História Pilares de Vidro - Capítulo 8


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Categorias Zootopia - Essa Cidade é o Bicho
Personagens Bellwether, Benjamin Garramansa, Bogo, Bonnie Hopps, Duke Weaselton, Finnick, Flecha, Fru Fru, Gazella, Gideon Grey, Judy Hopps, Leãonardo, Nick Wilde, Personagens Originais, Sr. Big, Sr. Lontrosa, Stu Hopps, Yax
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Palavras 5.600
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Policial, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Nudez, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - Espírito renovado


Judy estava serena e bela, cochilando calmamente nos braços de Nick. Por todo canto, reinava a quietude. Sem barulhos exteriores, sem celulares tocando ou assuntos para conversar. Parecia que a pequena escolhera o momento certeiro para fechar seus olhos e desativar a mente. Não apenas isso, pois o aconchego daquele abraço afetuoso tornara-se um fator primordial a afugentar seus medos anteriores, confortando-a, resultando o seu adormecer. Sempre será grata pelo que a fizera, mesmo que eventualmente esqueça-se de tudo ao despertar. Não... Irritar-se-ia consigo mesma caso tamanho deslize ocorresse novamente, apanhando suas memórias daquela noite. Memórias valiosas. 

Tudo permanecia no mais pacífico silêncio, sendo quase possível ouvir apenas a respiração tranquila vinda da mamífera de orelhas compridas. Nick observava-a sem enjoar da visão. Muito fofa, irrefutavelmente. Somente quando um longo e involuntário bocejo veio de seus lábios, Nick se deu conta de que também precisava repousar. Com isso, cautelosamente, segurou a pequena coelha e deitou-a sob a cama a qual ambos estavam sentados. Notou a mesma abrindo os olhos por um breve período de tempo, mas após os fechar em seguida, tratava-se dalguma ação instintiva, porquanto ela acordar tão cedo não era nenhuma hipótese crível. Era melhor que descansasse bastante. O dia havia sido bem cansativo para os dois, embora tenha tido seus pontos positivos. Fato é: não devia ter sequer saído da cama, mas teimosa como só Judy era, claro que um “ferimento insignificante” não a impediria de trabalhar e tornar o mundo um lugar melhor

Nick Beijou ternamente a testa de Judy, desejando involuntariamente que tivesse a acordado para ver sua fofa expressão ao ser alvo daquela carícia dele. Sussurrou devagar em seu ouvido: — Bons sonhos, Judy. 

O raposo, não desejando perturbar seu sono, afastou-se sem fazer ruídos. Ao chegar à porta, olhou uma última vez para trás só para ter certeza de que aquela pequena sapequinha continuava ali. Felizmente, ela continuava. Às vezes, sente-se como se fosse seu pai, sempre tendo que segurar a bicicleta, pois ela queria pedalar rápido logo, ariscando-se a cair e ralar seus joelhos e cotovelos. Nick saiu do apartamento. 

  

•  •  • 

   

Após o acidente no viaduto, a tenebrosa noite de sono, sobretudo pelo pesadelo, um dia penoso ao extremo e mais algumas angústias, parecia ser a primeira vez em sua vida que conseguira alcançar a tão sonhada harmonia. Encontrava-se num estado de profunda tranquilidade, isenta de ira, desconfiança ou qualquer outro sentimento ruim. Sentia como se nunca tivera quaisquer problemas para lidar ou motivos que lhes causassem aflição. Caso a questionassem, seria difícil explicar como foi o seu sono, não obstante o tamanho prazer que se tornara inexplicável. De tão macio e confortável, o seu colchão parecia ter sido substituído por um enorme amontoado de algodão, causando-lhe um adormecer repentino, como ser atingida por um dardo tranquilizante. Em adição a isso, sentia-se leve. Sendo uma coelha, já era naturalmente, mas, naquela ocasião em específico, seu corpo aparentava tão suave que poderia facilmente voar por aí, como uma nuvem que simplesmente vaga, indo aonde a brisa a levasse. Não haver sonhado seria facilmente considerado um ponto negativo por qualquer um, mas mesmo sua mente não a agraciando com imagens que ela certamente gostaria de ver, sua noite, ainda assim, foi recheada de encanto. Delicioso era cada mísero segundo. 

"Que jamais acabasse!" Esse se tratava de seu imenso desejo. 

Para que se enfrente o dia que já há de chegar, o descanso se tornava mais do que necessário, e o melhor repouso sempre é o merecido. Sem dúvidas, Judy era merecedora, pois, por mais que tenha sofrida bastante, pode claramente afirmar que não fora em vão, embora também imprudente. Salvara vidas, incluindo a de um pequeno bebê coelho, restaurou a autoestima de um mamífero, fez novos amigos, teve respondidas várias perguntas que lhes atormentavam a mente. Em suma, estava, mesmo que aos poucos, grão em grão, melhorando o mundo. Desconhece os motivos que impediram seu despertador de realizar aqueles bips irritantes, sobretudo para sua aguçada audição, mas agradece aos céus que isso não tenha ocorrido. Contudo, mesmo sem o som incômodo, cria ela que já chegava de tanto descanso, pois até isso em excesso faz mal. Qualquer coisa, na verdade. 

Com isso em mente, sentindo claramente o seu corpo imobilizado sobre aquele ninho viciante de algodão, apertou suas pálpebras suavemente e as movimentou para que abrissem caminho a sua visão. Só pela iluminação que lhe foi apresentada ficou claro que o dia lá fora estava ótimo. Com nuvens, mas sem chuvas, o que já se tornava perfeito para uma caminhada ou corrida. Certamente, sendo Domingo, muitas famílias sairiam de suas casas para aproveitarem o máximo cada momento. Era provável que o parque a frente do DPZ estivesse quase lotado. Judy não desejava por nenhum momento ficar de fora dessa. Tratou de se levantar logo, o que não fora algo fácil, pois parecia até que sua cama se tornara um imã com o poder de atrair qualquer corpo próximo. Todavia, mesmo a força da pequena ser grande, seus músculos continuavam adormecidos. Cerca de alguns minutos, Judy realizou pequenos alongamentos tentando se ativar de uma vez. Pôde ouvir estalos vindos de seus ossos, o que, de certa forma, lhes causava prazer. Estar sendo alvo da luz fresquinha do sol também se tornou de grande ajuda para isso. Fora durante esse breve exercício que observara seu relógio digital, o qual marcava oito horas e meia. Soltou um longo bocejo. Tratou logo de arrumar sua cama, mas no momento que focara o objeto que a quase impediu de se levantar, por algum motivo, conseguiu ver em mente a imagem perfeita do que acontecera na noite anterior: ambos sentados ali, com Nick a abraçando. Esta era sua última memória de todos os acontecimentos ocorridos. Então, imaginando-se na mesma posição, sentiu seu coração arder graciosamente, mordera o lábio inferior e permaneceu assim, desfrutando daquela emoção. 

  

Fora surpreendida pelos braços do raposo [...] ao  

sair do colo de Snarlov e ser entregue àquela carícia 

dele, enquanto não permitia que suas lágrimas fossem seguradas. 

  

Logo, em seu interior abrolhou uma grande vontade de vê-lo. Não sabia de onde isso surgiu, e nem se questionava. Queria apenas responder a tamanha vontade, o mais rápido possível. Não que estivesse se sentindo sozinha como na noite anterior antes de encontrá-lo, era mais como uma atração. Pelo menos, tinha certeza de que saudade não era, pois sabe como é este sentimento já que o sente vez ou outra de sua família e das Tocas. Tendia ser alguma necessidade, como as flores necessitam da água e da luz solar. 

“O que está acontecendo?”, questionou-se, após apertar o local bem no centro de seus seios. Não era mais aquele fogo prazeroso de antes, mas sim uma chama extremamente intensa que quase a tirava o fôlego, deixando-a, de repente, ofegante. Enquanto isso, tudo o que acontecera na noite anterior parecia, do nada, um turbilhão de imagens sem sentido. Sentiu uma leve tontura e seu tombo no chão de madeira do apartamento foi apenas evitado porque conseguira apoiar-se na cadeia. Entretanto, não podia continuar de pé, então se apoiou na mesa, esperando que ficasse um pouco melhor. Passando-se um momento, aos poucos seu corpo não parecia mais tão quente e sua respiração já era possível de ser controlada. Porém, ainda lhe era incerta a razão para aquele pequeno ataque que teve, se é que foi realmente isso. Apenas sua experiência de morte foi mais intensa que aquilo. Nem quando em época que tanta tontura a atingia. 

Quando nas Tocas, descobriu que todos os animais sentem ataques como aquele estão prenhas. Mas isso é absurdo de se considerar. Não havia como ela estar com algum pequeno ser se formando dentro de si, muito embora, de certa forma, desejasse que isso acontecesse. Realmente se sentiu uma abestalhada após seu irmão irritante, JK, esfregar na sua cara que ele, mesmo mais novo, já tinha filhotes. 

“Esquece isso, Judy. Só esquece. Sua vez vai chegar um dia.”, confortou-se. Na verdade, não tinha pressa alguma, pois como disse o Sr. e Sra. Lontroza quando ambos se encontraram naquela cafeteria da Savana Central: 

  

"Não se preocupe com isso, querida. Se não se apaixonou 

por ninguém, é porque ainda não está na hora, e você é jovem" 

"Ainda há muito tempo pela frente" 

  

— Ainda há muito tempo pela frente! — exclamou em voz alta, enchendo-se de determinação, afinal, Domingo era sua única folga durante uma semana intensa de trabalho. Não gosta nem de lembrar as coisas que teve de fazer, pois certamente se recordará da mais incomoda delas: prender aquele gambá, o Tyler. 

Muito bem! Trataria de aproveitar ao máximo sua folga. Já esquematizou mentalmente suas atividades, as quais incluíam lavar as vestimentas que precisassem – incluindo também seu lençol com algumas manchas fracas de sangue –, realizar uma caminhada pela vizinhança, talvez indo ao parque mais próximo, a quatro quilômetros de distância. Contudo, como ouvira seu pai ponderando certa vez, “A vida começa depois do café.”, mas antes, nada melhor que um banho. Começou retirando sua blusa regata rósea, mas antes que o fizesse por completo, ecoaram batidas vindas de sua porta. Intrigou-se, não aguardava ninguém àquela hora, mesmo sendo um Domingo, dia perfeito para encontrar amigos. Mesmo Nick costumava ligar antes de aparecer para visitas, coisa essa que o raposo alaranjado não fazia com frequência, visto que, como já percebera, ele não gostava daquele apartamento. 

— Senhorita Judy, sou eu, Rochelle, sua senhoria — disse a mamífera no lado de fora, voltando a dar batidas, evidenciando impaciência. — Abra a porta! — ordenara autoritária, como quem não espera objeções. 

Judy tratou de obedecer, prontificando logo a entrada da tatu, mas isso não significava que sua intriga desaparecera. Recorda-se perfeitamente de ter pagado o aluguel do mês passado, e o dia de se pagar o atual ainda não havia chegado. A remoção mensal de pulgas também já havia sido feita. 

No instante que destravou a fechadura, ficou frente a frente com a outra mamífera. Não durou até seus olhos se cerrarem e seu focinho começou a arder. Veloz como um disparo de tranquilizante, aquele mesmo fedor que sentira na noite passada aparentou correr desenfreado para dentro de suas narinas. Seu organismo logo reagiu, impedindo que a coelha respirasse mais daquela podridão e tapasse seu focinho com ambas as patas. De tão terrível que era o futum, aquela curta respirada fez os seus olhos lacrimejarem instintivamente. 

— Todos os inquilinos devem sair do prédio agora! — pronunciou a senhoria, também com as narinas tapadas. — Venha! 

Judy nem se permitiu descordar, pois como o fedor entrara em seu apartamento no momento que ela abrira a porta, sairia dali mesmo sem quaisquer ordens. Portanto, seguiu a tatu para fora dali. Para piorar mais a situação, involuntariamente, comparou esta situação como quando Taylor causou-lhe uma terrível dor de cabeça quando decidiu se libertar ao estarem justamente no meio do trânsito. Foi uma grande comoção aquele dia, e, pelo visto, o início do de hoje também. Seria esse algum presságio? Não, isso é bobo demais para dar relevância. 

Quando finalmente do lado de fora, Judy agradeceu aos céus por ter ar puro para respirar, embora não tão puro quanto poderia ser o do campo. Enxugava seus olhos que pareciam não querer parar as lágrimas por causa da ardência. Em frente ao Alojamento, havia diversos outros animais, os quais a coelha já vira ocasionalmente por perto, visto que moravam nos prédios vizinhos, evidenciando que a podridão se espalhou mais que o imaginado. Já houve momentos que interagiu com eles, mas nada como uma amizade ou algo do tipo. Suas espécies variavam entre porcos, coelhos, porcos-espinhos, antílopes, zebras e carneiros. 

— De onde... estava vindo aquilo? — Um dos inquilinos questionou à tatu, que, sendo a senhoria, tinha por obrigação explicar essas ocorrências. Parando para refletir, era provável que perdesse inquilinos por causa de tamanho incidente. 

— Vinha do apartamento do Samael — respondeu Rochelle, com aparente descaso. — Ao que parece, ele “bateu as botas”. Eu só não esperava que esse alarde fosse acontecer. Nem quando morre ele não me dá sossego! 

Rapidamente, a mente da coelha foi ocupada pelas imagens da doninha-macho bebum. Sempre embriagado, sempre desgastado. Ele realmente nunca pareceu alguém que se importasse com qualquer coisa, exceto ter algo alcóolico em pata para meter goela abaixo e sobrecarregar bastante o fígado. Sem nenhuma dúvida, a realidade dele era o mais diferente possível da sua. 

— Eu bem que havia sentido um cheiro estranho no corredor ontem — Judy comentou, sendo alvo logo em seguida do olhar indignado pertencente a tatu, semblante esse que também carregava certa descrença. 

— E por que você não me falou nada? — indagou brava. — Como você não achou anormal uma podridão daquele no prédio? Se tivesse me avisado, isso tudo não estaria acontecendo agora! 

— Espere um momento aí, Senhora Rochelle! — Rebateu a coelha. — Eu estranhei sim esse fedor ontem, mas não era nenhuma surpresa para mim o apartamento dele estar sempre exalando mau cheiro. 

— Humph! — bufou. — Que seja! 

Ficou claro como cristal que o clima entre as duas havia piorado. Na verdade, sempre havia certo incômodo quando se encontravam, pois, ao que parecia, a tatu não simpatizava com ninguém.  Desde o momento que a coelha tentara alguma amizade com ela, sempre ao se encontrarem, a atmosfera se tornava mais estreita. Isso sem contar no quão ela ficou irritada quando a coelha chegara tarde da noite, no início do dia seguinte do show da Gazela. 

Pouco tempo depois, dois policiais desconhecidos para Judy – uma vez que eles, provavelmente, trabalhavam na delegacia mais próxima, não no Departamento – saíram de dentro do prédio carregando um saco zipado preto. Um lobo e um Texugo-do-Mel usavam máscaras de oxigênio, sobretudo porque, se aquele futum já era ruim para quem o cheirasse, a experiência deveria ser ainda pior para animais reconhecidos por seu bom faro. Judy sabe como é quando se tem algum sentido aguçado que, em momentos, se torna o causador de muita dor de cabeça. Isso já viera a ocorrer diversas vezes quando ela se encontrou em lugares que estivessem com muita poluição sonora. 

Ao que pôde ver, havia três veículos estacionados próximo dali: uma viatura da polícia, uma van de funerária e outra van grande e de coloração branca, onde, em suas duas laterais estava escrito o seguinte: “Sistema de Desinfestação e Desinfecção”. Pelo que pôde parecer, Rochelle não hesitou em chamar todos que ela precisasse. Levando em conta que quanto a coelha acordara eram oito da manhã, era possível que a equipe de desinfestação já estivesse trabalhando naquele momento, embora não tenha visto ninguém lá dentro, lembrando que, ao ser vítima do desprezível mal cheiro, só quis saber de dar o fora. 

— Senhora Rochelle, tem uma coisa que ainda não entendi — proferiu a coelha, notando a tatu lhe dar atenção mesmo ela possivelmente não desejando. 

— O que é? 

— Lembro-me que o Samael veio morar aí faz um tempo, mas ele nunca pareceu alguém que trabalhasse ou sequer saísse do apartamento. Então... — deixou a frase no ar, pois a senhoria certamente já teria lido as entrelinhas. 

Por conseguinte, a menor suspirou. Como teriam de ficar esperando do lado de fora de qualquer modo, não fazia mal passar o tempo batendo um pouco de papo. 

— Eu não gostava dele, que isso fique bem claro! — afirmou. — Fomos amigos em algum momento que não lembro, mas ele sempre ficava mentindo sobre tudo, embora ainda não fosse tão viciado em bebidas, mas fumar... Humph! Ele fumava todos os dias. Já teve até a cara de pau de pedir dinheiro emprestado pra comprar cartelas de cigarro. 

— Você... emprestou...? 

Novamente, a mamífera acinzentada foi alvo do olhar descrente dela. 

— Claro que não! Ele se irritou por causa disso e foi embora, dizendo que nunca mais ia querer me ver. Queria me magoar, mas fiquei é aliviada. — A tatu pausou e continuou: — Há cerca de dois meses, ele apareceu aqui dizendo que precisava dum lugar para ficar. Disse que havia, após uma noite de dores, ido ao médico e ficou sabendo que tinha, no máximo, uns quatro meses de vida. Eu disse pra avisar a família dele, disse pra que fosse ficar perto dos parentes, mas ele deu uma de melodramático e falou: “Ninguém liga pra minha existência. Você é a única que pode me ajudar”. — Suspirou novamente. — Não consegui dizer não! Desde que o conheci, ele sempre se mostrou um grande estúpido, mas eu não sentia raiva dele por causa de suas mentiras ou seu vício em fumo, eu sentia era pena. 

Não durou três segundos depois dessa fala ser dita que uma caminhonete estacionou bem próximo a duas mamíferas. De dentro dela saiu uma doninha com cerca de quase trinta anos, pelos de coloração magenta que pareciam vermelhos por causa da luz do sol. Seus olhos eram tão violetas quanto os de Judy e sua postura corporal, muito diferente de várias doninhas pela cidade, apresentava alguém que prezava pela boa forma e certamente frequentava alguma academia. Trajava uma blusa regata justa e preta, bermuda táctil de cores cinza, azul e marrom. Com tudo isso junto e misturado, podia facilmente dizer que as doninhas certamente davam em cima dele com alguma frequência, isso se já não tivesse algum relacionamento ou fosse casado. Beleza jamais seria o que lhe faltaria. Poderia ser até confundido com algum galã de séries. 

— Bom dia, Tia Rochelle! — cumprimentou ele, com um sorriso amigável. 

— De bom esse dia não está tendo nada! — reclamara, sem se importar nem um pingo com toda a cordialidade da atmosfera tranquila que ele carregava. Todavia, a doninha não pareceu afetado por aquelas palavras. Muito pelo contrário, riu. 

— A senhora nunca muda, pelo que vejo — comentou, sorrindo. Suas írises focaram aos da coelha, os quais, por terem a mesma coloração dos seus, além de serem enormes, o surpreendeu. Contudo, diferente do que ela pensava, ele não se aproximou e a cumprimentou, apenas desviou o olhar para o prédio e disse: 

— Ele finalmente se foi, não? 

— Sim — respondeu a tatu. — Deveria ter chegado mais cedo se queria se despedir. 

— Eu preferia nem estar aqui. — Suspirou. — Acontece que fui escolhido lá em casa para tratar de toda a burocracia do enterro e tal, além de vir buscar as coisas dele também. 

Dito isso, todos voltaram a ficar em silêncio apenas aguardando que todo o processo no prédio fosse realizado por completo. Ação essa que durou cerca de uma hora, ou seja, quando os mamíferos do Sistema de Desinfestação e Desinfecção saíram e liberaram a entrada, já era quase dez da manhã. Eles informaram a todos que o cheiro no local estaria diferente do natural, mas suportável, o qual duraria cerca de alguns dias para desaparecer por completo. De fato, não haveria como o corpo dum morto apodrecer em tão pouco tempo, todavia o apartamento de Samael era sempre fechado e ele só saía às noites para comprar bebidas, sem contar que certamente nunca limpou o local, o que resultou no surgimento de uma quantidade enorme de bactérias. Essas, ao notarem um defunto ao qual poderiam fazer seu trabalho, o atacaram de todos os lados, o que acelerou muito a sua decomposição, um processo nada bonito. 

Assim que a coelha voltou para dentro do prédio, percebera que o odor na área se tratava de um difícil de descrever. Parecia que um animal que odeia tomar banho havia apenas passado perfume por cima dos pelos, como se isso fosse enganar alguém. Na verdade, algumas mamíferas, em época, usam este artifício para mascarar seus feromônios extravagantes. 

Com ou sem o odor estranho, a coelha tratou de entrar no seu apartamento para continuar o plano que havia definido logo após acordar, embora já tenha perdido um bom tempo. Portanto, realizou suas higienes matinais em primeiro lugar, com todo aquele arrastar de balde que, muitas vezes, tirava-a do sério; vestiu novamente sua blusa rósea, mas na parte de baixo, optou por um short colado de cores preto e lilás, pois por ser uma vestimenta leve, combinaria perfeitamente com a caminhada que faria em breve; tratou de ir ao porão do prédio e lavou todas as roupas que precisasse, usando a secadora em seguida e, tão logo, tudo estava limpinho e seco, especialmente seu uniforme; preparou uma vitamina de cenouras das compras que Nick fizera na noite anterior; pegou seu celular, o fone de ouvido, suas chaves, trancou a porta e prontificou-se logo para sair dali. Embora sem o futum anterior, ainda não se tratava dum odor ao qual se acostumará com tanta facilidade quanto gostaria. 

Já próxima da porta para fora do prédio, suas orelhas captaram alguns sons de chacoalhar a pequenas batidas. Virou-se de costas e notou que, pelo corredor onde fica seu apartamento, aquela doninha de antes vinha carregando uma caixa de papelão bem grande que balançava pra lá e pra cá. Não tardou em perceber que ele, ao pisar no seu tapete, perdeu o equilíbrio e logo deixaria tudo se espatifar no chão. Contudo, levando em conta sua grande agilidade, Judy se apressou e conseguiu pegar o fundo da caixa e impedir que o que quer que esteja lá dentro não se quebrasse. 

Os dois se olharam pelo lado do objeto que seguravam, novamente encarando seus olhos semelhantes. 

— Precisa de ajuda? — questionou-o sorrindo. 

— É... Eu acho que preciso. 

Juntos e devagar, ambos carregaram a caixa até à traseira da caminhonete pertencente a doninha, a qual já estava repleta de coisas, como um sofá, televisão pequenina, rádio, quase três dúzias de garrafas de Moon Delight, roupas, calçados, revistas Playboy, alguns lençóis rasgados, e até uns três cadernos que sabe se lá para que eram usados. Erguer a caixa, mesmo sendo um pouco pesada, não foi problema para os dois mamíferos, visto que sempre prezaram pelo exercício físico e boa forma. A doninha subiu na traseira e passou a organizar o objeto de alguma forma que não balançasse tanto quando o veículo entrasse em movimento. A coelha, vendo-o, decidiu puxar assunto. 

— Então, ele era seu...? — deixou o questionamento no ar. 

— Meu pai — respondera-a, sem apresentar qualquer mudança de expressão. 

— Eu lamento sua perda... — murmurou Judy. 

Primeiramente, a doninha a olhou um pouco intrigado, mas não tardou em soltar um riso, descer da traseira da caminhonete, olhá-la nos olhos e levantar os ombros. 

— Não lamente — disse ele. Dessa vez, notou-se uma mudança em seu semblante, mas não se tratava de tristeza exatamente, mas sim de amargura. — Ele não valia a pena. Sempre foi um mamífero desprezível. Na verdade, o meu nascimento junto com o das minhas irmãs nem havia sido planejado, muito menos aceito. Ele só queria saber de curtir a vida adoidado, um completo libertino. Responsabilidades sempre estiveram fora de seus planos. 

— Você — começou a coelha, mas um pouco hesitante — odiava ele? 

— Não... — respondeu tranquilamente. — Quando se odeia alguém, você deseja até mesmo sua morte. Mesmo depois dele nos abandonar nas patas de minha mãe, nunca quis que ele morresse ou passasse por alguma situação ruim. Deve ser porque, algumas vezes, eu via aquelas famílias alegres se ajudando a cuidar da casa ou assistindo filmes juntos. Acho que nunca o odiei de fato porque achei que ele tinha alguma salvação, e que poderia voltar pra gente. Quando consegui um emprego, eu enviava a ele uma quantia de dinheiro junto com umas cartas pedindo que nos visitasse ou que só as respondesse, já que ele nunca teve celular. Mas... quando eu organizava as coisas dele para trazer para cá, acabei as encontrando, e pelo visto ele nunca sequer as abriu — contara, com uma voz de pesar, mas para logo em seguida soltar uma risada. — Só agora descobri que mantive minha fé no animal errado. 

Por alguma razão, a situação a qual ele passou chegava a ser familiar para a coelha, mas nada relacionado ao raposo, e sim a quem, certa vez, ela acreditou que seria a sua melhor amiga na metrópole. Desde o dia de sua graduação, ela se mostrou alguém confiável e sempre disposta a ajudar, o que veio muito a calhar no momento que Bogo a demitira, mas se viu obrigado a voltar em sua decisão. Quando necessitou de ajuda para monitorar as câmeras de trânsito, ela se fez rapidamente presente e não negou qualquer forma de apoio que pudesse lhe dar. Contudo, no final das contas, Bellwether se mostrou alguém indigna de confiança, revelando uma faceta muito cruel e sem coração, sobretudo após ficar claro que uma das maiores tensões que se passou por toda a metrópole havia sido ideia sua. Não apenas isso, pois, ao confrontarem-na no Museu de História Natural, não parecia de jeito nenhum que aquela ovelha tinha quaisquer intenções de parar com todo o seu plano maquiavélico. 

Não é fácil saber em quem confiar até que esse alguém prove com atos que merece confiança, coisa essa que muitos não estão interessados em fazer porque, simplesmente, vai ser necessário esforço. Bom, isso não é de todo ruim, pois se torna preferível que se confie em poucos mamíferos, contanto que estes valham a pena, ou seja, Judy sabe que os diversos colegas feitos na metrópole durante o tempo de Academia do raposo não são, de certa forma, confiáveis. 

— Eu peço desculpas — disse a doninha, cortando seus pensamentos. — De repente, aqui estou eu, contando os meus problemas a você, sendo que nem sei seu nome — esclareceu ele, como se dissesse: “Eu sou muito tonto, você não acha?”. Levantou os ombros. 

Judy lembrou-se por um instante da conversa que tivera com Nick: 

  

Assim como naquele momento, há mais de nove meses, quando 

ambos haviam se reencontrado, o coração da menor pegou fogo. 

"Coelhos... Tão emotivos..." 

"Não é isso! Nick, tem algo que... preciso te contar..." 

  

Suspirou tranquila ao checar a situação da doninha a sua frente, com olhar afável ela fez seu monologo: — Sem problemas! — exclamou, lhe direcionando um sorriso simpático. — Acredite! Eu sei muito bem o quão bom é desabafar. 

Tais palavras foram, para a doninha, motivos para também sorrir para coelha, o que tornou o clima entre os dois ainda mais leve e favorável. Todavia, pena que não poderiam ficar assim por mais alguns minutos, visto que ele ainda tinha que passar em alguns lugares para resolver toda a burocracia envolvendo o seu detestável pai. Nisso, suspirou tristonho. 

— Tenho que ir agora — pronunciou, levantando levemente os ombros. — Eu agradeço pela ajuda mais cedo, e foi um prazer conhecê-la, senhorita... — Estendeu a pata. 

— Hopps! Judy Hopps! — Apertou a pata dele, balançando-a. 

Logo, a doninha levou a pata à testa lembrando-se dela: “Judy Hopps; DPZ; Uivantes; é claro!”, pensou. Não crê como não a reconheceu, mas também né? Há milhares de coelhas na metrópole e muitos deles podem ser bastante parecidos em aparência. De qualquer modo, tratou de não demonstrar sua pequena confusão. Firmou mais ainda a sua pata na dela e, ainda sorrindo, disse: 

— Senhorita Hopps, eu me chamo Robin. 

E, este foi o último diálogo que tiveram. A doninha entrou na sua caminhonete e desapareceu dali. Judy o observou até que saísse do seu campo de visão, e, após isso, colocou seu celular para tocar músicas no sentido aleatório e iniciou a sua manhã de exercícios, a qual, infelizmente, não seria tão longa quanto lhe agradaria. Bom, a vida é tão recheada de imprevistos quanto um bolo de massa. 

Após cerca de meia hora de corrida, a coelha já se sentia muito melhor. Este sentimento lhe deixava mais disposta, dando-lhe a determinação que sempre gostou de ter, a qual se tratava dum elemento importante para que realizasse as coisas que era de seu agrado, sendo trabalhar no DPZ a primeira e mais importante delas. 

Aos poucos, ia ficando ofegante e sentindo cansaço, mas isso não era nada preocupante. Muito pelo contrário, era satisfatório, porquanto Judy preferia mil vezes mais essa sensação que todas as tormentas combinadas que teve no dia anterior. A sensação de sair do apartamento para se exercitar e respirar os ares da cidade – embora não tão puros quanto os das Tocas – lhes deixavam tão agradecida que sequer se lembrava de como fora todo o seu sofrimento de um dia atrás. Mesmo que fizesse esforço para lembrar-se de toda a tortura, o efeito não seria terrível, como se as más sensações estivessem perdidas. 

Mesmo com músicas tocando pelos fones em suas orelhas, a coelha não dava certa atenção à letra, tanto que às vezes a música acabava e ela se pegava pensando: “Qual foi a que acabou de tocar mesmo?”. Isso se dava por sua atenção estar direcionada a sua volta, pois via de tudo: mamíferos em compras; filhotes brincando, lhes dando novamente aquela sensação estranha de cobrança, grupos de adolescentes – um deles com uma bola de basquete – andando juntos, provavelmente indo a alguma quadra; Veículos que não paravam de zanzar, sendo que, em alguns deles, havia, em seu teto, vários volumes e até mesmo algumas pranchas. Se a coelha bem se lembra, todos os domingos, na Praça Saara, há uma “grande competição” de surfistas, sendo que não é uma competição exatamente. Apenas uma galera que se juntaram pelas redes sociais e decidiram realizar isso todas as semanas, como forma de juntas a galera e se divertir, com água de coco, sol quente, voleibol, futebol na areia – uma atividade dose pra leão, pois é muito cansativa – e claro, as ondas. Pensar nisso realmente lhe ascendeu o desejo de ir para lá também, mas não era o único lugar em Zootopia proveitoso a se visitar num dia de folga, e as praias nem são as excepcionais atrações na Praça Saara. A Tundralândia, por exemplo, afinal, quem não gostaria de patinar no gelo, visitar seus luxuosos restaurantes ou apenas brincar na neve? 

Neste instante, sua imaginação a presenteou com imagens de seus muitos familiares morando num local como o paraíso branco. Para onde quer que fosse olhar, veria eles se divertindo de todas as formas possíveis, e também pensou sobre um possível chocolate quente no final do dia. Se bem que teria de serem muitas canecas para que desse pra todo mundo. Se bem que, qualquer que fosse a refeição, seja nessa fantasia da imaginação ou lá nas Tocas mesmo, tudo teria de ser em grandiosas quantidades. Embora os filhotes de coelho comam pouco, seus estômagos digerem muito rápido a comida, ou seja, eles comem pouco, mas muitas vezes ao dia, o que poderia ser considerado como a alimentação de um adulto. Por exatamente esse motivo que esses roedores, caso queiram ter uma família grandinha, tendem a comprar terras e preparar o seu próprio alimento. No caso da cidade, seria mais complicado, pois nem todos os filhos concordariam em conseguir um emprego e continuar a viver com os pais por muito tempo. 

Agora, se Judy tivesse filhotes, é incerto se ela voltaria às Tocas ou continuaria sua vida em Zootopia. Embora muitos de seus parentes fossem contra, provavelmente escolheria a segunda opção. Seria um pouco egoísta permanecer, mas não se imagina saindo para sempre dessa gigantesca cidade, pois a mesma já fazia parte de sua vida. Ela gosta das Tocas, de todo mundo que lá vive, dos campos de plantação e tudo mais, contudo seria, para si, desconfortável deixar tudo para trás, incluindo aqueles com quem criou um relacionamento. Sempre se esforçara para isso desde que foi uma filhotinha de coelho, embora sua mentalidade não fosse tão infantil como a sua aparência lhe fazia parecer para quem quer que olhasse. 

Outro motivo seria que, de algum modo, não sente que seria completamente feliz caso não houvesse mais um Nicholas Wilde para irritá-la. Sem dúvida, é difícil escolher entre viver com a sua família ou continuar a sua vida longe deles, e Judy se lembra muito bem que, em certo momento de sua adolescência, essa dúvida lhe pesou na cabeça, porquanto amava seus pais demais. Deixá-los seria entristecedor, sobretudo por não ser provável a favor com relação a sua decisão, mas, ainda assim, apoiavam-na do jeito deles, como lhes oferecendo várias armas de proteção contra os vulpinos ou teimando em lhes enviar uma quantia em dinheiro todo mês. Ela já até se cansou de repetir para eles que era uma adulta e sabia se virar sozinha, mas isso de nada adiantava aos dois. Bom, sua mãe Bonnie parecia mais a par da situação, embora ainda aparentemente um pouco preocupada, mas o grande problema mesmo era seu pai Stu. Lembra-se de ele ter ligado algumas vezes apenas para saber como ela estava e falar coisas como: “Se alguém se atrever a tocar em você, meta-lhe a pata na cara!”. 

Jamais a molestaram, e caso isso venha a acontecer, algo bem pior que meta-lhe a pata na cara iria acontecer ao indivíduo. Bastava mostrar a ele seu distintivo que o cidadão certamente ficaria branco de medo, e se tentasse correr, teria que ser alguém que adora se exercitar para conseguir se igualar a ela. Embora sem nenhuma molesta, era muito perceptível que ali, enquanto realizava sua corrida, com todas aquelas roupas curtas e coladas, vários mamíferos viravam o olhar para ela, sendo que alguns deles estavam de patas dadas com suas namoradas. Mas o pior mesmo foi quando um pai – com um filhote no colo – lhe observou por mais tempo do que deveria, visto que o pequenino o pegou no flagra e questionou-o: — Pai, conhece aquela coelha? 

Judy só ouviu essa fala porque, no instante em que flagou, a música havia acabado, dando espaço para que outra tocasse em seu lugar. Ela virou seu rosto, percebeu o coelho fingir seu desinteresse, diferente do seu filhote. Deu um “tchauzinho” de longe ao menininho, que retribuiu o aceno e sorriu. Logo, pôde-se ouvir: “Ela deu ‘tchau’ pra mim!”. 

Não custou chegar a uma pequena área de exercitação para animais de pequeno porte, com barras verticais e horizontais, alguns aparelhos para trabalhar tanto as pernas como os braços, etc.



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