em seu pai. Diferente do que ele achava, Austin não falou consigo.

Costumavam ser amigos há três anos atrás, mas o loiro não parecia mais tão amigável como era antes dele se mudar. Sim, tinham perdido o contato, mas não achava que seria assim tão seco e distante. No banco do carona, uma garota também loira que o Santoro não conhecia se olhava no espelho e retocava a maquiagem. Zach se perguntou se ela era a irmã de Austin, que antes costumava ser morena, mas quando ela inclinou-se e o beijou, ele fez uma careta. Como será que deveria ser transar com alguém exatamente igual a ele?

— Eca. Inclusive, obrigado, Austin — falou para si mesmo com sarcasmo. — É muito bom estar de volta, que bom que você perguntou.

Zachary bufou, revirando os olhos e traçando o caminho até a escola. Ainda estava cedo e não era muito longe, conseguia ir a pé e ainda chegar lá antes do sinal que anunciava o início das aulas. Depois de tantos primeiros dias de aula, ele sabia que não era tão legal chegar atrasado nas primeiras aulas do dia.

E durante o caminho, Zachary se perguntava se teria mesmo sido uma boa escolha trocar Nova York por Heaven Hill outra vez. Sinceramente? Ele não tinha muitas esperanças.

『❦❦❦』

Residência Rutger, Heaven Hill, Califórnia
Cerca de 11 horas antes da Reclamação

O som dos gemidos agudos e quase esganiçados era o único ouvido por todo o corredor do andar de cima. Hendrik Lars Rutger sentia as unhas grandes arranharem suas costas enquanto estava concentrado no vai e vem ritmado de seu quadril. Um gemido rouco e bem mais baixo deixou os lábios do rapaz quando sentiu as paredes internas da intimidade da garota apertar o seu membro quando o mesmo atingiu um ponto específico dentro dela. Mesmo que Hendy, como era chamado por seus amigos, achasse impossível, os sons feitos pela garota aumentaram quando ela chegou ao ápice de seu prazer. Ele aumentou o aperto nas coxas de sua parceira sexual, segurando a cabeceira da cama com a mão livre enquanto investia sem pausas contra o corpo dela.

A sensação já conhecida em seu baixo ventre fizera Hendy fechar os olhos e aproveitar mais o misto de sentimentos que o deixavam próximo de seu próprio momento. Os batimentos aceleraram, sua respiração ficou mais ofegante e quando o orgasmo chegou, Hendrik sentiu cada músculo de seu corpo relaxando, mas seus movimentos não pararam de primeira, ele continuou prolongando o prazer que sentia. Quando enfim parou, ele saiu de dentro da garota e se jogou ao lado dela na cama, esperando que sua respiração normalizasse para poder tomar um banho e ir para a escola.

— Isso foi… — A garota tentou falar, ainda com a voz ofegante. O lençol voltou a cobrir a sua nudez, mesmo que não fosse necessário. Não era como se Hendy não tivesse feito bem mais do que olhar o seu corpo na última hora.

— Legal. — O Rutger respondeu simplista, sentando-se na cama e tirando a camisinha de seu membro. Ele deu um nó na ponta, jogando-a no cesto de lixo ao lado da escrivaninha perto de sua cama. Tinha sido legal, tirando o fato dos gemidos exagerados, mas não fora exatamente a melhor transa de sua vida.

Hendy levantou-se da cama, indo até cômoda e pegando uma toalha branca, que ele jogou em cima da cama para a garota.

— Que tal um banho? — Indagou com um sorriso ladino em seu rosto, já se dirigindo até o banheiro.

Ela não esperou um segundo chamado antes de segui-lo para dentro e fechar a porta atrás de si.

Quando Hendrik desceu as escadas, escorregando no corrimão nos últimos degraus naquela manhã para tomar café, ele já estava sozinho. A garota que o tinha acompanhado à noite e no banho tinha saído mais cedo, antes de seus avós levantarem, ou ao menos era o que ele achava. O jovem de cabelos castanhos claros entrou na cozinha da mansão de seus avós, vendo que os dois já estavam acordados e tomavam o seu próprio café, mas mesmo que dividissem o mesmo local, não faziam realmente companhia um ao outro. Noelle comia calada, encarando a paisagem pela janela, enquanto um jornal aberto tapava a vista de Lars, seu avô homenageado em seu nome, que não enxergava nada além de si mesmo e alguma tragédia de gente rica como ele.

— Bom dia, bom dia, bom dia! — Hendy cumprimentou apenas a mulher, a única na casa com quem tinha uma relação razoável, mas o motivo de sua voz alta e aparente entusiasmo era puramente para irritar o avô.

Noelle sorriu, finalmente tendo uma companhia para tomar seu café da manhã. Lars, no entanto, não teve uma reação tão calorosa.

— Teria sido melhor se eu tivesse conseguido dormir. — A voz grave e imponente fizeram Hendrik revirar os olhos. Lars Rutger era a pessoa mais prepotente e orgulhosa que ele conhecia. Desde que fora morar os avós após os problemas de sua mãe, aos onze anos, Hendy se viu em pé de guerra com o avô, que tentava prendê-lo com regras idiotas como se ele fosse um animal engaiolado. Algo que ele nunca deixou que acontecesse, o que não tinha deixado a relação dos dois a melhor de todas. Pelo contrário, Hendrik e Lars quase não se suportavam. — Mas você trouxe uma dessas garotas perdidas com quem sai para a minha casa, sem respeito nenhum por mim ou por sua avó.

— Fizemos um pouco de barulho? — Hendrik indagou com um sorriso sarcástico no rosto. — Foi mal aí, Noelle. Não quis acordar você bem cedo, mas sabe como é, né? — Ele desculpou-se da sua forma, mas apenas e diretamente a sua avó, ignorando Lars, que agora tinha o jornal sobre as suas pernas e encarava o rosto do neto. Por mais que Hendrik odiasse aquilo, não podia negar que os dois eram fisicamente bem parecidos. O mesmo tom quase dourado dos cabelos castanhos, os mesmos olhos azuis, e até a mesma personalidade orgulhosa, mesmo que em lados diferentes. — Hormônios à flor da pele e tals.

— Tudo be… — Antes que ela terminasse de respondê-lo, Lars a interrompeu, fazendo Hendy fechar as mãos em um punho em cima da mesa. Odiava o fato de que o avô nunca deixava alguém ter uma opinião diferente da dele, fazia questão de cortá-los e impedi-los de se expressarem.

— Não está tudo bem! — Bradou enraivecido. — Trazer essas garotas para cá é só a ponta do iceberg, Noelle. E as brigas que ele se meteu na escola? Que ele vai repetir de ano agora? E a noite que passou na cadeia por dirigir embriagado? Tudo isso. É o meu nome que está vinculado a todas essas confusões causadas por esse… esse… Delinquente!

— Isso tudo é inveja porque ouviu o que eu sei fazer, Lars? — Hendrik perguntou com um sorriso sarcástico em seu rosto enquanto mastigava uma maçã. — Tá meio enferrujado nesse quesito, né? Tadinha da Noelle, sem ofensas No. — Direcionou-se a avó, que tinha uma expressão envergonhada no rosto. — Deve ser a idade, dizem que deixa o Júnior meio pra baixo, não é não?

— Chega, Hendrik! — Lars Rutger bateu o punho contra a mesa, o peito subindo e descendo de forma descompassada pela raiva.

— Querido, por favor. — Noelle intercedeu pelo neto. — Ele é só um adolescente, não sabe o que está dizendo, não o leve a sério.

— Então está na hora dele crescer, mulher. Você passar a mão na cabeça dele apenas o deixou pior, não vê? Agora ainda trás essas garotas fáceis para dentro da minha casa. Não passam de perdidas, assim como a sua filha.

— Não ouse falar assim dela. — Hendrik levantou-se da mesa. Tinha perdido subitamente o apetite. — Lave a sua boca antes de falar da minha mãe, seu velho decrépito asqueroso.

— Chega! — Noelle ergueu a voz, levantando-se da mesa antes que a situação piorasse. — Hendrik, está na hora de ir para a escola. Lembre-se do que conversamos. Você já tem dezenove anos, não pode perder outro ano lá. É o nosso combinado.

O moreno encarou a avó, com os punhos cerrados contra a mesa. Lars encarou a esposa e logo depois o neto, confuso com o que ela queria dizer. Tinha um combinado com Noelle, mas ele só se cumpriria se ele terminasse o ensino médio sem perder mais nenhum ano. Aos dezenove, Hendrik ainda estava no penúltimo ano do ensino médio. Ele tinha se atrasado na escola ainda mais novo, quando morava com a mãe. Com dificuldades para sustentar o filho e um vício em drogas, mandar o filho à escola acabava não sendo a prioridade de Brigitte Rutger, especialmente quando era Hendrik a cuidar dela, e não o contrário. E no ano anterior, ele ainda tinha reprovado o ano por falta e uma quase expulsão, o que lhe deu mais problemas com seu avô.

Por conta do combinado apenas, Hendy decidiu ir para a escola de uma vez. Antes de sair, ele encarou Lars de cima, virando o rosto com nojo e cuspindo no chão da cozinha, como se fosse o rosto de Lars. Odiava o seu avô, e o sentimento talvez fosse até recíproco. O homem fez sinal de que se levantaria da cadeira, mas Noelle segurou o seu braço. O Rutger mais novo apenas encarou a avó e deixou a cozinha, subindo apressado para o seu quarto de volta, pegando o skate e a mochila para ir à escola.

No lado de fora da mansão Rutger, Hendrik colocou o skate no chão e deu impulso para ganhar velocidade com o pé direito, enquanto o esquerdo estava bem posicionado na prancha. Os três impulsos foram o suficiente para ganhar a velocidade necessária e seguir seu caminho para a escola, mas não o suficiente para ser mais rápido do que o carro que logo o alcançou. O fiat uno quadrado de quatro portas movido a gás com um adesivo da sky e uma escada no teto ficou ao seu lado, diminuindo a velocidade e o acompanhando no percurso. Ao seu lado, o vidro do banco do carona abaixou, e ele conseguiu ver os dois colegas da escola o encarando.

— Fala moleque! — O dono do carro, Elijah Chariot Barrichello, ou como costumavam chamá-lo, Rubinho, cumprimentou o moreno. Ao seu lado, no banco do carona, Niklaus Von Devereaux sorriu para ele, fazendo um aceno com a cabeça para que Hendy se juntasse no carro. — Manda pra dentro que o Ligeirinho é igual as puta da esquina lá de casa, se come três, come quatro! — Rubinho virou-se para o carro, alisando o seu volante com a mão esquerda, como se fizesse carinho no carro. — Não, amor, eu não te chamei de puta. Mas qual o problema? É um trabalho digno como qualquer outro, sabia? Minha mãe merece respeito.

Hendy riu, balançando a cabeça negativamente. Ele agarrou o skate, e quanto o carro parou, ele entrou no banco de trás do modelo, no mínimo, inusitado do veículo do colega. Pelo que ele sabia, tinha sido um presente do pai, escolhido pelo próprio Rubinho. O porquê de ser um fiat uno quadrado de quatro portas movido a gás com um adesivo da sky e uma escada no teto? Nem Sócrates teria a resposta para esse questionamento.

Dentro do carro, ele viu que Alexander Tremaine também estava com eles. Hendy trocou um cumprimento com os dois passageiros, enquanto Rubinho apenas o encarou pelo retrovisor do carro. O loiro tinha um cigarro na mão direita, outro atrás da orelha e um maço guardado no bolso. Enquanto dirigia, Rubinho levava o cigarro de sua mão até a boca, tragando-o e soltando a fumaça pela janela.

— E aí, mano. A gente tava aqui ouvindo como os caras confundiram o Alex com mulher de bandido, sacou? — Alexander acertou um tapa contra a nuca do motorista, fazendo ele e Niklaus rirem.

Hendrik, no entanto, encarou o Tremaine ao seu lado. Não sabia que Alex tinha esses gostos duvidosos.

— Cala a boca, filho da puta. — Rubinho não o respondeu, como nunca fazia. Não era como se ele estivesse mentindo. — Basicamente, eu acabei me lascando e perdendo uma mercadoria aí. Mas vou pegar de volta mais tarde na escola.

— Você talvez vai pegar de volta mais tarde, Alex. — Klaus respondeu, encarando os dois apenas pelo retrovisor. — Não que eu ache que os engomadinhos Harper e Ootsuka vão tragar o teu lance, eles são caretas demais. Mas se eles acham e entregam pra alguém?

— Vira essa boca pra lá. Aquilo valeu uma grana.

— E como exatamente foram parar com o Harper e o Ootsuka? —Hendy, que não tinha ouvido a história do começo, indagou.

— É uma longa história. Mas, hoje mais cedo…

 

Alexander olhou de um lado para o outro com as mãos enfiadas dentro do bolso, esperando o seu comprador chegar. Tinham marcado sete e meia em ponto, obviamente, ele iria se atrasar. Ele puxou a mão direita um pouco, apenas checando se tinha trazido tudo que iria vender, e ao constatar que sim, ele guardou a mão dentro do bolso de novo. Sua cabeça estava coberta pelo capuz do casaco, impedindo que os outros vissem seu rosto, exatamente como ele precisava. Encolhido no canto do muro, Alex checou a hora no celular outra vez. Sete e trinta e oito. Por sorte, marcou de se encontrar com Rubinho ali perto e ao menos não iria voltar andando para a escola.

O motivo para estar tentando disfarçar-se era que tinha sido “proibido” de vender naquela região. O lado norte de Heaven Hill tinha uma gangue de adolescentes problemáticos que pareciam não ter pais ou nenhum maior de idade que os mandasse para a escola - uma observação muito irônica vindo dele. Se Alex estivesse em uma fanfic, ele quase poderia dizer que seria uma sobre aquela série ruim cujo nome começava com Rio. Tinha quase certeza que sim. Mas, graças ao universo, ali era a vida real. E, na vida real, ele não queria levar uma surra de uma gangue adolescente na sua própria cidade. Já tinha sido proibido por eles de vender naquela região, mas não era como se fosse perder dinheiro por causa disso. Ele apenas iria entregar a mercadoria e iria embora.

Mas, como sempre, Alex não podia ter um só minuto de paz.

— Pela nossa área de novo, Tremaine? — Alex sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem. Não deveria estar na área deles, claro. — Achei que tivéssemos sido bem claros da última vez. Nosso território, portanto, a mercadoria é nossa agora. E o lucro dela também.

Alex abaixou o rosto, sem encará-los. Ele sabia que nunca andavam sozinhos.

— Não sei de quem estão falando. — O Tremaine mentiu, forçando a voz e mantendo o rosto ainda um pouco escondido da maneira que podia deles. — Eu me chamo Paul — Apresentou-se, falando seu nome e sobrenome como se fossem um só. — Paul Atejando.

Um deles riu, mas não parecia ser por achar o que Alex tinha dito uma piada engraçada demais. Alexander encarou as sombras feitas pelo sol, revelando no mínimo cinco caras. Ele engoliu em seco quando viu que um deles também carregava um taco de baseball, cujo ele não estava tão animado a conhecer.

— Paul Atejando, é? — Indagou batendo o taco de baseball contra a sua mão. — Que nome feio.

— Sua mãe não achou. — Alex respondeu, percebendo que sua língua tinha sido grande demais apenas quando já era tarde.

— Ora seu…

— Mete o pé, doido! — O Tremaine gritou antes de se abaixar rapidamente, agarrar uma pedra e jogar contra eles, os distraindo por milésimos de segundo que foram suficientes para ele correr o mais rápido que conseguia.

Mas a gangue, obviamente, o seguiu. Alex acelerou o passo o quanto conseguia, jogando latas de lixo no chão para atrasá-los.

— Foi mal aí, tia! — Gritou o moreno quando, sem querer, derrubou as sacolas de compras de uma mulher que trazia três crianças consigo. Quatro, se ele contasse a da barriga. O Tremaine acabou segurando o chapéu de palha da mulher e levando consigo para se disfarçar.— Caso de vida ou morte. Um dia talvez eu devolva

Mesmo cansado, Alex não parou de correr. Sua respiração estava ofegante e aquela era a terceira esquina em que ele dobrava. Ainda assim, ele continuou correndo, vendo que eles estavam quase ficando para trás por causa dos obstáculos que ele tinha jogado no caminho, mas precisava esconder-se e esconder a sua mercadoria. Se eles o pegassem, ao menos que não levassem o seu dinheiro. Quando estava próximo de dobrar outra esquina, ele viu dois alunos de sua escola. Chandler de Rizzie Ootsuka e Joshua Harper. Os co-capitães dos Fenrys, time de futebol americano da escola, deixaram uma bolsa grande de treino em cima de uma das mesas e entraram na lanchonete, provavelmente iriam tomar café antes da escola.

Além de co-capitães, Chandler e Joshua eram melhores amigos desde que Alex conseguia lembrar, mas também tinham uma grande fama pela escola. Filho de uma cantora country famosa e um treinador de um dos times da NBA, Joshua Harper tinha tudo para ser mesquinho e arrogante, mas estava bem longe disso. Seu lugar como um dos capitães do time se deviam a, além de seu talento inquestionável, a verdade, confiança e irmandade que Josh inspirava nos seus colegas de time. E Chandler tinha chegado na cidade ainda criança, e desde então, carrega um número relativo de troféus e medalhas com o seu nome ou sua foto no mural da escola. Um dos melhores jogadores do time, o Ootsuka também era o melhor aluno de sua turma e tinha uma das melhores notas da escola, honrando o nome de Maeve Downing, sua falecida mãe adotiva, e do médico da cidade, Doutor Shiro Ootsuka.

Alexander não pôde conter um sorriso quando a ideia veio à sua mente. Era isso ou perder a mercadoria.

Ele olhou para trás, vendo que a gangue ainda vinha longe. Alex correu e abaixou-se, abrindo a bolsa que os dois tinham deixado e colocando a sua mercadoria escondida embaixo dos materiais de jogo que tinham dentro. Quando já estava guardado, ele voltou a correr, sempre olhando para trás. Seu coração aumentou o ritmo das batidas quando eles passaram direto pela lanchonete, e Alex não pôde deixar de abrir um sorriso. Ele dobrou a esquina outra vez, encontrando uma pequena loja de roupas íntimas femininas. O Tremaine agarrou o óculos escuros de um homem cego que pedia dinheiro com um chapéu, colocou o chapéu que tinha pegado da mulher na cabeça e entrou na loja.

— Bom dia, senhor! Em que posso ajudá-lo? — Perguntou uma das vendedoras da loja, muito educada. — Quer comprar algo para sua namorada?

Alex encarou a porta do lado de fora, alerta para o caso deles passarem.

— Namorada? — Ele indagou, pegando o sutiã de uma lingerie vermelha e colocando no próprio peito, ainda por cima da blusa. — É para mim. Como acha que eu fico?

A pergunta deixou a vendedora claramente constrangida, e Alex teve vontade de rir pela sua mentira. Os olhos da mulher se arregalaram e suas bochechas começaram a tomar um tom avermelhado. Através dos óculos escuros, Alex conseguiu perceber ela trocar um olhar com outras vendedoras.

— E-então… É… Nós… Bom, nós… E-eu…

— Que foi querida, perdeu a língua? — Entrando no teatro, o Tremaine forçou a voz para que ficasse afeminada. — Então, acha que valoriza os meus peitos ou não? — Alex pegou a parte de baixo da lingerie, virando-se de costas e empinando a bunda para a mulher, segurando-se para não rir. — E aqui, essa cor realça a minha bunda? Sabe o que é, hoje eu tenho um encontro com um boy daqueles, ui! — Seu corpo se tremeu inteiro em fingimento. — Não vejo a hora de sentir aquele homem me com....

Encarando a porta, Alex viu quando a gangue parou na esquina da loja, olhando para todos os lados a sua busca. Ele virou-se outra vez, de chapéu e óculos escuros dentro da loja, esperando que eles não o vissem. Quando cada um deles seguiu para lados opostos, mas não entraram naquela rua, ele respirou fundo aliviado.

— Quer saber, não vou comprar nada aqui. — Deu um grito gasguito. — Você é muito preconceituosa, acha que eu não vi como me olhou?

— E-eu… Não senhor, eu… Me desculpe, senhor…

— Nada de desculpa! Você está é com inveja que ninguém quer comer essa sua ratazana de esgoto. Eu vou embora, comprar uma lingerie ba-ba-do em outra loja pra agradar o meu homem e você vai passar a noite chupando o dedo, sua songa monga mal amada.

Alex fez um movimento de cabeça como se estivesse jogando o seu cabelo no rosto da vendedora e saiu da loja. Felizmente, tudo tinha dado certo. Ele devolveu os óculos ao mendigo cego, jogando três moedas no chapéu.

— Valeu aí, tio — falou o Tremaine, agora com sua voz comum.

— Obrigado, meu jovem! — Agradeceu o homem.

E Alex voltou pelo mesmo caminho, mas quando chegou à lanchonete, Chandler e Josh não estavam mais lá.

 

No meio da história contada por Alex, Ligeirinho começou a fazer um barulho estranho e enguiçar. A atenção dos quatro adolescentes, que antes gargalhavam, agora estava voltada para o carro, que parou no meio do caminho.

— O que aconteceu? — Alex perguntou encarando os dois na frente.

— Estamos sem gasolina.

— Mas o tanque tá na metade. — Klaus respondeu com a sobrancelha arqueada encarando o medidor após a resposta de Rubinho.

— Não necessariamente.

— Você não levou o Ligeirinho pra consertar o medidor de gasolina? — Indagou o Von Devereaux. O medidor de gasolina do carro estava quebrado já fazia duas semanas, e Niklaus já tinha dito que o amigo levasse para a Oficina dos Von Devereaux, a família de Klaus, que não tinha trabalhado nesse final de semana, então acreditava que já estivesse consertado.

— Não necessariamente?

O mecânico revirou os olhos, abrindo a porta do carro e saindo para tentar dar um jeito nisso, mas não tinha muito o que fazer. Rubinho encarou os amigos com um sorriso no rosto.

— Relaxe aí, rapaziada. É só o primeiro dia de aula. O que é mais uma detenção por chegar atrasado na lista de vocês, né?

Hendrik revirou os olhos e desceu mais no assento do carro. A ida de skate teria sido bem mais produtiva.

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Secretaria, Heaven Hill High School, Heaven Hill
Cerca de 09 horas antes da Reclamação

Mônica Swift só queria um lencinho umedecido e um brilux. Isso era pedir demais? Tinha certeza que não.

Como se já não bastasse sua colega de apartamento não ser, nem de longe, uma pessoa muito higiênica - isso sendo educada -, a faxina completa na escola só era feita duas vezes por semana, e o balcão da secretaria estava quase tão sujo quanto o caminhão de lixo da cidade. Estava exagerando? Talvez, mas isso não queria dizer que ela não estava realmente quase tendo uma síncope por causa da poeira visível em cima do balcão, cujo qual Mônica se recusava em encostar ou colocar qualquer um dos seus pertences em cima. Nada como um bom e velho TOC para animar o dia-a-dia de alguém.

Ela estava se perguntando, desde que chegou e foi direto para a secretaria, onde estava com a cabeça quando decidiu se voluntariar para ajudar os alunos novatos a conhecer melhor a escola. Nem era como se tivesse muita coisa interessante para conhecer na Heaven Hill High School. A não ser que considerassem um monte de marmanjos correndo atrás de uma bola em formato oval, algo interessante. Se achassem, tinham um prato cheio, já que a escola sempre incentivou a prática do esporte pelos seus alunos, algo que Mônica prontamente não fazia, o que lhe resultava em um ou dois pontos a menos no fim do semestre, e era por isso que estava ali. Tinha quase certeza que iria ganhar alguns pontos com um ou outro professor, mas estava quase se arrependendo disso.

— Aqui, esses são os três alunos novatos que você tem que receber. — A secretária, uma mulher de cabelos loiros, bochechas rechonchudas e olhos castanhos, respondeu. Quando ela sorriu, Mônica conseguiu ver os dentes da frente sujos pelo excesso de batom vermelho. — Zachary Santoro Bassete e Júpiter L… — Ela estreitou os olhos, como se quisesse ter certeza de que aquele era mesmo o nome da garota e com dúvidas de como ele era pronunciado. — Júpiter e Saturno Lresent Adkins. — Mônica arqueou a sobrancelha pela pronúncia forçada da mulher. — Eles devem chegar daqui a pouco e vir para a secretaria atrás dos horários, você pode recebê-los e lhes mostrar as dependências da escola, tudo bem?

— Claro. — Ela a respondeu com um sorriso forçado, pegando os horários das mãos da mulher. — Obrigado.

— Por nada — respondeu animadamente, mostrando os dentes sujos mais uma vez. — Nós quem agradecemos pela ajuda.

A jovem Swift deveria esperar na secretaria, mas uma ida ao banheiro não iria matar ninguém. Antes que a secretária fechasse o sorriso vermelho e esquisito, Mônica já estava fora da sala. O banheiro feminino era, por sorte, naquele corredor e bem próximo da secretaria. Encarando os horários dos dois novatos no caminho, ela viu que teria duas aulas com a garota nova, e três com Zachary, a quem ela já conhecia. Costumava frequentar a casa de Justin, seu pai, quando era mais novo, antes de se mudar da cidade - pela segunda vez -, um antigo amigo de seu meio-irmão não tão querido, Austin.

Dentro do banheiro, Mônica fez uma careta pelo odor não muito agradável. A jovem pegou um lenço dentro de sua bolsa, usando-o para abrir a torneira. Nem morta que iria tocar naquilo e pegar um milhão de germes diferentes. Além do mais, aquele banheiro também era o mais próximo do campo de futebol, usado muitas vezes pelas líderes de torcida. Mônica realmente não queria nem imaginar onde aquelas garotas colocavam as mãos. O pensamento quase a fez vomitar ao lembrar-se que uma daquelas garotas era namorada de seu irmão - namorada com uma lista um pouco grande de dores de cabeça por conta dos chifres, mas namorada.

Ela deixou o lenço pendurado na torneira, lavando as mãos duas vezes antes de pegá-lo de volta e fechá-la, jogando o lenço no cesto de lixo e passando álcool em gel nas suas mãos já limpas para garantir. Pelo espelho, ela pôde ver quando a tal namorada de seu irmão entrou no banheiro a encarou de cima a baixo. Mônica a encarou de volta pelo reflexo do espelho, esperando que ela falasse algo, mas ao invés disso, apenas entrou em uma das cabines do banheiro. A Swift riu. Quando Austin estava perto, ela ficava estranhamente bem mais valente do que estava agora, o que era quase sempre, já que Austin não deixava que a garota sequer respirasse sem ele por perto, a menos que tivesse outra para fazer companhia a ele. E a sua teoria foi confirmada quando saiu do banheiro, e Austin estava na porta, com o mesmo uniforme vermelho e branco de sempre.

— Irmãzinha, quanto tempo? — perguntou com um sorriso sarcástico no rosto, se colocando no meio da saída e impedindo que Mônica deixasse o banheiro. — Tô te achando meio distante, sabe? Você não manda mensagem, não fala com o papai, finge que nem me conhece na escola, assim eu fico magoado, sabe? Que feio da sua parte. Eu chamo isso de ingratidão.

— E eu chamo pessoas como você de imbecis. — Mônica respondeu sem paciência. Austin West Harkness não era a pessoa que ela queria ver agora. Ou nunca. — Igualzinho ao seu pai.

— Nosso pai — corrigiu o loiro. — Não seja rebelde, irmãzinha. Papai está com saudade.

— A é? — perguntou com sarcasmo. — Então porque você não manda ele enfiar a saudade dele no c… — Antes que Mônica terminasse, Austin agarrou o seu queixo, forçando-a a se calar. A Swift agarrou a mão do irmão em seu rosto com raiva, fincando suas unhas no pulso do Harkness.

— Não fala assim do nosso pai, garota. — Austin prensou o corpo de Mônica contra a parede. Não havia mais um sorriso em seu rosto. — Você não tem respeito pela sua família?

— Você não é minha família. — Com certo esforço por conta do aperto, a jovem Swift o respondeu. — Nem ele.

Ele a encarou com a expressão fechada e enraivecida. Mônica tinha saído de casa já fazia quase um ano, mas Austin tinha os mesmos pensamentos ridículos que seu pai. Achava que tinha algum poder sobre ela, que Mônica devia obedecê-lo por ser um homem da família, o sucessor de Justin West Harkness e mais velho por uma pequena diferença. Além de idiota, Austin ainda era machista e prepotente. Tinha aprendido muito bem com seu pai, no fim das contas.

— Escuta aqui, garota…

— Alguma coisa acontecendo aí? — A voz grave fizera Austin se assustar, tempo suficiente para Mônica acertar um chute no meio das pernas do meio-irmão, o fazendo inclinar-se com uma careta de dor e quase dar um grito pelo incômodo. — Ih, acho que agora tá. Sinto muito pelos seus futuros filhos, cara.

Mônica reconheceu a voz. Chandler de Rizzi Ootsuka usava o mesmo casaco do time que Austin também trajava, mas tinha escrito co-capitão em suas costas. Junto de Joshua Harper, que também era o melhor amigo do moreno com sobrenome asiático, Chandler era o capitão dos Fenrys, o time de futebol americano de Heaven Hill. Chandler encostou-se na parede, assistindo Austin reclamar de dor. Os dois nunca se deram muito bem, mas Mônica não podia julgá-lo. Seu meio-irmão era realmente insuportável.

— De novo, Harkness? — Chandler indagou com um sorriso no rosto. — Lembra da última vez que o treinador viu você tentando fazer algo com a Swift? Quase foi expulso do time, idiota. Eu não ia reclamar, mas precisamos de todos os jogadores, então. — Deu de ombros, explicando o único motivo pelo qual não jogava Austin de um penhasco.

— Cala a boca, xing ling falsificado!

Chandler precisou rir. O insulto era por causa de seu sobrenome, Ootsuka, que vinha de seu pai adotivo, que era um homem asiático. Por ser adotado, Chandler não tinha nenhum traço oriental como os de seu pai. Sua pele era bronzeada, com um porte alto e musculoso por conta dos esportes que fazia desde bem novo, pendendo para traços latino-americanos ao invés de asiáticos. Gargalhando, o moreno bateu palmas e encarou Austin de cima.

— Uau, Austin! Seu repertório de xingamentos tá realmente muito bom — caçoou. — Aprendeu com as crianças da quinta série?

— Escuta aqui, garota… — Austin levantou-se, ficando próximo demais de Mônica outra vez, mas o Ootsuka se colocou entre os dois.

— Escuta você, cara. O treinador tá te chamando no campo. Agora. Já deveria estar lá, e se quer tanto tomar nosso lugar no time, Austin, deveria começar tendo responsabilidade e fazendo alguma coisa em campo ao invés de perseguir sua irmã.

— Meia-irmã. — Mônica corrigiu. — Nem isso direito.

— Meia-irmã.

— Bebê? — A namorada de Austin saiu do banheiro, encarando o loiro com expressões assustadas. — O que aconteceu? Fizeram alguma coisa com você?

Mônica revirou os olhos, fazendo expressões de que iria vomitar.

— Bebê, bebê — imitou a voz irritante da garota baixo o suficiente para apenas ela ouvir, mas Chandler, que estava ao lado, também a escutou. — Irritante.

— Não foi nada — respondeu orgulhoso, se negando a deixar transparecer a dor que tinha sentido antes e a raiva. Mas Mônica viu o olhar que Austin a lançou enquanto voltava para o campo de mãos dadas com a loira, bem parecida com ele. A conversa ainda não tinha acabado.

A Swift revirou os olhos, voltando para a secretaria outra vez, mas uma voz a impediu antes disso.

— Não vai nem agradecer?

— Pelo que exatamente? — Virou-se de volta para Chandler com a sobrancelha arqueada. — Eu teria lidado com ele sozinha, e mesmo que não, ajudar uma garota quando idiota tá ameaçando ela é apenas o mínimo e sinal de que você teve bons pais. Vai querer uma estrelinha por escovar os dentes toda noite também?

— Se eu pedir um beijo, você dá? — Chandler perguntou com um sorriso ladino e o braço direito escorado na porta do banheiro. — Eu até prometo tomar banho também.

— Seria bem anti-higiênico se você não tomasse. — Mônica fez uma careta. — Mas não, não dou.

— Poxa, então vou ter que ficar só com a estrelinha. — Seus ombros murcharam e Chandler assumiu uma expressão triste. — Uma pena.

— Você é sempre… — Mônica fez um gesto com as mãos, apontando para Chandler, alguns bons centímetros mais alto que ela. — Assim?

— Só com pessoas especiais, Swift. — Piscou o olho direito, aproximando-se mais, porém Mônica se afastou, fazendo seu caminho de volta para a secretaria outra vez. Dessa vez, definitivamente. — Mas posso ser como você quiser. Vai experimentar?

— Me erra, garoto.

— Não ouviu os boatos? — Chandler indagou antes de ir de volta para o campo, um pouco mais alto para que ela ouvisse. — Eu nunca erro um passe.

Mesmo de costas, Mônica respirou fundo, visualizando exatamente o sorriso convencido no rosto de Chandler, mas não olhou para trás.

Na secretaria, a mulher com os dentes sujos de batom e bochechas rechonchudas estava mais vermelha que um tomate, gesticulando enquanto falava com três alunos, e ao reconhecer um deles, Mônica supôs que fossem os novos alunos da escola.

— Ela deveria estar aqui quando vocês chegaram, mas esses jovens de hoje em dia tem problemas com esperar. — A mulher falava para os três, que logo viram Mônica chegando atrás da secretária. — Vou aproveitar que o movimento de alunos na secretaria está baixo e eu mesma irei…

— Não precisa. — Mônica cortou-a surgindo atrás da mulher, que quase caiu para trás com o susto. — Apenas fui ao banheiro, mas já estou aqui.  Sejam Bem-vindos. Ou bem-vindo de volta. — Direcionou-se aos novatos, a última parte para Zach, estendendo as mãos para cumprimentá-los.

A mulher sorriu sem graça, ainda mostrando o batom nos dentes, e um olhar com os novatos fora o suficiente para Mônica perceber que eles também tinham visto os dentes vermelhos dela.

— Bom, ainda bem que chegou, senhorita. Vou deixá-los em suas mãos, obrigado.

A secretária entrou para a sala de uma vez, envergonhada, deixando apenas Mônica e os três novatos. Ela sorriu para eles.

— Bom, acho que vamos começar, não é?

— Eu já conheço a escola. — Zachary resmungou, não muito interessado em passar a manhã andando pelo lugar. — Preciso mesmo participar?

— Sim. — Mônica respondeu. —Você nunca foi um aluno e saiu da cidade faz três anos, Zachary. Inclusive, legal te ver de novo.

— Obrigado? — respondeu o Santoro.

Mônica encarou os dois irmãos Adkins, que aparentemente estavam na mesma turma e tinham a mesma idade, mas não se pareciam nem um pouco.

— Eu sou Mônica Swift, do terceiro ano. Sim, Swift como a cantora. Felizmente, com um pouco mais de carisma, infelizmente, também com homens imbecis atormentando. — Apresentou-se, já seguindo pelo corredor e fazendo sinal para que eles o seguissem. — Vocês devem ser Júpiter e Saturno Lerente Adkins, certo? Nomes legais.

— É Lresent — corrigiu o irmão. — Nossos nomes são um lance de família. Eu sou Saturno, e essa é minha irmã, Júpiter.

Júpiter apenas deu um sorriso educado, sem se pronunciar em um só momento.

— Bom, acho que tenho que dar algumas dicas pra vocês. — A Swift iniciou, abrindo os braços na altura de sua cintura, como se apontasse para a escola como um todo. — Aqui vocês irão sofrer bullying se não forem populares, mas se forem, serão alvos da página de fofocas da escola. Se tiverem dinheiro, podem comprar alguém pra fazer seus trabalhos, mas se não tiverem, vão ser obrigados a fazer o de alguém. — Enquanto Mônica falava, ela viu os olhos de Saturno passarem de entusiasmados para assustados. O jovem de cabelos castanhos e pele levemente bronzeada arqueou a sobrancelha e trocou um olhar com a irmã, que o encarou da mesma forma. Zachary era o único que não parecia surpreso. — Não se metam no caminho dos Fenrys ou das Wolfies, ou serão massacrados. Não podem demonstrar fraquezas, não liguem para o que as pessoas dizem de você, porque vão dizer coisas horríveis e também nunca, em hipótese alguma, chore na frente de alguém aqui. As pessoas podem ser animais bem ferozes.

— Você está assustando eles. — Zachary alertou com um sorriso em seu rosto, achando as expressões dos dois divertidas.

— Um pouco. — Júpiter concordou, mas por seu irmão do que por si mesma.

— Oras, não tenham medo. Esse é o ensino médio em Heaven Hill, mas é fácil, fácil, e olhem pelo lado bom... — Mônica respondeu, abrindo a porta dupla que levava até o campo de futebol e sentindo o sol em sua face. — Se vocês não morrerem ou se matarem até terminar, vão estar prontos para enfrentar qualquer coisa que vier depois. Acreditem em mim. Ah, e sejam bem-vindos à selva.

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Corredores, Heaven Hill High School, Heaven Hill
Cerca de 06 horas antes da Reclamação

Lucas Arnold Heyerdahl não costumava chegar atrasado, mesmo no horário da tarde.

Naquela em especial, o primeiro dia de aula, sua avó, Gertrude Heyerdahl, ou apenas Pookie, como gostava de ser chamada, tinha certeza de que era um soldado do exército da união que participou da Guerra Cívil Americana e estava perdida no tempo. Mesmo que ainda reconhecesse Luke e seu avô, Pookie queria sair na rua com uma arma porque precisava lutar com os seus companheiros na guerra. Como sempre acontecia, Luke e Phil, seu avô, entraram no jogo da mulher, afirmando serem médicos no campo de combate que não poderiam deixar Pookie ir para a luta porque estava ferida, mesmo que ela repetisse diversas vezes que estava em perfeito estado.

Luke tinha sido criado pelos avós desde o acidente que matou os seus pais quando ele tinha apenas cinco anos. Pookie e Phil eram um casal já idoso e desgastado pela vida. Ele, mesmo que negue, tem problemas de esquecimento e sua avó sempre tinha episódios como aqueles. Hoje, ela era um soldado da união, amanhã seria a rainha da Inglaterra e no dia seguinte, a primeira mulher a pisar na lua - esta, que seria a cama no quarto de Luke. Eram cenas comuns, e a sanidade dos dois sempre fora uma questão na cidade, mesmo que Phil tente o máximo que consegue disfarçar esses problemas para não perder a presença do neto mais novo em sua casa. Da forma que podiam, eles cuidavam de Luke, e ele cuidava deles de volta.

— Shi… Devagar, Luke. — A garota a sua frente fez um sinal de silêncio quando Luke bateu o ombro contra um dos armários no corredor. — Assim eles vão pegar a gente. Você seria um péssimo espião, sabia?

Ser um espião nunca foi o maior sonho de Luke, mas quem olhasse Leah de longe, também não imaginaria que ela era uma. O bucket com a estampa do Mickey cobria parte dos seus cabelos, a camisa com o escudo do Capitão América na logo em seu peito e a calça larga faria, no máximo, as líderes de torcida terem uma síncope pela falta de senso de moda. Era um conjunto bem estranho para protagonizar um filme de espiões, se alguém o perguntasse. Luke tinha quase certeza que a intenção era não chamar atenção, e não era exatamente isso que a garota estava fazendo.

— Entrar na aula escondido não é o meu passatempo favorito, Leah — sussurrou o loiro. — Mesmo na aula da senhora Ruffles.

— Que deve estar dormindo enquanto Alex pinta o rosto dela e posta na internet pra zoar. — Supôs a garota com um óculos escuros fechando o seu look de espiã. — Não é difícil. Acredite em mim, já fiz isso duas vezes. Ela nem percebe. Além do mais, ela chama você de Matthew. Você não tem cara de Matthew, mas ajuda o fato dela não saber o seu nome.

— Tudo bem então, Ludovica. — Luke chamou Leah pelo nome que a professora a chamava, fazendo Leah revirar os olhos e mostrar a língua para ele. Porque Ludovica? Ele nunca iria conseguir responder essa pergunta, assim como ninguém sabia o porquê de Matthew. Senhora Ruffles sempre trocava os nomes dos alunos pelo nome que ela mesma inventava na cabeça. — Mas tem certeza que ela não vai pegar a gente?

— Claro que tenho, confia — sussurrou de volta. — Não entre em pânico.

Luke sabia que aquela era uma das referências Geeks de Leah, mas não lembrava qual delas.

O motivo pelo qual ele tinha chegado tarde na escola não era somente Pookie, afinal, Leah também tinha pendências a resolver em casa. Mais uma vez, a mãe dela tinha usado o dinheiro para pagar as despesas de casa para beber e se drogar, deixando-as sem energia elétrica, fazendo a morena viciada em super-heróis e na cultura geek como um todo precisar trabalhar em horário de aula durante aquele primeiro dia para conseguir pagar a despesa, e os dois acabaram perdendo mais tempo na fila do caixa do que deveria. Luke odiava filas de caixa tanto quanto odiava a praia, porque ele ficava tão queimado quanto e tinha muita gente também - com direito até barracos e discussões enquanto espera para pagar uma única conta de luz.

Lucas e Leah eram melhores amigos desde que ele tinha apenas sete anos. Fora apenas um elogio a mochila do Arqueiro Verde escolhida por Leah para as aulas daquele ano, no terceiro do fundamental, que fizera nascer aquela amizade que, anos depois, ainda era tão forte - mesmo que Leah continuasse insistindo para levar Luke na praia, que ele sempre negava afirmando odiar pessoas. Apesar de tudo, eles se fortaleciam juntos. Luke com os problemas com seus avós e Leah com o fardo de sua mãe e a perda do único pai que teve um dia. Davam forças um ao outro. Mesmo que às vezes, “dar força” quisesse dizer entrar escondido na aula depois de ter perdido o horário.

— Vamos lá, meu amigo. — Leah acenou com a cabeça para que Luke a seguisse. — Ao infinito e além.

— É só a aula de história, Leah.

— Você precisa entrar no clima.

— E vocês precisam arrumar um relógio que funcione, porque a aula começou já faz meia hora no mínimo.

A voz grave os assustou. Luke levantou-se rápido demais, tropeçando nos próprios pés e caindo por cima de Leah, os dois fazendo o maior barulho no corredor quando bateram contra os armários. Caída no chão, a Templeton encarou o Inspetor Harold Bucker. Ela revirou os olhos e bufou, levantando-se.

— E você precisa de uma dose de simancol. Já experimentou? Dizem que é ótimo pra gente como você. — Quando Leah deu por si, já tinha soltado tudo em cima do Inspetor, que ela particularmente não suportava.

— Gente como eu? Tem algo a me dizer, Leah? — Harold o indagou com a postura altiva e expressão soberba, como se a olhasse de cima. O Inspetor da escola tinha um sorriso quase tão feio quanto o do Coringa, e Leah desejou momentaneamente ser da Bat Família e explodir a cara daquele homem. — Sugiro que escolha bem suas palavras.

— Não. — Luke respondeu, tentando amenizar a situação. Sabia que a relação da melhor amiga com o Inspetor não era a melhor de todas. — Ela não quis dizer nada. Estávamos apenas tentando ir para a aula, Inspetor. Desculpe por chegarmos atrasados, foi culpa minha. Meus avós…

— Me poupe das paranoias daquela velha louca, Heyerdahl. Não me diz respeito e eu não quero saber. — Luke abaixou a cabeça, sentido pela forma como ele tinha falado de sua avó. Leah fechou os punhos com raiva. — Nem sei como ainda deixam uma senhora naquele estado sem cuidados e tomando conta de um adolescente. Ela poderia acabar machucando alguém.

— Minha avó não é perigosa — defendeu o loiro, a voz subindo alguns oitavos pelo medo comum que ele já estava acostumado a sentir. O medo de ser tirado e afastado de seus avós. — Ela… — suspirou. — Ela só…

— É louca. — Cortou-o. — Mas e a sua mãe, Leah? Como vai Liza? — O sorriso no rosto do homem se alargou, provocando a aluna. — Quando chegar em casa depois da detenção, pode dizer a ela que estou com saudades?

— Detenção? — Fora o que chamou a atenção de Leah.

— Sim. Os dois, depois da aula, detenção. Mas não fiquem com essas caras, ela vai estar bem movimentada hoje.

Leah bufou, encarando-o de braços cruzados. Ela queria responder, mas sabia que aquilo apenas iria piorar a situação não só dela, mas também de Luke. Conhecia Harold bem mais do que gostaria para saber disso.

— Podemos ir pra aula agora?

— Não. — Ele respondeu a pergunta da garota já indo embora. — Vão ficar na sala da detenção até os outros serem liberados. Venham.

Harold passou no meio dos dois, batendo os ombros tanto em Leah quanto em Luke. Os olhos azuis do Heyerdahl encararam os de Leah, que fulminava o inspetor quase como se tivesse a visão de calor da Supergirl. Ele tocou o braço da amiga e deu a ela o mais próximo do que seria um sorriso. A provocação de Harold sobre os seus avós não o tinham deixado bem, mas Leah tinha história com o Inspetor, história que ele conhecia, e por isso, ele tentou passar a ela a mensagem de que ficaria tudo bem. Mesmo que aquela fosse a sua primeira detenção em três anos. Afinal, o que poderia acontecer de errado em uma detenção? Não era como se ele fosse achar um bunker escondido com hieróglifos ou ser transportado para um mundo sobrenatural, no fim das contas.

— Vamos lá — chamou a melhor amiga. — Quanto mais cedo nós irmos, mais cedo vai terminar.

Leah respirou fundo, seguindo o amigo.

Os dois atrasados seguiram Harold Bucker, mesmo a contragosto, pelos corredores da escola em direção a sala que era comumente usada para detenção, mas gritos no meio do caminho fizeram os dois se encararem assustados.

— Briga! Briga! Briga! Briga! Briga!

Um coro de vozes gritava no outro corredor. Harold correu em direção aos gritos, seguido por Leah e Luke, até chegar a uma pequena roda formada pelo time de futebol americano, os Fenrys, Mônica e dois dos novatos. No meio da roda, Austin e Chandler tentavam esmurrar um ao outro, embora Joshua tentasse impedir que a briga entre os dois fosse além dos xingamentos que já estavam sendo bem calorosos, mas não estava dando muito certo. Austin empurrou Chandler, quase fazendo o Ootsuka cair, mas ele conseguiu se manter firme e equilibrado, gostava de agradecer aos anos de treinamento e técnicas ensinadas por seu pai por isso, embora soubesse que Shiro não iria ficar muito feliz ao descobrir que ele tinha saído no soco com alguém na escola.

Não era exatamente esse o exemplo de disciplina que ele o tinha ensinado. Ainda assim, ele partiu para cima de Austin, acertando um soco de direita no nariz do loiro, vendo o sangue sujar o chão da escola quando ele caiu.

— Que confusão está acontecendo aqui? — Harold gritou, afastando a roda que tinha se criado ao redor dos dois. — Parem já com isso!

Todos os alunos se calaram, não mais tão interessados em incentivar a violência entre os seus companheiros de time. Chandler lembrou-se das lições de seu pai sobre disciplina e respeito, mas a raiva e a adrenalina ainda estavam em seu sangue. Ele respirou fundo, tentando se conter, mas Austin aproveitou a oportunidade.

Josh tentou se aproximar do amigo, com a bolsa de treino em um dos seus ombros. Tinha tentado evitar, mas não era como se pudesse julgar Chandler por dar o que Austin estava merecendo. Porém, nenhum dos dois percebeu quando o loiro se aproveitou da distração deles e acertou um gancho de esquerda no rosto do Ootsuka, fazendo-o se desequilibrar e cair para trás, derrubando Josh e a bolsa no processo. Aberta, os objetos dentro saltaram para fora, inclusive, diversos rolinhos de maconha, o que chamou a atenção de Harold.

— Parem já com isso. — O inspetor gritou mais alto dessa vez. — Você, vá lavar o rosto e saia da minha frente antes que eu te dê semanas de suspensão. Vocês dois… — Harold andou até a bolsa e apanhou os rolinhos de maconha que tinham caído, fazendo Josh e Chandler trocarem um olhar confuso e assustado e depois encararem o professor. — O que é isso? Estão com drogas na minha escola?

Joshua Harper não tinha nenhuma ocorrência em seu histórico na escola. Mesmo pelas viagens de sua mãe para os shows ou as temporadas fora de seu pai com o time, ele sempre acabava ficando na casa de Chandler, seu melhor amigo desde dez ou onze anos, quando precisava. “Tio Shiro”, como ele chamava, até apreciava o fato de que o filho não ficaria sozinho quando ele precisasse chegar mais tarde do hospital. O futuro projetado por todos na vida do moreno era que se formaria no ensino médio e teria que escolher para qual faculdade das que seria aprovado que iria ingressar, talvez cursando oceanografia ou talvez biologia.

E com certeza, drogas não era algo que as pessoas imaginavam em seu futuro.

— I-isso não é meu. — Levou um tempo para que ele conseguisse despertar do choque. — Eu sei o que tá parecendo, mas isso não é meu.

— Está parecendo, senhor Harper? — indagou o inspetor. — Tinha maconha na sua bolsa. Dentro da escola, e a quantidade é grande demais pra uso próprio. Eu posso saber o que os dois têm a dizer?

Josh olhou para Chandler e fez um sinal com a cabeça pedindo sua ajuda.

— Qual é, ajuda aí — sussurrou ao melhor amigo.

— O que você quer que eu diga? — respondeu com a sobrancelha arqueada, massageando o lado do rosto que tinha levado o soco. — Estou tão perdido quanto você. Mas, posso garantir que isso não é nosso, Inspetor.

Harold riu.

— Se eu fosse acreditar em tudo que os meus alunos dizem que não é deles ou que eles não fizeram, senhor Ootsuka, não existiria detenção. O que não é o caso. — Harold encarou Luke e Leah. — Eu disse que ia estar bem movimentada, não disse? Aliás, todos vocês. Detenção. — Ele falou para todos que estavam formando a roda. Voltou-se para os dois outra vez. — Mas o caso de vocês é bem mais sério, senhores Harper e Ootsuka. O diretor precisou sair mais cedo hoje, mas amanhã nós iremos resolvê-lo com mais calma. Até lá, vocês estão todos de detenção.

— O que? — Mônica Swift indagou, com raiva. — Mas porque, nós…

— Três dias de detenção por terem reclamado. — Zachary encarou Mônica com um olhar mortal, e Harold continuou. — Pelo que eu saiba, você deveria estar em aula, senhorita Swift, e não ensinando os novatos a matarem elas. Está aí o seu porquê.

O inspetor virou-se e foi embora, deixando o grupo de alunos o encarando frustrados e com raiva, mesmo que não pudessem ver o sorriso em seu rosto. Nada como uma boa e velha tarde de trabalho.

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Biblioteca, Heaven Hill High School, Heaven Hill
Algum tempo antes da Reclamação

— E o objetivo de vida dos pais dela é adotar oito crianças de nacionalidades diferentes ao redor do mundo e formar o Now United.

Essa fora a forma como Mônica apresentou Júpiter para Johanna Marie Webber. Ela teve que se segurar para não rir de verdade, apenas sorrindo educadamente para a nova colega de turma, que segundo a amiga, faria algumas aulas junto de si. Apesar disso, aquele não era o dia de sorte da garota de cabelos azuis, e isso ela descobriu bem antes das pessoas ao menos começarem a acordar. Johanna tinha negado dormir com a namorada, Chloe, no apartamento que a mesma dividia com Mônica na cidade apenas porque não queria incomodar a colega de apartamento dela, mesmo que a Swift tenha repetido várias vezes que, contanto que elas não fizessem muito barulho e lavassem os lençóis depois do - segundo as palavras de Mônica - couro, estava tudo bem. Ainda assim, ela preferiu voltar para a casa, o que foi uma péssima escolha.

Seu padrasto tinha viajado a trabalho, sobrando só ela e a sua não muito amável mãe. Margareth Morales Smith nunca fora a melhor mãe do mundo, se é que Johanna poderia ao menos dizer que ela tinha sido uma mãe. Quando os pesadelos vieram durante a madrugada e Joh, como costumava ser chamada, acordou aos gritos por seu pai, como sempre aconteciam, Margareth fizera questão de humilhar e maltratar a filha, o seu passatempo favorito, porque nunca aceitou Johanna como sua cria, e quando estavam sozinhas, sem a proteção do padrasto da menina, ela fazia questão de demonstrar. De qualquer forma, Joh não voltou a dormir durante a noite, não se sentia segura com sua mãe em casa. Apenas na escola, já perto das últimas aulas, ela acabou adormecendo durante a aula de química, o que tinha lhe resultado um passe direto para a detenção.

— Falou com a Chloe hoje? — Mônica indagou, chamando a garota de cabelos azuis para a realidade outra vez. — Não vi ela desde que saímos de manhã, tive que ficar ajudando os garotos aqui a conhecer a escola. — Ela apontou para Zach e Júpiter.

— É, e nos colocou em uma detenção de três dias. — Zachary respondeu com sarcasmo. — Quer o agradecimento por sedex ou eu posso contratar um motoboy?

— Mande ele usar álcool em gel. — A Swift respondeu com o mesmo sarcasmo que ele. — Mas então, viu ela?

Mesmo que ainda estivesse cansada e triste pela noite anterior, Johanna sorriu. Costumava fazer isso com frequência. Camuflar suas emoções verdadeiras com um sorriso era o que ela sempre fazia, desde que tinha chegado a Heaven Hill.

— Conversamos quando eu cheguei, mas só. Parece que estão pegando pesado com a turma do último ano por causa da formatura e as faculdades. Parece que a antiga capitã das Wolfies até vai sair do time.

— É? E quem vai ser a nova capitã?

— Heather.

Mônica fez um sinal de que iria vomitar outra vez, deixando Júpiter confusa.

— É a namorada do meu meio-irmão. — Ela inclinou-se um pouco mais na mesa da biblioteca, para que apenas os outros três ouvissem o que ela iria dizer. — Estão vendo o bonitinho ali? — Apontou para Luke. — Era namorado dela, mas ela chifrou ele com o idiota do Austin. Agora, ele chifra ela com metade da escola, mas tem doida pra tudo, né?

— Ele parece legal. — Júpiter arriscou, tentando se enturmar com os outros. Longe de seus irmãos, era um pouco difícil para ela, especialmente porque nunca tinha feito amigos. Como seus pais viajavm muito, as únicas pessoas com quem tinha contado de verdade eram seus irmãos, ninguém além de sua família. — Quem é a garota ao lado dele?

— Leah. Metade das garotas da escola não levam muita fé nas calças largas, mas eu acho o bucket um charme. Estou pensando em pedir pra Marvel patrocinar ela, será que daria certo? — Deu de ombros. — Eles sempre estão juntos um com o outro, tipo idi e ota, cherno e byl, Zack e Cody, Ric e Kai.

— Os quatro no fundo são o que Chloe chama de Quarteto Fanático. — Johanna apontou para Hendy, Klaus, Alexander e Rubinho. — Apenas por respirar aqui na escola, você já deve tá devendo um favor pro Alex. Ele tem tipo, qualquer coisa que você procurar.

— De resto, Rubinho é maconheiro e dono do Ligeirinho, Klaus é o mecânico sexy e Hendy pode te quebrar com um braço, de formas boas ou ruins. — Arqueou a sobrancelha. — Os com o casaco do time você já viu brigando pra saber qual galo cantava mais alto. Chandler e Josh, os capitães do Fenrys, mas meu irmão foi pra cantina.

Harold tinha dividido os alunos da detenção, deixando um grupo para arrumar os livros da biblioteca, e era o que eles deveriam estar fazendo.

— As madames vão ajudar ou vão só ficar tricotando? — Chandler perguntou organizando mais um livro nas prateleiras, enquanto Josh limpava as capas.

Johanna e Zachary foram os primeiros a se levantarem, seguindo para uma das prateleiras com mais poeira do que livros, deixando apenas Mônica e Júpiter na mesa.

— Bem-vinda ao clube dos velhinhos do tricô, você vai adorar. Ou não. Eu não criaria muitas esperanças. Metade nunca se falou, mesmo estudando nas mesmas turmas faz um tempo. É como eu te disse, Heaven Hill High School é uma selva. Alguns caçam juntos, outros sozinhos. Espero que você se acostume com o tempo — falou segurando as mãos da Adkins por um milésimo de segundos, limpando as suas próprias logo depois. — Agora vamos, preciso colocar ordem nesse lugar imundo. — Ela se levantou, amarrando os cabelos em um coque um pouco bagunçado no alto de sua cabeça. Júpiter não soube da onde, mas Mônica arranjou um par de luvas amarelas e vestiu em suas mãos, pronta para a faxina. — Sempre quis dar uma geral nesse lugar. Crianças, tragam o meu brilux!

Júpiter riu, seguindo a garota logo depois. Mônica foi para onde estavam Johanna e Zachary, mas a menina de origem Dinamarquesa seguiu reto, até o último corredor, vendo cada um dos jovens que Mônica e Johanna tinham acabado de apresentar a ela. Josh e Chandler, assim como Luke e Leah, estavam realmente empenhados em limpar as dezenas de livros e prateleiras, junto dos três que estavam com ela minutos antes. O quarteto fanático, como a Weber tinha chamado, não era tão empenhado assim. Alex e Rubinho pareciam passar mais tempo jogando os panos sujos um no outro do que arrumando os livros. Quando o pano passou direto e pegou no rosto de Hendrik, Rubinho precisou se esconder atrás de Niklaus para o moreno não tacar livros em sua cabeça.

A garota continuou o seu caminho, chegando à última prateleira. Júpiter sempre gostou de ler, mas a irmã leitora da família era Terra, do último ano. Ela sim iria adorar ficar em um lugar como aquele. O quarto dela, na verdade, era uma pequena versão daquele lugar, mesmo que grande parte dos livros precisasse ser guardada em caixas pelas mudanças repentinas da família. Ela suspirou. Mesmo que amasse seus irmãos, ficar se mudando a cada um ano era difícil para todos eles.

Pensativa, ela viu um livro de capa vermelha e verde com cordas marrons ao seu redor no fim da prateleira. Júpiter ergueu-se nas pontas dos pés, na tentativa de pegar o livro.

— Boo! — Alex falou logo atrás do ouvido da garota, a fazendo assustar-se e soltar um pequeno grito pelo susto.

O livro que ela já estava quase alcançando caiu quando ela se assustou, batendo contra sua cabeça antes de cair no chão.

— Aí — resmungou pela dor. — Você tá louco, garoto?

— Bem-vinda, novata. — Alexander respondeu com um sorriso no rosto. — Agora que já tirou o selo, pode participar das piadas internas. — Júpiter não tinha certeza, mas achava que a pancada com o livro na sua cabeça era o tal “selo” de que ele estava se referindo. — Eu me chamo Alexander, mas você pode me chamar do que quiser. — Piscou o olho para ela, encostando o ombro na prateleira.

Júpiter bufou, abaixando-se e pegando o livro, sem responder o veterano. Ela tentou abrir a capa dele, mas não conseguiu.

— Cê tá com fraqueza? — indagou o garoto, puxando o livro das mãos de Júpiter. Ele tentou abri-lo, e diferente de Júpiter, conseguiu. Os fios marrons se quebraram, e o livro abriu-se em uma página específica. — Fatum Sacris? — Alex perguntou, lendo o conteúdo que tinha na página. — Olha só, a novata queria ler um livro de macumba?

Júpiter o encarou, negando com a cabeça e saindo dali, indo em direção onde estava Mônica outra vez. Alex a seguiu.

— Aí, que coisa sinistra que tem aqui nesse livro. Você já conhecia ele? Faz parte de algum culto ou coisa assim?

— Escuta, qual o teu problema? — Ela virou-se para ele, revirando os olhos. — Esqueceram de me falar que você é idiota.

— E te falaram que eu sou um ótimo ator também? Saca só. — Alex não se importou com a reclamação dela.

Pelo contrário. O Tremaine correu para o centro da biblioteca, subindo em cima da cadeira e colocando um de seus pés em cima da mesa. Com o livro aberto, Alex ergueu-o na frente de seu rosto, colocando a mão livre em forma de concha por cima de sua boca.

— Aí galera, escuta só o livro de macumba que a novata tava lendo. — Alex gritou para todos na biblioteca, que tiraram sua atenção dos livros e encararam o garoto em cima da mesa. — Quando o sol perder o seu brilho e a lua não mais iluminar o caminho em uma noite escura, todo o mundo sucumbirá ao poder do Primeiro Demônio. — Alexander recitou a primeira frase na única folha do livro que tinha algo escrito. Ele não percebeu, mas enquanto falava, as letras tomavam um leve brilho, quase imperceptível, assim como a capa do livro. Os outros na sala, no entanto, conseguiram ver. Um a um, cada um dos alunos da detenção começou a se aproximar do centro. — Clamem ó União Mística, clamem pelo Todo Poderoso, o Véu dos Mundos, pela sua existência.

Mônica encarou atrás de si quando pensou ter ouvido livros caindo, mas não viu nada. Era coisa de sua cabeça, assim como os brilhos de cores diferentes que estavam rodeando os seus companheiros de detenção. Com certeza era coisa de sua cabeça. A garota sentiu um arrepio em seu corpo, os pelos de sua nuca se arrepiando. O barulho de todos os livros que eles tinham guardado caindo no chão veio de uma vez, e ela achou que fosse coisa de sua cabeça de novo, mas todos os outros olharam, assustados, com exceção de Rubinho, que tragava um cigarro de maconha.

— Alex? — Klaus chamou pelo amigo, mas ele não o respondeu. — Aí, Tremaine, para de nóia cara. O drogado aqui é o Rubinho.

O Barichello ergueu o cigarro em sua direção como se confirmasse, e o brilho de seus olhos fora tão intenso que o Devereaux precisou fechar os olhos. Alexander, no entanto, não parou. Os olhos do garoto se fecharam, mas suas palavras continuavam saindo, como se ele soubesse decorado o que tinha no livro. Mesmo de portas fechadas, uma brisa leve passou por todos os alunos presentes, fazendo alguns deles abraçarem o próprio corpo, mas Johanna se sentia acolhida. Chandler, no entanto, não sentiu frio. Ele sentia calor.

E ele os concederá o dom para que o mundo não pereça na mais profunda treva e queime no fogo do Inferno. — Alexander, Mônica, Chandler, Johanna e Rubinho falaram ao mesmo tempo, as vozes juntas como um coro, assustando os outros.

A ventania apenas aumentava. Leah encarava a cena a sua frente assustada, as vozes se repetindo diversas vezes apenas em sua cabeça. Ela deu alguns passos para trás, mas suas costas bateram em uma das prateleiras de livros. A jovem mal teve tempo de gritar quando Joshua a puxou para mais perto de si, e ela conseguiu ouvir a prateleira caindo e batendo contra as mesas.

— O que diabos tá acontecendo? — Hendrik indagou alto, mas tudo parecia rápido demais na sua cabeça.

Se alguém a perguntasse, Júpiter nunca tinha ao menos visto aquele livro. Ela só ficou curiosa e sentiu vontade de pegá-lo, mas agora, ela estava começando a se arrepender. As janelas estavam fechadas, mas ela conseguia ver diversas nuvens se formando pelo vidro. A luz característica de um relâmpago iluminou o céu, fazendo a garota fechar os olhos pelo susto, mas ela se sentiu encantada. Os olhos de Júpiter brilharam em um tom escuro de azul, mesmo que ela não pudesse ver. A garota se aproximou da janela, sem desviar os olhos das nuvens por nenhum instante.

O estilhaçar do vidro causado pelo raio a fizera gritar, e a única coisa que pôde fazer foi encolher-se e abraçar o próprio corpo para se proteger. Com as janelas abertas, a ventania apenas aumentou. O céu estava totalmente escurecido pelas nuvens negras, mesmo que não fosse tão tarde assim. Luke, Hendy e Klaus tinham os olhos fechados assim como os outros, e Josh foi o último deles que ainda parecia consciente quando Júpiter também fechou os seus, mas uma  voz doce e calma sussurrava em seus ouvidos, como o som de águas claras se movendo de forma calma e relaxada.

“Feche os olhos. Você é um dos meus agora, é um escolhido, é o que irá guiá-los. Entregue-se. Feche os olhos.”

E quando o sol tornar a raiar, os Guardiões levarão os dois mundos à vitória, e os guiarão ao seu verdadeiro destino.

Os doze adolescentes recitaram ao mesmo tempo, inconscientes. O som das vozes como um refrão mágico soou por toda Heaven Hill, fazendo o Véu dos Mundos estremecer e brilhar ainda mais forte. Em suas casas, todos os Tronos sentiram uma pontada no peito, avisando que a Rosa da Rainha havia feito os seus escolhidos, e o Fatum Sacris os tinha reclamado. Um grande raio desceu do céu, passando pela grande janela e atingindo a sala. Uma luz impediu momentaneamente que qualquer pessoa visse algo a um palmo da sua frente na biblioteca.

E quando a luz se apagou, tudo tinha voltado ao normal. Nenhum dos adolescentes estavam mais ali, e a biblioteca estava em perfeito estado, como se nada daquilo tivesse acontecido.

Mas a Rosa tinha feito a sua escolha. O Véu dos Mundos agora conhecia os seus novos Guardiões.

『❦❦❦』

Heaven Memorial, Museu Municipal, Heaven Hill

Já era quase meia noite.

O Heaven Memorial, nome dado ao museu municipal de Heaven Hill, era onde ficava guardada toda a história e os atos marcantes da cidade. O horário de visitas se restringia apenas ao período comercial, de oito horas da manhã até às dezessete horas da tarde, liberado majoritariamente para visitas estudantis no período comum, e para qualquer visitante no período de festividades em homenagem a pequena cidade no interior da Califórnia. Lá estavam guardados pinturas, documentos e objetos que diziam respeito a algum momento importante e honravam a história de Heaven Hill, cujo os cidadãos mais velhos contavam com tanto orgulho e nostalgia em seus olhares e corações.

A passos rápidos, o homem com um uniforme de vigia, as únicas pessoas permitidas a entrar no lugar naquele horário, passou pela porta de entrada e cumprimentou o vigia dali com um aceno de cabeça e um sorriso, temendo que algo saísse diferente do que deveria. Quando tudo correu bem e ele já estava dentro do museu, respirou aliviado. Pelo espelho, foi possível ver quando a imagem do homem no uniforme tremeluziu, dando lugar a uma mulher loira, de cabelos curtos na altura do pescoço e olhos azuis. Ela levou a mão até o ouvido, comunicando-se com seus parceiros.

Mil Faces para Enciclopedia — sussurrou a mulher com o dedo no comunicador. — Estou dentro.

O som de dedos digitando quase furiosamente fora ouvido do outro lado do comunicador.

Enciclopédia para Mil Faces — disse a parceira do outro lado da linha. — A troca de horários entre os vigias acontece exatamente meia noite. William Montgomery deve entrar nesse horário e trocar com o que já está lá dentro.

O alvo foi interceptado? — indagou a mulher, sem receber uma resposta. — Poison Blade, o alvo foi interceptado?

P-poison Blade. — A voz ofegante soou do outro lado da linha. Todos as outras quatro pessoas conectadas conseguiram ouvir os gemidos que ecoavam do outro lado, e os pedidos para que fosse mais forte. — Transar no banheiro do trabalho, que feio, Montgomery — falou Poison Blade, mas os outros quatro logo entenderam o recado. — Por isso fez questão de quem ninguém nos visse entrar, não foi?

Ele tem mesmo que colocar isso pra gente ouvir? — Uma quarta voz foi ouvida na linha, claramente zangada com aquela demonstração, fazendo o quinto e último deles gargalhar na linha. — Reaper desliga.

Não precisa ficar com ciúmes, parceiro — tranquilizou com um tom brincalhão no rosto. — Isso é pelo trabalho, sabe que ele só ama você.

É verdade, amor — respondeu Poison Blade outra vez.

Mil Faces para Enciclopedia…

Pare de nos chamar por esses nomes, Hope. — A quinta voz reclamou. — Não somos mais um bando de desconhecidos assaltando um banco. Você é Hope e ela é Katarina.

Me interrompa de novo, Hurricane, e eu vou ter que trocar a forma como te chamo. De Jaden para Janette. — A mulher falou com um tom ameaçador, fazendo Hurricane, ou Jaden, engolir em seco após encarar o meio de suas pernas dentro do carro. Mesmo que não estivesse lá, Hope sorriu porque sabia que era isso que ele estaria fazendo. — Kat, tudo pronto?

Sim, estou quase entrando no sistema. Só mais alguns segundos e… Pronto!

A mulher se tornou um homem outra vez. Ela cumprimentou o vigia que estava tomando conta daquela parte antes dela, que saiu assim que o novo encarregado chegou. Hope encarou o lugar cheio de obras de artesanato, pinturas e, em um lugar mais afastado, o que ela veio buscar: joias. A loira, com o corpo de um homem de cabelos castanhos, andou pelo salão até a pequena sala onde estavam guardadas as joias, caçando uma em especial. Tinha o formato de uma rosa e estava banhada em ouro. Hope a encarou fascinada. Parecia valer milhões de dólares. A mulher de cabelos loiros agarrou a caixa de vidro que a impedia de tocar diretamente na joia, respirando fundo quando não houve alarme algum. Ela sorriu, fazendo uma nota mental de que daria um abraço apertado em Katarina quando acabassem aquele trabalho. Era mesmo uma enciclopédia ambulante que parecia saber sobre tudo.

Ai não. — A voz da ruiva soou do outro lado da linha, fazendo Hope revirar os olhos. Tinha comemorado cedo demais. — Não, não, não, não…

— Kat, o que foi? — Hope ouviu a voz de Jaden do outro lado da linha. — Quê que houve garota?

Tem outra pessoa no sistema. — Kat respondeu, sentindo uma queimação na ligação entre sua perna humana e a prótese. — É um vírus diferente, eles… — Hope esperou que a garota falasse algo, aflita. — Hope, precisa sair daí. Agora.

A loira guardou a joia no bolso, colocando a caixa de vidro em seu lugar outra vez. Mas quando virou-se para ir embora, um grupo de quase quinze homens vestidos totalmente de preto a cercavam.

— Acho que o que você tem aí me pertence, Mil Faces. — O homem a chamou pelo codinome, e Hope arqueou a sobrancelha. Aparentemente, estavam ficando conhecidos na região. — E você vai me dar.

— Nunca deixei homem nenhum mandar em mim — respondeu com o queixo erguido. — Você quer? Vai ter que vir pegar.

O homem sorriu e fez um aceno para que seus capangas atacassem-na, mas o primeiro que se moveu não teve tempo de ao menos chegar perto antes de um tiro atingir o seu peito. Quando o outro tentou, uma bala atravessou sua cabeça. O silenciador os impedia de enxergar de onde vieram os tiros, mas Hope sabia exatamente de onde. Ela sorriu, agradecendo mentalmente a Blake, ou The Reaper, como era chamado.

Enraivecido, o homem a encarou.

— Não deixem ela sair daqui com aquilo. — Gritou para seus capangas, e todos atacaram de uma só vez.

Blake desgrudou-se da parede e desfez sua camuflagem, com um revólver em cada mão. Tinha seguido a líder desde que ela entrou, camuflando-se pelas paredes e pelos objetos do lugar. Era algo que tinha aperfeiçoado com a própria Hope, mas que ele já fazia desde sempre. Passar despercebido, estar em um lugar sem que ninguém ao menos sinta a sua presença. Quando as balas de uma de suas armas acabaram, Blake a guardou no coldre, agarrando outra guardada atrás de sua calça, sem parar um minuto de atirar ou mesmo sem errar nenhum dos tiros. As balas eram rápidas e certeiras, nenhuma delas errando o seu alvo. Cabeça, ombros, pernas, peito. Onde Blake Delaney mirasse, as suas balas chegavam. Não era atoa que o chamavam de The Reaper. Porque como o ceifador atrás de sua vítima, um corte sempre era certeiro, cortando a cabeça e levando-a à morte.

Assim como as balas de Blake, que sempre chegavam ao seu alvo em um único tiro.

— Errou — cantarolou um dos homens, encarando o tiro passar de raspão contra o seu rosto.

Blake sorriu. O corpo dele caiu no chão logo depois, com a bala cravada atrás de sua cabeça. O moreno andou até ele, chutando a sua cabeça.

— Não errei, não.

Hope não lutava com armas, mas sabia usar seu corpo como uma. A mulher desviou de um chute vindo de um dos agentes, cercada por três deles, segurando a perna e usando a força e impacto dele próprio para girar o corpo do homem ao redor do seu, empurrando-o contra as caixas de vidro que guardavam outras joias. Outro deles veio em sua retaguarda, e ela precisou pensar rápido quando ele acertou um chute em sua canela, fazendo-a cair de joelhos. O homem era quase dois de seu tamanho e bem mais forte, ela precisou admitir. A Mil Faces, codinome que tinha adotado por conseguir assumir a aparência de qualquer pessoa que quisesse, desviou do próximo golpe passando por baixo das pernas do homem.

Atrás dele, Hope pulou em suas costas, segurando-se em sua cabeça, mas precisamente com os dedos em seus olhos, e rodeou as pernas em sua cintura.

— Vadia! — Gritou o homem com raiva, sentindo seus olhos queimarem.

Ele cambaleou para frente, próximo a parede, e Hope aproveitou, mudando as posições de suas mãos. Ela agarrou o homem pelos cabelos, enforcando-o com outra mão, e usando toda a força que tinha para bater a cabeça dele contra a parede. Uma, duas, três vezes e muitas outras, ela parou de contar minutos antes de pular de suas costas outra vez e do homem desmaiar à sua frente, com o rosto completamente sujo de sangue.

Respirando fundo, ela tentou alcançar Blake para que saíssem logo dali, mas fora cercada outra vez.

— Você não vai sa… — Ele não conseguiu terminar. Seu corpo simplesmente caiu no chão, e ela pôde ver uma adaga cravada em sua cabeça.

Ela conhecia aquelas adagas e sabia que suas lâminas eram envenenadas. Poison Blade. A loira encarou a porta da sala, vendo Kenny, ainda com o cinto aberto, disparando diversas facas e adagas contra os capangas do homem, que já não estava mais lá, derrubando um por um. Hope ainda não conseguia entender como ele guardava tantas facas como aquelas na roupa - e ainda conseguia transar assim -, mas vindo de Kenny, ela preferia não perguntar.

— Chamou a cavalaria, gata? — O Poison Blade indagou, desviando o olhar para o moreno e piscando o olho para ele, mandando um beijo no ar. — Senti saudades, amor.

Blake não o respondeu, apenas virou-se e foi embora.

— Ei, o que nós já falamos sobre ciúmes? — Kenny correu atrás do moreno, fechando o zíper de sua calça e o cinto.

Hope riu, seguindo os dois para fora do lugar. O vigia da entrada tinha sido apagado, e a van estava estacionada logo na porta do lugar, com as portas abertas. Os três entraram no carro, vendo Hurricane e Enciclopédia no banco da frente.

— E aí, funcionou? — perguntou o loiro.

— Claro que sim — respondeu ela, sorrindo para os dois mais novos.

— Eita porra! — Kenny gritou quando um tiro pegou na parte traseira do carro, interrompendo as conversas do grupo. — Dirige isso e tira a gente daqui, Jaden.

— Já vai, já vai.

Os tiros aumentaram, diversos deles vindo de várias direções. Jaden ligou o carro, acelerando o máximo que conseguia. Hurricane, um furacão nas pistas - e se lhe perguntassem, ele responderia: e também na cama. Pelo retrovisor, ele conseguiu ver dois carros diferentes os perseguindo. Em alta velocidade, o garoto de cabelos loiros pisou no acelerador, movendo o carro de um lado para o outro, o que fazia os passageiros se remexerem como frutas em um liquidificador. O carro pendeu para a direita quando Jaden entrou na contramão, desviando dos outros que vinham na direção oposta a sua. Pela queda, Kenny bateu as costas na porta, e Blake, que não conseguiu segurar-se, caiu em cima do Poison Blade.

— Jaden, eu te amo cara! Valeu, meu herói! — Kenny agradeceu, segurando o outro pela cintura para que os dois não caíssem do assento.

— Me solta seu neandertal — reclamou Blake. — Ou eu vou acertar um tiro no meio da tua testa, sua besta quadrada!

— Oras, nós dois sabemos que você não vive sem mim, amor.

O carro pendeu para a esquerda, fazendo-os ouvir o som do pneu se arrastando na pista.

— Segurem aí atrás. — Ele gritou para os outros, com os olhos na pista e no retrovisor, vendo os carros que os perseguia, tentando atirar contra eles. — Você pode segurar em mim, gata.

— Cala a boca e dirige, Jaden.

— A GENTE VAI MORRER! — Kenny gritou quando seu corpo bateu contra a parte direita outra vez.

Jaden fez uma manobra arriscada, entrando no meio de dois carros na contramão, mas por pouco, conseguiu sair daquela rua, entrando em um beco e acreditando que tinha despistado os capangas desconhecidos.

— Isso! — Comemorou. — Conseguimos.

— A gente vai viver. — Poison Blade respirou aliviado.

Hope quase sorriu, mas sabia por experiência própria que comemorar cedo demais dava errado. Ela abaixou-se quando mais um tiro acertou a van, quebrando o vidro de trás e atravessando o interior do veículo.

— Não conseguimos, não! — Hope negou. — Acelera!

— É um beco sem saída. — Jaden percebeu isso apenas tarde demais.

— Não importa, acelera. — Katarina falou para ele, encarando o muro à sua frente.

— Tem certeza?

— Jaden, vai!

O loiro colocou o pé no acelerador quando ela gritou, levando todos eles de encontro com o muro.

— A GENTE VAI MORRER! — Poison Blade gritou outra vez.

— AINDA BEM! — Blake gritou de volta, e os parceiros de gangue sabiam que ele realmente estava feliz por isso.

E todos eles acreditavam. Mas em uma questão de milésimos de segundos, Katarina fechou os olhos e respirou fundo, teclando furiosamente em seu computador repousando em suas pernas, que era diretamente ligado à van. Quando o impacto com um muro não veio, todos eles abriram os olhos confusos, mas logo suspiraram de alívio por ainda estarem vivos, e do outro lado do muro. Katarina Sandiego, a Enciclopédia, tinha um sorriso um pouco convencido no rosto. Era bom de vez em quando.

— Poxa — resmungou Blake. — Tava quase lá.

Todos os integrantes da gangue gargalharam enquanto o carro corria, agora em uma velocidade bem mais baixo, de volta para o lugar onde estavam se escondendo.

Porque não importa o quão difícil ele seja, os Wods nunca perdem um trabalho.

Petra: The Guardians.


Notas Finais


Nos próximos capítulos:

02 - Vamos passear no bosque (Ps.: rezem pra não acontecer como Hell’s Church).

Os adolescentes presos na detenção acordam no dia seguinte, achando que tudo aquilo não passou de um pesadelo muito esquisito, mas todos eles tinham sido atormentados pelo mesmo. As buscas pelos herdeiros dos Oitavo e Quarto Trono continuam, agora como um dever da Guarda Gênese, mas Peter se sente culpado pelo sequestro dos melhores amigos. Uma gangue desajustada investiga o seu último trabalho, enquanto os novos guardiões precisam lidar com as coisas estranhas que estão sentindo. E um pedido de socorro prova quem realmente merece os dons do Véu dos Mundos.

03 - Todos a favor da morte digam sim (Ps.: rezar não deu certo, por favor, tentar outra coisa).

『❦❦❦』

Docs importantes:
Os Guardiões: https://docs.google.com/document/d/17mdFUu9SGkXeIUyd1aK5Hhpxx-Y2Kk3D7F7CEBsCbGs/edit
Complementares: https://docs.google.com/document/d/1mv8uVyz2kVvEa1WCj1XuhR9pYUEdZJ7RfDECaOIxsok/edit
Tronos: https://docs.google.com/document/d/1yClY7dTXfiiVPmGOwQERl0mHG1hoppYVZQhX6Ppav24/edit


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