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História Petra: The Guardians - Capítulo 3


Escrita por: gossipqueen-

Notas do Autor


E aqui estamos nós com mais um capítulo crianças, espero que gostem de conhecer um pouco mais sobre alguns dos nossos guardiões e rever uns personagens que deram as caras no prólogo. Enfim, curtam o capítulo e me digam o que estão achando sobre.

Capítulo 3 - Capítulo 2


”Vamos passear no bosque (Ps.: rezem pra não acontecer como em Hell's Church).”

II

Residência Harper, Heaven Hill, Califórnia

Joshua Harper piscou os olhos por diversas vezes em uma tentativa quase frustrante de se acostumar com a luz. Sua cabeça doía como se a banda da escola estivesse fazendo uma de suas demonstrações exageradas ali dentro, e ele não conseguia nem sequer focar a sua atenção em um só lugar sem sentir as pontadas em sua mente. Josh tentou puxar o ar, mas tudo que conseguiu foi sentir sua garganta queimando e uma ânsia de vômito momentânea que quase o fizera colocar para fora todo o almoço da cantina, que se parasse para pensar nem era uma tarefa tão difícil, mas ele não conseguia pensar em nada com as dores de cabeça que estavam o atormentando.

Mesmo com as dores, o Harper tentou levantar-se. Uma ideia idiota. Seu corpo inteiro despencou de volta no chão, quase comendo grama, sem forças para se erguer, e a dor em seu peito apenas aumentou com a queda. Usando toda a força que ainda lhe restava, Josh virou-se de frente, sentindo cada costela reclamar da dor. Um clarão o impediu de enxergar outra vez, mas aos poucos ele conseguiu se acostumar com a luz em seu rosto e enfim saber onde estava. Se Josh fosse sincero, tinha sido um pouco decepcionante, na verdade. Toda aquela dificuldade para estar no campo de futebol do Heaven Hill High School? Não que ele tenha gostado de sentir cada osso do seu corpo reclamando de dor, longe disso, mas o campo da escola não era o lugar que ele imaginava quando se perguntou onde estava quando acordou.

Mas Josh conhecia o lugar perfeitamente, com a palma de sua mão, para saber que haviam coisas diferentes no lugar. Para começar, ele tinha quase certeza absoluta de que não havia um caminho de pedras na última vez que esteve no campo, nem pedras grandes demais para estarem em um lugar como aquele e muito menos um trono. Era ornamentado de pedras preciosas que refletiam a luz do sol incandescente, feito do que parecia ser ouro maciço e com camurça vermelha no assento. No trono rodeado por rochas, uma mulher de longos cabelos loiros assistia ao sol como se estivesse esperando um grande evento acontecer. Joshua não soube quando aconteceu, mas em algum momento, seus pés meio que se moveram sozinhos, e ele estava de frente a mulher.

A princípio, ela não lhe encarou e não lhe demonstrou resposta alguma, apenas continuou encarando o sol como se fosse a coisa mais importante do mundo. O Harper se aproximou, checando se a mulher estava realmente acordada, mesmo que seus olhos azuis estivessem abertos.

— Estou bem acordada, Joshua Harper. Acredito que, dentre nós, eu sou a mais desperta no momento, mesmo onde estou. — A voz da mulher tinha um tom doce e aveludado que Josh não lembrava de ter ouvido em nenhum outro lugar na sua vida. Ela enfim se mexeu, virando o rosto em sua direção e encarando-o. — Sabe, nunca estive aqui, em Heaven Hill. É um lugar bonito, ao menos por enquanto.

Joshua precisou fechar os olhos com um pouco de força e abri-los de novo para se certificar de que aquilo, seja lá o que fosse, era algo real, mas ela continuou ali. A mulher abriu um sorriso leve, mas as feições de seu rosto pareciam quase assustadas, como se algo grave estivesse prestes a acontecer. Mas, apesar de não conhecê-la, ou ao menos não lembrar disso, Josh conseguiu reconhecer a voz da mulher. Era a mesma voz que tinha falado consigo na biblioteca. “Feche os olhos. Você é um dos meus agora, é um escolhido, é o que irá guiá-los. Entregue-se. Feche os olhos.”

— Era você? — Ele indagou com a testa franzida, chegando mais perto do trono. — Na minha cabeça, na biblioteca. Era você?

— Eu os escolhi, Joshua Harper. Você e todos os outros, foram minha escolha. Espero não estar errada em relação a isso.

— Escolheu?

— Sim. Na verdade… Sei que pode parecer confuso para vocês, sempre é no começo. Muitos vieram antes de você, todos sempre tem a mesma reação de negação, desconfiança. Parece que depois do Véu, os jovens ficaram menos responsáveis, menos… Guerreiros. — Enquanto falava, a mulher loira parecia um pouco decepcionada. Em sua cabeça, uma coroa dourada com detalhes feitos em cristais reluzia assim como o seu trono, mas suas expressões pareciam cansadas, como se estivesse lutando a muito tempo, e seu corpo já estivesse cedendo à fadiga. Ela suspirou, encarando o garoto. — De qualquer forma, eu os escolhi. Vocês são a minha esperança, Joshua Harper.

— Mas... Quem é você?

— Um dia já me chamaram de Rainha. Hoje, eu sou apenas um espírito cansado que deseja manter as duas realidades a salvo, e que conta com a sua ajuda para isso. Mas você pode me chamar de Esperanza. A rosa da Rainha fora minha criação, e os guardiões são os meus guerreiros.

Se o intuito de Esperanza, como a mulher a sua frente tinha se apresentado, era explicar alguma coisa a Josh, ela estava falhando miseravelmente. Tudo que ela falava só o deixava mais confuso e perdido, mas ele lembrava de tudo que tinha acontecido na biblioteca naquela noite. Os raios e ventania, as janelas quebrando, o livro que Alex e Júpiter - a aluna nova - tinham achado e o momento nem um pouco esquisito que eles tinham vivenciado. Isso sem falar que ele já estava ferrado o suficiente por terem achado drogas em sua bolsa, o que ele ainda estava tentando entender como diabos isso tinha acontecido.

— Espera, deixa eu ver se eu entendi. — Josh pediu a mulher, tentando organizar todas as informações em sua cabeça, mas não deu muito certo. — Tá, eu não entendi.

Esperanza deixou um sorriso escapar por seu rosto.

— Típico. Com algumas poucas exceções, bem poucas mesmo, por algum motivo, todos vocês guardiões da água são um pouco assim. — Ela apontou para frente e o Harper percebeu que ela estava apontando para ele todo. — Mas basta saber que tudo que você conhece não passa de uma mentira. Farsa. Apenas uma forma de nublar os seus pensamentos e manter o mundo mágico e o mundo humano separados. Fora a única forma de manter tudo seguro na época, embora hoje eu tenha minhas dúvidas se tenha sido a melhor escolha. — Esperanza enfim se levantou do trono onde estava sentada. — E ele está vindo, está cada vez mais perto, eu… Nunca senti ele tão forte. Tem algo diferente dessa vez.

— Diferente de um jeito bom? — Josh indagou com a sobrancelha arqueada e um falso sorriso no rosto, com esperanças de que ela concordasse e lhe dissesse que sim, diferente de um jeito bom. Embora, ele não estivesse nenhum pouco confiante com isso.

— Da pior forma possível. Isso não é como um de seus jogos de Lacrosse, criança. Isso é sobrevivência. — A expressão de Esperanza se tornou mais dura. — Você precisa estar preparado. Todos vocês, os Guardiões. Precisam estar preparados e em perfeita harmonia para derrotá-lo. Ligados por amizade, sangue, amor, confiança e irmandade. Seja o que for, Joshua Harper, precisam se manter juntos e se fortificarem assim. E você precisa guiá-los. Ou ele vai conseguir o que vem tentando a tanto tempo.

— E o que… O que ele vai conseguir? O que acontece quando ele chegar? Quem é ele?

Esperanza sorriu. Seus lábios se alargaram em um sorriso que deveria aparentar doçura, mas eles não pararam, e seu sorriso doce logo se tornou um sorriso doentio. Os olhos da mulher se tornaram totalmente negros, veias escuras nasceram em todo o seu rosto, tomando os seus olhos, e de repente, eles começaram a desaparecer, deixando apenas uma imensindão enegrecida no lugar onde deveriam estar as orbes azuis, sua pele antes branca e límpida agora tinha um tom cinzento e sujo, seus cabelos loiros agora tinham os fios quebrados e assanhados, um cheiro pútrido que quase fizera Joshua vomitar saía da boca da mulher, que colocou as mãos, agora esqueléticas, sob os ombros do moreno.

— Ele é a destruição, Joshua Harper. E tudo que sobrará quando ele for embora vai ser você, a culpa, a dor e a morte.

A mulher começou a puxar o ar, e Joshua instantaneamente começou a sentir uma dor que nascia na boca de seu estômago e aumentava, em todo o seu corpo, uma dor dilacerante que estava o deixando sem ar. Se antes, quando acordara, ele sentia todo o seu corpo doer, nada se comparava com o que estava acontecendo agora. Era como se Esperanza estivesse sugando a sua alma. Ele levou as mãos até as da loira em seus ombros, mas não conseguiu afastá-la. Em um ato rápido, Joshua encarou o vazio dentro dos olhos de Esperanza, e fora como se toda a sua vida fosse perdida diante de seus olhos. Diversas imagens invadiram a sua mente, e em cada uma delas, Joshua ficava mais aterrorizado.

Toda Heaven Hill estava destruída. Os prédios tinham se tornado escombros, entulhos e poeira. A grama verde e as plantas tinham morrido, as águas do lago estavam poluídas, o campo de lacrosse, onde ele estava agora, não passava dos restos do que tinha sido um dia e, espalhados por todo lugar, corpos mortos e ensanguentados, jogados como se fossem nada mais que lixo. Ele sentiu a força em suas pernas se esvair, um grito de dor deixara sua garganta, uma dor insuportável em seu coração e em sua cabeça, até que Joshua não sentiu mais as mãos da mulher em seus ombros, caindo de joelhos no chão pela falta de equilíbrio. Ele respirou fundo, encarando as próprias mãos, sentindo todo o seu corpo coberto por um líquido quente e viscoso. Sangue.

Suas mãos começaram a tremer, e então, Joshua estava no meio dos escombros e dos corpos.

— J-Josh… — Uma voz familiar chamou o seu nome, e ele quase suspirou aliviado ao reconhecer o tom de seu melhor amigo, Chandler. — Jos…

Antes que ele completasse, o Harper sentiu um peso extra em seu ombros, mas não era mais Esperanza, e sim Chandler. Ele quase sorriu, até perceber o sangue que cobria o corpo do Ootsuka. Josh o encarou assustado, vendo o buraco no peito onde deveria estar o coração do outro.

— C-Chan… Chandler? — Ele chamou pelo Ootsuka, vendo que ele já não o respondia mais e o peso do corpo dele estava totalmente sobre o seu. — Chandler, acorda, Chandler.

Joshua balançou o corpo do outro, chamando quase desesperado pelo melhor amigo, que não o respondeu. O corpo de Chandler caiu no chão, em um baque que ecoou na cabeça do moreno pelos próximos minutos, assim como os gritos, choros e lamentos do que parecia ser toda Heaven Hill sofrendo pelos seus entes queridos. Ele levou as mãos até a cabeça, tentando abafar todo aquele barulho quando o corpo de Chandler começou a queimar, fazendo-o cair para trás e se arrastar para não se machucar. O barulho apenas aumentou, todos os gritos e choros de uma só vez, no último volume dentro de sua cabeça.

Joshua.

Seu corpo começou a suar, mas o que Josh achava ser suor escorrendo por sua testa era na verdade mais sangue. Todo o seu corpo tremia, e com as mãos na cabeça, Josh se pôs em posição fetal sem desviar os olhos por nenhum segundo do corpo de seu melhor amigo de infância queimando.

Joshua.

Josh sentiu a sua garganta seca, e quando tentou se mover, ele não sentia mais as suas pernas. Tentou usar toda a força em seu corpo, a pouca que lhe tinha restado, mas não conseguia se mexer, não importava o quanto tentasse.

JOSHUA!

Josh levantou-se ofegante. O suor escorria por seu peito desnudo, de olhos arregalados e a respiração descompassada por causa do sonho. Sua cabeça ainda doía, mas em um nível bem menor do que acontecia em seu pesadelo. As lembranças de tudo ainda estavam em sua cabeça e o Harper não lembrava de ter se sentido tão desesperado em nenhuma outra vez em seus curtos dezessete anos de vida. Ele puxou o lençol para cobrir o seu corpo outra vez, sentindo todo o seu corpo tremer. Ao lado de sua cama, Walter Harper o encarava com a sobrancelha arqueada e um sorriso nada discreto no rosto, mesmo que não devesse.

— Finalmente, estava quase cogitando chamar o Doutor Ootsuka com medo de que você tinha morrido ou sei lá. — A voz grave do homem chamou a atenção de Joshua outra vez, o fazendo respirar quase aliviado, com a certeza de que tudo não passava de um pesadelo. Ninguém tinha morrido, Chandler não tinha pegado fogo e Heaven Hill não tinha sido reduzida a escombros. — Sua mãe está em turnê, então sobrou pra mim resolver o seu problema na escola, garoto. Drogas, Joshua? — Josh deveria se defender, mas sua mente ainda estava perdida demais para que ele fizesse isso. — Nós precisamos falar sobre isso, você vai me contar tudo no café. Agora, vou te deixar resolver o seu outro problema. Puxou ao pai em, garanhão, as garotas devem cair em cima. — Walter bagunçou os cabelos do filho, com um sorriso malicioso que Josh não entendeu, e deixou o quarto batendo a porta em seguida.

Com a testa franzida, Josh estava se perguntando o que o pai estava querendo dizer até que se remexeu na cama outra vez, sentindo um certo desconforto no meio de suas pernas. Ele levantou o lençol, encarando a ereção matinal mal escondida pela calça de moletom. O moreno deixou seu corpo afundar em cima da cama outra vez, sentindo o rosto ficar avermelhado pela vergonha.

Não havia a mínima chance daquele dia piorar.

『❦❦❦』

Residência Templeton, Heaven Hill, Califórnia

Leah acordou naquele dia com uma dor de cabeça que ela nem sabia ser possível sentir.

Cada mínimo som ou ruído ecoava como a banda da escola em sua cabeça, e ela mal conseguia manter os olhos abertos por mais de cinco minutos. Tinha pensado em não ir para aula naquele dia, mas se faltasse, Harold iria ficar no seu pé mais do que já acontecia pelo resto da semana, e ela não estava nem um pouco animada em ter aquele homem asqueroso a perseguindo de novo. Mesmo que estivesse em detenção, ao menos Harold atribui a função de acompanhar os alunos a outro professor, já que não ficaria na escola após o horário nem que o pagassem. Idiota.

Mesmo a contragosto, ela tinha se levantado, feito sua higiene matinal e se preparado para ir à escola, com as roupas largas - mas confortáveis - da marvel e o bucket de melânica cobrindo parte de seus cabelos. Se encarando no espelho, Leah sabia que ouviria mais uma provocação de Heather e das outras meninas do time de torcida, ou mesmo dos jogadores, mas era como ela se sentia bem, mesmo que o Homem-Aranha junto aos outros Vingadores em sua camisa a tivesse deixando meio enjoada. A garota trocou por uma onde havia apenas a equipe do primeiro filme da Marvel, ou seja, sem o senhor “eu-sou-besta-e-inútil”. Leah respeitava quem gostava do Homem-Aranha. Era uma opinião, afinal. Uma opinião burra, mas uma opinião. Ela, no entanto, detestava.

A garota agarrou a mochila vermelha com o símbolo do Homem de Ferro e a colocou nas costas, deixando o próprio quarto já pronta para sair. No corredor, Leah se deparou com o quarto de sua mãe, a porta entreaberta e o cheiro de vodka que poderia ser sentido a quilômetros de distância, mesmo que ela não quisesse. Ela adentrou o quarto, percebendo a matriarca já antes das sete da manhã quase embriagada. Antes que ela percebesse a sua presença, Leah deu a volta para sair, mas algo chamou a sua atenção.

“Porque você me abandonou. Timmy?”

A pergunta fizera a garota paralisar no caminho. Leah voltou a encarar sua mãe, e a pergunta se repetira, mas ela não viu os lábios da mãe se moverem em nenhum minuto.

“Olha no que eu me tornei, amor. Olha o que restou de mim quando você me deixou sozinha.”

Leah quase quisera responder. Quase dissera que ela estava ali também, que ela era quem estava realmente sozinha porque além de ter perdido o mais próximo do que já teve de um pai, também perdera sua mãe. Mas dentro do quarto, Liza Templeton não tinha movido os lábios ou emitido nenhum som durante o tempo que a garota a encarou. Ela balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos, mas a pontada voltou outra vez, fazendo-a fechar os olhos. Leah respirou fundo, e quando a dor aliviou apenas um pouco,  ela desceu as escadas e fechou a porta de casa. Como o esperado, na entrada, Luke já a aguardava.

A garota abraçou o loiro, sorrindo para o melhor amigo.

— Bom dia, Luke.

— Bom dia. Como está?

— Bem, apenas com uma dor de cabeça, e você?

— Deve ser por ter ficado assistindo WandaVision a madrugada inteira, L. Mas eu estou bem. Como chegou em casa ontem? — falou o garoto, mas uma vez na cabeça de Leah completou: — Ou ao menos é o que eu quero acreditar. — Apesar disso, Luke continuava com o sorriso de sempre no rosto.

— Eu… Como eu cheguei em casa ontem…? — Leah pensou consigo mesma, não lembrando de ter saído da biblioteca. — Eu… vim andando mesmo. Mas e você, aconteceu alguma coisa?

— Não, tudo bem. De verdade. — Ele completou em sua cabeça outra vez: — Ou não.

Leah estranhou, mas deveria ser apenas coisa de sua cabeça outra vez.

— Mas eu estava assistindo o episódio da música! — Leah falou, como se aquilo justificasse ela ter passado a madrugada acordada. — Who's been messing up everything?

Leah cantou, e esperou que Luke completasse a música que ela tinha o obrigado a ouvir cento e setenta e cinco vezes. Tá, talvez o loiro estivesse exagerando, mas era quase isso. Quase. A Templeton fizera uma expressão pidona que sabia que Luke não conseguiria negar, rindo quando ele se deu por vencido e, enfim, continuou:

It's been Agatha all along!

Leah aplaudiu o amigo, mas algo chamara sua atenção. Ela se aproximou de uma das flores que sua mãe insistia em ter em casa, mas não cuidava.

— Ué, essa planta tava morta. — A garota apontou com a testa franzida. — Eu tinha pedido pra minha mãe tirar, mas acho que ela acabou esquecendo de novo. Ela esquece tudo. — A garota suspirou, sabendo que o melhor amigo entenderia sobre o que estava falando e saberia que ela não queria falar sobre aquilo agora. — Mas agora ela está… viva?

Além de viva, parecia ser a mais forte e bonita de todas os outros jarros de plantas posicionados na porta da casa, o que fez Leah estranhar.

— Tem certeza? — Indagou o loiro. — De repente você só tenha confundido as plantas.

— É… — Leah concordou, mas tinha quase certeza de que não. — Talvez tenha sido só isso mesmo.

— Vamos? — Luke indagou, sabendo que já estava na hora dos dois irem para a escola, e se demorassem, iriam se atrasar de novo. E não era bom para dois alunos que já estavam na detenção.

Leah concordou, seguindo o melhor amigo até a escola. Nenhum dos dois percebeu, mas por onde Luke passava, pequenos botões de flores se abriam como na chegada da primavera, florescendo e criando um caminho de belas e pequenas flores.

Já na escola, os dois se dirigiram para o campo de lacrosse, onde a grande maioria dos alunos também estava. No centro, ela viu quando Austin West Harkness beijou - quase engoliu - a namorada vaca dele, Heather Jones, que também tinha sido namorada de Luke até um tempo atrás, até trair ele com Austin. A garota sorriu como uma prostituta, na opinião de Leah, e seguiu para o centro do campo, onde o time de líderes de torcida da escola treinava uma nova coreografia. Ela percebeu como Luke pareceu chateado com a cena, encarando o chão. Não era segredo para escola que ele era o antigo namorado dela e que eles tinham terminado após a traição da garota, e também o “motivo” dessa traição.

“O corno chegou.” Ela ouviu um tom de voz semelhante ao de Austin falando e, quando encarou o garoto no meio do campo, Leah percebeu que ele os encarava com um sorriso presunçoso no rosto. A Templeton revirou os olhos, mas outro pensamento chamou sua atenção.

“Tadinho.” Leah procurou a dona do tom de voz até encontrar Mônica Swift, sentada ao lado de Júpiter, Johanna e Zachary. Algo soou em sua cabeça outra vez, mas agora, era a voz de Johanna. “Queria que ventasse bem forte pra derrubar ela dali de cima.”

Leah encarou Heather outra vez, no topo de uma pirâmide de dois andares de líderes.

“Ele podia tropeçar em algo e tacar esse rosto sem defeitos na grama e comer areia, idiota.” A voz de Zach também soou, mas uma ventania um pouco mais forte chamou a atenção da garota, fazendo o seu bucket voar.

Quando Leah encarou Heather, a garota loira se desequilibrou, caindo de cima da pirâmide. A Templeton levou a mão à boca, tinha sido exatamente como Johanna havia dito. Austin correu para chegar até a namorada, mas acabou tropeçando em algo de um tom magenta e tacando o rosto na grama. O que diabos estava acontecendo?

O sinal quase a fizera pular sozinha, assustando-a.

— Está na hora da aula, vamos. — Luke a chamou, apanhando o bucket da melhor amiga e a devolvendo. — Leah? Está esquisita, tudo bem?

— An… Claro. Sim, claro que está bem. Tá tudo bem, problema nenhum.

Ela sorriu para Luke, um sorriso claramente forçado. Sim, estava tão bem quanto Wanda criando uma realidade alternativa onde seu namorado robô estava vivo. Bem demais.

A garota encarou o campo outra vez, balançando a cabeça negativamente como fizera de manhã no quarto de sua mãe, sentindo a pontada em sua cabeça de novo. Ela respirou fundo, mesmo com a dor, tentando seguir o seu dia normalmente como sempre era. Embora nada normal parecia ter acontecido até ali.

O que ela não sabia era que a vida normal havia ficado para trás no dia da detenção. E o destino do mundo estava em suas mãos agora.

『❦❦❦』

Residência Blackwell, Floresta Amaldiçoada, Heaven Hill

Peter Bates Blackwell não costumava se sentir culpado por quase nada em sua vida.

Ele sempre era taxado como o garoto problema, o filho irresponsável, o rebelde sem causa ou mesmo como o desgosto da família, e nunca se importou com isso - ou ao menos, nunca demonstrou se importar. A verdade de fato era que, sim, Peter se importava, mais do que gostava de admitir, mas para quem olhasse de fora, encontraria nada além de um sorriso sarcástico, uma resposta irônica e um olhar cheio de escárnio, enquanto Peter aprontava outra vez, ou pensava no que iria aprontar. Dizer que Peter era alguém um pouco difícil conseguia ser quase um eufemismo, no fim das contas, porque o mais novo dos irmãos Blackwell parecia gostar de ser chamado assim e se identificar com a alcunha de garoto problema, como era conhecido por toda a comunidade mágica ao redor do mundo, já que era filho do Primeiro Trono, o mais respeitado deles, Lorcan Blackwell.

Era por esse motivo, talvez, que Manon e Damon estivessem tão preocupados com o loiro, que não saia do quarto desde que o irmão mais velho o tinha resgatado dos wendigos duas noites antes. Em momentos como aqueles, a matriarca da família sempre recorreria a Abbadon e Topázio, e era isso que deixava a situação pior, porque os dois melhores amigos do filho - embora ela achasse que era mais do que isso - eram o motivo para estarem naquela situação toda.

Tudo tinha começado no baile de apresentação de mais um pequeno grupo de Bruxos abandonados sob a tutela de Nathaniel Buzolic, o oitavo trono, tinha chegado à maioridade e estava na hora de escolherem o seu próprio futuro. A cada semestre, Nathan realizava uma festa para o grupo de bruxos que tinham completado vinte e um anos no intervalo de um evento ao outro, para “apresentá-los” a comunidade mágica, e era onde decidiam se preferiam sair mundo a fora e viver entre os humanos disfarçado pelo véu, continuar no mundo mágico apenas ou entrar para o exército ou algum cargo e profissão na União Mística. Na verdade, todos sabiam que não passava de mais uma  desculpa para que o Oitavo Trono desse uma festa. Mais uma festa. Mas, como tal, os outros tronos eram convidados, e embora Morgan Zharkov nunca aparecesse, Lorcan, o primeiro trono, sempre marcava presença com sua família, afinal, a amizade de Peter com Topázio e Abbadon tinha, apesar de tudo, aproximado os Primeiro, Quarto e Oitavo Trono.

Mas como já era de se esperar, Lorcan e Peter tinham discutido de novo. O Alfa dos Alfas já estava estressado pela decisão do Primeiro Filho de ir contra o tratado de paz, e as palavras ácidas do mais novo tinham piorado a situação, terminando em uma discussão feia demais para que saísse algo bom. Os três amigos deixaram a festa, com um deles transtornado demais e, no meio da noite, foram atacados por um grupo de Wendigos.

— Peter? — Damon chamou pelo irmão mais novo, em um tom alto o suficiente para que ele ouvisse do outro lado da porta, mas Peter não o respondeu. — Vamos lá, Pete. Precisa comer alguma coisa, está trancado aí dentro já fazem dois dias.

Não houve resposta. Manon suspirou, assentindo positivamente para que Damon anunciasse os outros dois homens que estavam em sua companhia.

— Peter, a Guarda Gênese está aqui. Eles querem falar com você sobre aquela noite.

A mulher com os cabelos loiros no mesmo tom de Peter aproximou-se da porta, colando o ouvido a ela na esperança de ouvir algo.

— Vamos, querido. É importante que eles saibam sobre todos os detalhes daquela noite para encontrarem Topázio e Abbadon.

A Guarda Gênese era a versão mágica da Polícia. Um grupo de guerreiros de todas as espécies liderados por Killian Warren, que atendia diretamente aos Dez Tronos do Conselho Mágico, seguindo o Tratado Gênese.

Rupert Leprechaun era um dos agentes da guarda, um elfo, e seu olfato aguçado era sempre muito bem utilizado em suas missões e tarefas. O elfo de cabelo platinado e um dos agentes mais novos em idade da guarda inspirou, sentindo o cheiro de um perfume amadeirado misturado ao suor e ao cheiro de traços de resíduos que não deveriam ser expostos a crianças, mas que já estava quase sumindo, talvez tivesse acontecido a uns três ou quatro dias. O elfo estava apenas comprovando que as fofocas que existiam sobre a relação dos três amigos inseparáveis eram reais. Nunca tinha duvidado, na verdade. Seu gaydar nunca erra. Ele sorriu, mesmo que a situação não fosse propícia a isso, o que resultou em uma cotovelada de seu parceiro.

Hazel Zharkov tinha em sua pele a marca de que era um filho bastardo e a motivação pela qual seu pai, Morgan Zharkov, o odiava. O tom achocolatado, na opinião de Rupert, só o deixava mais sexy, assim como a barba por fazer, como ele sempre insistia em dizer ao parceiro - que sempre insistia em lhe responder com um soco no meio do rosto. Eram dois completos opostos e Hazel só aceitava trabalhar com o elfo porque, infelizmente, mesmo com a pouca idade, Rupert era o melhor rastreador que eles tinham.

— Peter, por favor… — Manon pediu outra vez.

Fora uma questão de segundos até que a porta fosse aberta, revelando um Peter com o rosto amassado, como se tivesse acabado de acordar, com as olheiras embaixo dos olhos deixando mais que claro que ele não andava fazendo muito isso nos últimos dois dias. Estava com a roupa também amassada e os cabelos bagunçados, assim como parte de seu quarto, como na maioria das vezes. O loiro não falara nada, apenas se afastou e voltou a deitar em sua cama, mas para quem o conhecia, era uma deixa para que entrassem. A janela do quarto estava aberta, sendo a única entrada de ar e luz no quarto do mais novo dos irmãos, no andar de cima da casa, deixando o ambiente mais arejado possível pelo ar fresco. Damon assentiu positivamente, para que eles entrassem, trocando um olhar mais longo com Hazel, que deveria ser seu cunhado caso ele tivesse seguido o tratado. Quando ele já estava dentro, o shifter tigre franziu a testa. Era uma situação esquisita.

— Eu preciso ir. — Damon falara para a mãe quando havia apenas os dois no corredor. — Papai teve o sinal ontem sobre os Guardiões, todo o Conselho está de cabeça para baixo, especialmente por que veio logo nesse momento. Vocês vão ficar bem?

— Sim, querido. Pode ir. — Manon deixou um beijo na testa do filho mais velho. — Ao menos eu vou. — Ela suspirou encarando Peter dentro do quarto na companhia dos agentes. — Ele, eu já não tenho tanta certeza.

— Peter só está se culpando, mãe. E ele também não ajudou dizendo todas aquelas coisas.

— Sabe que seu pai está estressado com tudo no Conselho, e a relação dele com Peter sempre foi… Complicada pelo jeito dos dois. Eles se parecem mais do que gostam de admitir.

— Sei que ele está ocupado, e estou indo lá para ajudar. Também sei que parte disso é culpa minha, mas não significa que ele precisa tratar o filho dele como um estranho qualquer que fez algo errado. Peter perdeu os amigos, e até onde sabemos, ao menos um deles pode estar morto. O mínimo que meu pai deveria ter era um pouco de empatia e respeito.

Damon não deixou que Manon tentasse apaziguar mais as coisas, descendo as escadas com pressa, já estava atrasado. Sabia que ela tinha a melhor das intenções, sua mãe era uma mulher incrível, mas Lorcan não precisava ser o alfa dos alfas vinte e quatro horas por dia. Às vezes, era necessário que ele fosse apenas pai, mas parecia ser exigir demais de alguém que lidera algo tão grande.

A mulher suspirou, desejando que a normalidade voltasse a sua casa, encarando as perguntas que os agentes faziam ao seu filho dentro do quarto.

Com as pernas em posição de lótus e as mãos apoiadas no queixo, ninguém diria que Rupert era um oficial importante de polícia. Hazel, no entanto, mantinha a seriedade e a postura de um agente a todo minuto, enquanto Peter apenas encarava os dois, entediado, mas o elfo não podia negar que o filho do Primeiro Trono era realmente bem gostosinho.

— Tem muitas lembranças daquela noite? Lembranças nítidas, qualquer mínimo detalhe que você consiga lembrar pode ser importante.

Peter demorou um pouco até responder a pergunta do Zharkov. Sua mente caçava as memórias do que tinha acontecido na noite em que os três tinham sido atacados e os dois foram capturados.

— Estávamos na cidade, tínhamos bebido um pouco…

— Um pouco tipo duas doses ou um pouco tipo três garrafas? — Rupert indagou ao Blackwell, interrompendo a sua fala.

— An… Cinco. Cinco vodkas. Mas estávamos de boa na rua, até que eu acabei esbarrando em um deles, eram um grupo de quatro ou cinco inicialmente e…

— Eles eram gostosos? — Rupert o interrompeu com outra pergunta, o que fez Hazel encarar o elfo com a expressão de quem estava querendo matá-lo, e Peter arquear a sobrancelha. — Digo… Eles eram grandes, assim tipo musculosos, definidos… — O loiro platinado mordeu o lábio, imaginando o grupo de Wendigos.

— Leprechaun. — Hazel chamou a atenção do outro com raiva. — Foco.

— O que? Se fossem até valeria a pena, de repente.

— Eles iam te comer, mas não era da forma que você quer.

— Uma pena — suspirou ao responder o parceiro de trabalho. — E você, seria da forma que eu quero? — Perguntou com um sorriso malicioso no rosto, e Hazel apenas fechou os olhos e respirou fundo, contando de uma a dez para se acalmar. Dez não, cem.

— Prossiga, por favor, senhor Blackwell.

— É… Okay. Nós lutamos, e tava tudo sob controle até que começaram a aparecer mais e mais deles, e depois não lembro mais de quase nada, só que Damon apareceu e impediu que me levassem, mas eles ainda levaram Topázio e Abby. E ouvimos um grito.

— Eles tinham alguma marca preta, senhor Blackwell? — Hazel perguntou e instantaneamente, Rupert pareceu mais preocupado com a pergunta do agente do que em ficar encarando o meio das pernas de Peter e Hazel. — Tipo uma tatuagem, um corvo negro, no pulso, pescoço ou nas pernas, se as conseguiu ver?

Peter tentou lembrar desse detalhe, mas parecia específico demais para ele agora. Ele repassou cada detalhe da luta que tiveram, ou de quando esbarrou com um deles, ou mesmo enquanto Abbadon tentava manter um diálogo e sair de lá sem uma confusão - o que, se Peter soubesse como iria terminar, ele teria ajudado o loiro a conseguir. Mas nenhum deles tinha essa tatuagem, ao menos não era visível.

— Eu não lembro… — Antes que terminasse, ele lembrou-se de ver um pequeno desenho preto no peito do wendigo com quem tinha esbarrado, no momento do choque, pelo espaço aberto dos três primeiros botões da camisa que ele utilizava. — Na verdade, um deles tinha. Ou eu acho. Não consegui ver o desenho todo, mas parecia ser uma asa.

— Acha que são eles? — Rupert perguntou a Hazel.

— Talvez, muito provavelmente. Estão fazendo isso já faz um tempo, só precisava da confirmação. Como eram filhos ou protegidos de três dos Tronos, talvez pudesse ter uma outra motivação ou pessoa envolvida, mas parece que são eles de verdade.

— Eles? — Peter indagou confuso. — Quem são eles?

Necromante e elfo se encararam, virando o olhar para o Shifter pantera.

— Obrigado pelas respostas, Senhor Blackwell. Foram de grande ajuda. — Fora a única coisa que Hazel respondeu, deixando o quarto e se despedindo do shifter com apenas um aceno.

Rupert demorou um pouco mais. Ele levantou-se, se aproximando de Peter e entregando ao loiro um pequeno cartão.

— Me liga depois, bonitinho. — Piscou para o Segundo Filho, aproximando-se mais até sua boca está próxima do ouvido dele. — Eu não tenho ciúmes.

Ele passou as mãos pelo braço musculoso de Peter, deixando o quarto do loiro, que agora ficara sozinho. Peter se levantou, indo até a porta e percebendo que sua mãe também tinha descido para levá-los até a saída. O shifter fechou a porta do quarto, fechando as janelas também. Debaixo da cama, ele tirou o mapa de Heaven Hill, uma versão mágica que continha a Floresta Amaldiçoada, cheiro de riscos e anotações de onde Abbadon e Topázio poderiam estar. Se a Guarda Gênese não encontrava seus amigos, ele iria encontrar.

Porque Peter tinha os levado até aquilo, e ele iria os tirar também.

『❦❦❦』

Bairro Nobre, Algum lugar em Heaven Hill, Califórnia

Aquela residência era a hipoteca mais cara da cidade, na melhor rua e com a melhor vizinhança, ou ao menos, com a vizinhança mais cara. E era por isso que os Wods a escolheram como seu “esconderijo” nada secreto durante sua estadia por Heaven Hill, mesmo que não tivessem dinheiro para pagar - e se tivessem, não faria nenhuma diferença, porque eles nem iam pagar mesmo.

Katarina Sandiego teclava quase furiosamente contra o teclado do computador em suas pernas sentada em uma espreguiçadeira na piscina. Os óculos de sol com adornos cor-de-rosa, assim como seu biquíni, impediam qualquer um de ver a velocidade com que as íris azuis se movimentavam acompanhando cada detalhe na tela do aparelho, tentando reconhecer dentre os símbolos e imagens listadas algo que fosse meramente semelhante ao que eles tinham roubado do Museu da cidade, embora nenhum deles parecesse ter nenhuma ligação com a rosa banhada em ouro que Hope tinha conseguido pegar a tempo deles serem atacados pela gangue inimiga - ou seja lá o que eles eram, já que a ruiva não lembrava de conhecê-los, mas eles estranhamente conheciam ela e os amigos.

Desde que acordara naquele dia, Katarina estava empenhada naquela missão ao máximo que conseguia. Já tinha revistado a internet de ponta a ponta, até em lugares que não era recomendado ir, hackeado o sistema do Museu, mas não tinha encontrado nada além de Rosa dos Ventos, o nome dado a rosa de ouro que eles tinham roubado. Aquele trabalho estava sendo mais complicado do que ela imaginou que seria, especialmente quando um marmanjo de quase dois metros de altura e cabelos loiros passou ao seu lado correndo e pulou na piscina. Por sorte, não estava muito perto da piscina a ponto de molhar o notebook em suas pernas, ou ela faria questão de afogar o Hurricane.

— Lá vai bomba! — Katarina revirou os olhos com o grito de Jaden. Quantos anos ele tinha, sete?

— Conseguiu alguma coisa? — Hope Fairbain indagou, sentando-se ao seu lado com trajes de banho pretos contrastando com sua pele clara. — Quem eles eram ou o que é isso?

— Se chama Rosa dos Ventos, e é a única coisa que eu consegui hackeando o sistema do museu. — Ela respondeu, desviando o olhar da tela do computador para a loira. — Nenhuma informação sobre o cliente?

— Sabe que não funciona assim, Kat. Eles não perguntam sobre nós, e nós não perguntamos sobre eles. A única coisa que importa é que ele tenha o que pediu, e que nós tenhamos o dinheiro.

— Mas como eles sabiam de nós?

Hope suspirou.

— Também gostaria de saber. Encontrou quem são eles?

— São da região, eles se chamam de Nightwings. Nada além de um grupo de bandidos de bar, pelo que vi.

Na mão de Hope, a rosa de ouro cintilou, deixando as duas mulheres um pouco frustradas. Quando entraram em contato com Hope para aquele trabalho, a loira já ficara desconfiada por conta do preço que estavam pagando por aquela rosa. Cinquenta milhões de dólares era dinheiro demais, então, ela já pensara no quão valiosa deveria ser a mercadoria que iriam pegar, mas ao ver a rosa de ouro, tinha ficado um pouco confusa. Cinquenta milhões por uma flor pequena? Tinha mais coisa naquele trabalho do que aquilo, e o ataque que sofreram enquanto roubavam a flor apenas tinha comprovado a sua teoria.

— Tem alguma coisa errada com isso, e precisamos descobrir o que é e como eles sabiam quem éramos antes de entregar ao cliente.

— Ei, volta aqui! — As duas tiveram a atenção chamada por Kenny e Blake, que saíam de dentro da casa em direção à piscina. — Porque não quer gravar um onlyfans junto comigo? Eu prometo que te dou metade do dinheiro e deixo você ficar por cima!

Blake estava vestido normalmente, com roupas pretas que cobriam o seu corpo praticamente inteiro, enquanto Kenny apenas não estava nu pelo shorts azul e a toalha branca em seus ombros.

— Todo dia isso bicho, se foder. — Blake reclamou, revirando os olhos e sentando na espreguiçadeira ao lado de Hope, com os braços cruzados, como se estivesse usando-a para se defender. — Me deixa em paz!

— Você ainda tá com raiva por causa do homem do museu? Cara, eu já te falei que foi só pelo trabalho, sabe que eu só amo você. E se quer saber, ele nem é tão bom, não sabe chupar direito e…

— Informação demais. — Hope o parou antes que ele continuasse, vendo Jaden também se aproximando dos quatro e sentando ao lado de Katarina, balançando os cabelos para secar e levando um tapa da ruiva por isso.

— O que rolou?

— Kat está tentando encontrar mais informações sobre a rosa e o Kenny tá tentando comer o Blake, nada de novo — explicou a loira.

— Eu prometi que deixaria ele me comer dessa vez. — Kenny corrigiu, encarando Blake outra vez, que continuava com a mesma expressão de quem queria morrer. — Uma oportunidade única. Porque você não aceita? Prefere que eu fique por cima mesmo? Não tenho problema.

— Eu tenho.

— Então você quer? — Kenny indagou após a pergunta de Blake.

— Não quero.

— Quer.

— Não quero.

— Quer.

— Não quero.

— Não quer.

— Quero… Espera, o que?

Quando Blake se confundiu, Kenny deu um grito de vitória seguido de Jaden, que comemorou junto do amigo. Os dois homens comemoraram juntos, pulando e batendo o peitoral um no outro.

— ISSO PORRA!

— É TETRA CARALHO!

— ESSA NOITE NINGUÉM DORME!

Hope até tentou segurar, mas não conseguiu conter a risada.

— Ai, finalmente. — Katarina também felicitou o O'Connell.

— Até você? — Blake arqueou a sobrancelha, se perguntando porque Deus, ou deuses, ou universo, ou parcas, ou qualquer outra coisa não atendia o seu maior desejo de vida: uma morte súbita.

Kenny pegou a rosa da mão de Hope, o que certamente fizera a loira se assustar. Com um sorriso malicioso no rosto, ele piscou o olho para Blake Delaney, sentando-se na ponta de onde ele estava.

— Blake, amor...

— Não me chama de amor, besta quadrada.

Ele passou o dedo pelas pétalas da flor, ainda rindo, como se estivesse limpando o objeto em suas mãos, mas Kenny acabou não medindo a força necessária para isso. Os olhos de todos se arregalaram quando uma das pétalas se mexeu, saindo do lugar com um “clec” alto característico de um objeto se quebrando.

— O que você f… — Katarina tinha o rosto avermelhado pela irritação, mas não conseguiu terminar.

Do espaço entre as pétalas, um pequeno feixe de luz de tons que variavam entre o verde e o roxo tomou espaço, aumentando de tamanho até rodear praticamente toda a área da piscina da casa. Os cinco Wods encararam os raios luminosos até que ele se tornou uma espécie de aurora boreal cheia de pequenas constelações que pareciam se mover em seus próprios formatos. Um pégasus galopou até a mão de Katarina, rodeando o corpo da menina e voltando ao seu lugar. Jaden passou a mão em um dos raios luminosos, vendo a sua pele clara refletir nos tons verde e roxo assim como ela. Blake nunca tinha visto tanta luz em um único lugar, enquanto Kenny observava admirado as pequenas constelações e outras estrelas espalhadas pela aurora boreal, como uma criança vendo pela primeira vez um fenômeno luminoso como aquele, com expressões que o Delaney não tinha visto muitas vezes nele, mas que tinha achado que lhe caíam muito bem. Hope fora a primeira a levantar-se, girando em seu próprio eixo em uma tentativa de não perder nenhum detalhe de tudo aquilo.

— O que é isso?

— Eu não faço a menor ideia. — Katarina respondeu, e os outros quase ficaram realmente assustados agora. Existiam poucas coisas no mundo que Katarina não sabia.

As estrelas eram bem espalhadas, mas em posições estratégicas. A garota tirou os óculos escuros, atentando a cada detalhe, levantando-se junto de Hope. Ela viu quando uma das constelações, uma mulher rodeada de correntes, brilhou à sua direita, tornando-se uma sequência de letras que ela não conhecia, mesmo que ela conhecesse muitos dialetos. Katarina demorou alguns segundos, mas percebeu o padrão entre o espaço das constelações, já que sua mente trabalhava rápido demais para deixar passar as coincidências.

— Não é só uma aurora boreal. É um mapa — explicou a garota, olhando para pontos específicos, como se quisesse comprovar a sua teoria.

— Como sabe, gata? — Jaden indagou.

— Os pontos onde estão as constelações que se tornam letras. — Katarina apontou para cada um deles, mostrando aos companheiros. — Norte, Sul, Leste e Oeste, são as coordenadas, ou os pontos cardeais. As outras estrelas podem significar o caminho ou os pontos intermediários, ainda não tenho certeza, mas é um mapa. Por isso ela é chamada de Rosa dos Ventos.

— Mas um mapa pra que?

— Eu não sei. — Mesmo que odiasse não saber de algo, Katarina respondeu sinceramente a Blake. — Não conheço essa ortografia, não está em nenhum dos meus livros. E… Com certeza não é humano.

— O que faremos agora? — Kenny indagou diretamente a Hope.

— Isso aqui é valioso demais para entregarmos assim. — A loira respondeu depois de muito pensar. — Precisamos saber mais antes de decidirmos o que fazer.

— Mas pra isso a gente precisa entender isso aqui.

Os quatro se atentaram quando Kenny colocou a pétala no lugar outra vez, e a aurora sumiu. Ele entregou a rosa de ouro para Katarina, pegando o celular em seu bolso.

— Hora de falar com velhos amigos.

— Pra quem está ligando? — Hope indagou para o O’Connell, em dúvida se deveria confiar nesse ato do moreno.

Kendrick sorriu.

— Já ouviu falar em um lugar chamado Auradon?

『❦❦❦』

Algum lugar em Heaven Hill, Califórnia

Abbadon sentia o suor escorrendo por seu rosto. Suas forças estavam quase se esgotando, e ele não sabia se conseguiria manter o feitiço que estava impedindo que o veneno tomasse todo o corpo de Topázio. A área de seu abdômen estava estava quase que em carne viva, o cheiro de enxofre quase fazia Abby vomitar, mas precisava manter a atenção para que o feitiço não acabasse saindo de seu controle e o veneno usado pelos Wendigos acabasse matando o Bittencourt. Topázio tinha tentado mudar o seu corpo, mas não conseguira nada além de fazer o veneno aumentar ainda mais, e o Santavy tão pouco conseguira curar com magia. Seja o que diabos fosse esse veneno, ele não conseguia pará-lo, apenas atrasá-lo para que Topázio não morresse.

Mas isso não significava que não doía. O filho mais velho do Quarto Trono sentia sua pele queimar pouco a pouco, e nas primeiras horas, ele tinha gritado de dor por horas seguidas, até que sua garganta ficasse seca. Cada pedaço de seu corpo parecia estar queimando, da pele até os ossos, e ele mal conseguia respirar, o que só piorava por conta do odor de enxofre. Topázio ouviu Abbadon suspirar, segurando o máximo que conseguia para manter o feitiço.

— Devia parar. — Ele falou com dificuldade. — Só um de nós precisa morrer, sabia?

— Cala a boca — respondeu sem nenhum pouco de delicadeza. — Você não vai morrer.

— Ontem você não deixou eu te chupar, agora me manda calar a boca assim. Sua amizade é muito tóxica, Abby. — Topázio brincou, mas todo o seu corpo reclamou de dor.

— Você está morrendo, idiota. Claro que eu não deixei…

— Achei que tivesse dito que eu não vou morrer — O loiro interrompeu o feiticeiro.

— Não disse que você vai morrer, disse que você está morrendo. São duas coisas totalmente diferentes.

— Sim, claro.

— Não me faz perder a concentração, idiota. Ou eu vou perder o feitiço.

Os dois foram jogados ali desde a noite que os wendigos os capturaram, com Topázio envenenado. Abbadon já estava ficando sem esperanças porque, a partir do momento que ele parasse o feitiço, o tempo para que o veneno consumisse todo o seu corpo, segundo os wendigos, era de no mínimo vinte e quatro horas a mais, e talvez, a dor fosse tanta que ele implorasse pela morte antes disso. O feiticeiro estava tentando fazer como Nathan o tinha ensinado, não deixar a pressão ou o nervosismo transparecer, mas estava sendo mais difícil do que parecia. Bem mais difícil. Tudo ficava diferente quando uma pessoa com quem ele se importava podia se machucar de verdade e seriamente com tudo aquilo. A situação o fez se perguntar se estava pronto para ser o futuro sucessor de Nathan, embora nunca tenha acreditado totalmente nisso, sua descrença tinha aumentado agora, com toda certeza.  O loiro fechou a expressão quando ouviu o som da cela onde estavam se abrindo. Ele se colocou em posição de defesa na frente do metamorfo, para defendê-lo, mas não precisou.

— Graças a deus eu achei vocês. — Falou uma pessoa já conhecida por Abbadon e Topázio, que quase choraram de felicidade. O feiticeiro descansou os braços, deixando o feitiço de lado por alguns minutos.

— O que… Como você…?

— Shi… — A pessoa conhecida fizera um sinal de silêncio. — A Guarda Gênese está chegando, mas precisamos ir embora daqui. Agora, vem, pega ele.

Abbadon usou todas as forças que lhe restavam e o ajudou, passando o braço pela cintura de Topázio por um lado, enquanto ela colocava no outro lado. Os dois saíram o mais rápido que conseguia, em silêncio, e cruzaram a cela até uma sala que Abbadon não teve tempo para prestar atenção de verdade. Ele os guiou por um caminho que o feiticeiro não conhecia, já que o único metro quadrado que ele já tinha estado lúcido naquele lugar era a sua cela, mas devia ser pelo caminho em que seu salvador tinha chegado.

— A-Abby… O que? — Topázio indagou confuso.

— Estamos saindo daqui, T. Precisa aguentar só mais alguns segundos, nós vamos sair daqui finalmente e vamos dar um jeito nisso.

Abbadon não queria se sentir aliviado antes de estar fora dali, mas ele não conseguiu segurar o sentimento. A esperança já estava se esgotando, não acreditava mais que conseguiria manter Topázio vivo por muito tempo e, quando os achassem, se o fizessem, ele talvez fosse o único vivo, ou talvez não achariam nenhum dos dois. O garoto sentia seu corpo cansado, sua respiração estava descompassada, mas ele se esforçava ao máximo para conseguir ajudar a carregar Topázio pelo corredor, que o Santavy já conseguia ver o fim de onde estavam, o que arrancou o mais próximo do que seria um sorriso para ele.

Quando enfim chegaram ao fim do corredor, Abbadon percebeu que estavam em uma sala fechada. No centro da sala, um homem misterioso que ele não conhecia os encarava com um sorriso no rosto, que logo começou a aplaudir a chegada deles. Abbadon ouviu o seu salvador gargalhar, soltando o corpo de Topázio. O loiro não teve forças o suficiente para manter os dois em pé, caindo no chão com o metamorfo em seus braços.

— V-você… O que diabos…?

— Parabéns — falou o homem misterioso que os esperava. — Nunca duvidei da sua capacidade, e confesso que foi muito divertido ver que eles realmente acharam que iam fugir. Merece o lugar em que está.

— Eu disse que estou desse lado agora. Só estou com eles pela nossa causa, mestre.

— Você nos traiu? — Abbadon conseguiu formular uma frase depois de muito esforço.

— Não fique triste, Abby. Você não é o único que caiu como um patinho.

E então, tudo ficou escuro de novo.

『❦❦❦』

Heaven Hill High School, Heaven Hill, Califórnia

Depois da conversa  que tiveram quando chegaram na escola, Chandler tinha quase certeza que Josh estava enlouquecendo, o que não era bom para a situação atual de ambos. Josh afirmava que havia acontecido uma espécie de possessão coletiva, raios, ventos, tempestade e mais um monte de coisas que ele com toda certeza não lembrava. O Harper o obrigou a acompanhá-lo até a biblioteca para ver que tudo estava destruído, mas não, ela estava completamente normal, e tudo estava no seu devido lugar. Menos os dois melhores jogadores do time de lacrosse da escola, que raramente estavam na diretoria, especialmente na companhia dos pais e por um motivo ruim.

De frente para o diretor da escola e na companhia de Harold, Walter Harper e Hiro Ootsuka, o garoto de pele bronzeada esperava que algum milagre acontecesse e que eles acreditassem nas suas versões da história, o que era bem difícil. Harold encontrou as drogas na bolsa dos dois em uma situação complicada para Chandler, que ainda sentia o canto de sua boca arder pelo soco que tinha ganhado de Austin que, misteriosamente, não estava ali porque seu pai estava em uma viagem de trabalho por enquanto. Claro, muito típico.

— Chandler pode ter se descontrolado um pouco na hora da raiva após as provocações do colega, senhor Davis, mas posso lhe assegurar que meu filho não tem envolvimento algum com drogas. — A voz de Hiro Ootsuka era calma, mas ao mesmo tempo firme. Dar as notícias ruins que um médico precisava dar, por vezes, requería isso dele. — Sobre a briga, estou de apoio que ele receba a punição adequada, mas não acho que ele e Josh devam pagar por algo que não cometeram.

— Exatamente. — Walter Harper continuou. — Nenhum dos garotos tem qualquer ligação com drogas. Joshua não gosta que a mãe fume cigarros comuns na frente dele, como iria usar drogas?

— A quantidade na bolsa era grande demais para ser de uso pessoal, senhor Harper. — Fora Harold quem respondeu, e Chandler precisou beliscar a palma da própria mão para manter-se no controle e o impedir de falar algo contra o homem que, aparentemente, estava muito interessado em fazê-los pagar por aquilo. — O que significa que eles estão vendendo na escola.

— Não, significa que quem quer que tenha posto isso na bolsa está traficando. — Chandler revirou os olhos ao responder, mantendo a postura após um olhar repreensor de seu pai. Respeitar a hierarquia, as regras e as “autoridades” era essencial. — E não fomos nós, professor.

— E como explicam as drogas na sua bolsa? — O diretor perguntou aos dois, recebendo a resposta do Harper.

— Nós já explicamos, não sabemos como foram parar lá. É a verdade. — Deu de ombros. Eles acreditando ou não, no fim, essa era a verdade. — Ficamos tão surpresos quanto o senhor quando vimos.

O homem trocou um olhar com Harold, suspirando.

— Pelo time, pelos troféus e pela conduta impecável dos senhores, nós iremos averiguar melhor a situação, mas a detenção ainda continua. Vou pedir para olhar as câmeras da escola para tentarmos ver se aconteceu aqui, mas entraremos em contato. Obrigado pela presença dos senhores, o trabalho em conjunto da escola com a família é imprescindível para a boa educação da juventude.

Chandler respirou fundo, se levantando da sala e saindo logo atrás de seu pai. Naquele dia, o corpo do garoto estava quente. Muito quente. E não da forma como ele gostava, e sim, quando com um calor insuportável. Ele tentou abanar o próprio corpo com a camisa, o que não ajudou tanto. 

As feições asiáticas de Hiro, que o diferenciavam totalmente do filho e deixavam clara a adoção, estavam cansadas devido a noite de plantão no hospital, e o mais novo já conseguia ver uma ou duas mechas brancas entre os cabelos do homem a quem ele, querendo ou não, também escolheu chamar de pai. Chandler levou a mão até a nuca, um pouco envergonhado por ter feito o pai ir até a escola após o plantão.

— Desculpe por isso. Sei que está cansado, coroa. — Ao fechar a boca, Chandler sentiu o puxão de orelha que Hiro o deu, resmungando pela dor com um sorriso no rosto.

— Estou cansado, mas já falei para parar de me chamar de coroa, Chan.

— Qual é, coroa…

— Chandler…

— Tá bom, tá bom. — Ergueu as mãos em sinal de rendição. — Mas, falando sério. Foi mal pai, eu não fazia ideia desse lance na bolsa, o que a gente disse é verdade. Não sabemos como foi parar lá.

— Eu confio em você, sei que é verdade. — Hiro sorriu tranquilizando o filho. Desde que tinham se tornado apenas ele e o mais novo, não tinham segredos um com o outro. Eram praticamente as únicas pessoas com quem podiam contar, não precisavam guardar segredo. Chandler até se assumiu hétero para o pai aos doze anos, o que Hiro aceitou e respeitou de coração aberto, afinal, ele também o era. — Mas a briga também é, e por isso, você precisa arcar com as consequências. Já conversamos sobre manter o controle, Chan.

Chandler tinha tentado, mas não conseguiu se segurar e, quando se deu conta, já estava trocando socos com Austin. Mesmo depois da briga, as palavras do Harkness ainda ecoavam em sua cabeça, mesmo sendo idiotice.

“— É por isso que defende a Mônica, não é? Se sente identificado porque os dois são órfãos. A mãe dela pelo menos morreu, e a sua que só não te quis mesmo? Ah, e tem a sua mãe falsa que morreu. Que barra em, Ootsuka?”

Chandler nunca teve vergonha de ser adotado. Se alguém o perguntasse, não importava a situação, ele sempre diria que seus pais eram Hiro Ootsuka e Maeve de Rizzi, que já não estava mais entre eles. A briga se iniciara quando Austin chamou Maeve de “sua mãe falsa”. Nessa parte, ele não conseguiu manter o controle.

— Eu sei, eu sei. Eu só…

— Você só adolescente, Chan. Essas coisas acontecem mais do que você imagina, mas tente sempre evitá-las, certo? — Hiro esperou o aceno positivo do filho para continuar. — Agora preciso ir, ou vou acabar dormindo em pé.

— Não veio de carro, não é? — Chandler indagou preocupado. Era como eles tinham passado e sobrevivido aos últimos anos. Um sempre cuidava do outro. — Não pode dirigir assim, pode acabar dormindo mesmo.

— Não, Chandler, não vim de carro próprio. Eu pedi um por aplicativo, e vou fazer de novo.

— Tudo bem então. Até mais tarde, coroa.

Hiro deu outro puxão de orelha no filho, deixando um beijo em sua testa antes de se despedir. Quando o asiático se afastou, ele viu Josh se aproximando, seu pai também já estava tinha ido embora.

— Como o tio Hiro tá?

— Só com sono. E tio Wal?

— Atrasado para o treino, mas ele é o treinador, então ganha um desconto. — Joshua riu. — Mas Chandler, voltando aquele assunto…

— De novo? Josh, você viu a biblioteca. Tá tudo bem, não aconteceu nada demais. Esse lance de guardiões, vozes e todo o resto é só coisa da sua cabeça. Só isso.

— Mas e como não consegue me explicar porque não lembra como saiu daqui, Chandler?

Esse era o motivo pelo qual Josh tinha certeza de que sim, algo tinha acontecido. O Harper já tinha perguntado a Luke e Leah, a Mônica, Johanna e Zach, mas sempre tinham a mesma resposta: nenhum deles tinha certeza de como chegaram em casa, mas acordaram lá, enquanto Josh era o único deles que lembrava da seção de invocação do capeta que tinha acontecido na biblioteca e também o único a ter sonhado com uma loira gostosa com bafo de onça. 

— E-eu… Eu fui andando, tá legal? Eu saí da escola e fui andando, já te disse isso.

— Todos vocês já disseram a mesma coisa, mas nenhum de vocês sabe, Chan. Tem algo errado, não vê?

Chandler suspirou, olhando o horário em seu celular.

— Tudo bem, Josh. Mas vamos pra detenção de uma vez, não quero mais encrenca.

Os dois amigos passaram pela secretaria, curiosos para saber onde passariam a detenção naquele dia, mas antes que perguntassem, eles foram respondidos pela secretária Lorraine, que naquele dia, usava um vestido rosa de lantejoulas com meias bufantes. Quando ela sorriu, o batom cor-de-rosa exagerado sujando seus dentes ficara visível. Em seu computador, uma conversa de bate-bapo que, pela distância, Chandler não conseguiu diferenciar se era com uma mulher, uma bruxa ou um avatar.

— Sala sete. — Ela respondeu sem que eles perguntassem, e quando os dois garotos tentaram, o olhar que ela os direcionou parecia querer matá-los.

Os dois não se atreveram a perguntar realmente, apenas seguiram caminho para mais um dia exaustivo de detenção, dessa vez, limpando a poeira dos teclados dos computadores durante toda a tarde até às cinco e quarenta, quando os doze adolescentes foram finalmente liberados.

Chandler e Josh vinham lado a lado, assim como o resto dos alunos na detenção, já que eram praticamente divididos em grupos. Klaus, Rubinho, Alex e Hendy eram um, assim como a antiga dupla Mônica e Johanna também recebiam Zachary e Júpiter, sobrando ele e Josh, e Leah e Luke. Os doze deixaram a escola, separando-se ao sair pelo portão principal, mas uma voz desesperada chamou a atenção dos jovens.

— Socorro! Socorro! — Um senhor idoso corcunda, que aparentava ter por volta dos setenta anos e puxava o próprio corpo com a ajuda de uma bengala gritou para os adolescentes. — Me ajudem, por favor…

Josh se aproximou do homem, ajudando-o a se locomover. Em seus cabelos e roupa, haviam folhas e gravetos, como se tivesse acabado de sair do meio da floresta, o que não era mentira.

— O que houve, senhor?

Junto do Harper, os outros também voltaram, até mesmo o Quarteto Fanático que observava a conversa um pouco de longe. O homem estava claramente nervoso, suas mãos tremiam e suor escorria por seu rosto.

— Precisa se acalmar… — Luke murmurou um pouco baixo, aproximando-se dele e o ajudando a se manter em pé no lado contrário ao que Josh estava, em um trabalho em grupo. — O que houve? Podemos ajudá-lo?

Mônica também se aproximou, retirando as folhas e galhos do cabelo dele. Estava deixando-a agoniada.

— Pronto, agora tá ótimo — falou quando já não havia mais nenhuma folha nos fios grisalhos, pegando o álcool em gel de sua bolsa e passando nas mãos. — Pode nos dizer o que aconteceu? Ah, quer um pouco de álcool em gel? — Ela indagou, já pondo na palma estendida do senhor antes que ele respondesse. Um pouco de precaução nunca é demais.

— M-meu netinho e eu… Estávamos fazendo uma caminhada na floresta e ele se perdeu.

— Na floresta? Nossa tio, mas todo mundo sabe que a floresta é proibida. — Rubinho falou sorrindo como se ele tivesse acabado de contar uma piada muito engraçada. — Por isso que o nome dela é Amaldiçoada, entendeu? — O loiro começou a rir, mas quando ninguém acompanhou sua risada, ele parou, encarando o homem um pouco mais sério, mesmo que parecesse que tinha acabado de fumar cinco cigarros de maconha. — Espera, é verdade?

— N-nós somos novos na cidade. Por favor… precisam me ajudar a achá-lo.

— Claro, vamos senhor. — Josh respondeu, mas percebera que ele foi o único.

Ele encarou os amigos, apenas Luke e Chandler pareciam dispostos a ir.

— Nós vamos, não vamos? — Joshua indagou aos outros, mas nenhum deles parecia muito interessado.

Luke encarou os amigos, passeando de um a um até chegar ao Quarteto Fanático, em um deles em específico, encarando as reações do loiro que morava na casa vizinha a sua. Niklaus engoliu em seco e deu as costas, saindo do lugar. Os outros três o encararam, e cada um deles o seguiu. Hendrik fora o último, apenas encarando o homem e dando de ombros. Não era de sua conta. Mas tanto eles quanto Luke sabiam o motivo pelo qual o loiro tinha ido embora. Sobraram apenas oito deles.

— Josh… A floresta amaldiçoada… — Mônica iniciou temerosa. — É como Rubinho disse, ela tem esse nome por algum motivo.

— Mas é uma criança. — Josh rebateu. — Ela pode acabar se machucando de verdade, e ele é muito idoso pra ir sozinho. Nós temos que ajudar.

O moreno encarou os amigos, mas nenhum deles reagiu a princípio. Joshua suspirou. Todos eles estavam na biblioteca quando aconteceu, eram as pessoas que segundo a Esperanza, ele tinha de guiar, mas ele não fazia a mínima ideia de como fazer isso. “Você é um dos meus agora, é um escolhido, é o que irá guiá-los.” Josh quase riu. Guiar alguém? Ele mal encontrava o caminho de sua casa até a escola, como iria guiar alguém?

— Acho que entendeu errado, criança. — A voz do senhor chamou a sua atenção, mas apenas ele parecia estar ouvindo. — Eu perdi meu neto, eu irei guiá-los e ensiná-los o caminho certo, estou aqui para isso, esse é o meu papel. O seu papel não é guiá-los, Joshua Harper. É liderá-los.

Josh encarou o homem ao seu lado. “O seu papel é liderá-los.” A frase se repetiu em sua cabeça por outras vezes. Talvez, era por isso que ele era o único deles a lembrar, talvez por isso ele tinha sonhado com a Rainha. Porque seu papel era liderá-los, mas Josh nunca se achou bom nisso. Era capitão do time porque Chandler insistiu para que aceitasse junto dele, mas por ele próprio, seria apenas um jogador qualquer como os outros. Não tinha o dom para isso, não tinha nascido para liderar. Mas ele tinha visto o que aconteceria se eles não assumissem o seu papel, Esperanza fizera questão de fazê-lo não apenas ver, mas sentir. A lembrança do corpo de Chandler queimando se repetiu em sua cabeça outra vez naquele dia.  Joshua não tinha nascido para liderar. Mas também não deixaria que todos eles morressem por isso.

— Eu vou. — Ele falou encarando o homem, desviando seu olhar para os amigos. — Eu sei que a Floresta Amaldiçoada é proibida, especialmente à noite, mas não muda o fato de que tem uma criança lá, e ela deve estar mais assustada que a gente, e pode morrer ou se machucar gravemente sozinha. Eu não sei vocês, mas não quero ter o peso na consciência de que poderia ter feito algo e não fiz.

Ele assentiu positivamente a Luke, e os dois ajudaram o homem a virar-se e seguir o caminho em direção a floresta. Atrás dele, Chandler e Leah foram os primeiros a se juntarem a eles, seguidos de Mônica e Johanna. Zachary os encarou, dando de ombros e fazendo o caminho para a sua casa, assim como Júpiter também fizera. Joshua encarou os que tinham o seguido, dando um sorriso curto a eles, mas percebendo que eram apenas seis dos doze jovens. No momento, teria de ser o suficiente.

Ou ao menos ele esperava que fosse.

Petra: The Guardians.


Notas Finais


Nos próximos capítulos:

03 - Todos a favor da morte digam sim (Ps.: rezar não deu certo, por favor, tentar outra coisa).

O grupo de resgate a a floresta amaldiçoada junto do homem idoso, que não parece muito lúcido de suas ideias para guiá-los até onde seu neto tinha se perdido. O Quarteto Fanático tem uma brilhante ideia, e Austin West Harkness busca sanar as suas dúvidas sobre uma noite estranha. A Guarda Gênese entra no território “deles”, e os Wods recebem uma ajuda inusitada. Luke se torna a salvação do grupo de resgate, mas todos eles descobrem a verdade por trás do homem e do neto desaparecido: o passeio na floresta está longe de acabar, e o resultado dele não é nada agradável.

『❦❦❦』

Os Guardiões: https://docs.google.com/document/d/17mdFUu9SGkXeIUyd1aK5Hhpxx-Y2Kk3D7F7CEBsCbGs/edit
Complementares: https://docs.google.com/document/d/1mv8uVyz2kVvEa1WCj1XuhR9pYUEdZJ7RfDECaOIxsok/edit
Tronos: https://docs.google.com/document/d/1yClY7dTXfiiVPmGOwQERl0mHG1hoppYVZQhX6Ppav24/edit


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