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História Poeira ao vento - Capítulo 2


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Notas do Autor


Em itálico, fatos ocorrido no passado.

Capítulo 2 - Todos os meus sonhos passam diante dos meus olhos


Fanfic / Fanfiction Poeira ao vento - Capítulo 2 - Todos os meus sonhos passam diante dos meus olhos

Mesmo sendo já noite, o vento insistente que trazia o cheiro do asfalto misturado à terra molhada não deixava dúvidas, uma chuva logo iria cair. E não seria uma chuva rápida, ou uma garoa um pouco mais forte, seria pesada e provavelmente se estenderia pela madrugada. Precisava encontrar um lugar para abrigar-se.

Cruzando os braços em uma tentativa frustrada de se aquecer, o menino perambulou por algumas ruazinhas e becos de Sevilha, mas não havia uma única marquise que não estivesse ocupada. Suspirou, cansado, teria que ir para o beco perto da Praça Central da cidade. Tinha prometido a si mesmo que não voltaria lá, mas não havia outra saída, a chuva já começava a cair em pingos grossos, estava quase ensopando suas roupas gastas e o cabelo desalinhado.

Após alguns minutos, entrou pelo beco. E, ao erguer os olhos negros, o brilho esverdeado que estes possuíam imediatamente se apagou. Lá estava o velho homem, com seu sorriso de escárnio nos lábios. Com apenas um gesto, chamou o menino para sua barraca improvisada. Com um suspiro pesado e os lábios trêmulos, Shura entrou na barraca.

Sobreviver ainda era uma prioridade...

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Apesar de já estar naquele lugar há algum tempo e ter se acostumado à rotina, não conseguia se desfazer da pose de alerta constante. Qualquer voz desconhecida que ouvia, ou toque em seu corpo que raramente o pegava desprevenido, Shura se assustava, se contraía como se estivesse sentindo algum tipo de dor e então se afastava. E o semblante sério permanecia, como se fosse uma máscara que não podia tirar de jeito nenhum da face, como as que as aspirantes à amazona usavam no Santuário.

Claro que toda sisudez, tão precoce para uma criança, não passava despercebida por ninguém, muito menos os demais aprendizes. Alguns tentavam se aproximar de maneira tímida, como o lemuriano que era também o futuro discípulo do Grande Mestre, ou de um jeito mais “estabanado” como o menino que era brasileiro, maior que todos os demais e mais expansivo também. Outros, tentavam vez ou outra uma conversa, sendo o sueco o mais insistente, junto do escorpiano. E, claro, tinha Aiolia, o pequeno irmão de seu “mestre” Aiolos. Aquele ali não media esforços para estar junto de Shura, ou tentar incluir o espanhol nas atividades e brincadeiras.

O problema era aquele italianinho desbocado, que tinha a mesma idade do espanhol. Não fazia ideia de quem de fato ele era, para todos havia se apresentado como “Mascherina”, mas tinha certeza de que isso não era um nome, no máximo um apelido. Fato era que desde praticamente o primeiro dia tinha elegido Shura como seu alvo preferido para provocações e brincadeiras de mau gosto.

Já tinha vivido e sofrido tantas coisas nas ruas de Sevilha que, na maior parte do tempo, simplesmente ignorava as palavras e atitudes do idiota. Isso, é claro, até o danado perceber que o pequeno leonino era o único entre todos os garotos a quem Shura dava alguma atenção. Talvez estivesse ali seu ponto fraco...

Noite em Atenas. Época de chuvas...

Naquela noite e madrugada, uma chuva forte castigou o céu de Atenas e o Santuário. Além das gotas grossas e pesadas que caíam e faziam barulho ao bater nas venezianas das janelas do alojamento, raios e trovões cortavam o céu. Mesmo sabendo que estava seguro, era difícil para Shura conciliar o sono, as memórias de suas noites nas ruas quando chovia, não lhe deixavam dormir em paz.

Foi quando percebeu que, em algum das camas no alojamento, havia um lamento. Algum dos meninos estava assustado e chorava baixinho. Percebeu que o mesmo fazia um esforço danado para não chorar, mas a cada relâmpago ou trovão era inevitável o susto e um lamento mais profundo. Pensou sem e levantar e ver quem era, mas desistiu quando ouviu a voz do italianinho mandando quem quer que fosse, calar a boca. Ouviu o choro ser abafado, como se o responsável tivesse colocado a coberta ou o travesseiro sobre a cabeça. Acabou vencido pelo cansaço e dormindo pouco depois.

Pela manhã, quando todos os aprendizes se reuniam em frente ao alojamento, aguardando Aiolos e Saga para irem para a arena e treinarem, percebeu que a rodinha estava mais agitada que o normal. Aiolia estava no meio dela, gritando alguma coisa para “Mascherina”, que ria e revidava o chamando de bebê chorão ou algo do tipo. O escorpiano segurava o pequeno, que queria bater no italiano, o sueco mandava o outro ficar quieto.

-O que está acontecendo? – Shura perguntou e aquilo era um evento tão raro que todos os meninos pararam para o espanhol, que entrava pela rodinha e se aproximava do leonino.

-Esse pirralho ficou chorando a noite toda por que tem medo de uma chuvinha... – O italiano desdenhou – Aposto que fez até xixi na cama de medo!

-Eu não fiz nada! Para de falar essas coisas!

-E vai me fazer parar, pirralho?

-Já chega, Mascherina... – Shura interveio, se colocando entre os dois – Você vai calar sua boca agora ou...

-Ou o quê? Vai correndo contra tudo por irmão desse peste aí? Você é um frouxo, espanhol de merda...

Shura pensou em revidar, mas calou-se, não valia a pena. No entanto, ao se virar de costas para o italiano, o outro não gostou de ser ignorado e tratou de dar um passo, avançando sobre o menino. Foi tudo muito rápido.

Quando Aiolos e Saga se aproximavam do alojamento, ouviram os gritos de ‘para” e “bate mais” e correram para a rodinha, onde Shura e Mascherina estavam no meio, engalfinhados no chão, ambos sujos de terra e até sangue que não dava para saber de quem era. Com muito custo, conseguiram separar os dois, palavrões em italiano e espanhol ainda eram ouvidos pelo ar.

-O que vocês dois pensam que estavam fazendo? – Saga questionou, segurando no ar um chute que o italiano tentou dar em Shura.

-Foi ele quem começou! – berraram as duas vozes ao mesmo tempo, Shura tentava de todo jeito se soltar de Aiolos, os demais estavam afastados e quietos.

-Não interessa quem começou, vocês vão para a enfermaria agora!

Dando ordens há alguns servos que apareceram por ali, Saga pediu que levassem os demais garotos para o refeitório para tomarem café, enquanto ele e Aiolos davam um jeito nos dois brigões. Foram para a enfermaria, cada um em uma sala diferente e sob supervisão. Shura, agora calado, sentou-se sobre a maca e ficou de braços cruzados e olhar baixo, não queria encarar Aiolos.

-Tire sua camiseta, Shura... - o grego falou e o menino deu um suspiro.

-Para quê? – perguntou na defensiva, não estava gostando daquilo.

-Tem sangue na sua camiseta e eu preciso saber se é seu ou não. Apenas tire logo, é uma ordem.

Resignado, mas sem olhar para o rapaz, o espanhol obedeceu. E quando Aiolos voltou a se aproximar para ver melhor se havia algum machucado ou corte de onde pudesse vir aquele sangue, ele se assustou e prendeu a respiração por um momento: as costas e abdômen do menino eram cheios de cicatrizes de cortes e marcas redondas, que eram muito semelhantes à queimaduras de cigarros, de diversos tamanhos e cores, indicando algumas antigas e outras mais recentes. O menino percebeu a hesitação do mais velho e levantou o olhar para a parede da enfermaria, mas sem de fato enxergar algo ali.

-Shura, isso é... – Aiolos engoliu em seco, tentando dizer algo, mas foi interrompido pela voz grave e sem emoção alguma do menino.

-Isso são os presentes que ganhei por se um menino desobediente ou “pouco” bonzinho...

Aiolos nada disse, apenas baixou a cabeça. E então, em um gesto bem típico de um irmão mais velho, abraçou Shura, puxando a cabeça do menino de encontro ao seu peito, envolvendo as costas do menino com os braços, murmurando um “eu sinto muito” que bateu forte no coração do espanhol.

Estavam assim, abraçados, quando Aiolia apareceu na porta da salinha, tinha fugido correndo do refeitório e ido atrás do irmão, com medo de ele dar uma bronca em Shura por sua culpa. Ao ver os dois abraçados, ele próprio foi até a maca e se juntou ao abraço, os bracinhos pequenos envolvendo a cintura de Shura, que era onde ele alcançava naquela posição...

 


Notas Finais


Bom, sobre este capítulo o que posso dizer? Algumas pouca lembranças de um passado doloroso, que ninguém deveria vivenciar no mundo, principalmente o nosso real...

Ouçam as crianças, acreditem nelas, denunciem, é nosso dever moral proteger a infância.


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