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História Pirates - Capítulo 15


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Notas do Autor


Capitulo editado com sucesso, agora com a betagem que a @bluenlima aceitou em fazer de ultima hora, obrigada!

Confesso que fiquei um pouco com o pé para trás com esse capítulo, afinal o Hamish é um personagem tão único, diferente, que eu tive medo em usá-lo de forma errada e não sair como deveria. Mas fico feliz em ver que vocês gostaram do resultado. Enfim, sem demoras, o capítulo.

Boa leitura!

Capítulo 15 - O resgate traçado


Fanfic / Fanfiction Pirates - Capítulo 15 - O resgate traçado

"Faço minhas próprias regras

Eu realmente não separo, apenas escolho

Eu não envio fotos, só tiro

Chopper ficando ferrado

Eu disse a ela que é T.S.P.B., que significa: traga sua própria bebida

A culpa é de Deus, ele quem me colocou no topo

Não podem me prender, tem que passar os tiras

Nunca tive o movimento na queda

Manos tentando mover o Scott e mover esse profundo

Tentando ultrapassar, a merda é profunda

Tem que agir como um tolo com o esquadrão"

 

No Bystanders - Travis Scott ft Sheck Wes & Juice WRLD

 

Porto de Cagliari, Itália

 

Em um dos depósitos do segundo deck do navio A Prateada, estava Hamish exercendo seu trabalho, mesmo que naqueles dias ele devesse ter aproveitado a paz das praias italianas de Cagliari. Ele estava organizando tudo aquilo que comprou de mantimentos para os animais cuidados por si dentro do navio. O mais importante na criação de qualquer outro ser que não seja os marinheiros, era manter a limpeza do local e a comida deles a salvo de qualquer roedor e do alcance de seus próprios animais domésticos. Era um dos deveres de Hamish, imposto por Dante se ele quisesse manter seus companheiros. 

— Sabem, eu acredito que tenha previsto as atitudes que o capitão ia tomar. Concordam? 

O cão e a águia ao seu lado continuaram encarando-o enquanto, respectivamente, colocavam a língua para fora e se coçava. 

— Suponho que isso seja um sim. Vejam bem. — E pegou um cesto, carregando-o até uma pilha organizada. — Enquanto alguns membros foram obter lucro, como o Samuel e Orion, outros tiveram lazer, como eu e a Janet. Mas acredito que era um tanto óbvio que, uma hora ou outra, o capitão fosse quebrar mais uma garrafa na cabeça de alguém.

De bom humor, Hamish olhou para seus companheiros, mas apenas obteve o latido de Sr. Alfie, fazendo o marinheiro supor novamente que eles concordavam consigo. Suspirando, pegou mais um cesto e levou novamente para a pilha de mantimentos. Como Hamish estava com um mal pressentimento — ou apenas profetizando o curso das ações de seu capitão —, ele não ficou nem mesmo duas horas longe do navio durante o período que atracaram. Apenas o suficiente para cuidar de suas responsabilidades na ilha. Dado que ele se considerava um bom barganhador, Hamish conseguiu tudo que queria por pouco, tanto que toda as pilhas arrumadas seriam mais do que o suficiente para mais de um ano, considerando que o preço saiu uma pechincha.

— Hamish! 

Ele virou em direção ao chamado, pegando um caixote mais pesado que as outras coisas compradas. Janet abriu a porta daquela pequena sala, olhando para Hamish em expectativa. Aquela era uma cena um tanto quanto rara, normalmente não depositavam esse tipo de pressão para cima dele. 

— Conseguiu? Precisamos ser rápidos com isso. 

— Infelizmente, quero me desculpar, mas não. O James estava faminto, precisei alimentá-lo antes que ele fizesse uma anarquia.

— Como se isso fosse possível! 

Hamish franziu a sobrancelha, tentando decifrar se a outra estava de fato brava consigo, ou apenas sendo sarcástica. Voltando ao que estava fazendo, ele deixou o caixote por cima da pilha, satisfeito com sua própria façanha, admirando seu trabalho. Ouviu um suspiro exasperado, decidindo parar de procrastinar e virou para Janet, pegando a luva presa ao seu cinto, está usada para que as garras de James — a águia — não o machucassem. Estendeu o braço para que a ave viesse consigo, e a ordem muda sendo imediatamente atendida. Sem precisar dizer algo, Sr. Alfie seguiu seus passos, como uma sombra viva e animadíssima.

— Você está com a mensagem? 

A pergunta de Janet lhe recordou de quando a mulher correu até onde ele estava, refletindo as ordens do capitão do A Prateada em seus dizeres. 

— Não, o capitão que está com ela lá no convés — ele respondeu.

Janet concordou com um murmúrio. Ela seguia em frente de cabeça erguida, atraindo o olhar de Hamish. No andar em que estavam, a pouca iluminação natural parecia ser puxada para a mulher, deixando Hamish abismado. Entretanto, ele sabia que esse tipo de observação convinha pelos sentimentos que tinha pela francesa.

— Qual a sua opinião sobre a quantidade de problemas que o capitão desenvolveu nesse meio tempo? — Hamish desabafou sua dúvida, tomando uma entonação mais séria, para clarear seus pensamentos.

Janet parou por um instante, olhando diretamente para ele, como se a indagação fosse algo que ela estivera esperando, ou, pelo menos, ansiando.

— Foi uma basbaquice — contou, suavemente.

Hamish ergueu as sobrancelhas, surpreso com as palavras da outra. Confessava esperar algo pior, um julgamento de que Dante estava louco, insano, e o que mais tiver para descrever um homem alienado. Fazendo Hamish se perguntar por quê ela estaria, de alguma forma, mais mansa quanto ao ocorrido na estalagem.

— Você acha isso mesmo? — Perguntou duvidosamente.

— Claro que foi de uma estupidez tremenda participar de brigas de bar. Mas quando se olha o contexto geral, a visão do capitão, por mais que seja restritiva, tem certa verdade por trás.

— Quer dizer que ele estava certo? — Ele indagou, divertido com o rumo que Janet estava traçando. 

— Não! — Exclamou.

Janet parou seus passos novamente. Com um pé sobre o primeiro degrau que levava aos decks superiores e ao convés, ela segurava na corda de apoio, encarando Hamish, este ao seu lado. 

— Você está me confundindo.

— Eu conversei com algumas pessoas da estalagem depois que o capitão deu a ordem de partirmos. Os homens com quem eles brigaram estavam falando asneiras demais para quem não conhece um lugar que nunca esteve. Vendo a situação inteira, não consigo ficar surpresa em ver que Dante quebrou uma garrafa na cabeça de alguém.

— E não qualquer alguém, um lorde.

Janet concordou, iniciando a subida, fazendo Hamish segui-la de perto, com Sr. Alfie no encalço.

— Dante não estava certo, mas os motivos que o levaram a fazer o que ele fez, não foi de todo errado.

Como se a fala de Janet tivesse lhe puxado lembranças, Hamish se lembrou de um livro que lera em algum momento antes de ter entrado para a tripulação do A Prateada. 

— Os fins justificam os meios — Hamish concluiu. 

Janet assentiu, provavelmente não entendendo ou sabendo de onde Hamish tirou o que ele havia acabado de dizer. Tentando desviar do que tinha proferido, ele lembrou do fato de Dante estar lhe inquirindo havia algumas horas.

— Fico imaginando o que pode ter incentivado essa enorme pressa para enviar a mensagem — Hamish proferiu seu pensamento, estendo a deixa para que Janet lhe contasse. 

Lado a lado eles chegaram ao último deck antes do convés, trocaram olhares e Hamish não pode se impedir de instantaneamente curvar o lábio em um sorriso ladino. A francesa revirou os olhos e acelerou os passos, muito provavelmente tentando desviar do olhar de Hamish sobre si, tal pequena atitude da mulher fez ele achá-la uma graça, por mais que talvez aquele fosse um sinal do quanto ela o achava irresponsável. Afinal, ele sabia da grandiosa capacidade de Janet estar sempre a par de todos os ocorridos que aconteciam pelo navio e com os tripulantes, então ela poderia lhe contar o que Dante tanto queria, antes deles chegarem de fato à presença do capitão do navio. Porém, que a realidade seja dita, se Hamish tivesse se apressado um pouco mais, já teria essa resposta em suas mãos.

Ele olhou brevemente para os degraus que estava subindo, tomando cuidado com seu equilíbrio para não desestabilizar James, empoleirado em seu braço. Erguendo os olhos, viu a calça de couro que Janet vestia e pensou em como aquilo completava a visão que tinha dela, era uma imagem que ele não se cansava de assistir. Respirou fundo, nos últimos degraus e perto do convés, Hamish se preparou para se unir a todos os tripulantes que deveriam estar a tão poucos metros de distância. Dando uma última olhada as costas daquela que no dado momento estava em silêncio, ele se conteve em preservar tal quietude entre os dois, e chegou ao último degrau. Hamish teve que colocar a mão sobre os olhos para proteger da claridade intensa tão abruptamente. 

Quando seus olhos se acostumaram, ele procurou aqueles cabelos castanhos e a baixa estatura da mulher, não tardando a encontrá-la mais a frente, próxima ao mastro, junto com Sam. O outro estava olhando para um papel totalmente amassado em suas mãos, fazendo Hamish se perguntar o que poderia ser tão interessante, mas ao se aproximar com a águia no braço, Bingley o encarou, dobrando os papéis. O homem o recebeu com um aceno amigável, estendendo o braço quando Hamish estava suficientemente perto para fazer um carinho em James, este parecendo ficar contente com o chamego. 

— E então, o que podemos fazer diante da situação em que estamos? 

A pergunta de Janet fez Hamish olhar para Bingley, esperando que o outro tivesse as respostas que eles precisavam.

— Como os franceses ainda não estão completamente recuperados, podemos fazer algumas coisas para atrasá-los — respondeu, olhando para James. 

— E como faríamos isso? Matar não seria a melhor das opções, visando o que já foi feito — a mulher retorquiu, trocando olhares com Hamish.

— Teremos que ter um plano muito bom, mas nada de garrafas dessa vez — Hamish zombou, mesmo que tivesse um fundo de verdade em sua fala, fazendo Sam olhar para ele dessa vez.

— Fiquem despreocupados, já cuidamos disso.

Hamish e Janet novamente trocaram olhares, questionando seriamente o que Samuel poderia ter feito naquela situação. Talvez envenenado a água dos franceses para eles ficarem mais tempo de cama? Ou então, trancaram eles em algum lugar? Apesar dessa não ser uma boa solução, dado que eles iam sair de uma forma ou de outra quando alguém os encontrassem, supondo claramente que todos que vieram com eles se preocupam o suficiente com a segurança deles, ainda mais com o estrago que tiveram quando se encontraram com os colegas de Hamish.

— Vou perguntar então, o que diabos você armou? 

— Não armei nada — ele respondeu, aparentemente ofendido. — O capitão que defraudou o navio deles.

Hamish olhou imediatamente para Janet, esperando ver no rosto dela sinais de que compreendia o que foi contado, até mesmo com um pouco de caçoação devido a já saber o que Sam falava. Entretanto, o farfalhar da voz de Janet demonstrou que ela não sabia do que o imediato estava falando, fato  comprovado quando ela não teve uma resposta concreta para dar quando todos olharam para ela. A francesa parecia até mesmo indignada por não saber daquela notícia.

— Que vista inusitada, a senhorita Corbeau sem uma resposta para dar! — A voz grossa e absolutamente reconhecível fez todos olharem para quem tinha chegado, e era Dante. 

Hamish sentiu vontade de rir ao ver o estado do capitão, claro que o faria com o maior respeito, apesar dele estar absolutamente acabado. O homem vinha a passos pesados, e sua estrutura alta e corcunda era a maior prova de que ele estava representando definitivamente o significado de tal palavra. Hamish sabia que o capitão vinha de uma educação semelhante a sua, então a postura que ele estava no momento era uma completa afronta aos ensinamentos que recebeu, sendo assim, ele deveria estar sempre com as costas retas e rosto erguido. A falta disso fazia Hamish rir, dado que aquilo também era uma das maiores provas da vida que ele tinha atualmente o havia mudado.

— Você sabotou os franceses, sem que soubéssemos? — Janet perguntou completamente injuriada.

—  O que? 

Dante pegou os papéis que estavam nas mãos de Sam e brevemente os leu, sem  parecer se importar em dar as respostas que Janet queria, afinal, essa era uma das coisas que o capitão tinha maior habilidade.  

— Pare de brincar, Dante. Não faz mal algum responder a pergunta — Sam se intrometeu, pegando os papéis e os guardando no casaco.

— Mas é claro que faz! Temos pouco tempo, não posso fazer isso  — e indicou Hamish, Janet e Sam com o indicador — que vocês estão fazendo. O tempo está correndo e eu o estou perdendo. 

—  Temos um pouco mais até não termos nenhum — Sam contrapôs.

Eles trocaram olhares, inclusive com Samuel erguendo as sobrancelhas, como se estivesse esperando uma resposta e tivesse pronto para debater a qualquer coisa que Dante pudesse dizer. 

— Você está… 

— Não estou! 

— Ah, claro — no entanto, Dante não pareceu convencido. 

— Então, o que vocês dois estão escondendo? — Hamish teve que perguntar, com um sorriso brincalhão em seus lábios. 

— O que o leva a acreditar que têm algo escondido? — Sam prontamente respondeu, como Hamish esperava que ele fosse fazer com o capitão deles. 

— Vocês dois são suspeitos demais — Janet expôs.

Hamish assentiu, concordando com Janet, observando os dois de cargos mais altos dentro do navio. 

— Não há nada acontecendo aqui. Agora, não, eu não fiz nada pelas costas de vocês. Cada um tinha uma tarefa para cumprir, eu não posso simplesmente tirar vocês delas para fazerem outra, ia prejudicar todo o fluxo do Prateada — Dante esclareceu.

— Então como você conseguiu atrapalhar os franceses? — Janet questionou.

— Mandei alguém colocar fogo nos mantimentos, o que ocasionalmente acarretou a um dano no bojo do navio deles. 

— Ocasionalmente — Hamish repetiu, aturdido.

— Então como nessa manhã realizamos esse plano, conseguimos ficar alguns passos à frente dos franceses — Sam concluiu com uma naturalidade notável.

— Como eles estavam com o navio atracado do outro lado do porto, é compreensível que vocês não tenham visto a comoção que decorreu quando eles perceberam a fumaça.

— E o ferimento na cabeça daquele lorde também os impede de viajar tão cedo — Janet compreendeu, aquele plano realmente não havia sido má ideia.

— Evidentemente, somando os danos que eles tiveram, conseguimos no mínimo uma semana.

As palavras de Dante mostraram o quão seriamente já não era o problema que todos ali tinham em mãos, sendo fácil presumir que se eles encontrassem uma forma de se comunicarem com o continente, o tempo estimado seria pouco. Hamish sabia o quão importante poderia ser um filho querido, logo o que eles temiam não era a afronta daqueles lordezinhos, e sim se eles iam pensar numa forma de agir mesmo sem poderem se mover. Eles não podiam se dar ao luxo de esperar ou apenas vigiar a situação deles, para impedir qualquer contato externo. Portanto, se os franceses forem suficientemente inteligentes, eles vão acabar sabendo que a reputação e respeito com A Prateada pode ser maleável em alguns lugares. James lhe cutucou, lembrando-o do que Dante havia pedido para fazer, sem ter dado qualquer explicação antes. Pegou um pedaço de carne seca e deu para a ave, ele estava merecendo uma recompensa.

— Todos já voltaram? Se os atrasamos, devíamos sair tão logo for possível. 

Naquele momento, Dante travou o maxilar, com raiva expressa, não olhando diretamente para ninguém, o que era não só um sinal do óbvio de sua fúria, mas também de sua preocupação. Todos ali já serviam ao italiano a um certo tempo, logo, sabiam que ele ficava preocupado quando não conseguia fazer algo, ou encontrar alguém.

— Mandei um mensageiro para ir até o ponto de encontro que era para Orion estar, mas não o encontraram. 

— Só há uma alternativa para onde ele pode ter ido. Já que eu me encontrei com Hamzeh, ele só tem uma opção para o que quer, e não é um grande segredo o que ele vem fazendo mesmo — Sam falou, colocando em pauta o que todos ali deviam estar pensando. 

 — Ele deve ter ido até Calamosca. É um pouco longe, mas se ele saiu daqui após fazer os acordos, e conseguiu um cavalo, deve estar lá — Hamish disse, olhando para Dante. — Apesar que o pessoal que tem lá…

— São bem desagradáveis.

— Se tivéssemos um relacionamento melhor com eles, poderíamos entrar e sair de lá bem fácil — Sam observou.

— Se tivéssemos um bom relacionamento com eles, teríamos que vender a Janet. Como não foi uma opção, vamos ter que ir e cair fora bem rápido. 

— Você também afogou o capitão deles umas dez vezes.

— Não foram dez vezes Sam, foram no mínimo quinze — Hamish corrigiu, lembrava-se bem da ocasião. 

— O que aconteceu em Calamosca, fica em Calamosca — Janet os interrompeu.

Hamish a entendia, pois querendo ou não, foi para preservá-la que todos fizeram o que fizeram em Calamosca. Vender Janet para a prostituição, ou o que fosse que pensaram que iam fazer com ela, não era sequer uma opção. Daquela vez pelo menos, todos concordaram com o instinto brutal de Dante e deixaram ele destruir o local sem um pingo de remorso na consciência. O grande problema, contudo, era a rede de contrabandistas, ladrões, e uma quantia aceitável de piratas, que ali residia, claro que não o mesmo número do A Prateada, mas o resto da escória compensa o número de marujos que eles não  tinham.

Como eles mantêm sede perto de uma das praias de Calamosca, o acesso é difícil principalmente à luz do dia, se eles verem A Prateada no horizonte, podem muito bem partirem para a agressão, e isso não era almejado no momento. Então James é uma boa opção para a ocasião. Ele era uma ave esperta e bem treinada, consegue ir até lá e voltar em pouco tempo, e Orion reconhecerá James mesmo quando ele ainda estiver no céu. Era algo simples, que todos ali já tinham feito em um momento ou outro a serviço de Dante. Contudo, sendo a primeira vez lidando naquele caso com a escória de Calamosca.

— The Kid

O chamado de Dante lhe puxou dos pensamentos, com o apelido inglês perfeitamente pronunciado. Ele entregou um pequeno pergaminho enrolado cuidadosamente para Hamish, claramente, era a mensagem que Dante queria entregar a Orion. 

— Pensei que era apenas para trazê-lo de volta, senhor. 

— Sim, está certo.

Pela resposta de Dante, tinham algumas coisas que ele não ia falar em voz alta, algo que apenas Orion deve saber. 

— Vamos, pare de fazer caretas, temos que ser rápidos — Dante repreendeu. — Bingley, prepare todos, temos que sair a todo nós do porto.

— Sim, capitão. Você irá…

— Vou ficar na roda de leme — a confirmação foi suficiente para Sam assentir e sair dali gritando ordens a plenos pulmões. — Janet, quero que se prepare, não sabemos qual o estado que nosso homem vai estar.

— Ás ordens! 

Janet correu dali, indo até as escadas que desciam aos decks inferiores, sobrando apenas Hamish junto ao capitão impaciente do navio. Com habilidade, Hamish amarrou a mensagem a ser enviada para Orion nas patas da ave, verificando que ela estava bem presa e não seria facilmente perdida no voo. 

— James, ei, James — a ave virou em sua direção. — Lembra do Orion? Deve ir até ele. 

— Acha melhor enviarmos ele quando estivermos perto de Calamosca? — Dante perguntou, encarando Hamish e a ave.

— Seria um processo mais curto, mas James se lembra dos lugares por onde passou, além do que, ele tem afinidade com Orion, mesmo que não tanta como o Sr. Alfie com Janet. 

— Então quando passarmos pelo primeiro penhasco, pode enviar ele. 

— Deixa conosco! 

Dante os encarou brevemente e acenou, correndo até a ponte de comando para controlar a roda de leme, com Bingley ainda gritando ordens para quem estava fazendo seu trabalho errado. O navio começou a se mexer, com todos correndo para um lado e para o outro, Dante tirava a Prateada do porto em alta velocidade, mostrando sua destreza para controlar aquele grande transporte. Assim que saíram do porto, e a uma distância considerável da ilha, Samuel ordenou que abrissem todas as velas e Hamish não pode perder isso. Correu até o gurupé, onde ele sabia que teria a melhor visão. 

James voou a sua frente, se empoleirando ao gurupé pouco antes que Hamish pudesse se apoiar lá, com apenas Sr. Alfie seguindo seu ritmo. Ao atravessar completamente todo o convés até chegar a proa, tendo a visão privilegiada de assistir a todas as velas sendo soltas e caindo pesadamente até seu limite. De um segundo ao outro, todas as velas se estenderam e foram ricocheteadas na direção de Hamish, mostrando que o vento estava favor d'A Prateada. 

Com as velas abertas, a velocidade aumentou substancialmente com o vento ajudando. E com a desordem de todos gritando as direções, propagando as ordens que Dante e Sam davam, para chegar até o ouvido de todos, parecia que o caminho seria longo. Mas aquela tripulação que Hamish fazia parte, apesar péssimos individualmente, com Dante no timão e Bingley dando as ordens, o navio entrava em uma sincronia invejável.  Faltava apenas Orion, o mestre de velas, para que o navio tivesse seu estado perfeito, mas em sua falta, a vantagem dada pelo vento era mais do que bem-vindo. 

Assim, Hamish logo avistou o primeiro penhasco de Calamosca, onde teoricamente teria uma torre caindo aos pedaços, feita de madeira velha, onde os contrabandistas costumavam se reunir. 

— Hamish! — Um tripulante chamou. — O capitão está te convocando. 

Hamish agradeceu e foi ao outro lado do navio, com seus companheiros animais o seguindo fielmente. Ao chegar perto da ponte de comando, Hamish estendeu o braço para  James pousar ali e para que ele pudesse dar a ordem de voo. Avistou Samuel, que ao ver o inglês, desceu da ponte de comando e chegou perto de dele. 

— Estamos passando pela Rocha de Sant’Elia, Hamish, estamos muito perto. Mais alguns minutos e estaremos passando pela torre, então iremos desacelerar. Prepare James e assim que estivermos de frente para o penhasco, mande ele ir! 

— Pode deixar! 

Hamish tinha um sorriso tão grande em seu rosto, que se alguém parasse para ver sua expressão, ficaria assustado de tanta empolgação em uma situação tão exasperada como aquela. Mas não havia como o inglês não se animar com toda a façanha  feita ali, ficaria melhor apenas se Orion tivesse uma fuga fantástica — provavelmente pulando do penhasco, porém, não era uma opção. 

— Muito bem James, é o seu momento de brilhar! — Hamish exclamou, empolgado. — Lembre-se, encontre o Orion. Apenas ele. Sem distrações! 

A ave começou a abrir as asas, como se estivesse pronto a qualquer momento para alçar voo, enquanto Hamish apenas observava cuidadosamente o momento que ele teria que dar o sinal para James. Pouco a pouco, o penhasco se mostrava cada vez mais perto, maior e próximo que a um segundo atrás. Quando o navio estava alinhado com o gigantesco penhasco, Hamish ergueu o braço para dar impulso a James e gritou:

— Agora! 

James abriu as suas longas asas, com uma envergadura de pouco mais de dois metros, e alçou voo rapidamente, subindo ao céu em direção ao penhasco, rápido como foi treinado. Hamish exclamou em excitação, sem desviar os olhos por um segundo sequer, até James sair de sua visão ao chegar ao topo do penhasco. 

— Muito bem, senhor, James já deve estar próximo de Orion! — Hamish gritou, subindo a ponte de comando. 

— Certo, vamos ficar de olho para ver de que lado ele saí, e claro, verificar se Orion recebeu a mensagem.

— Sim, senhor! 

— Capitão, como vamos pegar Orion? Podemos usar um dos botes para chegar o mais perto possível da praia, talvez — Sam falou, olhando do penhasco para Dante. 

— Tem razão Bingley, parece que tem muitos corais e pedras perto da praia, o navio não vai conseguir chegar muito perto. 

— Sam e eu podemos ir, em dois homens é mais rápido, e Orion não vai ser de grande ajuda cansado da fuga — Hamish sugeriu, olhando para Dante. 

— Sim, vão preparar o bote, quando a águia voltar, lançaremos ele junto com vocês dois! 

Hamish e Sam confirmaram, descendo da ponte de comando e indo até onde os botes eram guardados, sendo três no total. Buscaram o que estava em melhor estado, sem furos e com os dois remos intactos, afinal, os botes eram as últimas coisas que todos lembravam de verificar seu bom estado, então eles estavam esquecidos ali a muito tempo. 

Com a ajuda de outros marujos, pegaram o melhor bote, e amarraram eles em cordas a boreste do navio, o pendurando a uma distância que facilitaria colocá-lo ao mar. Hamish e Samuel, já adiantando o processo, estavam dentro do bote prontos para entrarem em ação, apenas precisavam do sinal que os marujos os colocavam ao mar. 

— James! Ele está vindo do leste da torre! — Janet gritou, apontando para o céu. 

Hamish olhou, vendo sua bela ave fazer a curva para ir até o navio, desacelerando e dando voltas no mastro para perder a velocidade. Quando ela já estava na altura de Hamish, ele estendeu o braço e James pousou, ofegante e obviamente cansado da viagem rápida que fez. Hamish sorriu e fez um breve carinho na ave, averiguando a pata dele e tendo certeza da mensagem ter sido entregue. 

— Orion recebeu a mensagem, desçam a gente! — Hamish gritou, liberando James para ir descansar. 

Dante repetiu a ordem, mandando que eles tivessem cuidado, e rapidamente o bote foi descendo até alcançar o mar, com o navio seguindo adiante. A Prateada desacelerava de forma lenta, tanto que Dante e Samuel começaram o processo de desaceleração poucos minutos após avistarem o penhasco. Entretanto, quando eles estivessem voltando com Orion, o navio já estaria parado em algum ponto um pouco mais a frente. 

— Em sincronia? — Hamish perguntou, trazendo leveza aos dois. 

— Sempre! 

E eles começaram a remar até o leste do penhasco, onde provavelmente Orion desceria, dado que era onde o homem liberou James para voltar. Hamish e Sam, assim como todo o navio quando estava em alto mar, tinham que ter exatamente o mesmo movimento para terem uma boa velocidade, enquanto eles se comunicavam brevemente para evitar rochedos e corais altos demais, que impediria o bote de passar. 

Não mais do que vinte minutos depois, em uma velocidade regrada e próximos o bastante do penhasco e da direção indicada a eles, viram uma movimentação na água, cerca de um pouco mais de cinco metros longe das pedras que circulavam o penhasco. 

— O que é aquilo? — Sam perguntou, indicando aquilo que Hamish estranhara. 

— Deixa eu ver. 

Hamish colocou o seu remo dentro do bote, levantando e com cuidado, indo até a beirada para ver se conseguia identificar aquilo que vinha ritmamente em direção deles. Analisando cuidadosamente, não foi difícil entender o que era, pois logo Hamish estava rindo.

— É o Orion! Ele está nadando até aqui! — Hamish exclamou entre risadas, apoiando-se no bote e batendo na água alegremente. 

— Ele está vindo muito rápido — Sam afirmou, coisa que Hamish não poderia concordar mais. 

— Orion! Orion! 

Hamish gritava, tentando chamar a atenção do tão bom nadador, coisa que felizmente deu certo. Orion parou de nadar, e pela visão que Hamish tinha, ele conseguiu subir em um dos corais ao redor e verificar quem estava gritando tanto. 

— Hamish?! 

— Isso mesmo amigão! Viemos te socorrer! — Hamish respondeu, mais feliz do que esteve o dia todo. 

— Venham mais perto!

— Não! Queremos ver suas habilidades! — Hamish respondeu aos risos. 

— Só pode estar blefando! — A raiva embutida na voz de Orion era como um sopro de verão para Hamish, que estava muito feliz.

— Não estou! Sam está aqui comigo! — Hamish gritou, indo até o dito cujo e levantando o braço dele e abanando.

— Eu vou matar vocês! 

— Estamos esperando felizes pela sua volta! — Sam gritou, tentando apaziguar a situação, mas não deu certo, Orion já havia pulado novamente na água. — Ele está tão puto. 

Hamish riu com a voz sem esperança de Sam, que se sentou novamente, esperando o nadador vir até eles. Todavia, diferente do seu imediato, Hamish foi novamente até a beirada do bote e começou a bater novamente na água, incentivando Orion a nadar até eles, com uma frase animadora. 

— Continue a nadar, Orion! Continue a nadar! Continue a nadar! — E Hamish repetia a mesma coisa, várias vezes, com um sorriso no rosto.

Se era por culpa dos incentivos de Hamish ou não, Orion nadava tão rápido que poucos minutos depois ele havia chegado até o bote e se segurava na borda, tomando fôlego. 

— Vamos, te ajudamos a subir — disse Sam, tentando passar confiança ao homem. 

Orion, no entanto, olhou com tanta raiva para a dupla, que ambos hesitaram em  tocar no nadador, com medo dele os jogar na água e os afogar ali mesmo. Não seria tão difícil, pois Hamish não tinha a mesma estrutura de Orion para resistir ser jogado na água. 

— Vamos lá parceiro, estamos aqui, não estamos? — Hamish perguntou, estendendo a mão, secretamente com medo de que seu temor se realizasse. 

— Saiba — disse Orion, pegando na mão de Hamish. — Que se eu não estivesse tão cansado, a situação seria outra. 

Sem mostrar a violência que tanto Hamish, quanto Sam temiam, Orion apenas pegou na mão do inglês e colocou outra no bote, deixando o outro o puxar, enquanto Sam o segurava pelas roupas. Assim, Orion foi puxado com sucesso para o bote, molhando os outros dois no processo, mas isso, era o de menos. 

— Vocês trouxeram comida? — Foi a primeira pergunta que Orion fez. 

— Não, mas tem um cantil de água — Sam respondeu, pegando um remo e colocando na água. 

— Então vamos indo — Hamish falou alegremente, pegando o outro remo e em um sinal silencioso, ambos começaram a remar sincronicamente. 

— Água — Orion disse, procurando com os olhos, até encontrar deixo de uma das tábuas de madeira e tomar com pressa. 

— Como você conseguiu nadar tão rápido? Parecia que estava deslizando sobre a água! — Hamish perguntou, ainda impressionado com a façanha do companheiro. 

— Não te importa — Orion resmungou, entre um gole e outro. 

— Você nasceu com os piratas, não é? — Bingley perguntou, entre uma passada do remo e outra. 

— Não é um segredo — Orion respondeu. 

— Certamente — Hamish comentou, olhando para o negro com um sorriso. 

— Pare de ficar encarando! 

— Não tem mais nada para olhar! — Hamish retrucou, obviamente se divertindo. 

— Tem um mar inteiro para olhar, pedras, uma praia lá atrás! — Orion exclamou. 

— Mas para que tudo isso se eu tenho um exemplar a minha frente bem mais interessante? 

— Sua gaivota imunda!

A exclamação de Orion se seguiu com ele levantando e tentando dar um tapa na cabeça de Hamish, este se esquivando e por pouco não atingiu Sam, que ficou imobilizado. Orion estava irritado, mas isso não o impediu de perceber que quase havia golpeado seu superior, tal fato sendo a única coisa que o impediu de tentar bater em Hamish novamente. Hamish começou a rir, mesmo com Sam lhe encarando como se ele mesmo fosse o entregar a Marinha Real Britânica naquele momento. 

— Vocês dois, quietos até chegando ao navio. Concordam? — Claramente, não era um pedido. 

— Sim. 

— Sim, imediato. 

O silêncio então se seguiu até que o bote alcançasse o Prateada, o que se deu em pouco mais de um minutos depois, não que a ordem que Samuel deu tivesse impedido Hamish de fazer expressões engraçadas para Orion, este se limitando a encará-lo com a mais profunda raiva enraizada. Quando ao navio e encostaram o bote no mesmo, gritaram e logo os marujos jogaram várias cordas para Hamish e Samuel amarrarem no bote, assim, ele seria erguido até o navio. E para facilitar tal proeza, deixaram que apenas Orion permanecesse dentro do bote, pois ele estava claramente esgotado por todo o nado, com os músculos destroçados, julgava Hamish. 

Os outros dois subiram até o convés pelas cordas em rede que estenderam para eles, onde ambos poderiam escalar facilmente. Quando Hamish e Samuel conseguiram finalmente passar pelas amuradas do navio, viram cerca de vinte homens trazendo Orion e o bote para cima. Com a quantidade de homens ajudando, foi rápida a subida do moreno. 

— Vocês três, vão para as cabines, Janet está esperando vocês lá para cuidarem de qualquer ferimento — Dante ordenou, o que prontamente eles fizeram. 

Hamish e Bingley ajudaram Orion a sair do bote, inclusive, levaram-no até as cabines que Dante indicou, afinal o homem não estava em condições de andar sozinho sem tropeçar ou cair. Enquanto iam ao local indicado, Hamish conseguia ouvir claramente o capitão distribuindo ordens para os marujos que estavam no convés, e liberando todos para comerem e descansarem quando estivessem a uma distância segura de Calamosca. 

Quando adentraram o corredor onde terminava nas cabines, Hamish e suas companias rapidamente perceberam que deveriam ir até a cabine do capitão, pois era a única porta aberta, e era de lá que vinha o cheiro forte de ervas curativas. Ao chegarem, Janet os recebeu, colocando Orion particularmente deitado em uma cama improvisada, e Bingley sentou em uma das cadeiras, enquanto Hamish afirmou que estava bem e permaneceu em pé. Hamish se apoiou sobre a parede, ali percebendo que Sr. Alfie estava na cabine também, deitado perto de onde Janet estava tratando Orion. Os objetos que tinham na cabine se mexeram, mostrando que o navio começara a tomar velocidade, e julgando o movimento das águas vistas por Hamish pela janela da cabine, eles estavam bem rápidos. 

Janet obrigou Orion a beber uma sopa nutritiva, e pelos espirros que Sam estava tendo, a mulher devia ter usado alguma das plantas que o mesmo era alérgico. Hamish observava a tudo, bebendo goles longos do chá nutritivo que Janet tinha preparado para ele e para Sam, de acordo com a mulher, iria repor suas energias. 

— Vocês estão bem? — A voz de Dante invadiu o recinto, fazendo todos arrumarem suas posturas para receberem o capitão. — Relaxem, vocês estão aqui para se recuperarem. 

— Orion está exausto, vai ter que ficar em repouso e dormir por longas horas, já Sam e Hamish precisam comer e ficarem quietos por um tempo, precisam só relaxar. 

— Certo, fiquem aqui até se sentirem melhores, o cozinheiro já está fazendo a comida. 

— Logo eles poderão ir, nada que um bom assento não traga energias a eles de novo — falou Janet, terminando de enfaixar a perna de Orion, que se cortou nos corais.

Dante assentiu e foi até atrás de sua mesa, sentando na cadeira e concordando brevemente, olhando para os papéis por cima da mesa e suspirando pesarosamente. Hamish franziu o cenho, esperando para ver o que Dante estava com vontade de falar, pois só poderia significar aquilo o suspirar.

— Lowe teria vergonha ao ver o que sua tripulação fez com seu legado — Dante revelou, fazendo todos o olharem.

— Lowe? 

O comentário de Dante chamou a atenção de Hamish, principalmente por esse nome nunca ter passado pela memória dele, que normalmente pega qualquer mínimo detalhe e armazena para usar em algum momento futuro. Sempre é bom ter algum argumento bom para momentos diversos, já que sua lábia não consegue abrir todas as portas que ele precisa passar. E logo no meio em que Hamish estava inserido, ele tinha o cuidado de saber com quem vai se meter, e Lowe nunca foi um nome citado, ainda mais um com a  importância que Dante aparentemente o deu.

— Não conhece, garoto? — Orion perguntou, entre um gole e outro de água. — O infame Ned Lowe, um dos mais cruéis e famigerados piratas que já navegou por essas águas. 

— Como você sabe disso? — Janet questionou, parando o tratamento que dava para o resgatado.

— Estou impressionado em como vocês não sabiam! 

— Apesar que não há muito o que cobrar, não é nenhuma informação que todos devem saber — Dante comentou, desviando o olhar até Hamish. — Mas estou surpreso que você não sabe de quem estamos falando. 

Hamish sorriu amarelo, mas nenhum pouco satisfeito com a afirmação que foi feita para si, sinceramente, parecia uma afronta ao seu conhecimento. Estava se sentindo pressionado, e uma coisa que Hamish sente asco é se sentir de tal modo. Assim, mantendo seu sorriso imperturbável, sentou em uma das cadeiras e colocou os pés sobre a mesa, batendo as mãos e encarando seu capitão. 

— Ora essa senhor, ter conhecimento sobre aqueles que estão no fundo do poço não está na minha grade de responsabilidades. 

— Mas é claro que não está — Dante respondeu com um sorriso divertido no rosto. 

Não era o que Hamish estava esperando, todavia, existem alguns momento que não dá para saber o que esperar de Dante Boccaccio, e por isso, ele deixaria aquela observação para outro momento. 

— Palermas, Lowe era o capitão daqueles desgraçados de Calamosca — o relato de Orion chamou a atenção de Hamish e Janet, que continuava com os curativos. — Quando Ned Lowe foi enforcado em Martinica, o que restou da tripulação fugiu, eles vagaram por muitos lugares até chegarem à Itália alguns anos atrás. 

— Isso foi em meados de quando estavam caçando os piratas como loucos, a Marinha Real Britânica teve muito lucro nessa história — Sam completou, cuspindo após dizer o nome do exército do rei inglês. 

— Se foi nesse período, eles devem ter ficado desfalcados com a perda do capitão e a perseguição em massa que estava se seguindo — Janet especulou, mas Hamish teve que a interromper. 

— Não, se eles estão aí vivos e aproveitando a vida de velhos gordos, o que aconteceu deve ter sido um pouco depois da grande caça. 

— Quer dizer que eles se safaram por sorte?

— Não, não sorte. Eles devem ter tirado proveito que tinham capturado o “grande Ned Lowe” para fugirem, e se você está se perguntando como, podemos tirar satisfação com…

— Chega!

Dante parou abruptamente o assunto. Hamish estava pronto para tentar driblar a pausa, quando olhou para seu capitão e entendeu que aquele não era um assunto para ser debatido, ao menos, não em sua presença. O olhar que ele os dava era o mesmo  adotado quando estava pronto para quebrar o crânio de alguém apenas com a força dos punhos, Hamish decidiu não arriscar. Se seus longos oito anos de jornada dentro do navio lhe ensinaram algo, era que se Dante pedia algo com aquele olhar em específico, a melhor opção era acatar.

— Sim, senhor. Vamos nos retirar — e Hamish levantou, sem precisar dizer algo para que todos seguissem sua deixa. 

Quando todos passaram pela porta, Hamish segurou a maçaneta para fechá-la e deixar Dante sozinho com seus pensamentos. Entretanto, momentos antes de deixar a maçaneta e ir atrás de seus companheiros de tripulação, uma pergunta lhe veio à cabeça. 

— Senhor — o chamou, mas Dante não respondeu.

Julgando ser um bom sinal ver que Dante ainda não estava partindo para a violência, Hamish o observou apenas por mais um momento para terminar de proferir aquilo que havia vindo à sua cabeça. 

— O senhor nunca deixaria que nós d’A Prateada, fizéssemos o mesmo que a tripulação de Lowe fez com sua riqueza e bens, não é?

Dante continuou imóvel, apenas olhando para os papéis sobre a mesa, mas Hamish tinha plena certeza que seu capitão não estava de fato lendo algo. E se estava, não era algo físico. Hamish esperou pela resposta, esperou por minutos, mas como Dante não demonstrou que responderia, ele não teve outra opção senão deixar seu capitão em paz. 

Ao ouvir um suspiro, Hamish parou, olhando para a maçaneta. 

— Eu proporcionei grandes riquezas a todos que estão sobre meu serviço — a voz profunda de Dante estava congelante, mesmo naquele mormaço que circulava os corredores do navio. — Se alguém planejar tomar aquilo que é meu, terá consequências. Consequências que não sou capaz de impedir, mesmo na morte.


Notas Finais


Explicando algumas coisinhas do cap :)
Basbaquice: não, não está escrito errado galera. Hamish até pensa na ocasião que ela não foi dura com Dante, esperando alguma expressão mais "forte", pois o significado é; modo ou ação de basbaque, tolice.

Bojo: em termos náuticos, é parte da carena, formada pelo contorno de transição entre sua parte quase horizontal, ou fundo do navio, e sua parte quase vertical.

Gurupés: é um mastro que se projecta, quase na horizontal, para vante da proa de um navio.

Ned Lowe: foi um pirata perverso conhecido por sua violência, ele torturava muitas vítimas, e inclusive sua tripulação (mas a fonte é meio incerta), inclusive, dizem as bocas que Lowe foi a inspiração para um personagem em One Piece, famoso anime com muitos episódios, o Trafalgar Law.

E simm gente, Hamish cita Maquiavel na conversa com a Janet, coisa que está bem certinha de acordo com o tempo da história. Agora, depois dessas explicações, pois usei algumas expressões que talvez nem todos conheçam, me deixe agradecer a @bluenlima por me dar esse personagem tão maravilhoso e que combina tanto com o Prateada! Imagino que a temática do navio seria bem diferente sem ele, então não posso negar que amo como ele mexe com todos os outros personagens, as interações e seus animais fofos!

Espero que tenham gostado do capítulo tanto quanto eu, e comentários são super bem-vindos. Até o próximo!


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