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História Plié - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo Único


Fanfic / Fanfiction Plié - Capítulo 1 - Capítulo Único

“Você pode ter a fé que quiser em espíritos, em vida após a morte, no paraíso e no inferno, mas se tratando desse mundo, não seja idiota. Porque você pode me dizer que deposita sua fé em Deus para passar pelo dia, mas quando chega a hora de atravessar a rua, eu sei que você olha para os dois lados.”

Dr. House

 

 

Quinta feira, 20:48.

 

- Mais forte! Mais forte!

Amanda estava de quatro, completamente deitada e seu traseiro totalmente empinado. Otávio a estocava com força. 

- Assim eu vou gozar rápido! - ele gemeu atendendo ao pedido da namorada. 

- Não, ainda não! - Amanda ordenou. 

O quarto estava iluminado e Otávio tinha visão total da bunda de Amanda. Era redonda, carnuda, apoiada por quadris largos e sustentada por penas de coxas grossas e roliças. 

- Mais forte, Otávio! - a mulher gemeu. 

O namorado segurava em seus quadris, os gemidos de ambos se misturavam com o barulho das peles que se chocavam. Otávio fechou os olhos com força. Inclinou a cabeça para trás e tentava pensar em algo que não o deixasse gozar. 

Era a posição preferida de Amanda e a fraqueza de Otávio. Ambos sabiam disso. 

- Isso, assim Otávio..., - Amanda falou devagar - eu estou quase...

Ela gemeu alto. Otávio sentiu a contração e sorriu. Ela iria gozar e ele também. Aumentou o ritmo, a força, apertou ainda mais a carne de Amanda entre as mãos. Os dois gemiam alto, juntos. Amanda empurrava contra Otávio, já não tinha mais a vontade de controlar, ela estava pronta.

 

- Ah, merda! - Otávio parou. 

A energia tinha sido cortada. 

- Continua! - Amanda olhou para trás - Não precisamos de luz para isso. 

Sim, Otávio concordou, mas algo tomou sua atenção. 

 

- Você ouviu isso? - ele olhava de um lado para outro, mas não via nada. 

- Não ouvi nada, Otávio... - Amanda tentou rebolar, mas o namorado segurou seu quadril. 

- Não está ouvindo? Essa música... - ele ainda estava dentro de Amanda, mas a namorada o sentia amolecer vagarosamente - Amanda, você não está ouvindo mesmo? 

- Já disse que não! - ela puxou seu corpo para frente e deitou de bruços - Deve ser na rua, em alguma casa. O que importa?! 

Amanda já estava irritada e o seu tesão acenava o adeus. 

- Fica aqui, - Otávio saiu da cama - vou ver o que aconteceu. 

Amanda não respondeu. Apenas mostrou  o dedo médio e assim que o namorado saiu do quarto ela resolveu que iria gozar, com ou sem ele. Colocou a mão por baixo, encontrou seu ponto e aproveitou a lubrificação natural que ainda estava lá para servi-la. 

 

 

Otávio foi até a sala do pequeno apartamento e olhou para fora. Todos os outros apartamentos tinham energia. A rua estava iluminada. Constatou que o disjuntor de sua casa estivesse desligado. 

Mas tinha aquela música. Ele ouvia baixo, já tinha ouvido antes, mas não sabia de quem era. Sabia que era música clássica, mas as notas soavam quase que mecanicamente, como se saíssem de algum objeto. 

Uma caixinha de música. 

 

Era isso. Talvez fosse no seu vizinho de porta, já que ele mesmo não tinha tal objeto. O som baixo se justificaria. O vizinho tinha filhos, duas meninas, na verdade e talvez fosse um dos brinquedos delas. 

Deu de ombros e foi ao encontro da caixa de energia. Pegou uma vela na cozinha e com a luz bruxuleante iluminou o painel. Estava tudo no lugar. O disjuntor não estava desligado. 

Otávio desceu todos os botões e em seguida os levantou. 

Nada. 

Ele mesmo não entendia muito disso, sabia que a instalação era nova, pois o prédio era novo. Pensou em pesquisar alguma dica na internet, mas ao pegar o celular constatou que estava sem bateria. 

- Amanda?! - ele gritou da sala - Onde está seu celular? 

A mulher não respondeu. Otávio tentou encontrar a bolsa da namorada, esqueceu da vela em sua mão e quando a abaixou, a cera quente pingou em seu pé. 

- Ai, caralho! - ele soltou a vela que caiu e apagou - Amanda?!

Otávio gritou enquanto tateava o chão à procura da vela. 

Por um instante tudo ficou silencioso, silêncio demais e Otávio teve a sensação de ouvir alguém respirando. 

- Amanda...? - ele olhou na direção do quarto, mas não recebeu resposta. 

Continuou a procura pela vela, arrastava as mãos no chão com rapidez e de repente um som estridente ecoou em seus ouvidos. Era como o som de engrenagens enferrujadas em atrito umas com as outras. Era alto demais. Otávio levou as mãos às orelhas afim de interromper o barulho, mas foi em vão. O barulho aumentava cada vez mais e seus tímpanos estavam quase explodindo. 

Dor. 

Otávio jamais sentira tanta dor na vida. Ele arregalou os olhos e lágrimas saltaram escorrendo pelo seu rosto. 

- Amanda?! - ele gritou pela namorada - Me ajuda, Amanda?!

E então, como uma agulha que é arrastada sem cuidado através do disco, o barulho cessou. Otávio caiu de quatro respirando com dificuldade. Seu coração batia rápido, suas mãos formigavam e seus ouvidos latejavam. 

- Deus... 

- Deus não está aqui.

Otávio levantou rápido, mas tropeçou no sofá e novamente caiu. Seus pelos do braço se levantaram. Ele tinha ouvido um sussurro, ele tinha certeza. 

- Quem está aqui?! - ele tentou se levantar - Amanda, isso não tem graça! 

- Amanda também não está mais aqui. 

Novamente o sussurro e a música recomeçou. Era suave, lenta, calma.

Um grito ecoou pelo apartamento. Um grito de terror, de dor, de medo. Otávio se levantou e correu para o quarto. 

- Amanda! 

A luz estava acesa. Era o único cômodo que tinha luz e em cima da cama estava Amanda. Deitada de bruços, um dos braços por baixo do corpo, a cabeça virada para o lado. Os olhos arregalados, como se tivesse visto algo muito assustador. A boca aberta de onde tinha saído o grito, mas que agora estava muda. 

Otávio não acreditava no que estava vendo. Havia sangue na cama. No chão. Nas paredes. Ele passou os olhos pelo corpo nu da namorada e a cada momento em que se aproximava da parte de baixo seu coração acelerava mais.

 

Otávio prendeu a respiração e continuou, passou pelas costas, o traseiro empinado, acompanhou a curvatura e chegou no encontro com as coxas. 

- Caralho... 

Otávio não conseguiu conter o vômito e quando seu estômago se esvaziou ele voltou a olhar. As pernas de Amanda estavam esmagadas. Do joelho para baixo era uma mistura de sangue, ossos e pele. Os pés estavam completamente destruídos, como se tivessem sido mastigados por alguma fera e depois regurgitados. O sangue pingava do lençol em gotas grossas. 

A música tocava, ele não sabia quem era o cantor. Ele já tinha ouvido aquela música. Era apenas a melodia. Otávio olhou para trás e tudo o que viu foi a completa escuridão. Passou as mãos na cabeça, não tinha ideia do que fazer. Não conseguia se mexer. Seus ouvidos ainda doíam e atrapalhava seu raciocínio. 

De repente sentiu algo bater em suas pernas e caiu de joelhos. Gritou na mesma intensidade que sentiu a dor. 

- Agora é a sua vez, Otávio. 

O homem levantou a cabeça e não pôde crer no que via.

- Só que com você será bem devagar, como foi comigo. 

Otávio tentou gritar novamente, mas antes que qualquer som saísse de sua boca, ele desmaiou. 

 

 

 

Meses antes. 

 

Teatro Municipal - ensaio geral da companhia de balé 

 

- O Plié é o movimento mais importante do balé...

Ana estava encostada na grande janela da sala de ensaios. Adorava assistir às aulas da turma juvenil antes do seu próprio ensaio. Ver as pequenas e pequenos iniciando na belíssima dança, era algo que ela considerava lindo e lembrava do seu próprio começo, seu jeito desajeitado, sua dificuldade em decorar e executar os passos perfeitamente. 

Mas agora, Ana era parte do corpo de dançarinos oficiais do Teatro Municipal. Estava às voltas com sua primeira apresentação para um grande público e sentia um pouco de medo. Sentia orgulho de si mesma também. Estava ansiosa e buscava nas crianças um pouco de paz. 

Enquanto a professora dava a aula teórica, Satie tocava ao fundo a Gymnopédie número 1. Uma música calma e linda. Suas notas eram tocadas devagar e Ana gostava de ouvi-la. 

Já tinha ouvido dizer que música clássica ajuda na absorção de conteúdos, principalmente para crianças e as pequenas estavam vidradas na professora que, enquanto falava, também demonstrava os movimentos. 

 

- Ei, Ana?! A Cora vai te esfolar! 

- Bom dia para você também, Luísa! - Ana riu sem tirar os olhos da aula. 

- O que está fazendo aí? - Luísa se aproximou da amiga - O ensaio começou!

- Já?! - dessa vez Ana olhou para Luísa - Não estava marcado para às nove?

- São dez e meia, Ana Júlia! - Luísa bateu no pulso, mas mostrou as horas no celular. 

- Eita porra! - Ana deu um salto - A Cora vai me esfolar!

Luísa riu e as duas partiram para o palco principal do teatro. 

Algumas horas depois, Cora encerrou o ensaio, mas pediu que Ana ficasse. 

- Está tudo bem com você, Ana? 

Ela perguntou assim que se acomodaram na primeira fileira. Cora sentou-se de lado para olhar para a garota. 

- Sim, por que? - Ana a encarou para que não restassem dúvidas sobre sua pergunta. 

Mas Cora era mais experiente. 

- Você nunca se atrasa. - a coreógrafa falou tranquilamente - Hoje você chegou uma hora e meia atrasada. - ela esperou, mas Ana ficou calada - Estava dispersa no ensaio, longe...

Ana desviou o olhar. Ela sabia que tinha sido seu pior dia desde que fora selecionada para aquele corpo de dança. 

- Ana, olha pra mim. - Cora tocou no braço da bailarina - Você é uma das melhores bailarinas que temos, será destaque na apresentação. 

- Eu sei...

- Se você está preocupada ou ansiosa, pode falar. - Cora fez uma pausa e continuou - Eu já passei por isso, sei que pode ser muito estressante.

- Não estou preocupada, Cora. - Ana voltou a encarar a coreógrafa - Acho que estou um pouco cansada, só isso. 

Cora sabia que tinha algo a mais, mas decidiu deixar que Ana pensasse que a tinha convencido. 

- Está bem, - Cora se levantou - venha, vamos almoçar e depois você vai pra casa! - Ana sorriu e pegou na mão que Cora estendeu - É por minha conta, mas você pode escolher o lugar se quiser.

- Hum..., - Ana pensou - que tal hambúrguer?

- Você quem manda, bailarina! Vamos nos trocar!

 

Ana relaxou um pouco e as duas tiveram um almoço agradável. Conversam sobre muitas coisas, exceto balé. Elas já viviam naquele mundo e às vezes precisavam se lembra de que havia vida fora dos pliés, arabesques, saltos e rodopios. 

Todos os bailarinos sabiam que a dedicação deveria ser o principal objetivo de suas vidas, mas vez ou outra era necessário escapar. E Ana deu uma escapulida graças a Cora. Contou sobre seu Gustavo, seu possível namorado, sua família, a faculdade, seus animais de estimação e seu amor por hambúrguer. 

Cora dividiu um pouco de sua vida também. Marido, pais, filhos, sogros, irmãs sobrinhos, o cachorro, o papagaio e seu desejo de ter um livro publicado. 

- O que falta para você publicar? - Ana enterrou uma batata frita no ketchup.

- Coragem. - Cora riu - Eu acho uma bosta!

- Eu quero ler, posso? - Ana estava curiosa. 

- Vou pensar... - Cora piscou para ela. 

 

Almoço encerrado e cada uma foi para um lado. Cora insistiu que, se Ana precisasse de alguma coisa, poderia contar com ela. Ana agradeceu, disse que ligaria se precisasse, mas o que a atormentava mesmo era um sonho que tivera durante a noite passada. Um sonho que ela jurava que foi real, jurava que aquilo tinha acontecido, mesmo que ela estivesse intacta.

 

 

 

 

 

Otávio despertou, mas estava tonto e mal conseguia abrir os olhos. Sentia gosto de sangue na boca, seus ouvidos tinham um tinido irritante e persistente. Sentiu que estava deitado e embaixo de seu corpo o que quer que fosse o móvel, estava molhado. 

“Amanda!”

Ele se lembrou do que havia acontecido.  Tentou se levantar rápido,  mas gritou ao sentir uma dor lancinante nos pés. Otávio deitou novamente e tentou se virar de lado, mas suas pernas estavam travadas e mais uma vez ele gritou de dor. 

- Amanda..., - ele sussurrou choroso - você está aqui? 

Silêncio. 

Novamente a escuridão estava presente e Otávio não conseguia ver nada. Respirou fundo e tentou se levantar, percebeu que estava em sua cama. Dobrou os braços e se apoiou nos cotovelos, tentou mexer as pernas, mas a dor o impedia bruscamente. 

- Deus... 

Otávio não conseguiu conter o choro. Com uma das mãos apalpou o colchão e sentiu o lençol molhado. Era o sangue de Amanda, mas o corpo não estava mais ali. 

- Alguém me ajuda!!!

Otávio gritou o mais alto que conseguiu. 

- Pode gritar o quanto quiser, - a voz ecoou no escuro - ninguém vai ouvir você. Nem mesmo Deus pode te ajudar. 

Otávio procurou na escuridão.

- Quem é você?!

 

 

 

 

 

 

- Ana?! - Luísa correu ao encontro da amiga - Vamos sair para beber mais tarde, você vai, né?!

- Claro! - Ana sorriu - Mas antes vou encontrar com o Gustavo.

- Leva ele, depois que vocês cansarem de trepar! - Luísa provocou. 

- Como você é baixa! - Ana fingiu indignação.

As amigas riram e seguiram para o metrô. Havia sido o último dia de ensaio e Cora dispensara a turma para descansar por uma semana antes da pré estreia. 

Recomendou que todos descansassem, relaxassem e fizesse qualquer coisa que não fosse o balé. Mas se quisessem praticar, que fosse com cuidado e moderadamente. 

- Eu não quero que nenhum de vocês torçam os pés ou consigam luxar os joelhos. - Cora andava de um lado para o outro no palco - Nossos ensaios foram intensos nos últimos três meses e todos vocês estão preparados, portanto, viagem, trepem, bebam, comam, durmam, trepem mais e durmam mais!

A turma riu e concordou. 

- Não se preocupem, nós iremos arrebentar!

- Merda! - todos gritaram e deram um abraço coletivo. 

De fato, Cora tinha razão, os ensaios tinham sido pesados, mas valeria a pena no final. 

 

Horas mais tarde Ana estava deitada na cama de Gustavo. Ambos nus olhando para o teto com sorrisos de satisfação.

- Hoje você está inspirada, bailarina! 

Gustavo virou-se e acariciou a barriga de Ana. 

- Eu estou feliz. - Ana sorriu para ele - Está tudo tão bom, dando tão certo que eu mal acredito.

- Pois acredite, bailarina! - Gustavo a beijou.

Ana recebeu os lábios dele e enterrou os dedos nos cabelos encaracolados do rapaz. 

Logo ele já estava por cima dela, entre as pernas dela e Ana gemeu quando ele a penetrou devagar. Ela amava a forma como Gustavo lhe dava prazer. Ela sentia o prazer dele no ato, antes, depois. E Ana sentia ainda mais prazer com isso. 

Um tempo depois, os dois saiam do banho e enquanto Ana se vestia Gustavo aproveitou para sair do quarto, mas logo voltou. 

- Eu tenho um presente para você, bailarina.

Ele estava com as mãos para trás. 

- Presente? - Ana inclinou a cabeça, mas Gustavo não deixou que ela visse. 

- Lembra daquela mecha que eu cortei do seu cabelo?

- Ah meu Deus! - Ana levou as mãos à boca - Você fez um voodoo?!

- Quase..., - Gustavo levou a pequena caixa à frente de seu corpo - só que mais elegante.

Ana olhou para o embrulho delicado com um laço rosa bebê grande em fita de cetim, como sua sapatilha. 

- Abra, minha bailarina linda.

Ana recebeu a caixa e seus olhos brilharam. Desfez o laço devagar, tirou o papel com cuidado. Uma caixa branca com tampa apareceu. Ela leve. 

- Feche os olhos. - Gustavo pegou a caixa e tirou o objeto. Fechou e o colocou em cima da tampa. 

Ana ouviu um barulhinho mecânico e sorriu. Em seguida a música começou. 

- Pode abrir. - Gustavo ergueu a caixa. 

Em cima dela havia uma caixinha de música com uma bailarina no centro na posição de arabesque. A roupa era feita com o mesmo tecido das roupas usadas por Ana. As sapatilhas também eram em tecido e com fitas de cetim rosa bebê. Na cabeça, um coque perfeito feito de cabelo verdadeiro. O cabelo de Ana. 

- Gustavo..., - Ana estava encantada, hipnotizada - parece uma miniatura...

- Sua! - ele completou - Você gostou?

- Eu amei! Eu amei! - Ana tinha lágrimas nos olhos - Obrigada!

- Ana? - Gustavo entregou a caixa para ela - Você quer ser minha namorada?

A bailarina girava graciosamente levada pelas melodias de Satie. Ana abriu um sorriso enorme e com um braço agarrou Gustavo e o beijou. 

- Vou entender como um sim.

Ele falou entre os lábios dela e se deixou ser beijado. 

 

 

 

 

 

- Nossa, a Ana tá demorando muito!

Luísa consultou o celular pela enésima vez. Ana ainda não tinha respondido às mensagens da amiga. 

- Calma mulher, se ela disse que vinha, ela vem. - Johnathan ergueu a mão para chamar o garçom. 

De repente uma freada brusca chamou a atenção do casal. Um grito foi ouvido do outro lado da rua. Todos que estavam no do lado de fora do barzinho se levantaram. 

- Meu Deus do céu! - uma mulher gritou e correu. 

- Ele está fugindo, alguém anota a placa do carro! - um rapaz tentava fotografar o veículo. 

Luísa e Johnatahn trocaram olhares sem saber direito o que estava acontecendo. A mesa deles estava bem na curva da calçada e a visão do restante da avenida era limitada. 

 

- Ana?! Ana?! Ana?! - Gustavo corria em direção ao corpo da namorada - Alguém chama o resgate, pelo amor de Deus!

Ana estava imóvel. Suas pernas estava torcidas para o lado, o tórax virado para baixo e sua cabeça para o lado oposto às pernas. Um dos braços estava embaixo da barriga e o outro estirado para cima. 

 

- Você ouviu? - Luísa se levantou - Você ouviu Johnathan, ele chamou pela Ana!

E os dois se levantaram e correram na mesma direção em que Ana estava, rodeada de pessoas. 

Tentaram impedir o motorista, mas ele engatou a marcha ré e conseguiu entrar em uma travessa e sumiu. 

- Ana? Ana, Ana, Ana?! - Luísa se ajoelhou chorando. 

Ana estava imóvel. Tinha sangue ao redor do corpo dela. Ainda respirava, com dificuldade, mas respirava. 

O resgate não demorou a chegar, a polícia colheu o depoimento das pessoas. 

Foi tudo tão rápido que nem Gustavo conseguiu explicar. Todos que falaram com a polícia disseram a mesma coisa: ouviram uma freada brusca, viram o corpo da garota e o motorista fugiu. Mas alguém conseguiu anotar a placa e as imagens das câmeras de segurança ajudariam nas investigações. 

 

 

 

 

 

- Procurando bem...

Otávio estava estático. Suas pernas estavam dormentes e ele não sabia se ainda as tinha. 

- Só a bailarina que não tem...

Ele sentiu um toque frio em seu rosto e fechou os olhos. Ainda estava escuro, de qualquer maneira ele não veria nada, mas de repente ele gritou. 

Os ossos de seus pés quebraram. 

- Por favor...., - ele chorava - por favor...

- Por favor o quê?

- Está doendo muito...

Otávio sentiu mais pressão e seus ossos se partiram mais uma vez. Sentia como se seus pés estivessem sendo dobrados ao meio. Em seguida sua perna direita foi levantada. 

Ele não conseguia falar. Apenas chorava compulsivamente. 

 

- Eu vou te contar uma história, Otávio. 

E sua perna foi torcida como um pano de chão. O grito de Otávio foi gutural e em seguida ele desmaiou. 

 

 

 

 

 

Ana estava em cirurgia. Luísa, Johnathan, Gustavo e os pais da garota aguardavam na  sala de espera. Cora chegou um tempo depois. 

 

 

 

 

 

- Todo mundo tem um primeiro namorado, só a bailarina que não tem...

Otávio abriu os olhos com dificuldade. Estavam inchados e a claridade também dificultava. 

Dor. 

Ele sentia tanta dor que mal conseguia respirar. Tentou se erguer, mas não conseguiu. O espaço ao lado estava vazio, mas o lençol estava encharcado de sangue. 

- Foram quatro horas de cirurgia para tentar colocar o meu quadril no lugar.

Ele ouviu sussurrado em seu ouvido e em seguida sentiu seu quadril girar e se deslocar. Otávio urinou de dor. Seu estômago nauseou.  

- Depois, mais três cirurgias para salvar apenas uma de minhas pernas. 

Otávio tentava erguer a cabeça, tentava ver quem estava em seu quarto. 

Novamente sentiu o toque frio em sua pele e dessa vez na outra perna. 

- Você sabia que o plié é o movimento mais importante do balé?

A perna dobrou suavemente. 

- Mas um plié mal feito pode estragar o joelho da bailarina...

E então, Otávio sentiu seu joelho girar por baixo da pele. 

- Senhor Jesus! 

Ele gritou e vomitou. Mas estava de barriga para cima e começou a se engasgar. Otávio tossia, chorava com os olhos arregalados olhando para o teto. O pavor o dominava e ele não conseguia saber quem o torturava daquela forma. Ele a ouvia. Ele a sentia. Mas não a via. 

- Você vai morrer, Otávio! 

Ela sussurrou rápido. 

Mas então um puxão levantou o corpo de Otávio e ele conseguiu vomitar. A cena que ele viu em seguida era devastadora. Suas pernas e pés estavam completamente destruídos e ele não conseguia entender como ainda estava vivo. 

 

 

 

 

 

 

- Ela poderá voltar a dançar, doutor? 

A mãe de Ana conversava com o médico após a cirurgia. 

- Infelizmente não. - o médico explicou - Os ossos da perna esquerda quebraram em diversas partes e precisarão de pinos. É provável que ela fique com sequelas e manque. 

- Ana não vai suportar ouvir isso. - a mãe cobriu o rosto e chorou. 

- Eu sinto muito, senhora. 

O médico usou seu tom mais solene possível. 

- Precisamos falar sobre o rosto dela. - o médico continuou - Uma cirurgia plástica pode amenizar os efeitos. 

- Doutor, - o pai de Ana se adiantou - não temos como pagar por uma cirurgia dessas. 

 

 

 

 

 

- Pinos! - Otávio se assustou com o grito - Podemos consertar as suas pernas com pinos. O que acha, Otávio?

E em seguida aquela música mecânica. Otávio olhou para o lado e em cima da cama havia uma caixinha de música com uma bailarina girando na posição arabesque. Mas a perna que estava para cima, era só a metade. 

- Eu nunca mais vou dançar...

E a figura enfim se revelou. Uma jovem vestida como bailarina, mas suas pernas estavam retorcidas, havia sangue em toda a sua roupa. O coque estava bagunçado e seu rosto sangrava. 

- É impossível descrever a dor...

Otávio gemeu e levou as mãos ao rosto. A pele estava sendo dilacerada. O sangue começou a sair por entre seus dedos. 

- Mas é ainda pior quando você olha...

Otávio abriu os olhos e contemplou a face ferida da bailarina. Uma de suas bochechas não existia e os ossos do maxilar estavam à mostra. 

A bailarina inclinou a cabeça para o lado. 

- Você não se lembra, não é?!

- Lembrar do que?! - Otávio lamentou. 

Então, vagarosamente, a bailarina começou a se mover. As pernas torcidas dificultavam seu andar e seu corpo pendia de um lado para outro a cada passo dado. 

- O que vai fazer?! - Otávio tentou se mover, mas suas pernas e pés doíam muito. 

- Eu vou fazer você se lembrar...

E a bailarina sorriu e seu sorriso tornou-se um riso que se transformou em uma gargalhada assustadora e histérica. Sua boca foi se abrindo, abrindo, abrindo e diversas fileiras de dentes apareceram. 

Otávio estava paralisado e ela se aproximava cada vez mais. A boca aberta e os dentes pontiagudos. A gargalhada desesperada, assustadora ecoando pelo quarto. 

- Eu vou fazer você se lembrar, Otávio! 

E então tudo escureceu novamente. 

 

 

 

 

 

O velocímetro do carro marcava 160 km/h. Pelo viva voz do celular conectado ao carro, Otávio discutia com Amanda. A mão esquerda segurava o volante e a mão direita segurava uma garrafa de vodca. 

- Foda-se o que você acha que viu!

Ele berrou e acelerou mais. 

- Otávio, volta pra cá! 

Amanda chorava. 

Estavam em uma festa e ela havia visto o namorado beijando outra mulher. 

- Pegue um táxi! 

Otávio negava veementemente o ato cometido e fingindo descaradamente estar indignado, roubou uma garrafa e abandonou Amanda. 

- Eu não vou pegar táxi nenhum, você me trouxe, você me leva!

Ela gritou do outro lado da linha. 

- Vai se foder, Amanda!

Otávio gritou e desligou. Levou a garrafa à boca e inclinou a cabeça para trás deixando que o líquido fluísse para sua garganta. 

E então um buraco na avenida o fez perder o controle. O carro subiu na calçada e Otávio ouviu o impacto. O carro ainda continuou a correr, passou por cima de alguma coisa e só então Otávio freou bruscamente. Pelo retrovisor ele viu um corpo no chão. 

 

 

 

Ele gemia, não conseguia falar. Estava deitado no asfalto, seu rosto ardia e queimava. Não sentia as pernas. A visão estava turva, mas Otávio ouvia as pessoas ao seu redor. Ele também podia ver a caixinha de música no meio da rua. A perna da bailarina estava quebrada. Alguém dizia para ele não fechar os olhos. Alguém dizia que o amava e estava lá e tudo iria ficar bem. 

 

 

 

O bip da máquina na sala de cirurgia indicava que o coração de Otávio continuava a bater. Ele estava completamente anestesiados e não sentia nada. O médico mexia em seu quadril, comentava sobre suas pernas dizendo que ele nunca mais poderia dançar. Tinha um curativo grande no rosto. Tentou abrir os olhos, mas logo adormeceu. 

 

 

 

Otávio acordou aos gritos. Estava em um quarto de hospital e em suas pernas havia estruturas de aço para corrigir os ossos quebrados. Tentou sentar, mas o quadril também estava imobilizado. Tocou em seu rosto e sentiu dor. Chorava e gritava. Alguém entrou, uma picada no braço e ele adormeceu. 

 

 

 

Semanas se passaram, Otávio piorava. Olhava no espelho e via seu rosto desfigurado. Tinha arrancado alguns pinos de aço e sangrava. No noticiário ele ouviu que o motorista embriagado que o atropelara tinha sido absolvido. Réu primário, foi condenado a prestar serviços comunitários. E tinha mais alguma coisa que o advogado fizera e que o ajudou a se livrar da prisão. 

 

 

 

Otávio se recusava a tomar medicamentos. Sentia fortes dores e uma de suas pernas começou a gangrenar. Ficava isolado no quarto, olhando para parede onde estavam penduradas suas primeiras sapatilhas de ponta. Cortou os pulsos, mas sua mãe o encontrou a tempo. No hospital os médicos disseram que a perna gangrenada teria de ser amputada. Otávio concordou. 

 

 

 

Voltou para casa, mas se recusava a tomar os medicamentos. Psicotrópicos haviam sido agregados, mas ele não tomava. Passou a ficar violento. Cultivava a raiva dentro de si. As dores que sentia aumentavam ainda mais a cólera que crescia dia a dia. Otávio estava completamente diferente. Não chorava mais. Não sorria. Não comia. Não falava. Não queria ver ninguém e afastou-se de tudo que um dia lhe dera prazer. A única coisa que Otávio guardava com carinho era a caixinha de música. Dava corda e ficava ouvindo a melodia metálica tocar enquanto a bailarina de uma perna girava graciosamente. 

 

 

 

Foi um dia qualquer. Uma hora qualquer. Sua mãe entrou no quarto e encontrou Otávio morto na cama. Tinha cortado os pulsos durante a madrugada. Morreu em silêncio, mas enquanto morria, fazia uma prece. Não era para Deus. Otávio queria vingança. Tomado pelo ódio, morreu sorrindo um sorriso sinistro, os olhos arregalados e ao seu lado a caixinha de música. 

 

 

 

 

- Chega! Chega! Por favor, me perdoe!

Otávio voltou para seu quarto. A bailarina estava em pé ao seu lado, ela segurava a caixinha de música em uma das mãos. 

- O que você quer de mim, o que quer eu faça?

- Eu quero que você pague pelo que fez.

- Como?! - Otávio percebeu que seu corpo estava normal. 

- Você sabe o que fazer, Otávio. 

E assim como apareceu, a bailarina desapareceu. O quarto voltou ao normal e Amanda dormia tranquilamente. Mas na mente de Otávio, tudo se repetia, tudo que ele viu, tudo que ela sentiu e o fez sentir. 

- Amanda? - ele tocou o ombro da namorada - Amanda, acorda. 

- O que foi? - ela virou-se sonolenta. 

- Eu preciso sair. - Otávio fitou sua namorada por alguns segundos - Eu vou me entregar. 

- Do que você está falando? - ela sentou virada para ele - Se entregar, por que?

- Você lembra daquele acidente...? 

Otávio baixou a cabeça. Tinha se dado conta do mal que fizera. Tinha destruído a vida de uma jovem. Uma bailarina talentosa e que tinha muito para viver. 

Se levantou e trocou de roupa. Amanda não disse nada, apenas observou. Algumas horas depois, Otávio ligou e disse que seria transferido para uma penitenciária. Amanda chorou, mas sabia que isso era o certo a ser feito. Combinaram que ela poderia visita-lo em algumas semanas. 

 

 

Dois dias se passaram. A penitenciária não era um lugar confortável e seguro. Otávio tinha conseguido uma cela somente para ele, por enquanto. A comida era ruim, o colchão se parecia mais com uma tábua e não tinha travesseiro. Á noite fazia frio e o cobertor disponível não dava conta. 

- Você vai se acostumar...

Otávio sentiu um frio percorrer sua espinha. Ele conhecia aquela voz. 

- Na verdade, é bem melhor do que o lugar de onde eu venho.

A cela estava escura. Os detentos dormiam. Otávio permaneceu parado, de olhos fechados. 

A alavanca girou. 

Uma. Duas. Três. 

Várias vezes. 

A música começou. Gymnopédie de Satie. Otávio não conseguiu conter as lágrimas. 

- Eu fiz o que você queria...

Sentiu o toque frio em seu rosto. 

- Não chore, Otávio. - ele sentiu o hálito pútrido da morte - Sabe, aquilo que dizem sobre os suicidas? É ainda pior...

Ela sussurrou. 

- Quando eu estava quase morrendo, eu fiz um pedido. 

Silêncio. 

Otávio sentia a música mecânica arranhar seus ouvidos. 

- O..., o que você pediu?

Ele perguntou para tentar acabar logo com aquilo. E mesmo no escuro ele pode ver o sorriso monstruoso, cheio de dentes da bailarina. 

- Eu pedi para ficar com você, Otávio. Para sempre. 

Otávio se encolheu na cama e a parede bateu em suas costas. Era o limite. 

- Muito prazer, o meu nome é Ana.

 

O grito de pavor ecoou pelos corredores da penitenciária, mas ninguém se importou em verificar. 

Eram 21:00. O horário exato em que Ana foi atropelada. O horário exato em que ela morreu, em sua cama, ao finalizar a prece que foi atendida pelo pai dos demônios vingativos. 

 

Era a hora exata de Otávio reviver tudo o que ela havia passado, noite após noite, enquanto Otávio vivesse. 



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