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História Poema dos Mortos, Interativa - Capítulo 11


Escrita por: e punishers


Notas do Autor


» Boas vindas a mais um capítulo de Poema dos Mortos, a atualização veio mais rápido dessa vez, porque com inspiração não se brinca e eu só aproveitei e espero que possam aproveitar também.
» Como expliquei no servidor, esse capítulo tem vários POV narrados em terceira pessoa, para que vocês se conectassem as emoções do personagem e vissem o mundo e os acontecimentos da forma que ele vê.
» É isso, boa leitura.

Capítulo 11 - Facing the void


SATAN: A MENINA QUEBRADA

Mesmo tendo conseguido fugir de Alvorada, todos os dias Satan sentia que não tinha se livrado da cidade e que, em algum momento, acordaria presa na mesa de testes do laboratório Allure. Ela ainda se recorda da dor, Héracles uma vez falou sobre dores fantasma, que pessoas que perderam membros costumam sentir o local doer ou coçar, era algo assim, nada estava acontecendo, mas quando se lembrava do rosto da neurocientista ou do som de seus dedos deslizando sobre uma tela azulada cheia de números e palavras que a visão grogue a impedia de identificar com clareza, Satan sentia o corpo doer. Pensava que nunca se livraria disso, mesmo quando acordava após um marasmo e Phillipa, que dormia no quarto ao lado, a abraçava e cantava baixinho algo que ela nunca ouviu antes, mas que a acalmava como se fosse um bebê. Entretanto ali, segurando a barra de ferro pingando um vertiginoso sangue vermelho, após vê-la cair com a pele rasgada em um corte horizontal, finalmente entendeu que Christy tem poder dentro de um laboratório, mas que ainda é feita de pele e um compilado de células e pode morrer tanto quanto os outros. 

Mas ela não queria que Christy estivesse morta, não ainda.

Deixou a barra de ferro cair no chão sobre a terra dura e avermelhada, aquilo não era um troféu, como os que costumava reunir, tinham conseguido se livrar dos punishers, mas inúmeros rebeldes estavam mortos e o fogo sobre a floresta já alcançava pelo menos meio metro acima da copa das árvores; Satan teve a desconfortável sensação de que ainda veria as chamas vermelho alaranjadas por horas, matando as árvores, os animais e qualquer um que não fugisse a tempo.

Não havia vitória, apenas adiaram o inevitável.

Ouviu gritos ao norte de sua posição e correu na direção deles, o uniforme ajudava nisso, a deixava mais rápida e com os passos mais leves. Era como pisar em nuvens, mal sentia o contato com o chão.

Héracles tinha conseguido montar uma base hospitalar há quase dois quilômetros da floresta, imaginou que era o máximo que tinha conseguido e que, mesmo assim, ainda poderiam ser intoxicados pela fumaça. Não era seguro que continuassem ali por muito tempo. Havia muitos feridos, mais do que a ex-punisher conseguia contar de uma vez e o número de médicos parecia limitado. Satan sabia que Santiago estava fazendo o culminante, indo de ferido em ferido, aferindo pressão, limpando queimaduras, fechando pontos e outras coisas que não consegue nomear. É soldado e não médica por um motivo lógico.

— Ei garota — Samantha havia se aproximado sem que ela notasse, tinha as mãos enfaixadas, mas mesmo as faixas já estavam sujas e úmidas com sangue e os braços, pescoço e rosto estavam quase totalmente pretos de fuligem. Se ela estivesse usando o uniforme não teria nenhum arranhão, Satan quase se sentiu culpada. — Se saiu bem, estou orgulhosa! — E sorriu.

Quantas vezes Satan tinha visto Samantha sorrir? Ela não sabe, talvez nunca.

Não sabia se já era seguro desativar o uniforme, mas a carga de luta não duraria para sempre e não viu nenhum blindado após o último que saiu voando com o corpo ferido (talvez morto) de Christy e... Theodora. Ela queria ter conseguido salvá-la, mas já tinha tido sorte de os soldados no blindado demorarem a reagir, se tentasse subir e puxar o corpo dela terminariam as duas presas.

Os ombros caíram, como se de repente a armadura começasse a pesar.

— Eles levaram a Theodora, não consegui impedir — Falou ao desativar o capacete, não queria ter uma voz metálica. O cheiro de fumaça permutado com sangue a enjoou, mas manteve o que fazia e, em poucos segundos, o uniforme voltou a ser um bracelete em seu pulso direito.

Samantha contraiu os ombros, Satan não soube dizer se estava sentindo o mesmo peso sobre os ossos ou se era alguma dor, mas não fez nada, soldados são instruídos a deixarem que seus colegas padeçam sozinhos, é uma questão de honra. Pensar nisso a fez sentir aquela mesma dor fantasma.

— Venha — Samantha pediu. — Eles precisam de muita ajuda.

Não tinha sido um eufemismo, de perto parecia haver mais feridos do que vira antes. Levi, que estava com a pele tão suja quanto a de Samantha segurava o rosto de um soldado para fazê-lo beber água sem engasgar, aquele provavelmente seria o último gole do homem, o ferimento acima do quadril fluía sangue e a pele, mesmo avermelhada e queimada em algumas partes, estava perdendo a cor. Mais a frente havia duas mulheres, a maior, que tinha uma águia tatuada na nuca, grossos músculos e olhos castanho-esverdeados tentava acalmar a outra enquanto um rapaz tratava a queimadura em suas costas, uma grande massa retangular de pele (ou falta dela) carbonizada que subia do cóccix até metade do tronco traseiro, com bolhas vermelhas e enrugadas e extremidades escuras que expeliam um líquido acinzentado e viscoso. Satan não quis continuar encarando. Mais vinte ou trinta pessoas estavam em situação análoga.

Por um segundo de distração pensou que, se estivesse no comando daquela incursão, teria a mesma ideia, queimar a floresta era genial, mesmo que isso custasse à vida de alguns aliados. “Soldados padecem sozinhos Aretha”. Mesmo indiretamente, Alvorada tinha ganhado. Ninguém sofre quando um punisher morre, ninguém se preocupa, ninguém se pergunta se ele sentiu dor. Punishers são números que aumentam ou diminuem a cada batalha.

— Já disse que estou bem, porra — Evangeline também tinha desativado o uniforme e ostentava o mesmo bracelete no pulso, as roupas se mantinham intactas bem como todo o corpo, com exceção a um pequeno corte na testa, o sangue tinha escorrido na lateral esquerda do rosto e secado na altura da boca. — A gente devia tirar eles de perto dessa merda de floresta, vão inalar a porcaria da fumaça e morrer mesmo que tratemos os ferimentos.

— Eu sei — Héracles parecia ter tido vontade de responder “então tira todo mundo daqui em cima dos ombros, inferno”, mas, ao mesmo tempo, cansado demais para tentar brigar. As mãos estavam sujas com fuligem, sangue e terra e as roupas não se diferenciavam disso. — Ao menos peça que a Phillipa olhe seu machucado, um simples corte pode ser letal tanto quanto uma queimadura ou um tiro.

Então Satan e, aparentemente os outros, perceberam que Phillipa não estava ali. Flexionou os dedos olhando de ferido em ferido buscando encontrar o rosto da médica, pensou se ela não teria ido com o grupo de Lilith para a cidade, então se lembrou de ouvi-la explicar que iria montar uma base hospitalar de emergência em uma caverna, que Evangeline a tinha abraçado como se estivesse implorando que tomasse cuidado e de Vinzenz sorrindo com a mão no ombro da menor. Vinzenz também não estava ali. A constatação pareceu ter sido a mesma para Evangeline, ambas estavam com os dedos ralhando sobre o bracelete e olhando para as chamas que ainda cresciam há quase dois quilômetros.

— Não! — Samantha tinha entendido o que pensavam. — Se a carga de luta acabar o uniforme não vai ser mais impermeável no fogo e vocês estarão presas dentro de um forno que poderá matá-las em menos de cinco minutos. Se eles ainda estiverem lá... — Ela parecia não querer falar. — Não podemos perder mais duas pessoas e dois uniformes.

Evangeline cerrou os punhos, como se estivesse prestes a socar quem estivesse mais perto, mas meio segundo depois as falanges relaxaram. Ela tinha sentimentos por Phillipa, todos sabiam disso, mas ainda era uma soldada e sabia reconhecer a perda, era isso que tinha dito uma vez, em uma reunião quando falou sobre como a resistência estava afetada. Satan a admirava pelo autocontrole.

O silêncio quase durou trinta segundos, mas foi cortado pelo grito lamuriento de outro ferido, o osso do antebraço esquerdo saltava para fora e ele tinha tantas queimadura de primeiro grau no rosto junto com terra e fuligem que mal conseguia permanecer com os olhos abertos. As roupas fumegavam, como se estivesse entrando em combustão espontânea, o que por meio segundo pareceu engraçado, Satan tinha lido um livro com um garoto que conseguia gerar fogo a partir de qualquer parte do corpo e sempre terminava com as roupas chamuscadas.

Inacreditavelmente, aquele pedaço de carvão raivoso com um osso atravessando a pele, era Cassian.

— É pra isso que pedi ajuda — Samantha explicou de forma acanhada, como se estivesse começando a ficar envergonhada, outra novidade para Satan. — Cassian quase deu a vida no incêndio para que todo mundo, ou a maioria, conseguisse escapar em segurança, mas uma árvore começou a cair, eu o empurrei e consegui salvar quase tudo, menos o braço, os médicos precisam colocar o osso de volta no lugar, mas ele está meio... Irritado.

Não foi difícil juntar as peças, Samantha queria que ela, usando os braços metálicos do traje, segurasse Cassian para que o médico conseguisse devolver o osso para dentro da pele. Satan sorriu confirmando que poderia fazer isso, arrastou os dedos pela tela do bracelete o configurando para ativar somente a armadura das mãos e caminhou até o aloirado. Cass pareceu disposto a lutar, como se o braço mole fosse, milagrosamente, obedecê-lo, mas somente rolou os olhos e permitiu que a menina o segurasse.

O médico começava a dar pontos na pele rasgada de Cassian quando Satan ouviu um dos soldados informar que algo se estava se aproximando. Vários homens se moveram com armas e Samantha a olhou como se dissesse “vai lá com sua roupa fodona, eu cuido desse aqui”.

O fez, mas antes que conseguisse configurar o modelo de batalha descobriu que não seria necessário.

— É a hiena da Theodora — Evangeline gritou enquanto sustentava o binóculo na frente dos olhos. — Está trazendo alguém, não atirem, é um dos nossos.

— Como pode saber que é um dos nossos? — Satan protestou.

— Theodora me disse um milhão de vezes que aquele animal não confia em ninguém além dela e do caolho fedido, talvez seja ele, talvez tenha encontrado alguém dentro da floresta — Satan não pôde deixar de observar que havia esperança no tom de voz de Evangeline.

Satan não gostava de Shadow, a hiena sempre a encarava como se estivesse medindo seu tamanho e se questionando se conseguiria engoli-la. Com o tempo, após o incidente no qual acreditou ter assassinado Lilith, Theodora tentou se aproximar e o animal estava junto, como se não gostasse da ideia de deixar a dona sozinha, especialmente com a louca atiradora que tentou matá-la. A loira se tornou uma boa ouvinte, mas o cachorro peludo de dois metros? Não, ela continuava com a sensação de que se tornaria jantar se abaixasse a guarda.

Inimigos são como animais, eles a respeitam de frente, mas atacarão se der as costas, Leory disse uma vez, era uma das poucas coisas certas que se lembra de ouvi-lo falar.

Contudo, quando Shadow entrou na base improvisada, com as patas trêmulas, pelo chamuscado e o olhar perdido, Satan entendeu algo doloroso: ela tinha perdido Theodora, estava sozinha e se machucou para conseguir salvar dois soldados. Assim como ela, Shadow não tinha ninguém e causava medo em todos.

— Vinzenz... — Héracles surgiu rápido ao ver o amigo descer do animal, cambaleando e tossindo, como se o pulmão estivesse cheio de fumaça. Satan tentou não pensar em como a sensação poderia ser desconfortável, embora a fumaça que vinha do incêndio já começasse a fazer seus olhos arder.

— O outro aqui tá vivo — Eva avisou, era Rowan, meio desmaiado, embora se mexesse. — Onde... — Ela olhou para o dorso de hiena. — Cadê a Phillipa?

 

VINZENZ: O CARA DAS MÁQUINAS.

Se Vinzenz fosse capaz de voltar no passado, nunca escolheria ficar dentro uma caverna em meio da batalha.

Todos na resistência tinham conseguido deixar o bunker em segurança. Lilith e Damian levaram os doentes e mais velhos para uma das cidades abandonadas, foram em um grupo pequeno, para que o ataque na floresta contasse com o maior número de soldados e a ameaça pudesse ser rechaçada com mais ferocidade. Phillipa decidiu ficar e estabelecer uma base médica de emergência, algo sobre ser mais necessária onde fosse capaz de salvar soldados gravemente feridos. Héracles seria o médico de campo e também lutaria. Theodora pediu para ficar de guarda na caverna, por medo de se esquecer do que estava fazendo e recuar no meio de uma luta; a presença dela deixou Vinzenz nervoso, as mãos suaram instantaneamente. 

A caverna em que ficariam era escura, mas Phillipa quebrou entre os dedos algo que inicialmente se parecia com um tubo cilíndrico de plástico e uma luz amarela iluminou algumas partes das paredes de pedra escura, mas ainda era difícil ver tudo.

Theodora os ajudou a montar a base improvisada, ele a achava graciosa, sobretudo por tentar entender o que Phillipa falava e não deixá-la conversando sozinha como a maioria costuma fazer e por não excluí-lo da conversa, mesmo que ainda arranhasse na linguagem de sinais, eventualmente dobrando os dedos de forma errada ou confundindo as letras. Ela tinha problema na memória, como um pen drive incapaz de guardar mais do que o armazenamento fixo, e mesmo assim se esforçava para tentar ser amiga de ambos.

Rowan entrou ali algumas vezes para averiguar se estavam bem, a hiena o cheirava e parecia ultimar que não era o inimigo, mas Theodora o olhava e sorria com a pele abaixo dos olhos enrubescida. Vinzenz sabia que ela gostava do ex-soldado da resistência, ser surdo o obrigou a entender sinais corporais comuns de comunicação que usualmente são ignorados pelos demais.

A constatação deixou parte de si desconfortável enquanto a outra se sentia mal por isso.

Tudo deu errado trinta minutos mais tarde. Phillipa o informou que os tiros haviam começado e Theodora caminhou para o lado de fora, junto com Shadow. Estar no silêncio absoluto enquanto lia a feição da médica o deixava em pânico, porque nada parecia estar bem. Phillipa tropeçou em alguns sinais tentando deixa-lo informado e Theo voltou para dentro da caverna, falou algo para a médica e depois pediu que ele estivesse preparado para qualquer coisa. No segundo seguinte a loira correu para fora da caverna e Pippa disse algo que primeiramente se pareceu com “tem lalguém uli”, ela tinha, novamente, errado os sinais, mas rapidamente corrigiu para “se entrar alguém aqui, bata na cabeça com força”.

Foi muito rápido. Uma soldada entrou na caverna, mas Phillipa tinha feito com que tudo ficasse escuro novamente e a penumbra os encobriu, quando ela deu as costas Vinzenz usou o máximo de sua força e a atingiu na cabeça com um pedaço de madeira, mas foi como acertar um João Bobo, porque três segundos depois a mulher se virou e o agrediu com três vezes a força e ele desmaiou. Quando acordou, o ar estava cinza, com cheiro de carvão.

O incêndio se minava rapidamente, lambendo os troncos das árvores e se espalhando pelo chão como uma cobra perseguindo um rato, mas aquela área estava praticamente intocada, era úmida e retardava as chamas, como se estivesse pedindo que Vinzenz se apresasse. Shadow estava de pé, abanando as orelhas e lambendo um ferimento no olho de Rowan, mas Theodora e Phillipa não estavam ali e mesmo à terra úmida já começava a ceder às vontades do fogo. A segurança não duraria.

Vinzenz olhou ao redor, buscando alguma saída entre as árvores, mas nada lhe parecia seguro e, mesmo que conseguisse atravessar o fogo, ainda seria intoxicado pela fumaça se não fosse rápido. A hiena o olhou e moveu a boca, como se tentasse falar, ou talvez estivesse latindo, hienas latem? Teria que pesquisar. Não estava visualmente ferida, mas o pseud. engenheiro quase conseguia entender ela falando que algo aconteceu com Theodora.  

Shadow atravessaria o fogo por mim, ela é muito forte, sabe? Theodora disse uma vez. Então uma luz se acendeu em sua mente. Esperava que Theo tivesse usado palavras literais, não queria ser responsável por matar a hiena. Com dificuldade conseguiu colocar o corpo desmaiado de Rowan sobre o dorso do animal e a escalou em seguida, embora tenha ficado com medo de que o derrubasse e devorasse por ter o atrevimento de montá-la; nada aconteceu, Shadow parecia estar esperando que ele fizesse aquilo e começou a correr um segundo depois.

Quando saíram da floresta ainda conseguia sentir o cheiro de fumaça, o ardor no nariz e os braços levemente queimados doíam, mas estava vivo, Rowan respirava com dificuldade e a hiena continuava correndo velozmente em direção norte.

“Cadê a Phillipa?” Héracles perguntou em linguagem de sinais, os dedos do médico tremiam, mas conseguiu entender.

“Eu não sei, quando acordei, ela não estava mais comigo” Respondeu tentando não parecer nervoso.

“Ok!” Santiago respirou fundo, os olhos fraquejaram, ele parecia estar com tanta dificuldade de respirar quanto. “Vamos ver se você tem ferimentos graves”.

O restante das palavras de Héracles, agora articuladas, foram destinadas a Evangeline, ele apontou para Rowan e Vinzenz deduziu que estivesse pedindo que o mesmo fosse levado para algum lugar, pois essa foi à atitude imediata da mulher.

“Chamei Lilith pelo rádio, ela disse que chegará aqui em dez minutos, vamos embora logo” Héracles explicou enquanto um rapaz limpava as queimaduras nos braços de Vinzenz, os ombros dele se retraíram e o olhar perdeu o foco, se iriam embora então ninguém iria procurar Phillipa e Theodora. “Ela se foi” Santiago respondeu, como se lesse os pensamentos do amigo. “Não consegui dizer que eu adorei aquele globo de neve quebrado, espero que ela saiba”.

Vinzenz comprimiu os lábios. Há dois dias Phillipa tinha presenteado Héracles com um globo de neve do tamanho de uma palma infantil, a base era circular, azul escura esfolada e arranhada, no interior havia duas pombas voando ao redor de um pequeno boneco de neve, o vidro estava trincado na lateral esquerda e um pouco embaçado. Ela sorria como se trouxesse uma nova descoberta na medicina ao entregá-lo, mas Héracles não reagiu, assim como fazia mediante qualquer coisa fora do padrão que acontecia em sua vida.

Ele queria explicar que Phillipa sabia e que estava acostumada a ver reações estranhas, mas escolheu a quietude enquanto encarava um ponto vazio na terra avermelhada, ainda se perguntando onde estariam as duas, mas uma voz em sua cabeça sussurrava melodiosamente que ele já sabia a resposta.

 

EVANGELINE: A IRREGULARIDADE CONSTANTE

Quando Lilith desceu da velha caminhonete com os olhos inchados, Evangeline se lembrou de algo que não pensava com frequência: o dia em que a viu se aproximar do bunker após fugir de Alvorada. Tinha os mesmos olhos sem vida, estava ferida, desidratada e delirava sobre a mãe, querendo vê-la durante todos os dias em que ficou na enfermaria. Não gostava de pensar nela daquela forma, então desviou tais lembranças, já tinham problemas e dores demais para lidar.

Mas Lilith não parecia estar pensando da mesma forma, se aproximou em silêncio, os olhos estavam mais vermelhos do que Evangeline pensava, as mangas do casaco um pouco úmidas e os dedos tremiam na frente do tronco. O silêncio continuou como se estivessem em uma bolha, sem o som do incêndio ou das lamúrias dos feridos. Eva sabia o que tinha acontecido, mesmo que nada estivesse sendo dito.

— Como ela morreu?

— Damian disse que foi afogamento — as palavras saíram como um sussurro. — Mas a encontramos na estrada, muito longe do lago e da floresta, estava com isso na mão — era uma placa circular de titânio com palavras registradas. — Astoria explicou que é um identificador físico dos punishers.

Eva comprimiu os lábios e suspirou profundamente, de nada adiantaria ficar com raiva, embora a sentisse de forma latente. Segurou a placa circular entre os dedos, a analisou como se estivesse examinando o rosto do inimigo em busca de pontos fracos. “Hunter. Comandante” eram essas palavras. Engoliu a bile com força e apertou a placa dentro da palma. Nunca sentiu nada particular por Alvorada, o ódio sempre foi igual, mas agora ela tinha um nome, um rosto, uma marcação, um rastro para seguir e tudo o que Hunter fez Phillipa sofrer, ela a faria sentir em dobro.

Mais tarde, no acampamento dos andarilhos, onde Damian esclareceu que poderiam ficar até constituírem um novo posto de controle, o que era equivalente e dizer “fiquem, mas espero que possam ir embora logo”, uma fogueira foi acesa, os feridos mais preocupantes levados para dentro da construção caindo aos pedaços e os demais ficaram do lado de fora, comendo em silêncio e vigilantes a todos os barulhos que surgiam. Haviam tantas pessoas que Evangeline se perguntou quanto tempo demoraria até a calma se tornar um pandemônio civil. Rebeldes e andarilhos não são conhecidos por ter um bom histórico de convivência, mesmo quando os líderes de cada grupo estão em um relacionamento.

Eva estava sentada em cima de uma parede quebrada, olhando o acampamento de cima, um corredor se estendia em suas costas e, em um dos quartos, Lilith e Astoria terminavam de limpar o corpo de Phillipa para enterrá-la na aurora. A sensação era estranha. Já tinha enterrado e queimado pessoas com quem se importava. Naomi, Joseph (que sequer pôde ter um sepultamento digno), alguns amigos que morreram em batalha e até um pássaro que tentou criar por duas semanas. Não devia se incomodar com a morte quando ela a cercava, mas a ideia de colocar Phillipa dentro da terra, para sempre, a deixava sem ar.

Era aquilo, sem volta, acabou.

— Hey.

Mas, é claro, tudo podia piorar.

— O que você quer Azriel?

— Ahn, eu... — ele pareceu sem jeito, como se começasse a buscar rotas de fuga.

Ele estava com o olho enfaixado, Héracles afirmou que não ficaria cego, mas que teria um belo roxo e dores por vários dias, no outro olho estava à cicatriz feita por Cassian.

— Não venha dizer que lamenta e também não venha se culpar, por mais que eu odeie admitir, não foi sua culpa que uma punisher desgraçada a tenha afogado.

— Claro. Eu não ia falar nenhuma dessas coisas — explicou colocando os cotovelos sobre a amurada. — Sei que não é a mesma situação, mas a Theo desapareceu, ela pode ter morrido na floresta ou qualquer outra coisa, então eu meio que entendo, em partes, o que você tá passando e também estou com muita raiva.

— Eu não estou com raiva — cuspiu as palavras o encarando com pouco-caso, ponderando se vale a pena socá-lo e concluindo que não.

Voltou os olhos para o horizonte, a terra começava a ser iluminada pelos primeiros raios solares, e, no acampamento, o que era uma fogueira, tinha se transformado em cinzas sendo levadas pelo vento e uma linha quase imperceptível de fumaça que começava a esvanecer no ar. Muitos dormiam espalhados pelo chão, tomados pelo cansaço de tudo o que acontecera a poucas horas, outros patrulhavam a área com armas nas mãos. Evangeline devia patrulhar com eles, mas a mente estava dispersa, como se dormisse com os olhos abertos. Quando voltou os olhos para o corredor, viu Shadow se aproximar, a pata dianteira esquerda pendendo na ar e um olhar triste que quase fazia Eva se sentir culpada por qualquer coisa que tenha acontecido com Theodora.

Ela conhecia aquele sentimento de impotência, de estar seguro, enquanto outros estão mortos.

— Sim Azriel eu estou com muita raiva — admitiu, sem tirar os olhos de Shadow. — Mas não é de Alvorada ou da Hunter... — falou o nome com desgosto e teve a sensação de que a placa circular começava a esquentar em seu bolso. — Eu sinto raiva de mim.

 

HUNTER: A COMANDANTE DE GUERRA.

Não era a primeira vez que Hunter afogava uma pessoa, Em seu primeiro mês na academia de treinamento, ou ao menos o que ela acredita ter sido, um rapaz possivelmente cinco anos mais velho decidiu que a acompanharia na aula de mergulho. O capitão parecia não se importar com que o cadetes estavam fazendo, porque, pelo canto do olho ela conseguia ver Matteo Turner empinar a bunda para que James Ryder conseguisse penetrá-lo. Ver cenas de sexo na academia tinha se tornado tão comum que não a deixava mais com a pele rubra, às vezes até parava para assistir, com os braços cruzados e as sobrancelhas arqueadas, quase dizendo “É isso? Vai precisar melhorar”. Mas naquele dia em questão estava de mau humor, o ouvido zunia e havia um TUM-TUM-TUM enjoativo no fundo do cérebro que a deixava tonta. Quando o rapaz inseriu a mão em sua roupa e apalpou o seio foi como se uma bomba de adrenalina estourasse em seu sistema nervoso; o socou no nariz e o sangue espirrou na água, ele tentou nadar para a borda com uma braço só, porque a mão do outro tentava conter o sangramento, porém Hunter o segurou pelos fios ruivos e o afundou, a água cristalina tornou-se mais escura pelo sangue fluindo ali e o garoto se debatia tentando fazê-la parar. Ninguém a impediu. 

Então por que se sentia tão suja após fazer o mesmo com Phillipa?

Tinha tirado o corpo da água, o carregado por vários quilômetros, sempre andando perto da margam para o caso de o fogo ultrapassar os limites da floresta, até estar longe do fogo e do lago. Pensou inúmeras vezes que seria seu fim, cercada por fumaça de uma floresta incendiada, com uma mulher morta nos braços, uma bala no ombro e outra na coxa, dor que sequer a incomodava, depois de todas as experiências biológicas de Camille Chastain, duas balas alojadas doíam tanto quanto a picada de um mosquito, mas ainda podia morrer.

Phillipa, a voz amedrontada repercutiu em sua cabeça, como um eco. Hunter quis chorar.

Phillipa era inocente, concluiu isso rápido. Não tinha armas, possivelmente nunca matou um ser vivo e correu porque estava com medo. A respiração de Hunter parou por alguns segundos quando entendeu que a causou ainda mais medo nos últimos minutos de vida, os arranhões em seu braço a lembravam do quanto à mulher queria viver. O estômago embrulhou e quase caiu, a dor da bala na coxa finalmente aparecendo. Foi quando um blindado pairou há quinze metros da sua cabeça, não poderiam descer mais do que aquilo, então uma corda foi jogada para baixo. Hunter olhou para o rosto de Phillipa, os lábios ligeiramente roxos, a pele macilenta e gelada, os cabelos molhados caindo por trás dos ombros; a apertou levemente contra o peito e a deixou sobre a terra.

— Aqui os seus amigos vão te achar — Explicou segurando entre os dedos a placa circular de titânio com seu nome e patente. Ouviu um grito de cima dizer “Hunter, dez segundos”. — Espero que me perdoe, mas espero que seus amigos não o façam e me matem.

Subir na corda não foi complicado, especialmente porque só precisava se segurar enquanto era puxada para cima, mas estar dentro do confortável blindado enquanto os médicos de prontidão cuidavam de seus ferimentos e os outros soldados entregavam relatórios da missão, essa foi à parte difícil, porque queria que todos eles ficassem em silêncio, de preferência para sempre. Por sorte, o efeito dos anestésicos a fez ficar cansada e dormiu.

Infelizmente, os sonhos não estavam dispostos a deixá-la tão em paz.

Viu-se correndo no escuro, o peito doía com a fadiga, os tornozelos pulsavam e algo molhado escorria na lateral do rosto, ela não queria fosse sangue, mas uma voz no fundo da mente informava que desmaiaria por causa do machucado que na mesma hora começou a doer. Por algum motivo acreditava não ter mais do que oito anos, sozinha, no escuro e fugindo de algo que estava a poucos passos de distância.

A sensação de desesperança era inexplicavelmente acolhida, como se o sonho fosse uma lembrança ambígua, sem cor e som, mas a acalmasse com a certeza de que não iria morrer ali ao mesmo tempo em que sabia que algo muito ruim aconteceria, ainda que desse o melhor de si naquela corrida.

Acordou dentro do apartamento, em Alvorada, o sistema de inteligência automaticamente foi ativado e as janelas se abriram deixando o sol entrar. O dia tinha amanhecido ou vários dias tinham se passado, no momento seguinte a voz robótica respondeu “Você dormiu por 9 horas, 32 minutos e 10 segundos”.

— Ok, obrigada Ayla — a fala estava pesada, como se tivesse corrido uma maratona enquanto dormia.  

Os dedos foram até nuca ao se sentar, massageou a região e olhou ao redor, o apartamento tão silencioso quanto sempre e, se estava ali, viva e com curativos, então o conselho ponderou o resultado ataque como uma vitória e não a sentenciaram ou só a estavam dando alguns presentes antes de matá-la. Não mesmo Leory, o meu último desejo não são anestésicos e nove horas de sono, você me deve muito mais. Ela quase rosnou as palavras, mas escolheu somente pensar.

Então percebeu que vestia um short preto de malha que alcança a metade das coxas e um top de mesma cor e tecido; vestimenta padrão da academia punisher. Puxou uma camiseta caída no chão e a vestiu, não tinha um cheiro ruim. Saiu do quarto e desceu as escadas espirais que dão acesso ao primeiro andar e lá o silêncio era o mesmo, com os raios solares penetrando pelas paredes de vidro e a cidade se desdobrando em todas as direções. De onde estava Hunter podia ver a Mansão Chastain, há dez quilômetros, erguida em uma colina, com uma cacheira escorrendo pelas pedras negras sob a base da residência. Em algum lugar entre aquelas pedras estava à entrada do laboratório privado de Camille, uma caverna gelada e sem vida.

Hunter não tinha certeza de como sabia disso.

— Há uma reunião com Everleigh Fritzl marcada para as 13 horas e 30 minutos, devo chamar o carro? — A voz robótica de Ayla questionou, trazendo Hunter de volta a realidade.

— Onde vai acontecer a reunião?

— Na sede principal do Laboratório Fritzl.

— Certo, esquente a água para o meu banho, arrume uma roupa que não aperte meus machucados e chame o carro em seguida.

Uma reunião com Everleigh após a batalha a qual Christy tinha participado só podia significar que a neurocientista estava morta, isso quase entristeceu Hunter, ela queria ter tido o prazer de dar cabo à vida da mulher com as próprias mãos.

Mas sua percepção sobre isso foi deixada de lado ao entrar na sala privada escolhida para o encontro.

Everleigh estava de costas, trabalhando em um tipo de algoritmo sobre a tela azulada, para Hunter aquilo se parecia com uma teia de aranha e Ever tentava ligar os pontos desconectados. Parecia cansada, os ombros caídos e havia muitos copos de café sobre uma das mesas, talvez, durante as nove horas em que dormia, ela estivesse trabalhando. O pensamento estranhamente a incomodou.

— Você se esqueceu de conectar aqueles dois ali embaixo — Hunter disse após notar as duas linhas brancas soltas na altura do cotovelo de Everleigh.

— Não esqueci — A voz arrastada quase dizia “preciso dormir”, mas manteve a pose, sem se virar, ainda conectando outros pontos e fazendo anotações em uma tela a parte. — Aquele dois pontos se romperam de uma forma que eu não consigo mais ligar, como se estivesse tentando montar um quebra cabeça com a peça rasgada ao meio, não vai ficar inteiro.

Nada daquelas palavras fazia sentido na cabeça de Hunter, ela era inteligente, mas não podia se dar ao esplendor de nivelar o seu Q.I. com o da mais nova.

— Tá, com certeza é isso, um rompimento irremediável — Hunter deu de ombros. — Por que me chamou aqui? Quer ajuda com o seu... Joguinho de crie sua própria teia de aranha online?

A porta nas costas de Hunter foi aberta, o som era como o de um refrigerador frigorífico, fez os ossos de a soldada estalarem nas juntas. Um rapaz de provavelmente vinte e poucos anos entrou com outro dos mesmos copos de café, esse dizia “extraforte” na descrição, mas o que chamou a atenção de Hunter foi como ele parecia descorado, fora de órbita, sem foco, como se fosse um boneco comandando por um controle remoto. De forma assustadora ele a fazia se lembrar do rosto de Phillipa.

Everleigh não demonstrou estar incomodada, como se fosse comum que seu assistente tivesse aquele aspecto zumbi no rosto e movimentos.

— Deixe onde eu possa alcançar Liam — ela pediu sem ânimo.

— Liam? A sua tia não matou esse garoto por traição? Era o assistente dela.

As palavras aparentemente chamaram a atenção de Everleigh, como se tivessem mais autoridade que a teia de aranha. A cientista estalou os dedos na altura do rosto e Liam parou de se mover; suspirou cansada, como se odiasse fazer aquilo, deixou a tela de trabalho em modo de descanso e, enfim, olhou para Hunter. As olheiras estavam ainda piores que a voz cansada e ombros caídos.

— Isso é o que a minha tia faz. Ela matou o Liam, foi... sangrento, mas ali está ele, corpo morto, mas cérebro vivo, atendendo a comandos muito bem calculados. Eu sou a voz da consciência dele. Mente bicameral. Certamente ela não tomou cuidado de fazer com que ele pareça uma pessoa viva, mas se visse o primeiro trabalho como esse, nunca acreditaria que aquela pessoa está morta.

O estômago de Hunter empacotou, de todas as coisas sangrentas e cruéis que fez na vida, aquilo a deixava mais angustiada, como se uma vozinha começasse a falar no fundo da sua mente “e aí, tem certeza que está viva?”, como poderia saber que não era a irmã zumbi de Liam? Ele sequer parecia ter consciência do próprio nome.

— Você está bem viva, caçadora — Everleigh a acalmou. — Devia ter visto seu rosto. Bom... É minha tia quem quase morreu — Respondeu mudando de assunto.

Hunter piscou algumas vezes, atordoada. Por que Everleigh não podia falar coisas que tivessem sentido?

Everleigh segurou um tablet preto contra o tronco, deslizou agilmente os dedos sobre a tela e uma das paredes se abriu, mostrando outra sala, ainda maior, com vários berços horizontais construídos com paredes azul translúcidas, armações de ferro branco onde estava gravado a Fênix, símbolo do laboratório e apoio para tablet na lateral. Haviam dois no corredor, e outros, menores, como cápsulas, acopladas nas extremidades.

Christy estava em um dos berços maiores, elevada com cabos ligados especialmente nas costas, nua do quadril para cima, um respirador quase cobria o rosto inteiro e boiava pelo menos quarenta centímetros acima do chão, sem se mover. Parecia tão morta quando o zumbi Liam. Contudo o tablet ao lado do berço mostrava seus batimentos cardíacos, ondas cerebrais, temperatura corporal e uma versão em miniatura da teia de aranha que Everleigh tentava montar, então, em termos técnicos, estava viva.

— Quase arrancaram a espinha dela com uma barra de ferro, impedi que fique tetraplégica, mas ainda vai usar uma cadeira de rodas.

— Fico triste com uma notícia dessa... Quer dizer — engasgou — é melhor que morrer, mas não acho que isso vá melhorar o humor dela.

— Não, não vai — Everleigh rolou os olhos e estalou os dedos mais uma vez, Liam veio caminhando da outra sala e começou a digitar algumas coisas no tablet acoplado ao berço. — Mas ela saiu de Alvorada para uma batalha, voltou viva e trouxe uma mulher, eu não sabia o que fazer então a deixei presa no subsolo da mansão. Hoje, quando acontecer à reunião no conselho, eu quero que diga que a minha tia fez toda a diferença na batalha e que merece ter a prisão domiciliar revogada. Ela vai estar acordada até lá e se fizer isso você será recompensada de uma forma que somente os Allure podem fazer nessa cidade. O que me diz, temos um acordo?

 

NATALIE: A RAINHA BRANCA.

De acordo com os cálculos de Natalie, aquela tinha sido uma noite perfeita, especialmente agora que acordava sentindo a respiração de Amabella em seu pescoço e os braços envolvendo sua cintura. Foi difícil abrir os olhos quando tudo o que queria era somente ficar ali, relaxar os músculos e aproveitar o momento. Qual lei de Alvorada poderia obriga-la a não faz isso? Mas a inteligência artificial da casa já estava dando o terceiro aviso sobre a reunião na Sala de Vidro e mesmo que não tenha a obrigação de participar de todas, aquela em especial, após a batalha, poderia decidir o futuro da cidade e se ausentar a deixaria em uma sinuca de bico. Teve que se levantar e isso, para sua infelicidade, despertou Bella. 

A loira sorriu em meio a um bocejo languido, os olhos azuis ficavam intensamente atrativos quando tocados pela fulgência solar. Natalie sorriu de volta, se controlando para não pedir que a acompanhasse no banheiro, isso apenas a atrasaria. Amabella pareceu entender e se levantou, beijou rapidamente sua nuca e saiu do quarto, a deixando parada sobre um entrelaçado de lençóis brancos jogados no chão e uma feição que quase dizia “eu preciso me casar com ela”. Sentiu-se estupidamente gay por pensar assim.

Olhou de relance para o relógio, eram cinco da tarde, o que significava que tinham dormido durante todo o dia.

Ficou quase uma hora e meio na banheira e concluiu que havia sido inútil não pedir que Amabella a acompanhasse, já que demoraria de qualquer forma. Quando retornou ao quarto não havia qualquer sinal da bagunça que fizeram de madrugada e o computador já tinha escolhido sua roupa de acordo com as especificações que deu enquanto ainda estava na água: uma blusa de malha bege, trançada em seu pescoço e frente única, a calça e os acessórios complementavam o look monocromático, usando sem pudor o marrom mais claro na parte de baixo e as joias douradas nos pulsos e nas orelhas para dar um ar mais sofisticado à vestimenta.

Quando encontrou Amabella no primeiro andar as pernas fraquejaram (ela precisava aprender a se portar como uma mulher adulta na frente da namorada, ou começaria a passar vergonha). A loira usava uma blazer rosa salmão com um decote mostrando a extremidade do seio e calça da mesma cor enquanto os cachos loiros estavam presos em um rabo de cavalo. Perfeita.

Infelizmente estavam a caminho da Sala de Vidro.

O clima no lugar estava doentio, como se fosse um enterro, Natalie quase conseguia sentir o cheiro de chá e lágrimas. Anapaola estava sentada ao lado de Clement, ambos conversavam em tom baixo, como se estivessem fazendo julgamentos amargos sobre todos. Não era impossível, Parriot e Chastain tinham a personalidade de duas velhas amarguradas, não era surpresa que fossem aliados. Leory estava em silêncio, na ponta da mesa, arrastando os dedos sobre um tablet, ignorando todos. O único ponto de luz era Hazel, os olhos castanhos da menina brilharam ao vê-las, mas, antes de se levantar, olhou para o sogro, como se esperasse um tipo de autorização. Clement meneou a cabeça em anuência e só então a menina se levantou e as abraçou.

— O que aconteceu meu raio de sol? Está pálida — o tom de Amabella tinha evidente preocupação.

— Apenas não dormi bem — respondeu quase tropeçando nas palavras, os olhos indecisos, como se quisesse olhar para trás e confirmar se a resposta tinha agradado Clement.

Natalie conhecia muito bem o medo para saber que Hazel tinha tido bem mais do que uma noite mal dormida, quis afastar a menina e socar o rosto de Clement até que ele desmaiasse, porém fingiu concordar, para não piorar as coisas para ela. Juntas, se sentaram do outro lado da mesa. Teriam que esperar pela chegada de Everleigh para começar a reunião.

— Fiquei sabendo que perdemos muitos homens — Clement falou, de repente.

— Como se você se importasse com alguma cabeça além da sua — Amabella rebateu amargamente.

Natalie quis rir, mas se manteve focada no pássaro que Hazel desenhava em sua palma direita.

— Certamente não me importo — o conselheiro manteve a voz e o sorriso. — Mas significa que nosso exército está obstruído, espero que Christy não tenha morrido também, ela nos prometeu que criaria um batalhão imbatível.

— Espero que alguém a tenha empalado — Natalie soltou, quase sem querer, mas ainda queria rir, viu que Anapaola colocava os dedos sobre os lábios, também se controlando. — Não concorde comigo Parriot, faz eu me sentir uma pessoa com dois neurônios.

— Você com certeza não precisa de mim pra isso, Donovan.

— Não faz isso — Hazel sussurrou a olhando de forma assustada, com a mão circulando seu pulso para impedi-la de voar em cima da cientista.

— Vocês são insuportáveis — Leory pronunciou, baixando o tablet sobre as pernas. — Nós ganhamos uma batalha, queimamos vários rebeldes nojentos e estão ai brigando por soldados e neurônios. A estúpida da minha prole parece ser a única inteligente nessa sala.

— Ora, por favor, tenha mais consideração por mim — a voz de Christy fez um fio de gelo subir sobre a espinha de Natalie, era o mesmo tom calmo e sarcástico, como se estivesse esperando que todos ao redor se matassem, mas algo a deixou nervosa, como se a cientista estivesse apontando uma arma para sua nuca.

Parecia que todas as vezes que Natalie olhava, o squad de Christy estava maior, primeiro era somente a sobrinha, uma introvertida e extremamente inteligente cientista molecular, depois vieram Hunter e Anthony, mistura essa que era definitivamente inesperada, porque imaginava que ambos odiassem a Allure tanto quanto todos os outros, agora havia uma loira de fulminantes olhos azuis. Nat forçou a memória, mas não conseguia pensar em qualquer momento que a tivesse visto na cidade e, ela nunca se sente confortável defronte novidades inesperadas. Ao menos Christy estava pela metade, sentada em uma cadeira de rodas, com o rosto pálido, olhos fundos e postura cansada.

— Perdeu alguma coisa aqui Natalie? — Anthony indagou com tom debochado, o sorriso presunçoso e um ar de superioridade que deixou Natalie mais irritada. Caminhou até uma das cadeiras vazias, ao se sentar digitou um código na mesa e um copo de uísque foi colocado sobre a superfície.

— Essa sala de reuniões está se tornando cada vez mais frequentada — Anapaola reclamou. — Pensei que fosse restrita, mas sempre tem alguém novo, por que não abrimos como um centro de passeio do nível um de uma vez por todas? Seria mais simples.

— Disse à mulher que trouxe o Anthony aqui primeiro — Everleigh rolou os olhos.

— Não briguem — Christy pediu. — Theodora querida, sente-se, eu consigo controlar minha cadeira.

Natalie engasgou uma risada, ainda estava pensando em alguma piada sobre pessoas aleijadas para fazer.

— Não se preocupe Pariot... — Theodora falou o sobrenome com o mesmo tremor na língua que Christy sempre tem. — Estou representando meu irmão, Soren Allure, ele morreu como devem saber — explicou enquanto puxava a cadeira ao lado da Anthony e se sentava. — Vou tomar o lugar dele já que o conselho está desfalcado — e sorriu.

Mas Natalie sabia que algo estava muito incoerente, como uma peça montada no quebra-cabeça errado. Theodora não tinha emoção na fala ou na feição e os olhos não focavam em nada específico, como se estivessem encarando o vazio. A única coisa que parecia prendê-la a imagem de uma pessoa real era aquele sorriso estampando o rosto de traços delicados.



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