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História PLATINE - jikook - Capítulo 10


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Notas do Autor


Em algum momento vocês vão se perguntar, com base no trechinho que deixei no fim do capítulo passado sobre essa atualização, "cadê o BDSM?"
Deixa eu explicar... Acabou que meu controle foi tomado, porque na minha cabeça eu queria só pular pro próximo dia e já começar no BDSM, só que esses dois ficaram de melação e não me deixaram fazer isso! Se eu fizesse, o capítulo não ia ser um capítulo, e sim uma bíblia (quase literalmente). Então... Por favor, me desculpem por isso? :/ Eu vou mudar aquele finalzinho e deixar ele pro fim desse, porque eu juro de dedinho, de verdade, que no próximo capítulo já vai ter o Jeikei falando do BDSM pro Ji! <3

No capítulo anterior... Quando o casal vai até o Shopping se encontrar com o detetive que irá investigar a questão das fotos íntimas, Jungkook identifica mais uma mentira de Jimin e, antes que entrem no local o qual o inocente rapaz está empolgado para visitar, o ordena que entre no carro. Lá, o beijo quase roubado fazem as coisas começarem a esquentar. Entretanto, a insegurança de Jimin o faz mentir mais uma vez, desta sobre não estar preparado psicologicamente para aquilo. Jeon entende, mas Jimin decide fazer algo para recompensar isso e a maneira extasiante que Jungkook o levou aos céus e ao inferno naquele dia que comprometeu a sua vida.

Capítulo 10 - Eight: El otro lado del paraiso


❤️


É difícil aceitar que algumas coisas são como são, e está sendo fácil e ao mesmo tempo complicado entender que eu sou gay, e ainda aceitar que eu sempre fui, desde que eu entendi pela primeira vez que a luz quente dos céus da Ásia era o sol.

Fácil porque Jungkook está comigo. Complicado, porque eu acredito que essa seja uma daquelas coisas sobre nós mesmos que somos obrigados a aceitar.

É justo que eu realmente tenha medo de descobrir como minha família reagiu quando viu aquelas fotos, e como ela reagirá quando eu voltar para casa e pedir perdão por ser gay.

Claro que um dia eu terei que voltar. Sinto, até, que esse dia está muito próximo.

Não sei se vão me perdoar, nem qual será a reação de todos eles, mas tenho a plena certeza de que não adianta o que façam, eu jamais conseguirei continuar achando ou fingindo que sou o que eu era antes de Jungkook.

Porque, de qualquer forma, hétero eu nunca fui. Nem quando parecia ser.

Corazón? ㅡ A voz se faz presente como um arco-íris depois da tempestade. Minha cabeça realmente me conturba, às vezes.

ㅡ Desculpa, você disse algo? ㅡ Eu olho diretamente para Jungkook, meio perdido, mas reposto em solo terráqueo no momento em que me dou conta dos seus traços delicados e firmes em um módulo só.

É incrível, não é? Jungkook é tão bonito por fora quanto é por dentro, mesmo que eu não conheça seu lado interno.

Ele caminha pela extensão da sala, e vai em direção à cozinha. Só agora que o sigo para que dite meus passos, eu percebo que sua mão soltou a minha pelo ar gelado que se choca contra a palma suada.

E eu não gosto dessa sensação.

No entanto, antes que eu reclame que quero que Jungkook permaneça a segurando por mais tempo ㅡ mesmo que tenhamos vindo de mãos dadas desde o momento em que saímos do carro frente a sua casa ㅡ, o vejo se sentar naquela banqueta recostada ao balcão e pegar uma maçã, mordê-la e, enquanto observa a casca vermelha e perfeita, proferir: ㅡ Você está pensativo. ㅡ E morde a fruta, parecendo focado em sua estrutura quando sei que na verdade sua atenção é dirigida totalmente à mim, silenciosamente.

Tenho aprendido bastante sobre Jungkook durante o tempo que passo com ele em todos os segundos que o observo.

Ele é tão interessante...

Mas não tenho o mesmo sucesso sobre mim.

Parece que toda vez que Jeon analisa algum detalhe sobre mim e o põe em voz alta, é como se eu estivesse regredindo sobre o meu auto conhecimento. Porque eu fico nervoso, e se eu fico nervoso, me sinto aberto à ele, com a ponta do pé sujeita a perder o equilíbrio e cair de um penhasco quando só as mãos de Jungkook podem me salvar.

Eu sei, eu sou muito dramático. Mas é por aí que eu identifico meu nervosismo.

E a sensação, de alguma forma que ainda não consigo considerar normal, soa deliciosa. Jungkook estar no controle é delicioso.

Abro e fecho os dedos numa ação que me ajuda a me acostumar sem os seus, para que possa sentar no banco ao seu lado com mais calma.

ㅡ Quer maçã? ㅡ Ele me pergunta, agora me olhando nos olhos casualmente.

Faço um não rápido, mesmo que queira muito.

Na verdade, eu sinto muita fome agora, mas prefiro não comer para não fazer Jungkook reparar no meu corpo gordo e feio, porque burro ele já sabe que eu sou quando deslizo o calcanhar pela apoiador de madeira encaixado no balcão e quase caio da banqueta.

Antes que a tragédia aconteça, seu reflexo é rápido e uma de suas mãos, a livre, segura meu braço e me traz de volta ao banco liso, no qual me equilibro outra vez para não cometer o mesmo erro, e consequentemente deixar ele imaginar que sou um desastre completo.

Embora o susto me paralise por um instante, é instintivo que eu observe seus dedos pressionados contra a pele de meu braço, que me faz lembrar de...

Jungkook e eu.

No estacionamento do shopping, os vidros escuros do carro, fechados.

Eu, sobre o seu colo. Depois, deitado no banco enquanto...

Estou olhando nos seus olhos agora, e ele, nos meus.

Não digo nada e engulo em seco quando ele me solta. Quando o olho de soslaio mais uma vez, Jungkook sorri um sorriso que diz algo que não identifico, mas... eu sinto que ele acha o que acabou de acontecer é fofo.

Não sei lidar com essa constatação, por isso junto minhas mãos entre as pernas e as escondo, deixando minhas orbes se perderem em qualquer ponto que não inclua a beleza do caralho que Jungkook têm.

ㅡ Você quer ir tomar banho? ㅡ É o seu questionamento seguinte, o que quebra o silêncio deliberadamente.

Aí, sim, eu entro em pânico.

Em vez de cair do banco, eu pulo dele e fico de pé como um soldadinho batendo continência.

ㅡ N-não. ㅡ Nego de imediato, assustado com essa possibilidade.

Ele me chamou para tomar banho com ele?

Meu Deus, meu Deus, meu Deus!

ㅡ Não. ㅡ Por segurança, eu repito em reconfirmação, ainda a postos como se realmente fosse bater continência. Não consigo olhar em seus olhos diretamente, a vergonha me corroendo vivo.

Em contrapartida, é quando ele sorri com um pedaço de maçã deixando sua bochecha estufadinha, que eu o dou a atenção de meus olhos arregalados.

Não, Jimin. Você não pode achar ele fofo!

ㅡ Eu não estou te chamando para tomar banho comigo, corazón ㅡ ele dá mais uma mordida na maçã e mastiga lentamente. ㅡ Apenas perguntei se quer tomar um banho, porque precisamos fazer isso ㅡ explica, então.

Encolho meus ombros, porque é instintivo em momentos nos quais penso e vivo algo vergonhoso; agora, por exemplo, eu tenho a leve sensação de que eu e Jungkook somos um pouco estranhos, como se nos conhecêssemos à pouco tempo e, de repente, me vêm à memória as lembranças do que fizemos no carro e...

É constrangedor, mas isso parece nos unir de uma forma que não há como separar.

ㅡ T-tudo bem, eu quero tomar banho.

•••

Deus, como eu pude ser tão burro, eu começo a pensar.

Deve que o Jungkook nem queria tomar banho comigo! Credo, eu não sei porque tive que nascer tão burro, tão burro!

Tinha até me esquecido de que estava quase molhando a calça de tão apertado... imagina se ele quisesse tomar banho comigo! Como eu iria fazer xixi?

Isso sem contar que eu fiz tanto xixi que acho que é capaz de enxer uma piscina inteira.

Eu acabo esfregando o sabonete que tem cheiro de erva-doce com mais rispidez, porque eu poderia me dar uns tapas por ser burro desse jeito bem agora, mas só não vou fazer isso porque vai fazer barulho alto, e eu considero coisa de gente que têm transtorno mental.

ㅡ Jimin burro! ㅡ Mas eu ainda falo, esperando que conversar sozinho não seja um sinal de transtorno psicológico também.

Quando termino o banho, me encaminho para o lado de fora do box após pegar a toalha que cobria as roupas que recebi dele há instantes atrás mas que nem vi direito, optando por colocá-las sob a tampa do sanitário.

Eu me concentro em me enxugar, mas como se eu tivesse um défti de atenção ou algo assim, não impeço que meus dedos que adquirem vida própria pousem nas roupas perfeitamente dobradas sobre a tampa e as puxe para checar como são.

É uma camisa social branca repleta de finas listras escuras na vertical, e uma boxer da cor das listras.

.

Só uma camisa e uma boxer.

Como assim? O Jungkook ficou foi louco?

Eu quase dou um grito quando a surpresa sobre não ter uma calça e essa camisa ser dele se mistura a surpresa de que talvez ele tenha deixado essas roupas para mim porque prefere que eu ande quase semi-nu pela sua casa a me ver vestido por roupas normais.

E o pior no que eu nem havia pensado: Jungkook vai dormir em casa hoje.

Será que vou ter que dormir na mesma cama que a sua? Vou ter que dormir com ele?

Meu Deus, me socorra por favor. Eu realmente não sei como lidar com tudo isso, mesmo que eu goste muito da ideia de dormir com o Jungkook.

Pensando por esse lado... será que ele fala enquanto dorme? Jungkook parece tão certo de tudo que fala, acho que ele mal sonha. Será que ele ronca enquando dorme? Eu acho que não, ele parece perfeito demais para isso.

Será que eu ronco?

Deus, por favor, me diga que não, porque se sim, o Jungkook deve ter ouvido porque ele me disse que dormiu ao meu lado mesmo que a senhora Choi (talvez por caduquice) tenha dito que ele nem dormiu em casa.

Mas, se ele ouviu, por que ainda não desistiu de mim?

Jungkook sequer "investiu" em mim?

Meu Deus, agora eu estou viajando. Minha mente está à mil.

Começo a refletir sobre isso ser efeito das coisas que se fazem com a boca, porque também fiquei assim quando Jungkook fez uma coisa em mim com a boca pela primeira vez: nervoso e pensativo.

À contraditória, decido que vou realmente parar de pensar tanto e vestir as roupas porque já estou sequinho, e além do que não quero que ele pense que eu estou fazendo o número dois.

Deus me livre! Deus me livre!

Eu as visto com muito cuidado. Já basta comer a comida de Jungkook, fazê-lo gastar dinheiro comigo, e várias outras coisas que me fazem me sentir um estorvo, e então, de repente, rasgar uma de suas roupas e piorar esse sentimento.

Também uso a escova que Jungkook me deu e escovo os dentes com a pasta muito forte que faz meus lábios doerem... mas, na verdade, acho que eles não doem unicamente pelo flúor concentrado na substância de cor vermelha.

Eu me aproximo do espelho e, quando reparo bem, entendo: meus lábios estão doendo porque Jungkook os machucou com os seus dentes, também quando os sugou daquele jeito tão...

As lembranças frescas automaticamente me fazem exibir um sorriso cheio de espuma de pasta de dente, ainda com a escova na boca, e pela constatação que tiro sobre como eu fico mais feio sorrindo assim, me livro de toda a bagunça da escovação, para em seguida voltar a me olhar no espelho e checar se não ficou nenhum restinho da pasta de dente.

E não, graças a Deus não ficou. Mas é olhando um pouco mais para baixo que vejo uma marca mais importante do que seria a de pasta de dente, e não tão vergonhosa ㅡ pelo menos não para mim e acredito que nem para Jungkook.

Meu pescoço realmente ficou com uma marca de cor carmim no espaço de pele que Jungkook sugou.

Isso me faz pensar no quão estranho aquilo soou, mas no quanto gostei mesmo assim, embora só perceba isso agora; a sensação foi muito boa, a dor misturada ao tesão me dá arrepios gostosos, e isso parece me deixar mais quente que o normal. O que, então, permite que eu pare de observar a marca de Jungkook em mim orgulhosamente, e ajeite o cabelo desgrenhado para sair do banheiro.

Já do lado de fora, com o meu montinho de roupas usadas em mãos sem saber se deixo junto com o par de roupas que usava quando cheguei aqui e coloquei debaixo da cama de Jungkook pra não incomodar quem quer que lave as roupas, ou se devolvo para quem as comprou, eu procuro Jungkook com os olhos.

Como não o vejo, eu corro até a entrada do seu quarto e me enfio lá, suspirando fundo quando fecho os olhos e tranco a porta atrás de mim para respirar melhor.

Corazón?

Eu olho em direção à voz que reverbera brandamente pela suíte, e quase piro de vez ao ver Jungkook sentado em sua própria cama, ajeitando os fios enxarcados e bagunçados de seu cabelo escuro.

As roupas em minhas mãos vão diretamente ao chão quando, no momento em que ele deixa uma das suas paralisadas sobre os cabelos e me olha de cima até que paira as orbes profundas abaixo de minha cintura, eu deliberadamente devolvo o olhar surpreso ao perceber que ele está, também, usando apenas uma camisa social listrada, e uma boxer.

E suas pernas... elas são...

Incríveis.

Eu.

Estou.

Vendo.

As.

Coxas.

De

Jungkook.

Elas são muito firmes, e perfeitas, e convidativas... Por que estou dizendo que são convidativas?

Eu nem tento me responder, porque as respostas para coisas que questiono sobre Jungkook sempre são bobas demais para compensarem o trabalho de pensar.

ㅡ É-é... ㅡ Eu finalmente volto à vida, puxando as roupas do chão para me tapar parcialmente.

Eu sinto que vou inchar até estourar, porque é essa sensação que me causa a temperatura subindo na região de minhas bochechas.

ㅡ Não sabe onde colocar as roupas? ㅡ Ele pergunta, então, mas seus olhos, diferentes de todas as outras vezes, não estão nos meus ou em meu rosto.

Jungkook está olhando para as minhas coxas.

Eu não sei quando eu me tornei tão maluco; se foi quando o conheci, ou se já era desde bem antes. Só sei que Jungkook me faz questionar minha sanidade. Em especial agora, que meu ego indiscutivelmente se infla com a atenção que minhas coxas fora do padrão ㅡ que não considero nada bonitas ㅡ recebem de Jungkook.

ㅡ N-não. ㅡ Eu ainda consigo responder. ㅡ Não, s-senhor. ㅡ Corrijo, rezando internamente para que a gagueira vá embora.

No próximo instante, uma de suas mãos é estendida para mim, na intenção de que eu o entregue as roupas. E embora eu diga para o meu corpo caminhar até Jungkook, ele demora alguns segundos para obedecer.

Porque, acima de tudo, estou muito inseguro sobre minhas pernas.

Quando o faço, meio trêmulo, e o estendo as roupas, agradeço mentalmente à um Deus mais forte que a humanidade que fez Jungkook não olhar pra mim, no ato. E é justamente por isso que eu faço o que eu faço em seguida: Ando muito rápido até o lado esquerdo da cama de Jungkook, e me deito ali, me cobrindo com seu edredom, completamente movido por impulso.

Sequer sei se vou dormir aqui!

E aí, sim, eu recebo todo o caos silencioso que é a atenção de Jungkook.

ㅡ Você já quer dormir? Não vai comer? ㅡ É sua pergunta que vêm carregada de incerteza, como se testasse suas próprias palavras.

ㅡ Eu posso dormir sozinho? ㅡ Questiono numa disparada, sem responder sua pergunta sobre comer, porque meu estômago ronca baixo e eu o ignoro. ㅡ Posso dormir sozinho aqui? ㅡ Me cubro mais, me sentindo vulnerável, de alguma forma.

Eu vejo suas sobrancelhas serem franzidas em uma confusão inocente.

Quero muito dizer para Jungkook que eu não posso me mostrar para ele se ele é perfeito, e eu, um completo catálogo de defeitos dos mais variados tipos.

Mas por que eu sinto que não posso demonstrar minhas fraquezas?

ㅡ Tudo bem. Eu vou... ㅡ Jungkook, agora, se levanta, indicando com o polegar em direção à porta. ㅡ Você tem que comer algo. Daqui a pouco venho te buscar ㅡ é o que determina, então.

Eu posso ver nos seus olhos que ele tem mais coisas pra falar, e que são sobre o que aconteceu no carro, e sobre como estou me comportando. Sei que estou na defensiva assim como sei que os átomos são as menores partículas da matéria, que não podem ser cortadas ou divididas.

Mas meu corpo não me obedece.

Enquanto eu ordeno que ele deixe de ficar tenso e se comporte normalmente na presença de Jungkook, meu coração espanca meu peito e me manda ficar na defensiva.

ㅡ Obrigado. ㅡ Eu agradeço, então, me aconchegando em sua cama como uma bolinha de timidez ao afundar minha cabeça para dentro do edredom, porque não quero dar a chance de Jungkook se despedir de mim com um beijo ㅡ se é que ele quer fazer isso.

(É isso que os casais fazem né? Mesmo que não sejamos um casal, vai que ele quer fazer isso! Como eu vou reagir?!)

Ouço seus passos, incertos e descalços, avançarem para fora do quarto e, depois, a porta ser destrancada, aberta e fechada.

Jogo o tecido que me cobre para longe, respirando fundo, uma vez que o calor que ele emana misturado ao nervosismo que sentia há instantes atrás pode ser capaz de me cozinhar vivo.

Mesmo que me sinta aliviado, não sei como me comportar com isso de ter afastado Jungkook quando ele vir me buscar para comer.

A sensação é tão ruim quanto a de ter sua mão na minha e de repente não ter mais.

Mas eu não posso simplesmente me levantar e ir até ele, agora, ou irei parecer um maluco; mais do que já pareço.

Desta forma, eu me volto para os cobertores mais uma vez e os puxo para cima de minha cabeça, sem saber o que exatamente estou fazendo. Só estou muito nervoso.

Quero pedir a Deus que me ajude a entender porquê Jungkook me deixa tão nervoso, mas acho que ele já está de saco cheio de mim. Então, decido apenas esperar.

No entanto, é quando eu decido isso que ouço batidas na porta, e no instante em que me viro para ver quem é mesmo tendo a ideia mais que perfeita de que é Jungkook, que ele aparece com um sorriso leve no rosto.

ㅡ O jantar já está pronto. Você vêm? ㅡ Seu corpo, coberto apenas pela camisa social grande que chega a tapar a boxer que ele está usando, permanece parado pacientemente na entrada do quarto, enquanto ele espera que eu reaja.

Mas como vou reagir com uma beleza tão grande exposta para os meus olhos como se fosse uma luz cegante?

Parece impossível, mas eu até consigo fazer meu cérebro funcionar. Não demoro muito para descer da cama e, sim, fico estacado no chão sem saber o que fazer quando percebo que acabei de expôr minhas coxas para Jungkook outra vez.

O corpo dele é tão perfeito... as coxas são tão firmes... o meu é tão feio... minhas coxas parecem mais a releitura dos frangos assados da Sadia estampada em membros que sempre deixo cobertos por calças, e não visíveis assim, como agora.

Jungkook me observa por todo esse tempo que travo a luta interna para me convencer de que ter coxas gordinhas não é um problema, e que ele nem liga se elas são gordas embora tenha parecido surpreso ao vê-las mais cedo.

Sobretudo, é só quando me lembro de que ainda estou paralisado como se tivesse entrado em curto circuito, que consigo me mexer e caminhar até um Jungkook confuso a minha frente, na intenção de concertar essa imagem que ele provavelmente tem de mim: a de louco.

Ele fecha a porta quando estamos os dois de fora do cômodo, no corredor. Ele, ereto e confiante como o usual. Eu, com a minha cabeça me dizendo sem cessar que sou feio demais para estar assim, tão perto dele.

ㅡ Senhora Choi fez yakisoba com algas e molho de tomate. ㅡ Ele conta, então, parecendo bastante descontraído ao listar o cardápio.

Eu quase sorrio, mas tem algo acontecendo comigo que não me permite isso. Tenho a impressão de que estou tornando tudo sobre mim, enquanto a imagem descontraída de Jungkook e as roupas informais não o fazem menos opressor (num sentido bom), e enquanto o seu sorriso está assim, jogado para mim de graça, como se eu fosse privilegiado pelo universo.

Não sei o que está acontecendo. Mas está acontecendo, e é desde quando eu e Jungkook fizemos aquilo no carro.

A cozinha cheira a yakisoba recém cozida com bastante pimenta e tempeiro.

Eu adoro algas e molho de tomate, na verdade. O cheiro me faz ficar até mais relaxado. Acho que Jungkook percebe isso quando sorri um sorriso diferente do normal, que diz algumas palavras que não ouço mas que capto o sentido.

Ele puxa um recipiente, depois coloca um pouco do yakisoba misturado com todos os ingredientes que ele citou, para então me entregar os chopsticks quando eu faço um esforço para me sentar na banqueta alta.

O cheiro inunda minhas vias aéreas e eu até sorrio quando aproximo o nariz do recipiente e o sinto com mais intensidade. Quando abro os olhos, porque os fechei enquanto inalava o aroma, percebo que o sorriso que exibo está direcionado a Jungkook, colocando sua própria comida em outro recipiente, de costas para mim.

Por um instante, eu paro para observá-lo tão concentrado no ato de colocar uma simples comida na vasilha. O cabelo dele é tão bonito, e os olhos... nossa.

Os olhos são o motivo pelo qual eu encheria a paciência de Deus o tempo todo caso precisasse da ajuda dele para lidar com todos os momentos ocultos que permanecem guardados neles.

Mas eu não sei se vou chegar a ter a chance de lidar com eles.

Será que algum dia Jungkook vai me falar sobre ele e sobre sua vida? Um dia vai me falar sobre as coisas magníficas que com certeza ele já viveu?

No momento em que ele se vira para mim, que nem toquei em minha comida ainda, eu cesso a avalanche de questionamentos internos e expulso um sorriso às custas do que ele exibe para mim.

ㅡ Vamos compôr a mesa. ㅡ Ele mais manda do que sugere.

Eu, quase choramingo... deu um trabalhão pra conseguir me sentar aqui.

No entanto, eu não demoro a escorregar da banqueta e, depois de repousar no chão, puxar minha yakisoba e os chopsticks.

Quando decido que vou caminhar até a mesa de jantar, Jungkook vêm em minha direção logo após deixar sua comida sobre ela, e então estende as duas mãos para mim, sem dizer nada.

Eu fico parado por um instante, tentando entender.

Aí que caio a ficha, estendo minha comida para ele, mantendo apenas os chopsticks comigo, reprimindo um sorriso que quer aflorar em meus lábios pelo seu gesto gentil.

É tão simples, a ação de Jungkook pegar minha comida e levar até a mesa para mim... mas essa sensação, essa de que é como se eu estivesse sendo tratado mil vezes melhor do que já fui em toda minha vida, deve ser só algo bobo simplesmente pelo fato de que ninguém nunca fez isso por mim.

Não obstante de meus próprios pensamentos, eu o sigo fielmente até a mesa e, depois que ele repousa minha comida ao lado da sua e ainda puxa a cadeira para mim, eu me sento.

Ainda, reprimindo o sorriso pelo seu cavalheirismo.

Ele também se senta, depois de puxar a própria cadeira.

Eu requiro os shopsticks da embalagem, para então levá-los até minha yasisoka com molho e algas e juntar um pouco dela na ponta dos palitinhos.

Estou prestes a enxer minha boca de comida, mas me lembro de algo: Jungkook está ao meu lado.

Deixo cair um pouco da comida de volta ao recipiente imediatamente.

Eu mastigo, ciente do sabor delicioso que ela tem. Em seguida, olho em direção a Jungkook, de soslaio.

Mas de nada adianta eu o olhar disfarçadamente, pois ele já está me observando.

Eu quase caio da cadeira de susto, porque eu poderia jurar, há segundos atrás, que ele também estava comendo, sem sequer me olhar.

Entretanto, ele está me observando comer. Jungkook não tocou em sua comida ou desembalou seus chopsticks.

No momento seguinte, ele sorri. Sorri daquele jeito bem aberto, e o tamanho de meus olhos vai diminuindo de acordo com que eles quase se fecham porque isso acontece quando sorrio.

Como não vou enxergar direito daqui segundos, tento reprimir mais um pouco do sorriso, pois quero poder contemplar o de Jungkook.

Já disse, Jimin, você não pode achar ele fofo!

ㅡ Você se assustou. ㅡ Sua constatação vem em voz alta.

O jeito que sua voz é emitida com interferência do seu riso me faz sorrir mais ainda e perder a visão do seu rosto lindo por alguns instantes.

ㅡ Eu adoro o jeito que seus olhos quase se fecham quando você sorri ㅡ é a voz de Jungkook outra vez, mas sem a brincadeira momentaneamente presente de instantes atrás.

Aos poucos, meu sorriso se esvai, na mesma medida que os shopsticks se afundam no yakisoba.

Posso visualizar seu rosto outra vez, tão mais sério, mas ainda tão reconfortante.

Eu olho nos olhos dele, tentando identificar o que mudou em tão poucos segundos que agora me faz me sentir em estado de êxtase.

Não interessa o tempo que passar, eu nunca vou entender e nem me conformar sobre a beleza de Jungkook. Nem com a profundidade aconchegante dos olhos de breu dele.

ㅡ O-obrigado. ㅡ É o que eu consigo dizer, falhando na tentativa de parecer firme.

Ele volta a sorrir, só que sem mostrar aqueles dentes de coelhinho que... Aish!

ㅡ Quem tem que agradecer sou eu, especialmente por você estar aqui.

Acho que vou ter uma síncope.

ㅡ Quem tem que agradecer sou. O que aconteceu deveria ser um problema só meu. ㅡ Agora, sim, eu consigo parecer firme. Porque, de certa forma, as minhas palavras interferem em meu próprio humor.

Mas dizê-las em voz alta parece me aliviar de uma carga imensa.

Jungkook empurra sua comida para qualquer ponto aleatório sob a mesa, depois puxa a minha e os shopsticks, e então, logo após colocar uma porção quase exagerada nos palitinhos, ele diz, sem nenhum resquício de rudez ao me oferecer o yakisoba: ㅡ Coma.

Minhas sobrancelhas quase vão parar no couro cabeludo, e depois que percebo que ele não está brincando, abro minha boca timidamente, recebendo a comida.

Meu Deus, Jungkook está dando comida na.minha.boca!

Por que eu gosto tanto disso?

Enquanto eu mastigo, ele volta a falar:

ㅡ Eu gosto que você esteja aqui, e que eu seja a pessoa a quem você recorreu quando tudo aquilo aconteceu.

Engulo o bolo de comida, recebendo mais de Jungkook, enquanto escuto tudo com atenção, como se fossem ensinamentos essenciais para a vida, pois tudo que Jungkook fala, para mim, é tão importante quanto.

ㅡ Eu cheguei a tomar o que aconteceu como culpa minha, logo após o ocorrido ㅡ conta. Antes que eu faça um não frenético com a cabeça, ele prossegue: ㅡ Mas é um ato instintivo. Não quer dizer que eu tenha culpa. É só coisa da minha cabeça.

ㅡ É claro que é, Jungkook ㅡ eu concordo absolutamente, torcendo para não cuspir macarrão mastigado para fora, uma vez que estou falando de boca cheia.

Ele sorri nasalmente.

ㅡ Mas... ㅡ Me oferece outra porção. ㅡ Isso não quer dizer que eu não tenha que te ajudar a resolver isso. Eu estava lá. E a minha imagem, embora ocultada por quem quer que seja que tirou essas fotos, também.

Eu acompanho seu raciocínio. Percebo que ele está me induzindo acompanhar, como se quisesse chegar a um ponto específico.

ㅡ Amanhã, quando formos conversar com o detetive, precisamos de detalhes para descobrir quem fez isso. Detalhes pessoais. ㅡ Jungkook parece estar, a todo momento, procurando as palavras corretas para usar.

Eu fico tenso tão de repente. Me pergunto precipitadamente o que é que ele quer dizer com detalhes pessoais, mas entendo de antemão no mesmo momento em que ele profere com certo cuidado na voz: ㅡ Você terá que dar informações sobre sua família e todas as pessoas que manteve contato nas últimas semanas, ou até meses.

ㅡ Você acha que minha família é suspeita? ㅡ Não consigo não perguntar.

Isso me entristece tanto que sinto meu corpo inteiro murchar.

Não tem sentido. Por que eles fariam isso?

É minha família, e... se eles fizeram isso... como vou continuar os amando?

No entanto, Jungkook não responde minha pergunta. Ele faz o contrário do que seria a resposta; cruel. Apenas escolhe as palavras certas como sempre faz: ㅡ O que importa é que você está bem, e em segurança, corazón.

E é verdade.

Eu nunca estive tão bem, e nunca estive em tanta segurança. É como se a casa de Jungkook fosse o meu refúgio mais secreto, onde nada nem ninguém pode me atingir, sequer descobrirem onde estou.

Ah, claro... exceto Kim Taehyung. Ele fala de um jeito tão inteligente... acho que ele descobre tudo que quer.

E por falar nele... por que eu tenho essa dorzinha no coração que me faz sentir a falta dele?

Que nada... nós nem somos amigos, e eu nem faço parte do Arco-íris sensível ㅡ por que será que se chama Arco-íris sensível?

Volto a realidade quando Jungkook estende outra porção do yakisoba para mim, e então trato de agradecer: ㅡ Obrigado por tudo que está fazendo por mim, Jungkook ㅡ e sorrio.

Porque, apesar de tudo, eu não poderia estar mais grato.

ㅡ Não tem que agradecer. ㅡ Ele rebate.

Não insisto, optando por permanecer em silencio enquanto mastigo a comida que ele me ofereceu. Sei que se eu falar mil vezes que sou grato por tudo, ele vai me dizer mil vezes que não preciso agradecer.

Quando termino de engolir, antes que ele me encha de comida outra vez, questiono: ㅡ E o seu celular?

O observo. Ele me oferece mais um pouco do macarrão.

Começo a mastigar e ele responde: ㅡ Isso não é um problema. Providenciei outro, até. ㅡ Eu termino de engolir logo após sua resposta, e então, antes que eu termine de formular minha contraposição sobre a não importância do celular, sou interrompido por mais uma porção de comida e a sua voz firme de sempre: ㅡ Mas sei que não quer deixar o celular lá. Se você quiser, depois de amanhã, podemos ir até lá e pegá-lo. Assim as coisas estarão mais calmas para você, e talvez se sinta confortável para ver sua família depois do que aconteceu.

Suspiro depois de engolir a comida. Ele percebe meu cansaço, e então assegura:

ㅡ Sem pressão. É só uma sugestão. Sabe que pode ficar aqui o tempo que quiser, isso não é nem discutível. ㅡ Está sorrindo tranquilo de novo.

ㅡ Eu sei... ㅡ Digo mais para mim mesmo do que para ele, e então tento fugir desse assunto: ㅡ Você não vai comer? ㅡ Indico a sua comida com minha cabeça.

Ele sorri leve, me oferecendo mais com os shopsticks.

Sei que não posso continuar comendo tanto porque vou parecer um esfomeado, mas também não quero desperdiçar a comida. No entanto, é quando decido que vou negar a continuar comendo, que Jungkook me responde: ㅡ Eu prefiro dar comida pra você.

Está sorrindo para mim. Sorrindo com os dentinhos de...

Aaaaaaaaaaah!

ㅡ Não quero mais. ㅡ Decido, então. Vou desperdiçar, mas não quero mais. Faço um bico emburrado e deixo Jungkook colocar a comida de volta no recipiente com certa confusão no rosto.

Ele não entende que eu não sei reagir às suas palavras. Isso me deixa frustrado. Meu coração quase pula pela boca e eu quase tenho uma síncope!

ㅡ Você comeu o suficiente, acho. ㅡ Jungkook analisa o yakisoba pela metade. ㅡ Vá escovar os dentes para dormir. Vou comer agora.

Faço um sim de imediato, e quando levo minhas mãos numa menção de puxar tudo que sujei no jantar, ele repara: ㅡ Não foi isso que te mandei fazer ㅡ e coloca a primeira porção do yakisoba na boca.

Eu quase tenho um ataque de pânico, porque... por que ele usou o verbo mandei?

Eu o olho, procurando uma resposta em seus olhos, e quando ele me devolve o olhar, parece voltar a realidade e entender perfeitamente o que eu questionei somente para mim mesmo.

ㅡ Deixe que eu cuido da louça ㅡ ele corrige.

Eu faço que sim, confuso.

Depois de dar graças a Deus mentalmente por Jungkook não olhar para minhas coxas, começo a caminhar em direção ao banheiro no fim do corredor.

Assim que chego lá, totalmente confuso com tudo outra vez, aceito que vou ter que me acostumar de vez com a confusão e requiro a escova de dentes do porta-escovas, puxando, também, a pasta de cor vermelha.

Depois que termino, sem saber exatamente o que fazer, volto para o quarto de Jungkook e me deito na cama, cobrindo meu corpo com os cobertores quentinhos.

Começo a pensar sobre minha casa, a dos meus pais... sobre Jihoo e a saudade que de repente tenho dele.

Sei que ele não gosta muito de mim, que deve até me detestar por eu ser tratado melhor que ele pelos nossos pais... mas eu sinto como se ele fosse uma parte de mim. Uma parte muito importante.

Desde que ele nasceu, foi como se houvesse uma lâmpada finalmente acesa no escuro para mim. Eu nunca tive amigos, nem quando era uma criança, porque eu sentia que as amizades não poderiam andar em sintonia com a minha vida familiar... era como se minha família fizesse de mim impropício para ser amigo de alguém.

Mas aí Jihoo veio ao mundo e, mesmo que nunca tivemos uma relação tão forte, foi como encaixar uma parte de mim que estava faltando. Ele nasceu e eu também.

Nossos pais o trataram bem até que ele completou treze anos e disse algo sobre bissexualidade a eles.

Mais tarde, na aula de sociologia, descobri que isso é quando uma pessoa gosta dos dois sexos, do masculino e o feminino.

Eu fiquei chocado em um primeiro momento, mas não me importei nem um pouco. Isto é, não me senti tão ofendido como meus pais aparentaram se sentir.

Lembro de todas as vezes em que saímos para ir em algum evento familiar e Jihoo foi proibido de ir conosco. Ele não dizia nada, e aceitava de cabeça baixa. Com o tempo, isso virou um costume. Sempre que íamos em algum local, para o que quer que fosse, Jihoo se trancava no quarto, e não falava nada, assim como meus pais que simplesmente me pediam para me arrumar e depois entravam no carro e seguiam comigo para qualquer evento que fosse.

Me senti mal quando trocaram a mobilha do meu quarto e deixaram a minha para Jihoo, de quando me levaram em lojas e compraram roupas para mim e deixaram as minhas para Jihoo, de quando ele fez quinze anos e não teve um bolo, mesmo que simples, como eu tive. Mas nenhum mal estar se comparava ao que eu sentia quando saíamos e ele ficava em casa, completamente excluído do nosso meio social e, principalmente, da nossa família.

Por que o excluíram só por que ele era diferente?

Nunca entendi como meus pais puderam fazer isso com ele. Me pergunto se agora, que não estou lá, estão o tratando bem.

E se estiverem o tratando pior?

Esse pensamento me deixa inquieto. Se meus pais foram capazes de excluir Jihoo, o filho mais novo que possui o mesmo sangue que todos nós, o que seriam capazes de fazer comigo se descobrissem que também sou diferente?

Provavelmente muitas coisas.

Isso quer dizer que eles não me amam?

Isso quer dizer que não amam Jihoo?

Mas tirar fotos e espalhar pela cafeteria não faz sentido nenhum. Acho que meus pais não fariam isso.

Jihoo, então... ele jamais faria isso. Nossa relação de irmãos não é tão íntima mas eu conheço o caráter dele. É perceptível para qualquer um que Jihoo não é do tipo que faz mal ao próprio irmão assim, tão cruelmente.

E ele deve estar sofrendo muito com isso, com os meus pais descobrindo que sou diferente ao verem uma fotografia de mim prestes a...

E ainda tem as aulas que estou perdendo, a matéria que ficará atrasada. Acho, até, que vou repetir de ano.

E os meus colegas... quero chorar de vergonha.

Preciso voltar e ver Jihoo. Preciso porque tenho que dizer a ele que não é só ele que é diferente, e que não está sozinho.

Mas aquele amigo dele... aquele que entra pela janela toda vez que nossos pais saem... ele parece entender Jihoo.

Acho que Jihoo não precisa de mim.

Mas eu preciso dele.

Depois de amanhã, vou voltar. Mais por mim do que por Jihoo, mas mais ainda porque preciso dar um basta em toda essa confusão ou vou enlouquecer ㅡ se é que isso já não aconteceu.

ㅡ Você escovou os dentes? ㅡ A voz vinda do corpo parado na porta interrompe meus pensamentos.

Sinto minha alma voar para fora de meu corpo e deixá-lo vazio a ponto de eu não não movimentar um dedo com o susto.

ㅡ S-sim ㅡ respondo, então.

Estou ficando nervoso outra vez. Sou bom em ficar relaxado quando as coisas são sobre mim, mas sou um poço de nervosismo quando existe mais alguém ocupando o mesmo cômodo que eu.

Isso parece piorar quando se trata de Jungkook, porque ele me deixa muito nervoso. Mas não nervoso do jeito ruim.

É um nervoso que eu gosto de sentir e que abrange meu peito em quatro cantos para caber todo o holocausto que se instala nele quando Jungkook aparece.

ㅡ Que bom. ㅡ Ele, com as coxas expostas para mim, parado na porta, sorri leve, mas incerto.

Eu não sei o que dizer em seguida, e ele, o que fazer.

Jungkook é como uma rocha firme, mas nem sempre ele sabe tudo. Não sabe tudo quando está comigo deitado em sua cama, isso eu consigo perceber.

Deve ser novo para ele também, eu estar aqui, ocupando sua casa como se morasse nela...

Necessito de resolver esse problema logo, mesmo que sequer saiba uma ponta do que é a solução.

ㅡ Jungkook. ㅡ Eu o chamo, impulsivo mais do que de costume.

ㅡ Sim, corazón? ㅡ Ele responde de imediato, atento a cada palavra minha.

Me sento na cama, tomando o devido cuidado para não descobrir minhas coxas.

Eu já o chamei. Agora tenho que dizer algo, algo que não seja...

ㅡ Dorme aqui comigo? ㅡ Um pedido descabido.

Droga.

Eu enlouqueci mesmo.

No entanto, posso constatar que a loucura, mais uma vez, só me traz coisas boas, porque Jungkook exibe o sorriso com dentinhos-aaaaah outra vez.

Em um primeiro momento sua reação não passa de uma hesitação genuína, mas ele não me julga por ter mudado de ideia. Depois de fechar a porta com calma e enquanto eu surto internamente, inicia a breve caminhada no seu trejeito tranquilo até sua própria cama, puxando a coberta para se deitar ao meu lado logo em seguida.

Quando ele está ao meu lado, sentado, diz: ㅡ Você está pensativo otra vez.

Engulo em seco, depois deixo meu peito subir e descer fortemente.

ㅡ Eu estou tentando achar uma solução, ou pelo menos entender o problema... ㅡ Eu digo. Minha voz soa mais desesperada do que o normal.

Se faz silêncio por um instante. Queria dizer que essa sensação é de como se eu e Jungkook fossemos amigos há muito tempo.

Mas o que temos não é amizade. Parece ir muito além disso.

Me pergunto se um dia ele vai se cansar de mim, seja lá pelo que for, e se o que temos vai acabar.

E se quando eu for até minha casa tudo mudar?

Não quero que nossa relação enfraqueça, nem quero perdê-lo.

ㅡ Existe uma expressão em latim. Brutum fulmen. Significa isso é irrelevante, ou isso não tem importância. ㅡ Não sei onde ele quer chegar, mas o dou minha total atenção. ㅡ Os problemas são assim, irrelevantes. Principalmente porque a preocupação que as pessoas empregam neles é desperdiçada.  Eles sempre se resolvem, não importa como. ㅡ Está tentando me reconfortar.

É claro que funciona.

ㅡ Eu quero dormir. ㅡ Desconverso, jogando um sorriso mais leve que o usual de hoje para fora.

Jungkook concorda e apaga o abajur ao seu lado, depois eu faço o mesmo com o que está ao meu, e então, antes que eu me deite, Jungkook o faz primeiro, levantando os cobertores em sua frente.

Está pedindo para que eu me deite ali.

Seu corpo está de lado.

Ele quer que...

ㅡ Deita aqui, meu docinho. ㅡ Não está mandando, nem sugerindo, nem pedindo.

Está só me dizendo para me deitar, depois me me tratar por docinho como fez no estacionamento do shopping.

Meu peito sobe e desce violentamente mais uma vez. Então, percebo que loucura é sinônimo de impulsividade quando não hesito por um segundo e acato suas palavras como se fosse uma ordem.

Porque eu quero dormir assim com Jungkook. Bem juntinho do corpo dele, que, agora, me relembro do calor tão febril que possui.

Minhas costas estão coladas em seu peito. Posso sentir seu piercing a tocando.

Jungkook entrelaça nossas pernas quando nos cobre de uma só vez e depois ajeita os cobertores para que fiquemos mais confortável.

No ato, um risco de algo semelhante a tinta preta é exibido no seu antebraço que fica à mostra quando a manga da camisa é afastada despretensiosamente.

Franzo as sobrancelhas, levando meus dedos até a parte exposta da sua pele e, assim que Jungkook para o que está fazendo, como se isso fosse mais forte do que eu, deslizo meus dedos em direção ao seu bíceps e puxo o tecido, exibindo o que me deixa estático.

Uma tatuagem.

É uma pata de um urso.

Deslizo meu dedo por toda a extensão do desenho tão bem gravado em sua pele.

Eu pensava que tatuagens deixavam a pele sobressaltada, mas a de Jungkook parece perfeitamente lisa.

ㅡ O que significa? ㅡ Eu pergunto.

Deve ter um significado, não é?

É a pata de um urso. Embora o desenho pareça mais opressor do que deveria ser, de algum modo, é extremamente fofo associar Jungkook a um urso.

Sinto ele sorrir nasalmente atrás de mim. Mas isso parece ser só uma camuflagem dele para mim, porque seu coração bate tão forte contra minhas costas que sinto meu corpo inteiro querer balançar no seu ritmo.

Essa sensação de que está tudo sendo colorido por dentro de mim...

ㅡ Eu tinha dezenove anos. ㅡ Ele conta.

Antes que prossiga, eu sorrio por saber que talvez eu devesse fazer uma tatuagem agora porque tenho essa idade, e pergunto: ㅡ Quantos anos você tem agora?

Parece uma pergunta tão pessoal. Mas não tenho medo de fazê-la.

ㅡ Vinte e seis.

Na verdade, ele aparenta ter exatamente essa idade.

ㅡ É uma tatuagem simbólica. ㅡ Continua, então.

Eu, permaneço atento a cada palavra sua.

ㅡ Vou te explicar o significado quando for a hora certa ㅡ determina.

Eu fico confuso outra vez, mas não me permito me aborrecer novamente por isso porque já aceitei, quando fui escovar os dentes, que terei de me acostumar.

Eu faço um sim com a cabeça.

ㅡ Ela é como uma marca permanente com um significado importante. ㅡ Jungkook ainda explica.

ㅡ Como essas? Só que sem a parte do permanente? ㅡ Levo minha mão até meu pescoço, indicando as marcas que Jungkook fez ali.

ㅡ Olhe para mim. ㅡ Ele ordena, sem fugir do momento que inspira leveza.

Quando o olho, desenlaçando nossas pernas à contragosto, a luz do abajur é acesa por suas mãos que são imediatas em fazê-lo.

Jungkook tem aquela profundidade no olhar outra vez. Está me olhando como um fiel olha para o seu Deus.

Parece sensacionalista, mas é a verdade.

Ele me olha como eu o olho quando está trajando terno e sapatos de couro italiano.

De repente, ele não está só me olhando mas, também, me tocando.

Enquanto se ajoelha sobre o colchão, assim como eu que me vejo induzido a fazê-lo, seus dedos trilham caminhos pelo meu braço coberto pela camisa dele.

Seus olhos seguem o contato de sua mão em meu corpo, que sofre choques elétricos a cada terminação nervosa estimulada.

Ele sorri, como se estivesse tocando uma relíquia.

Qual é a sensação que Jungkook está tendo agora?

Quero saber qual é mais do que quero qualquer coisa. Então, eu não hesito em levantar meu braço e levar minha mão até seu braço e tocá-lo, rastejando meus dedos em direção a qualquer ponto, porque tudo nele me faz querer tocá-lo em qualquer lugar, ou tocá-lo inteiro.

Seus dedos estão em minha nuca enquanto ele acaricia a marca de cor carmim feita por sua boca.

Todos os pêlos de meu corpo estão eriçados.

Me sinto flutuar quando toco a pele sensível de seu pescoço e acaricio ali, percebendo uma marca quase invisível do que eu fiz nele quando estávamos naquele carro, naquele momento em que eu quis que ele sentisse o que eu senti.

No entanto, sua mão livre vai até a minha que o toca, para que ele a segure e, em vez de interromper por completo o meu toque, a leva até uma das maçãs de seu rosto.

Minha mão é tão pequena que é como se ela fosse capaz de cobrir apenas essa região do rosto de Jungkook.

Tem algo esquentando meu peito. Deve ser o sangue bombeado numa velocidade descomunal pelo meu coração.

Jungkook me olha nos olhos e sorri enquanto me induze a acariciar sua bochecha, esfregando-a contra minha palma.

Nenhum de nós dois diz alguma coisa no silêncio que se posterioriza por um tempo que parece que não vai acabar. E nem de longe isso é incômodo.

Só existe eu e Jungkook aqui. Só eu e Jungkook, minha mão o acarinhando enquanto as suas interrompem qualquer caminho que deveriam seguir e se apossam de minha cintura.

Escorrego meus dedos propositalmente até seu pescoço, e ouso fazer o que eu desejei desde que nos ajoelhamos sobre esse colchão: deixo-os em sua nuca enquanto infiltro os dedos da outra pelos fios de seu cabelo meio comprido, meio curto.

Ainda estão um pouco úmidos. Posso sentir minha mão escorregar pelos fios quando as dele dele descem da minha cintura até meu quadril saliente, e seguram ali para me colocar sobre o seu colo quando ele se abaixa o suficiente para que isso seja possível.

Nem posso acreditar que minha pele nua está tocando a sua, também nua.

Suas coxas são tão firmes, e deveria estar frio agora... Mas o calor de nossos corpos nos aquece como se fosse uma chama impossível de se apagar até debaixo da tempestade mais feroz.

Corazón, eu quero te beijar. ㅡ Jungkook conta, mais como se pedisse uma permissão para isso.

Com a coragem do coração do leão de O Mágico de Oz, eu imploro numa afirmação: ㅡ Então beija.

Ele sorri antes de selar nossos lábios.

Quando acontece, é aquela sensação de paraíso outra vez.

Os lábios dele são finos, mas não é estranho dizer que são carnudos o bastante para que eu os sinta o suficiente. Talvez porque são os lábios de Jungkook e tudo nele é intenso demais, me faz ficar sensível demais.

Quando sua língua adentra meus lábios em busca da minha, eu espero que a temperatura suba em um nível muito superior, que nos torne incapazes de suportar a tensão só com um beijo.

No entanto, a temperatura entre nós continua morna, em especial porque Jungkook deixa sua mão em minha cintura outra vez logo após movê-las de minhas nádegas.

Ele é calmo em acariciá-la, e a velocidade do nosso beijo é de uma lentidão enlouquecedora.

Mas não existe nada daquilo que existiu dentro do seu carro.

O jeito que ele me guia e guia a gente, é como se ele buscasse somente o que temos aqui agora, ou como se o seu corpo quisesse exatamente isso.

É como se ele quisesse sentir para sempre isso que sente agora, que me induz a puxar sua nuca para mim ainda mais, e suas mãos a darem espaço para seus braços envolverem minha cintura furtivamente para que ele possa me abraçar.

Faço o mesmo, e meus braços se entrelaçam atrás de sua nuca.

Nos beijamos até perder o fôlego. E então, quando isso acontece, nos afastamos, e Jungkook olha para os meus lábios e os sela com um selinho que tem gosto de despedida, como se esse fosse o último beijo de hoje.

Não me dou por satisfeito. Seguro sua nuca e também o dou um selhinho. Devem ter cinco mamutes fazendo um festival de primavera no meu estômago.

ㅡ Eu adoro estar com você. ㅡ Ele conta, sorrindo.

Eu só sorrio, mesmo que uma avalanche de sílabas que formam palavras que, para variar, não conheço, queiram sair correndo para fora de mim. Acho que ele sabe que quero dizer muitas coisas mas que não sei como dizê-las, porque Jungkook sabe de tudo.

Os olhos dele, eu sei que são profundos porque existe um mar de informações já contempladas por eles. Ele é tão observador a ponto de, depois de nos deitarmos outra vez e retornar à nossa posição para dormir coladinhos, ainda constatar:

ㅡ Sua cabeça deve estar cheia com tudo que está acontecendo. ㅡ O modo como as palavras saem baixinhas quase não me chama atenção o suficiente para que eu abra os olhos, embora minha atenção seja totalmente dele, como sempre. ㅡ Sei que tudo isso é muito novo para você, que está acontecendo mais rápido do que deveria... Tente encarar a situação como uma evolução intelectual, como algo que vai te ensinar mais sobre a vida, e não pense tanto nas coisas que te fazem mal quando você pensa. ㅡ Ele continua falando baixinho. ㅡ Tudo é questão de tempo. No tempo certo tudo se encaixa no seu devido lugar. Talvez o que está te atormentando não vai passar hoje, nem amanhã e nem na próxima semana, mas o que importa é que você não vai estar sozinho para superar os problemas que provavelmente virão, porque eu prometo que estarei lá com você.

Agora que o sentido de sua última afirmação faz sentido em minha cabeça, eu constato que isso é, sim, tudo que eu precisava ouvir e nem sabia.

E é exatamente por isso que eu me viro em seguida, o suficiente para poder olhar nos seus olhos que brilham com a baixa luz da lua que entra pela vidraça.

ㅡ Você promete mesmo? ㅡ Eu pergunto.

Ele sorri minimamente.

Prometo corazón. ㅡ Jungkook reconfirma.

ㅡ Então quando você precisar eu também vou estar lá com você, Jungkook ㅡ garanto.

Volto a me deitar na posição inicial, puxando seu braço sobre mim outra vez.

Jungkook é a minha luz no fim do túnel. Está claro que eu teria que passar por isso em algum momento, isso de viver sem minha família e fora da minha zona de conforto. Por isso ele também é o presente do universo para mim, também pode ser meu anjo da guarda.

Antes de pegar no sono pelo cansaço, porque está claro que se dependesse de mim e todo o sangue quente correndo em minhas veias isso demoraria a acontecer, eu sinto seus lábios suaves selando minha nuca que se encolhe tímida, mas não bruscamente.

Tu eres muy especial.

Eu solto um risinho baixo, e quase rio alto quando Jungkook mordisca o lóbulo de minha orelha só para fazer cócegas.

ㅡ Dorme, Jungkook! ㅡ Eu resmungo baixinho, o repreendendo de brincadeira enquanto eu mesmo tento segurar o riso.

Ele também ri, depois suspira tão alto que quase fere os meus sentimentos. Aí, me envolve com o seu braço um pouco mais, e eu fecho os olhos, me permitindo sentir a força do que nos envolve agora.

Esse sentimento... ele é tão novo, mas é tão íntimo como se fizesse parte de mim, ou até de nós.

Sinto outra vez que algumas palavras querem pular da minha boca e rastejarem até o ouvido de Jungkook, mas sequer conheço as letras, sílabas, e sons delas.

Ao mesmo tempo, sinto que Jungkook também quer me dizer algo pela maneira inquieta que seu corpo não tenso, mas rígido, se remexe vagamente enquanto ele tenta encontrar uma posição que seja mais confortável para ele com o seu braço me prendendo contra seu corpo como se eu fosse escapar a qualquer momento.

Mas essas palavras não saem de mim, nem partem dele. Elas ficam aqui, perdidas entre a gente, enquanto o sentimento fala por si só e nos carrega aos pouquinho para um sono que espero ser livre de sonhos e pesadelos. E de roncos.

Hoje eu quero só dormir no calor dos braços de Jungkook e acordar para o dia de amanhã. Porque sempre que há tempestade, existe uma calmaria a caminho.

Eu só espero que a minha não fique presa em algum congestionamento.

•••


Nó próximo capítulo... "Eu engulo em seco mais uma vez e, assim que Jungkook gira a chave e abre a porta, me dando a visão de todos aqueles objetos que já vi mas finjo que não, ele questiona: ㅡ Você já ouviu falar sobre BDSM?"

•••


Notas Finais


Sei que isso aqui tá muito confuso, mas é difícil demais escrever os pensamentos do Jimin nessa transição/adaptação pela qual ele tá passando e ainda segurar as pontas pra não parecer que ele é transtornado psicologicamente :/ por favor, me desculpem (é de coração, do roxo: 💜)

Demorei uma eternidade pra atualizar, não foi? Até coloquei em hiatus por uns dias porque pensei que ia demorar eternidade² pra atualizar. Então... dessa vez não vou bater na bunda de vocês. Vou deixar vocês baterem na minha. Pode ser?

Ah! Vamos se seguir no Twitter? O meu user Astraeaphia e o de vocês?


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